Boletim do FMI EXAME DE SAÚDE ECONÓMICA República Democrática do Congo: Bons resultados no crescimento, poucos avanços na redução da pobreza Boletim do FMI 13 de outubro de 2015 Garimpo de ouro em Ituri, uma região rica em recursos naturais da República Democrática do Congo. O país estuda a adoção de um novo código de minas para aumentar as receitas (foto: Finbarr O’Reilly/Reuters/Corbis) O crescimento permanece vigoroso, mas a pobreza é generalizada Um código de minas generoso e a governação frágil limitam as receitas públicas do sector A descida dos preços dos produtos de base e as eleições gerais aumentam as pressões sobre um orçamento limitado A República Democrática do Congo (RDC) exemplifica as dificuldades sentidas por muitos países em vias de desenvolvimento para transformar a riqueza mineral em crescimento inclusivo. A mais recente avaliação anual da economia pelo FMI indica que, embora as taxas de crescimento em 2014 tenham ascendido a 9,2%, os índices de pobreza na RDC ainda estão entre os mais altos do mundo. A mais recente avaliação anual da economia pelo FMI indica que, embora as taxas de crescimento em 2014 tenham ascendido a 9,2%, os índices de pobreza na RDC ainda estão entre os mais altos do mundo. E, conquanto o relatório assinale algumas melhorias no plano social, como o melhor acesso à educação, é pouco provável que o país alcance qualquer um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio. Numa entrevista ao Boletim do FMI, Norbert Toé, chefe de missão do FMI para a República Democrática do Congo, discorre sobre como as autoridades estão a trabalhar para o aumento e a melhor distribuição das receitas públicas originárias do sector mineiro. Boletim do FMI: O que salta aos olhos ao ler este relatório é como o país conseguiu manter uma das mais elevadas taxas de crescimento do mundo e, em simultâneo, um dos piores ambientes de negócios, segundo as Nações Unidas. Como isso é possível? Toé: Uma coisa que se deve ter em mente é que o crescimento elevado ao longo dos últimos anos foi impulsionado principalmente pelo sector mineiro ou, em termos mais gerais, o sector de recursos naturais, porque além da mineração do cobre, diamantes, ouro, etc., a RDC também exporta petróleo. Então o crescimento económico é, de modo geral, movido pelo sector mineiro, que é um sector de enclave intensivo em capital. Assim, ele não emprega um grande número de pessoas no sector formal. 2 Boletim do FMI: O sector está então separado do real ambiente de negócios? Toé: Sim, definitivamente. O governo adotou um código para o sector, o Código Mineiro de 2002, que muitos consideram por demais generoso com o sector em termos de medidas tributárias e segurança do regime tributário. Quando os investidores estrangeiros trazem capital, o ambiente é estabilizado em benefício deles. Isso atraiu um volume substancial de investimentos diretos estrangeiros para o país. Boletim do FMI: Parece que grande parte da riqueza e dos lucros que estão a ser produzidos no sector dos produtos de base não se traduziu ao longo dos anos em benefícios para a população em geral. As taxas de pobreza ainda são extremamente elevadas. E, mesmo com alguns avanços em termos de acesso à educação, por exemplo, o relatório indica que nos últimos 10 anos a pobreza quase dobrou. Por que as pessoas não conseguem sair da pobreza por seus próprios meios? Toé: Como eu disse antes, o sector das minas, em particular, e o sector dos recursos naturais, de modo geral, atuam como um enclave. O capital entra, eles exploram e exportam os recursos naturais, repatriam os lucros. O que resta ao país, basicamente, são os impostos que o governo recolhe. Mas, repito, o Código Mineiro de 2002 é excessivamente generoso, então o que o Estado recebe não é muito. 3 E, para piorar a situação, temos a questão da transparência na gestão dos recursos naturais. Como foi assinalado, parte da receita pública do sector das minas foi destinada à educação, e parte ao sector da saúde. Então houve progressos, mas não o suficiente. E, como foi dito, as taxas de pobreza ainda são elevadas. Boletim do FMI: O relatório mostra que a queda dos preços dos produtos de base em todo o mundo é um risco para a taxa de crescimento do país, mas indica também que as próximas eleições gerais no país agravarão as pressões sobre um orçamento que é muito limitado. A eleição geral é de facto um passivo financeiro? Toé: Sim, é isso mesmo: o orçamento é limitado. A RDC, um país de grandes dimensões, tem um orçamento anual de cerca de USD 5 mil milhões. O custo das eleições, segundo a Comissão Eleitoral Independente, é de USD 1,1 mil milhões, ou seja, cerca de um quinto do orçamento de USD 5 mil milhões. Então é fácil imaginar a pressão que isso representa sobre os recursos limitados do governo. Boletim do FMI: Voltando à queda dos preços dos produtos de base — sobretudo o cobre, que é muito importante na RDC — qual a gravidade do impacto sobre o país? Porque sabemos que a maioria dos congoleses dirá que, enfim, nunca beneficiaram dos preços elevados desses produtos. O que se pode fazer para transformar os abundantes recursos naturais da RDC em algo que beneficie a maioria dos congoleses? Toé: Duas coisas me ocorrem. O novo código das minas, porque, como já disse, o Código Mineiro de 2002 era por demais generoso, e por isso o governo está a estudar um novo código. E nós do FMI temos prestado aconselhamento ao governo para garantir que o novo código de minas esteja alinhado com as melhores práticas internacionais e abrace a transparência, porque a governação e a transparência na gestão dos recursos naturais figuram entre os principais problemas que as autoridades congolesas estão a enfrentar. Estimamos que, mesmo sem contar a generosidade do Código Mineiro de 2002, o governo poderia ter acumulado mais recursos se tivesse fortalecido a governação do sector e se a gestão dos recursos naturais fosse mais transparente; esse é o segundo elemento. Então a queda dos preços dos produtos de base naturalmente vai reduzir parte da receita pública. Contudo, se o governo garantir que o novo código das minas seja transparente e alinhado com as melhores práticas internacionais, ele poderia obter mais recursos e transformar esta vasta riqueza em desenvolvimento, em benefício de toda a população. 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