IMPLICAÇÕES MORFOFUNCIONAIS DO FÊMUR: PREVALÊNCIA DE COXA VARA OU VALGA . Ricardo Massao Abico1,;, Célia Cristina Leme Beu2;, Lucinéia de Fátima Chasko Ribeiro2. INTRODUÇÃO: O fêmur constitui o esqueleto da coxa, é o maior osso corpo humano, sendo formado em sua epífise proximal por uma cabeça, um colo e dois trocânteres (um maior e outro menor). Possui um corpo longo, e em sua epífise distal é formado por dois côndilos (medial e lateral). A cabeça tem sido descrita por alguns autores como sendo esférica e por outros como elipsóidea, compactada em direção ântero-posterior. Sua superfície é lisa e no vivente é recoberta por cartilagem articular espessa, salvo uma pequena superfície situada no quadro póstero inferior, onde se fixa o ligamento da cabeça do fêmur, denominada de fóvea da cabeça do fêmur 2. A cabeça é separada da diáfise pelo colo que é formado por osso trabecular esponjoso com uma fina camada cortical de reforço, que é mais reforçada na parte inferior do colo na qual é necessária a maior força de em resposta ás altas forças de tensão. Também a porção medial do colo do fêmur é a porção responsável por suportar as forças de reação do solo. A porção lateral do colo resiste ás forças compressiva criadas pelos músculos. Na verdade, o colo do fêmur é um prolongamento do corpo do osso, tanto no seu desenvolvimento quanto na sua ossificação e estrutura 3. A diáfise do fêmur é cilíndrica em sua metade superior, afunilando-se com seu ponto mais estreito no meio e torna-se mais longa à medida que se direciona aos côndilos. Na face anterior é moderadamente lisa, na lateral fornece inserção para alguns músculos, e na posterior apresenta várias cristas e proeminências. Segundo alguns autores 4, a diáfise angula-se medialmente em adução para colocar o joelho embaixo da linha de sustentação de peso da cabeça do fêmur. Um ângulo de grande importância é o ângulo de inclinação da cabeça do fêmur, formado entre o eixo longitudinal do colo e o eixo longitudinal da diáfise. O ângulo é maior ao nascimento e diminui gradualmente no adulto, também é menor nas mulheres devido á constituição pélvica. As diferenças angulares variam de indivíduo para indivíduo, independente das influências patológicas. O posicionamento do corpo do fêmur, por meio do colo do fêmur, a uma certa distância da pelve óssea, ajuda a prevenir restrições à amplitude de movimento da articulação do quadril que poderia resultar de colisão. Esse ângulo de inclinação permite que o corpo do fêmur se posicione mais lateralmente em relação a pelve. Em média em adultos é de 125°, varia com a idade, sexo, e o desenvolvimento do esqueleto. Pode ser modificado por qualquer processo patológico que enfraqueça a cabeça do fêmur. O ângulo inferior a 125° é caracterizado de coxa vara, evidenciada por uma diminuição do comprimento do membro inferior. Já um ângulo superior 125°, é caracterizado pela coxa valga, evidenciada pelo aumento no comprimento da perna. Essas alterações estruturais também levam á força muscular diminuída, devido às alterações no torque, causadas pelos diferentes valores nos braços de alavanca dos músculos e nas relações de comprimento-tensão 2,4. Como há uma grande divergência entre as literaturas quanto ao valor médio do ângulo de inclinação da cabeça do fêmur, este trabalho teve por objetivo realizar um levantamento e elaboração do inventário quanto ao número de fêmures desarticulados, presentes no laboratório de Anatomia Humana da UNIOESTE/Campus Cascavel, analisando a prevalência de coxa vara ou coxa valga e as possíveis relações morfofuncionais. MATERIAIS E MÉTODOS: Para o desenvolvimento do trabalho foram separados fêmures adultos desarticulados, sem