1 UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ (UNOCHAPECÓ) Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Suzi Laura da Cunha A CONCEPÇÃO FREIREANA SOBRE A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES: A EJA NO MUNICÍPIO DE CHAPECÓ Chapecó-SC, 2014 2 3 SUZI LAURA DA CUNHA A CONCEPÇÃO FREIREANA SOBRE A FORMAÇÃO PERMANENTE DE PROFESSORES: A EJA NO MUNICÍPIO DE CHAPECÓ Dissertação apresentada ao programa de Pós Graduação Stricto Sensu em Educação da UNOCHAPECÓ para obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Prof.ª Dra. Nadir Castilho Delizoicov. Chapecó-SC, ago. 2014 4 5 6 7 “Ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira, às quatro horas da tarde. Ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma como educador, permanentemente, na prática e na reflexão sobre a prática.” (Paulo Freire). 8 9 AGRADECIMENTO Agradeço a todos que, de uma forma ou de outra, estiveram comigo durante essa caminhada, dando apoio e contribuindo para a conclusão deste trabalho. Agradeço, em especial: A minha família, os filhos Laura e João e meu esposo Mauro, que, através de um gesto ou de uma palavra de incentivo, deram força e motivação para a realização e finalização deste projeto. Aos meus pais Lucila e Lindolfo (in memorian) e meus irmãos pelo apoio mesmo a distância. A minha orientadora, professora Nadir Castilho Delizoicov, que, por meio da sua competência e conhecimento, apontou sugestões enriquecedoras e pertinentes para a elaboração desta pesquisa. Aos colegas da primeira turma do Mestrado em Educação da UNOCHAPECÓ, principalmente a Daiane e a Lucile, pelas orientações coletivas e conhecimentos compartilhados. Aos professores de EJA, da Rede Municipal de Chapecó, que participaram desta pesquisa compartilhando suas vivências e experiência, dando, assim, a possibilidade da realização desta pesquisa. 10 11 RESUMO O presente trabalho investiga o processo de formação continuada de professores de Educação de Jovens e Adultos (EJA), desenvolvido a partir dos princípios da concepção freireana de educação durante o Movimento de Reorientação Curricular, ocorrido no município de Chapecó, no período de 1997 a 2004. O objetivo foi apontar os limites e possibilidades desse processo na formação contínua dos professores da EJA. A investigação caracteriza-se como uma pesquisa de cunho qualitativo. Os dados foram obtidos através de pesquisa documental, questionário e entrevista. A análise dos dados se deu tendo como principal referencial teórico a educação libertadora de Paulo Freire. As professoras que vivenciaram o processo de formação continuada durante o Movimento de Reorientação Curricular constituíram o grupo investigado. As professoras apontaram tanto mudanças significativas como dificuldades no fazer docente. No processo de análise dos dados foi possível identificar cinco categorias: mudança nas práticas pedagógicas; reflexão sobre a prática; trabalho coletivo e diálogo; educando como sujeito do processo; formação continuada e a concepção freireana. Ressalto, a partir do trabalho de formação realizado, a incorporação de algumas práticas, como: reflexão constante do fazer docente a partir da teoria e a valorização dos saberes trazidos pelos educandos. Alguns desafios enfrentados pelas professoras durante o processo de formação foram citados, tais como: dificuldade em trabalhar com uma concepção de educação contrária àquela que estava implantada, a resistência em alterar as práticas tradicionais e, ainda, a forma impositiva da equipe coordenadora na implantação do movimento de formação de professores. Recomendam-se outros estudos para aprofundamento da temática, bem como a divulgação das pesquisas realizadas visando contribuir para a implantação de novas experiências. Palavras-chave: Formação continuada. Educação de Jovens e Adultos. Paulo Freire. 12 13 ABSTRACT The present work investigates the process of continuing education of Youth and Adult Education Teachers (Educação de Jovens e Adultos EJA), it was developed from the principles of Freire's concept of education, and it was based on the period during the Curriculum Reorientation Movement in Chapecó, in the period from 1997 to 2004. The objective was to point out the limits and possibilities of this process for the EJA teachers’ continuing education. The research is characterized as a qualitative research. Data was collected through documental research, questionnaire and interview. Data analysis was carried out and based on the main theoretical framework of Paulo Freire's liberating education. The teachers who have experienced the process of continuing education during the Curriculum Reorientation Movement constituted the investigated group. The teachers showed as significant changes as difficulties in teaching. In the process of data analysis, it was possible to identify five categories: pedagogic practices change; reflection on practice; collective work and dialogue; students as process subject; continuing education and Freire's conception. I emphasize, from the formation work conducted, the incorporation of some practices, such as: the constant reflection on teaching from theory and the appreciation of the knowledge brought by the students. Some challenges faced by teachers during the formation process were mentioned, such as: the difficulty in working with a conception of education contrary to the inserted one, the resistance to change the traditional practices, and well as the imposing way of the coordinating team in the deployment of the teachers’ formation movement. It is recommended further studies to the deepening of the theme as well as the dissemination of the researches conducted to contribute with the implementation of new experiences. Keywords: Continuing Education. Youth and Adult Education. Paulo Freire. 14 15 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Quadro de dissertações ........................................................ 28 Figura 2 – Quadro de disciplinas .......................................................... 33 Figura 3 – Quadro de matrícula da EJA por etapa de ensino ............... 47 Figura 4 – Mapa de localização do município de Chapecó .................. 51 Figura 5 – Taxa bruta de matrícula em SC no ano de 2000 .................. 52 Figura 6 – Organização das totalidades T1 e T2 .................................. 56 Figura 7 – Organização das totalidades T3 e T4 .................................. 56 16 17 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ACT – Admitidos em Caráter Temporário CEB – Comunidades Eclesiais de Base CEIM – Centro de Educação Infantil Municipal CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CONFINTEA – Conferência Internacional de Educação de Jovens e Adultos CPC – Centro Popular de Cultura EBM – Escola Básica Municipal EJA – Educação de Jovens e Adultos FGV – Fundação Getúlio Vargas Fomdep – Fórum Municipal em Defesa da Escola Pública Fundeb – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação IBGE – Instituto Brasileiro Geografia e Estatística IDE – Índice de Desenvolvimento da Educação INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais LDB – Lei de Diretrizes e Bases LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação MEB – Movimento de Educação de Base MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização MOVA – Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos ONU – Organização das Nações Unidas OP – Orçamento Participativo PDE – Plano de Desenvolvimento da Educação PNAD – Programa Nacional de Alfabetização de Adultos SC – Santa Catarina SME – Secretaria Municipal de Educação T1 – Totalidade de Conhecimento 01 UNE – União Nacional dos Estudantes UNESCO – Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura UNOCHAPECÓ – Universidade Comunitária da Região da Chapecó UNOESC – Universidade do Oeste de Santa Catarina 18 19 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ............................................................................. 21 1 OS CAMINHOS DA PESQUISA ................................................... 23 1.1 O contexto da pesquisa ................................................................. 23 1.2 Encaminhamentos metodológicos ............................................... 30 1.2.1 Procedimentos para coleta de dados ............................................ 31 2 EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS ..................................... 35 2.1 Conceito e função da Educação de Jovens e Adultos (EJA) ..... 35 2.2 O contexto brasileiro .................................................................... 37 2.3 A EJA no município de Chapecó ................................................. 51 3 A FORMAÇÃO CONTINUADA DOS PROFESSORES DE EJA E A CONCEPÇÃO FREIREANA ........................................... 59 3.1 Conceitos e concepções na formação de professores ................. 59 3.2 Formação continuada de professores ......................................... 61 3.3 A concepção de Paulo Freire na formação continuada de professores ........................................................................................... 63 3.4 A concepção freireana como aporte para a formação continuada dos professores de EJA .................................................. 67 3.5 Desafios/dificuldades na formação continuada dos professores de EJA ............................................................................. 81 CONSIDERAÇÕES ........................................................................... 87 REFERÊNCIAS ................................................................................. 93 APÊNDICES ..................................................................................... 105 ANEXOS ............................................................................................ 111 20 21 APRESENTAÇÃO Minha formação em nível superior para a docência iniciou-se pelo curso de Pedagogia, concluído em 1995 na Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), de Chapecó (SC), hoje Universidade Comunitária da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ). Na sequência realizei quatro cursos de especialização: Especialização em Orientação Educacional; Educação Infantil e Anos Iniciais; Educação Integrada à Educação Básica em Educação de Jovens e Adultos (EJA); e, por último, Docência na Educação Superior. Concomitante à minha formação, iniciei a carreira profissional atuando na Educação Básica das redes de ensino municipal e estadual de Chapecó; trabalhei como técnica de extensão na UNOCHAPECÓ coordenando um programa denominado “Estudos e Assessoria em Educação”, que na época (2001) estava ligado ao curso de Pedagogia e tinha como objetivo organizar a formação continuada de professores para as redes municipal e estadual dos municípios de abrangência da Universidade. Finalmente, em 2003 passei a atuar no curso de Pedagogia da UNOCHAPECÓ, onde assumi a disciplina de Educação de Jovens e Adultos e, posteriormente, também a disciplina de Sociologia da Educação. Nesse período, o programa de Estudos e Assessoria em Educação passou a assumir várias demandas de formação continuada, com professores formadores do programa “Brasil alfabetizado”, na época “Santa Catarina Alfabetizada”, em diferentes municípios da região. Desta forma, a EJA passou a ser um dos temas principais de minhas leituras e do meu trabalho docente. A minha monografia para a conclusão da Especialização em Educação de Jovens e Adultos, denominada “O Fórum de Educação de Jovens e Adultos de Santa Catarina e os debates atuais sobre educação profissional”, já demonstra o meu interesse pela EJA. Durante a atuação profissional sempre fiquei à frente da disciplina de Educação de Jovens e Adultos, tendo com eixo teórico norteador a concepção freireiana de educação. Assim, a escolha do tema da presente pesquisa se dá em função da minha trajetória profissional, durante a qual a formação de professores, a EJA e a concepção freireana de educação são questões que perpassam minhas práticas. Frente a esse contexto, o objetivo central desta pesquisa é analisar o processo de formação continuada dos professores de EJA do 22 município de Chapecó no período de 1997 a 2004, a partir dos princípios da concepção freireana de educação. O estudo está norteado por uma pergunta-base: quais limites e possibilidades podem ser identificados no processo de formação continuada dos professores de EJA do município de Chapecó, no período de 1997 a 2004? Pretende-se abordar três questões centrais: a) quais aspectos foram relevantes na construção do processo de formação continuada?; b) quais foram os maiores desafios/dificuldades enfrentadas durante o desenvolvimento de implantação do EJA?; c) o que ainda permanece na prática dos professores de EJA do município de Chapecó que vivenciaram o processo de formação desenvolvido naquele período? Para tanto, esta dissertação está organizada em capítulos. No capítulo 1 é apresentado o contexto de desenvolvimento desta pesquisa e os caminhos metodológicos percorridos para responder as questões propostas. O capítulo 2 apresenta um panorama da EJA no Brasil e no município de Chapecó, destacando a função e o perfil diferenciado desta modalidade de ensino. No capítulo 3 encontra-se um apanhando sobre a formação continuada de professores no Brasil, destacando as discussões em torno do conceito atribuído a expressão “formação continuada”. Destaca-se, ainda, a caracterização do processo de formação continuada dos professores de EJA a partir dos princípios de Paulo Freire, fazendo a relação com a implementação da experiência vivenciada no município de Chapecó, no período de 1997 a 2004, e os desafios enfrentados neste processo de formação. 23 1 OS CAMINHOS DA PESQUISA 1.1 O contexto da pesquisa A história do município de Chapecó (SC) se constitui ao longo da sua caminhada por uma forte influência de movimentos sociais, surgidos a partir de ações regidas principalmente pela Igreja Católica e pelos princípios da Teologia da Libertação, através de trabalhos nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Dentre outras ações, esse movimento contribuiu para impulsionar a chegada de partidos populares ao governo do município, com viés participativo e democrático, contrário a toda predominante história política do município (ORO, 1992). Neste contexto, o governo popular, eleito em 1996, assume a prefeitura com o compromisso de romper com as forças conservadoras e democratizar as políticas públicas no município. Esse processo de redemocratização foi sendo organizado a partir da participação coletiva da população por meio do Orçamento Participativo1, que foi instituído em 1997. Esse governo: [...] se coloca como o ‘novo’ no campo político, envolvendo rupturas em relação às práticas políticas tradicionais, uma vez que as administrações populares têm [...] imprimido uma nova forma de administração pública, instituindo formas alternativas de relacionamento entre Estado e sociedade civil em âmbito municipal, conjugando a democracia representativa e democracia direta. (WERLANG apud HASS, 2003, p. 16). Com o início do governo popular na prefeitura, a Secretaria Municipal de Educação de Chapecó vê a possibilidade de viabilizar um trabalho diferenciado a partir de princípios democráticos e participativos. No campo da Educação é organizada no município uma nova proposta de trabalho, baseada na concepção de Educação Popular, 1 Programa desenvolvido pela prefeitura municipal de Chapecó como um instrumento de participação e decisão dos investimentos do município. 24 que se constituía como uma das prioridades do governo popular de gestão participativa. Iniciou-se, assim, um processo de sucessivas rupturas com as forças conservadoras que historicamente detinham o poder no município. Dá-se início a um novo jeito de governar, a partir de uma perspectiva de ampliação dos direitos do cidadão de acesso às políticas públicas, através da participação popular, tendo como instrumento fundamental o Orçamento Participativo, que definiu nos dois primeiros anos a Educação como primeira prioridade do município (CHAPECÓ, 1998). A construção do caminho sobre os pilares da Educação Popular inicia quando o grupo de gestores, que assume na época, possibilita um repensar da educação formal e a possibilidade de reconstruir uma educação consciente da sua função social diante da sociedade. (CHAPECÓ, 1998, p. 6). A definição pela Educação Popular foi um processo que se constituiu a partir das discussões iniciadas pelos gestores que estavam à frente da Secretaria de Educação. O governo popular optou pela inversão de prioridades numa lógica de cidadania para todos e de construção de uma política educacional consistente, que venha a garantir acesso, continuidade e conclusão dos diversos níveis educacionais. A educação popular está no centro da construção da política pública de educação que estamos construindo no município de Chapecó. A partir das diretrizes do projeto popular, foram construídos diversos espaços e instrumentos de participação: o Orçamento Participativo, o Conselho Municipal de Educação com representantes eleitos, as Conferências Municipais de Educação, as eleições dos dirigentes das escolares CEIM’s, a composição de Conselhos Escolares com órgão máximo da escola, o Fórum dos Dirigentes Eleitos, e os coletivos de professores. (CHAPECÓ, 2000, p. 7). 25 Dos vários segmentos da Educação no município, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) se constituía em uma modalidade que praticamente inexistia no contexto educacional de Chapecó. Em abril de 1997, a EJA do município contava com 280 alunos inscritos para estudar de 1ª a 4ª série. As ações desencadeadas pela gestão municipal na época foram de mobilização da população que não tinha acesso ao ensino, com a intenção de aumentar a demanda pela educação de jovens e adultos. A especificidade requerida para o trabalho com alunos desse perfil (jovens e adultos) levou a Secretaria Municipal de Educação a instituir, desde o início do processo, discussões e reflexões acerca das práticas pedagógicas instituídas nas escolas, e a implementar uma proposta de formação continuada a todos os professores de EJA do município (CHAPECÓ, 1998). A política de EJA em Chapecó, até o ano de 1997, tinha características semelhantes à história da EJA no Brasil, ou seja, foi marcada pela descontinuidade das políticas públicas em cumprir um direito que se tornou lei a partir da Constituição Federal de 1988. Infelizmente, ao longo da história vimos o descaso com um público que não teve acesso à escola em “idade própria”, sujeitos marginais ao sistema de ensino, população carente e desfavorecida (HADDAD, 2005; SOARES, 2002). A Educação de Jovens e Adultos em Chapecó, anterior a 1997 vinha promovendo uma política paliativa voltada ao atendimento da demanda do mercado. [...] O trabalho era desenvolvido de forma tradicional e fragmentado, os conteúdos trabalhados vinham prontos em apostilas, sendo estas um material preparado para trabalhar com crianças, portanto não levando em consideração as diferentes realidades dos sujeitos desta educação. (CHAPECÓ, 2002, p. 9). No ano de 2000, o município contabilizava um contingente de 4.879 alunos matriculados no ensino fundamental na modalidade de EJA. O processo de ampliação das escolas foi assumido como prioridade nas reuniões do Orçamento Participativo, o que resultou no ano de 2002 em 19.364 alunos matriculados em EJA no ensino fundamental. No meio rural essa ampliação estendeu-se em oito escolas 26 com um grupo de professores itinerantes atendendo 313 alunos do ensino fundamental (CHAPECÓ, 1998). Para atender a grande demanda de EJA, segundo o grupo de professores que estava à frente do processo, coordenadores pedagógicos e professores, era necessário superar essa forma de organização em direção da construção de autonomias que possibilitassem outra estrutura escolar. A implementação de outra forma de organização dos processos educacionais, assim como uma nova metodologia de trabalho, implicou em superar os ideais da educação tradicional trabalhada de forma fragmentada e principalmente de estabelecer um novo formato para o processo de formação de professores (CHAPECÓ, 2002). Essa discussão foi assumida entre administração e educadores que tinham utopias e vinham sentindo no cotidiano escolar os problemas sociais. Esses educadores eram os protagonistas das discussões nos grupos de estudo e nos seus partidos. Essa discussão centrava-se na necessidade de transformação radical da educação conservadora para uma educação libertadora. A educação que estava sendo proposta naquele momento era a Educação Popular freireana. (CHAPECÓ, 1998, p. 12). Na efetivação da proposta de formação continuada dos professores foi viabilizada a assessoria do professor Antônio Fernando Gouvêa da Silva 2, que iniciou o trabalho com um curso de 40 horas a todos os professores da rede, a fim de discutir a reorientação curricular para EJA. A efetivação deste projeto significava um desafio e precisava necessariamente de muito estudo e reflexão teórica (CHAPECÓ, 2002). 