CONSTRUINDO CAMINHOS PARA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Raquel Vidigal Santiago1
Maria das Dores Lima Vilela1
Rua Madre Cabrini, 192 – Centro. Rio Pomba/MG
Fone: (32) 3571-1439 ou (32) 8829-8734
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1. INTRODUÇÃO
Como se aprende sobre a diferença humana?
Deve-se ensinar às crianças que os seres humanos são
muito diferentes entre si e explicar-lhes em que se
diferenciam, para então mostrar que essas diferenças
podem ser uma fonte de enriquecimento para todos.
Humberto Eco.
Dados estatísticos preliminares oficiais, (como mostra, por exemplo, o quadro
abaixo) comprovam que aproximadamente 41,5% de alunos com deficiência, estão
devidamente matriculados e freqüentando escolas comuns.
Política de Atendimento da Educação Especial - Brasil
Fonte: Censo escolar – MEC/INEP – 2005(versão preliminar)
Todavia, a discriminação e o preconceito ainda são realidades na maioria dos
espaços sociais, inclusive entre as instituições escolares. Muitos educadores acreditam na
1
Escola Especial Menino Jesus de Praga – APAE de Rio Pomba/MG.
inclusão escolar apenas na forma de socialização, principalmente para aqueles alunos com
deficiência mental.
Nas instituições citadas acima, mascara-se a realidade ao afirmam que são escolas
inclusivas, somente pelo fato de estarem recebendo educandos com deficiência. No entanto,
sabe-se que lá não há lugar para o diferente2, sendo este colocado à margem da educação
(ensino/aprendizagem). Na maioria das vezes, esse público realiza atividades diferentes das
que são propostas para a maioria dos alunos em sala de aula.
Tal inclusão é referenciada por Carvalho (2004), como inclusão marginal:
Os sujeitos que estão na inclusão marginal não são, necessariamente, rejeitados
fisicamente. Podem até estar no mesmo espaço geográfico sem serem reconhecidos
e valorizados. É neste termo que se insere a inclusão marginal que também é
instável e precário, pouco visível, e por isso perversa, porque se insere no universo
simbólico – Carvalho, 2004, p.05.
Sabe-se que a função social da escola é formar e informar seus usuários, para que
esses possam construir uma sociedade mais justa e igualitária com a participação efetiva de
todos os cidadãos. Entretanto, como proceder a este fazer pedagógico sem que se facilite a
construção do conhecimento; uma das tarefas primordiais da escola?. Será mesmo que
pessoas com deficiência mental não são capazes de elaborar conhecimentos acadêmicos? Ou
será que professores e equipe educacional não aceitam culturalmente, e/ou não estão
preparados para lidar com este desafio? Soma-se ainda a estes fatos, a falta de políticas
públicas adequadas no tratamento da questão.
Com o advento da inclusão, que há mais de dez anos tem sua frente defendida por
estudiosos e pesquisadores da área, a Educação Inclusiva é o principal ponto para que alunos
com necessidades educacionais especiais consigam efetivamente estarem incluídos no setor
educacional, elaborando e solidificando conhecimentos acadêmicos.
Muitas instituições ainda concebem uma metodologia arcaica e tradicional na
consolidação do ensino/aprendizagem. Porém, para que se atenda a este novo paradigma,
torna-se fundamental a valorização das diversidades existentes no interior desses
educandários.
O sistema educacional mineiro tem sido destaque na progressão do número de
alunos com necessidades educacionais especiais incluídos, segundo os dados dos
últimos censos escolares. Partindo-se da premissa de que incluir não se resume na
efetivação da matrícula desses alunos, mas também na garantia de que lhes seja
assegurado o direito à permanência, ao percurso e ao pleno desenvolvimento de
suas potencialidades, faz-se necessário o estabelecimento de um processo de
discussão que instaure uma visão crítico-reflexiva e de maior assertividade nas
2 Pode se trocar o termo “o diferente” por “ à diversidade de pessoas, pensamentos, modos de expressões
culturais, etnias, crenças, raças, individualidades, níveis sociais, etc.
ações dos professores, dos gestores, da comunidade escolar e de outros setores
sociais no que se refere à inclusão.(PROJETO INCLUIR- 2006, Secretaria de
Estado de Educação/MG).
