Educação Inclusiva Profª Lilian Suzuki 1* *Lílian Suzuki é especialista em Psicanálise pela USP, especialista em Psicologia Organizacional/Trabalho e Psicologia Escolar/Educacional pelo CRP. Psicóloga escolar e psicoterapeuta. Professora especialista convidada no curso de especialização “Teorias, Técnicas e Estratégias Especiais” do Departamento de Psicologia Clínica – IPUSP. Docente e supervisora de estágio na área da Psicologia da Universidade São Marcos e docente das Faculdades Oswaldo Cruz. Participa do grupo de trabalho Sujeito, Corpo, Sintoma e Instituição e do SuCor – Laboratório Sujeito Corpo da Clínica Durval Marcondes, do IPUSP. Elaborou o glossário do livro de Sara Pain: “Subjetividade e Objetividade: relações entre desejo e conhecimento”. SP: Vozes, 2009. Sumário APRESENTAÇÃO 7 INTRODUÇÃO 9 Unidade I EDUCAÇÃO INCLUSIVA 11 1.1. CONCEITO E DEFINIÇÃO 12 1.2. EDUCAÇÃO INCLUSIVA e Educação Especial 14 1.3. DA INTEGRAÇÃO ESCOLAR (EDUCAÇÃO ESPECIAL) À INCLUSÃO ESCOLAR (EDUCAÇÃO INCLUSIVA) 18 1.4. BARREIRAS AO ENSINO INCLUSIVO 20 1.5. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE I 24 U n i d a d e II SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO 27 2.1. PROCESSO HISTÓRICO DO SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO NO BRASIL 28 2.2. PARADIGMA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO, DE SERVIÇOS E DE SUPORTE 30 2.3. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE II 37 U n i d a d e III A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR 43 3.1. OS TERMOS E OS VALORES VIGENTES NAS ÉPOCAS 44 3.2. OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DO TERMO “PESSOAS COM DEFICIÊNCIA” 48 3.3. A DEFICIÊNCIA E A EFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR 49 3.4. COMPREENDENDO ALGUMAS DEFICIÊNCIAS 51 3 Sumário 3 3.4.1. DEFICIÊNCIA FÍSICA 54 4.2.5. SOBRE O PREPARO ANTERIOR DO ALUNO PARA O INGRESSO NA ESCOLA 3.4.2. DEFICIÊNCIA VISUAL 55 COMUM 3.4.3. DEFICIÊNCIA AUDITIVA 56 4.2.6. SOBRE O PREPARO DOS PROFESSORES COMO CONDIÇÃO PARA O INÍCIO 3.4.4. DEFICIÊNCIA INTELECTUAL 56 DO PROCESSO DE MATRÍCULA DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA NA ESCOLA 3.4.5. DEFICIÊNCIA MULTIPLA 57 4.2.7. SOBRE A QUESTÃO DO NÚMERO MENOR DE ALUNOS NAS SALAS DE AULA 3.4.6. DEFICIÊNCIA AUDITIVA E VISUAL 57 COMO DETERMINANTE DE BONS RESULTADOS ESCOLARES 58 4.2.8. 3.5. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE III Unidade IV OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 4.1. DOCUMENTOS OFICIAIS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 63 64 4.1.1. DECLARAÇÃO DIREITOS HUMANOS 67 4.1.2. CONSTITUIÇÃO 88 – LDBEN 9394/96 68 81 82 83 SOBRE A INDIVIDUALIZAÇÃO DO TRABALHO ACADÊMICO PARA ALUNOS COM DEFICIÊNCIA 83 4.2.9. 84 SOBRE O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO 4.2.10. SOBRE A ATITUDE DAS FAMÍLIAS COM FILHOS SEM DEFICIÊNCIA EM 86 RELAÇÃO À CONVIVÊNCIA DE SEUS FILHOS 4.3. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE IV 87 REFERÊNCIAS 91 4.1.3. DECLARAÇÃO DE SALAMANCA - Sobre Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais 70 4.1.4. DIRETRIZES PARA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA EDUCAÇÃO BÁSICA 71 4.1.5. POLÍTICA NACIONAL DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA 72 4.1.6. CONAE 72 4.1.7. CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA 73 4.2. MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 4.2.1. SOBRE A NECESSIDADE DO DIAGNÓSTICO CLÍNICO 79 79 4.2.2. SOBRE OS BENEFÍCIOS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA VISTOS COMO CONVIVÊNCIA E SOCIALIZAÇÃO 79 4.2.3. SOBRE A NECESSIDADE DE PROFESSORES ESPECIALISTAS PARA EDUCAR ALUNOS COM DEFICIÊNCIA 81 4.2.4. SOBRE A NECESSIDADE DO PROFESSOR DA CLASSE COMUM CONHECER PREVIAMENTE AS CARACTERÍSTICAS DOS ALUNOS COM DEFICIÊNCIA 4 Sumário 81 5 Sumário 5 APRESENTAÇÃO Caro aluno, Boas vindas à disciplina “Educação Inclusiva”. Este livro didático está dividido em quatro unidades. É material necessário da disciplina e, portanto não deve ser esquecido. Tenha-o à mão e, sempre que possível, consulte-o. Adote como estratégia os seguintes procedimentos: 1. Compreenda os objetivos, as habilidades e as competências de cada unidade; 2. Leia o “conheça mais”, bem como os anexos. 3. Desafie-se! Resolva os exercícios, delimitando um tempo para as respostas e depois verifique a “sugestão de resposta”. 4. Quer adotar livros? As referências bibliográficas são ótimas fontes de aquisição. Você perceberá que o livro didático complementará às teleaulas. Amparados e interligados em todo o AVA, teleaulas, Podcast, web aulas, jogos interativos, web conferências, redes sociais, biblioteca virtual e dinãmicas, você e eu vamos trabalhar juntos para que você se transforme em um profissional excelente, formado em sua capacidade máxima de aprendizagem, de integração e de interação. Organize-se! Consiga um espaço para que seu estudo seja mais produtivo, assim você cumprirá com as datas e exigências desta disciplina, com maior conforto. Com carinho, Prof.ª LILIAN SUZUKI 7 Apresentação 7 INTRODUÇÃO Para assegurar o processo de transformação do sistema educacional brasileiro em um sistema inclusivo é fundamental subsidiarmos tecnicamente a formação do professor. Os movimentos da sociedade pela inclusão determinaram um aumento da participação das pessoas com deficiência nos espaços sociais e educacionais, mas tem sido acompanhados por um mal-estar que tem refletido a dificuldade existente na relação com a diversidade. Assim a pergunta: É possível a inclusão? Neste livro didático, que se constitui em apenas um dos instrumentos do ensino a distância, a proposta é apresentar e discutir os direitos humanos, o apoio governamental, os paradigmas constituídos pelas pessoas com deficiência, as políticas educacionais inclusivas, para que você, aluno, possa cumprir e fazer cumprir as declarações, as convenções, a lei e as diretrizes nacionais. Dentro do Sistema Educacional Inclusivo no Brasil, a análise da construção do processo histórico e o exame dos mitos e consensos sobre a educação inclusiva são temas fundamentais para se entender a deficiência no contexto escolar. 9 Introdução 9 1 Unidade I EDUCAÇÃO INCLUSIVA OBJETIVOS DA UNIDADE • Analisar o conceito de Educação Inclusiva. • Fazer um levantamento das perspectivas que se pretende operar quando se passa da educação especial à educação inclusiva. • Atentar para as barreiras pertinentes ao ensino inclusivo. HABILIDADES E COMPETÊNCIAS • Compreensão da diversidade do conceito de educação inclusiva propostos pelas diferentes épocas. • Identificação das operações da integração escolar à inclusão escolar. • Distinção dos impedimentos sugeridos ao ensino inclusivo. Unidade 11 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 11 1.1. CONCEITO E DEFINIÇÃO DEFINIÇÃO Reconhece que todas as crianças podem aprender. É um processo dinâmico que está em evolução constante. Do atendimento educacional especializado Para Marilda Moraes Garcia Bruno (2008), o documento Educação Inclusiva Fonte: http://portal.mec.gov.br/ - Acesso em 20 de janeiro de 2011. - Atendimento Educacional Especializado, MEC (2005), concebe o atendimento educacional especializado, “antes denominado Educação Especial, como um Esta é a frase de chamada do portal do MEC. Observem que “todos devem complemento da educação geral”. participar” remete-nos à impossibilidade de exclusão, ninguém pode estar à margem ou fora da Educação, seja diretamente ou indiretamente envolvido no seu processo, É um direito de todos os alunos que necessitam de uma “todos devem participar”. complementação e precisa ser aceito por seus pais ou responsáveis e/ ou pelo próprio aluno. O atendimento educacional especializado deve Podemos entender então que para o BRASIL - Ministério da Educação, a educação inclusiva trata de uma reestruturação do ensino regular universal. ser oferecido em horários distintos das aulas da escola comum, com outros objetivos, metas e procedimentos educacionais. As ações do atendimento educacional são definidas conforme o tipo da deficiência (MEC/SEESP, 2005, p. 9). Neste livro didático, consideraremos para a EDUCAÇÃO INCLUSIVA: Em direção inversa, as Diretrizes Nacionais (2001), seguindo a tendência dos CONCEITO movimentos internacionais de inclusão, enfatizam a modificação dos contextos sociais e consideram essencial para o processo de aprendizagem o sistema de suporte, concretizado por meio de Serviço de Apoio Pedagógico Especializado. No entender do Atenta a diversidade inerente à espécie humana. Ministério, os serviços especializados devem ser oferecidos pela escola comum para atender às necessidades especiais no espaço da sala de aula ou nas salas de recursos Atende as necessidades educacionais especiais em sala de aula no sistema regular de ensino. em todos os níveis de ensino. Recomenda ações elaboradas coletivamente por todos os agentes educacionais, contempladas no projeto pedagógico e no regimento escolar. Envolvem, portanto, questões de gestão e prática pedagógica. 12 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA Unidade 13 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 13 Em 17 de setembro de 2011, o Decreto nº 7.6111, dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências lê-se: A Declaração de Salamanca (1994), como veremos adiante, é um documento que reafirma o compromisso para com a Educação para Todos, reconhece, preconiza e reconvoca que a educação de pessoas com deficiências seja parte integrante do sistema educacional. § 1º Para fins deste Decreto, os serviços de que trata o caput serão denominados atendimento educacional especializado, compreendido como o conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos organizados institucional e continuamente, prestado das seguintes formas: I - complementar à formação dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, como apoio permanente e A Educação Inclusiva, então, é um processo em que se aumenta a participação de todos os estudantes nos estabelecimentos de ensino, inclusive aqueles com deficiências e versa sobre a reestruturação da cultura, prática e política nas escolas para que estas respondam à diversidade de alunos nas suas localidades. Apresenta as seguintes características: limitado no tempo e na frequência dos estudantes às salas de recursos multifuncionais; ou • reconhece que todas as crianças têm capacidade para aprender. II - suplementar à formação de estudantes com altas habilidades ou • reconhece e respeita as diferenças nas crianças: idade, gênero, língua e superdotação. § 2o O atendimento educacional especializado deve integrar a proposta pedagógica da escola, envolver a participação da família para garantir pleno acesso e participação dos estudantes, atender às necessidades específicas das pessoas público-alvo da educação especial, e ser realizado em articulação com as demais políticas públicas. deficiência. • permite que as estruturas educativas, os sistemas e as metodologias caminhem em direção às necessidades de todas as crianças. • faz parte de uma estratégia mais ampla para promover uma sociedade inclusiva. • é um processo dinâmico que está em constante evolução. 1.2. EDUCAÇÃO INCLUSIVA e Educação Especial A educação inclusiva difere, portanto, da educação especial, que assume uma variedade de formas incluindo escolas especiais, unidades pequenas e a integração das crianças com apoio especializado. O site colaborativo da Wikipedia propõe o seguinte comentário sobre a Focar a inclusão requer também que sejam considerados os conceitos de educação inclusiva: integração e interação. Beatriz Cabral (2004/2005) nos dirá que a integração tende A Educação Inclusiva atenta a diversidade inerente à espécie humana, a anular as diferenças e a atenuar as desigualdades, o que acaba por nivelar as busca perceber e atender as necessidades educacionais especiais especificidades individuais. de todos os sujeitos-alunos, em salas de aulas comuns, em um sistema regular de ensino, de forma a promover a aprendizagem e o desenvolvimento pessoal de todos (Em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/ Educa%C3%A7%C3%A3o_inclusiva. Acesso em: 26/02/2011). A interação, por sua vez, implica a participação conjunta em um trabalho ou projeto em que as partes reagem juntas à mesma situação, de forma a afetar ou modificar o comportamento ou condição de todos, de acordo com suas especificidades. A interação busca promover a construção de identidades particulares, com base na 1 O Decreto nº 7.611, de 2011 revoga o Decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008, que dispunha sobre o atendimento educacional especializado, regulamentava o parágrafo único do art. 60 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e acrescentava dispositivo ao Decreto no 6.253, de 13 de novembro de 2007. 14 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA observação das diferenças, e desta forma procura não só preservar, como também Unidade 15 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 15 priorizar as diferenças. A interação caracteriza particularmente as redes e parcerias, nas quais a complementaridade se constrói com base na valorização das suas diferenças. Para considerar a inclusão dentro de um espaço democrático para a diferença devemos estar na interação e não na integração. Se nós, professores, não aceitamos estes alunos como elementos de pleno direito no seu trabalho, começamos a segregação disfarçada ou explícita. O professor, se for sensível à diversidade da classe e se acreditar que essa diversidade é um potencial a explorar, terá necessidade de conhecer os seus alunos e pesquisará dados que lhe vão permitir refletir sobre as características pessoais e socioculturais de seus alunos, terá necessidade também de um saber pedagógico Sobre as práticas de Educação inclusiva que vá permitir-lhe conceber dispositivos de diferenciação pedagógica adequados às características, interesses, saberes e problemas dos seus alunos numa atitude reflexiva, usando a investigação-ação como estratégia educativa de resolução de problemas. Segundo Sanches e Teodoro (2006), nas escolas inclusivas, nenhum aluno sai da classe para receber ajuda, ela recebe-se no interior da classe. Os desafios serão analisados no contexto em que eles surgem, com os interessados na sua resolução. A resposta não virá dos outros, das “autoridades” A Educação inclusiva não se faz se não se introduzirem na sala de aula na matéria, antes, porém, será concebida pelos próprios envolvidos, o que poderá metodologias diferentes das que se utilizam habitualmente. Célestin Freinet percebeu originar uma resposta mais pertinente e mais adequada. Haverá lugar para uma isso quando começou a trabalhar para uma escola que queria dar uma resposta atitude reflexiva, crítica sobre as aprendizagens que se fizeram ou que não se fizeram adequada aos seus alunos, muitos deles pobres e marginalizados pelo sistema. e as condições do processo educativo. 