Projeto de pesquisa apresentado para apreciação no Edital FAPERGS 01/2011 - Auxílio Recém doutor Título do projeto AVALIAÇÃO DE IMPACTO E DE PROCESSO DO PROGRAMA ENCONTROS DE BATE-PAPO COM ADOLESCENTES: UMA PROPOSTA PARA A PROMOÇÃO DE DESENVOLVIMENTO SAUDÁVEL EM ADOLESCENTES Proponente: Laíssa Eschiletti Prati Instituição: Fundação Educacional Encosta Inferior do Nordeste Apresentação. Esta pesquisa visa a verificar a efetividade de um programa que vem sendo desenvolvido pelo curso de Psicologia das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat) desde 2008 por meio da avaliação de impacto e de processo. O programa, denominado EBA - Encontro de Bate-papo com Adolescentes (Haack, Silva, Eschiletti Prati, & Boeckel, 2009), já está em sua quinta edição e se caracteriza por utilizar a teoria bioecológica do desenvolvimento humano (Bronfenbrenner, 1979/1996) como orientação para a pesquisa e a intervenção. O Programa EBA cria um espaço de prevenção primária quanto, principalmente, ao uso de substâncias psicoativas e ao comportamento sexual de risco. Para isso, oferece um espaço lúdico e informal para despertar habilidades e construir estratégias para lidar com situações adversas entre os participantes. Ou seja, procura desenvolver estratégias que desenvolvem características de pessoas resilientes, promovendo o desenvolvimento saudável dos adolescentes (Bianchini & Dell’Aglio, 2006). Considera-se, portanto, fundamental investigar se o Programa está realmente sendo efetivo, bem como rastrear algumas possíveis consequências deste no processo de desenvolvimento dos adolescentes que participam do Programa, a fim de qualificar suas novas edições. Objetivos. Avaliar o impacto e o processo da participação de adolescentes em um programa de prevenção primária ao uso de drogas e comportamento sexual de risco no desenvolvimento. Justificativa. A adolescência caracteriza-se por ser uma etapa do desenvolvimento com inúmeras mudanças físicas e psicológicas. Esta etapa também se caracteriza pela busca de independência dos pais e maior aproximação do grupo de iguais. Os adolescentes, portanto, podem ser considerados em situação de vulnerabilidade quando se expõem a situações que prejudicam o desenvolvimento saudável e evidenciam que suas tentativas de resolver esses impasses não estão sendo suficientes ou eficazes. Quanto mais vulneráveis os adolescentes estiverem, maior a predisposição para apresentarem dificuldades em seu desenvolvimento biopsicossocial (Cecconello, 2003; Cowan, Cowan, & Schulz, 1996; Eschiletti Prati, Paula Couto, & Koller, 2009; Masten & Garmezy, 1985). Os adolescentes precisam, portanto, desenvolver competências para lidarem com esse período de crise de forma a seguir seu desenvolvimento de forma saudável. O Programa EBA – Encontro de Bate-papo com Adolescente tem como objetivo promover a resiliência em adolescentes que vivem em um ambiente de vulnerabilidade social. Por resiliência, entende-se o conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que possibilitam o desenvolvimento de uma vida sadia, mesmo vivendo em um ambiente não sadio (Rutter, 1987). A efetividade de um programa baseia-se em resultados observados quanto a modificações em condições de desenvolvimento específicas da população foco da intervenção, selecionados a partir de relações de causalidade identificadas entre condições iniciais da população e formas e objetivos da intervenção (Novaes, 2000). A análise e a promoção da resiliência possibilitam que virtudes e forças pessoais se tornem conhecidas, favorecendo as potencialidades dos adolescentes participantes do programa (Paludo & Koller, 2007). O Programa em avaliação auxilia o adolescente a encontrar formas de lidar com as dúvidas que 1 2 vivencia e a criar um sistema de empowerment , construindo estratégias de coping , sobrevivendo e superando a situações de risco que possam surgir em seu processo de desenvolvimento. A promoção da resiliência é, neste 1 Utiliza-se o termo empowerment como referência ao processo de resgatar e fortalecer as dimensões sadias da pessoa, que possibilitam a luta e tentativas de superação de situações de risco (Morais & Koller, 2004). 