2 Antônio Fernando Gouvêa da Silva fez parte da equipe da Secretaria de Educação de São Paulo no período em que Paulo Freire foi secretário de Educação. Em sua tese de doutorado “A construção do currículo na perspectiva popular crítica: das falas significativas às práticas contextualizadas” (São Paulo: PUC, 2004) analisa iniciativas que têm sido denominadas de Movimentos de Reorientação Curricular (MRC), tais como as dos municípios de Angra dos Reis/RJ (1994-2000), Porto Alegre/RS (1995-2000), Chapecó/SC (1997-2004), Caxias do Sul/RS (1998-2003), Gravataí/RS (1997-1999), Vitória da Conquista/BA (19982000), Esteio/RS (1999-2003), Belém/PA (2000-2002), Maceió/AL (2000-2003), Dourados/MS (2001-2003), Goiânia/GO (2001-2003) e Criciúma/SC (2001-2003). Silva (2004) argumenta que esses MRC tiveram como uma de suas referências principais o desenvolvimento do MRC ocorrido no município de São Paulo. 27 Uma das ações do grupo de coordenação da educação foi a garantia de um encontro semanal de duas horas com o coletivo de professores da escola, em conjunto com assessoria da Secretaria de Educação para estudos e planejamentos, numa tentativa de construir o movimento interdisciplinar. Nesses encontros teorizava-se a prática e avaliavam-se as ações da comunidade escolar. Esses encontros foram caracterizados como um dos momentos mais ricos de construção de conhecimento. É importante ressaltar que este período de estudo e planejamento na semana consolidou-se como formação continuada e direito adquirido para todos os professores da EJA. (CHAPECÓ, 1998, p. 17). Esse processo de revitalização da EJA e da educação no município de Chapecó deu início a uma experiência diferenciada do processo tradicional de pensar e fazer a educação que até então vinha sendo praticado e fez surgir, assim, a nova proposta de formação continuada de professores baseada na concepção freireana, o que constitui o foco desta pesquisa. Frente a todo esse contexto, o trabalho desenvolvido no campo da educação de 1997 a 2004 no município de Chapecó despertou o interesse de pesquisadores que investigaram os mais variados aspectos desse processo, alguns deles são apresentados na sequência. Pode-se destacar Sordi (2003) que analisa as principais mudanças provocadas pelos alunos e egressos da EJA nas organizações comunitárias para o desenvolvimento regional. Santos (2006) pesquisou a “Produção Textual: desafios e possibilidades a partir do tema gerador”, que teve como objetivo a produção de textos elaborados a partir dos temas geradores, por alunos da educação básica. Schneider (2006) em sua pesquisa apresenta como objetivo descrever e analisar a Proposta Teórico-Prática de Educação Popular do município de Chapecó e o conjunto de elementos que possibilitaram sua construção – período de 1997 a 2004. Drews (2006) investigou o uso do tema gerador no ensino de História nas séries finais do ensino fundamental, a partir da percepção dos professores que participaram do Movimento de Reorientação Curricular no município de Chapecó, no período de 1997 a 2004. Netto (2007) analisou o projeto Centros Artísticos de Cultura 28 Popular, buscando apreender as relações estabelecidas com a educação do município, que tem como suporte teórico a metodologia históricocrítica, e o educador Paulo Freire, como precursor de um processo dialógico e crítico. O trabalho de Azambuja (2009) refere-se às práticas construídas na educação infantil, na gestão de 1997 a 2004, para contrapor-se, de forma crítica, às propostas curriculares até então implementadas na educação infantil. Paludo (2009) realizou um estudo sobre a prática pedagógica escolar na Educação Popular de perspectiva freireana desenvolvida no município de Chapecó (SC), no período de 1997 a 2004, com o objetivo de analisar limites, possibilidades, tensões e contradições diante da lógica do capital e das interfaces do capitalismo, presentes nesse fazer e se justificando pela necessidade de problematizar situações concretas, construídas no período de vigência da experiência. Finalmente, Stuani (2010) que investigou o Movimento de Reorientação Curricular Popular Crítico, com enfoque no ensino de Ciências, ocorrido no município de Chapecó, de 1997-2004. A pesquisa teve como objetivo identificar se o Movimento de Reorientação Curricular promoveu mudanças na prática pedagógica dos professores de Ciências Naturais, visto que este teve a intenção de provocar um pensar e repensar das práticas docentes. Figura 1 – Quadro de dissertações TÍTULO 1. “Atuação dos alunos e egressos da educação de jovens e adultos (EJA) nas organizações comunitárias do município de Chapecó/SC” (dissertação). 2. “Produção Textual: desafios e possibilidades a partir do tema gerador” (dissertação). 3. “O Tema Gerador no Ensino da História” (dissertação). 4. “Apreender e ensinar a realidade para transformála: a prática pedagógica na educação popular de Chapecó-SC” (dissertação). 5. “Centros Artísticos de AUTORIA Luiz Carlos Sordi INSTITUIÇÃO PPGDR/UNISC ANO 2003 Jairo Francisco dos Santos PPGE/UNOESC 2006 Maristella Muller Drews PPGE/UNOESC 2006 Leoni Inês Balzan Schneider PPGE/UNIJUI 2006 Marinilse Netto PPGE/UNOESC 2007 29 Cultura Popular: as interrelações entre educação e cultura no Governo da Frente Popular em Chapecó (1997-2004)” (dissertação). 6. “Currículo de educação popular para a educação infantil: limites, tensões e possibilidades a partir da experiência do município de Chapecó – SC” (dissertação). 7. “Educação com participação popular em Chapecó – SC: a política educacional como possibilidade de transformação social” (dissertação). 8. “A construção curricular popular crítica no ensino de ciências naturais e suas implicações na prática docente” (dissertação). Isabel Spingolon Azambuja PPGE/UFSC 2009 Deise Imara Schilke Paludo PPGE/UFSC 2009 Geovana M. Stuani PPGECT/UFSC 2010 Fonte: elaboração da autora. Os trabalhos realizados sobre a reorientação curricular ocorrido no município de Chapecó no período de 1997 a 2004, focando importantes temáticas, mostram a pertinência desse processo, constituindo rica contribuição para ampliar a discussão/avaliação dessa iniciativa, o que pode subsidiar outras experiências que possam ocorrer em outros espaços. Nesse sentido, esta pesquisa visa seguir o mesmo caminho, uma vez que no levantamento bibliográfico realizado nenhum trabalho foi localizado que tivesse como tema a formação permanente de professores da EJA no município de Chapecó. Assim, o objetivo central desta pesquisa é: analisar o processo de formação continuada dos professores de Educação de Jovens e Adultos (EJA) do município de Chapecó no período de 1997 a 2004. A intenção desta pesquisa é apresentar elementos que possam contribuir para a discussão e efetivação de processos de formação continuada de professores a partir da concepção de educação de Paulo Freire. 30 Este estudo está norteado pela seguinte questão: quais limites e possibilidades podem ser identificados no processo de formação continuada dos professores de EJA do município de Chapecó, no período de 1997 a 2004, a partir dos princípios da concepção freireana de educação? Questões complementares: como se caracteriza o processo de formação continuada dos professores de EJA no município de Chapecó no período de 1997 e 2004, na perspectiva freireana? Quais foram os principais desafios ao implantar uma proposta contrária à concepção de educação trabalhada até o momento no município? Quais foram as principais leituras realizadas pelo grupo de professores no processo de formação continuada? O que ainda permanece na prática dos professores do processo vivenciado? A intenção desta pesquisa é apresentar elementos que possam contribuir para a discussão e efetivação de processos de formação continuada de professores a partir da concepção de educação de Paulo Freire. Na sequência, apresento os caminhos percorridos por esta pesquisa. 1.2 Encaminhamentos metodológicos A pesquisa que aqui se apresenta é de caráter qualitativo, tendo como referência os estudos de Triviños (1992, p. 122), para o qual esta forma de pesquisa tem “[...] a necessidade de observar os sujeitos, não em situações isoladas, artificiais, senão na perspectiva de um contexto social, colocando ênfase na ideia dos significados latentes do comportamento do homem.” Nas ciências sociais não é apenas o investigador que dá sentido ao processo de pesquisar, mas todos os seres humanos que de alguma forma estão envolvidos nas ações de construção das estruturas sociais (MINAYO, 2000). Os estudos qualitativos também possibilitam elaborar e reformular as teorias, apontando interrogações que vão sendo elaboradas durante o trabalho de campo. O rigor da pesquisa qualitativa não se comprova apenas pelos dados estatísticos, estes necessitam de análise qualitativa e aprofundamento dos resultados coletados (MINAYO, 2010). A abordagem qualitativa permite compreender o caráter complexo dos fenômenos educacionais, além de captar os diferentes 31 significados das experiências vividas (MINAYO, 2000). Minayo salienta, ainda, a importância de um constante transitar do pesquisador entre a realidade investigada e a teoria, num esforço contínuo de saber o significado dos dados ou o que eles podem vir a significar. 1.2.1 Procedimentos para coleta de dados A coleta de dados se deu por meio de pesquisa documental, questionário e entrevista semiestruturada, após a provação deste projeto no Comitê de Ética da UNOCHAPECÓ. Para a pesquisa documental foram utilizadas as produções oficiais, ou seja, livros, cadernos, revistas elaborados pelo grupo de professores sobre a construção do processo de formação continuada dos professores de EJA, ocorrido no período de 1997 a 2004. Esse tipo de pesquisa, segundo Saint-Georges (1997), caracteriza-se como um método de recolha de dados com a finalidade de investigar fontes pertinentes e originais sobre o tema em questão, e que pode possibilitar a elaboração de novos materiais. Para Cellard (2008), a análise documental facilita o conhecimento do processo de amadurecimento ou de evolução de indivíduos, grupos, conceitos, conhecimentos, comportamentos, mentalidades e práticas. Portanto, [...] o documento escrito constitui uma fonte extremamente preciosa para todo pesquisador nas ciências sociais. Ele é, evidentemente, insubstituível em qualquer reconstituição referente a um passado relativamente distante, pois não é raro que ele represente a quase totalidade dos vestígios da atividade humana em determinadas épocas. Além disso, muito frequentemente, ele permanece como o único testemunho de atividades particulares ocorridas num passado recente. (CELLARD, 2008, p. 295). Os dados foram obtidos também através de questionário, que, segundo Gil (1999), pode ser definido como: [...] a técnica de investigação composta por um número mais ou menos elevado de questões apresentadas por escrito às pessoas, tendo por 32 objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas etc. (GIL, 1999, p. 128). A entrevista semiestruturada se fez necessária em função das características próprias deste estudo, ou seja, pela necessidade de ouvir interlocutores, professores e coordenadores a respeito de suas compreensões e opiniões relacionadas à formação continuada de professores de EJA no município de Chapecó, no período de 1997 a 2004. Para Triviños (1992), a entrevista semiestruturada é uma forma mais livre para obter informações e as respostas, geralmente, não são condicionadas a padrões preestabelecidos. Assim, [...] a entrevista semi-estruturada tem como característica questionamentos básicos que são apoiados em teorias e hipóteses que se relacionam ao tema da pesquisa. Os questionamentos dariam frutos a novas hipóteses surgidas a partir das respostas dos informantes. (TRIVIÑOS, 1992, p. 146). Para a localização dos professores de EJA, que trabalhavam na rede municipal Chapecó na época da implementação do processo de formação continuada, foi feito contato com o atual responsável pelo setor de EJA, solicitando a relação de professores que atuaram naquele período. A resposta obtida foi que nos arquivos da Secretaria de Educação não constava uma lista completa e, assim, não haveria possibilidade de fornecê-la. Dessa forma, foi feito contato com uma professora que coordenou o setor de EJA do município durante três anos, e assim obteve-se uma relação de 32 professores que passaram pela formação continuada. Outras duas professoras, que também coordenaram o processo naquele período, indicaram mais 29 docentes, totalizando 61 professores. Desse total, foram encaminhados 45 questionários, uma vez que os demais professores não foram encontrados. Inicialmente, o envio de questionários se deu por e-mail para 27 professores, retornaram apenas seis; na sequência, foram entregues pessoalmente mais 18, com retorno de 11 questionários. 33 Dos 17 professores que responderam ao questionário, foi possível obter os seguintes dados: 14 professores são efetivos e atuavam em sala de aula durante o processo da reorientação curricular, portanto, são professores que participaram da formação continuada ocorrida sistematicamente naquele período. Apenas um era ACT na época da formação e três deles coordenaram a equipe de EJA em um determinado período do desenvolvimento da experiência. Do total de professores, 16 deles têm mais de 15 anos de profissão, um tem de dez a 15 anos. Os professores pesquisados trabalhavam as seguintes disciplinas, no período de realização da formação: Figura 2 – Quadro de disciplinas Disciplina Número de professores Ciências 04 Geografia 02 Artes 02 Matemática 01 Língua portuguesa 03 Língua espanhola 01 Coordenação da EJA 03 Séries iniciais 02 Fonte: elaboração da autora, a partir de questionário respondido pelos professores. As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com quatro professores (sendo um coordenador na época), tendo o objetivo de aprofundar aspectos elencados nos questionários, por exemplo, como se deu a opção pela concepção freireana de educação? O processo vivenciado proporcionou mudanças nas práticas dos professores? O critério para a definição das entrevistas se deu a partir da relevância das informações apresentadas, ou seja, definiu-se pelos professores que apresentaram conteúdos com maiores contribuições no sentido de responder as questões da presente pesquisa. Quando a referencia for sobre a entrevista, os professores serão denominados de entrevistado A, B, C e D; quando a referência for sobre o questionário, serão chamados de professores 01, 02, 03, respectivamente, até o 17. 34 Os dados obtidos através dos documentos oficiais, dos questionários e das entrevistas semiestruturadas foram submetidos à análise. O momento de análise dos dados é uma das mais importantes fases da pesquisa. Minayo (2000) chama a atenção para três obstáculos a serem considerados para a obtenção de um trabalho eficiente. O primeiro obstáculo se refere à ilusão de não tirar conclusões apressadas, sem aprofundamento dos dados, o que pode levar a conclusões equivocadas. O segundo obstáculo diz respeito ao envolvimento maior do pesquisador com os métodos e técnicas, esquecendo dos significados dos dados. O terceiro obstáculo que pode prejudicar a análise relacionase à dificuldade que o pesquisador pode ter em fazer a articulação dos dados com conhecimentos mais amplos. Os documentos, questionários e entrevistas foram submetidos à análise de conteúdo, que, segundo Bardin (2009), é um método com um conjunto de técnicas de análise das comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. Para Minayo (2010, p. 74), a análise de conteúdo é “compreendida muito mais como um conjunto de técnicas” que se constitui na análise de informações sobre o comportamento humano, possibilitando uma aplicação bastante variada, com as funções de verificação de hipóteses e/ou questões e descoberta do que está por trás dos conteúdos manifestos. A análise de conteúdo requer entender os tipos de materiais que possibilitam analisar, estando ao mesmo tempo atento às várias interpretações que uma mensagem pode possibilitar. Pressupõe assim que um texto contém sentidos e significados, aparentes ou ocultos, que podem ser desvelados pelo pesquisador que interpreta a mensagem contida nele por meio de técnicas apropriadas (CHIZZOTTI, 2006). 