1 MEILAINE DE OLIVEIRA DOURADO ESQUIZOFRENIA E RELIGIOSIDADE: A MANIFESTAÇÃO DO DELÍRIO NA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA Artigo apresentado ao curso de PósGraduação em Psicopatologia e Psicodiagnóstico da Universidade Católica de Brasília como requisito parcial para obtenção do título de Especialização Lato Sensu em Psicologia. Orientadora: Luciana Santos Brasília 2013 2 Artigo de autoria de Meilaine de Oliveira Dourado, intitulado “ESQUIZOFRENIA E RELIGIOSIDADE: A MANIFESTAÇÃO DO DELÍRIO NA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA” apresentado como requisito parcial para obtenção de grau de Especialização Lato Sensu de Psicopatologia e Psicodiagnóstico em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, 08 de outubro de 2013, defendido e aprovado pela banca examinadora abaixo assinada: ____________________________________________ Professora Msc. Luciana Santos Brasília 2013 3 DEDICATÓRIA Aos meus pais Márcia e Ezir e aos meus irmãos Mardone, Marineide e Matheus pela paciência e dedicação que tiveram comigo no decorrer do curso. 4 AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus, pela força e esperança que me concedeu durante realização deste trabalho. À minha mãe Márcia e ao meu pai Ezir pela confiança, compreensão e dedicação no decorrer de toda a Pós-Graduação. Aos meus irmãos Mardone, Marineide e Matheus pelo afeto e apoio nos momentos mais difíceis e por acreditarem no meu sonho. À minha professora e orientadora Luciana Santos, pela disponibilidade, confiança, força, abertura para questionamentos e reflexões que possibilitaram um crescimento pessoal e profissional no decorrer das orientações do trabalho final de curso. À vida por me proporcionar momentos tão gratificantes como este. Meus sinceros agradecimentos a todos que com generosidade e carinho possibilitaram a construção desse estudo e, principalmente da realização de uma formação justa. 5 RESUMO DOURADO, Meilaine de Oliveira. Esquizofrenia e religiosidade: a manifestação do delírio na avaliação. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Psicologia), Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2013. Este estudo discute um caso clínico de um homem de 45 anos portador de Esquizofrenia Paranoide (CID F20.0) e se propõe por meio da realização de um psicodiagnóstico debater a relação entre esquizofrenia e religiosidade e como ela é manifestada através dos delírios, já que ela é utilizada como instrumento pelo paciente portador de doenças crônicas para lidar com as condições estabelecidas por sua doença, bem como, ressaltar a importância dela como objeto de atenção da saúde mental e da prática clínica. Assim, num primeiro momento, é feita uma descrição da psicopatologia incluindo seus sintomas e modos de funcionamento e em seguida, é realizada uma discussão entre esquizofrenia, religiosidade, delírios religiosos e suas formas de apresentação. Num segundo momento, ocorre à exposição dos instrumentos utilizados como a entrevista clínica e os testes projetivos e psicométricos escolhidos para investigar tal relação. Finaliza-se com a análise e conclusão que trazem elementos que confirma essa relação e a hipótese diagnóstica levantada. PALAVRAS-CHAVES: Avaliação psicológica; esquizofrenia, religiosidade; delírios religiosos. 6 ABSTRACT This study discusses a case of a man of 45 carrier Paranoide Schizophrenia (ICD F20.0) and proposes by performing a psychodiagnostic discuss the relationship between schizophrenia and religion and how it is manifested through the delusions, since it is used as a tool for patients with chronic diseases to deal with the conditions set by their disease, as well as emphasize the importance of it as an object of mental health care and clinical practice. So, at first, a description is given of psychopathology including its symptoms and modes of operation and then a discussion is held between schizophrenia, religiosity, religious delusions and presentation forms. Secondly, there is the exposure of instruments used as a clinical interview and psychometric and projective tests chosen to investigate this relationship. Ends with the analysis and conclusion that bring elements that confirms this relationship and the examination suggested. KEY WORDS: Psychological Assessment, Schizophrenia, religiosity, religious delusions. 7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 8 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .......................................................................... 11 2.1 ESQUIZOFRENIA, RELIGIOSIDADE E DELÍRIOS RELIGIOSOS .................... 13 3 METODOLOGIA ................................................................................................. 15 3.1 IDENTIFICAÇÃO DO PACIENTE ...................................................................... 15 3.2 INSTRUMENTOS UTILIZADOS NA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA .................... 16 3.3 PROCEDIMENTOS DA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA ....................................... 