Se a escola reproduz a sociedade e ao mesmo tempo provocar sua transformação pois facilitar a reconstrução de conhecimentos, atitudes e formas de conduta – a valorização
das diferenças ocorrendo por esta, certamente serão aceitas e valorizadas na comunidade onde
se inserem.
A Inclusão Escolar torna-se, portanto, questão de justiça social.
Nesta nova era, onde a educação para todos é assegurada pela Constituição
Brasileira de 1988, sendo garantido o acesso ao ensino fundamental regular a todas as
crianças e adolescentes sem exceção; reforçada pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional) de 1996 e pela convenção de Guatemala em 2001 que proíbe qualquer
tipo de diferenciação, exclusão ou restrição baseada nas deficiências das pessoas, faz-se
extremamente necessário um novo posicionamento, revisando conceitos e mudando atitudes,
não só da comunidade escolar, mas de todo segmento social. É preciso lançar um novo olhar à
educação brasileira.
Mesmo depois de 18 anos de promulgação da Constituição que prevê “igualdade de
condições para o acesso e permanência na escola”, alguns professores e diretores
acreditam que estudantes com deficiência não conseguem aprender e, em classe,
devem apenas brincar ou passar o tempo. Revista Nova Escola. Reportagem: A sociedade em
busca de mais tolerância, páginas 34 a 36, outubro de 2006, nº196.
Em entrevista concedida à revista Nova Escola, em maio de 2005, Maria Tereza
Mantoan3 responde ao ser questionada sobre “o que faz uma escola ser inclusiva?”
Em primeiro lugar, um bom projeto pedagógico, que começa pela reflexão.
Diferentemente do que muitos possam pensar, inclusão é mais do que ter rampas e
banheiros adaptados. A equipe da escola inclusiva deve discutir o motivo de tanta
repetência e indisciplina, de os professores não darem conta do recado e de os pais
não participarem. Um bom projeto valoriza a cultura, a história e as experiências
anteriores da turma. As práticas pedagógicas também precisam ser revistas. Como
as atividades são selecionadas e planejadas para que todos aprendam? Atualmente,
muitas escolas diversificam o programa, mas esperam que no fim das contas todos
tenham os mesmos resultados. Os alunos precisam de liberdade para aprender do
seu modo, de acordo com as suas condições. E isso vale para os estudantes com
deficiência ou não.
3 Pedagoga especializada em educação de pessoas com deficiência mental Centre National d'Etudes et de
Formation pour L'Enfance Inadaptée et L'Adaptation Scolaire - CNEFASES - Beaumont-sur - Oise/França.
Mestre em Educação / área de concentração Psicologia Educacional Universidade Estadual de Campinas UNICAMP / SP- 1987.Doutor em Educação / área de concentração Psicologia Educacional Universidade
Estadual de Campinas - UNICAMP / SP - 1991 Professora do Departamento de Metodologia de Ensino
Faculdade de Educação – UNICAMP.Coordenadora do LEPED- Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino
e Reabilitação de Pessoas com Deficiências - Departamento de Educação / Fe / UNICAMP. Professora
Convidada e Pesquisadora do NIED - Núcleo de Informática Aplicada à Educação – UNICAMP. Assessoria
pedagógica a redes de ensino público que desenvolvem projetos de inclusão escolar - Educação para Todos.
Sabe-se, portanto, que esta torna-se uma tarefa difícil, por divergir da cultura
educacional que se formou desde os primórdios da história da educação formal, no mundo.
É preciso que haja uma revisão no modelo de organização pedagógica do ensino
fundamental para que a inclusão educacional consolide-se.
Prioriza-se, como um dos pontos chaves para esta construção, a conscientização e
formação dos agentes educacionais - principalmente a formação dos professores: soldados que
estão na linha de frente da batalha –, e as mudanças metodológicas, conceituais, atitudinais e
estruturais que deverão acontecer no cenário educacional para que a inclusão escolar ocorra
de fato.
Neste processo, deve-se também, lançar mão dos chamados “Atendimentos
Educacionais Especializados”, que se referem à adoção de práticas educacionais
especificamente adequadas ao atendimento de educando com necessidades educativas
especiais.
Acredita-se ser, então, urgentemente necessária, a execução real desta política
mundial, para que a inclusão de fato se torne realidade dentro das escolas comuns. Não basta
somente colocá-los dentro de uma sala de aula, é preciso que se garanta a aprendizagem
desses alunos.