35 2 EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS 2.1 Conceito e função da Educação de Jovens e Adultos (EJA) A V Conferência Internacional de Educação de Jovens e Adulto (CONFINTEA), que aconteceu em Hamburgo, em julho de 1997, é, sem dúvida, um marco importante no avanço das políticas para esta modalidade, pois foi um evento que resultou de um grande processo de mobilização, dando, assim, credibilidade às suas orientações. A Declaração de Hamburgo sobre a EJA reafirmou o compromisso com o conceito de educação como um processo continuado que se estende ao longo da vida, com ênfase na aprendizagem. A Declaração afirma: A modalidade de ensino de EJA tem especificidades próprias, por exemplo são sujeitos de faixas etárias diferenciadas e com histórias de vidas peculiares e que por motivos diversos foram excluídos do ensino ‘regular’ e consequentemente do mercado de trabalho. São em sua maioria trabalhadores e, muitas vezes, a experiência com o trabalho começou muito cedo em suas vidas. É comum, ainda, que nos centros urbanos, estes alunos tenham realizado um sem-número de atividades cuja renda completava os ganhos da família. (CADERNOS DE EJA 2006, p. 22). O aluno que frequenta a EJA é aquele sujeito que se caracteriza pelo fato da escolarização básica não ter sido iniciada ou foi, por algum motivo, interrompida, ou seja, esse aluno não é uma criança, mas, no entanto, está frequentando um nível de ensino que não foi pensado para sua realidade. Para Oliveira (1999), os jovens, adultos e idosos que constituem este grupo heterogêneo do ponto de vista social e econômico são delimitados não somente pela idade, mas por serem um conjunto de indivíduos inseridos na diversidade de grupos geracionais e culturais distintos da sociedade. É preciso considerar que a visão de mundo de uma pessoa que retorna aos estudos depois de adulta ou depois de um longo tempo de afastamento ou ainda daqueles que iniciam a vida escolar já depois de adultos é bastaste particular. Protagonistas de histórias reais e ricos em experiências vividas, os alunos jovens e adultos configuram tipos 36 humanos diversos. São homens e mulheres que chegam à escola com crenças e valores já constituídos (CADERNOS DE EJA, 2006). Deste modo, [...] as escolas para jovens e adultos recebem alunos e alunas com traços de vida, origens, idades, vivências profissionais, históricos escolares, ritmos de aprendizagem e estruturas de pensamento completamente variados. A cada realidade corresponde um tipo de aluno e não poderia ser de outra forma, são pessoas que vivem no mundo adulto do trabalho, com responsabilidades sociais e familiares, com valores éticos e morais formados a partir da experiência, do ambiente e da realidade cultural em que estão inseridos. (CADERNOS DE EJA, 2006, p. 07). São alunos que trazem uma visão de mundo influenciada por seus traços culturais de origem e por sua vivência social, familiar e profissional. Para Oliveira (1999), estes sujeitos trazem uma noção de mundo muito mais relacionada ao ver e ao fazer, uma visão de mundo apoiada numa adesão espontânea e imediata às coisas que vê. Desta forma, carregam um olhar receptivo, sensível, curioso, explorador, olhar que investiga, olhar que pensa. Grande parte deste público é receptiva às situações de aprendizagem, manifestam grande interesse pelos novos saberes e pelas experiências proporcionadas pela escola. Essa atitude de encantamento com o conhecimento é de suma importância “[...] e precisa ser cultivada e valorizada pelo professor porque representa a porta de entrada para exercitar o raciocínio lógico, a reflexão, a análise, a abstração e, assim construir um outro tipo de saber: o conhecimento científico.” (CADERNOS DE EJA, 2006, p. 09). A escola necessita compreender esses sujeitos a partir de suas diferenças culturais e cognitivas, e desta forma aliar essa diferença ao processo ensino-aprendizagem, ou seja, para esses alunos é preciso que os conhecimentos sirvam para a vida social e permitam a reflexão sobre o mundo em que estão inseridos. O professor precisa compreender essas diferenças e peculiaridades do aluno adulto e organizar o processo pedagógico no sentido de valorizar os saberes dos sujeitos, de várias faixas etárias e diferentes trajetórias escolares. 37 O documento resultado da 5ª Conferência Internacional de Educação – Declaração de Hamburgo – destaca a importância do alargamento do conceito de formação de adultos que passa a compreender uma multiplicidade de processos formais e informais de aprendizagem e educação continuada ao longo da vida. Para Di Pierro (2004), esse conceito não foi totalmente assimilado pelos professores e tão pouco pelas escolas, pois o conceito que ainda predomina entre educadores e gestores da educação brasileira continua sendo de uma educação compensatória, contrária à educação enquanto direito de todo brasileiro. A visão restrita do sentido da EJA dificulta a construção de políticas permanentes e articuladas com os vários ambientes além da escola. Há, segundo Haddad (1997), desde a primeira conferência organizada pela Unesco até a 5ª conferência de Hamburgo um reconhecimento da importância da EJA para o fortalecimento da cidadania e para a melhoria do bem-estar da sociedade. No entanto, esse reconhecimento não tem se transformado em ações por parte do governo. Temos aqui um dilema: hoje, a escola é um espaço que não é para o aluno adulto, com professores que, muitas vezes, não tem formação adequada para esse público e com um sistema de ensino já delimitado e currículo já definido, ou seja, muitos aspectos desfavoráveis para um sujeito que foi excluído da escola, não por vontade própria, mas pelas mazelas e problemas sociais do nosso país e que precisa voltar a estudar mesmo com todas as dificuldades que o sistema de ensino lhes apresenta. 2.2 O contexto brasileiro A Educação, como um processo indispensável para o exercício da cidadania na sociedade contemporânea, vai se colocando como uma das grandes possibilidades de mudanças e inovações nos processos produtivos. Ela possibilita ao indivíduo jovem e adulto retomar seu potencial, desenvolver suas habilidades, confirmar as capacidades adquiridas na educação extraescolar e na própria vida (SOARES, 2002). A EJA é uma modalidade de ensino destinada aos sujeitos que não tiveram acesso à escola em idade própria, e representa uma dívida social com as pessoas que não tiveram acesso à escola e nem domínio da escrita e leitura, ou seja, foram privados ao acesso a um instrumento 38 imprescindível para uma presença significativa na convivência social contemporânea. Em todas as idades e em todas as épocas da vida, é possível se desenvolver e constituir conhecimentos (SOARES, 2002). O adulto está inserido no mundo do trabalho e das relações pessoais de uma forma diferente traz consigo uma história longa e mais complexa de experiências e conhecimentos acumulados sobre o mundo a sua volta. A trajetória que o adulto tem ao acessar a EJA faz com ele traga consigo habilidades e dificuldades diferenciadas com relação à criança, e, consequentemente, maior capacidade de reflexão sobre o conhecimento e o processo de aprendizagem (OLIVEIRA, 1999). Para Freire (1996), o aluno adulto traz consigo uma leitura de mundo, ou seja, as pessoas têm maneiras diferentes e contrárias de perceber o mundo a sua volta. Na prática, a leitura do mundo e a leitura da palavra estão dinamicamente juntas. Como educador, preciso compreender a leitura do mundo que os grupos populares, com quem trabalho, fazem do seu contexto. Não posso, de maneira alguma, desconsiderar o saber de experiência. A compreensão do mundo do aluno adulto faz parte da compreensão de sua própria presença no mundo. “E isso tudo vem explicitado ou sugerido ou escondido no que chamo de ‘leitura do mundo’ que precede sempre a ‘leitura da palavra’.” (FREIRE, 1996, p. 90). Para Barcelos (2006), a EJA tem um papel fundamental como ponto de partida para a ampliação dos espaços de participação nas diferentes formas da vida pública, e precisa contribuir na busca de diálogos e alianças entre educadores e educandos, entre conhecimentos científicos e saberes da comunidade. Pensar a Educação de Jovens e Adultos sem levar em conta o processo de silenciamento pelo qual passaram boa parte daqueles e daquelas que hoje, em idade avançada tentam retornar a escola é um grande equivoco. Trata-se de um grave equívoco político seguido de uma preocupante incompreensão pedagógica. (BARCELOS, 2006, p. 174). A primeira constituição republicana de 1891 retira do seu texto a referência à gratuidade da instrução e condiciona o exercício do voto à alfabetização, dando continuidade ao que, de certo modo, já estava posto 39 na Lei Saraiva n. 3.029/1881. Este condicionamento era explicado como uma forma de mobilizar os analfabetos a buscarem, por sua vontade, os cursos de primeiras letras. O espírito liberal desta Constituição fazia do indivíduo o polo da busca pessoal de ascensão, desconsiderando a clara existência e manutenção de privilégios advindos da opressão escravocrata e de formas patrimonialistas de acesso aos bens econômicos e sociais (ROMANELLI, 1998). Para Soares (2002), nos anos de 1920, muitos movimentos se empenham na luta contra o analfabetismo, considerado um “mal nacional” e “uma chaga social”. A pressão trazida pelos surtos de urbanização, a necessidade de formação mínima da mão de obra do próprio país e a manutenção da ordem social nas cidades impulsionaram as grandes reformas educacionais no período em quase todos os estados. Politicamente era conveniente para as elites que os analfabetos soubessem ler e escrever para poderem votar, pois com a reforma do sistema eleitoral (Lei Saraiva de 1885), os analfabetos eram excluídos do contingente eleitoral. Além disto, as elites entendiam que o voto dos recémalfabetizados seria presa fácil para alimentar o curral eleitoral local. De acordo com Paiva, a reforma eleitoral acabou reforçando a ‘ideia de que a educação concorria para o progresso. Além disso, a eleição direta com restrição ao voto do analfabeto provocara a valorização daqueles que dominavam as técnicas da leitura e da escrita’. (PAIVA, 1987, p. 168). Conforme Costa (2009), as iniciativas do governo para a população jovem e adulta sem instrução consistiam em campanhas e/ou movimentos, o que demonstra uma visão fragmentada sobre o analfabetismo, pois o entendimento era de que o problema poderia ser solucionado a curto prazo. A Conferência Interestadual de 1921, convocada pela União e realizada no Rio de Janeiro, com a finalidade de discutir o problema do analfabetismo, acabou por sugerir a criação de escolas noturnas, com a duração de um ano, voltadas para os adultos. Tal medida chegou a fazer parte do Decreto n. 16.782/A, de 13 de janeiro de 1925, conhecido como Lei Rocha Vaz, ou Reforma João Alves, que estabelece o concurso da União para a difusão do ensino primário (BRASIL, 2000). 40 A nova conjuntura surgida a partir da revolução de 1930, com a aceleração dos processos de urbanização e industrialização, contribui para impulsionar a importância da educação escolar. A tendência centralizadora do Estado propiciou uma série de reformas até mesmo em resposta à organização das classes sociais urbanas em sindicatos patronais e operários. Portanto, [...] a revolução de 1930 foi um marco na reformulação do papel do Estado no Brasil. As políticas públicas educacionais só se efetivam a partir da necessidade de qualificação e diversificação da força de trabalho; assim, a problemática da Educação de Jovens e Adultos (EJA) ganha expressão neste período. (HADDAD; DI PIERRO, 2000, p. 110). A partir de 1930 começa a se estabelecer condições favoráveis à implantação de políticas públicas para esta área, sendo incluída nas reivindicações educacionais, devido à transformação da estrutura econômica urbana e agrícola em um modelo industrial. Isso exigia um preparo das forças do trabalho, ou seja, uma nova qualificação de mão de obra era necessária para que os trabalhadores decifrassem as mensagens, manuais de funcionamento do maquinário, ordens e outros textos (SALES, 2008). Deste modo, [...] a Constituição de 1934, em seu art. 149 reconheceu, pela primeira vez em caráter nacional, a educação como direito de todos e que ela deveria ser ministrada pela família e pelos poderes públicos. Já em seu art. 150, ao estabelecer a elaboração de um Plano Nacional de Educação, instituiu a gratuidade e obrigatoriedade do ensino primário integral extensivo aos adultos. (SOARES, 2002, p. 51). É a partir da década de 1940 que inicia uma preocupação maior com o fato de o Brasil estar entre os países com o maior número de adultos analfabetos, situação esta que vinha arrastando-se há décadas. Diante deste cenário, o governo criou um fundo destinado à 41 alfabetização da população adulta e, em 1947, dá início à primeira Campanha Nacional de Educação de Adultos, que tinha como eixos norteadores a alfabetização de adultos em três meses; oferta de um curso primário em duas etapas de sete meses e a capacitação profissional. Essa tentativa foi vista como uma salvação ao problema do analfabetismo, porém, predominava o aspecto muito mais quantitativo do que qualitativo e acabou sem o sucesso esperado (SOARES, 2002). Para Gadotti e Romão (2001), nos anos 1940, a Educação de Adultos era compreendida como uma extensão da escola formal, principalmente para a zona rural. Já na década de 1950, a Educação de Adultos era entendida como uma educação de base, com desenvolvimento comunitário. Com isso, surgiu, no final dos anos de 1950, duas tendências significativas na Educação de Adultos: a Educação de Adultos entendida como uma educação conscientizadora, pontificada pela educador Paulo Freire; e a Educação de Adultos entendida como complementação de estudos. Os anos de 1960 são marcados pelo surgimento de movimentos de cultura e Educação Popular. Entre os mais importantes, é possível destacar, segundo Fávero (1983): O Movimento de Cultura Popular (MCP), iniciado no Recife, que estendeu-se a várias outras cidades do interior de Pernambuco e tinha como objetivo superar o atraso e o subdesenvolvimento na região. A campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, criada em Natal em 1961, que preconizava uma educação que não fosse privilégio de um pequeno grupo, com a ideia de que até mesmo os sem calçados teriam acesso à escola. O Movimento de Educação de Base (MEB), criado em 1961 pela Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), com apoio da Presidência da República, para desenvolver um programa de educação de base, através de escolas radiofônicas em rádios católicas. O Centro Popular de Cultura (CPC), criado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1961 e difundido por todo o Brasil pela UNEVolante, com o objetivo da alfabetização por meio da arte popular revolucionária. Esses movimentos, nascidos todos no mesmo período, operam um salto qualitativo em relação às campanhas e mobilizações governamentais contra o analfabetismo de jovens e adultos ou de educação rural da década de 1950. São propostas 42 qualitativamente diferentes das ações anteriores. E o que as fazia radicalmente diferentes das ações anteriores era o compromisso explicitamente assumido em favor das classes populares urbanas e rurais, assim como o fato de orientarem sua ação educativa para uma ação política. (FÁVERO; SOARES, 2009, p. 51). No ano de 1963, Paulo Freire, a pedido do então presidente João Goulart, organizou um Programa Nacional de Alfabetização de Adultos 3 (PNAA), que previu a instalação de vinte mil círculos de cultura com a intenção de alfabetizar em torno de dois milhões de pessoas. A proposta foi aprovada em janeiro de 1964, mas foi interrompida em abril pelo golpe militar, que via na proposta uma ameaça à ordem instalada. O período pós-1964 foi marcado por programas com ideais assistencialistas e conservadores, com forte controle do governo. Em 15 de dezembro de 1967 é lançado o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), voltado à população de 15 a 30 anos, que tinha como objetivo principal proporcionar a aquisição da escrita, da leitura e noções de cálculo ao adulto não alfabetizado. A criação do MOBRAL foi movida principalmente para atender uma orientação de agências internacionais ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU), em especial à Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura (Unesco), que, com o final da Segunda Guerra Mundial em 1945, fazia uma campanha forte de combate ao analfabetismo e pela universalização de uma educação elementar e de qualidade (HADDAD; DI PIERRO, 2000). A década de 1970 foi marcada pela grande expansão do MOBRAL em todo o território nacional e também por alguns avanços na EJA com a criação da Lei Federal n. 5692/71, que, pela primeira vez na história da educação, destina um capítulo à EJA, permitindo maior flexibilidade no atendimento deste público e reduzindo pela metade o tempo estipulado para a conclusão no ensino regular. Foi assim que surgia o ensino supletivo com o objetivo de suprir ciclos não concluídos 3 O presidente João Goulart conheceu a experiência de Alfabetização de Angicos e solicitou a Paulo Freire que elaborasse um Plano Nacional de Alfabetização, com a meta de alfabetizar cinco milhões de adultos em dois anos, mas, com o golpe, o plano foi abortado e implementado o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) (FÁVERO, 1983). 43 pelo aluno adulto na idade considerada adequada (HADDAD; DI PIERRO, 2000). A Lei n. 5.692/71 implantou um novo curso denominado Supletivo, com a finalidade de suprir a escolarização regular para os adolescentes e adultos que não tenham concluído em idade própria. O ensino supletivo foi apresentado à sociedade como um projeto de escola do futuro, uma alternativa encontrada pelo Sistema Educacional para oportunizar escolarização em outras épocas. Este ensino organizado pelos Conselhos de Educação caracterizou-se por uma flexibilidade curricular que, por um conceito empobrecido de suplência, firmou a cultura do “aligeiramento” e da “certificação”, vigentes ainda na atualidade (HADDAD; DI PIERRO, 2000). Com um formato extremamente tradicional, com materiais que não consideravam a realidade dos educandos, e principalmente pelo despreparo dos professores, o MOBRAL perde a credibilidade. Uma das causas do fracasso do MOBRAL no seu trabalho de alfabetização do jovem e do adulto brasileiros está relacionada aos recursos humanos: o despreparo dos monitores a quem era entregue a tarefa de alfabetizar. Tratava-se de pessoas não capacitadas para o trabalho em educação, que recebiam um ‘cursinho’ de treinamento de como aplicar o material didático fornecido pelo MOBRAL e ensinavam apenas a mecânica da escrita e da leitura, portanto, não alfabetizaram. (SAUNER, 2002, p. 59). Os recursos que mantinham o MOBRAL vinham do percentual da Loteria Esportiva e, principalmente, das deduções do Imposto de Renda, mas, como no fim de sua existência gastava um valor muito alto por aluno, tornava-se ineficiente e caro. Com o avanço no processo de abertura política e sem credibilidade, o MOBRAL foi extinto em 1985, e em seu lugar foi criada a Fundação Educar. A Fundação Educar passou a fazer parte dos compromissos do Ministério da Educação (MEC), com a intencionalidade de apoiar técnica e financeiramente iniciativas de governos estaduais, municipais e entidades civis, deixando de lado o caráter controlador. As verbas agora foram destinadas às prefeituras municipais. O Governo de Fernando Collor extingue a Fundação Educar em 1990, justamente no 44 Ano Internacional da Alfabetização, sem criar em seu lugar nenhuma outra instância que assumisse as suas funções, ausentando-se como indutor de políticas de alfabetização (PAIVA, 2003). A partir da extinção da Fundação Educar em 1990 até 2002, pode-se perceber claramente a ausência efetiva de políticas públicas, com investimentos no campo educacional. No âmbito organizativo e institucional a educação básica, de direito social de todos, passa a ser cada vez mais encarada como um serviço prestado e adquirido no mercado ou na filantropia. (FRIGOTTO, 2002, p. 59). Em 1988 o Brasil foi marcado pela nova Constituição Federal, que ampliou o direito de acesso ao ensino fundamental para todos os cidadãos, independente da idade, colocando a EJA no mesmo grau de importância dos demais níveis de ensino (HADDAD; DI PIERRO, 2000). De acordo com Paiva (2003), a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 não é a de nossos sonhos, mas a que resultou de um embate concreto das forças sociais organizadas. Para a autora, a LDB amplia os benefícios para EJA, eliminando a noção de ensino supletivo e tratando esta como uma modalidade da educação básica, de caráter permanente e a serviço do desenvolvimento do educando. Desde a Constituição de 1988, a EJA deixou de ser um favor e passou a ser um direito de todo o cidadão que não teve acesso à escolaridade em “idade própria” (SOARES, 2002). O Parecer n. 11/2000, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, que define as diretrizes nacionais para a EJA, veio reforçar esse direito, regulamentando essa modalidade de ensino, insistindo na proposição do perfil diferenciado deste aluno que não pode ser tratado como uma extensão da criança. No seu artigo 5º o parecer afirma: Parágrafo único. Como modalidade destas etapas da Educação Básica, a identidade própria da Educação de Jovens e Adultos considerará as situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos princípios de eqüidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e contextualização das diretrizes curriculares 45 nacionais e na proposição de um modelo pedagógico próprio, de modo a assegurar: I - quanto à eqüidade, a distribuição específica dos componentes curriculares a fim de propiciar um patamar igualitário de formação e restabelecer a igualdade de direitos e de oportunidades face ao direito à educação; II - quanto à diferença, a identificação e o reconhecimento da alteridade própria e inseparável dos jovens e dos adultos em seu processo formativo, da valorização do mérito de cada qual e do desenvolvimento de seus conhecimentos e valores; III - quanto à proporcionalidade, a disposição e alocação adequadas dos componentes curriculares face às necessidades próprias da Educação de Jovens e Adultos com espaços e tempos nos quais as práticas pedagógicas assegurem aos seus estudantes identidade formativa comum aos demais participantes da escolarização básica. (BRASIL, 2000, p. 1). A década de 1990, denominada Década da Educação para Todos, iniciou com a Conferência Mundial de Jontiem, na Tailândia, tendo como meta a revitalização do compromisso mundial de educar todos os cidadãos do planeta. A Conferência contou com a presença de representantes de 155 governos de diferentes países, que se propunham não só a assegurar que todas as crianças e adolescentes tivessem acesso a um ensino de qualidade, com equidade de gênero, mas também a reduzir pela metade os índices de analfabetismo e proporcionar aos jovens e adultos as oportunidades para satisfação de suas múltiplas necessidades de aprendizagem (DI PIERRO, 2000). Na mesma linha, foi publicado em 1996, pela Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI, o Relatório Jacques Delors, com o título “Educação: um tesouro a descobrir”, que resultou nos trabalhos desenvolvidos, de 1993 a 1996, pela Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que reitera o papel da educação como um bem coletivo, no qual todas as pessoas deveriam ter acesso (DELORS, 1998). 