17 4 ANÁLISE DO CASO ........................................................................................... 19 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 24 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 26 8 1 INTRODUÇÃO A esquizofrenia segundo Kaplan (2007), atinge cerca de 1% da população, normalmente se inicia antes dos 25 anos de idade, prossegue por toda a vida, e afeta pessoas de todos os grupos sociais. Tanto os pacientes como suas famílias recebem cuidados insuficientes e são submetidos a ostracismo social em função da ampla ignorância a respeito do transtorno. Ainda que seja discutida como uma única doença, a esquizofrenia engloba um grupo de transtornos com etiologias heterogêneas que expõem curso da doença, resposta ao tratamento e aspecto clínico de diversas formas. Os clínicos devem estar cientes que o diagnóstico de esquizofrenia baseia-se fundamentalmente na história psiquiátrica e no exame do estado mental, uma vez que não existe um exame laboratorial para tal condição (KAPLAN, 2007). Kaplan (2007, p. 510) aponta que “a esquizofrenia é igualmente prevalente em homens e mulheres. Ambos os sexos diferem, no entanto, quanto ao início e curso da doença, sendo o início mais precoce entre os homens.”. Holmes (2001, p.236), por sua vez, afirma que: O termo esquizofrenia refere-se a um conjunto de transtornos que abrange o que são, sem dúvida, os mais complexos e assustadores sintomas que jamais encontraremos. Os indivíduos com esquizofrenia podem ouvir vozes, pensar que são controlados por outras pessoas, sentir insetos caminhando nos seus corpos, acreditar que outros estão conspirando contra eles ou expressar-se usando linguagens sem sentido. Os critérios diagnósticos do DSM-IV-TR incluem especificadores de curso que oferecem aos clínicos diversas opções e descrevem situações clínicas reais. A presença de alucinações ou delírios não é necessária para um diagnóstico de esquizofrenia; o transtorno é diagnosticado como tal quando o paciente exibe dois dos seguintes sintomas: delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento acentuadamente desorganizado ou catatônico e sintomas negativos como, embotamento afetivo, alogia ou abulia (KAPLAN, 2007 p. 520). O DSM-IV-TR (2002) classifica os subtipos da esquizofrenia como paranóide, desorganizada, catatônica, indiferenciada e residual, com base na apresentação 9 clínica. O tipo paranoide de esquizofrenia que é o que permeia a essência desse estudo, que de acordo com a literatura proposta por Kaplan (2007), caracteriza-se pela preocupação com um ou mais alucinações auditivas ou delírios frequentes, classicamente se manisfestando com delírios de perseguição e/ou grandeza. Esses pacientes costumam ter seu primeiro episódio da doença em idade mais avançada do que aqueles como o tipo catatônico ou desorganizado. No manual classificatório se registra que os pacientes nos quais a esquizofrenia ocorre ao final da segunda ou terceira décadas de vida geralmente já estabeleceram uma vida social que pode ajudá-los a enfrentar a doença, e seus recursos de ego tendem a ser maiores do que os de pacientes com esquizofrenia catatônica ou desorganizada. Esses pacientes costumam ser tensos, desconfiados, resguardados, reservados, e às vezes hostis ou agressivos, mas também capazes de se comportar adequadamente em algumas situações sociais. Sua inteligência nas áreas que não são invadidas pela psicose tende a permanecer intacta (DSM-IV-TR, 2002). Outro indicador curioso diz respeito a relação da manifestação da esquizofrenia com conteúdos religiosos. De acordo com Dalgalarrondo (2011), no século XIX, período de formação da psiquiatria e psicopatologia moderna, houve uma importante discussão acerca das possíveis relações entre religiosidade e o adoecimento mental. Naquele século, umas das formulações mais recorrentes referiam-se a ideia de que o excesso de religiosidade, o fanatismo religiosos, as práticas religiosas intensas seriam propagadoras do adoecimento mental. O autor cita autores em sua obra, a exemplo de Kraepelin, que destaca que os pacientes esquizofrênicos apresentam no campo das ideias delirantes conteúdos religiosos em um contexto de exaltação de culpa, pecado e arrependimento, ouvindo vozes de Deus ou do demônio, ordens divinas, provocações demoníacas, ficando claramente visíveis nos estados de humor, na vivência afetiva e nos sentimentos. Jaspers (1973), afirma que o delírio, não raramente, surge nos pacientes como vivências metafísicas. Dissolvem-se duplamente as adjacências entre o correto e o falso, e entre o verdadeiro e o não verdadeiro. Mas, assim como para a religião, também no campo do delírio a veracidade empírica não é o ponto mais importante. As compreensões metafísicas, com seus símbolos e imagens religiosas, adquirem uma importância cultural distinta naqueles que apresentam vivências esquizofrênicas em contraposição às pessoas não psicóticas. 