2 Estratégias de Coping referem-se aos mecanismos utilizados pelas pessoas para lidar com situações adversas e estressantes as quais são expostas (Rutter, 1999). Programa, desencadeada através da busca ou construção de fatores de proteção, como por exemplo, a ampliação da rede de apoio social e construção de habilidades para gerenciar situações de risco (como sexo sem proteção e uso de drogas). Sendo assim, é importante verificar se a abordagem que está sendo utilizada está realmente atingindo seu objetivo. Segundo Noto e Galduroz (1999), qualquer iniciativa que busque a construção de uma prevenção primária deveria passar por um processo de avaliação de sua efetividade. Adolescência: vulnerabilidade e resiliência A adolescência, nesta investigação, é compreendida a partir do modelo bioecológico de desenvolvimento humano. Bronfenbrenner e Morris (1998) sugeriram que o desenvolvimento humano seja estudado através da interação de quatro núcleos inter-relacionados: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo. A relação da pessoa com o seu ambiente assume papel de destaque, por ser ai que se estabelece o desenvolvimento. Tem-se acesso ao processo de desenvolvimento somente ao acompanhar as mudanças desencadeadas pela exposição e interação de uma pessoa com o meio ambiente. O que é percebido, desejado, pensado ou conhecido determina o desenvolvimento psicológico do ser humano (Bronfenbrenner, 1979/1996). Este modelo trabalha com a noção de ambiente ecológico: uma série de estruturas encaixadas que influenciam no desenvolvimento humano com maior ou menor potência. São eles: microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema. O microssistema consiste em interrelações face-a-face, no ambiente imediato da pessoa em desenvolvimento. O mesossistema é formado por todos os microssistemas nos quais a pessoa em desenvolvimento participa. O exossistema refere-se a contextos que influenciam o que acontece no ambiente imediato da pessoa. Por fim, o macrossistema diz respeito aos padrões globais de ideologia, história e organização das instituições sociais comuns a uma determinada sociedade (Bronfenbrenner & Morris, 1998). Para se compreender o desenvolvimento de um adolescente é necessário estar atento a todos estes níveis ecológicos. O principal motor de desenvolvimento são os “processos proximais”. Estes geram habilidades e motivação necessárias para o conhecimento e o crescimento pessoal. Através deles, ou seja, de interações recíprocas e progressivamente mais complexas, o ser humano torna-se cada vez mais agente de seu próprio desenvolvimento. No microssistema, portanto, ocorrem as interações mais relevantes no desenvolvimento pessoal (Bronfenbrenner & Morris, 1998). A participação da pessoa em vários ambientes (mesossistema) proporciona um campo maior de oportunidades para o envolvimento em novos papéis. O adolescente passa a vivenciar com maior autonomia essa ampliação de papéis e isso pode desencadear uma sensação de vulnerabilidade ou de resiliência. Walsh (1998) afirmou que a vulnerabilidade pode se relacionar com as características individuais como idade, etnia, gênero, estado de saúde ou renda. Cutter, Boruff e Shirley (2003) enfatizam que desigualdades do ambiente (nível de urbanização, taxas de crescimento, vitalidade econômica, exposição a fatores de risco, ausência de rede social, etc.) também contribuem para a vulnerabilidade das pessoas que integram tais contextos. Sendo assim, tanto aspectos pessoais quanto da comunidade nas quais os adolescentes se desenvolvem podem servir como fatores de risco que, interagindo com recursos do grupo ou do adolescente, podem desencadear um processo de desenvolvimento pouco saudável (Eschiletti Prati, Paula Couto, & Koller, 2009). Uma forma de minimizar pontos de vulnerabilidade é a construção de fatores de proteção. Estes podem ser compreendidos como recursos que atenuam ou neutralizam o impacto do risco. Entretanto, estes nem sempre são de fácil identificação (Garmezy & Masten, 1994; Sapienza & Pedromônico, 2005). A investigação de fatores de proteção deve, segundo Garmezy e Masten (1994) atentar a três aspectos: 1) características individuais, como auto-estima, inteligência, capacidade para resolver problemas e competência social; 2) coesão familiar e apoio afetivo transmitido pelas pessoas da família, através de um vínculo positivo com os pais ou cuidadores; e, 3) apoio social externo, provido por outros significativos, como escola, igreja e grupos de ajuda. Somente analisando o conjunto destes fatores podem-se identificar os recursos que auxiliam os adolescentes a interagirem com os eventos estressores de vida e a conseguirem bons resultados, evitando consequências negativas no desenvolvimento (Eschiletti Prati, Paula Couto, & Koller, 2009). O suporte social e o 2 autoconceito positivo podem ser fortes indicadores de fatores de proteção em adolescentes. Segundo Sapienza e Pedromônico (2005), estes aspectos costumam estar correlacionados, indicando a existência de múltiplos fatores atuando na promoção da resiliência. Ao construir-se uma visão bioecológica do adolescente, o ambiente no qual este se desenvolve passa a ser outro importante fator para o desenvolvimento de fatores de risco