46 A Declaração de Hamburgo, em 1997, sobre a Educação de Adultos, reafirmou o compromisso com o conceito de educação como um processo continuado que se estende ao longo da vida, com ênfase na aprendizagem. A educação de adultos, dentro desse contexto, torna-se mais que um direito: é a chave para o século XXI; é tanto consequência do exercício da cidadania como condição para uma plena participação na sociedade. Além do mais, é um poderoso argumento em favor do desenvolvimento ecológico sustentável, da democracia, da justiça da igualdade entre os sexos, do desenvolvimento socioeconômico e científico, além de ser um requisito fundamental para a construção de um mundo onde a violência cede lugar ao diálogo e à cultura de paz baseada na justiça. (DECLARAÇÃO..., 1997, p. 1). Em âmbito nacional, a Lei n. 9.394, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), de 1996, reiterou os direitos educativos dos jovens e adultos ao ensino adequado às suas necessidades e condições de aprendizagem e estabeleceu as responsabilidades dos poderes públicos na identificação e mobilização da demanda, e provisão de ensino fundamental gratuito e apropriado. Esta nova concepção da EJA, como um direito à educação ao longo da vida, significa algo mais do que uma norma programática ou um desejo realizado. A sua forma de inserção no corpo legal indica um caminho a seguir. A EJA passa a ser educação permanente, embora enfrente os desafios de uma situação socioeducacional arcaica no que diz respeito ao acesso próprio. Neste sentido, a EJA precisa compor um sistema educativo no qual o aluno e o meio social devem estar absolutamente articulados. Portanto, [...] o ponto de partida para que se avance na reconfiguração da EJA é a aquisição de um novo olhar sobre estes jovens e adultos, reconhecendoos como sujeitos de direitos sociais, culturais, que carregam trajetórias de negação dos direitos mais básicos à vida, ao afeto, à moradia, ao trabalho e 47 outros. Por outro lado, deve-se identificar e valorizar a positividade de suas trajetórias humanas (a luta pelo trabalho, a participação em suas comunidades e muitas outras questões) nas quais carregam um acúmulo de formação e de aprendizagens. (ARROYO, 2005, p. 45). A EJA representa uma dívida social não reparada para com os que não tiveram acesso à escrita e leitura como bens sociais, além de significar a restauração de um direito negado e o reconhecimento da igualdade de todo e qualquer ser humano. Ser privado deste acesso é, de fato, a perda de um instrumento imprescindível para uma presença significativa na convivência social contemporânea (BRASIL, 2000). A inclusão da EJA no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), em 2007, na época comemorada como uma grande conquista, no sentido de tornar a EJA uma modalidade de ensino com recursos e desta forma com viabilidade, parece não ter se efetivado. As matrículas totais estão em queda, principalmente a partir de 2007, e tem se reduzido o número de escolas ofertando EJA, conforme tabela abaixo (GOMES, 2011). Figura 3 – Quadro de matrícula da EJA por etapa de ensino Matrículas da EJA por etapa de ensino Ano Ensino fundamental Anos Iniciais Anos Finais Ensino médio Integrado a TOTAL Educação Profissional Médio Integrado à TOTAL Educação Profissional 2007 1.160.879 2.206.153 ... 3.367.032 1.608.559 9.747 1.618 2008 1.127.077 2.164.187 3.976 3.295.240 1.635.245 14.939 14.939 2009 1.035.610 2.055.286 3.628 3.094.524 1.547.275 19533 19.533 2010 923.197 1.922.907 14.126 2.860.230 1.388.852 38152 38.152 2011 935.084 1.722.697 23.995 2.681.776 1.322.422 41.971 41.971 2012 870.181 1.618.587 18.622 2.507.390 1.309.871 35.993 35.993 Fonte: Mazzioni (2004). No contexto da EJA, o Brasil chega ao século XXI com um alto índice de adultos analfabetos. Segundo dados da Pnad/IBGE 2011, o 48 Brasil tem uma população de 56,2 milhões de pessoas com mais de 18 anos que não frequentam a escola e não têm o ensino fundamental completo. Esse contingente é uma clientela potencial a ser atendida pela EJA, mas, como apresentada na tabela 1, o atendimento à EJA está se reduzindo. Efetivar o direito à educação dos jovens e dos adultos ultrapassa a mera ampliação da oferta de vagas nos sistemas públicos. É necessário que o ensino seja adequado aos que ingressam na escola ou retornam a ela fora do tempo regular. O jovem ou o adulto que constitui o público de EJA é sujeito com identidade, saberes, cultura e valores próprios. (GOMES, 2011, p. 14). O público da EJA é composto por forte presença de jovens, que, em grande parte, deixam a escola muitas vezes para dedicação exclusiva ao trabalho ou pelo insucesso neste sistema de ensino, são estes os jovens que retornam para a escola via EJA, sentindo a falta da escolaridade em sua formação. Neste processo é fundamental uma política pública que contemple a elevação da escolaridade juntamente com a profissionalização, a fim de garantir acesso à educação e formação profissional de qualidade. A Educação de Jovens e Adultos tem sua história muito mais tensa do que a história da educação básica. Nela se cruzaram e se cruzam interesses menos consensuais do que na educação da infância e da adolescência, sobretudo quando os jovens e adultos são trabalhadores, pobres, negros, subempregados, oprimidos, excluídos. (ARROYO, 2008, p. 221). A modalidade de Ensino da EJA é marcada por um alto índice de evasão no Brasil, sendo que, das oito milhões de pessoas que frequentaram o curso até 2006, 42,7% não chegaram a terminá-lo, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007. As causas para a evasão são variadas, mas a principal é que em classe de EJA simplesmente se replica o modelo do ensino regular, e esse tem sido um dos maiores erros e responsável pelo grande índice de ociosidade (GOMES, 2011). 49 De fato o ambiente de aprendizagem, a organização curricular, os projetos pedagógicos, as relações entre professores e estudantes, a vinculação entre saberes a serem construídos e experiências vividas são temas que trazem complexidade e feições próprias à EJA. Essas questões devem ser enfrentadas para que o ensino ganhe significado e relevância, ampliando a possibilidade de permanência dos alunos no sistema de ensino. Além da questão da permanência, há necessidade de mobilizar esse público para o reingresso à escola. (GOMES, 2011, p. 17). Para Gomes (2011), a adequação da escola para um grupo de alunos que não é o alvo prioritário desta instituição em que o currículo, a organização estrutural e o processo de ensino aprendizagem foram pensados para crianças e adolescentes. Os altos índices de evasão na EJA indicam uma falta de sintonia entre a escola e os alunos, embora não podemos desconsiderar os fatores socioeconômicos que impedem a dedicação do aluno de forma permanente. Outro aspecto de exclusão é que a escola funciona com regras específicas e com uma linguagem particular que precisa ser conhecida pelos sujeitos envolvidos (OLIVEIRA apud RIBEIRO, 2002). Segundo de Paiva (2003), as experiências dessa modalidade têm se dado muito na perspectiva de cursos noturnos, em horários ociosos de escolas públicas do ensino fundamental ou privadas, com estrutura insuficiente para garantir a qualidade educacional necessária. Esse contexto é também insuficiente para dar conta da demanda em potencial de jovens e adultos existentes no Brasil e do cumprimento ao direito preconizado na Constituição Federal de 1988, no artigo 208, que prevê a “[...] educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria.” (BRASIL, 1988, p. 32). Neste contexto de competitividade do mundo do trabalho, podemos afirmar que pela educação o indivíduo consegue abrir outras portas, já que um dos papéis fundamentais da EJA é formar os seus educandos para o mundo do trabalho e através da profissão, e a partir de 50 seu exercício, fazer com que o indivíduo obtenha a sua autonomia econômica. Para Kuenzer (1998, p. 73), esta nova roupagem econômica exige [...] o desenvolvimento da capacidade de educarse permanentemente e das habilidades de trabalhar independentemente, de criar métodos para enfrentar situações não previstas, de contribuir originalmente para resolver problemas complexos. Na intenção de melhores condições de vida no mundo do trabalho, os jovens e adultos buscam novos postos, ou mesmo uma profissão. Na sociedade atual, a necessidade de estudo e qualificação são primordiais para acompanhar as transformações cada vez mais velozes no mundo do trabalho. O mercado se estreita, exigindo uma maior escolaridade e, com isso, uma profissionalização. Na análise de Sérgio Haddad (1997), a LDB deveria “[...] incentivar atitude ativa do poder público e o caráter indutor do Estado quanto à demanda desse nível de ensino.” Infelizmente, a EJA, no Brasil, não é prioridade como o ensino fundamental; neste contexto, o país segue com índices vergonhosos quando o assunto é educação, pois estamos geralmente nas pesquisas entre os dez países do mundo que menos investem em educação. Segundo Siqueira (2007), a EJA é um fenômeno particular da realidade educacional brasileira, e, portanto, mereceria um Projeto Pedagógico específico que atendesse, de fato, os jovens que não puderam estudar no tempo regular. A autora afirma que este é um problema histórico cuja solução depende da vontade política do Estado, e não somente das lutas e debates em torno da temática. Siqueira (2007) afirma ainda que, atualmente, não existem políticas para a EJA, o que existe são tentativas dos governos federais e estaduais em amenizar esses problemas com a implementação de programas paliativos, que não resolvem de fato a ausência de uma política permanente para a EJA. O grande desafio, atualmente, não é só o índice de analfabetismo e a sua superação, mas a forma de alfabetização puramente mecânica, desvinculada da vida, centrada na palavra. Esta modalidade de ensino precisa ser vista como uma promessa de qualificação de vida para todos, propiciando a atualização de conhecimentos. A EJA no contexto brasileiro enfrenta dificuldades em sua implementação, como uma 51 política efetiva de inclusão das pessoas que não tiveram acesso à escola em idade própria. 2.3 A EJA no município de Chapecó A cidade de Chapecó, localizada no oeste do estado de Santa Catarina, é considerada polo agroindustrial do Sul do País e centro econômico do oeste do estado. A cidade é grande exportadora de produtos alimentícios industrializados de natureza animal, ocupando lugar de destaque na economia catarinense. É também considerada a Capital Latino-Americana de Produção de Aves (Portal Chapecó, 2014). O município foi fundado em 25 de agosto de 1917 e possui uma população de 189.052 habitantes (2012). Figura 4 – Mapa de localização do município de Chapecó Fonte: Portal Chapecó ([20--]). O município se constituiu a partir do desenvolvimento agrícola, que deu origem às agroindústrias responsáveis por uma concentração espacial de outras empresas de menor porte, tornando o município como um polo referencial na região. Até por volta de 1938 o oeste catarinense era habitado apenas por índios, quando tropeiros paulistas e imigrantes 52 italianos e alemães vindos do Rio Grande do Sul começaram a cruzar a região, rumo a São Paulo, para comercializar gado, ou trazidos pelas companhias colonizadoras. Deste sua origem, Chapecó se destaca em relação aos demais municípios da região. No início da colonização, a produção era organizada, essencialmente, seguindo interesses das empresas colonizadoras (ALBA, 2002). No século XVIII, a região oeste de Santa Catarina é ocupada com fazendas de criação de gado por fazendeiros do Paraná e São Paulo. Alvo de disputas entre os estados do Paraná, Rio Grande do Sul e o país vizinho, a Argentina, recebe em fins do século XIX a instalação da Colônia Militar Chapecó, como forma de incorporar e garantir a região oeste ao território brasileiro. O oeste de Santa Catarina recebe esta nominação a partir de 1920, até este período constava em mapas como zona desconhecida (ROSSETTO, 1989 apud HASS, 1997, p. 52). Para Mazzioni (2004) a frase de Paulo Freire que diz “Se a educação por si só não muda o mundo, tampouco o mundo é transformado sem ela” foi muito bem compreendida e absorvida pela população chapecoense, principalmente pelas pessoas que participavam do orçamento participativo, pois já em 1997, primeiro ano do Orçamento Participativo, definiu-se a Educação como primeira prioridade para o município, repetindo este fato nos anos 1999, 2000 e 2001. A decisão do Orçamento Participativo em investir prioritariamente na Educação se reflete em números: no ano de 2000, Chapecó atingiu a maior taxa bruta de matrícula de Santa Catarina, alcançando um índice de 97,09%, bem maior que o índice que tinha em 1997, que era de 63,86% e ocupava a 31ª posição no estado. Na tabela que segue, percebe-se que o município alcança índices melhores que os nacionais com relação a oferta de educação por idade (MAZZIONI, 2004). Figura 5 – Taxa bruta de matrícula em SC no ano de 2000 0a3 4a6 7 a 14 15 a 17 Média Brasil Média SC Índice Chapecó 9,43% 12,89% 15,71% Fonte: IBGE (2000). 61,36% 63,00% 71,29% 94,50% 96,60% 96,62% 77,71% 75,23% 79,99% 18 a 22 + 22 37,77% 33,41% 42,10% 5,93% 5,89% 12,76% 53 Frente aos investimentos feitos no campo da Educação, Chapecó torna-se também referência na modalidade de ensino de EJA. De 1997 a 2004 foram efetuadas 33.962 matrículas nas quatro totalidades que representam todo o ensino fundamental (MAZZIONI, 2004). Outra ação desenvolvida foi a redução do nível de pessoas analfabetas maiores de 15 anos: em 1991 o índice era de 10,7% e passou para 7,1% em 2000; na faixa etária da população maior de 25 anos, o índice que era de 13,4% reduz para 8,8%. No ano de 2001 o município cria o Movimento de Alfabetização de Adultos (MOVA) com a intenção de atrair alunos, que, mesmo com a disponibilidade de vagas nas escolas, não tomava a iniciativa de buscar a alfabetização. O MOVA foi criado em São Paulo na gestão de Luiza Erondina (1989-1992) e, na intenção de superar a ideia de campanha e incorporar a ideia de movimento, tinha a convicção de que a superação do analfabetismo no Brasil exigia a participação da sociedade civil, ou seja, o envolvimento de grupos populares com o objetivo de ampliação de processos de alfabetização de adultos (RIBEIRO, 1998). Os investimentos na educação melhoram não só os índices relacionados ao acesso e permanência na escola, mas principalmente a qualidade da educação. Isso fica claro quando comparamos o Índice de Desenvolvimento da Educação (IDE) de Santa Catarina, quando em 1997 o município estava em 54ª posição e em 2002 passa para 11ª posição (MAZZIONI, 2004). A implementação do Sistema Municipal de Ensino, elaborado durante a 1ª Conferência Municipal de Educação e aprovado pela Câmara de Vereadores através da Lei Complementar n. 48/97, é outro grande avanço nesta área, pois indica a autonomia pedagógica e administrativa, pois o próprio município passou a regulamentar a sua educação, sendo responsável pela gestão, normatização e controle desta (MAZZIONI, 2004). A Constituição Brasileira de 1988 representou conquistas importantes para a Educação, entre elas o compromisso do Estado em garantir educação para todos aqueles que a ela não tiveram acesso, independente da idade. Essa prerrogativa ajudou a consolidar iniciativas relativas à EJA em administrações populares. Todo o processo de mudanças e de organização do currículo e da educação como um todo no município passou a ser denominado de reorientação curricular, que teve na EJA a sua porta de entrada e 54 estendeu-se para as outras modalidades de ensino (Fundamental e Educação Infantil). A organização popular crítica do fazer curricular é capaz de denunciar e superar a prática construtora de sentidos e significados identitários hegemônicos, [...] contribuindo para a transformação participativa da sociedade. Nessa perspectiva, só movimentos de reorientação curricular problematizadores podem ser considerados processos de formação/transformação radical da prática educacional hegemônica que institui a ideologia da positividade como forma de legitimar a negatividade social vivenciada pela comunidade. (SILVA, 2004a, p. 348). O Movimento de Reorientação Curricular envolveu os educadores ativamente e demandou na Secretaria Municipal de Educação e Cultura a realização de eventos de capacitação, que foram o início de um programa de formação continuada. Dentre alguns eventos importantes em 1998, houve o 1o Seminário de Educação Popular, o 2º Congresso da EJA e o Fórum de Debates Ciclo de Formação, Conquistas e Desafio “Um lugar onde se Constrói Educação com a Participação Popular” (STUANI, 2010). Para Silva (2004a), a política educacional, ao organizar e implementar a reorientação curricular em suas redes, pode estar fazendo uma opção pelas práticas que levem as instituições escolares a se tornarem espaços de conscientização e construtores de uma nova cultura transformadora. O Movimento de Reorientação Curricular numa perspectiva crítica busca construir, por intermédio de um processo participativo e inovador, novas práticas socioculturais. As leituras, discussões e estudos, na época, apontaram para a definição da Educação Popular como eixo norteador da política educacional em Chapecó. A Educação Popular, enquanto opção política da Rede Municipal de Educação, deve-se ao compromisso com a democratização da escola pública e a superação do modelo excludente de educação e para uma nova práxis educacional 55 comprometida com a transformação da realidade sociocultural e econômica vigente, tendo a participação popular como eixo organizador das políticas públicas de educação. (STUANI, 2010, p. 60). A partir da definição pela Educação Popular, a EJA passou a ser organizada dentro da concepção de totalidades do conhecimento via tema gerador. As totalidades do conhecimento são compreendidas a partir de que nada acontece por acaso, mas que tem uma relação interdisciplinar entre os acontecimentos, estando em constante movimento de transformação, onde as partes têm a ver com o todo, e o todo interfere nas partes num movimento dialético. Portanto, o conhecimento é totalizante, e a atividade humana em geral, é um processo de totalização, que nunca alcança uma etapa definitiva e acabada. (CHAPECÓ, 2002, p. 21). Na implementação das totalidades na EJA, a série passou a ser denominada Totalidade do Conhecimento. Essa mudança representou uma organização das turmas com menos rigidez, e a turma a ser frequentada pelo educando era determinada pela avaliação do coletivo de professores, que definem o avanço ou a permanência do aluno e qual a totalidade que este deverá frequentar (SORDI, 2003). 