10 Fato é que os fenômenos de cunho religioso, para-normal, metafísicos, entre outros, são frequentemente visto nos episódios de delírios esquizofrênicos. No entanto, conforme afirma Fraas (1997, p. 24), a pergunta pela religiosidade do ser humano como fenômeno psíquico foi levantada em seu sentido pleno somente no séc. XIX. Até então os seres humanos, independentemente de sua atitude pessoal de fé, viviam num mundo determinado por concepções religiosas. Logo, a religiosidade como relação óbvia do ser humano com poderes sobrenaturais últimos ou como uma instância do além não estava em discussão. Dessa forma, no início do século XIX, a partir da criação de uma instituição exclusivamente para “doentes mentais”, é que foi descoberta que organizações religiosas criaram e conduziram instituições de doentes mentais abrigando em muitas delas, violência, exclusão e negligência. Cabe, no entanto, problematizar-se a cerca do modelo empregado para se diagnosticar as experiências religiosas e as interfaces da manifestação do delírio religioso. Desse modo, busca-se discutir e compreender a manifestação da religiosidade no paciente portador da Esquizofrenia Paranoide já que ela é utilizada como instrumento pelo paciente portador de doenças crônicas para lidar com as condições estabelecidas por sua doença, bem como, ressaltar a importância dela como objeto de atenção da saúde mental e da prática clínica. É importante também destacar que como as doenças crônicas determinam alterações no senso de identidade e requerem estratégias individuais de enfrentamento dessa condição, cada indivíduo apresenta uma dinâmica de funcionamento e estruturação particular. 11 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Em meio aos transtornos mentais, a esquizofrenia se veste de reservada importância, demandando esforços e desafios no manejo da doença. Paradigma da doença mental grave e a mais comum das psicoses crônicas, a esquizofrenia muitas vezes apresenta consequências psicológicas e sociais devastadoras tanto para os portadores como para os seus familiares. Sabe-se que a esquizofrenia é uma doença mental grave caracterizada por sintomas negativos, positivos e cognitivos que afetam quase todos os aspectos da atividade mental, incluindo a percepção, a atenção, a memória e a emoção. Os sintomas estão associados a diversos graus de prejuízos sociais e funcionais persistentes. O transtorno em geral se manifesta no final da adolescência e início da vida adulta. Paim (1990) denomina esquizofrenia paranoide o tipo clínico da enfermidade que se caracteriza pela predominância de delírios a alucinações. À medida que a enfermidade progride, o doente se integra em seu mundo delirante e alucinatório, afastando-se cada vez mais da realidade, da qual retira apenas aqueles elementos que contribuem para fortalecer a sua convicção delirante. Em toda a sua evolução, não se observam alterações profundas da personalidade, como ocorre habitualmente nos outros subtipos de esquizofrenia. As alucinações auditivas são muito frequentes no quadro paranoide e se manifestam com a mais completa lucidez da consciência. Apresentam-se geralmente como vozes que censuram, condenam, ameaçam ou interferem diretamente nos atos do paciente (PAIM, 1990, p. 78). Hallak, Chaves e Zuardi (2011 apud KAPCZINSKI; QUEVEDO & IZQUIERDO, 2011, p.195), destaca que a esquizofrenia pode ser entendida como um transtorno heterogêneo, com variações em sua fisiopatologia. Não há um sintoma ou sinal potognomônico e, ao longo do tempo, os sintomas podem mudar em um mesmo paciente. A esquizofrenia foi descrita há mais de cem anos, e sua neuropatologia ainda é desconhecida. Não obstante a falta de identificação precisa da etiologia e da fisiopatologia da esquizofrenia, importantes revelações têm sido feitas por estudos modernos de genética, psicofarmacologia, neuroanatomia e neuroimagem. 12 Holmes (2001, p. 245), aponta que “os sintomas dominantes na esquizofrenia paranoide são delírios de perseguição e grandiosidade. No entanto, tais pacientes não apresentam desorganização de pensamentos ou comportamento”. Os sintomas que englobam a esquizofrenia são definidos claramente por Lieberman, Stroup e Perkins (2013, p. 33), “onde sintomas positivos se constituem por excesso de distorções das funções normais, acréscimos específicos a pensamento, emoção ou comportamento. Os sintomas positivos podem estar presentes ao longo das diferentes fases da doença, desde a prodrômica à psicótica aguda e, em menos grau, nas fases pós-psicótica ou residual mais estável”. Ainda em relação aos sintomas positivos, “eles incluem alucinações, delírios, distúrbios de pensamento e comportamentos bizarros. Não são usualmente encontrados nos indivíduos normais” (Holmes, 2001, p.249). Já os sintomas negativos, segundo Lieberman,Stroup e Perkin (2013), são uma característica frequente e persistente da esquizofrenia. Podem surgir precocemente, durante a fase prodrômica da doença, muito antes da manifestação do primeiro episódio psicótico. “Os sintomas negativos incluem humor deprimido, pobreza de fala, incapacidade de experimentar sentimentos positivos e apatia. Refletem defeitos ou carências” (Holmes, 2001, p.249). Ainda de acordo com a literatura proposta por Lieberman, Stroup e Perkins (2013), as definições e os critérios utilizados para estabelecer o