2 Por vezes, são os próprios responsáveis por uma educação inclusiva, como os professores de apoio educativo, que vão ajudar na estigmatização desse público. A educação inclusiva pressupõe escolas abertas a todos, onde todos aprendem juntos, quaisquer que sejam as suas dificuldades, porque o ato educativo se centra na diferenciação curricular inclusiva, construída em função dos contextos a que pertence Se os alunos estão na escola é para fazer aprendizagens, porque as aprendizagens os alunos, à procura de vias escolares diferentes para dar resposta à diversidade cultural, são um meio de ascender à cidadania. Se não aprendem é porque não os sabemos implementando uma práxis que contemple diferentes metodologias que tenham em ensinar. Por vezes são necessárias metodologias diferentes ou códigos de comunicação atenção os ritmos e os estilos de aprendizagem dos alunos. apropriados, como é o caso do «braile» para os cegos, da «libras» para os surdos ou da aprendizagem muito estruturada para os que têm déficit cognitivo. A aprendizagem dos alunos a quem são atribuídas Necessidades Educacionais Diferença entre o ensino integrado e o ensino inclusivo Especiais (NEE) depende, em muito, “da maneira de apreender as diferenças em classe e da vontade de tratar eficazmente essas diferenças”. As expressões ‘integrado’ e ‘inclusivo’ são frequentemente utilizadas indiscriminadamente, como se tivessem o mesmo significado. 2 SAIBA + Muitos dos conceitos e atividades escolares idealizados pelo pedagogo francês Célestin Freinet (1896-1966) se tornaram tão difundidos que há educadores que os utilizam sem nunca ter ouvido falar no autor. É o caso das aulas-passeio (ou estudos de campo), dos cantinhos pedagógicos e da troca de correspondência entre escolas. Não é necessário conhecer a fundo a obra de Freinet para fazer bom uso desses recursos, mas entender a teoria que motivou sua criação deverá possibilitar sua aplicação integrada e torná-los mais férteis. 16 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA Reconhecemos que, em algumas línguas, nem sempre é possível fazer-se a distinção entre a integração e a inclusão, mas para o nosso entendimento é importante utilizarmos essas duas definições: Unidade 17 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 17 • O ensino integrado refere-se às crianças que frequentam as escolas regulares (ou seja, o foco está nas taxas de frequência). DA EDUCAÇÃO ESPECIAL À DA INTEGRAÇÃO ESCOLAR Da homogeneidade Do aluno médio Da inormalização Do isolamento Da aventura solitária Da diferença como um problema Da indiferença Do currículo único Do indivíduo Da seleção dos melhores • O ensino inclusivo refere-se às crianças com deficiência que aprendem eficazmente quando frequentam as escolas regulares (ou seja, o foco está na qualidade do ensino). No ensino integrado a criança é vista como sendo o problema. O modelo de deficiência individual ou médico determina que a criança tem que ser alterada, tem que ser mudada ou reabilitada para poder fazer parte do sistema escolar e da sociedade. Por exemplo, uma criança com dificuldades auditivas pode usar um aparelho auditivo e espera-se que aprenda a falar de forma a poder pertencer gradualmente a sua sala. Mas não se espera que os professores e as outras crianças aprendam a linguagem gestual ou outras formas de comunicação. No ensino inclusivo espera- se que o sistema seja modificado e não as crianças, já que reconhece-se que todas elas são diferentes, e que as escolas e sistemas de educação precisam encontrar respostas para as necessidades individuais de todos os educandos – com ou sem dificuldades. A inclusão não significa, no entanto, a assimilação – ou tornar todos iguais. Um ingrediente principal é a flexibilidade – a consideração de que as crianças aprendem em etapas diferentes e que os professores precisam de técnicas para apoiar a sua aprendizagem de uma maneira flexível. Na maioria dos casos, as crianças apenas necessitam de um método de ensino bom, claro e acessível. Isto inclui a utilização de diferentes métodos para se responder às diferentes necessidades, capacidades e níveis de desenvolvimento. DA INTEGRAÇÃO ESCOLAR (EDUCAÇÃO ESPECIAL) À INCLUSÃO ESCOLAR (EDUCAÇÃO INCLUSIVA) Dos alunos com NEEs (necessidades educacionais especiais) Da entrada na escola, sob condição, transportando os apoios disponibilizados Do programa específico para o aluno Do déficit Da educação especial para os alunos especiais De um adulto “colado” como um “policial” Do professor consumidor, professor aplicador Da perspectiva centrada no aluno Da colocação dos alunos com NEEs no ensino regular Da avaliação dos alunos por especialistas Dos resultados da avaliação traduzidos em diagnóstico / prescrição Do programa para os alunos Do programa apropriado Das possibilidades oferecidas aos alunos para tronarem-se aprendizes independentes e atores sociais autônomos À EDUCAÇÃO INCLUSIVA À INCLUSÃO ESCOLAR à diversidade como princípio e fim ao desenvolvimento global dos alunos ao direito à diferença à cooperação à responsabilidade coletiva à diferença como um desafio á diferença e valorização da diversidade ao currículo flexível ao contexto ao sucesso para todos à todos os alunos à fazer parte da escola que gera e disponibiliza as condições e os recursos necessários às estratégias para a classe ao potencial à educação de sucesso para todos à todos os adultos presentes na escola /sala de aula para ensinar e apoiar as aprendizagens de todos os alunos ao professor criativo, experimentador e reflexivo à perspectiva centrada no currículo à uma avaliação do programa e do ensino em geral à avaliação das condições de ensino e das condições de aprendizagem à resolução cooperativa dos problemas à estratégias para os professores ao apoio na classe regular à uma sociedade mais tolerante e mais equitativa 1.3. O quadro a seguir, baseado no texto de Sanches & Teodoro na Revista Lusófona de Educação (2006), faz um levantamento das perspectivas mais divulgadas acerca da caminhada que se pretende operar: passar da exclusão à inclusão educacional, passar da “indiferença às diferenças” para a “celebração da diversidade”, passar de comunidades fechadas às comunidades abertas, em que o respeito por si e pelo outro sejam o lema e a dignificação dos direitos da pessoa humana. 18 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA DICA Atentem para as operações: 99 Passar da Integração Escolar à Inclusão Escolar 99 Passa da Educação Especial à Educação Inclusiva Unidade 19 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 19 1.4. BARREIRAS AO ENSINO INCLUSIVO Invisibilidade na escola negativas, A falta de abordagens centradas na criança e na educação é muitas vezes invisibilidade na comunidade, invisibilidade na escola, custo, acesso físico, dimensão a causa da “invisibilidade na escola”. Quando o foco da aprendizagem está no das turmas, pobreza, discriminação por gênero e dependência. currículo ao invés das necessidades individuais, o potencial de cada criança tende a Vamos considerar as seguintes barreiras: atitudes ser negligenciado. As atitudes negativas Nesse processo é importante que haja um acompanhamento do desenvolvimento da criança, para que qualquer sinal de alteração seja detectado. Desta forma, suas habilidades básicas como ler e escrever não serão comprometidas e a sua motivação As atitudes negativas da deficiência são, indiscutivelmente, a única barreira não será afetada. para que as crianças com deficiência tenham acesso ao ensino regular. As atitudes negativas podem ser encontradas em todos os níveis: pais, membros da comunidade, escolas e professores, o governo, funcionários e mesmo as crianças com deficiência. Custo O medo, o tabu, a vergonha, a falta de informação, desconhecimentos e valores socioeconômicos sobre a vida humana encorajam as atitudes negativas em relação à deficiência. As crianças deficientes e suas famílias, muitas vezes desenvolvem uma É comum ouvir que a “a educação especial é um luxo que não podemos pagar”. baixa autoestima, se escondendo e fugindo da interação social, o que pode levar Isto é baseado na suposição de que crianças com deficiência devem ser ensinadas diretamente à sua exclusão do sistema de ensino. separadamente, e que este é tanto caro quanto trabalhoso. É preciso sensibilizar e mobilizar toda a sociedade para os direitos das crianças com deficiência, para que as atitudes negativas sejam superadas e a verdadeira Acesso Físico educação inclusiva seja praticada em todas as esferas. Locomover-se até a escola pode ser muito difícil para todas as crianças, e é Invisibilidade na comunidade frequentemente usado como uma desculpa para não mandar as crianças para a escola. Crianças portadoras de deficiência que não frequentam a escola são muitas vezes invisíveis em suas comunidades, pois os pais tendem a superprotegê-las ou negligenciá-las. Temendo por sua segurança, ou para o respeito e a honra da família, os pais às vezes fecham as crianças em casa e as escondem completamente para que os vizinhos sequer saibam que elas existem. 20 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA Unidade 21 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 21 Discriminação por Gênero Em alguns contextos as meninas com deficiência podem enfrentar problemas particulares como: • Questões relativas à segurança: as meninas com deficiência são mais vulneráveis ao abuso físico e sexual. Além de abuso em casa, isso pode acontecer na escola ou no caminho para a escola. • Falta de privacidade: Este pode ser um problema se as meninas precisam de ajuda com o uso do banheiro ou trocar de roupa. • Trabalho Doméstico: Evidências empíricas sugerem que as meninas com deficiências podem ser mais exploradas em casa do que as não deficientes. Dimensão das Turmas Dependência Turmas grandes são vistas como uma barreira para a inclusão de deficientes em todos os países. Turmas pequenas, bem geridas, são naturalmente mais desejáveis do que turmas grandes com recursos insuficientes. No entanto, o tamanho da classe O alto nível de dependência de algumas crianças com deficiência com seus não é necessariamente um fator significativo para o sucesso da inclusão, há muitos cuidadores pode ser uma barreira para a inclusão na educação e, em alguns casos, pode exemplos de crianças com deficiência serem incluídas com sucesso nas turmas grandes. deixar as crianças com deficiência vulneráveis a abusos. As crianças com deficiência As barreiras atitudinais para a inclusão são, indiscutivelmente, bem maiores do que os têm o direito de viver com dignidade e alcançar o maior grau de autossuficiência. No recursos materiais inadequados. entanto, um número significativo de crianças com deficiência será sempre dependente sobre os outros na vida cotidiana. A sua dignidade pode ser ameaçada, pois eles dependem de outros para toda a rotina de atividades ligadas a higiene, alimentação, Pobreza comunicação etc. Os professores precisam estar preparados para lidar com essa situação e estimular Há uma forte correlação entre pobreza e os baixos níveis de oportunidades de ensino em geral. No caso das crianças com deficiência, a pobreza pode agravar e o potencial desses alunos, já que algumas vezes em casa o vínculo de dependência que se desenvolve pode limitá-los nas suas ações. aprofundar a extensão das suas deficiências e exclusão social. Transparência nas relações de cuidado é, portanto, importante para capacitar as crianças para reclamar, pedir confidencialidade, ou assistência na prevenção ou tratamento com maus-tratos. 22 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA Unidade 23 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 23 Há muitos obstáculos que podem ser enunciados para não ser praticada uma educação inclusiva, uma educação que se preocupe com o sucesso de cada um e de todos: a falta de formação ou formação inadequada dos professores, a falta de recursos humanos e materiais, os espaços inadequados, as políticas não ajustadas às TESTE SEU CONHECIMENTO situações, mas o verdadeiro obstáculo está na forma de pensar na e sobre a diferença e da disponibilidade daí decorrente. No intuito de gerar e bem gerir as condições necessárias, é necessário começar com as condições que temos. Aprende-se fazendo, para fazer melhor. 1.5. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE I Nesta unidade analisamos e compreendemos a diversidade do conceito de educação inclusiva propostos pelas diferentes épocas e o da contemporaneidade, fizemos um levantamento das perspectivas que se pretende operar quando se passa da educação especial à educação inclusiva e percorremos as barreiras ao ensino inclusivo. Foi possível também conhecermos o Decreto nº 7.611 de 2011, que dispõe sobre a educação especial e o atendimento educacional especializado, tão importantes para o desenvolvimento de uma cultura inclusiva no nosso país. Para contribuir com os seus estudos, é necessário que você participe do nosso fórum de discussão, por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e assista as nossas teleaulas. Dica de L eitu r a SANCHES, Isabel e TEODORO, António. Da Integração à inclusão escolar: cruzando perspectivas e conceitos. Revista Lusófona de Educação, jul/2006, nº 8. p. 63-83. ISSN 1645-7250. Disponível em http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n8/n8a05.pdf 24 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA Unidade 25 I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA 25 2 U n i d a d e II SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO RESPOSTAS COMENTADAS 1. OBJETIVOS DA UNIDADE Da Educação Especial Da diferença como problema um à Educação Inclusiva COMENTÁRIO • Compreender o processo histórico de construção de um Sistema Educacional Inclusivo no Brasil. Passamos da indiferença às à diferença como um desafio diferenças, para a celebração • Identificar e distinguir os paradigmas da institucionalização, de serviços e de suporte. da diversidade. Passamos da avaliação dos Do déficit ao potencial alunos por especia-listas à avaliação das condições de ensino e de aprendizagem. HABILIDADES E COMPETÊNCIAS • Comparação entre os diversos momentos da história da humanidade acerca do tratamento dado às pessoas com deficiência. • Caracterização da relação da sociedade com a parcela da população 2. a) O ensino integrado é frequentemente aceito como um passo em direção ao ensino inclusivo. No entanto, a maior limitação do ensino integrado é que enquanto o sistema escolar se mantiver rígido, constituída pelas pessoas com deficiência, no que tange os aspectos da institucionalização, de serviços e de suporte. apenas certas crianças com deficiências poderão ser integradas. Algumas crianças portadoras de deficiência nunca poderão estar suficientemente ‘preparadas’ ou ‘reabilitadas’ para serem aceitas numa sala tradicional de ensino regular. 2. b) Quando o ensino não é feito na língua materna mas numa segunda ou terceira língua, é provável que as crianças com atrasos no desenvolvimento ou insuficiências achem que tudo é ainda mais difícil. Do mesmo modo, as reações negativas (ou até punições corporais) em relação aos maus resultados escolares irão muito provavelmente piorar o problema. Na realidade, algumas dificuldades na aprendizagem são criadas como resultado direto de falta de compreensão para com a criança e de um sistema escolar pouco acolhedor ou ensino deficiente. Na África do Sul, começaram a rotular estas crianças como as que tinham um atraso na aprendizagem. 