56 Figura 6 – Organização das totalidades T1 e T2 Áreas do conhecimento/disciplinas da base nacional comum do currículo do ensino fundamental Distribuição das 600 horas em cada Totalidade Utilização da carga horária Habilitação dos professores Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, Geografia, História, Educação Artística e Educação Física. As 600 horas de cada Totalidade serão distribuídas em 180 dias de aula, com 3 horas e 20 minutos de período diário de trabalho escolar. A carga horária será utilizada através do ensino direto, de forma integrada, com todas as disciplinas, pelo(a) professor(a) da turma. Nível superior, em curso de licenciatura, em graduação plena, obtido em instituições de ensino superior, admitida a habilitação mínima de magistério em nível médio. Fonte: Revista Educação de jovens e adultos (1998). Figura 7 – Organização das totalidades T3 e T4 Áreas do Língua Portuguesa, Matemática, conhecimento/disciplinas da base Ciências, Geografia, História, nacional comum do currículo do Educação Artística e Educação ensino Física e Língua Estrangeira (a ser fundamental definida pela respectiva comunidade escolar). Distribuição das 600 horas em As 600 horas de cada Totalidade cada serão distribuídas em 180 dias de Totalidade aula, de 3 horas e 20 minutos de trabalho escolar em quatro aulas de 50 minutos. A carga horária das Totalidades T3 e T4 será desenvolvida através do ensino direto do(a) professor(a) da respectiva disciplina, com a distribuição das aulas de forma idêntica para cada uma das disciplinas. Distribuição das aulas A distribuição das aulas dá-se do seguinte modo: quatro aulas por 57 disciplina por quinzena, sendo que, em uma semana, a disciplina é desenvolvida em três aulas e, na outra semana, em uma aula, com característica de oficina de trabalho, isto é, trabalho específico com as dificuldades ou necessidades dos alunos encontradas no desenvolvimento das atividades curriculares. Habilitação dos Professores Nível superior, em curso de licenciatura, específica na área de atuação, em graduação plena, obtido em instituições de ensino superior. Fonte: Revista Educação de jovens e adultos (1998). Além dos encontros semanais, para que o processo de formação de professores da EJA se efetivasse, outras ações foram necessárias, tais como: Acompanhamento permanente dos professores pela equipe pedagógica da EJA; Embasamento teórico através de oficinas; Estudo de textos relacionados à Educação Popular na concepção de Paulo Freire; Momentos de estudo e intercâmbio de experiências vivenciadas; Desenvolvimento de pesquisa participante com a comunidade e com os educandos; Seminários com a participação de alunos professores e palestrantes que trabalhavam a concepção de educação de Paulo Freire. As discussões e os momentos de estudos e planejamento proporcionaram a análise da Proposta Político Pedagógica da EJA para o município e, consequentemente, a conclusão de que esta precisava ser transformada. No ano de 1997, acontece a primeira Conferência Municipal de Educação, que definiu as diretrizes para a educação do município na perspectiva da Educação Popular, são elas: A instituição dos Conselhos Escolares como órgãos máximo da escola; 58 A eleição dos membros do Conselho Municipal de Educação; A eleição dos diretores de escolas e Centros de Educação Infantil Municipal; A realização da conferência de dois em dois anos (CHAPECÓ, 1998). Diante de todos os desafios que foram colocados no decorrer do ano de 1997 com o trabalho desenvolvido na EJA, percebemos que a superação se dá no fazer, no confronto, não existindo fórmulas para superar as dificuldades. O que ocorreu foi vontade de transformar e criou-se na educação uma rede horizontal de confiança, onde a sinergia ali produzida de maneira coletiva, integradora e democrática, proporcionou as ações de mudança de uma educação que domesticava para uma educação libertadora. (CHAPECÓ, 2002, p. 16). A EJA, em implantação, no município de Chapecó se consolidou a partir de 1998 como um programa permanente pelo atendimento à grande demanda, que naquele ano chegava a 4.238 alunos matriculados, um crescimento de mais de 100% com relação ao ano de 1997. “A EJA em 1998, 1999 e 2000 foi reconhecida pelas fundações FORD e FGV com certificado por mérito (Medalha de Mérito em Gestão Educacional Anísio Teixeira) como um dos 100 melhores programas em Gestão e Cidadania no país.” (CHAPECÓ, 2002, p. 9). Os princípios teóricos de Paulo Freire, os quais, discuto a seguir, foram definidos como possibilidade de mudança no sentido de avançar rumo a melhoria na qualidade da educação no município. 59 3 A FORMAÇÃO CONTINUADA DOS PROFESSORES DE EJA E A CONCEPÇÃO FREIREANA 3.1 Conceitos e concepções na formação de professores Os profissionais docentes fazem parte de um grupo no qual a relação com o conhecimento torna-se essencial para o desempenho de sua tarefa principal, que é ensinar. O exercício da prática docente não é somente um espaço de desenvolvimento dos saberes provindo da teoria, necessariamente um espaço de produção de saberes específicos. É consenso, na comunidade científica e entre professores, que a formação docente não se encerra com a conclusão da licenciatura, pois os professores enfrentam situações com características únicas, que exigem respostas únicas. Nesse sentido, há a importância de uma formação permanente e continuada, que estimule a perspectiva críticoreflexiva e o pensamento autônomo (NÓVOA, 1995). O documento elaborado pelo MEC (BRASIL, 1999) sobre os referenciais para a Formação de Professores indica a necessidade de um novo perfil de professor comprometido e que tenha a possibilidade de “elevar a qualidade da educação”, atrelando essas mudanças ao desenvolvimento do aluno enquanto sujeito histórico, capaz de responder aos desafios do mundo globalizado. Este mesmo documento destaca a importância de constituir novas habilidades na formação docente para uma sociedade em constante transformação e aponta que formação só é possível tendo a escola como espaço de reflexão, pois, desta forma, é possível articular as condições de trabalho e tempo dos professores (BRASIL, 1999). As políticas educacionais, como o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), destacam “[...] a melhoria da qualidade da educação básica depende da formação de seus professores [...] a questão é urgente, estratégica e reclama resposta nacional.” (HADDAD, 2005, p. 8-9). O direcionamento e a regulação desta ênfase na formação de professores podem ser vistos nas diretrizes do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação. A formação continuada de professores após a conclusão da graduação é tema constante nas discussões de autores como Tardif, Nóvoa, Mizukami, Larrosa, Saviani, Gatti e outros. Para explicitar essa formação, vários conceitos e concepções têm sido produzidos ao longo da nossa história, como os a seguir destacados. 60 Um dos conceitos utilizados é a reciclagem, que surge na década de 1980 e supõe um movimento circular muito mais adequado a coisas do que a pessoas. Embora muito utilizado no meio educacional para denominar cursos rápidos de forma superficial, atualmente, pela sua conotação, é pouco empregado (HYPOLITTO, 1999). Treinamento é outro termo ainda hoje utilizado na área de recursos humanos e também no campo da educação. Tem como objetivo a programação de cursos para treinar a partir de modelos a serem seguidos. Para Hypolitto (1999), treinar pressupõe repetição mecânica e passividade, tem sentido de adestramento com o objetivo de corrigir desvios ou solucionar falhas para atingir a eficiência. Outra denominação, a Capacitação, é utilizada na formação do professor em serviço, já nos anos de 1970 surgiam propostas denominas de capacitação, em que predominava a venda de pacotes ou a apresentação de propostas prontas ditas inovadoras, com o falso objetivo de revolucionar as práticas pedagógicas (HYPOLITTO, 1999). Também utilizado para denominar a formação de professores, aperfeiçoamento tem a intenção de tornar o sujeito perfeito completo e acabado, o que remete a ideia de que esse sistema completará alguém, vai torná-lo perfeito. “Tais cursos de aperfeiçoamento, constituíram muitas vezes, o fiel da balança, quando da atribuição de aulas aos docentes da rede pública, pois reforçavam a titulação do portador.” (HYPOLITTO, 1999, p. 102). A Formação permanente é entendida como aperfeiçoamento constante das habilidades necessárias ao desempenho profissional e especialização pessoal do educador. Contrária à concepção dos anos 1970, que se baseava no treinamento do profissional da educação. Este conceito foi se alterando ao longo do tempo, e hoje a formação permanente é vista como uma formação constante (NÓVOA, 1995). Sabe-se, atualmente, que o profissional “[...] não se constrói por acumulação de cursos, de conhecimentos ou de técnicas, mas sim, através de um trabalho de reflexão crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente da identidade pessoal.” (NÓVOA, 1995, p. 25). Hoje, o conceito mais encontrado para designar a formação de professores é a formação continuada, que, segundo Perrenoud (1993), é usada para definir o conjunto de formação vivenciado pelos profissionais da educação que acontece paralelo ao exercício da 61 docência. O desenvolvimento e a evolução do processo de formação em serviço são concomitantes às transformações ocorridas no mundo. Atualizar-se, rever conceitos e (re) significar a prática pedagógica para poder responder às demandas sociais fazem parte das propostas de formação continuada. Porém, conhecer as novas teorias, estar ciente dos avanços na Ciência da Educação e poder discutir as tendências pedagógicas atuais, são conhecimentos que irão contribuir não somente na prática pedagógica em sala de aula do professor. (PERRENOUD, 1993, p. 200). Neste trabalho optou-se por utilizar o conceito de formação continuada para denominar a formação do professor além de sua certificação oficial, que, neste momento, expressa a amplitude do processo de formação de professores. 3.2 Formação continuada de professores As características atuais do mundo do trabalho e as novas formas de organização da produção numa velocidade cada vez maior impõem a formação constante de profissionais de todas as áreas. Neste sentido há uma cobrança de que a escola garanta as habilidades e atitudes que tornem o trabalhador preparado para aprender sempre e de forma autônoma (FRIGOTTO, 2002). Para Nóvoa (1995, p. 25), os professores enfrentam situações com características únicas e, para isso, exigem respostas únicas. Desta forma, a formação continuada de professores deveria estimular a perspectiva crítico-reflexiva e o pensamento autônomo. Este autor afirma, ainda, que a formação requer um investimento pessoal nos projetos de vida, “[...] pois nada é mais gratificante do que aprender aquilo que realmente faz sentido no quadro das histórias de vida.” (NÓVOA, 1995, p. 25). Tardif (2002), ao conceituar o conhecimento docente, afirma que é formado pela relação de quatro saberes: 1 - Saberes da formação profissional, que são denominados pelo conjunto de saberes baseados nas ciências e na erudição, os 62 conhecimentos pedagógicos relacionados às técnicas e métodos de ensino (saber fazer). 2 - Saberes disciplinares, que pertencem aos diferentes campos do conhecimento e são produzidos e acumulados pela sociedade ao longo da história. 3 - Saberes curriculares que estão relacionados à forma como as instituições educacionais fazem a gestão dos conhecimentos socialmente produzidos, apresentam-se em forma de programas (objetivos, conteúdos, métodos) 4 - Saberes experienciais, que resultam do próprio exercício da atividade profissional por meio da vivência de situações específicas relacionadas ao espaço da escola e às relações estabelecidas com alunos e colegas de profissão. Para Gatti (2008), nos últimos anos do século XX tornou-se forte, nos mais variados setores profissionais e nos setores universitários, especialmente em países desenvolvidos, a questão da imperiosidade da formação continuada como um requisito para o trabalho, ou seja, a ideia da atualização constante em função das mudanças no conhecimento e no mundo do trabalho. Larrosa (2002, p. 23) afirma ainda que a formação precisa necessariamente se constituir como uma experiência que toca o sentido dos professores. A experiência não se constitui somente como algo que nos acontece, mas sim aquilo que fazemos com aquilo que nos acontece. A experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova. Saviani (2000) destaca que é preciso salientar que a teoria é necessária, não somente para uma reflexão sobre novas possibilidades ao acesso do conhecimento, mas principalmente como um instrumento de análise da própria prática. Sem uma formação teórica constante e consistente fica difícil compreender as questões que norteiam a vida escolar. Para esse autor, essa formação só é possível tendo a escola como espaço de reflexão, pois, desta forma, é possível articular melhor as condições de trabalho e tempo dos professores (SAVIANI, 2000). É no cotidiano da escola que propostas de mudança devem ser levantadas, discutidas e concretizadas, garantindo um grupo formativo que promova a tomada de consciência para a construção da escola democrática. Dos conceitos apresentados pelos estudiosos desta temática é possível concluir que a formação continuada de professores se traduz na 63 formação constante do professor, no sentido de estimular a reflexão crítica e consistente das práticas educacionais tendo a escola como espaço de referência desta reflexão. Os autores, acima citados, serão referência para a análise do processo de formação de professores aqui investigados, no entanto, o eixo teórico principal de análise será o pensamento freireano sobre a educação e a formação continuada. 3.3 A concepção de Paulo Freire na formação continuada de professores Paulo Régis Neves Freire, mais conhecido como Paulo Freire, nasceu em 19 de setembro de 1921, na cidade do Recife (PE). Oriundo de uma família de classe média, Freire conviveu com a pobreza e a fome na infância, durante a depressão de 1929. A experiência o ajudou a pensar nos pobres e o levou, mais tarde, a elaborar suas ideias para a alfabetização de adultos, um pensamento pedagógico assumidamente político (SOUZA, 2001). É considerado o mais célebre educador brasileiro, com atuação e reconhecimento internacionais. Para Freire, o objetivo maior da educação é conscientizar o aluno e isso significa, em relação às parcelas desfavorecidas da sociedade, levá-lo a entender sua situação de oprimido e agir em favor da própria libertação (SOUZA, 2001). Propunha utilizar a educação para melhorar o mundo. “Na perspectiva freireana, o objetivo é aliar educação a um projeto histórico de emancipação social: as práticas educacionais precisam estar relacionadas a uma teoria do conhecimento.” (GADOTTI, 2007, p. 26). Sua pedagogia não é apenas uma pedagogia para os pobres. Ele, como ser conectivo, queria ver também os não-pobres e as classes médias se engajando na transformação do mundo. Toda pedagogia contém uma proposta política, implícita ou explícita. O ‘método Paulo Freire’ é um excelente exemplo disso: não faz sentido separar o seu método de uma visão de mundo. (GADOTTI, 2007). Paulo Freire é formalmente reconhecido como patrono da educação brasileira em de abril de 2012, com a Lei n. 12.612. Para a 64 diretora de currículos e educação integral do Ministério da Educação, Jaqueline Moll, o Brasil presta uma homenagem a Paulo Freire por sua obra pela educação brasileira. “Paulo Freire é a figura de maior destaque na educação brasileira contemporânea, pelo olhar novo que ele constrói sobre o processo educativo.” (BRASIL, 2012). As primeiras experiências de alfabetização baseadas nos princípios de Paulo Freire começaram na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1962, onde trezentos trabalhadores foram alfabetizados em apenas 45 dias. No ano seguinte, Freire foi convidado pelo então presidente João Goulart para repensar a alfabetização de adultos em âmbito nacional. O golpe militar interrompeu os trabalhos e reprimiu as promissoras possibilidades de implementação do seu trabalho (BRANDÃO, 2000). Paulo Freire criticou o uso de cartilhas, utilizadas nos métodos tradicionais de alfabetização no Brasil. Na sua visão, estes materiais apresentavam uma educação domesticadora em que predominava a transmissão de conhecimentos do educador para os educandos. Essa relação reforçava a passividade forjada no âmbito de uma sociedade autoritária. Para Freire, era necessário substituir a relação de autoridade na educação “[...] e superar a prática do assistencialismo, a ausência do diálogo, a passividade do homem comum que não participava ativamente na organização da vida coletiva.” (BEISIEGEL, 2010, p. 34). Ao contrário das práticas domesticadoras, Paulo Freire procura realizar uma educação condizente com as exigências da realidade brasileira, ou seja, uma educação comprometida com o desenvolvimento humano e a formação da consciência crítica. Conforme Freire (1992), as palavras geralmente usadas na prática educativa, tais como “escola”, “classe”, “professor”, “aluno”, estavam impregnadas de significações inaceitáveis, resultado das práticas domesticadoras da educação brasileira tradicional. Por isso mesmo, já a nomenclatura que adotava no método de alfabetização exprimia a intenção de alterar radicalmente as práticas então usuais na educação do adulto analfabeto. As ‘classes’ eram substituídas pelos ‘círculos de cultura’, os ‘alunos’ pelos ‘participantes dos grupos de discussões’, os ‘professores’ cediam lugar aos ‘coordenadores de debates’. De igual modo, a ‘aula’ era substituída pelo ‘debate’ ou pelo 65 ‘diálogo’ entre educador (BEISIEGEL, 2010, p. 42). e educandos. Os trabalhos eram iniciados a partir de discussões em torno do conceito de cultura. A organização da aula tem início mediante o estudo dos modos de vida na localidade onde residem os educandos através de entrevistas com os adultos matriculados e também com outros membros da comunidade. Este trabalho tinha como objetivo levantar o “universo vocabular” dos educandos, pois a partir deste eram selecionadas as palavras geradoras (BEISIEGEL, 2010). Para Feitosa (1999), o fio condutor da alfabetização visa à libertação nos campos social e político. A autora destaca ainda dois princípios fundamentais, quais sejam, a politicidade e a dialogicidade do ato educativo. Com relação à politicidade, Freire (1992) afirma que a educação não é neutra, ela é vista como construção e reconstrução contínua de significados. O alfabetizando é desafiado a refletir sobre seu papel na sociedade enquanto aprende a escrever a palavra sociedade; é desafiado a repensar a sua história enquanto aprende a decodificar o valor sonoro de cada sílaba que compõe a palavra história. Essa reflexão tem por objetivo promover a superação da consciência ingênua também conhecida como consciência mágica para a consciência crítica. (FEITOSA, 1999, p. 45). Para Paulo Freire (1992), a visão ingênua da realidade torna os sujeitos escravos, pois, não sabendo que podem transformá-la, ficam submetidos a ela. Essa descrença impede a intervenção no meio, visando uma transformação. A dialogicidade no ato educativo necessita ser, acima de tudo, uma relação dialógica. Para superar a condição de submetimento das classes populares, Freire propõe a prática dialógica. Essa ideia está presente em diferentes situações do cotidiano, como: entre educador e educando, educando e objeto do conhecimento, entre natureza e cultura. “Portanto, o diálogo entre natureza e cultura, entre o homem e a cultura e entre o homem e a natureza se constituía em uma prática comum na alfabetização de jovens e adultos.” (FEITOSA, 1999, p. 48). 