diagnóstico de esquizofrenia têm sofrido mudanças importantes ao longo dos anos, embora as definições e as descrições dos sintomas tenham se mantido estáveis. Com a introdução do DSM IV (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1994) e sua revisão DSM IV TR (American Psychiatric Association, 2002), houve uma maior restrição no diagnóstico, que incorporou sintomas negativos específicos. Os critérios A do DSM IV incluíram 1 sintoma negativo e quatro positivos, sendo que pelo menos dois destes deveriam estar presentes para que esse critério fosse atendido. Sendo assim, o critério de duração dos sintomas da fase aguda foi prolongado de uma semana para um mês. Se os delírios (Critério A) forem considerados bizarros, apenas esse único sintoma é suficiente para satisfazer o critério A para esquizofrenia. Da mesma forma, o diagnóstico do transtorno pode ser feito apenas pela presença de alucinações nesse critério. Quando essas consistem em vozes que comentam o comportamento ou pensamento do indivíduo ou se duas ou mais vozes estiverem conversando entre si. 13 Paim (1990, p. 11) aponta que “o termo esquizofrenia serve para indicar uma psicose endógena, que se distingue pela apresentação de sintomas psicológicos específicos que ocasiona desordem da personalidade”. 2.1 ESQUIZOFRENIA, RELIGIOSIDADE E DELÍRIOS RELIGIOSOS Os delírios religiosos foram encontrados de forma recorrente em pacientes com esquizofrenia conforme a revisão literária mostra, a exemplo do psiquiatra alemão, Kraepelin que percebeu particularmente a ocorrência desse sintoma em seus pacientes. Dalgalarrondo (2008 p.328) destaca que um ponto chave no estudo da esquizofrenia tem sido a presença de delírios. A inter-relação entre delírios religiosos e religiosidade tem sido objeto de estudo na literatura, bem como suas variações de acordo com aspectos socioculturais, ainda que por sua real etiopatogenia não esteja elucidada. Sims (2011 apud DALGALARRONDO 2011, p.165) aponta que os delírios religiosos verdadeiros podem ocorrer na esquizofrenia, nos quadros maníacos e depressivos psicóticos e em outras psicoses. Eles dependem do background social do paciente, de seus interesses e do de seu grupo sócio familiar. Os delírios religiosos não são causados por crenças religiosas excessivas ou radicais, nem por erros ou falhas morais cometidos que o próprio paciente atribuem como causa de seus infortúnios. Os delírios religiosos provêm, simplesmente, de um adoecimento mental, de base (que seria “endógeno” e não “sociocultural”) e refletem em seu conteúdo (mas não como fator causa), as preocupações, os valores e os interesses do indivíduo e seu meio cultural. É importante ressaltar que pode ser particularmente difícil à diferenciação entre crenças e experiências religiosas incomuns e delírios religiosos. Sendo assim, o autor citado acima propõe os seguintes elementos para diferenciação: 1. Tanto a experiência subjetiva do indivíduo como seu comportamento observável deve ser mais compatível com conhecidos sintomas psiquiátricos de doenças mentais reconhecíveis; isto é, quadro todo condiz mais doença mental do que com experiência religiosa. A expressão do quadro tem a forma de um delírio; 2. Há outros elementos e sintomas reconhecíveis de transtorno mental também presentes, em outras áreas da vida do sujeito, além do delírio; por 14 exemplo, constatam-se alucinações, alterações do humor, do pensamento, etc.; 3. O estilo de vida, o comportamento e a direção dos objetivos do indivíduo são mais consistentemente voltados para uma história de transtorno mental do que para experiências culturais pessoalmente enriquecedoras de conteúdo religioso. Sims (2011 apud Dalgalarrondo 2011, p.165). Outro aspecto que merece destaque é o fato de que a participação da religiosidade na vida do indivíduo, no entanto, não necessariamente a sua inserção em atividades religiosas coletivas, pode salientar a dificuldade de relacionamento e integração social dos indivíduos com esquizofrenia. “Dessa forma, pode-se enfatizar que as relações entre delírio e crenças religiosas intensas são ainda fonte considerável de debate e polêmica Necessita estuda-las com métodos psicológicos mais refinados, assim como com referências conceituais e teóricos mais aprimorados.” (DALGALARRONDO 2011, p.168). Kraepelin (apud DALGALARRONDO 2011, p. 149-150), notou o componente religioso nos transtornos mentais com muita frequência. Suas descrições clínicas evidenciam, de modo geral, a presença recorrente de conteúdos místicos e religiosos, sobretudo nos pacientes psicóticos. A demência precoce corresponde ao que hoje se denomina esquizofrenia, sobretudo as formas mais graves, com um quadro clínico que, além de alterações de pensamento, delírio, alucinações, também revela considerável desorganização mental e enfraquecimento das faculdades volitivas. Nesse sentido, o autor aponta que é no campo das ideias delirantes que os pacientes com esquizofrenia mais evidenciam os conteúdos religiosos. Tais delírios podem estar em um contexto de exaltação ou de culpa. Para Schneider (1887-1967 apud DALGALARRONDO 2011, p. 156), a psicopatologia da religião nos pacientes esquizofrênicos permitia os conteúdos das vivências que incluíam todos os tipos possíveis de pensamentos, esperanças e temores humanos. Para ele, seria estranho se os conteúdos religiosos não estivessem presentes. Os delírios, as alucinações e os estados do humor podem ser, portanto, de conteúdo persecutório, político, erótico, religioso, místico, etc. Dessa forma, fica clara a relação existente entre esquizofrenia e religiosidade em vários casos estudados por diversos autores, confirmando assim a possibilidade da ocorrência de delírios religiosos em alguns casos de esquizofrenia, como por exemplo, o que comtempla esse estudo. 