e/ou de proteção. Sendo assim, não se pode deixar de perceber a violência evidenciada especialmente ao analisarem-se bairros de maior vulnerabilidade social. A violência é um fenômeno complexo que exige intervenções voltadas aos adolescentes, seus pares, suas comunidades e à sociedade em geral (Câmara, Sarriera, & Carlotto, 2007). Apesar da ampla mobilização social e governamental na busca pela garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, o Rio Grande do Sul ocupa o segundo lugar no ranking de lugares vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes (Organização Internacional do Trabalho, 2008). Entretanto, possui poucas iniciativas de prevenção a esse tipo de violência (Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2005). Dentre as situações de risco que mais preocupam a sociedade brasileira na atualidade encontram-se o uso de substâncias psicoativas ilícitas e a atividade sexual de risco entre os adolescentes. Um estudo realizado pelo CEBRID (2004) com adolescentes de Porto Alegre identificou que 17,1% dos participantes já consumiram energéticos, 12,3% já fizeram uso de solvente e 10,9% de maconha, além de álcool (69%) e tabaco (33,5%). Avaliando as características do uso de drogas nessa mesma população desde 1987, CEBRID (2004) afirma ter um aumento da tendência de uso de tabaco e maconha por adolescentes. Percebe-se ainda a diminuição da idade de início de consumo de álcool. Quanto à iniciação sexual precoce entre adolescentes, Cano, Ferriani, e Gomes (2000) salientaram a falta de conhecimentos sobre concepção e uso de contraceptivos entre adolescentes, e uma tendência na diminuição da idade da primeira relação sexual. Cerqueira Santos (2007) em seu estudo com 4078 adolescentes identificou a idade de 14,24 (DP=0,60) como média para a primeira relação sexual. Constatou também que moças assumem mais comportamentos sexuais de risco do que os rapazes. Alencar, Silva, Silva e Diniz (2008) reforçaram a importância da prevenção primária na área da sexualidade, de forma a permitir a construção de habilidades de enfrentamento quanto a práticas e comportamentos que diminuam o risco de infecção pelo vírus da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida - o HIV - e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Programa EBA – Encontros de Bate-papo com Adolescentes O Programa EBA - Encontros de Bate-papo com Adolescentes foi desenvolvido com o intuito de conscientizar e possibilitar a construção de hábitos de prevenção a drogas, informar sobre DSTs e AIDS, fortalecer as características positivas dos adolescentes, criando um espaço de prevenção primária (Haack, Silva, Eschiletti Prati, & Boeckel, no prelo). É composto por oito encontros que proporcionam espaços de trocas e diálogo entre os adolescentes, utilizando espaços de discussão e ludicidade, por meio de jogos e dinâmicas adequadas à faixa etária e centradas em interesses e demandas pessoais e grupais. O Programa EBA está em sintonia com outras intervenções que entendem a educação em saúde como processo que busca o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo dos adolescentes. Possibilita a compreensão do contexto no qual eles estão inseridos e a proposição de ações de mudança nos seus comportamentos (Alencar, Silva, Silva, & Diniz, 2008). Desta forma, os adolescentes passam a se perceber como fortalecidos, conscientes e agentes na construção de espaços de saudáveis de desenvolvimento. O Programa EBA apóia-se na Inserção Ecológica (Cecconello & Koller, 2003; Eschiletti Prati, Paula Couto, Moura, Poletto, & Koller, 2008), que consiste em um método de pesquisa e intervenção que permite avaliar os processos de interação das pessoas com o contexto no qual estão se desenvolvendo. Esta inserção, ainda que pareça informal, abarca a complexidade da interação e o rigor metodológico necessário com relação aos dados colhidos e registrados sistematicamente. Assim como qualquer estudo que utilize a Inserção Ecológica, o Programa EBA se apoia em cinco aspectos indispensáveis para o estabelecimento de processos proximais. São eles: (a) pesquisadores e participantes interagem e se engajam nas tarefas desenvolvidas durante os encontros do Programa; (b) são desenvolvidos oito 3 encontros durante dois meses, numa frequência regular de tempo com duração mínima de uma hora; (c) os encontros partem de conversas informais para abordar temas cada vez mais complexos. Os temas estão organizados de forma a permitir o conhecimento recíproco entre pesquisadores e participantes para abordar temas mais complexos. A ordem dos temas abordados vem sendo: estereótipos, drogas, sexualidade e autoestima; (d) é fundamental a manutenção de postura de informalidade