26 Unidade I - EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE II - SISTEMA 27 EDUCACIONAL INCLUSIVO 27 PROCESSO HISTÓRICO DO SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO NO BRASIL 2.1. Idade Média Com a divulgação das ideias cristãs, pessoas doentes, defeituosas ou Segundo o Projeto Escola Viva, no decorrer da História da Humanidade foram mentalmente afetadas não podiam mais ser exterminadas, já que também eram se diversificando a visão e a compreensão que as diferentes sociedades tinham acerca criaturas de Deus, mas passaram a ser aparentemente ignoradas à própria sorte, da deficiência. dependendo da boa vontade e caridade humana para sua sobrevivência. Da mesma forma que na Antiguidade, alguns continuavam a ser “aproveitados” como fonte de Vamos focalizar a relação entre sociedade e deficiência que constituíam o diversão (bobos da corte) e como material de exposição. pensar de cada época. No século XIII começaram a surgir instituições para abrigarem deficientes É importante lembrarmo-nos de que termos tais como: deficiência, deficiente, mentais, e as primeiras legislações sobre os cuidados a tomar com a sobrevivência e, portador de deficiência e portador de necessidades especiais surgiram bem sobretudo, com os bens dos deficientes mentais, como os baixados por Eduardo II da recentemente, já no século XX. Inglaterra. Assim, quando estivermos nos referindo à períodos históricos anteriores, usaremos, muitas vezes, vocábulos que atualmente são considerados técnica e/ou politicamente incorretos, mas que eram os termos então aplicados. pa r a r e f leti r Então, na Antiguidade a pessoa diferente não foi sequer considerada ser humano, no período medieval, a concepção de deficiência passou a Antiguidade ser metafísica (sobrenatural), de natureza religiosa, sendo a pessoa com deficiência intitulada ora demoníaca, ora possuída pelo demônio, ora “expiador” (pagador) de culpas alheias, ou um aplacador da cólera divina São raros os dados objetivos registrados a respeito de como se caracterizava a a receber a vingança celeste, como um para-raios. relação entre deficiência e sociedade na vida cotidiana em Roma e na Grécia Antigas. Do século XVI aos dias de hoje Na Bíblia, entretanto podemos encontrar passagens que permitem inferir sobre sua natureza e procedimentos: surdos, cegos, deficientes mentais, deficientes físicos, órfãos, doentes e idosos eram praticamente exterminados por meio do abandono e Começaram a surgir novas ideias referentes à natureza orgânica da deficiência, esta atitude não representava um problema de natureza ética ou moral. A Bíblia traz produto de causas naturais. Assim entendida, a deficiência passou a ser tratada, referências ao cego, ao manco e ao leproso - a maioria dos quais sendo pedintes ou também, por meio da alquimia, da magia e da astrologia. rejeitados pela comunidade, seja pelo medo de doença, seja porque se pensava que 28 eram amaldiçoados pelos deuses. Há relatos que a única ocupação para os retardados A tese da organicidade (causas são naturais e não sobrenaturais) favoreceu o mentais encontrada na literatura antiga é a de bobo ou de palhaço, para a diversão surgimento de ações de tratamento médico das pessoas com deficiência, enquanto dos senhores e de seus hóspedes. que a tese do desenvolvimento por meio da estimulação encaminhou-se, embora UNIDADE II - SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO UNIDADE II - SISTEMA 29 EDUCACIONAL INCLUSIVO 29 muito lentamente, para ações de ensino, o que vai se desenvolver definitivamente residência e de trabalho, onde, excluídas da sociedade mais ampla, por um longo somente a partir do século XVIII. período de tempo, um grande número de pessoas leva juntas, uma vida enclausurada e formalmente administrada. Nesta mesma época, século XX, por volta de 1960, é que o Paradigma da PARADIGMA DA INSTITUCIONALIZAÇÃO, DE SERVIÇOS E DE SUPORTE 2.2. Institucionalização começou a ser criticamente examinado, assim, muitos foram os autores que publicaram estudos enfocando a Institucionalização. A maioria dos artigos apresenta uma dura crítica a esse paradigma baseando-se em dados que revelam sua inadequação e ineficiência para favorecer a recuperação Paradigma das pessoas com necessidades educacionais especiais para a vida em sociedade. Na prática descontextualizada da realidade, a institucionalização torna a pessoa incapaz de enfrentar e de administrar o viver em sociedade. Para caracterizar a relação da sociedade com a parcela da população constituída pelas pessoas com deficiência, entenderemos paradigma como o conjunto de ideias, valores e ações que contextualizam as relações sociais. Na década de 60, o questionamento e a pressão contrária à Institucionalização provinham de diferentes direções, motivados pelos mais diversos interesses. O sistema político vigente tinha interesse. Tornava-se interessante o discurso Paradigma da Institucionalização da autonomia e da produtividade para a administração pública dos países que se adiantavam no estudo do sistema de atenção ao deficiente, pois custava cada vez mais manter a população institucionalizada, na improdutividade e na condição crônica Conventos, asilos e hospitais psiquiátricos, em vez de locais para tratamento das de segregação. pessoas com deficiência estas instituições se constituíram em locais de confinamento. Mesmo com a evolução da Medicina, esse paradigma permaneceu único por mais de 500 anos, sendo, ainda hoje, encontrado em diferentes países, inclusive no nosso. Por outro lado esta década foi marcada intensa e fortemente por um processo geral de reflexão e de crítica sobre os direitos humanos e, mais especificamente, sobre os direitos das minorias, sobre a liberdade sexual, os sistemas e organização político- O Paradigma da Institucionalização caracteriza-se, desde o início, pela retirada das pessoas com deficiência de suas comunidades de origem e pela manutenção delas econômica e seus efeitos na construção da sociedade e da subjetividade humana na maioria dos países ocidentais. em instituições residenciais segregadas ou escolas especiais, frequentemente situadas em localidades distantes de suas famílias. Apresentava-se também a crescente manifestação de duras críticas por parte da academia científica e de diferentes categorias profissionais. Erving Goffman publicou, em 1962, o livro Asylums5 (Manicômios, Prisões e 30 Conventos. SP: T.A. Queiroz Editor Ltda.), trabalho que se tornou uma obra clássica Fazia-se também importante diminuir o custo social rapidamente, diminuindo os de análise das características e efeitos da institucionalização para o indivíduo. Sua gastos públicos e aumentando a margem de lucro dos capitalistas, assim, interessava definição de Instituição Total é amplamente aceita até hoje como um lugar de aumentar a produção e diminuir o custo e o ônus populacional. Esses interesses, UNIDADE II - SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO UNIDADE II - SISTEMA 31 EDUCACIONAL INCLUSIVO 31 de natureza político-administrativa, favoreceram a aceleração e o crescimento do movimento da desinstitucionalização. • A primeira, de avaliação, em que uma equipe de profissionais identificaria tudo o que, em sua opinião, necessitaria ser modificado no sujeito e em sua vida, de forma a torná-lo o mais normal possível; Tais processos, embora diversos quanto à sua natureza e motivação, convergiram determinando em seu conjunto, a reformulação de ideias e a busca de novas práticas no trato da deficiência. • A segunda, de intervenção, na qual a equipe passaria a oferecer (o que ocorreu com diferentes níveis de compromisso e qualidade, em diferentes locais e entidades), à pessoa com deficiência, atendimento formal e A década de 60 do século XX tornou-se, assim, marcante pela relação entre a sociedade e o aluno com deficiência. Dois novos conceitos passaram a circular no debate social: normalização e desinstitucionalização. sistematizado, norteado pelos resultados obtidos na fase anterior; • A terceira, de encaminhamento (ou reencaminhamento) da pessoa com deficiência para a vida na comunidade. Considerando que o paradigma tradicional de institucionalização tinha demonstrado seu fracasso na busca de restauração de funcionamento A manifestação educacional desse paradigma efetivou-se, desde o início, nas normal do indivíduo no contexto das relações interpessoais, na escolas especiais, nas entidades assistenciais e nos centros de reabilitação. (BRASIL, sua integração na sociedade e na sua produtividade no trabalho Ministério da Educação. Projeto Escola Viva. Brasília, DF, 2005). e no estudo, iniciou-se, no mundo ocidental, o movimento pela desinstitucionalização, baseado na ideologia da normalização, que defendia a necessidade de introduzir o aluno com deficiência na sociedade, procurando ajudá-lo a adquirir as condições e os padrões da vida cotidiana, no nível mais próximo possível do normal. (BRASIL, Ministério da Educação. Projeto Escola Viva. Brasília, DF, 2005). pa r a r e f leti r O Paradigma de Serviços iniciado por volta da década de 60, logo começou a enfrentar críticas. Dessa vez, provenientes da academia científica e das próprias pessoas com deficiência, já organizadas em associações e outros Paradigma de Serviços órgãos de representação. Com o lema: “Diferenças, na realidade, não se ‘apagam’, mas sim, são administradas na convivência social”, Maria Salete Fábio Aranha do O conceito de integração, ao se afastar do Paradigma da Institucionalização e adotar as ideias de Normalização, criou a necessidade de modificar o aluno com deficiência, de forma que este pudesse vir a se assemelhar, o mais possível, aos demais cidadãos, para então poder ser inserido, integrado, ao convívio em sociedade. Projeto Escola Viva ressalta: [...] outra crítica importante referiu-se à expectativa de que a pessoa com deficiência se assemelhasse ao não deficiente, como se fosse possível ao homem o “ser igual”, e como se ser diferente fosse razão para decretar sua menor valia enquanto ser humano e ser social. Aliado a esse processo, intensificava-se o debate de idéias acerca da Integrar significava localizar no sujeito o alvo da mudança. Entendia-se que deficiência e da relação da sociedade com as pessoas com deficiência. a comunidade tinha que se reorganizar para oferecer aos alunos com deficiência os Em função de tal debate, a idéia da normalização começou a perder serviços e os recursos de que necessitassem para viabilizar as modificações que as força. Ampliou-se a discussão sobre o fato de a pessoa com deficiência tornassem os mais “normais” possíveis. ser um cidadão como qualquer outro, detentor dos mesmos No Paradigma de Serviços, o modelo de atenção à pessoa com deficiência, se caracteriza pela oferta de serviços, geralmente organizada em três etapas: 32 UNIDADE II - SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO direitos de determinação e de uso das oportunidades disponíveis na sociedade, independentemente do tipo de deficiência e do grau de comprometimento que apresentem (BRASIL, Ministério da Educação. Projeto Escola Viva. Brasília, DF, 2005). UNIDADE II - SISTEMA 33 EDUCACIONAL INCLUSIVO 33 Paradigma de Suportes ajustes físicos, materiais, humanos, sociais e legais que se mostrem necessários para que o aluno com deficiência, que necessita de atendimento educacional especial, possa imediatamente adquirir condições de acesso ao espaço comum da vida na sociedade. Cabe à sociedade reorganizar-se de forma a garantir o acesso de todos os cidadãos (inclusive os que têm uma deficiência) a tudo o que a constitui e a caracteriza, independentemente das peculiaridades individuais. Afirmado que pessoas com deficiência necessitam, sim, de serviços de avaliação e de capacitação oferecidos no contexto de suas comunidades, compreendeu-se que estas não são as únicas providências necessárias, caso se deseje manter com essa parcela da sociedade uma relação de respeito, de honestidade e de justiça. O Paradigma de Suporte tem se caracterizado pelo pressuposto de que a pessoa com deficiência tem direito à convivência não segregada e ao acesso imediato e contínuo aos recursos disponíveis aos demais cidadãos. Os suportes podem ser de diferentes tipos (social, econômico, físico, instrumental) e têm como função favorecer a construção de um processo que se passou a denominar Inclusão Social. A Inclusão Social não é um processo que envolva somente um lado, mas sim um processo bidirecional, que envolve ações junto ao aluno Na educação, a opção política pela construção de um sistema educacional com deficiência e ações junto à sociedade (BRASIL, Ministério da inclusivo prioriza um movimento para assegurar a todos os cidadãos a possibilidade Educação. Projeto Escola Viva. Brasília, DF, 2005). de aprender a administrar a convivência digna e respeitosa numa sociedade complexa e diversificada. O conceito de inclusão envolve o mesmo pressuposto que o da integração, o direito do aluno com deficiência que necessita de atendimentos educacionais especiais à igualdade de acesso ao espaço comum da vida em sociedade, mas diferem no sentido de que o Paradigma de Serviços pressupõe o investimento principal na promoção de mudanças no indivíduo, no sentido de normalizá-lo. O Paradigma de Suportes prevê intervenções decisivas e afirmativas, em ambos A convivência na diversidade proporciona para todos os alunos e professores, com e sem necessidades educacionais especiais, a prática saudável e educativa da convivência na diversidade e da administração das diferenças no exercício das relações interpessoais, aspecto fundamental da democracia e da cidadania e proporciona à criança com deficiência, que necessita de atendimentos educacionais especiais, maior possibilidade de desenvolvimento acadêmico e social. os lados da equação - no processo de desenvolvimento do sujeito e no processo de ajuste da realidade social; prevê o trabalho direto com o sujeito; se adota como objetivo primordial e de curto prazo a intervenção junto às diferentes instâncias que contextualizam a vida desse sujeito na comunidade, no sentido de nelas promover os 34 UNIDADE II - SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO UNIDADE II - SISTEMA 35 EDUCACIONAL INCLUSIVO 35 2.3. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE II par a r efleti r A leitura que a sociedade tem feito sobre a pessoa com deficiência foi se diversificando no decorrer dos séculos, determinando suas ações. Variou Nesta unidade compreendemos a valorização que as diferentes sociedades da desconsideração da pessoa enquanto ser humano, para uma visão tinham acerca da deficiência no decorrer da História da Humanidade, e identificamos sobrenatural; depois, para uma visão organicista somaram-se a concepção a caracterização da relação da sociedade com a parcela da população constituída educacional, a concepção social e mais recentemente, a sócio-histórica. No Brasil, atualmente, encontramos as manifestações dos diversos paradigmas formais: Paradigma da Institucionalização Total, Paradigma pelas pessoas com deficiência entendidos pelos paradigmas da institucionalização, de serviços e de suporte. de Serviços e o insipiente Paradigma de Suportes. Todo esse conhecimento será de fundamental importância para a sua formação profissional. Desde que iniciou o curso de Pedagogia você deve Se aqui o foco foi o Sistema Educacional Inclusivo no Brasil, a próxima unidade tratará da deficiência no contexto escolar. ter aprendido que é de grande relevância conhecer cada um de seus futuros alunos, que é essencial que identifique os conhecimentos de que Para assimilar o conteúdo apresentado é importante você também assistir às eles já dispõem para poder planejar os passos seguintes do processo de teleaulas, e continuar participando do fórum de discussão do Ambiente Virtual de ensino e de aprendizagem. Aprendizagem (AVA). Mais tarde aprenderá no curso também que empregar a avaliação, não é um instrumento utilizado para se classificar quem é “melhor” e quem é “pior”, mas sim é um valioso meio para se identificar no processo de apreensão de conhecimento, em quais áreas e procedimentos, cada um de seus alunos necessita de um auxílio específico. Na disciplina Brinquedos e Brincadeiras na Educação Infantil conseguirá refletir também sobre a importância de usar a criatividade, de aproveitar os dados da realidade de cada aluno, para que o tema abordado tenha significação para todos os alunos. Estas aprendizagens são partes do que você precisa para ensinar em uma sala inclusiva, já que “um sistema educacional inclusivo é aquele que permite a convivência de todos no cotidiano, na diversidade que constitui os agrupamentos humanos” (BRASIL, Ministério da Educação. Projeto Escola Viva. Brasília, DF, 2005). 36 UNIDADE II - SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO UNIDADE II - SISTEMA 37 EDUCACIONAL INCLUSIVO 37 TESTE SEU CONHECIMENTO 38 UNIDADE II - SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO UNIDADE II - SISTEMA 39 EDUCACIONAL INCLUSIVO 39 2. Definição RESPOSTAS COMENTADAS Um lugar de residência e de trabalho, onde um grande Paradigma da número de pessoas, excluídas da sociedade mais ampla, Institucionalização por um longo período de tempo, levam juntas uma vida enclausurada e formalmente administrada. 1. As atitudes negativas Época histórica Justificativa Na Idade Média algumas Autoestima baixa, se pessoas com deficiência escondendo e fugindo da eram fontes de diversão. interação social. Paradigma de Serviços As crianças com deficiência que Invisibilidade na comunidade Na Antiguidade a pessoa não frequentam a escola são diferente era abandonada. muitas vezes invisíveis em suas comunidades. Integração da pessoa com deficiência na sociedade e suas diversas instâncias. A pessoa com deficiência tem o direito à convivência não Paradigma de Suportes segregada e ao acesso imediato e contínuo de todos os recursos disponibilizados a todos os outros cidadãos. Do século XVI aos dias de Invisibilidade na escola hoje surgiram novas ideias, Potencial de cada criança tende mas não necessariamente a ser negligenciado. voltadas ao ensino. Pobreza Discriminação por gênero Na Idade Média, Correlação entre pobreza e os dependiam da caridade baixos níveis de oportunidades humana. de ensino em geral. Na Idade Média essas Meninos com deficiência podem crianças eram consideradas ter prioridade sobre as meninas demoníacas. com deficiência. O alto nível de dependência Dependência Ignoradas à própria sorte, de algumas crianças com dependiam da boa vontade deficiência com seus cuidadores humana. pode ser uma barreira para a inclusão na educação. 40 UNIDADE II - SISTEMA EDUCACIONAL INCLUSIVO UNIDADE II - SISTEMA 41 EDUCACIONAL INCLUSIVO 41 3 U n i d a d e III A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR OBJETIVOS DA UNIDADE • Categorizar os termos e valores vigentes nas épocas. • Entender os movimentos mundiais de pessoas com deficiência. • Analisar a deficiência no contexto escolar. • Compreender algumas deficiências. HABILIDADES E COMPETÊNCIAS • Identificação dos termos corretos, validados por suas épocas. • Apropriação do termo “pessoa com deficiência”, considerando os movimentos mundiais. • Reinscrição da composição contexto escolar e deficiência UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 43 NO CONTEXTO ESCOLAr 43 OS TERMOS E OS VALORES VIGENTES NAS ÉPOCAS 3.1. “Os defeituosos”. O termo significava “indivíduos com deformidade” (principalmente física), “os deficientes”. Este termo significava “indivíduos com deficiência” física, intelectual, auditiva, visual ou múltipla, que os levava a executar as funções básicas de vida (andar, sentar-se, correr, escrever, tomar banho etc.) de uma forma diferente daquela como as pessoas sem deficiência faziam. E isto começou a ser aceito pela sociedade. “Os excepcionais”. O termo significava “indivíduos com deficiência intelectual”. A sociedade passou a utilizar estes três termos, que focalizam as deficiências em si sem reforçarem o que as pessoas não conseguiam fazer como a maioria. Simultaneamente, difundia-se o movimento em defesa dos direitos das pessoas superdotadas (expressão substituída por “pessoas com altas habilidades” ou “pessoas com indícios de altas habilidades”). O movimento mostrou que o termo “os excepcionais” não poderia referir-se exclusivamente aos que tinham deficiência intelectual, pois as pessoas com superdotação também são excepcionais por estarem na outra ponta da curva da inteligência humana. De 1981 até ± 1987. Por pressão das organizações de pessoas com deficiência, a ONU deu o nome de “Ano Internacional das Pessoas Deficientes” ao ano de 1981. E o mundo achou difícil começar a dizer ou escrever “pessoas deficientes”. O impacto desta terminologia foi profundo e ajudou a melhorar a imagem destas pessoas. “Pessoas deficientes”. Pela primeira vez em todo o mundo, o substantivo “deficientes” (como em “os deficientes”) passou a ser utilizado como adjetivo, sendo-lhe acrescentado o substantivo “pessoas”. A partir de 1981, nunca mais se utilizou a palavra “indivíduos” para se referir às pessoas com deficiência. Foi atribuído o valor “pessoas” àqueles que tinham deficiência, igualando-os em direitos e dignidade à maioria dos membros de qualquer sociedade ou país. De ± 1988 até ± 1993. Alguns líderes de organizações de pessoas com deficiência contestaram o termo “pessoa deficiente” alegando que ele sinaliza que a pessoa inteira é deficiente, o que era inaceitável para eles. “Pessoas portadoras de deficiência”. Termo que, utilizado somente em países de língua portuguesa, foi proposto para substituir o termo “pessoas deficientes”. Pela lei do menor esforço, logo reduziram este termo para “portadores de deficiência”. O “portar uma deficiência” passou a ser um valor agregado à pessoa. A deficiência passou a ser um detalhe da pessoa. O termo foi adotado nas Constituições federais e estaduais e em todas as leis e políticas pertinentes ao campo das deficiências. Conselhos, coordenadorias e associações passaram a incluir o termo em seus nomes oficiais. Segundo Sassaki (2003), em todas as épocas e localidades, a pergunta que não quer calar-se tem sido esta, com alguma variação: “Qual é o termo correto portador de deficiência, pessoa portadora de deficiência ou portador de necessidades especiais?” Jamais houve ou haverá um único termo correto, válido definitivamente De 1960 até 1980. em todos os tempos e espaços. A razão disto reside no fato de que a cada época são utilizados termos cujo significado seja compatível com os valores vigentes em cada sociedade, enquanto esta evolui em seu relacionamento com as pessoas que possuem este ou aquele tipo de deficiência. ÉPOCA No começo da história, durante séculos. Século XX até aproxadamente 1960. 44 TERMOS E SIGNIFICADOS VALOR DA PESSOA “Os inválidos”. O termo significava “indivíduos sem valor”. Em pleno século XX, ainda se utilizava este termo, embora já sem nenhum sentido pejorativo. Aquele que tinha deficiência era tido como socialmente inútil, um peso morto para a sociedade, um fardo para a família, alguém sem valor profissional. “Os incapacitados”. O termo significava, de início, “indivíduos sem capacidade” e, mais tarde, evoluiu e passou a significar “indivíduos com capacidade residual”. Durante várias décadas, era comum o uso deste termo para designar pessoas com deficiência de qualquer idade. Uma variação foi o termo “os incapazes”, que significava “indivíduos que não são capazes” de fazer algumas coisas por causa da deficiência que tinham. Foi um avanço a sociedade reconhecer que a pessoa com deficiência poderia ter capacidade residual, mesmo que reduzida. Mas, ao mesmo tempo, considerava-se que a deficiência, qualquer que fosse o tipo, eliminava ou reduzia a capacidade da pessoa em todos os aspectos: físico, psicológico, social, profissional etc. UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 45 NO CONTEXTO ESCOLAr 45 De ± 1990 até hoje. O art. 5° da Resolução CNE/ CEB n° 2, de 11/9/01, explica que as necessidades especiais decorrem de três situações, uma das quais envolvendo dificuldades vinculadas a deficiências e dificuldades não vinculadas a uma causa orgânica. “Pessoas com necessidades especiais”. O termo surgiu primeiramente para substituir “deficiência” por “necessidades especiais”, daí a expressão “portadores de necessidades especiais”. Depois, esse termo passou a ter significado próprio sem substituir o nome “pessoas com deficiência”. De início, “necessidades especiais” representava apenas um novo termo. Depois, com a vigência da Resolução n° 2, “necessidades especiais” passou a ser um valor agregado tanto à pessoa com deficiência quanto a outras pessoas. Mesma época acima. Surgiram expressões como “crianças especiais”, “alunos especiais”, “pacientes especiais” e assim por diante, numa tentativa de amenizar a contundência da palavra “deficiente”. “Pessoas especiais”. O termo apareceu como uma forma reduzida da expressão “pessoas com necessidades especiais”, constituindo um eufemismo dificilmente aceitável para designar um segmento populacional. Mesma época acima. Surgiram expressões como “crianças especiais”, “alunos especiais”, “pacientes especiais” e assim por diante numa tentativa de amenizar a contundência da palavra “deficiente”. O adjetivo “especial” permanece como uma simples palavra, sem agregar valor diferenciado às pessoas com deficiência. O “especial” não é qualificativo exclusivo das pessoas que têm deficiência, pois ele se aplica a qualquer pessoa. “Pessoas com deficiência” e pessoas sem deficiência, quando tiverem necessidades educacionais especiais e se encontrarem segregadas, têm o direito de fazer parte das escolas inclusivas e da sociedade inclusiva. O valor agregado às pessoas é o de elas fazerem parte do grande segmento dos excluídos que, com o seu poder pessoal, exigem sua inclusão em todos os aspectos da vida da sociedade. Trata-se do empoderamento. Em junho de 1994. A Declaração de Salamanca preconiza a educação inclusiva para todos, tenham ou não uma deficiência. Em maio de 2002. Frei Betto escreveu no jornal O Estado de São Paulo um artigo em que propõe o termo “portadores de direitos especiais” e a sigla PODE. Alega o proponente que o substantivo “deficiente” e o adjetivo “deficiente” encerram o significado de falha ou imperfeição enquanto que a sigla PODE exprime capacidade. O artigo, ou parte dele, foi reproduzido em revistas especializadas em assuntos de deficiência. “Portadores de direitos especiais”. O termo e a sigla apresentam problemas que inviabilizam a sua adoção em substituição a qualquer outro termo para designar pessoas que têm deficiência. O termo “portadores” já vem sendo questionado por sua alusão a “carregadores”, pessoas que “portam” (levam) uma deficiência. O termo “direitos especiais” é contraditório porque as pessoas com deficiência exigem equiparação de direitos e não direitos especiais. E mesmo que defendessem direitos especiais, o nome “portadores de direitos especiais” não poderia ser exclusivo das pessoas com deficiência, pois qualquer outro grupo vulnerável pode reivindicar direitos especiais. Não há valor a ser agregado com a adoção deste termo, por motivos expostos na coluna ao lado e nesta. A sigla PODE, apesar de lembrar “capacidade”, apresenta problemas de uso: 1) Imaginem a mídia e outros autores escrevendo ou falando assim: “Os Podes de Osasco terão audiência com o Prefeito...”, “A Pode Maria de Souza manifestou-se a favor...”, “A sugestão de José Maurício, que é um Pode, pode ser aprovada hoje...” 2) Pelas normas brasileiras de ortografia, a sigla PODE precisa ser grafada “Pode”. Norma: Toda sigla com mais de 3 letras pronunciada como uma palavra deve ser grafada em caixa baixa com exceção da letra inicial. De ± 1990 até hoje e além. A década de 90 e a primeira década do século 21 e do Terceiro Milênio estão sendo marcadas por eventos mundiais, liderados por organizações de pessoas com deficiência. “Pessoas com deficiência” passa a ser o termo preferido por um número cada vez maior de adeptos, boa parte dos quais é constituída por pessoas com deficiência que, no maior evento (“Encontrão”) das organizações de pessoas com deficiência, realizado no Recife em 2000, conclamaram o público a adotar este termo. Elas esclareceram que não são “portadoras de deficiência” e que não querem ser chamadas com tal nome. Os valores agregados às pessoas com deficiência são: 1) o do empoderamento [uso do poder pessoal para fazer escolhas, tomar decisões e assumir o controle da situação de cada um] e 2) o da responsabilidade de contribuir com seus talentos para mudar a sociedade rumo à inclusão de todas as pessoas, com ou sem deficiência. Fonte: SASSAKI, Romeu Kazumi. Como chamar as pessoas que tem deficiência?.São Paulo: RNR, 2003. 46 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 47 NO CONTEXTO ESCOLAr 47 OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DO TERMO “PESSOAS COM DEFICIÊNCIA” A tendência é no sentido de parar de dizer ou escrever a palavra “portadora” 3.2. (como substantivo e como adjetivo), A condição de ter uma deficiência faz parte da pessoa e esta pessoa não porta sua deficiência. Ela tem uma deficiência. Tanto o verbo “portar” como o substantivo ou o adjetivo “portadora” não se aplicam a uma A partir da tabela, Romeu Kazumi Sassaki (2003), elucida que os movimentos condição inata ou adquirida que faz parte da pessoa. Por exemplo, não dizemos e mundiais de pessoas com deficiência, incluindo os do Brasil, estão debatendo o nome nem escrevemos que uma certa pessoa é portadora de olhos verdes ou pele morena, pelo qual elas desejam ser chamadas. Mundialmente, já fecharam a questão: querem escreve Romeu Kazumi SASSAKI (2003). ser chamadas de “pessoas com deficiência” em todos os idiomas e elenca os princípios A ideia que fundamenta esta tendência é de que uma pessoa só porta algo que básicos para os movimentos terem chegado ao nome “pessoas com deficiência”: ela possa não portar, deliberada ou casualmente. Sassaki (2003) lembra do exemplo 1. Não esconder ou camuflar a deficiência; de uma pessoa que pode portar um guarda-chuva se houver necessidade e deixá-lo 2. Não aceitar o consolo da falsa ideia de que todo mundo tem deficiência; em algum lugar por esquecimento ou por assim decidir e é evidente que isto não é possível com uma deficiência. 