15 3 METODOLOGIA Ocampo (2005) define a avaliação psicológica como uma metodologia clínica que envolve um conjunto constituído de princípios teóricos, métodos e técnicas de investigação tanto da personalidade assim como de outras funções cognitivas, tais como: entrevista e observações clinicas, testes psicológicos, técnicas projetivas e outros procedimentos de investigação clinica. No presente trabalho utilizou-se desse método para se analisar discutir e compreender a manifestação da religiosidade no paciente portador da Esquizofrenia Paranoide, bem como confirmar o diagnóstico dado a Manoel há 20 anos. Assim, observou-se a necessidade de investigar mais profundamente a estruturação de personalidade do sujeito, assim como seus conflitos mais latentes e atuais para compreender sua dinâmica intrapsíquica e então se avaliar as implicações para o sujeito do diagnóstico motivo da avaliação. Dessa forma, foi realizado o processo de avaliação psicológica do qual Cunha (2000 p.105) considera como um processo científico e, como tal, parte de perguntas específicas, cujas respostas favoráveis se estruturam na forma de hipóteses que serão confirmadas ou não através dos passos seguintes do processo. 3.1 IDENTIFICAÇÃO DO PACIENTE Esse estudo foi realizado a partir de um caso clínico em avaliação psicológica com o Sr. Manoel (nome fictício) de 45 anos, aposentado por esquizofrenia. O analisado foi encaminhado por um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do Distrito Federal para fazer avaliação psicológica no Centro de Formação e Psicologia Aplicada (CEFPA) da Universidade Católica de Brasília com a demanda de rever a conduta de tratamento para hipótese diagnóstica CID F 20.0 sugerido há mais de 20 anos. O paciente frequenta àquela instituição desde o segundo semestre de 2012 e necessitava de uma confirmação de diagnóstico para compreender o caso e adequar o tratamento proposto, uma vez que na instituição realiza apenas 16 algumas atividades em grupo e a equipe que o atende não tem percebido evolução positiva em seu quadro. 3.2 INSTRUMENTOS UTILIZADOS NA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA Como instrumentos utilizados na avaliação psicológica lançaram-se mão de entrevistas clínicas, com o paciente e com o seu cuidador (o padrasto), e a análise de quatro testes, sendo um psicométrico e três projetivos. A entrevista clínica de acordo com Cunha (2000) é um conjunto de técnicas de investigação, de tempo delimitado, cujo entrevistador utiliza conhecimentos psicológicos com o objetivo de descrever e avaliar aspectos pessoais, relacionais ou sistêmicos, em um processo que permite fazer recomendações, encaminhamentos ou propor algum tipo de intervenção. Com o teste psicométrico das Matrizes Progressivas Escala Geral ou Teste de Raven (1979) buscou-se aferir aspectos importantes do potencial intelectual. O teste foi elaborado com o intuito de estimar a inteligência de uma pessoa, permitindo a observação e a clareza do pensamento e a capacidade cognitiva de resolução de problemas. As Matrizes Progressivas foram construídas com o pressuposto de fornecer a capacidade imediata do indivíduo para pensar e observar com clareza. A Escala Geral das Matrizes Progressivas, Séries A, B, C, D e E, se constituem num teste que revela a capacidade que um indivíduo possui, no momento de fazer a prova, para apreender figuras sem significado que se submetem a sua observação, descobrir as relações que existem entre elas, imaginar a natureza da figura que completaria o sistema de relações implícito, e ao fazê-lo, desenvolver um método sistemático de raciocínio. O teste HTP (House, Tree and Person), Técnica Projetiva de Desenho, conhecido também como Teste da Casa-Árvore-Pessoa, desenvolvido por John N. Buck (2003) tem como objetivo compreender aspectos da personalidade do indivíduo bem como a forma dele interagir com as pessoas e com o ambiente. O HTP estimula a projeção de elementos da personalidade e de áreas de conflito dentro da situação terapêutica e proporciona uma compreensão dinâmica das características e funcionamento do indivíduo. 