Portanto, este trabalho tem por objetivo traçar metas e construir caminhos que
possam servir de apoio às escolas regulares comuns no desenvolvimento de uma verdadeira
Educação para Todos.
2. JUSTIFICATIVA
Esta proposta de trabalho se faz, por percebermos o amplo sentido da Educação
Especial e sua relevância no processo da Educação Inclusiva - escola de qualidade para todos,
entendendo o tema Inclusão como um amplo projeto social.
Durante os últimos anos, entre vários estudos (leituras, palestras, encontros, debates,
seminários, etc.), formou-se um novo olhar para a Educação Especial, e ao mesmo tempo se
constatou que a visão geral sobre Inclusão é muito restrita e, muitas vezes entendida de forma
errônea.
Mesmo com toda efervescência causada pelo paradigma da inclusão educacional,
percebe-se que ainda cultiva-se no interior de muitas instituições comuns e especiais uma
forte tendência ao trabalho de integração, confundindo-se ao de inclusão escolar.
Orientação SD nº01/2005, nos relata o seguinte:
A inserção de um número maior de alunos com deficiências e condutas típicas em
classes comuns e a garantia do aprendizado desses alunos representam um avanço
histórico em relação ao movimento de integração, que pressupunham algum tipo de
treinamento do aluno, para permitir sua participação no processo educacional
comum. Na educação inclusiva, a escola deve estar revisando suas práticas,
mudando concepções, revendo seu papel, reconhecendo e valorizando as
diferenças, explicitando claramente no seu projeto pedagógico, o compromisso com
o êxito do processo de ensino, a capacitação de seus profissionais e a oferta de
recursos pedagógicos especiais aos alunos que deles necessitarem.
Não basta apenas garantir a matrícula e permanência do aluno com deficiência na
escola regular/comum, é preciso principalmente garantir a aprendizagem desses educandos.
A promoção da educação inclusiva, fundamentada no princípio da universalização
do acesso à educação e na atenção à diversidade, requer uma filosofia de educação
de qualidade para todos. Na busca deste pressuposto é essencial o desenvolvimento
de uma pedagogia centrada na criança, a ampliação da participação da família e da
comunidade nos espaços educacionais, a organização das escolas para a
participação e aprendizagem de todos os alunos e alunas e a formação de redes de
apoio à inclusão. http://portal.mec.gov.br/seesp/ Programa: Educação Inclusiva: Direito á
diversidade – Inclusão: um desafio para os sistemas de ensino Consulta feita em 12/04/2008.
Percebeu-se, também, pelo momento histórico atual, que se faz imprescindível a
ressignificação da escola especial/educação especial e das escolas comuns; para que estas
deixem de ser vistas como escolas segregacionistas, e passem a ser entendidas como pontes
mediadoras indispensáveis na inclusão educacional do aluno – tenha ele uma deficiência ou
não.
Cabe aqui citar Hugo Otto Beyer4 (2006), em seu texto “Inclusão e avaliação na
escola”, referindo-se á Educação Especial Móvel:
Nós nos encontramos numa situação de significativa mudança na função
pedagógica da educação especial, o que pode representar uma mudança do conceito
de uma educação especial fixa, estabelecida fisicamente em espaços circunscritos,
basicamente nas escolas especiais, para o conceito de uma educação especial
móvel, dinâmica, que se desloca para atender os alunos nas escolas do ensino
regular.
Acreditamos então, que esta nova forma de atuação da Educação Especial faz-se
necessária por entendermos que só a partir da tomada de consciência do conceito e das
metodologias de uma “Educação Inclusiva”, tornando-a praxe no interior dos educandários, é
4
Possui Graduação em Pedagogia pela Faculdade Portoalegrense de Educação, Ciências e Letras (1986),
Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1988), Doutorado em
Educação/Educação Especial, pela Universität Hamburg (1993), Alemanha, e Pós-Doutorado em
Educação/Educação Especial, pela Universität Dortmund (1998), Alemanha. Atualmente é Professor Adjunto da
Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de Educação,
com ênfase em Educação Especial, atuando principalmente nos seguintes temas: educação inclusiva, abordagem
vygotskiana, abordagem de R. Feuerstein e psicopedagogia. Principais obras publicadas são O Fazer
Psicopedagógico: a abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Piaget e Vygotsky (Porto Alegre: Mediação,
2002, 3a. ed., 206 p.) e Inclusão e avaliação na escola de alunos com necessidades educacionais especiais (Porto
Alegre: Mediação, 2006, 2a. ed., 128 p.).
que educadores, pais e sociedade, conseguirão compreender e valorizar à diversidade, sem
qualquer tipo de discriminação e/ou preconceito.