66 Ser dialógico é estar aberto às divergências e diversidades. É saber conduzir o diálogo para a concretização do objetivo maior do educador progressista, que é a realização de um projeto de escola que reproduza o diálogo na sociedade. A busca de uma sociedade mais justa e igualitária passa pelo sentido do coletivo. (FREIRE, 1996, p. 119). O diálogo é o encontro entre o refletir e o agir de seus sujeitos no mundo, não se pode reduzir a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem mesmo da simples troca de ideias a serem consumidas. Também não se constitui na discussão polêmica, na busca de impor a sua verdade. A lógica da dialogicidade propõe o diálogo que poderá promover um consenso na dinâmica do trabalho coletivo pedagógico. O confronto das ideias não pode ser obstáculo para o objetivo de construir um projeto que provoque mudanças nas estruturas sociais (FREIRE, 1992). De acordo com Freire (1992), há uma formação continuada que acontece o tempo todo, ou seja, é permanente e contínua na caminhada de fazer-se professor. Destaca a formação continuada como formação permanente que é resultado do conceito da “condição de inacabamento do ser humano e consciência desse inacabamento”. Segundo Freire (1983), o homem é um ser inconcluso e deve ser consciente de sua inconclusão, através do movimento permanente de ser mais. Para Paulo Freire e outros autores, como Maurice Tardif, a formação de professores deve ser tratada de forma abrangente e se constituir como um processo continuado e permanente, sem concebê-la em momentos separados e específicos, como formação inicial, formação em serviço e formação continuada. É preciso mudar a concepção de formação, sair da ideia de formação pontual com temáticas específicas para a elaboração de processos de formação que de fato instigue a reflexão da prática, apontando para a transformação do modelo tradicional de ensinar e aprender (FREIRE, 1992). No processo de formação de professores da Educação de Jovens e Adultos (EJA), ocorrido no município de Chapecó, Paulo Freire foi um dos autores mais estudados. Na análise dos questionários, pode-se observar que, dos 17 professores que responderam o questionário, 15 deles apontam Paulo Freire como um dos autores mais lidos, seguido de Moacir Gadotti, com cinco indicações, Celso Vasconcellos, com quatro, 67 e Antonio Gouvêa da Silva, citado três vezes. Outros autores, como Carlos Rodrigues Brandão, Lev Vygotsky, Miguel Arroyo e Darcy Ribeiro, também foram citados. Na sequência, discorro a respeito das ideias de Paulo Freire como suporte para a formação continuada dos professores da na modalidade de EJA no município de Chapecó. 3.4 A concepção freireana como aporte para a formação continuada dos professores de EJA Segundo Gadotti e Romão (2001), Freire escreve também especificamente sobre a formação continuada de professores na modalidade de EJA, sendo que para ele o ato de ensinar e aprender na EJA não deve limitar-se a simples técnicas mecânicas de ler e escrever, é imprescindível, além de teorias, o conhecimento de uma metodologia voltada para uma educação diferenciada, com especificidades do universo do aluno adulto. Freire (1996) destaca a necessidade de atentarmos para o caráter desmistificador de realidade e de não neutralidade, com a tarefa de ensinar conteúdos, mas principalmente de pensar criticamente. Maraschi e Bollochio (2006, p. 6) afirmam que: A EJA, olhada do ponto de vista da formação de professores, historicamente, foi constituindo como uma modalidade de formação e de práticas educativas fragmentadas. Esse fato, explica-se por não exigir formação específica, deixando para o próprio educador a busca por sua formação. Assim, parece que qualquer professor formado para atuar no Ensino Fundamental e Médio é docente de EJA. E, muitas vezes, tal profissional não teve sequer uma disciplina, ou discutiu internamente no âmbito de outras disciplinas, o ensino na EJA. Pensar a formação docente para a realidade da EJA é priorizar os sujeitos que historicamente foram excluídos de um direito que é constitucional. Nesse sentido, pensar sobre a formação de professores de EJA é essencial, no sentido de momento preparar professores comprometidos e cientes dos desafios presentes para a escolarização de 68 jovens e adultos, mais chances os sujeitos têm de participar de espaços de proposição de mudanças. Segundo Mazzioni (2004), um expressivo e permanente programa de formação continuada foi criado em 1997 no município de Chapecó, e tinha como eixo norteador o processo de ação-reflexão-ação da prática pedagógica a partir do cotidiano escolar e da ação do professor na elaboração do Projeto Político Pedagógico do município. Nas diferentes áreas da educação foram desenvolvidas, em sete anos, 2.131 horas de formação continuada e emitidos 11.578 certificados. Para organização e discussão das questões educacionais, os professores tinham garantido 20% da sua carga horária de trabalho para dedicação aos estudos, planejamento e avaliação das práticas escolares. Esse tempo de pensar e repensar as questões pedagógicas da escola permitia um trabalho coletivo, integrado no sentido de melhorar a qualidade da educação no município. A partir da análise dos dados é possível identificar aspectos relevantes apresentados pelas professoras, que se tornam recorrentes ao longo da pesquisa e que pela sua importância e consonância com os objetivos da investigação serão tratados como categorias de análise da pesquisa. Sobre a experiência de formação continuada dos professores de EJA ocorrida no período de 1997 a 2004 no município de Chapecó, enfatizo, a posteriori, cinco categorias, nas quais é possível perceber a partir dos dados coletados, são elas: Mudança nas práticas pedagógicas; Reflexão sobre a prática; Trabalho coletivo e diálogo; Educando como sujeito do processo; Formação continuada e a concepção freireana. a) Mudança nas práticas pedagógicas Várias mudanças foram ocorrendo paulatinamente na forma de trabalhar e conceber a educação no município de Chapecó. Uma das mais complexas foi a mudança na concepção e metodologia da ação pedagógica com a intenção de desconstruir a lógica fragmentada do planejamento e da ação docente, instaurando, assim: […] uma prática mais contextualizada e coletivizada, onde os educadores, coletivamente, na condição de sujeitos do processo pedagógico, a partir da realidade e do conhecimento científico, constroem o planejamento da ação docente, e a 69 programação das aulas, de forma que, os alunos também na condição de sujeitos do processo pedagógico tenham aprendizagens significativas para a sua formação cidadã. (MAZZIONI, 2004, p. 117). A proposta do tema gerador, por exemplo, a partir dos princípios de Paulo Freire, é fundada na concepção da prática transformadora, que determina o diálogo com a realidade como categoria permanente e constante no ato de conhecer e reconhecer o cotidiano do educando. A partir das situações concretas, pode-se organizar o conteúdo programático da educação e da ação política em diálogo com os envolvidos (FREIRE, 1987). Segundo Poli (2004), a proposta política pedagógica da Secretaria Municipal de Chapecó identifica em Paulo Freire o aporte essencial para o desenvolvimento de uma prática educativa libertadora, que tinha como princípios: a democracia, a cidadania, a autonomia e o trabalho coletivo. Nessa concepção, o sujeito é visto como humano pleno de historicidade e de possibilidades de interação ativa com a realidade. Assim, [...] o mais importante foi mudança de conceitos e metodologia proposta. A pesquisa, construção da rede temática e tema gerador, enfim, entender e conduzir o processo e por em prática. (Professora 06). [...] um segundo momento então começou esse processo baseado no movimento de reorientação curricular da própria reorganização do currículo que era baseado na perspectiva freireana via tema gerador. (Entrevistada B). A abertura para a mudança se coloca como um ponto de partida, sem o qual nada é possível, um saber indispensável a quem se dispõe perceber transformações e avanços na atualidade. Os que optam pela transformação da realidade precisam organizar suas táticas coerentes com suas estratégias, ou seja, com seu sonho possível. “É exatamente porque sei que mudar é difícil mas é possível que eu me dou ao esforço crítico de trabalhar num projeto de formação de educadores.” (FREIRE, 2000, p. 96). 70 Com a definição da concepção freireana como a norteadora desta experiência, dá-se início a um novo movimento pedagógico, em que o conhecimento não é desvinculado da prática que liberta. Esta mudança demanda essencialmente uma nova elaboração a respeito do processo de desconstrução do conhecimento, ou seja, implica em fazer a ruptura com a cultura pedagógica historicamente construída sobre a concepção tradicional de educação. Deste modo, [...] a gente passou a olhar a educação com outro olhar, a respeitar mais aquilo que era trazido pelos educandos, pelos adultos na época, o conhecimento que era trazido e resignificado, ele era problematizado junto com eles nos diferentes momentos de estudo e com certeza todo esse processo, os momentos de parada que na época eram semanais contribuíram muito na prática no olhar crítico da educação e na prática também. (Entrevistada A). Imagine professores estritamente tradicionais, começarem a dialogar com alunos, acolher os mesmos, pensar as aulas a partir de suas necessidades, foi algo revolucionário e desafiador. (Professora 03). A partir do estudo do material produzido no período de 1997 a 2004 sobre a formação continuada para os professores de EJA no município de Chapecó e, posteriormente, com os instrumentos de pesquisa, os questionários e as entrevistas, foi possível perceber que as ações desenvolvidas naquele período proporcionaram transformações fundamentais nas práticas das professoras entrevistadas, pois estas afirmam que o trabalho de formação realizado mudou suas práticas, conforme depoimento da professora: [...] mudou não só a minha prática, mas mudou a minha vida enquanto ser humano mesmo, eu passei a ver o mundo com outros olhos, a sociedade com outros olhos porque ela não mexeu apenas na minha prática enquanto professora ela mexeu na minha concepção enquanto ser humano enquanto sujeito inserido neste mundo, um 71 cidadão, eu sou professora pra quê, eu ensino ciências pra quê, o que o ensino de ciências vai contribuir pra esse aluno da EJA. (Entrevistada B). Vivemos em uma sociedade da informação, mas que não se transforma, necessariamente, em experiência que nos toca. O sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura. A experiência é aquilo que me toca, que me acontece e que me transforma (LARROSA, 2002, p. 25). Como professor, não cabe a mim conduzir os educandos na direção dos meus sonhos, cabe-me o dever de combater as injustiças deixando claro que “[...] mudar é difícil mas é possível. A consciência de que é possível mudar o mundo é conhecimento indispensável aos educadores.” (FREIRE, 2000, p. 98). A análise realizada aponta para a importância e seriedade do trabalho de formação continuada desenvolvido com os professores de EJA. As afirmações feitas pelas professoras indicam que o trabalho desenvolvido possibilitou mudanças significativas que permanecem na prática dos professores envolvidos neste estudo, mesmo dez anos depois da experiência. Deixam claro em seus depoimentos o quanto esta proposta ajudou no crescimento, não só como professores, mas como seres humanos: [...] eu me tornei muito mais sujeito acho que eu cresci muito, me ajudou muito como pessoa como ser humano... quem sabe um dia a gente construa uma outra experiência semelhante, não vamos fazer a mesma experiência, mas acho que precisa mudar algumas coisas na educação do município. (Entrevistada A). Foi um trabalho muito intenso, porque na realidade o que aconteceu foi que a gente se apaixonou por aquilo que a gente fazia e aí a gente não tinha muito horário, [...] a gente acreditava naquilo que fazia, era como se a gente tivesse o poder de contribuir para mudar o mundo, eu me sentia assim, pra mim, aquilo que eu estava fazendo em sala de aula de fato estava 72 contribuindo para mudar o mundo, mas mudar o mundo pra melhor. (Entrevistada B). Os resultados da pesquisa mostram que a intensidade de estudos, pesquisas e reflexões, tendo a prática como ponto de partida, possibilitaram a qualificação do trabalho pedagógico do coletivo de professores da EJA, que passa a perceber o ato educativo de forma diferenciada, em que o diálogo, a perseverança e o trabalho coletivo possibilitam a construção de uma experiência de educação libertadora. Na entrevista, quando indagadas sobre a possibilidade de participar de uma experiência de formação como esta implementada no município de Chapecó, as quatro professoras são unânimes em dizer que sim, e afirmam que teriam a possibilidade de avançar para além daquilo que foi produzido, pois hoje apresentam uma clareza maior sobre a intensidade e o objetivo de uma educação segundo os pressupostos de Paulo Freire. Participaria com certeza. […] inclusive teria questões para sugerir pra avançar em questões de resistência, muita gente era resistente ao processo e hoje eu teria mais clareza pra lidar melhor com estas resistências, pra criar novos espaços de participação […]. (Entrevistada B). Sim eu participaria, porque pra mim o programa foi muito bom, eu posso dizer assim que eu era uma professora antes do programa e agora sou outra pra mim o programa foi muito rico em aprendizagem […]. (Entrevistada C). No pensamento de Freire, a formação do professor requer um fazer específico mergulhado na realidade capaz de perceber os desafios e as potencialidades do contexto onde atua. Se desejamos educar para liberdade, não podemos estabelecer uma relação de dominação no ato educativo. b) Reflexão sobre a prática Paulo Freire (1990) é um dos educadores que introduz o termo reflexão na formação de professores. Segundo ele, “[...] é um movimento realizado entre o fazer e o pensar, entre o pensar e o fazer, 73 ou seja, no ‘pensar para fazer’ e no ‘pensar sobre o fazer’.” (FREIRE, 1990, p. 85). A partir do conceito de reflexão, Freire acrescenta duas categorias, a crítica, que resulta na transformação da curiosidade ingênua em inquietação indagadora, e a formação permanente, que pressupõe que nunca estamos prontos. A formação de professores não pode ser concebida como um paliativo através de cursos de reciclagem ou treinamentos em serviço, seu objetivo maior é possibilitar a articulação teórica com as práticas pedagógicas num movimento constante e dialético de ação-reflexãoação. O pensamento de Freire destaca a importância da constante reflexão entre teoria e prática, e esse aspecto aparece claramente nos depoimentos das professoras, a seguir: A construção das questões geradoras realizadas pelo diálogo entre as diferentes dimensões que envolviam o pensar, o agir e o teorizar a prática num movimento de reflexão-ação de caráter coletivo. (Professora 17). Sinto me privilegiada de ter participado deste processo de planejamento de aulas, onde, iniciava, as atividades questionando os alunos (discussões riquíssimas) o que se sabia sobre determinado assunto, após realizávamos atividades envolventes e que proporcionavam uma real ampliação do conhecimento [...]. (Professora 12). Freire propõe uma pedagogia dialógica, propulsora da açãoreflexão, práxis determinante da conscientização, capaz de possibilitar maior representatividade social do aluno enquanto cidadão ativo, que se descobre integrante da sociedade onde está inserido, renunciando ao papel de mero espectador, e sim agente transformador de realidades (FREIRE, 1996). No pensamento de Paulo Freire, o professor deixa de ser visto como um transmissor de conhecimentos e é concebido como o sujeito portador de um saber teórico e prático que lhe permite enfrentar situações nem sempre previsíveis e construir respostas para situações complexas e singulares, ou seja, um profissional com atitude investigativa e reflexiva da prática pedagógica. 74 O educador deve dominar os saberes necessários para a sua prática educativa, independentemente da sua opção política. Neste sentido, a formação docente implica, necessariamente, em reflexão crítica da prática pedagógica e construção de diálogo e respeito pelo saber do educando. Cabe ao educador perceber-se como um ser pensante, agente transformador das práticas sociais de seu meio, criador e realizador de seus próprios sonhos (FREIRE, 1996). A reflexão constante entre teoria e prática num movimento dialético envolve o fazer e o pensar sobre este fazer. A formação permanente dos professores é o momento fundamental de reflexão crítica sobre a prática. “É pensando criticamente a prática de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática.” (FREIRE, 1996, p. 18). A reflexão surge a partir da curiosidade sobre a prática docente. Essa curiosidade inicialmente é ingênua, transforma-se em crítica, na medida em que vai fazendo o movimento de reflexão sobre a ação. O importante é que o refletir sobre a ação, neste caso, seja um instrumento dinamizador entre teoria e prática, pois não basta apenas pensar e refletir é preciso que essa reflexão leve o profissional a uma ação transformadora (FREIRE, 1996). Os elementos apresentados pelas professoras indicam que o trabalho de formação continuada dos professores perpassou pelo viés de uma Pedagogia Libertadora, ou seja, é possível perceber que estes aspectos denotam a concepção de educação assumida pelo grupo e que estes correspondem à concepção freireana de educação. Uma possibilidade concreta dos professores acessarem o conhecimento historicamente construído e avançarem para além da sua formação específica é necessariamente a formação continuada, ou seja, os debates, as leituras e as reflexões vão tornar o professor mais seguro da sua função e, consequentemente, melhorar seu desempenho como sujeito que ensina e que aprende. c) Trabalho coletivo e diálogo A visão de trabalho coletivo é apontada pelos professores quando discorrem sobre o forte envolvimento do grupo nas ações que eram proposta. 