17 O Teste de Rorschach (Escola Francesa) é um dos testes projetivos mais respeitados no mundo. Ele foi desenvolvido pelo psiquiatra Hermann Rorschach (1994), em 1917-1918. Fornece um panorama da psicodinâmica pessoal, apontando as principais dificuldades e potenciais de cada sujeito em particular. O TAT Teste de Apercepção Temática desenvolvido por Henry A. Murray (2002) é um método destinado a revelar ao psicólogo, impulsos, emoções, sentimentos, complexos e conflitos marcantes da personalidade. Seu principal valor consiste na capacidade de tornar patentes pendências subjacentes inibidas que o sujeito ou paciente não deseja aceitar ou que não tem condições de admitir por serem inconscientes. Considera-se útil em qualquer estudo abrangente de personalidade, no caso de distúrbio de conduta, doenças psicossomáticas, nas neuroses e psicoses. 3.3 PROCEDIMENTOS DA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA No processo de avaliação do Sr. Manoel foram realizadas 08 sessões. As mesmas aconteceram uma vez por semana, no período de abril a junho de 2013, no CEFPA, como parte prática do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Psicopatologia e Psicodiagnóstico. Na primeira sessão foi realizada a entrevista inicial com o paciente para coletar dados e informações relevantes. Na segunda sessão foi aplicado o teste HTP. Aplicou-se apenas a fase acromática do teste e teve duração de 43 minutos a sessão. O terceiro encontro foi realizado a aplicação do Raven por sentir a necessidade de se investigar se o potencial intelectual do paciente estava preservado e qual era o seu nível. Após verificar preliminarmente os dados obtidos nos testes anteriores houve uma mudança no plano de trabalho incialmente proposto e convocou-se uma sessão com o padrasto do Sr. Manoel, que é o seu cuidador. Ele trouxe informações elementares referentes às fases de infância, adolescência e adulta que contribuíram para o processo. Na quinta sessão foi aplicado o Rorschach e na sexta sessão foi aplicado o TAT, para dirimir quaisquer dúvidas quanto o diagnóstico. Na sétima e oitava sessões foram feitas a devolutiva e encerramento do processo. Importante salientar que na sessão devolutiva ocorreu a entrega do laudo psicológico e a comunicação 18 verbal discriminada das informações globais do processo, onde reforçando aspectos sadios e adaptativos do paciente bem como o menos adaptativos para o diagnóstico encontrado. 19 4 ANÁLISE DO CASO Manoel tinha 45 anos e quando foi encaminhado pelo CAPS para rever o diagnóstico e a conduta de tratamento do qual vinha sendo submetido. Segundo as entrevistas realizadas com ele e seu cuidador, verificou-se que as primeiras crises por volta dos 25 anos de idade, quando ainda era casado, servidor público e havia nascido seu único filho. À época fazia uso de álcool e esporadicamente maconha, e já possuía interesses por assuntos metafísicos na “filosofia da Técnica Física para Desenvolvimento da Autoconsciência (TFCA), desenvolvido por uma estudiosa a partir do contato com extraterrestres"(sic). O paciente chegou a participar de um destes cursos realizados em cidade próxima ao Distrito Federal. Segundo ele, esta crença sustenta e explica, para o sujeito, as alucinações auditivas e táteis, com as quais convive desde então. Logo durante as primeiras crises, Manoel separou-se da esposa e deixou o emprego, voltando para a casa dos pais onde iniciou o tratamento e recebeu o diagnóstico de Esquizofrenia Paranoide (CID F20.0), o que o levou a aposentadoria. O sujeito, deste o princípio, fez uma boa adesão ao tratamento, seguindo-o de forma regular e cuidadosa. Há 4 anos a mãe de Manoel faleceu, o que o deixou com um aspecto deprimido e mais retraído que de costume, durante muito tempo. Passou a morar, a partir de então, apenas com seu padrasto que o criou desde os 5 anos de idade e que, atualmente, é a figura fundamental em sua rede familiar de apoio, o qual colabora para o seu tratamento e desenvolvimento pessoal/afetivo. Até porque o paciente possui uma escassa rede social de apoio, sendo representada quase que exclusivamente pelo CAPS que frequenta. Manoel também relatou depositar uma expectativa muito grande no psicodiagnóstico. Nas entrevistas, ele dizia que passou a sofrer limitações significativas no seu modo de ser e viver logo após o primeiro episódio de sintomas da doença. Enfatizava que tinha perdido sua autonomia, vida própria, independência, emprego, entre outros: “quero saber se tenho momentos de plena consciência ou se vivo mergulhado nas vozes que ouço, pois não acredito ter esse diagnóstico” (sic). Isso porque o paciente também acreditava que não tinha 20 Esquizofrenia Paranoide, entendia que as alucinações auditivas eram advindas da crença religiosa que adotava: “creio em algo mais, algo que a ciência não tem controle nem explicação. Ela não tem recursos suficientes para comprovar a vida em outro plano espiritual.” (sic). Dessa forma, Manoel trazia na maioria das sessões essa inquietação com relação à ciência e a evolução humana, questionando inclusive com alguns médicos os motivos pelos quais os medicamentos que tomava eram indicados para ele, como por exemplo, como foi feita a descoberta de que aquele medicamento agiria em determinada doença e tratamento. As afirmações citadas acima trazem informações que foram verificadas na avaliação de Manoel, onde se pode afirmar que os delírios religiosos tem