e conversa durante todos os encontros, possibilitando o diálogo sobre pontos não diretamente relacionados ao objetivo do encontro; e (e) os temas abordados nos encontros são interessantes e estimulantes para os pesquisadores e para os participantes, pois permitem a troca de informações sobre situações que os adolescentes vivenciam em seu cotidiano (Eschiletti Prati, Paula Couto, Moura, Poletto, & Koller, 2008). Durante os encontros há uma preocupação com proporcionar aos adolescentes o desenvolvimento da autoestima, de sua rede de apoio social e de uma melhor qualidade no relacionamento com outras pessoas. Esses elementos são identificados como fatores de proteção por Pesce, Assis, Santos, e Oliveira (2004), atuando na promoção da resiliência. Ainda busca desenvolver habilidades sociais importantes para o desenvolvimento do adolescente, especialmente quando este se encontra em situações de estresse. Pretende ainda propiciar um espaço no qual potencialidades, motivações e capacidades individuais do adolescente sejam estimuladas e valorizadas, aspectos considerados por Sheldon e King (2001) como elementos que facilitam a superação de adversidades. Avaliação de impacto e de processo: efetividade da prevenção primária O foco de interesse desta pesquisa está em compreender de que modo e em que medida o Programa EBA influencia no desenvolvimento dos adolescentes. Avaliar esta intervenção, portanto, envolve coletar informações sobre os efeitos do programa e determinar o valor deste à luz destas informações (Hamblin, 1978). Para saber se os objetivos de um programa estão realmente sendo atingidos é importante que se planeje uma avaliação séria e ampla (Hamblin, 1978; Kirkpatrick, 1967; Murta & Tróccoli, 2004; Pilati & Borges-Andrade, 2004; Raine, 2006). Existem vários termos que se referem a esse processo, entre eles “mensuração de desempenho”, “avaliação de impacto”, ou “avaliação de necessidades”. O que é importante é que se busque uma avaliação sistemática dos objetivos propostos e atingidos por um determinado programa de intervenção (Raine, 2006). As variáveis envolvidas na análise da efetividade de uma intervenção são distintas. Em geral, a avaliação de intervenções está cunhada sob três principais níveis de análise: necessidades, reação (ou avaliação de processo) e avaliação de impacto (Abbad, Gama, & Borges-Andrade, 2000; Pilati & Borges- Andrade, 2004; Murta e Tróccoli, 2004). Esse estudo se propõe a realizar a avaliação de processo e de impacto do Programa EBA, sendo assim, cada um destes processos serão brevemente detalhados. Quanto mais completa a avaliação maior as chances de eficácia do programa ao longo do tempo, favorecendo um melhor direcionamento de recursos e procedimentos de intervenção (Murta & Tróccoli, 2004). Avaliação de processo. A avaliação de processo é também conhecida como avaliação de monitoramento da intervenção e verifica em que extensão a intervenção foi executada como planejada. Objetiva identificar se o programa está atingindo a população-alvo, se todas as atividades previstas foram implementadas, se os participantes estão satisfeitos com a intervenção e se as atividades desenvolvidas são de boa qualidade. Para esta avaliação é esperado o uso de dados qualitativos, tais como relatos de satisfação com o programa ou indicadores observacionais (como diários de campo) quanto a adesão à intervenção (Murta & Tróccoli, 2004). A teoria que embasa o programa é fundamental para o estabelecimento do programa de avaliação. Através da analise dos referenciais teóricos ao iniciar uma avaliação pode-se saber os objetivos do programa em sua elaboração e comparar com os objetivos em sua implantação e execução. Quanto mais o avaliador tiver acesso à teoria do programa, melhor poderá estabelecer critérios para avaliar a efetividade do programa. A teoria indica os objetivos do programa e o que pretendia fazer para atingir esse objetivo. Também fornece ao avaliador as variáveis principais a serem investigadas a fim de estabelecer a efetividade e eficiência do trabalho. O tempo necessário para identificar os resultados do programa pode estar 4 indicado na teoria que constituiu a elaboração das ações implantadas (Rossi, Lipsey, & Howard, 2003). A Avaliação de Processo engloba a análise de dois aspectos: 1) satisfação dos participantes com a qualidade da intervenção e 2) satisfação com o desempenho dos facilitadores (Abbad, Gama, & Borges-Andrade, 2000; Kirkpatrick, 1967). Este tipo de análise possibilita investigar quais os principais aspectos positivos e negativos da intervenção, isto é, as potencialidades e limitações do processo. A satisfação com a qualidade do programa oferecido (primeiro aspecto da avaliação