75 A modalidade EJA exigia muito da gente, os alunos estavam sedentos de conhecimento, ao contrário de hoje e uma das coisas que marcou muito foi o envolvimento que tínhamos quando íamos mostrar os trabalhos dos alunos na grande mostra da EJA que acontecia na EFAPI todos os anos. (Professora 02). [...] participação também dos educadores que trabalhavam com estes alunos. Envolvimento das direções das escolas com os responsáveis pela secretaria da educação para melhorarmos a educação dos jovens e pensar um modelo diferente para atrair os alunos até a escola. (Professora 07). O conceito de coletivo permeia os princípios freireanos quando o autor nos afirma que: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” (FREIRE, 1983, p. 68). A partir do momento que aceito o conhecimento do outro como um enriquecer do meu próprio conhecimento, estabeleço uma relação de diálogo. O fato de me perceber no mundo e com os outros me põe numa posição que não é de quem nada tem a ver com ele, portanto, minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. O educador que tem consciência de seu inacabamento sabe da possibilidade de aprender e ensinar mais (FREIRE, 1983). Somente nos constituímos como seres humanos no coletivo, e, para tanto, é preciso conviver com o diferente e aprender que existem pensamentos diferentes dos nossos, mas que podem agrupar-se em forma de teia de vivências enriquecedoras para todo o grupo (FREIRE, 1983). Freire e Shor (1986) afirmam que a educação libertadora se constitui num estímulo para as pessoas se mobilizarem, se organizarem e se “empoderarem”, os envolvidos se ajudam num esforço comum de conhecer e reconhecer o espaço de atuação. O conhecimento é uma construção social, que está necessariamente interligada ao coletivo. No trabalho coletivo instigamos o senso da contradição e da oposição ao outro ser humano, mas também reafirmamos nossos princípios e concepções. 76 O processo de planejamento coletivo e troca de experiência que contribuiu e muito para o meu crescimento profissional. (Professora 15). O processo interdisciplinar exigia a participação, envolvimento e diálogo entre os educadores e isso exigia rever os conceitos e de fato avaliar o que seria significativo para socializar. (Professora 17). O planejamento de forma coletiva e indisciplinar exigia do grupo envolvido um diálogo constante que, segundo Freire (1992), é um componente essencial na educação comprometida com a construção de personalidades democráticas. A educação realizada mediante o exercício do diálogo, fundada na prática permanente do diálogo, seria a educação mais favorável à formação e ao desenvolvimento de “atitudes de aceitação do outro e de tolerância diante dos eventuais desacordos”. Freire assim compreende o diálogo necessário à prática educativa: Diálogo é uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade. Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. E quando os dois pólos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé um no outro, se fazem críticos na busca de algo. Instala-se, então, uma relação de simpatia entre ambos. (FREIRE, 1992, p. 115). A experiência dialógica estimula o homem a investigar criticamente o mundo, na intenção de transformá-lo. A dialogicidade exige que o homem se mantenha em uma relação de respeito perante a liberdade do outro, portanto, requer uma relação construída não pela força da opressão e submissão, mas pela capacidade de dialogar (FREIRE, 1996). A dialogicidade freireana tem por objeto o respeito ao princípio do ato educativo humano, em que os homens se educam no coletivo. Neste caso, para o educador Paulo Freire, não existe aquele que só ensina e aquele que só aprende. Todos são sujeitos das ideias e comportamentos que vai compor o todo do trabalho que será produzido (FREIRE, 1996). 77 d) Educando como sujeito do processo A escola tem o dever não só de respeitar os saberes dos alunos, mas de tornar o conhecimento do educando ponto de partida no ato de ensinar e de aprender. Por que não discutir com os alunos a realidade onde estão inseridos, e estabelecer uma relação próxima entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? (FREIRE, 1997). Não é possível conceber a educação sem identificar o educando como sujeito do ato educativo. Identificar não só um sujeito que conhece, mas que vive, que age e que constrói história determinando os rumos da sociedade. À medida que os homens exercem sua ação eficaz sobre o mundo, na intenção de transformar pelo seu trabalho, refletindo sobre seu fazer, vão tomando consciência de si e do mundo e se constituindo como sujeito de seu próprio ser (FREIRE, 1992). As entrevistas apontam a intenção concreta do processo de formação continuada desenvolvida no período de 1997 a 2004, para organizar na escola um espaço de ensino-aprendizagem tendo o aluno como sujeito destas ações. [...] a gente construia, [...] uma outra perspetiva... eles se consideravam sujeitos, os alunos eles tinham um processo que era interessante de encontro e de diálogo. (Entrevistada A). [...] os nosso alunos eram muito críticos, os alunos da EJA eram muito críticos... a gente percebia assim que não era um estudar para tirar nota [...] era um estudar pra saber mesmo pra aprender. (Entrevistada B). Freire destaca ainda o caráter humanizador do ato educativo quando afirma que o nosso trabalho, independente de faixa etária, cor ou raça, deve respeitar o ser humano na sua totalidade, o vínculo entre professor e aluno é fundamental, e só acontece se houver uma interação entre eles. A importância de considerar o conhecimento dos educandos é um dos aspectos que permanece na prática dos educadores a partir do trabalho de formação realizado no período do Movimento de 78 Reorientação Curricular. Esta característica da formação pode ser observada no depoimento de 11 professoras. Seguem alguns exemplos: Ouvir os alunos, sentir suas necessidades, ver educação como um espaço de libertação, gostar de gente, assim como Paulo freire. Partir da realidade e fazer análise crítica do conhecimento. (Professora 07). Levar em conta a realidade do aluno. Conhecer sua história, entender a sua vivência e junto com ele tentar transformar a realidade em que vive (que não é fácil). (Professora 13). Para Arroyo (2008), há aspectos profundos na percepção e valorização dos saberes e cultura popular, pois significa reconhecer a pluralidade de tempos e espaços, isto é, reconhecer a cultura como matriz da educação. A EJA constitui-se em um espaço onde pode se perceber ricas experiências de compreensão e transformação dos saberes dos alunos em conteúdos curriculares. Esse modo de agir, segundo Freire, possibilita mudanças expressivas. No entanto, não é suficiente que professores e alunos sejam críticos apenas em relação às situações que os cercam, é necessário que os conteúdos apresentados na escola estejam contextualizados à realidade vivenciada pelos alunos e por outras comunidades. O grande desafio de uma educação libertadora é a renovação constante da prática, de acordo com as necessidades da população, é demonstrar um pouco dos significados dessa ação educativa ao longo dos anos. A Educação, para Paulo Freire, consiste em um conjunto de valores pedagógicos, um compromisso com a população que ao longo da história da educação foi sendo discriminada e excluída da escola. e) Formação continuada e a concepção freireana A formação dos educadores passa, necessariamente, pelas atividades do cotidiano, e esta intimamente ligada a nossos costumes, hábitos, conceitos e preconceitos. As representações que temos são construídas e reconstruídas por meio da história pelas experiências que nos tocam. 79 Na concepção freireana de educação, a formação continuada de professores se coloca como inerente à prática pedagógica, ou seja, o professor necessita constituir-se permanentemente pelas próprias demandas de um currículo que é construído a partir das contradições vividas pelos educandos e educadores em seu cotidiano. Essa mudança desencadeou algumas modificações significativas na forma de trabalhar com o público de EJA, na firme intenção de superar a concepção desta modalidade como suplência, ou como reforço (CHAPECÓ, 1998). Para Freire (1996), formar vai além do movimento de puramente treinar o educando no desempenho. É preciso se colocar como sujeito em constante transformação num movimento permanente de procura, de curiosidade. A formação continuada, a partir dos princípios de Paulo Freire, constituiu-se como um elemento de viabilidade da transformação idealizada. A intenção é que os professores se construam em sujeitos autônomos, instrumentalizados e capazes de dar conta da ruptura do senso comum para o conhecimento científico, num processo dialético da construção do conhecimento entre professores e alunos. (CHAPECÓ, 1998, p. 18). De acordo com depoimentos dos professores, o trabalho construído junto aos docentes de EJA constitui-se como uma relevante experiência, na qual pode se perceber os princípios da concepção freireana perpassando suas falas. Para as professoras entrevistadas, a definição pela concepção freireana de educação se dá a partir de visitas a outros municípios, como Porto Alegre (RS), mas, principalmente, por entender que os princípios de Paulo Freire apresentam as características necessárias para responder as problemáticas enfrentadas no cotidiano da escola. A opção por freire veio primeiramente por uma visita a uma experiência lá da EJA de Porto Alegre e a EJA de POA trabalhava a partir de Freire, mas a concepção freireana veio mesmo a partir dos próprios princípios organizados nos PPC’S das escolas que se pautavam em alguns princípios como democracia, trabalho coletivo, cidadania e autonomia além de toda uma inclusão 80 social de uma parcela da população [...] então a concepção freireana ela só veio responder a uma demanda teórica que nós tínhamos e ela veio responder com a prática [...]. (Entrevistada B). [...] era o grupo de professores que ia sugerindo por onde a gente vai andar, eu lembro que a gente estudou alguns referenciais [...] o ponto de mutação, Kapra que tem a totalidade do conhecimento, então a gente foi estudando, buscando assessoria porque na verdade também todos os componentes da secretaria nunca passaram por um processo de formação [...] foi um processo de diálogo, de leituras, de visitas de formação e assessoria de outras administrações então essa definição foi exercitando esse diálogo. (Entrevistada D). O grupo de professores compreende que, a partir da teoria que norteia o Projeto Político Pedagógico da rede, a concepção Freireana é a que apresentava os pilares de sustentação para o desenvolvimento de uma proposta capaz de promover transformações significativas no processo de ensino-aprendizagem de sujeitos adultos. Torres (1998) apresenta uma visão dual da formação docente, que continua sendo um emaranhado de novas e velhas tensões, como: salários, formação, conhecimento do professor, aprendizagem do aluno, formação inicial, formação continuada em serviço, saber geral, saber pedagógico, entre outras. O autor destaca que ainda está presente nos discursos a ideia de que a formação continuada é necessária, mas contraditoriamente se evidencia um distanciamento pelos professores dos centros oficiais de formação, como universidades (TORRES, 1998). Tinha uma proposta definida e era essa que estudávamos, o estudo era constante, toda semana, fomos visitar experiência em Porto Alegre de educação de jovens e adultos. O que mais marcou, foi que durante este período que trabalhei na EJA, aprendi mais com a formação mais do que com meu tempo de faculdade. (Professora 09). 81 É possível perceber na afirmação da professora que a formação continuada forneceu subsídios essenciais não só para a atuação docente, mas para a formação do ser humano enquanto cidadão que ensina e que também aprende. Freire (1996) afirma que não é possível ensinar sem aprender, já que o ato de ensinar exige a existência de quem ensina e de quem aprende. Os conceitos aqui apontados indicam que na formação continuada não basta refletir sobre a prática pedagógica docente, é preciso refletir criticamente de modo contínuo e permanente. Este é um movimento que precisa necessariamente estar apoiado em uma teoria consistente, para que os professores em formação possam visualizar possibilidades de mudança. Outro fator importante é que o espaço de formação precisa ser a escola e o conteúdo dessa formação, essencialmente, precisa ser a análise crítica da prática educativa. A seguir são apresentados desafios e dificuldades que foram enfrentados durante o processo de formação continuada da EJA. 3.5 Desafios/dificuldades na formação continuada dos professores de EJA A qualidade da educação ofertada aos jovens e adultos que voltam aos estudos, através da modalidade de EJA, tem sido debatida por teóricos, tais como Soares, Di Pierro e Masagão. Fundamentalmente, questiona-se a adequação das metodologias, dos currículos e dos materiais didáticos para as especificidades deste público. Soares (2006) aponta, ainda, outro problema dessa modalidade de ensino, que é a formação continuada dos professores, pois a maioria dos profissionais que trabalham com alunos de EJA raramente recebe formação específica para esta função. A formação do educador tem estado presente nas reuniões de professores, seminários, fóruns e encontros de educação de jovens e adultos. [...] a formação vem sendo colocada como uma das estratégias para se avançar na qualidade da educação [...] a temática sobre a formação do educador no campo da EJA têm ocupado cada vez mais lugar de destaque. (SOARES, 2006, p. 10). 82 Para Soares (2006, p. 18), a formação do educador de jovens e adultos sempre foi um pouco pelas bordas, e isso é reflexo também da falta de políticas definidas para a própria educação de jovens e adultos. O ofício da docência é uma atividade que exige qualificação e formação permanente. No caso do Movimento de Reorientação Curricular ocorrido em Chapecó, os dados da pesquisa apontam para algumas dificuldades encontradas no decorrer do desenvolvimento de formação dos professores da EJA. Entre elas estão: a resistência inicial dos professores em envolver-se em um processo diferenciado, e com isso a resistência em repensar e discutir as práticas escolares; e a forma impositiva como essa concepção de educação foi implementada nos espaços escolares. Silva (2004) diz que a reflexão sobre as dificuldades enfrentadas nos movimentos pedagógicos contribui para repensar os limites e as possibilidades nas práticas elaboradas. Discutir e apreender coletivamente são procedimentos necessários em movimentos de reorientação curricular que buscam a construção permanente de alternativas para a educação. Após análise dos dados coletados e, principalmente, sobre o material produzido pelo coletivo de educadores que participou da experiência de formação continuada dos professores de EJA do município de Chapecó, pode-se concluir que este trabalho constitui-se num momento de aprendizado e de mudanças significativas nas ações pedagógicas da rede municipal de ensino. Dos 17 docentes que responderam ao questionário, nove deles apontaram a resistência inicial dos professores como um problema daquele coletivo. Nas quatro entrevistas realizadas, três professores também indicaram a resistência como um dos maiores entraves: Houve resistência sim, por medo do novo, por falta de consciência, por não acreditar e pela concepção de política de cada um. [...] Outros continuaram resistindo e fazendo por fazer o seu trabalho [...]. (Professora 17). [...] no início houve principalmente a resistência em fazer o trabalho diferente. Nós professores somos resistentes em aceitar mudanças, é difícil mudar a forma de trabalho. A comodidade e o medo são sentimentos arraigados no magistério de forma geral. (Professora 14). 83 Implantar o próprio processo foi desafiador. Era mexer com uma realidade arraigada, viciada, acomodada e "exigir" que lêssemos, discutíssemos, produzíssemos, planejássemos juntos. E "o sair do território" onde nos achávamos experts, sabe-tudo, dominadores, foi doloroso, aliás, muitos não saíram, outros faziam de conta, mas a maioria bancou esse projeto depois que compreendeu. (Professora 11). Os profissionais temem a perda da autonomia, pois a mudança implica, necessariamente, em mudar a cultura. Os professores ainda resistem em expor o que de fato fazem em suas salas de aula. O docente possui uma bagagem de conhecimento e certezas sobre a prática docente da sua própria história de vida e tem resistência em mudar esses conceitos cristalizados. Para Tardif (2002, p. 57), o professor precisa, primeiramente, ter consciência de que sua prática está ultrapassada, que precisa ser revisitada, e para isso a busca constante do conhecimento e do aperfeiçoamento de sua capacidade e atitudes. Tardif (2002, p. 57) afirma ainda que o professor não deve parar seus estudos, “[...] pois os conhecimentos profissionais são evolutivos, progressivos e necessitam de uma formação contínua.” Temos o compromisso, como professores, de melhorar o nosso desempenho, afim de proporcionar uma melhor qualidade de ensino aos nossos alunos. Quatro dos professores pesquisados apontaram a questão da imposição da equipe diretiva como uma limitação ao bom desenvolvimento do trabalho, ou seja, todos os professores precisaram fazer a adesão à metodologia de trabalho da Educação Popular. Na visão destes professores, algumas questões eram forçadas: Algumas coisas não eram bem aceitas pelo grupo, mas eram questões burocráticas e outras eram meio que impostas por diferenças de concepções de educação e sociedade, alguns não aceitavam ex.: avaliação descritiva, que hoje também avalio que poderia ter sido diferente [...]. (Professora 13). 84 Foi um processo que posso definir como contraditório: maravilhoso e dolorido. Dolorido, pois fomos forjadas como ferro com fogo e marteladas, explico, tanto na minha formação como na das colegas, na formação universitária não foi estudado Paulo Freire [...] Maravilhoso por revelar outra realidade e por me construído como sujeito e possibilidade de organização e transformação. (Professora 10). O movimento dialético implementado na experiência de formação dos professores apresentou avanços gradativos e superação das metodologias e concepções tradicionais de ensino. No entanto, os desafios que se apresentam são frutos de um processo em construção com suas dificuldades e contradições. Para que ações de formação continuada no campo da educação apresentem resultados, é necessário que o coletivo de professores compreenda o movimento de reestruturação e atue como agentes responsáveis em promover a mudança. As políticas educacionais recentes têm considerado os professores como atores principais para a construção de uma sociedade do conhecimento em um contexto de mudança. No papel de condutores dos processos educacionais, o professor precisa compreender o seu compromisso com o conhecimento e, principalmente, a necessidade de formação constante. Outro desafio que é apontado ao longo dos depoimentos das professoras foi a dificuldade de trabalhar com uma concepção totalmente diferente daquilo que elas vinham fazendo durante toda a caminhada como profissionais da educação. A concepção tradicional de educação estava impregnada na prática docente que precisava ser transformada. Assim, [...] lembro que a maior dificuldade era a mudança “de tudo o que eu tenho pronto” agora tudo precisa ser construído com o aluno [...] isso foi muito difícil. (Professora 08). As falas apontam para a dificuldade que é mudar as práticas de ensino na escola. Libâneo (2001) aponta que a educação tecnicista, tradicional e que perdura há décadas na educação, encontra-se 85 impregnada no fazer dos professores. Nas escolas predomina certo professor que se ocupa em transmitir a matéria do livro didático com aulas sempre iguais, independente das características ou da idade dos alunos. É verdade que há professores tradicionais que sabem ensinar os alunos a aprender dessa forma, a maioria deles não se dá conta de que a aprendizagem duradoura é aquela pela qual os alunos aprendem a lidar de forma independente com os conhecimentos. (LIBÂNEO, 2001, p. 01). Para Marques (2000), atualmente as práticas pedagógicas de uma parcela considerável de professores baseiam-se em modelos e fórmulas prontas que podem ser reproduzidas para contextos diferentes. Para mudar, é preciso saber o porquê e para que se deseja mudar. Há, ainda, o predomínio de práticas com origem em concepções tradicionais, e que reafirmam a ideia de ensinar da forma como fomos ensinados. As transformações nas práticas pedagógicas estão intimamente ligadas aos desafios colocados pelo movimento de aprendizagem dos alunos. A consciência dos professores no sentido de trabalhar uma aprendizagem significativa, ou seja, de acordo com as necessidades de aprendizagem de seus alunos, indica o compromisso deste professor com seu trabalho na busca por um ensino de qualidade (MARQUES, 2000). Se no cotidiano de nossas escolas, no trabalho com a EJA, muitos erros nos esperam, muitos sustos nos aguardam nas ‘esquinas’ e nos labirintos da exclusão, muitas surpresas agradáveis também acontecerão. As trilhas estão sendo seguidas, não estão prontas. Se estivessem, trilhas não seriam: seriam avenidas estradas rodovias. Seriam rótulas seguras. Seriam certezas e verdades. Ao contrário dos mapas definitivos e dos caminhos já consolidados há que aventurar-se. Arriscar-se por novas trilhas. (BARCELOS, 2006, p. 184). O cotidiano da escola apresenta problemas distintos tanto na forma de trabalhar quanto na forma de viabilizar a construção de um 86 conhecimento que seja significativo. Neste sentido, a mudança na prática torna-se relevante, pois são as transformações no trabalho pedagógico que poderão contribuir para ressignificar as práticas educativas. Portanto, [...] você, eu, um sem-número de educadores sabemos todos que a educação não é a chave das transformações do mundo, mas sabemos também que as mudanças do mundo são um quefazer educativo em si mesmas. Sabemos que a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa. Sua força reside exatamente na sua fraqueza. Cabe a nós pôr sua força a serviço de nossos sonhos. (FREIRE, 2006, p. 126). Na concepção de Paulo Freire, uma das tarefas do educador é desvelar as possibilidades sem importar-se com os obstáculos. A sociedade é por si contraditória e requer repensar a formação de homens capazes de transformar a sociedade, em que o fazer torna-se ação e reflexão, práxis pedagógica, caracterizada pela ação transformadora do mundo. 