3. Mostrar com dignidade a realidade da deficiência; 4. Valorizar as diferenças e necessidades decorrentes da deficiência; 5. Combater neologismos que tentam diluir as diferenças, tais como “pessoas com capacidades especiais”, “pessoas com eficiências diferentes”, “pessoas com habilidades diferenciadas”, “pessoas deficientes”, “pessoas especiais”, A DEFICIÊNCIA E A EFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR 3.3. “é desnecessário discutir a questão das deficiências porque todos nós somos imperfeitos”, “não se preocupem, agiremos como avestruzes com a cabeça dentro da areia” (i.é, “aceitaremos vocês sem olhar para as suas deficiências”); 6. Defender a igualdade entre as pessoas com deficiência e as demais Vygotsky (1995) ressalta que, se é fato que o defeito traz algum tipo de limitação ao ser humano, também o é que ele estimula maneiras de se superar estas limitações e alcançar tal desenvolvimento de outra forma. Por isso, para Vygotsky, o defeito origina aquilo que podemos chamar de estímulos para sua compensação. pessoas em termos de direitos e dignidade, o que exige a equiparação de oportunidades para pessoas com deficiência atendendo às diferenças A educação das crianças com diferentes defeitos deve basear-se no individuais e necessidades especiais, que não devem ser ignoradas; fato de que simultaneamente com o defeito estão dadas também as tendências psicológicas de uma direção oposta; estão dadas 7. Identificar nas diferenças todos os direitos que lhes são pertinentes e as possibilidades de compensação para vencer o defeito e de que a partir daí encontrar medidas específicas para o Estado e a sociedade precisamente essas possibilidades se apresentam em primeiro plano diminuírem ou eliminarem as “restrições de participação” (dificuldades ou incapacidades causadas pelos ambientes humano e físico contra as pessoas no desenvolvimento de crianças e devem ser incluídas no processo educativo como sua força motriz (VYGOTSKY, 1995, p.32). com deficiência). Ao enfatizar o papel da cooperação e da coletividade com toda a sociedade como fatores fundamentais na superação da deficiência, Vygotsky se contrapôs 48 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 49 NO CONTEXTO ESCOLAr 49 frontalmente aos modelos educacionais baseado na segregação das pessoas com deficiências em escolas específicas à suas deficiências, pois considerava este processo pa r a r e f leti r como uma forma de deixar estas pessoas a margem da cultura da qual se constituíam, Na tentativa de definir o que é Educação Inclusiva, Leny Magalhães impedindo, portanto, qualquer tentativa de sua transformação. Em vista disso, MRECH (2001) propõe pela negativa os seguintes itens: Vygotsky se recusava a denominar a educação escolar para pessoas com deficiência sob a alcunha de educação especial, pois para ele estas crianças deveriam ser educadas Inclusão não é: tal como quaisquer outras, cujo objetivo final seria a apropriação da cultura produzida • levar crianças às classes comuns sem o acompanhamento do professor pela humanidade, ainda que efetivada por caminhos diferentes, os quais cabem as especializado. escolas e professores instituírem conjuntamente aos alunos e alunas. • ignorar as necessidades específicas da criança. • fazer as crianças seguirem um processo único de desenvolvimento, ao Esta consideração da deficiência aponta sobre a própria conceituação da mesmo tempo e para todas as idades. deficiência. Não estaria a deficiência situada na forma monocultural que enxergamos • extinguir o atendimento de educação especial antes do tempo. a realidade, cuja diferença é vista como defeito, algo a ser corrigido, um equívoco da • esperar que os professores de classe regular ensinem as crianças com natureza? E quando direcionamos nossas análises para a escola, não estaríamos nós deficiências sem um suporte técnico. transmitindo nossa incapacidade de criar métodos para a superação das deficiências para o próprio deficiente? Uma resposta é encontrada nessas seguintes palavras: 3.4. COMPREENDENDO ALGUMAS DEFICIÊNCIAS É um equívoco ver na anormalidade só uma enfermidade. Na criança anormal nós só vemos o defeito e por isso nossa teoria sobre a criança, Caros alunos, um interessante levantamento das taxas de prevalência das o tratamento dado a ela se limita a constatação de uma porcentagem diferentes tipologias de alunos com deficiência foi elaborado a partir de um pedido de cegueira, surdez ou alterações do paladar. Detemo-nos nos gramas de enfermidade e não notamos os quilos de saúde. Notamos os da Secretaria de Estado da Administração Educativa, do Ministério da Educação de defeitos e não percebemos as esferas colossais enriquecidas pela vida Portugal, em 2001. O trabalho completo está disponível em: http://www.slideshare. que possuem as crianças que apresentam anormalidades (VYGOTSKY net/jcoloa/prevalencias-de-cri para a sua consulta, mas o que mais nos importa neste apud Picollo, 1995) documento oficial são alguns conceitos chave: Concordando com Picollo, o papel de exclusão que a sociedade outorga Alunos com Necessidades Educativas Especiais – alunos que exigem recursos às pessoas com deficiências, predetermina o destino delas, impedindo-as de ou adaptações especiais no processo de ensino/aprendizagem que não são comuns à desenvolver suas potencialidades e as compensações necessárias para a superação maioria dos alunos da sua idade, por apresentarem dificuldades ou incapacidades que de seus defeitos, ou melhor, de seu desenvolvimento diferenciado. Sem mediação se refletem numa ou mais áreas de aprendizagem. da diferença, a homogeneidade impera nas relações sociais. Sem o contato com o coletivo, as deficiências apresentadas tendem a se agravar ainda mais. É fundamental Alunos com problemas de baixa frequência e alta intensidade – Alunos destacarmos que o aspecto chave da aprendizagem está na interação social coletiva. com altas probabilidades de possuírem uma etiologia biológica, inata ou congênita e que foram (ou deveriam ter sido) detectados precocemente, exigindo um tratamento 50 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 51 NO CONTEXTO ESCOLAr 51 significativo e serviços de reabilitação, bem como recursos e meios adicionais para apoiar as suas necessidades educativas. • Os Problemas de Linguagem e Fala6 inserem-se no domínio de Fala, Linguagem e Comunicação. Embora esta categoria ultrapasse os problemas de baixa frequência e alta intensidade associados a este domínio Alunos com necessidades educativas especiais de caráter prolongado especifico, optamos por utilizar os dados mencionados para a mesma, por – Alunos que experienciam graves dificuldades no processo de aprendizagem e não dispormos de dados exclusivos dos problemas específicos de linguagem participação no contexto escolar, decorrentes da interação entre fatores ambientais (oral e escrita) e problemas graves de comunicação, que são aqueles que (físicos sociais e atitudinais) e limitações acentuadas ao nível do seu funcionamento podem ser enquadrados no âmbito das necessidades educativas especiais num ou mais dos seguintes domínios: de caráter prolongado. 99 Sensorial (audição, visão e outros); • Os Problemas Graves de Comportamento7 inserem-se no domínio Emocional / Personalidade. 99 Motor; 99 Cognitivos; Recomendo que você leia as ORIENTAÇÕES GERAIS PARA APLICAÇÃO DE CONDIÇÕES ESPECIAIS DE EXAME8 em Alunos Com Necessidades Educacionais 99 Fala, Linguagem e Comunicação; Especiais Do Ensino Básico, organizado pelo Júri Nacional de Exames em conjunto com 99 Emocional/Personalidade; o Ministério da Educação também de Portugal em 2011, que esclarece muito bem 99 Saúde . E a consideração que foi feita: • Surdez (moderada, severa e profunda) insere-se no domínio da audição. quais alunos podem ser considerados e de que condições especiais podem usufruir um aluno com necessidades educacionais especiais de caráter prolongado. Veja, a título de exemplo, algumas condições especiais que podem ser adotadas associadas ou isoladamente: Não se inclui a surdez de grau ligeiro em virtude de se considerar que os incluídos nesta categoria não necessitam de medidas especiais de educação. Domínio Sensorial – Visão • Cegos e Visão Reduzida insere-se no domínio da visão. • A Multieficiencia3 , as Dificuldades de Aprendizagem Severas4 e os Atrasos Globais de Desenvolvimento5 incluem-se no domínio cognitivo, uma vez que é comum a estas três categorias a existência de problemas Alunos com baixa-visão: • prova com os caracteres ampliados; cognitivos graves. • tolerância para além do tempo regulamentar; 3 Alunos que apresentam, simultaneamente, pelo menos dois tipos de deficiência: uma deficiência mental de grau severo ou profundo associada a uma deficiência sensorial (auditiva ou visual) ou a uma deficiência motora também de grau severo ou profundo. 4 Alunos que apresentam deficiências ou incapacidades de grau severo que não se incluem em nenhuma das categorias existentes (surdez, visual, motora) e que se traduzem em necessidades especiais a nível das aprendizagens. 5 Crianças entre os 0 e os 6 anos que demonstram um significativo atraso em relação à sua idade cronológica em todas as áreas: cognitiva; motora, linguagem, autonomia e competências sociais. 52 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR 6 Crianças e jovens que apresentam perturbações a nível da articulação, da linguagem, da voz, e/ou da fluência que afetam o seu desempenho escolar . 7 Alunos que apresentam perturbações no nível da personalidade ou da conduta, que comprometem de forma grave a adaptação escolar e as suas aprendizagens. 8 Disponível em: http://www.eb23-pico-regalados.rcts.pt/docs/exames_07/orientacoes_gerais_nee_07.pdf UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 53 NO CONTEXTO ESCOLAr 53 • utilização de auxiliares técnicos de leitura (lupa, lupa TV, luminária adaptada etc.); 3.4.2. DEFICIÊNCIA VISUAL • realização do exame em sala à parte permitindo a utilização de meios informáticos ou que um professor que não tenha lecionado a disciplina em exame leia o enunciado da prova ao aluno (particularmente no caso de alunos que exigem um tipo de ampliação muito acentuada); Segundo o Manual de Convivência – Pessoas com Deficiência e Mobilidade Reduzida, material realizado por Mara Gabrilli (s/d): • exames em nível de escola equivalentes a exames nacionais, quando o aluno usufruiu de condições especiais de avaliação e adaptações curriculares nas disciplinas de Língua Portuguesa e/ou Matemática. Cego é aquele que apresenta desde ausência total de visão até a perda da percepção luminosa. Na medicina duas escalas oftalmológicas estabelecem a existência de dois grupamentos de deficientes visuais: acuidade visual (ou seja, aquilo que se enxerga a determinada distância) e campo visual (a amplitude da área alcançada pela visão). O termo cegueira não significa, necessariamente, total incapacidade para ver. Na 3.4.1. DEFICIÊNCIA FÍSICA verdade, sob cegueira poderemos encontrar pessoas com vários graus de visão residual. Engloba prejuízos dessa aptidão a níveis incapacitantes para o exercício de tarefas rotineiras. (GABRILLI, Mara. Manual de É a disfunção ou interrupção dos movimentos de um ou mais membros: superiores, inferiores ou ambos e conforme o grau do comprometimento ou tipo Convivência – Pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. São Paulo. Disponível em http://www.ebah.com.br/content/ABAAABXwwAH/ manual-convivencia-pessoas-com-deficiencia) de acometimento fala-se em paralisia ou paresia. O termo paralisia se refere à perda da capacidade de contração muscular voluntária, por interrupção funcional ou orgânica em um ponto qualquer da via motora, que pode ir do córtex cerebral até o próprio músculo; fala-se em paralisia quando todo movimento nestas proporções são impossíveis. O termo paresia vem do grego PARESIS e significa relaxação, debilidade e refere-se quando o movimento está apenas limitado ou fraco. Nos casos de paresias, a motilidade se apresenta apenas num padrão abaixo do normal, no que se refere à força muscular, precisão do movimento, amplitude do movimento e a resistência muscular localizada, ou seja, a um comprometimento parcial, a uma semiparalisia. 54 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 55 NO CONTEXTO ESCOLAr 55 3.4.3. DEFICIÊNCIA AUDITIVA 3.4.5. Deficiência auditiva é considerada como a diferença existente entre o DEFICIÊNCIA MULTIPLA É a associação de duas ou mais deficiências, podendo ser: desempenho do indivíduo e a habilidade normal para a detecção sonora de acordo • Deficiência intelectual associada à deficiência física; com padrões estabelecidos pela American National Standards Institute (ANSI - 1989). • Deficiência auditiva associada à deficiência intelectual e deficiência física; A surdez, sendo de origem congênita, é quando se nasce surdo, isto é, não se tem a capacidade de ouvir nenhum som. Por consequência, surge uma série de dificuldades • Deficiência visual associada à paralisia cerebral; na aquisição da linguagem, bem como no desenvolvimento da comunicação. • Segundo a definição da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação (MEC), “deficiência múltipla é a expressão adotada para designar pessoas que têm mais de uma deficiência. É uma condição heterogênea que 3.4.4. identifica diferentes grupos de pessoas, revelando associações diversas de DEFICIÊNCIA INTELECTUAL deficiências que afetam, mais ou menos intensamente, o funcionamento individual e o relacionamento social”. Caracteriza-se pelo inferior funcionamento intelectual, geralmente abaixo da média, que, juntamente com déficits no comportamento adaptativo, manifesta-se no período de desenvolvimento (GROSSMAN 1973). A deficiência mental (DM) é definida pela Associação Americana de Desenvolvimento Mental (1990); como “a condição 3.4.6. DEFICIÊNCIA AUDITIVA E VISUAL na qual o cérebro (órgão essencial para a aprendizagem) está impedido de atingir um desenvolvimento adequado, dificultando a aprendizagem no indivíduo, privando-o de ajustamento social”. Segundo o Manual de Convivência – Pessoas com Deficiência e Mobilidade Reduzida, material realizado por Mara Gabrilli (s/d): Segundo a AAMR (Associação Americana de Deficiência Mental) e DSM-IV É uma deficiência única que apresenta a perda da audição e da visão (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), por deficiência mental concomitantemente em diferentes graus, o que leva a pessoa surdocega a desenvolver entende-se o estado de redução notável do funcionamento intelectual significativamente diferentes formas de comunicação para entender e interagir com pessoas e meio inferior à média, associado a limitações pelo menos em dois aspectos do funcionamento ambiente. adaptativo: comunicação, cuidados pessoais, competências domésticas, habilidades sociais, utilização dos recursos comunitários, autonomia, saúde e segurança, aptidões escolares, lazer e trabalho. Há tempos, essa deficiência era considerada como deficiência múltipla sensorial, mas suas particularidades comunicacionais estabeleceram a necessidade de uma designação e especificação de deficiência própria. A surdocegueira é a deficiência sensorial em sua plenitude, pois o contato com o mundo exterior pode ser totalmente cerceado. 