Para o Projeto Incluir – Secretaria do Estado de Educação/MG (Cartilha, página 8), é
compatível à escola especial:
Cabe à escola especial apoiar e complementar a escola comum oferecendo recursos
educacionais aos alunos, proporcionando diferentes alternativas de
atendimento,garantindo que sejam reconhecidas e atendidas as particularidades de
cada aluno com deficiência e conduta típica
Sobre a forma dos atendimentos educacionais especializados a Orientação SD nº
01/20055, assegura:
A modalidade educação especial deve ser oferecida aos alunos com deficiência e
condutas típicas que dela necessitarem, em escolas de educação infantil,
fundamental e médio. Deve ser assegurado um conjunto de ações, recursos e
serviços educacionais especializados, organizados institucionalmente para apoiar,
complementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns.
Embora diferenciados, os serviços educacionais especiais não podem desenvolverse isoladamente, devendo integrar-se numa estratégia global de educação.
Porém, só estas medidas não bastam para que se chegue à plenitude deste trabalho. É
preciso consolidarmos alianças entre as APAEs, Secretarias Regionais de Educação do Estado
de MG, Secretarias Municipais de Educação, Assistência Social e Saúde, para que se consiga
êxitos e eficácia nos programas de atendimentos educacionais especializados, atendimentos à
família e aos professores da rede regular comum e especial.
Tais alianças são previstas também pela rede de apoio do Projeto incluir da
Secretaria de Estado de Educação/MG:
Para que a educação inclusiva seja implementada torna-se necessária a articulação
em rede das escolas públicas com outras instituições, comunidade e demais
recursos existentes em cada município. A implementação de ações que assegurem a
identificação de organizações e agentes sociais possibilitará o desenho da rede. A
articulação em rede destes atores favorecerá alunos, famílias e a comunidade em
geral.
(...)
Para iniciar esta rede no município é preciso a participação de representantes: da
Superintendência Regional de Ensino - SRE, da Secretaria Municipal da Educação,
das escolas, dos serviços especializados, da comunidade, dos demais setores sociais
governamentais e não governamentais de: saúde, transporte, trabalho, assistência
social, lazer, cultura, esporte, previdência social, habitação e urbanismo com toda a
comunidade.
Para o Projeto Incluir são competências das Instituições Especializadas conveniadas:
•
Participar das discussões relativas ao Projeto no município.
5 ORIENTAÇÃO SD nº 01/2005 - orienta o atendimento de alunos com necessidades educacionais especiais
decorrentes de deficiências e condutas típicas. Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais/Subsecretaria
de Desenvolvimento da Educação
•
Reorganizar os atendimentos educacionais especializados conforme as
diretrizes da Secretaria de Educação.
•
Disponibilizar, sempre que necessário, os seus profissionais e os
atendimentos educacionais especializados complementares para o atendimento de
alunos com deficiência e condutas típicas matriculados nas escolas públicas.
Entendemos a “Educação Inclusiva” como um amplo projeto sócio-histórico
indispensável à construção de uma sociedade justa para todos.
Portanto, o trabalho relatado a seguir, demonstra os caminhos que estão sendo
percorridos pelas equipes pedagógicas das Escolas Comuns de Rio Pomba/MG ( Municipais e
Estadual - de 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental) juntamente com a Escola Especial Menino
Jesus de Praga, mantida pela APAE de Rio Pomba/MG (profissionais especializados em
Educação Especial).
3. OBJETIVOS
•
Fomentar o processo da Educação Inclusiva nas escolas de Rio Pomba que
oferecem o primeiro segmento do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano)
•
Garantir a qualidade da educação oferecida nas escolas regulares comuns aos
alunos com deficiência que dela se utilizarem.