relação com as doenças mentais, principalmente as neuroses e psicoses. A não aceitação do paciente em relação ao diagnóstico ficou clara em todo o processo, inclusive na sessão da devolutiva onde ele falou: “vou analisar o laudo e depois entro em contato para esclarecer a minha opinião em relação ao trabalho de psicodiagnóstico realizado” (sic). Com a análise de suas falas foi visto que o paciente resistia em aceitar o diagnóstico de Esquizofrenia, fazendo uma relação de seus sintomas com sua crença religiosa. O que é comumente verificado na literatura: O conteúdo de ocorrência delirante se refere às convicções de vocação religiosa, de projeção política, de capacidade especial, de perseguição e de ser amado. Na maioria dos casos, da temática e da configuração do conteúdo dessas ocorrências delirantes se deduz a suspeita de sua realidade, de sua natureza psicótica (PAIM, 1990, p. 35). Sendo assim, Paim (1990) reforça que a apresentação de percepção delirante ou de ocorrência delirante constitui elemento importante para o diagnóstico de esquizofrenia. Assim como os sintomas que englobam audição de vozes que interferem na própria atividade do indivíduo. Que é uma forma alucinatória, onde os indivíduos escutam vozes que lhes transmitem ordens, ou fazem comentários sobre seus atos. No processo psicodiagnóstico, Manoel também relatava a presença desses sintomas e culpava as vozes pelas perdas que teve em toda sua vida, tanto pessoais como profissionais. Dessa forma, é respeitável mencionar que enquanto a personalidade do indivíduo se mantém preservada, há possibilidade de impedir as 21 influências das vozes, mais com a progressão da doença, o indivíduo se torna vítima passiva delas, ocorrendo assim à despersonalização. Ainda que já levantadas hipóteses a respeito da dinâmica funcional do sujeito, buscaram-se testes que auxiliassem na percepção de alguns indicadores que auxiliassem na compreensão do caso e na construção do diagnóstico e prognóstico do mesmo. Dessa forma, a partir dos instrumentos aplicados, foram verificados aspectos que merecem destaque nesse estudo. No HTP, o sujeito apresentou como características um significado emocional intenso, mobilizando associações conscientes e inconscientes referentes ao lar. Esse resultado traz claramente uma relação com as verbalizações de Manoel durante as sessões, onde ele trazia a vontade de ter tido a oportunidade de resgatar sua casa e sua família que foram perdidos com o diagnóstico da Esquizofrenia. O paciente também apresentou particularidades que sugerem sentimento de inadequação, insegurança, retraimento, descontentamento e regressão. Houve também a percepção de uma ineficiência do funcionamento do indivíduo em decorrência de interferências do passado. Foi possível observar um equilíbrio precário da personalidade do indivíduo, devido à excessiva busca de satisfação pela fantasia. O teste também apresentou indícios de sentimento de menos valia, pouca funcionalidade com relação ao ambiente. Foi encontrada rigidez do sujeito com ele mesmo, sentimentos de inadequação e contato empobrecido com a realidade. De um modo geral, foi percebida uma luta do indivíduo em manter a integridade de seu ego e indicativo de patologia severa, sendo assim observado no teste de Manoel. O instrumento Raven apresentou resultado que contemplou em Manoel uma inteligência mediana de acordo com a tabela B.3, 47 pontos, percentil de 50%, nível III e tempo de 38min. Assim, pode analisar que seu potencial intelectual permanece preservado e dentro da normalidade. Na avaliação do teste de Rorschach o paciente apresentou por um lado, uma inteligência teórica, capacidade de análise, recursos adaptativos e capacidade produtiva dentro da média. Por outro, desagregação do pensamento lógico, rebaixamento da expressão lógica, racional e intelectual da percepção, bem como raciocínio lógico abaixo da média, o que sugere psicose, ansiedade alta e depressão. 22 Ainda no Rorschach, Manoel apresentou qualidade mediana no seu relacionamento com o ambiente, tendendo a estabelecer relacionamentos interpessoais mais receosos, cautelosos e controladores. Apresentaram também, dificuldades de ordem depressiva, de relacionamento com o mundo externo, tensão e depressão situacional elevada. Demonstrou pouco senso de realidade concreta e objetiva em razão de alteração no senso de realidade. No TAT, Manoel apresentou necessidade de afago, proteção e realização nos escores. Ao mesmo tempo constatou-se um estado emocional interior marcado pela presença de conflitos e abatimento. Apresentou senso de identidade bem estabelecido, com reconhecimento dos limites entre si e os outros. Diante dos resultados obtidos é importante ressaltar que o examinando possui um bom ajustamento psíquico, com expressão lógica, racional e intelectual da percepção e com bom controle geral sobre os dinamismos psíquicos como os instintos, as reações afetivo-emocionais e impulsivas. Expressa flexibilidade no seu modo de perceber e avaliar as coisas, pondo-se de forma empática frente aos outros. Todavia observou-se, a presença de conflitos