56 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 57 NO CONTEXTO ESCOLAr 57 Pessoas que têm surdocegueira podem apresentar diferentes níveis da deficiência. Há surdocego que enxergue pouco e não ouça nada, bem como quem ouça um pouco e não enxergue nada. Há também quem não pode ouvir nem ver completamente nada. Segundo Senso do MEC (Ministério da Educação), no Brasil TESTE SEU CONHECIMENTO existe 1.250 pessoas com surdocegueira. Porém, especialistas da área acreditam ter muito mais (GABRILLI, Mara. Manual de Convivência – Pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. São Paulo. Disponível em http://www.ebah.com.br/content/ ABAAABXwwAH/manual-convivencia-pessoas-com-deficiencia). 3.5. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE III Para estudar a deficiência no contexto escolar, categorizamos os termos e valores vigentes nas épocas, entendemos os movimentos mundiais de pessoas com deficiência e fizemos a reinscrição da composição contexto escolar e deficiência. Nesta unidade, a teleaula e o fórum de discussão no nosso ambiente virtual de aprendizagem (AVA) são de suma importância para a sua aprendizagem. 58 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 59 NO CONTEXTO ESCOLAr 59 60 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA 61 NO CONTEXTO ESCOLAr 61 4 RESPOSTAS COMENTADAS 1. Unidade IV OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA ÉPOCA, TERMOS E/OU VALOR DA PESSOA “pessoas com capacidades especiais” Remete ao art. 5º da Resolução CNE 2 de 2011. Pessoas com necessidades Especiais. “pessoas com eficiências diferentes” De 1960 a 1980 “pessoas com habilidades diferenciadas” De 1960 a 1980 “pessoas deficientes” De 1981 até 1987 “pessoas especiais” Surgiu como redução da expressão “Pessoas com necessidades Especiais” “é desnecessário discutir a questão das deficiências porque todos nós somos imperfeitos” Maio de 2002 “não se preocupem, agiremos como avestruzes com a cabeça dentro da areia” (que significa: “aceitaremos vocês sem olhar para as suas deficiências”) Século XX até 1960 OBJETIVOS DA UNIDADE • Compreender os documentos oficiais sobre a educação inclusiva. • Analisar os mitos e contrastar os consensos. 2. a) Deficiência física HABILIDADES E COMPETÊNCIAS • Interpretação dos documentos oficiais sobre a educação inclusiva. • Investigação dos mitos e avaliação dos consensos. ( c ) Detecção sonora b) Deficiência visual ( f ) Associações diversas deficiências c) Deficiência auditiva ( g ) surdocegueira d) Domínio emocional ( a ) paresia e) Domínio intelectual ( e ) aprendizagem f) Deficiências múltiplas ( d ) Perturbações da conduta g) Deficiência auditiva e visual ( b ) Perda da percepção luminosa 62 UNIDADE III - A DEFICIÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 63 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 63 DOCUMENTOS OFICIAIS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 4.1. com necessidades especiais aqueles que apresentam deficiência (mental, auditiva, física, visual e múltipla), superdotação ou altas habilidades ou condutas típicas devido a quadros sindrômicos, neurológicos, psiquiátricos e psicológicos que alterem sua adaptação social a ponto de exigir intervenção especializada. Segundo Rosângela Gavioli Prieto (2004), o Brasil enfrenta nesse início de século uma série de desafios na área de Educação: o ensino fundamental de anos, a expansão Já, a Declaração de Salamanca (1994) defende que esses alunos apresentam do ensino médio, os índices de repetência e evasão escolar, além dos mecanismos dificuldades de escolarização decorrentes de “condições individuais, econômicas objetivos e subjetivos que têm impedido o acesso ou dificultado a permanência de ou socioculturais”, destacando como exemplos as crianças com condições físicas, alunos com deficiência em escolas regulares. intelectuais, sociais, emocionais e sensoriais diferenciadas; crianças com deficiência e bem dotadas; crianças trabalhadoras ou que vivem nas ruas; crianças de populações Diante desse quadro, há que se atentar, cada vez mais, para que direitos, historicamente conquistados sejam assegurados e possam proporcionar condições distantes ou nômades; crianças de minorias linguísticas, étnicas e culturais; crianças de outros grupos ou zonas desfavorecidos ou marginalizados. adequadas à integração escolar e social de todos os alunos. Rosângela Gavioli Prieto (2004), assinala que “no item “Diagnóstico” do PNE/01 Alguns referenciais adotados em documentos oficiais sobre educação especial as duas expressões (portadores de deficiência e necessidades educacionais especiais) apontam a política de melhoria da educação para todos, mas devido ao seu grande são utilizadas como sinônimas. Para ilustrar tal afirmação, localiza-se nesse texto a número ficaremos restritos a apresentação legal de apenas sete documentos oficiais seguinte informação: “a Constituição Federal estabelece o direito de as pessoas com nacionais que, a meu ver, são os que dão sustentação à política de educação inclusiva. necessidades especiais receberem educação preferencialmente na rede regular de Como vocês estudaram na Unidade III e teleaulas, Prieto (2004), lembra-nos de que nos documentos oficiais elaborados entre 1988 e 2001 podem ser localizadas várias mudanças na terminologia adotada para identificar o aluno da educação inclusiva. Enquanto no texto da CF/88 o atendimento educacional especializado é conferido aos portadores de deficiência, na LDB/96 a denominação adotada é educando portador de necessidades especiais. Ainda que numa perspectiva particular de interpretação se possa conferir à segunda expressão possibilidade de abarcar outros alunos para além dos portadores de deficiência, não há explicitação no texto da LDB/96 sobre a população de referência e, muitas vezes, essas expressões são erroneamente utilizadas como sinônimas. A abrangência da expressão necessidades especiais pode situar-se tanto nos ensino”. Outro evidente equívoco é localizado na referência aos dados estimativos da Organização Mundial de Saúde (OMS). Nesse trecho do texto informa que 10% da população apresentam necessidades especiais e não deficiência, termo utilizado pela referida Organização. Na continuidade, esse documento, ao registrar os indicadores de atendimento a essa população, utiliza os dados estatísticos do Censo Escolar 1998, que traz o número de atendimentos prestados a alunos com algum tipo de deficiência, com superdotação e com condutas típicas, termos apoiados no documento Política Nacional de Educação Especial (1994), já mencionada. A Resolução 02/01, que institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, apresenta definições que tem gerado muitas preocupações, bem como manifestações de certos segmentos ou membros da sociedade civil e acadêmica. limites explicitados pela Política Nacional de Educação Especial (1994) como pela Declaração de Salamanca (1994). O primeiro documento estabelece que são alunos 64 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 65 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 65 Nos documentos analisados a educação especial é caracterizada como de cada profissional da educação, em suas diferentes dimensões e respeitando suas “modalidade de educação escolar” a ser “promovida sistematicamente particularidades. A escola e seus professores, particularmente, não podem ser tomados nos diferentes níveis de ensino” (PNE/01). Na LDB/96 esta modalidade se caracteriza por assegurar “currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos para atender às necessidades como únicos responsáveis pela garantia da aprendizagem de todos os alunos, mas sim como parte integrante da implementação de políticas de educação, que devem estar dos educandos portadores de necessidades especiais” (art. 59, I). explicitadas em programas de governo e ordenadas em metas e objetivos nos planos Com a crescente demanda de alunos com necessidades educacionais de educação em âmbitos das três esferas de governo. especiais nas classes comuns tem-se intensificado a necessidade de ampliação das produções teóricas que nos auxiliem a compreender as diferentes possibilidades de organização curricular e demais alterações recomendadas, exigidas ou passíveis de realização para melhor atender à diversidade de características de aprendizagem dos alunos (PRIETO, A tão almejada qualidade de ensino para que todos os alunos tenham seu direito à educação requer a garantia de investimento em ações e medidas que visem a melhoria da qualidade da educação, o investimento em uma ampla formação dos Rosângela Gavioli. Políticas de melhoria da escola pública para educadores, a remoção de barreiras, a previsão e provisão de recursos materiais e todos: tensões atuais. Sessão Especial. 2004. Universidade de São humanos dentre outras possibilidades de ação. Nessa perspectiva, pode-se potencializar Paulo). um movimento de transformação da realidade educacional brasileira para se conseguir reverter o percurso de exclusão de crianças, jovens e adultos nos sistemas de ensino. Quanto ao local do atendimento educacional especializado, a autora acima mencionada ressalta: Querido aluno, para melhor compreender os assuntos abordados, leia na íntegra os documentos e participe dos debates em torno da elaboração dos planos de Na LDB/96 e no PNE/01, está previsto que o atendimento educacional educação. especializado deva ocorrer preferencialmente na rede regular de ensino. Todavia, ainda que possa ser caracterizada por muitos autores como um inegável avanço, “preferencialmente” pode ser o termochave para que não se cumpra o artigo, pois quem ‘dá primazia a’ já tem arbitrada legalmente a porta de exceção. 4.1.1. DECLARAÇÃO DIREITOS HUMANOS Na direção de atender a essa prescrição de origem constitucional, na LDB/96 estão previstos serviços de apoio especializado, na escola regular, e serviços especializados (PRIETO, Rosângela Gavioli. Políticas A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS adotada e de melhoria da escola pública para todos: tensões atuais. Sessão proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 Especial. 2004. Universidade de São Paulo). de dezembro de 1948, considera, por exemplo, que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis Para que possamos ver atendidos os dispositivos sobre educação especial na perspectiva da universalização do atendimento dos alunos com necessidades educacionais especiais, devem ser repensadas as condições favorecedoras à permanência desses alunos no ensino regular. A proposta de atender alunos com necessidades educacionais especiais junto aos demais alunos, portanto, priorizando as classes comuns, implica atentar para mudanças, no âmbito dos sistemas de ensino, das unidades escolares, da prática 66 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo, que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum. Por fim, a declaração ressalta também a importância de se promover o respeito a esses direitos e liberdades, por meio do esforço de cada indivíduo e órgão da sociedade orientados pela educação. UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 67 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 67 4.1.2. CONSTITUIÇÃO 88 – LDBEN 9394/96 § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial. A LEI DE DIRETRIZES E BASES - Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. A educação abrange os § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no comuns de ensino regular. trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações § 3º A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem da sociedade civil, bem como nas manifestações culturais. início na faixa etária de zero a seis anos, durante a educação infantil. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade Assegura aos educandos com necessidades especiais, nos sistemas de ensino: e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização trabalho. específica para atender às suas necessidades; II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir De acordo com o Título II e Art. 3º dos princípios e fins da Educação Nacional pertencente a esta lei, o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior para atendimento especializado, bem como professores do II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas pensamento, a arte e o saber; classes comuns; III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; IV - educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância; na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar; VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino; revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; V - acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular. IX - garantia de padrão de qualidade; X - valorização da experiência extra-escolar; Como alternativa preferencial, o Poder Público adotará a ampliação do XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. atendimento aos educandos com necessidades especiais na própria rede pública Ao expor os Níveis e as Modalidades de Educação e Ensino, entende regular de ensino, independentemente do apoio às instituições previstas neste artigo. por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais. 68 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 69 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 69 4.1.3. DECLARAÇÃO DE SALAMANCA - Sobre Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades 4.1.4. DIRETRIZES PARA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA EDUCAÇÃO BÁSICA Educativas Especiais As DIRETRIZES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO ESPECIAL NA EDUCAÇÃO Reconvocando as várias declarações das Nações Unidas que culminaram no BÁSICA escrito pelo CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO em 19 de Novembro de documento das Nações Unidas “Regras Padrões sobre Equalização de Oportunidades 2001, envolvem estudos abrangentes relativos à matéria que, no caso, é a Educação para Pessoas com Deficiências”, o qual demanda que os Estados assegurem que a Especial. Muitas interrogações voltam-se para a pesquisa sobre o assunto: sua educação de pessoas com deficiências seja parte integrante do sistema educacional. necessidade, sua incidência no âmbito da Educação e do Ensino, como atendimento Notando com satisfação um incremento no envolvimento de governos, grupos de advocacia, comunidades e pais, e em particular de organizações de pessoas com deficiências, na busca pela melhoria do acesso à educação para a maioria daqueles cujas necessidades especiais ainda se encontram desprovidas; e reconhecendo como evidência para tal envolvimento a participação ativa do alto nível de representantes e de vários governos, agências especializadas, e organizações intergovernamentais naquela Conferência Mundial, os delegados proclamaram que: • toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem, • toda criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas, à clientela constituída de portadores de deficiências detectáveis nas mais diversas áreas educacionais, políticas e sociais. O Parecer é resultado do conjunto de estudos provenientes das bases, onde o fenômeno é vivido e trabalhado. A elaboração de projeto preliminar de Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica havia sido discutida por diversas vezes no âmbito da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, para a qual foi enviado o documento “Referenciais para a Educação Especial”. Após esses estudos preliminares, a Câmara de Educação Básica decidiu retomar os trabalhos, sugerindo que esse documento fosse encaminhado aos sistemas de ensino de todo o Brasil, de modo que suas orientações pudessem contribuir para a normatização dos serviços previstos nos Artigos 58, 59 e 60, do Capítulo V, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN. • sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deveriam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades, • aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola para analisar, discutir e sintetizar o conjunto de estudos oferecidos pelas diversas instâncias educacionais mencionadas. Com o material assim disposto, tornou-se regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na possível, atendendo aos “Referenciais para a Educação Especial”, elaborar o texto criança, capaz de satisfazer a tais necessidades, próprio para a edição das Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação • escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas provêem uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional. 