distinção de sexo, idade ou grupo étnico, presentes no ossuário do Laboratório de Anatomia Humana da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE/Campus de Cascavel. Os fêmures foram contados e separados em antímero direito e esquerdo. Para um melhor resultado estatístico foram levados em consideração para a análise apenas os fêmures do antímero direito. Destes selecionados, foram excluídos os fêmures que apresentavam deformação ou estavam em mal estado de conservação. Após a seleção dos fêmures, os ossos foram submetidos à avaliação morfométrica, realizada com auxílio de uma tábua osteométrica de Broca (BORBOREMA, 2007), ao qual foi medido o comprimento máximo de cada fêmur. Após este procedimento os ossos foram fotografados para melhor análise. Uma segunda variável analisada foi a do ângulo de inclinação formado entre a cabeça e a diáfise do osso. A análise dos dados foi realizada com o auxílio do Software para Avaliação Postural-SAPO (Copyright 2004 Edison Puig Maldonado,Anderson Zanardi de Freitas e Marcos Duarte DATI Tecnologia e Escola de Educação Física e Esporte – USP, 2003) Ao final as variáveis foram analisados quanto à média e ao desvio padrão. RESULTADOS: O ossuário do Laboratório de Anatomia Humana da UNIOESTE/Campus Cascavel apresenta 217 fêmures, sendo que destes, 111 eram do antímero direito e 106 eram do antímero esquerdo. Com relação ao comprimento dos ossos, o maior valor mensurado foi de 48,3cm e o menor de 37cm, obtendo assim uma média de 43,7cm ±2,58cm. Ao final da coleta verificou-se que o valor máximo observado do ângulo de inclinação foi 144° e o valor mínimo de 115°, com uma média de aproximadamente 128° ±5,77°. Notou-se ainda que apenas 8% dos fêmures apresentavam ângulo de inclinação de 125°. Neste estudo houve um predomínio da presença de coxa valga, representando 64% do total analisado. O índice de coxa vara ocorreu em 28% dos casos. Com relação às alterações provocadas pelas variações do ângulo de inclinação dos fêmures, Hamil et al (1999) descrevem que quando o ângulo de inclinação é superior á 125° é caracterizado como coxa valga, resultando em um aumento no comprimento do membro, e quando o ângulo de inclinação é menor que 125° é caracterizado como coxa vara, o membro apresenta-se encurtado. CONCLUSÃO: Com base nos estudos realizados concluiu-se que há prevalência de fêmures com o ângulo de inclinação superior a 125°, ou seja, houve um predomínio de coxa valga em relação à normalidade. A grande variação no ângulo de inclinação possivelmente justifica a alta prevalência de deformidades músculo esquelética dos membros inferiores observadas na população local. Comparando os dados obtidos neste estudo com os dados da literatura nos faz repensar nos conceitos de normalidade, uma vez que o normal é o mais freqüente, ou seja, o que ocorre na maioria dos casos e que serve para a descrição anatômica, no entanto, em nossa pesquisa há um prevalência do ângulo de inclinação superior á 125°. Palavras-chave: fêmur; coxa valga; coxa vara; morfometria. REFERÊNCIAS 1. Bertolini, S. M.M G. Análise Morfométrica do fêmur e suas implicações morfofuncionais. Iniciação Científica Cesumar. Vol. 05, N.02, 2003. P. 165 – 170. 2. Gould, J.A. Fisioterapia na Ortopedia e na Medicina do Esporte. 2° ed. São Paulo: Manole, 1993. p. 345-348. 3. Hamill, J; Knutzen, K.M. Bases Biomecânicas do Movimento Humano. São Paulo; Manole, 1999. p. 208-210. 4. Smith, L; Weiss, E; Lehmkuhi, L. Cinesiologia clínica de Brunnstron. São Paulo: Manole, 1997. p. 310-312. 5. Borborema, M.L. Determinação da estatura por meio da medida de ossos longos e secos dos membros inferiores e dos ossos da pelve. 2007. 110 f., Piracicaba, 2007.