significativos, resguardados por defesas muito atuantes como: fuga na fantasia, regressão, intelectualização e formação reativa. Associado a isto o paciente apresenta, ainda, sintomas como: embotamento afetivo; retraimento social; necessidade intensa de controle sobre si; dificuldade nas relações interpessoais; e sentimentos de inadequação à realidade, roubo do pensamento, audição de vozes e tudo o que no campo dos sentimentos das disposições e dos anseios, passar a existir como feito ou imposto pelo outro. Tais sintomas apontam a presença de traços esquizofrênicos em Manoel, os quais podem ser confirmados através da literatura por vários autores a exemplo de Paim, Schneider, Jaspers, Kaplan e Dalgalarrondo que o conceituam como sintomas fundamentais ou acessórios, primários ou secundários e sintomas de primeira ordem ou segunda ordem, não deixando de enfatizar independentemente da nomenclatura que eles apresentam o elemento primordial para o diagnóstico de esquizofrenia, e para o estabelecimento dos limites dos quadros. Dessa forma pode-se enfatizar que durante o processo psicodiagnóstico vários desses sintomas foram relatados e confirmados por meio das sessões e dos instrumentos utilizados, em especial os delírios que era a maior queixa do paciente, pois nem as medicações conseguiam diminuí-los ou retirá-los, deixando-o 23 incomodado e reforçando a sua crença de que o diagnóstico estava equivocado e não “passava de vivência religiosas” (sic). 24 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com a conclusão da avaliação psicológica verificou-se que o Sr. Manoel encontrava-se estável por apresentar um pensamento organizado, clareza nas informações e nos diálogos apresentados nas sessões e domínio da convicção dos assuntos que trazia, bem como a remissão de alguns sintomas como alucinações visuais, olfativas, e controle efetivo sobre os demais, como a audição de vozes sob a forma de diálogo, sensações táteis, roubo do pensamento e ocorrência delirante. Pode-se pensar então, a partir do processo, em hipótese diagnóstica de Esquizofrenia Residual segundo CID 10 F.20.5, visto que os sintomas negativos, ainda presentes no sujeito, não são proeminentes e nem acompanhados de forte afeto como outrora foram, o que sugere os benefícios de seu tratamento. De acordo com o DSM-IV-TR (2002), o tipo residual caracterizado pela presença de evidências contínuas de perturbação esquizofrênica, na ausência de um conjunto completo de sintomas positivos ou sintomas suficientes para outro tipo de esquizofrenia. As evidências são indicadas pela presença de sintomas negativos (como afeto embotado, discurso pobre ou a voliação) ou sintomas positivos atenuados (como comportamento excêntrico, discurso levemente desorganizado ou crenças incomuns). Os delírios religiosos que o paciente apresentou em sua fala, assim como visto na literatura, revelam que a manifestação deles está presente na esquizofrenia e demonstram que não só as pessoas com experiências religiosas acentuadas podem expor vivências de sinais psicóticos, assegurando assim a incoerência de discriminação baseado em fatos entre os dois tipos de experiências. A significação da experiência como espiritual ou psicopatológica está sujeita ao modo como tais vivências estão ajustadas a estrutura de valores e crenças na qual as ações do sujeito ocorrem e são definidas, envolvendo centralmente julgamento de valores. Dessa forma se pode considerar que são manifestações de suas experiências anteriores que podem ter desencadeado os primeiros surtos de esquizofrenia bem como seu diagnóstico e sua condição atual. Por fim, indicou-se continuidade com os tratamentos que incluem psicoterapia de grupo, considerando-se que tais vivências motivam a integração progressiva com o outro, incentivando o agir e o viver no ambiente coletivo. No entanto, foi sugerido ao CAPS que o atende que também seja realizada terapia individual para 25 compreensão mais dinâmica do seu funcionamento e mecanismos de defesa e, ainda, acompanhamento de intervenção familiar esporádica, posto que esta seja a principal rede de apoio de Manoel. Sendo assim, viu-se a necessidade de que todas as intervenções terapêuticas fossem adaptadas às necessidades singulares do examinando para que o tratamento tenha o resultado esperado e seja realizado de forma adequada e eficaz, podendo assim demonstrar que a avaliação psicológica para casos de esquizofrenia tem importância e destaque, pois, ela permite a utilização de instrumentos adequados para confirmação ou negação de hipóteses diagnósticas levantadas inicialmente. 26 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BUCK, JOHN N. H-T-P: casa-árvore-pessoa, técnica projetiva de desenho: manual e guia de interpretação. São Paulo: Vetor, 2003. CUNHA, Jurema A. Psicodiagnóstico V. 5ª ed. São Paulo: Artmed, 2000. DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2008. DALGALARRONDO, Paulo. Religião, psicopatologia e saúde mental, 2011. Disponível em: http://online.minhabiblioteca.com.br/books/9788536312248. Acesso em: 28 jul. 2013. 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