70 Isto posto, tem agora a Câmara de Educação Básica os elementos indispensáveis UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA Básica em dois grandes temas: a) TEMA I: A Organização dos Sistemas de Ensino para o Atendimento ao Aluno que Apresenta Necessidades Educacionais Especiais; e b) TEMA II: A Formação do Professor. UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 71 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 71 POLÍTICA NACIONAL DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA 4.1.5. PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA Educação Nacional. É organizada para tematizar a educação escolar, da Educação Infantil à Pós-Graduação, e realizada, em diferentes territórios e espaços institucionais, nas escolas, municípios, Distrito Federal, estados e país. Estudantes, pais, profissionais da educação, gestores, agentes públicos e sociedade civil organizada de modo geral, A PNEE, documento elaborado pelo Grupo de Trabalho nomeado pela Portaria tem em suas mãos, a oportunidade de conferir os rumos da educação brasileira. Ministerial nº 555, de 5 de junho de 2007, prorrogada pela Portaria nº 948, de 09 de outubro de 2007, afirma que o movimento mundial pela educação inclusiva é uma ação política, cultural, social e pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos os alunos de estarem juntos, aprendendo e participando, sem nenhum tipo de discriminação. A educação inclusiva constitui um paradigma educacional CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA 4.1.7. fundamentado na concepção de direitos humanos, que conjuga igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em relação à ideia de equidade formal ao contextualizar as circunstâncias históricas da produção da exclusão dentro e fora da escola. Elaborada ao longo de quatro anos, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – 2007, contou com a participação de 192 países membros da ONU e de centenas de representantes da sociedade civil de todo o mundo. Em 13 Ao reconhecer que as dificuldades enfrentadas nos sistemas de ensino evidenciam a necessidade de confrontar as práticas discriminatórias e criar alternativas para superá-las, a educação inclusiva assume espaço central no debate acerca da sociedade contemporânea e do papel da escola na superação da lógica da exclusão. A partir dos referenciais para a construção de sistemas educacionais inclusivos, a organização de escolas e classes especiais passa a ser repensada, implicando uma mudança estrutural e cultural da escola para que todos os alunos tenham suas especificidades atendidas. Nesta perspectiva, o Ministério da Educação/Secretaria de Educação Especial de dezembro de 2006, em sessão solene da ONU, foi aprovado o texto final deste tratado internacional, firmado pelo Brasil e por mais 85 nações, em 30 de março de 2007. Esta não é a primeira nem será a última convenção promovida pela ONU com o objetivo de tornar efetivos os direitos das pessoas com deficiência, embora sejam pessoas como as demais e cidadãos dotados de direitos como quaisquer outros, seja pela legislação local, seja pelos vários documentos internacionais como a Declaração dos Direitos Humanos da ONU. apresenta a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, que acompanha os avanços do conhecimento e das lutas sociais, visando constituir políticas públicas promotoras de uma educação de qualidade para todos os Quem são as pessoas com deficiência? alunos. No entendimento da ONU, deficiência é um conceito em evolução, resultado da interação entre a deficiência de uma pessoa e os obstáculos que impedem sua 4.1.6. CONAE participação na sociedade. Quanto mais obstáculos, como barreiras físicas e condutas atitudinais impeditivas de sua integração, mais deficiente é uma pessoa. Não importa A Conferência Nacional de Educação – CONAE é um espaço democrático aberto pelo Poder Público para que todos possam participar do desenvolvimento da 72 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA se a deficiência é física, mental, sensorial, múltipla ou resultante da vulnerabilidade etária. Mede-se a deficiência pelo grau da impossibilidade de interagir com o meio da forma mais autônoma possível. UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 73 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 73 Por isso, esta Convenção da ONU tem por diretrizes proteger e assegurar o desfrute pleno e equitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por parte de todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua inerente dignidade. • não-discriminação; • participação plena e efetiva na sociedade; • respeito pela diferença e aceitação da deficiência como parte da diversidade e da condição humana; Dentre as novidades em relação aos documentos internacionais anteriores merecem destaque os que seguem: • igualdade de oportunidades; • acessibilidade; Novas definições • igualdade entre o homem e a mulher e do respeito pelas capacidades em desenvolvimento de crianças com deficiência. Língua: abrange as línguas faladas e de sinais e outras formas de comunicação não-falada; Participação efetiva nas políticas públicas Discriminação por motivo de deficiência: qualquer diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, com o propósito ou efeito de impedir ou impossibilitar A concepção e aplicação de legislação e políticas destinadas a dar cumprimento o reconhecimento, o desfrute ou o exercício, em igualdade de oportunidades com as à presente Convenção e ao tomar decisões sobre questões atinentes às pessoas com demais pessoas, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais nas esferas deficiência, os Estados Partes, obrigatoriamente, consultarão e envolverão ativamente política, econômica, social, cultural, civil ou qualquer outra. Abrange todas as formas pessoas com deficiência, inclusive crianças, por intermédio das organizações que as de discriminação, inclusive a recusa de adaptação razoável; não é discriminação o representam. tratamento diferenciado para permitir as ações positivas em favor das pessoas com deficiência. Legislação local mais benéfica Ajustamento razoável: modificação necessária e adequada que não acarretem um ônus desproporcional ou indevido à sociedade, a fim de assegurar que as pessoas com deficiência possam desfrutar ou exercitar, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. Nenhum dispositivo da nova Convenção afetará quaisquer disposições mais propícias à realização dos direitos das pessoas com deficiência, constantes na legislação do Estado Parte ou no direito internacional em vigor para esse Estado, logo quaisquer Princípios básicos direitos conquistados pelas pessoas com deficiências no Brasil não serão alterados pela Convenção. • dignidade inerente à pessoa humana; • autonomia individual, incluindo a liberdade de fazer suas próprias escolhas e a independência das pessoas; 74 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 75 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 75 Mulheres e meninas com deficiência educacional e de conscientização as campanhas públicas nos mais diferentes meios de comunicação. Os Estados Partes reconhecem que as mulheres e meninas com deficiência estão sujeitas à discriminação múltipla e, portanto, deverão tomar medidas para assegurar a Autonomia das pessoas com deficiência elas o pleno e igual desfrute de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. Para possibilitar às pessoas com deficiência viverem com autonomia e participarem Educação plenamente de todos os aspectos da vida, os Estados Partes deverão tomar as medidas apropriadas para assegurar-lhes o acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio físico, ao transporte, à informação e comunicação, inclusive Direito de todos, a educação deve dirigir-se de modo indistinto a pessoas com aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação, bem como a outros serviços deficiência, ou não. A diferença é que, para as pessoas com deficiência, a igualdade e instalações abertos ou propiciados ao público, tanto na zona urbana como na rural. de oportunidades só pode ser exercida com ajudas técnicas como o Braille, Libras, adaptações de textos, etc.... A educação deve ser inclusiva sem sofismas. Educação especial é eufemismo utilizado pela sociedade segregadora que, para ocultar a Situação de risco de qualquer forma discriminação, discrimina mais ainda, sob a hipocrisia de que a educação inclusive é preferencial como prevê a Constituição Federal Brasileira. Os Estados Partes deverão tomar todas as medidas necessárias para assegurar a proteção e a segurança das pessoas com deficiência que se encontrarem em situações Crianças com deficiência de risco, inclusive situações de conflito armado, emergências humanitárias e ocorrência de desastres naturais. Os Estados Partes deverão assegurar que as crianças com deficiência tenham o direito de expressar livremente sua opinião sobre todos os assuntos que lhes disserem respeito; tenham a sua opinião devidamente valorizada de acordo com sua idade e maturidade, em igualdade de oportunidades com as demais crianças, e recebam Patrimônio e plena participação no controle financeiro atendimento adequado à sua deficiência e idade, para que possam realizar tal direito. Os Estados Partes, sujeitos ao disposto neste Artigo, deverão tomar todas as Conscientização da sociedade medidas apropriadas e efetivas para assegurar às pessoas com deficiência o igual direito de possuir ou herdar bens, de controlar as próprias finanças e de ter igual acesso a empréstimos bancários, hipotecas e outras formas de crédito financeiro, e deverão Objetivando conscientizar a sociedade sobre os direitos das pessoas com deficiências - mulheres, homens e crianças -, a Convenção estabelece como instrumento 76 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA assegurar que as pessoas com deficiência não sejam arbitrariamente destituídas de seus bens. UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 77 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 77 Acesso à justiça MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 4.2. Os Estados Partes deverão assegurar o efetivo acesso das pessoas com deficiência à justiça, em igualdade de condições com as demais pessoas, inclusive mediante a provisão de adaptações processuais e conforme a idade, a fim de facilitar seu efetivo Os dez mitos e consensos descritos a seguir foram elaborados por Ana Rita de PAULA (2006), para o projeto SORRI-BRASIL. papel como participantes diretos ou indiretos, inclusive como testemunhas em todos os procedimentos jurídicos, tais como investigações e outras etapas preliminares. Pessoas com deficiência que sejam privadas de liberdade farão jus aos mesmos 4.2.1. SOBRE A NECESSIDADE DO DIAGNÓSTICO CLÍNICO direitos que as demais pessoas. O diagnóstico médico ou clínico é importante para a compreensão da história Experimentos médicos de cada aluno, mas não deve ser um pré-requisito para o encaminhamento e ingresso desse aluno na classe comum ou serviço pedagógico especializado. A deficiência tem faces no campo da saúde, da educação, da área social, familiar e nenhuma área Nenhuma pessoa com deficiência, assim como qualquer outra, deverá ser sujeitada a experimentos médicos ou científicos sem seu livre consentimento. deve ter predomínio sobre a outra, mas cabe à área de saúde suprir os recursos que vão propiciar uma melhoria na condição geral da pessoa e, consequentemente, na área educacional e o ingresso da criança na escola não deve estar vinculado a um Liberdade de domicílio As Pessoas com Deficiência terão direitos à liberdade de movimentação, à liberdade de escolher sua residência e à nacionalidade, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. As pessoas têm o direito de escolher seu local de residência e onde e com quem morar, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, e que não sejam obrigadas a morar em determinadas habitações. diagnóstico clínico, pois esse por si só não garante um bom atendimento educacional. 4.2.2. SOBRE OS BENEFÍCIOS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA VISTOS COMO CONVIVÊNCIA E SOCIALIZAÇÃO É inegável o benefício que a convivência propicia para o desenvolvimento de valores que vão nortear a vida do ser humano. No entanto, os benefícios da educação inclusiva devem irradiar-se para outros aspectos como a escolarização para a Nenhuma pessoa com deficiência, qualquer que seja seu local de residência construção do conhecimento. Ter como base que a educação inclusiva pode favorecer ou tipo de moradia, deverá ser sujeita a interferência arbitrária ou ilegal em sua apenas a convivência e a socialização é reduzir suas possibilidades numa só vertente, privacidade, família, domicílio, correspondência ou outros tipos de comunicação, nem importante, porém incompleta das consequências dessa convivência. a ataques ilícitos à sua honra e reputação. As pessoas com deficiência têm o direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques. 78 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 79 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 79 4.2.3. conheç a mais SOBRE A NECESSIDADE DE PROFESSORES ESPECIALISTAS PARA EDUCAR ALUNOS COM DEFICIÊNCIA O ser humano é precisamente um ser diverso. Uma boa formação básica do professor deve fornecer uma base sólida quanto à sua capacidade de análise das diferenças em qualquer aluno, inclusive aquelas decorrentes da deficiência, em qualquer nível da educação básica, bem como nortear a intervenção pedagógica. O que não significa que cursos de atualização não sejam necessários de forma sistemática. O processo de ensino deve acompanhar as mudanças sociais, cabendo aos sistemas de ensino oferecerem formação continuada para a capacitação dos educadores. O conceito de Desenho Universal se desenvolveu entre os profissionais da área de arquitetura na Universidade da Carolina do Norte - EUA, com o objetivo de definir um projeto de produtos e ambientes para ser 4.2.4. SOBRE A NECESSIDADE DO PROFESSOR DA CLASSE COMUM usado por todos, na sua máxima extensão possível, sem necessidade de CONHECER PREVIAMENTE AS CARACTERÍSTICAS DOS ALUNOS COM adaptação ou projeto especializado para pessoas com deficiência. DEFICIÊNCIA Em 1987, o americano Ron Mace, arquiteto que usava cadeira de rodas e um respirador artificial, criou a terminologia Universal Design. Mace acreditava que esse era o surgimento não de uma nova ciência ou estilo, mas a percepção da necessidade de aproximarmos as coisas que projetamos e produzimos, tornando-as utilizáveis por todas as pessoas. Na década de 90, o próprio Ron criou um grupo com arquitetos e Os professores não conhecem, de antemão, os alunos que vão constituir sua classe em um determinado ano letivo, então também não precisam conhecer os alunos com deficiência previamente. defensores destes ideais para estabelecer os sete princípios do desenho universal. Estes conceitos são mundialmente adotados para qualquer O professor deve aproveitar seu relacionamento com os alunos e dos alunos programa de acessibilidade plena. Para conhecê-los é importante entre si, para conhecer todos, independentemente da presença ou não da deficiência. você acessar o site: http://www.rinam.com.br/files/REFERENCIAS_ DesenhoUniversalumconceitoparatodos.pdf. e acompanhar o texto da Mara Gabrilli na íntegra. Bons estudos! 