de processo) pode ser averiguada através de itens como: definição de objetivos e compatibilidade com a intervenção, duração, ordenação e adequação dos temas abordados, recursos teórico-práticos e possibilidade de aplicação do conhecimento adquirido no cotidiano, etc. Avaliação de impacto. A avaliação de Impacto consiste na análise do resultado final da intervenção (Pilati & Abbad, 2005). A verificação da aprendizagem e mudança de comportamento tem sido a principal perspectiva traçada nos estudos de avaliação de impacto. Esta perspectiva, apesar de importante, é limitada por não avaliar os benefícios indiretos que o Programa pode ter para outras áreas da vida do adolescente (consequências desenvolvimentais). O efeito indireto, no qual um Programa expande-se a outras áreas da vida das pessoas tem sido pouco estudado empiricamente (Tannenbaum & Yulk, 1992). A avaliação de resultados varia conforme o foco da intervenção, podendo ser conseqüências na dinâmica dos ambientes no qual os adolescentes, no caso, circulam, até conseqüências individuais, como alterações qualidade de vida, na forma de resolver problemas e atitudes de proteção (Hurrel & Murphy, 1996). Alguns destes resultados podem se manifestar em curto prazo, enquanto outros se manifestam em longo prazo, requerendo neste último caso uma coleta de dados longitudinal. (Murta & Tróccoli, 2004). O aspecto fundamental da utilização de pré-teste e pós-teste é poder, de forma mais segura, identificar a direção da mudança proporcionada pelo programa. É possível verificar a efetividade do programa e seus resultados de forma mais confiável que sem o pré-teste (Rossi, Lipsey, & Howard, 2003). Metas. Avaliar o impacto e o processo de um Programa de prevenção primária ao uso de drogas e comportamento sexual de risco no desenvolvimento para adolescentes. Método. Delineamento quase-experimental (Robson, 1993), com pré e pós-teste. O pré-teste (T1) será realizado antes do início do Programa EBA. O pós-teste (T2) será realizado no fim do Programa. O intervalo de tempo entre as aplicações será de três meses, antes e após os oito encontros. Participantes. Serão formados dois grupos de amostras não randomizadas. O Grupo 1 (G1) será constituído 3 por adolescentes de 13 a 16 anos estudantes em cinco escolas públicas da região do Vale do Paranhana que participarão do Programa a ser avaliado. O Grupo 2 (G2) será um grupo por disponibilidade formado por 150 adolescentes que não participarão do Programa neste período. A possibilidade de participação no Programa será oferecida aos mesmos em uma etapa posterior. A aplicação dos instrumentos de avaliação de impacto serão aplicadas nas escolas dos participantes, tanto no T1 quanto no T2. Estão previstas 12 intervenções, em três edições – quatro em cada semestre de realização da pesquisa. Cada intervenção terá a participação de, em média, 15 adolescentes, atingindo no mínimo 150 participantes. Instrumentos e procedimentos. Para a avaliação de impacto da intervenção serão aplicados nos dois grupos (G1 e G2) em dois tempos (T1 – antes da intervenção e T2 – após a intervenção). Tendo em vista que um dos principais objetivos do Programa EBA é o fortalecimento de fatores de proteção e promoção da resiliência foram escolhidos os seguintes instrumentos para aplicação. - Instrumento para coleta de dados biosociodemográficos: elaborado especificamente para este estudo, investiga desde características do adolescente, quanto configuração familiar, contexto socioeconômico, comportamento de risco e conhecimento prévio sobre os temas abordados no Programa. É composto de questões abertas e fechadas e respondidas pelos adolescentes individualmente. 3 O Vale do Paranhana agrega as cidades de Igrejinha, Parobé, Riozinho, Rolante, Taquara e Três Coroas. 5 - Escala de Autoestima de Rosemberg: trata-se de uma escala composta por 10 itens, destinada à avaliação da auto-estima por meio de uma única dimensão. Os adolescentes indicam quanto cada afirmação ser relaciona com sua forma de perceber-se em uma escala tipo Likert de quatro pontos desde concordo plenamente até discordo totalmente. A versão brasileira do instrumento foi adaptada e validada por Hutz (s/d). - Inventário de Habilidades Sociais para Adolescente – IHSA: trata-se de um instrumento de auto-relato, que permite avaliar o repertório de habilidades sociais de adolescentes (de 12 a 17 anos) em um conjunto de situações interpessoais cotidianas, em dois indicadores: a frequência e a dificuldade com que reagem às diferentes demandas de interação social. É composto por 38 itens que contemplam habilidades de relacionamento com diferentes interlocutores que surgem em contextos públicos, privados ou não