•
Proporcionar o processo de construção da Educação Especial Móvel,
•
Apoiar as escolas regulares comuns e especiais, na ressignificação de suas
práticas pedagógicas;
•
Promover ações para a organização e regularização dos Atendimentos
Educacionais Especializados, oferecidos pelo Setor Educacional das APAE de Rio Pomba.
•
•
Contribuir para a formação de professores das escolas comuns e especiais
Apoiar e complementar a escola comum oferecendo recursos educacionais
aos alunos, proporcionando diferentes alternativas de atendimento, garantindo que sejam
reconhecidas e atendidas as particularidades de cada aluno com deficiência e condutas típicas.
•
Auxiliar a construção do PDI (Plano de Desenvolvimento Individual ) dos
alunos que dele necessitarem;
•
Elaborar e encaminhar o pedido de autorização do atendimento educacional
especializado – sala de recurso, junto à Secretaria Estadual de Educação.
4. METODOLOGIA
Projeto: CONSTRUINDO CAMINHOS PARA EDUCAÇÃO INCLUSIVA,
procurou fomentar o processo da Educação inclusiva, buscando a garantia da qualidade da
educação através da elaboração criteriosa e consciente do PDI (Plano de Desenvolvimento
Individualizado) do aluno com necessidades educacionais especiais e na construção de
atendimentos educacionais especializados, sob a forma de salas de recursos.
Para tanto, estudos, reuniões e práticas pedagógicas diferenciadas foram realizadas
entre professores, coordenadores pedagógicos e diretores da escola comum e especial além, é
claro, dos pais e alunos.
Com o processo de inclusão educacional, onde alunos da escola especial tiveram
suas transferências para escola comum, foi proposto pelos profissionais especializados em
educação especial, uma parceria com as escolas comuns, com o objetivo de construir, ou pelo
menos, começar a construção, da uma educação de qualidade para todos.
Pensou-se em estar organizando os documentos necessários para o processo de
construção das salas de recursos, no caso o preenchimento do “Formulário VI” – documento
encaminhado á Secretaria Estadual de Educação de MG para a concessão da autorização dos
atendimentos.
Porém, para que se consiga preencher corretamente este formulário, é preciso que o
aluno tenha previamente, um PDI, elaborado e preenchido pela equipe pedagógica da escola
onde este aluno encontra-se matriculado. É a partir das informações do PDI, que se tem os
dados necessários para o preenchimento do item 5 do Formulário VI - Avaliação Educacional
do Aluno, mostrando a real necessidade educacional deste aluno.
Então o primeiro passo teria que ser incentivar, orientar e acompanhar a elaboração
do PDI de cada aluno que apresentasse dificuldades reais de aprendizagem, visto que nesta
escola este processo ainda não ocorria.
Algumas medidas então foram tomadas. Veja a seguir:
Reunião de planejamento das atividades que deveriam ser realizadas na execução do
projeto, juntamente com toda a equipe educacional das
escolas comuns (diretores,
coordenadores pedagógicos e professores), estabelecendo períodos para a realização de cada
etapa.
Levantamento da demanda de alunos com necessidades educacionais especiais, dos
apoios necessários para a efetivação da educação inclusiva, e da regularização/legalização dos
atendimentos educacionais especializados, e elaboração do Relatório Circunstanciado e da
Avaliação Educacional Inicial do aluno (entrevista com: pais realizada pelos professores).
Elaboração do plano de atendimento, traçando os objetivos educacionais a serem
alcançado, de acordo com a individualidade/necessidade de cada aluno, encerrando a
construção do PDI.
Ao término destas etapas, foi possível constatar muitos avanços, por exemplo,
quando começamos a realização do projeto, não havia elaboração de tais documentos pelas
escolas comuns, hoje já se tem mais de 190 – cento e noventa – PDIs escolares construídos na
Rede Municipal e Estadual de Rio Pomba, com a devida responsabilidade e seriedade que o
assunto merece.
Sobre cada uma das etapas acima.
Reunião de planejamento: No mês de março, em conversa prévia com a direção das
escolas comuns, pedimos um espaço numa reunião pedagógica de módulo II – estas reuniões
acontecem semanalmente nas escolas estaduais, e também em alguns momentos na Rede
Municipal de Educação -, para que pudéssemos repassar para toda equipe pedagógica –
coordenadores e professores - a proposta, o objetivo do projeto e o cronograma que teríamos
que cumprir em cada etapa. Assim aconteceu e a aceitação por parte das equipes foram boas.