4.2.5. SOBRE O PREPARO ANTERIOR DO ALUNO PARA O INGRESSO NA ESCOLA COMUM Quando falamos de educação inclusiva, estamos afirmando que o processo de ajuste entre as necessidades dos alunos com deficiência e as características da escola devem se dar a partir do ingresso desses alunos nas classes comuns. A ideia 80 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 81 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 81 SOBRE A QUESTÃO DO NÚMERO MENOR DE ALUNOS NAS sobre a necessidade das pessoas com deficiência terem um atendimento especializado 4.2.7. que as preparassem para o convívio nos espaços comuns da sociedade, era típica do SALAS DE AULA COMO DETERMINANTE DE BONS RESULTADOS paradigma da integração, já superado. ESCOLARES 4.2.6. SOBRE O PREPARO DOS PROFESSORES COMO CONDIÇÃO PARA O INÍCIO DO PROCESSO DE MATRÍCULA DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA NA ESCOLA A adequação do número de alunos por classe independe de se ter ou não alunos com deficiência na sala de aula e deve ser buscada por toda a comunidade escolar, como um fator de boa condição de trabalho na educação Um número muito grande de alunos na sala de aula pode comprometer o trabalho do professor, tendo ou não alunos com deficiência na sala. O processo da educação inclusiva em si mesmo, a partir da possibilidade de convivência e aprendizado do professor com alunos com deficiência, é um dos SOBRE A INDIVIDUALIZAÇÃO DO TRABALHO ACADÊMICO caminhos mais efetivos para o aprimoramento do educador e nesse momento histórico, 4.2.8. justifica-se o preparo dos professores, simultâneo ao ingresso no sistema dos alunos PARA ALUNOS COM DEFICIÊNCIA com deficiência, pois somente a partir da conscientização e do trabalho com essas crianças é que pode ocorrer uma preparação e capacitação efetivas. As crianças com deficiência devem estar inseridas nos grupos sociais, começando pela escola. Somente algumas crianças necessitarão de atendimento educacional conheç a mais Para Romeu Kazumi Sassaki 9, os termos são considerados corretos em função de certos valores e conceitos vigentes em cada sociedade e em individualizado, que deve ser oferecido pelas escolas de forma complementar, pois o conhecimento é construído social e grupalmente. Portanto, pertencer a um grupo é fundamental para o processo de aquisição de conhecimentos. cada época. Assim, eles passam a ser incorretos quando esses valores e conceitos vão sendo substituídos por outros, o que exige o uso de outras palavras. Para você compreender melhor as ideias desse grande estudioso, é importante você conferir o texto de Sassaki na íntegra, já que ele será exigido nas atividades do AVA, nos polos e avaliações. SASSAKI, Romeu Kazumi. TERMINOLOGIA SOBRE A DEFICIÊNCIA NA ERA DA INCLUSÃO In: VIVARTA, Veet (coord.). Mídia e deficiência. Brasília: Andi/Fundação Banco do Brasil, 2003 e disponível em: http://www.pessoacomdeficiencia.sp.gov.br/portal.php/terminologia. 9 Consultor de inclusão social. Autor do livro Inclusão: Construindo uma Sociedade para Todos (3.ed., Rio de Janeiro: Editora WVA ,1999) e do livro Inclusão no Lazer e Turismo: Em Busca da Qualidade de Vida (São Paulo: Áurea, 2003). Co-autor do livro Trabalho e Deficiência Mental: Perspectivas Atuais (Brasília: Apae-DF, 2003) e do livro Inclusão dá Trabalho (Belo Horizonte: Armazém de Ideias, 2000) 82 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 83 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 83 4.2.9. SOBRE O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO Alfabeto Os sistemas de ensino devem prever e prover serviços de apoio pedagógico especializado, partindo do preceito constitucional: “Todo aluno tem direito à educação”, porém, entendido como recurso complementar à escola, o professor especializado vai trabalhar com os alunos as questões relativas às necessidades específicas, para que eles possam acompanhar e ter acesso a todas as atividades desenvolvidas na sala de aula, assim, a parceria professor comum - professor especializado é fundamental para o intercâmbio de informações, descobrindo em conjunto, as soluções para os problemas que possam surgir. Cabe a ambas o acompanhamento da trajetória escolar do aluno, discutindo e estabelecendo, quando e se necessário, adequações curriculares ou mesmo um plano de ensino individualizado. conheç a mais Numeral O sistema braile é um modelo de lógica, de simplicidade e de polivalência, que se tem adaptado a todas as línguas e a toda a espécie de grafias. Com a sua invenção, Louis Braille abriu aos cegos, de par em par, as portas da cultura, arrancando-os à cegueira mental em que viviam e rasgando-lhes horizontes novos na ordem social e moral. Assim como a escrita convencional abriu um novo mundo para o homem comum, o sistema braile fez o mesmo para os portadores de deficiência visual. E mais, o sistema braile impulsionou uma revolução para os deficientes visuais, através dele as pessoas cegas podem resgatar sua cidadania. Alfabetizando-se elas tem condições de estudar e estudando tem mais chances de conseguir emprego e ter um emprego significa estar socialmente incluído e ser independente. 84 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 85 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 85 4.2.10. SOBRE A ATITUDE DAS FAMÍLIAS COM FILHOS SEM 4.3. CONSIDERAÇÕES DA UNIDADE IV DEFICIÊNCIA EM RELAÇÃO À CONVIVÊNCIA DE SEUS FILHOS Nesta unidade você analisou os mitos, contrastou os consensos e compreendeu A aceitação da educação inclusiva como prática institucional vai depender dos valores e das expectativas dos familiares e das escolas. Entender o currículo como a a importância de conhecer e interpretar os documentos oficiais sobre a educação inclusiva. totalidade das experiências que os alunos vão vivenciar, sob a responsabilidade da escola, torna o conteúdo programático parte desse universo e não o seu centro. A escolha da escola pelos pais é consequência dessas expectativas e reflete esses valores. Agora, para contribuir com os seus estudos é de suma importância você acessar outros materiais que relatem sobre os desafios da educação inclusiva no nosso país. As famílias que têm a preocupação que seus filhos aprendam a reconhecer e respeitar as diferenças, desenvolvendo habilidades e competências que os capacitem a buscar soluções para as situações de vida prática, serão as primeiras a defender a proposta Assista as teleaulas 4 e 5 e reveja as teleaulas 1, 2 e 3 para assimilar melhor os conteúdos apresentados. da educação inclusiva. Entregou todas as atividades orientadas? Se você tem alguma dúvida, acesse o fórum. INCLUIR É MAIS QUE INSERIR, É INTERAGIR E CONTRIBUIR Para concluir esta unidade busco apoio no texto de Rita Vieira de Figueiredo: A inclusão se traduz pela capacidade da escola em dar respostas eficazes à diferença de aprendizagem dos alunos, considerando o desenvolvimento dos mesmos como prioritário. A prática da inclusão implica no reconhecimento das diferenças dos alunos e na concepção de que a aprendizagem é construída em cooperação a partir da atividade do sujeito diante das solicitações do meio, tendo o sujeito de conhecimento como um sujeito autônomo. O professor pode ampliar as possibilidades de aprendizagem do aluno a partir de diferentes propostas didáticas, as quais ele pode organizar no desenvolvimento das práticas pedagógicas. Para isso, é importante refletir sobre os desafios do cotidiano escolar. Este novo olhar e esta nova forma de atuar ampliam as possibilidade de desenvolvimento profissional e pessoal do professor (FIGUEIREDO, Rita Vieira de. A escola de atenção às diferenças. Banco de escola: Educação para todos. Disponível em < http://www.bancodeescola. com/a-escola-de-atencao-as-diferencas.htm >) 86 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 87 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 87 TESTE SEU CONHECIMENTO 88 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS 89 SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 89 REFERÊNCIAS RESPOSTAS COMENTADAS 1. De acordo com a Declaração: “Cada pessoa - criança, jovem ou adulto - deve estar em condições BARROS, C. C. Fundamentos filosóficos e políticos da inclusão escolar: um de aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades básicas estudo sobre a subjetividade docente. Tese de doutorado. São Paulo: Instituto de de aprendizagem. Essas necessidades compreendem tanto os instrumentos essenciais para a Psicologia USP, 2009. aprendizagem (como a leitura e a escrita, a expressão oral, o cálculo, a solução de problemas), quanto os conteúdos básicos da aprendizagem (como conhecimentos, habilidades, valores e BELINKY, Tatiana. (Org.) Diversidade. São Paulo: Quinteto Editorial, 1999. atitudes), necessários para que os seres humanos possam sobreviver e desenvolver plenamente BRASIL. Constituição Federal Brasileira. Brasília, 1998. suas potencialidades, viver e trabalhar com dignidade, participar plenamente do desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas e continuar aprendendo”. BRASIL. Lei nº 9394/96. Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: MEC, 1996. 2. Sugestões de slogans: O processo de ensino deve acompanhar as mudanças sociais. O ser humano é precisamente um ser diverso. A adequação do número de alunos por classe deve ser buscada por toda a comunidade escolar. Os sistemas de ensino devem prever e prover serviços de apoio pedagógico especializado. Todo aluno tem direito à educação. BRASIL. Ministério da Educação – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Educação para todos: avaliação da década. Organização CENPEC. Brasília, 2000. BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. Projeto Escola Viva: Garantindo o acesso e permanência de todos os alunos na escola. Organização: SORRI-BRASIL, Brasília, 2000. BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. A Hora e a Vez da Família em uma Sociedade Inclusiva. Organização: SORRI-BRASIL, Brasília, 2006. BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. Direitos à educação: subsídios para a gestão dos sistemas educacionais, orientações gerais e marcos legais / Organização: Ricardo Lovatto Blattes. Brasília, 2006. BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. Educação Inclusiva: v. 1,2, 3 e 4. Organização: Maria Salete Fábio Aranha. Brasília, 2004. BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Brasília, 2001. BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. Ensaios Pedagógicos – construindo escolas inclusivas. 1ª ed. Organização: SORRI-BRASIL, Brasília, 2005. 90 UNIDADE IV - OS DOCUMENTOS OFICIAIS, OS MITOS E CONSENSOS SOBRE A EDUCAÇÃO INCLUSIVA 91 REFERÊNCIAS 91 BRASIL. Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial. Política Nacional MRECH, Leny Magalhães. O que é Educação Inclusiva? , dez. 2001. Disponível em de Educação Especial na Perspectiva de Educação Inclusiva. Brasília, 5 jun. 2007. < http://www.educacaoonline.pro.br/o_que_educação_inclusiva>. BRASIL. Ministério Público Federal - Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. PAULA, Ana Rita de. Educação Inclusiva: um guia para o professor. 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Independente: história, movimento, liderança, conceito, filosofia e fundamentos. São Florianópolis, n.6/7, p.27-42, 2004/2005. Paulo: RNR, 2003, p. 12-16. DECLARAÇÃO DE SALAMANCA. Princípios, Políticas e Prática em Educação SASSAKI, Romeu Kazumi. Terminologia sobre Deficiência na era da inclusão. In: Especial, 1994. BRASIL. Ministério da Educação. Educação Especial e Inclusão. Brasília, 2002. Agência de Notícias dos Direitos da Infância e da Fundação Banco do Brasil. Mídia e Deficiência. Brasília, 2003, p.160-165. SOARES, Ângela da Silva. Pressupostos da Educação Básica, 2009. Disponível FIGUEIREDO, Rita Vieira de. A escola de atenção às diferenças. Disponível em < em<http://www.artigonal.com/educacao-artigos/pressupostos-da-educacao- http://www.bancodeescola.com/a-escola-de-atencao-as-diferencas.htm> .Acesso em: inclusiva-1080600.html>. Acesso em: 20/01/2011. 30/12/2011. SOLÉRA, Márcia de Camargo Oliva Gaya. É possível a inclusão? Um estudo sobre GALASSO, Lô. Inclusão: respeito às diferenças, igualdade de direitos e equidade. as dificuldades da relação do sujeito com a diferença. 2008. 118 f. Dissertação São Paulo: Scipione. (Mestrado em Psicologia Clínica) – Instituto de Psicologia da Universidade de São GABRILLI, Mara. Desenho Universal: um conceito para todos. Disponível em <http:// Paulo, 2008. www.rinam.com.br/files/REFERENCIAS_DesenhoUniversalumconceitoparatodos.pdf.> PICCOLO, Gustavo Martins. Da deficiência a eficiência: o portador de necessidades Acesso em: 30/12/2011. especiais visto sob a luz da Psicologia Histórico-Cultural. Disponível em <http:// HODGES, Nicky. Schools for All: Including disabled children in education. London. Disponível em <http://www.savethechildren.org.uk/en/docs/schools_for_all. www.efdeportes.com/efd130/portador-de-necessidades-especiais-visto-sob-a-luz-dapsicologia-historico-cultural.htm.> Acesso em: 30/12/2011. pdf> Acesso em: 21/01/2011. GABRILLI, Mara. Manual de Convivência – pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. 2º ed. MENDES, E. G. Pesquisas sobre inclusão escolar: revisão da agenda de um grupo de pesquisa. Revista eletrônica de educação. v.2, n.1, jun.2008. 92 REFERÊNCIAS Os autores dos textos presentes neste material didático assumem total responsabilidade sobre os conteúdos e originalidade. © Copyright UBC 2012 Proibida a reprodução total e/ou parcial. 93 REFERÊNCIAS 93