especificado. Cabe ao adolescente julgar (a) a frequência com que apresenta a reação indicada no item e (b) sua dificuldade em apresentar aquela reação, em duas escalas tipo Likert, produzindo escore geral de frequencia e outro de dificuldade. O instrumento produz escores em seis subescalas: Empatia, Autocontrole, Civilidade, Assertividade, Abordagem Afetiva, e Desenvoltura Social (Del Prette & Del Prette, 2009). Estudos de consistência interna iniciam um Alpha de Cronbach igual a 0,89 para a escala total e de 0,82 a 0,61 para as subescalas de freqüência. Quanto à escala de dificuldade o Alpha de Cronbach foi 0,94 para a escala total e entre 0,51 a 0,86 para as subescalas. - Escala de Resiliência – ER: adaptada por Pesce, Assis, Avanci, Santos, Malaquias e Carvalhaes (2005). A escala é composta por 25 itens dividida em três fatores. As respostas são de tipo Likert de sete pontos, na qual 1 (discordo totalmente) e 7 (concordo totalmente). Os valores totais são obtidos por somatório dos valores das respostas obtidas e podem variar entre 25 a 175, onde valores altos equivalem a elevada resiliência. O Alpha de Cronbach encontrado foi de 0,85 no pré-teste e 0,80 na amostra total. Na confiabilidade intra-observador, verificouse que o kappa situou-se entre regular e moderado e o coeficiente de correlação intraclasse foi de 0,746 (p = 0,000). - Escala Fatorial de Socialização - EFS: trata-se uma escala objetiva, composta por 70 itens de auto-relato, que avaliam Socialização (componente da personalidade que descreve a qualidade das relações interpessoais dos indivíduos). O fator relaciona-se aos tipos de interações que uma pessoa apresenta ao longo de um contínuo que se estende da compaixão ao antagonismo. É composta por três facetas, denominadas Amabilidade (S1), PróSociabilidade (S2) e Confiança nas Pessoas (S3). A validação de construto da EFS foi realizada com uma amostra composta por 1.100 pessoas de ambos os sexos, sendo que 70,1% eram mulheres. A amostra foi coletada em cinco estados brasileiros (BA, RS, SC, SP, PB), com idade média de 21,4 anos (DP=5,84). Foram realizadas análises fatoriais para a verificação da dimensionalidade da EFS, sendo os fatores S1, S2 e S3, com consistência interna de 0,91; 0,84 e 0,80 respectivamente. A escala geral apresentou uma consistência interna de 0,92 (Nunes, 2007). - Escala Fatorial de Extroversão – EFEX: trata-se de uma escala objetiva, de auto-relato, composta por 57 itens que descrevem sentimentos, crenças e atitudes associados a traços de personalidade considerados centrais para a avaliação de Extroversão. A escala foi desenvolvida no Brasil, levando em conta os valores culturais, diversidades regionais, e especificidades dos quadros clínicos no país. Avalia a extroversão a partir de quatro facetas: Nível de Comunicação (E1), Altivez (E2), Assertividade (E3) e Interações Sociais (E4). A validade de construto foi realizada em uma amostra de 1.084 pessoas de ambos os sexos, sendo que 62,7% eram mulheres. A amostra foi coletada em cinco estados brasileiros (BA, RS, SC, SP e MG), com idade média de 22,1 anos (DP=6,42). A partir desse estudo, foram identificadas as quatro facetas da escala. Nesse estudo, também foram calculados os índices de consistência interna para E1, E2 E3 e E4, calculados por Alpha de Cronbach, que apresentaram valores de 0,90; 0,78; 0,78 e 0,83, respectivamente e a escala geral apresentou uma consistência interna de 0,91 (Nunes, 2007). - Escala de Afeto – EA: Proposta por Giacomoni (2002). É composta por uma escala total de 38 itens (Alpha de Cronbach = 0,90), dividida em duas subescalas Afeto Positivo (Alpha = 0,88; 20 itens) e Afeto Negativo (Alpha = 0,84; 6 20 itens). As respostas são dadas em uma escala do tipo Likert de 5 pontos (1 - nem um pouco; 2 – um pouco; 3 mais ou menos; 4 - bastante; 5 – muitíssimo). - Escala Multidimensional de Satisfação de Vida – EMSV: Proposta por Giacomoni (2002), é uma escala de medida multidimensional, composta por 50 itens, cujo objetivo é avaliar a satisfação de vida dos participantes, a partir de seis domínios específicos: self, self comparado, não-violência, família, amizade e escola. Evidências empíricas apontam elevada consistência interna (Alpha de Cronbach da escala total= 0,93; Giacomoni, 2002). Para avaliação de processo serão adotadas três estratégias de coleta de dados que possibilitem o acesso a mudanças que ocorrem ao longo do processo: 1) Diários de campo – a equipe de pesquisadores que estará conduzindo o Programa fará registros individuais do que percebem durante as intervenções, no grupo de participantes e na sua forma de compreender o grupo. 