87 CONSIDERAÇÕES É verdade que o desenvolvimento da sociedade não depende exclusivamente da educação, mas de um conjunto de políticas públicas que se organizam, se articulam e se implementam ao longo de um processo que é histórico. Ao longo da história, movimentos, programas e projetos produziram importantes lições que precisam ser consideradas e apreendidas, para que, de fato, aconteça avanços em relação aos desafios colocados no campo da educação. Os resultados desta pesquisa indicam que o município de Chapecó apostou e investiu na educação como uma possibilidade de mudança. A proposta construída, a partir da concepção freireana, mostra a firme intenção de desenvolver um movimento de ensinar e aprender diferente das práticas de uma educação tradicional. Na análise dos dados coletados via questionário e entrevistas, cinco categorias se constituíram como norteadoras desta experiência: Mudança nas práticas pedagógicas; Reflexão sobre a prática; Trabalho coletivo e diálogo; Educando como sujeito do processo; Formação continuada e a concepção freireana. As categorias apresentadas são elementos que permeiam o pensamento de uma educação na perspectiva libertadora e humanística. O coletivo de professores demonstrou a compressão do espaço da escola e das práticas pedagógicas em que o educando se assume como sujeito do ato de conhecer e que ele pode sim construir o respeito a dignidade e a cidadania. A prática pedagógica, com referência nos princípios freireanos, adquire uma dimensão ética, movida pelo desejo, pela esperança que implica na aceitação do novo, na rejeição da discriminação e na reflexão crítica sobre a prática, sem desprezar o rigor da pesquisa, da criticidade e do comprometimento (FREIRE, 1990). Paulo Freire alerta para alguns princípios que são fundamentais na sua concepção, um deles é o diálogo, que, segundo o educador, é o conceito essencial capaz de desafiar o educando a avançar em níveis mais complexos do conhecimento. Nessa pesquisa foi possível perceber que a dimensão do diálogo é presença constante nas ações de formação continuada dos professores. Considero que a postura dialógica e reflexiva assumida pelos professores envolvidos na formação, transmite um aspecto de 88 dinamicidade ao processo de ensino aprendizagem. O diálogo, se usado como fonte de reflexão e criatividade, torna desafiador na busca do conhecimento. Assim como Freire (1987, p. 33), creio que “[...] só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros.” Assim como o diálogo, a valorização do saber trazido pelos educandos é ponto de partida para a organização das práticas de aprendizagem de EJA. Neste sentido, educando e educador constroem um movimento dialético que permite a construção da consciência e, principalmente, o compromisso com uma educação propositiva. Freire (1992) aponta para a necessidade de compreender a realidade do educando a partir da problematização. O educando tem o papel de, no diálogo, desafiar seus alunos para que percebam a necessidade de adquirir novos conhecimentos, a fim de superar a visão ingênua sobre a sua realidade numa atitude de constante investigação. O educador Paulo Freire se propunha a utilizar a educação para melhorar o mundo, aliar educação a um projeto histórico de emancipação social. Nesse sentido, a educação aparece como ato de conhecer e não como uma simples transmissão do conhecimento. “O processo de aprender, o processo de ensinar são, antes de tudo, processos de produção de saber, de produção de conhecimento, e não de transferência de conhecimento.” (FREIRE, 2004, p. 135). Considero que a teoria de Paulo Freire continua atual e necessária. Freire é um dos grandes educadores brasileiros que escreve a partir da nossa realidade, seus ensinamentos são elaborados com o olhar no sujeito pobre e menos favorecido, ou seja, escreve justamente pensando em uma parcela da população que foi, e ainda é excluída ao longo da história da educação brasileira. Neste mesmo contexto, desafios são apontados, como a dificuldade dos professores de, num período curto, transformar suas práticas e metodologias de trabalho. A concepção freireana não era algo do cotidiano das escolas, e tão pouco estava presente nas discussões de boa parte dos professores. Mudar a forma de trabalho depois de anos de formação e práticas tradicionais parece não ter sido uma tarefa nada fácil. 89 O processo continuado exige mais disciplina, estudo, engajamento e responsabilidade. Receber meio que pronto é mais fácil, acomoda, mas não constrói nada novo [...]. (Professora 07). [...] a formação continuada me desafiou a estudar mais profundamente, produzir os textos para trabalhar com os alunos deixando um pouco de lado os livros didáticos. (Professora 08). Nestas mesmas circunstâncias, a resistência dos professores era um desafio enfrentado nas ações de implementação desta proposta, assim como em outras profissões a mudança nem sempre é bem-vinda nas práticas profissionais e foi apontada pela maioria dos professores como o maior problema enfrentado no desenvolvimento da experiência de formação continuada. Deste modo, [...] tinha os que tinham dificuldade e que estavam dispostos a mudar e os que tinham dificuldades e se negavam a tentar por resistência, então eu penso que esta questão em um outro momento teria que se trabalhar com mais profundidade, com mais rigor no sentido de ver onde estavam as dificuldades dos [...]. (Entrevistada B). Para Freire (1990), o homem precisa fazer a sua opção, não pode ser um sujeito neutro, ou adere à mudança ou fica a favor da permanência. Quando isso não ocorre, não significa que a minha ideia será imposta, pois se proceder desta forma, mesmo sendo em favor da libertação e da humanização, trabalhará de forma contraditória e manipuladora atuando para uma educação domesticadora. Nas leituras realizadas, é possível perceber a complexidade de um trabalho a partir da concepção freireana. Para sua efetivação, torna-se essencial a clareza sobre os pressupostos de uma educação emancipadora. Desta forma, compreendo a dificuldade e a resistência dos professores com relação à implementação do processo de formação em um curto espaço de tempo. 90 O desafio de estudar proporciona o movimento de problematização. Freire (2001) afirma que é necessário mudar o contexto físico e tornar a curiosidade epistemológica, ou seja, o contexto apropriado para o exercício da curiosidade é o teórico. Nessa relação entre o teórico e o prático é necessário converter momentos do contexto concreto em momentos teóricos. Posso afirmar, após as leituras, e principalmente pelos depoimentos das professoras, que a proposta pedagógica de formação continuada desenvolvida no município de Chapecó no período de 1997 a 2004 caracteriza-se como uma experiência que se alicerça sobre as bases da proposta freireana que apresenta como princípios a ação reflexiva e dialógica como possibilidade de transformação do sujeito e da sociedade. Refletir sobre a formação continuada de educadores exige um olhar amplo sobre todo o campo da educação, sua história, conquistas e desafios. A pesquisa aqui apresentada aponta os desafios e possibilidades gerados a partir de um trabalho de formação de educadores que tinha como objetivo maior proporcionar educação para um público, que foi ao longo da história da educação brasileira excluído de um direito fundamental. Frente aos desafios que nos impõe a educação na atualidade, acredito que o diálogo com a pedagogia freireana apresenta possibilidades efetivas de fundamentar nossas práticas educativas na intenção de superar concepções conservadoras e construir conhecimento para exercício da cidadania. Acredito que novas pesquisas, assim como a divulgação das já existentes, sobre experiências como esta que ora concluímos devem apontar aspectos relevantes que possibilitem a implementação de práticas de formação de professores com redes públicas, não só de nossa região, mas de outras que tenham o compromisso com uma educação libertadora. Penso que a publicação de um livro, a partir das dissertações desenvolvidas sobre as experiências realizadas nos vários campos da educação, no período de 1997 a 2004, a exemplo do que encontra em Delizoicov, Stuani e Delizoicov (2013), trará elementos fundamentais para a discussão e construção de processos de formação continuada. Percebo que a lógica problematizadora e a sensibilização e valorização dos saberes dos educandos se coloca como uma nova condição de pensar a escola e os sujeitos nela envolvidos. Estas 91 condições possibilitam a instauração daquilo que Fleck (1986) denomina de um novo estilo de pensamento, discussão que não foi apresentada, mas que merece estudo e reflexão, a exemplo do que foi discutido em Delizoicov (1995) a respeito de novo estilo de pensamento pedagógico. Concluindo, destaco que foi uma satisfação desenvolver essa pesquisa, que possibilitou leituras e contato com os professores que vivenciaram essa experiência com grande intencionalidade, com paixão e entrega e, principalmente, com uma vontade imensa de proporcionar mudanças nas práticas tradicionais cristalizadas. Os desafios e problemas encontrados no percurso se deram, na minha percepção, justamente pela grande vontade de acertar. 92 93 REFERÊNCIAS AGUIAR, Ângela A. de Almeida; SATO, Isaura Pinato; QUAGLIO Paschoal. 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Obrigada. 1 – Quais as principais atividades desenvolvidas no processo de formação continuada ocorrido no período de 1997 a 2004 com os professores da EJA do Município de Chapecó. 2 – De acordo com as respostas obtidas nos questionários, o processo de formação continuada foi baseado na concepção freireana de educação. Como se chegou a esta definição? Quem participou desta definição? 3 – O processo de formação do qual você fez parte, na época do movimento de reorientação curricular, modificou sua prática pedagógica? Se sim, em quais aspectos? Se não, explicite por quê? Exemplifique. 4 – Você considera que a proposta implementada deu conta de responder as necessidades de formação dos professores? Cite alguns exemplos. 5 – A partir da implementação da proposta, você percebeu crescimento no processo de aprendizagem dos alunos? Como foi possível ter essa percepção? Cite alguns exemplos. 6 – Se tivesse oportunidade de participar novamente de um processo de formação de professores de EJA, similar a esse, você se envolveria novamente? Por que? 7 – Na sua opinião quais foram os maiores entraves/problemas deste processo? Que aspectos você destaca como pontos positivos, que deram certo neste processo? 108 APÊNDICE B – Questionário UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ VICE-REITORIA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – PPGE Prezado (a) Professor (a), A presente pesquisa “A concepção freireana sobre a formação permanente de professores: a EJA no município de Chapecó” é uma das atividades previstas no Projeto de Dissertação do Mestrado em Educação da UNOCHAPECÓ, e tem como objetivo analisar o processo de formação continuada dos professores de Educação de Jovens e Adultos do município de Chapecó no período de 1997 a 2004, a partir dos princípios da concepção freireana. Peço sua colaboração para responder as perguntas que segue. Assumimos o compromisso de manter em absoluto sigilo os nomes dos participantes uma vez que os mesmos não serão divulgados. I. Dados de Identificação 1. Nome ..................................................................................................... 2. Idade ............................. Sexo .............................................................. 3. E-mail …................................................................................................ 4. Telefone ................................................................................................. II. Formação 1. Graduação (curso) ............................ Instituição ................................... Ano de conclusão ....................... 2. Pós-graduação Lato Sensu ........................ Instituição .......................... Ano de conclusão .................... 3. Pós-graduação Stricto Sensu ...................... Instituição ......................... Ano de conclusão .................... III. Dados profissionais 1. Categoria Funcional Atual ( ) Efetivo ( ) ACT ( ) outra ........................... 109 2. Há quanto tempo você exerce a docência? ( ) de 01 a 10 anos ( ) de 10 a 15 anos ( ) mais de 15 anos 3. A escola onde você trabalha atualmente tem envolvimento com a comunidade? ( ) grande ( ) médio ( ) pequeno 4. Você considera importante o envolvimento da escola com a comunidade? ( ) Sim ( ) Não Justifique: 5. Atualmente o seu envolvimento com ações e/ou instituições de cunho social ou sindical pode ser considerado: ( ) grande ( ) médio ( ) pequeno Justifique: 6. Descreva brevemente algumas ações e/ou instituições sociais ou sindicais nas quais você tem ou teve envolvimento IV. Movimento de Reorientação Curricular do Município de Chapecó período de 1997 a 2004 1. Categoria Funcional na época da sua Participação na Formação Continuada da EJA: ( ) Efetivo ( ) ACT ( ) outra ................................................ 2. Qual a Escola na qual você trabalhou na época do Movimento de Reorientação Curricular? 3. Qual a disciplina que você ministrava? 4. Quais os aspectos/ações que mais lhe marcaram durante o processo de Formação Continuada implementado na modalidade de EJA naquele período? 5. Qual era a carga horária dos encontros de formação? ( ) 8 horas ( ) 16 horas ( ) 20 horas ( ) Outra 110 6. Qual era a periodicidade dos encontros de formação? 7. Houve resistência por parte do grupo com relação ao trabalho de Formação Continuada implementado naquele período? ( ) Sim ( ) Não Justifique: 8. Como você percebeu o processo de formação implementado? Houve resistência de sua parte? ( ) Sim ( ) Não Justifique: 9. Na sua opinião, quais foram os maiores desafios enfrentados durante aquele processo? 10. Quais foram as principais leituras realizadas no decorrer da formação dos professores? 11. Dos elementos teórico-metodológicos trabalhados durante o processo de formação continuada, descreva o que ainda permanece em sua prática pedagógica na atualidade. 12. Gostaria de registrar outras informações sobre a formação continuada vivenciada naquele período? 111 ANEXOS 112 113 ANEXO A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ – UNOCHAPECÓ Pós-graduação Strictu Sensu em Educação TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Você está sendo convidado(a) para participar, como voluntário, em uma pesquisa. Após ser esclarecido (a) sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, assine no final deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e outra é do pesquisador. Título da pesquisa: A concepção freireana sobre a formação continuada de professores: A EJA no município de Chapecó Pesquisador responsável: Suzi Laura da Cunha Telefone para contato: 9940-3813 A Pesquisa tem como objetivo analisar o processo de formação continuada dos professores de Educação de Jovens e Adultos do município de Chapecó no período de 1997 a 2004, a partir dos princípios da concepção freireana de educação. A sua participação na pesquisa consiste em responder entrevista semiestruturada que será realizado pelo próprio pesquisador, sem qualquer prejuízo ou constrangimento para o pesquisado. Os procedimentos aplicados por esta pesquisa não oferecem risco a sua integridade moral, física, mental ou efeitos colaterais. As informações obtidas através da coleta de dados serão utilizadas para alcançar o objetivo acima proposto, e para a composição do relatório de pesquisa e a publicação de um livro, resguardando sempre sua identidade. Caso não queira mais fazer parte da pesquisa, favor entrar em contato. Este termo de consentimento livre e esclarecido é feito em duas vias, sendo que uma delas ficará em poder do pesquisador e outra com o sujeito participante da pesquisa. Você poderá retirar o seu consentimento a qualquer momento. CONSENTIMENTO DA PARTICIPAÇÃO DA PESSOA COMO SUJEITO DE PESQUISA Eu, ____________________________________________________, RG _______________________________________________________ CPF_________________________________, abaixo assinado, concordo em participar do estudo como sujeito. Fui devidamente informado e esclarecido pelo pesquisador sobre a pesquisa e, os procedimentos nela envolvidos, bem como os benefícios decorrentes da minha participação. Foi me garantido que posso retirar meu consentimento a qualquer momento. Local: _________________________________________________ Data ____/______/_______. Assinatura do sujeito de pesquisa: ________________________________________ 114 ANEXO B – Termo de Consentimento para Gravações UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ – UNOCHAPECÓ Pós-graduação Strictu Sensu em Educação Comitê de Ética em Pesquisa TERMO DE CONSENTIMENTO PARA GRAVAÇÕES Título do projeto: A concepção freireana sobre a formação continuada de professores: A EJA no município de Chapecó Pesquisadores: Suzi Laura da Cunha Telefone para contato: (49) 9940 3813 Orientador: Dra. Nadir Castilho Delizoicov Telefone para contato: Eu, ___________________________________________________ permito que o pesquisador relacionado acima obtenha gravação de minha pessoa para fins de pesquisa científica/ educacional. Concordo que o material e as informações obtidas relacionadas a minha pessoa possam ser publicados em aulas, congressos, eventos científicos, palestras ou periódicos científicos. Porém, minha pessoa não deve ser identificada, tanto quanto possível, por nome ou qualquer outra forma. As gravações ficarão sob a propriedade do grupo de pesquisadores pertinentes ao estudo e sob sua guarda. Assinatura __________________________________________________________