Levantamento da demanda: Ficou estabelecido que nos meses de março e abril teria
que se realizar o levantamento de alunos com defasagem na aprendizagem escolar e daqueles
que também apresentavam muitos problemas de comportamento, causando prejuízo para si e
para o grupo. Ainda neste período deveria acontecer a construção do Relatório
Circunstanciado e da Avaliação Educacional Inicial do aluno. Neste dia também orientamos
todos os passos para realização das atividades.
Assim, ocorreu. Pais foram chamados para um entrevista e os professores também
realizaram a avaliação educacional inicial dos alunos.
Nesta etapa identificou-se o primeiro obstáculos – alguns pais foram chamados
várias vezes à escola e não compareceram – primeiro entrave para educação inclusiva: falta de
compromisso de algumas famílias.
Elaboração do plano de atendimento: Em abril voltamos a reunião de módulo II,
conferimos a realização da primeira etapa. Também orientamos o para o próximo passo - a
elaboração do plano de atendimento - e estabelecemos a data para sua realização, julho de
2008.
Nesta fase, outro obstáculo surgiu. A falta de tempo por parte dos professores – que
muitas vezes trabalham em duas escolas para complementar o orçamento financeiro e pelo
excesso de atividades que levam para fazer em casa.
Tentamos sanar esta dificuldade propondo que integrantes da equipe especializada
em educação especial (pedagoga e professoras), faríamos visitas periodicamente á escola
Padre Manoel de Jesus Maria6, em horário de escolarização, oferecendo vivências aos alunos
de práticas pedagógica criativas e diferenciadas, as quais facilitam e tornam possível o ensino
para todos, na perspectiva de um trabalho contextualizado, recreativo e lúdico; assim o
professor regente de turma teria um momento, junto aos coordenadores pedagógicos da
escola, para traçarem o plano de atendimento individual do aluno.
Nesta etapa, que até agora, confesso a vocês, pra mim foi a mais surpreendente,
interessante, desafiadora e de maior crescimento profissional, foi onde também pudemos
constatar o empenho de cada professor regente, sua garra, profissionalismo e cumprimento de
sua função, formando e informando os futuros cidadãos.
Aqui tivemos que tomar algumas cuidados:
Fizemos uma analise informal de cada turma junto ao regente da classe que
estaríamos posteriormente, traçamos objetivos curriculares a serem trabalhados – uma espécie
de objetivo curricular a ser trabalhado com essas turmas -, confeccionamos materiais didáticos
necessário para cada atividade e nas visitas em cada sala, executamos as atividades
elaboradas.
Entre as atividades trabalhadas, estavam o jogo de balata naval (de letras e
números), histórias contadas, dobraduras, jogos variados como varetas e bingos de
substantivos, caixas surpresas. Conseguimos prender a atenção dos alunos fazendo com que
eles participassem das atividades, prestando atenção e tentando construir por eles mesmos o
conhecimento. Daria para escrever um livro relatando todas as incríveis experiências que
passamos estes dias dos meses de junho e julho, nas salas de aulas as quais visitamos.
Pudemos também detectar aqueles alunos que realmente precisam de um acompanhamento
especializado – educacional e/ou clínico – para uma melhor performance na aprendizagem
escolar.
Fatos interessantes desta fase:
6
Escola Estadual que faz parte do projeto. Atende hoje cerca de 500alunos de 06 a 12 anos. A maioria de seus
usuários se constitui de educandos de classe econômica-social baixa e cultura peculiar. A instituição encontra-se
muito bem equipada, com estrutura arquitetônica reformada, profissionais capacitados e sendo dirigida por uma
gestão democrática e participativa.
No dia 02 de junho de 2008, fomos eu (coordenadora pedagógica) e a professora
Marilú (profissionais especializados em educação especial) iniciar o processo de aplicação de
atividades diferenciadas em salas de aula.
Neste primeiro dia, ficamos de 8:00 às 9:30 na sala da professora Maria José Batista,
3º Ano do Ensino Fundamental. Levamos a atividade “Pega Varetas”, para trabalhar
conteúdos de adição e subtração (conteúdos estes pedidos pela própria professora). Cada
aluno recebeu uma tabela com cores e espaços para registro e soma dos pontos obtidos no
jogo.