2) Blog dos adolescentes: Ao mesmo tempo, será solicitado que os participantes do encontro preencham um Blog narrando suas experiências durante o período de intervenção. O Blog é um bloco de papel com uma capa personalizada que permanece com cada adolescente durante toda a intervenção. Essa técnica de coleta de dados já vem sendo adotada pelo Programa EBA e tem possibilitado relatos diversos de como a intervenção tem influenciado o desenvolvimento dos adolescentes. 3) Ficha de avaliação do Programa – Ao final de cada encontro e no encerramento do Programa é solicitado que os participantes avaliem o Programa através de questões estruturadas e abertas. A avaliação conta com itens como qualidade da intervenção, relevância do tema, dinâmica adotada e qualificação dos facilitadores. Aspectos éticos. Este projeto será submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da FACCAT. Serão respeitados todos os preceitos da Resolução n.196/1996 do Conselho Nacional de Saúde. As assinaturas dos Termos de consentimento livre e esclarecido pelos pais de todos os participantes no estudo (seja como participantes do G1 ou G2; Anexo A) e dos Termos de consentimento livre e esclarecido para os adolescentes (Anexo B) serão feitas através das escolas nas quais o Programa estará sendo desenvolvido. Análise dos dados. Para a avaliação de impacto, serão levantadas, inicialmente, estatísticas descritivas das variáveis biosociodemográficas, a saber: sexo, idade, estado civil, religião, escolaridade, cidade, renda média familiar, configuração familiar, etc. Ainda para a avaliação do impacto serão calculadas estatísticas descritivas dos instrumentos descritos previamente. Com o objetivo de comparar diferenças intra-grupos (em T1 e T2) e entre grupos (G1 e G2) em relação ao desenvolvimento socioafetivo dos participantes será realizada uma Análise Multivariada de Variância (MANOVA) com medidas repetidas. Para a avaliação do processo será realizada análise qualitativa dos diários de campo (dos pesquisadores e dos participantes) e das fichas de avaliação do Programa. Maxwell e Miller (2008) propõem uma análise qualitativa dos dados composta pelos seguintes passos: (1) leitura inicial dos dados que resultará em anotações pessoais na tentativa de propor categorias e estabelecer relações entre os dados; (2) identificação de unidades de dados que possam ser utilizados no processo de análise, limpando os textos descritos de trechos irrelevantes ao estudo; (3) segmentação dos dados para a análise das categorias; (4) análise das categorias; e (5) compreensão das categorias no contexto da intervenção. Salienta-se que esses passos não são sequenciais, ou seja, são esperados avanços e retrocessos entre essas etapas, mantendo a atenção tanto nas categorias quanto no contexto no qual estas foram produzidas.Esse exercício de leitura dos dados será auxiliado pelo software Nvivo 9, permitindo a compreensão dos dados de forma rica, profunda e contextualizada. A integração dos resultados qualitativos e quantitativos possibilitará a compreensão bioecológica dos resultados. 7 Cronograma de execução Período 2011 Etapa Atividade Préexecução Contato com locais para aplicação do Programa EBA Treinamento teórico, metodológico e ético da equipe Preparação dos materiais utilizados nos encontros Treinamento de participação e observação Treinamento de confecção de diários de campo Revisão da literatura Pré-teste Avaliação do instrumental Confecção da base de dados Análise de dados Pós-teste Avaliação do instrumental Confecção da base de dados Análise dos dados Confecção de relatórios Pré-teste Execução Pós-teste Observação e registro em diário de campo Aplicação e análise das fichas de Avaliação Análise dos diários de campo dos participantes (Blogs) Avaliação qualitativa dos dados Integração dos Achados Preparação de relatórios, trabalhos de conclusão de curso e artigos Preparação da pesquisa e da intervenção Avaliação de impacto Intervenção Propriamente dita Avaliação de Processo A S O N Período 2012 D J F X X A M J J X X X X X X X X X X X X X X M X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X O N D X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X S X X X A X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X Cronograma de execução físico e financeiro Período ago/11 set/11 out/11 nov/11 dez/11 Atividades desenvolvidas Necessidades físicas Cronograma financeiro (FAPERGS) Contato com escolas e organização de material para o Programa EBA Aplicação do Pré-teste em 100 adolescentes (50 participantes do Programa e 50 controle) Realização do Programa e Organização banco de dados Realização do programa e Análise do pré-teste Aplicação do Pós-teste 100 adolescentes (50 participantes do Programa e 50 controle) Digitalização dos diários de campo dos participantes no Programa Aquisição de material necessário para as edições do Programa: notebook, SPSS e NVivo 9, material para aplicação testes suficientes para as aplicações em 100 adolescentes, impressora, material gráfico, pendrives para armazenagem, filmes (Garotas Malvadas ou similar), máquina fotográfica e filmadora R$ 12.000,00 8 jan/12 Análise dos diários de campo e do pós-teste/ organização da próxima edição fev/12 Integração dos resultados mar/12 Contato com escolas e organização de material para o Programa EBA abr/12 Aplicação do Pré-teste em 100 adolescentes (50 participantes do Programa e 50 controle) mai/12 Realização do projeto e Organização banco de dados jun/12 jul/12 ago/12 set/12 out/12 nov/12 dez/12 Realização do projeto e Análise do pré-teste Aplicação do Pós-teste 100 adolescentes (50 participantes do Programa e 50 controle) Digitalização dos diários de campo dos participantes no Programa Análise dos diários de campo e do pós-teste Contato com escolas e organização de material para o Programa EBA Aplicação do Pré-teste em 100 adolescentes (50 participantes do Programa e 50 controle) Realização do projeto e Organização banco de dados Complementação de material necessário para as demais edições do Programa e finalização de relatórios: toner, material para testagem de 200 participantes em quatro etapas, aquisição de livros e periódicos para construção de relatórios R$ 8.000,00 Realização do projeto e Análise do pré-teste Aplicação do Pós-teste 100 adolescentes (50 participantes do Programa e 50 controle) Referências Alencar, R. 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Nestes encontros serão abordados temas como preconceito, sexualidade, drogas e autoestima de forma interativa, com jogos, gincanas, filmes e outras modalidades. O intuito deste Programa é promover a conscientização para hábitos mais saudáveis para o desenvolvimento. Seu filho poderá ser inserido no grupo que participará do encontro nos próximos meses ou no grupo que participará no Programa posteriormente (para podermos avaliar a efetividade do Programa). Todo o material coletado durante este período será utilizado para fins de pesquisa. Salientamos que será preservando o nome do seu filho, mantendo seu anonimato. Desta forma, serão garantidos o sigilo e a privacidade de sua identidade e das informações fornecidas. A participação de seu filho em nossa pesquisa é de suma importância, porém não lhe trará nenhum privilégio, seja ele de caráter financeiro ou de qualquer natureza. ___________________________________________________________________________ Confirmo ter conhecimento do conteúdo desse termo. A minha assinatura abaixo indica que concordo que meu filho participe do Programa e que o material coletado seja utilizado para fins de pesquisa. Taquara, ___de_________de _____. ___________________________________________________ Assinatura do responsável pelo participante na pesquisa ANEXO B TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Projeto: Avaliação de Impacto e Processo do Programa Encontros de Bate-papo com Adolescentes: Uma Proposta para a Promoção de Desenvolvimento Saudável em Adolescentes Profissional responsável: Dra. Laíssa Eschiletti Prati Caro adolescente, Você está sendo convidado a participar do projeto acima descrito durante os próximos meses. O Programa EBA: Encontros de Bate-Papo com Adolescentes consiste em 8 encontros promovidos por estudantes de Psicologia da FACCAT. Nestes encontros serão abordados temas como preconceito, sexualidade, drogas e autoestima de forma interativa, com jogos, gincanas, filmes e outras modalidades. O objetivo deste Programa é ajudar na promoção de hábitos mais saudáveis para seu desenvolvimento. Você poderá ser inserido no grupo que participará do encontro nos próximos meses ou no grupo que participará no Programa posteriormente (para podermos avaliar se o Programa está realmente atingindo seus objetivos). Todo o material coletado durante este período será utilizado para fins de pesquisa. Salientamos que seu nome será preservado, mantendo seu anonimato. Desta forma, serão garantidos o sigilo e a privacidade das informações fornecidas. Sua participação em nossa pesquisa é de suma importância, porém não lhe trará nenhum privilégio, seja financeiramente ou de outra forma. _______________________________________________________________________ Confirmo ter conhecimento do conteúdo desse termo. A minha assinatura abaixo indica que desejo participar do projeto e que autorizo que o material coletado seja utilizado para fins de pesquisa. Taquara,___ de_____________de _____. ___________________________________________________ Assinatura do participante na pesquisa 11