Todos os alunos participaram ativamente da brincadeira e ao final fizemos tabulação
dos pontos auxiliando aqueles alunos que tinha alguma dificuldade.
Sentimos que os alunos, no trabalho em grupo (ou quando este sai da rotina
tradicional), ficam muito falantes e agitados. Alguns alunos, ao voltarem para suas carteiras
(pois o jogo de varetas que aconteceu entre grupos de três alunos no chão da sala), não
conseguiram mais ficar disciplinados. Isso ainda é estranho e difícil para nós professores
acostumados a trabalhar com turmas silenciosas (mesmo que estas fiquem apáticas e passivas
ao conteúdo trabalhado).
Ficamos também um pouco preocupados com o barulho feito dentro da sala durante
o jogo, mas esta preocupação logo teve fim, pois ao retornar a sala, a professora disse que
gostou muito da atividade pois os alunos interagiram bastante. Pediu para que voltássemos
sempre, e que queria aprender mais sobre a metodologia. Prometemos para ela que também
gostaríamos de continuar esse trabalho e que mandaríamos alguns materiais de aplicação da
adição e subtração de forma criativa e prazerosa para o aluno.
No segundo momento, neste mesmo dia, de 10:00 às 11:15, os trabalhos se
desenvolveram na Sala da Professora Vanessa (também 3º Ano do Ensino Fundamental e com
o mesmo objetivo: adição e subtração, também a pedido da professora).
Nesta sala, notamos a presença de alunos muito agitados, que só queriam jogar
futebol e que não conseguiam ficar assentado em suas cadeiras.
Porém, durante o jogo de varetas, um só aluno não conseguiu concluir o que foi
pedido (ou seja, completar a queda do jogo), mostrando agressividade, impaciência e
intolerância com os colegas e adultos que ali estavam.
Durante esse tempo, tivemos em quase todas as salas de aula contando histórias,
brincando com palavras e números, desenvolvendo produções textuais coletivas e construindo
conhecimento junto com os alunos.
E assim se desenvolveram estas atividades durante esses meses (junho e julho). No
começo não tínhamos total domínio do comportamento dos alunos, mais aos poucos fomos
desenvolvendo atividades lúdicas que tranqüilizavam as crianças.
O próximo passo seria o preenchimento da Avaliação Educacional do Aluno – item
5 do Formulário VI, o que também é feito pelo professor regente e equipe pedagógica da
escola onde este aluno está matriculado. Esta etapa está em andamento e deverá ser concluída
até meados do mês de agosto.
Com as avaliações prontas, a instituição especializada já poderá preencher e montar
pedido de autorização para o Atendimento Educacional Especializado em 2009 – Sala de
Recursos/Formulário VI e encaminhá-lo junto a Secretaria Regional de Educação no período
estabelecido pela mesma - geralmente isso ocorre em setembro.
5. MUITAS CONCLUSÕES CHEGAMOS ATÉ AQUI
Reconhecemos o valor da equipe pedagógica (corpo docente, coordenadoras e
diretoras) das escolas comuns e o excelente trabalho realizado com alunos carentes, muitas
vezes discriminados e rotulados pela sociedade como alunos problemas.
Acreditamos que o PDI construído pelas professoras já representa um enorme passo
ruma à educação inclusiva, pois com certeza novos olhares serão lançados para os alunos com
necessidades educacionais especiais.
Criação de parcerias e alianças com os setores educacionais comuns e especiais,
ressignificando a prática pedagógica de ambos, no alcance da educação de qualidade para
todos;
A importância da de participação dos pais na elaboração do PDI, construindo em
conjunto os objetivos imprescindíveis para felicidade dos alunos/filhos.
Conhecimento da diversidade existente em sala de aula comum e o desafio de estar
atingindo e repeitando a todos os educando igualitariamente, assegurando direitos e
singularidades.
A felicidade de saber que estamos no caminho certo, mesmo cometendo alguns
erros.
Raquel Vidigal Santiago
Coordenadora Pedagógica
Escola Especial Menino Jesus de Praga.
Esta proposta de trabalho se faz, por percebermos o amplo sentido
da Educação Especial e sua relevância no processo da Educação
Inclusiva - escola de qualidade para todos, entendendo o tema
Inclusão como um amplo projeto social.
Julho de 2008
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