MESA REDONDA: DA FRASE AO DISCURSO
O DISCURSO
Ida Lucia Machado
FALE/UFMG
Seríamos por demais inocentes ou utópico-idealistas se afirmássemos que a noção de
“discurso” pertence ao pensamento moderno-contemporâneo e que o discurso enquanto
objeto de estudo é do domínio exclusivo da Análise do Discurso. Não: o objeto “discurso”
não pertence só aos Estudos Lingüísticos, mas, aos Estudos Literários, à História, à
Psicanálise, enfim, a todas as ciências humanas. Também não seríamos ingênuos a ponto de
dizer que o estudo do discurso é algo contemporâneo. Não: o discurso já é objeto de estudo
desde os Clássicos da Antigüidade Grega. Assim, Aristóteles, na Retórica, fala, é claro, do
discurso: para ele e para os seguidores da sua tradição, o discurso é o logos e este está
ancorado em duas operações, quais sejam: o entimema e o exemplo.
O entimema seria um silogismo incompleto, vindo da dedução. Então, o clássico “Todos os
homens são mortais, X é um homem, logo X é mortal” poderia, sem problemas, ser
enunciado através de uma só das partes que o constituem. Eis um caso, onde essa aplicação
se justificaria: para alguém que acredita ser mais importante que os outros, de seu círculo,
para alguém “cheio de si”, poder-se-ia dizer, um tanto quanto ironicamente: “Realmente,
você hoje ocupa uma posição de comando, mas lembre-se: todos os homens são mortais”.
Já o exemplo, para Aristóteles, se ancora em uma analogia e vem da indução, que opera a
passagem do particular para o geral. Podemos aí citar, à guisa de ilustração, a parábola do
filho pródigo, entre tantas outras, como o lembra Amossy (2000:4).
No entanto, é preciso dizer que o logos, visto tanto como discurso, tanto como razão, é na
opinião de Aristóteles, apenas um dos pólos da intrincada rede de persuasão retórica.
Maingueneau (2000:68), lembra o sentido que o termo em questão assume na filosofia
clássica, onde ao conhecimento dito “intuitivo” opõe-se o conhecimento “discursivo”.
No âmbito dos Estudos Lingüísticos, na França, logo após o Estruturalismo, por voltas dos
anos 60, do século XX, a noção que contrapõe os conhecimentos filosóficos acima citados,
por assim dizer, é “re-apresentada” pelo lingüista Guillaume, obtendo, então, uma
significativa receptividade. Outras correntes cooperam para a continuidade do estudo do
“objeto discurso”: tal é o caso das teorias pragmáticas, que “despertam” nos teóricos da
linguagem a seguinte idéia: “discurso é a palavra em ação”
Mas, são dois outros teóricos, sem dúvida, que contribuem de modo decisivo para lançar e
legitimar a noção de discurso, dando a ela a credibilidade que necessitava; teóricos que
continuam a ser para nós, analistas do discurso, duas “luzes brilhantes” em nosso universo
de estudos: Benveniste e Bakhtin.
No sentido de Benveniste, o discurso designa a instância de enunciação (o “eu-aqui-agora”
do sujeito-falante). Em um sentido restrito, mais especializado, discurso designa todo
enunciado examinado em sua dimensão interativa. Benveniste lança a teoria da
subjetividade na linguagem, na década de 60, através de seus cursos, ministrados na
E.H.E.S.S. de Paris; o teórico vai então conhecer um sucesso fulgurante, que o faz sair da
pequena sala onde dava aulas indo ministrá-las no anfiteatro da École, tamanha foi a
repercussão do “evento” ou da descoberta ou “re-descoberta” do sujeito, ou seja, de um
“eu” que sempre, sempre, como mostra Benveniste, inclui em seus enunciados um “tu”.
Curiosamente, na Rússia, então União Soviética, um pouco antes de Benveniste, Mikhaïl
Bakhtin fala do discurso de maneira brilhante. Ele diz:
“O discurso re-encontra o discurso do outro em todos os caminhos que
levam para seu objeto, mas, não pode entrar em interação viva e intensa
com este objeto. Só o mítico Adão, abordando com o primeiro discurso um
mundo virgem e ainda não-dito, o solitário Adão, poderia evitar essa re-
orientação mútua, vinda da parte do outro, em seu próprio discurso.”
(T.Todorov, 1981, p.98) (Trad.nossa)
Bakhtin via então, no discurso, uma cooperação, uma troca; é isso que o faz existir e se
modificar, sempre, sempre... As palavras que empregamos, em nossos ditos ou escritos, não
são exclusivamente nossas: elas já foram ou serão usadas por outros, em contextos
diferentes, em enunciados diferentes.
O que é interessante, no âmbito do discurso, visto enquanto objeto científico de estudo, é
que tal objeto sempre existiu, seja de forma “camuflada” (por exemplo, sob a terminologia
“parole” de Saussure), seja de forma “aberta”, como vão fazer os “inventores” da disciplina
Análise do Discurso.
Neste ponto, embora sua análise propriamente dita não nos interesse, temos que citar Zellig
Harris (1952:8), que foi o criador do sintagma “Análise do Discurso” e que deu os
primeiros passos ou que veio a despertar a curiosidade de outros teóricos (franceses) para
este estudo, ao definir discurso como “um todo específico, que consiste em uma seqüência
de formas lingüísticas dispostas em frases sucessivas” (Trad.nossa).
Harris, de certa forma, estava, com essa definição (mesmo que não a tenha aplicado de
forma específica) aumentando a capacidade de análise no âmbito dos estudos lingüísticos,
sugerindo que se podia passar da simples frase isolada a um conjunto de frases, realizando
então uma Discourse Analysis.
Muitos outros teóricos se sucederam a Harris e passaram a usar o sintagma por ele criado, a
começar por Michel Pêcheux, nas décadas de 60, 70... Mas, outros também se interessaram
pelo discurso nessa mesma época: Greimas, Barthes, Genette, Foucault... Generalizando
bem, podemos dizer que todos eles tomaram, cada um a sua maneira, o objeto “discurso”
como ponto de partida para seus estudos, fundando assim o que hoje chamamos, tão
naturalmente, “Análise do Discurso”.
Gostaríamos, de destacar aqui alguns conceitos de discurso, vindos de Foucault, que ainda
norteiam o pensamento científico atual sobre a questão. Foucault defende uma noção de
discurso como prática oriunda de uma reunião de saberes; desse modo, o discurso pode se
articular a práticas diversas, tais como as picturais, as musicais, entre outras...
Foucault defende a concepção do discurso como um jogo estratégico e polêmico. Note-se,
aí, os movimentos, nem sempre “calmos”, que se estabelecem nas trocas comunicativas,
que constituem verdadeiros jogos estratégicos de ação e reação, de pergunta e resposta, de
dominação e de maneiras de se esquivar ou de fugir desta...A comunicação é realmente
uma “arena”, como já bem o dizia Bakhtin, onde as palavras de uns se chocam ou se
entrecruzam às palavras de outros. Ou é então, apenas a ponta de um iceberg, como dizia
Pêcheux...Seja como for, a comunicação é algo muito, muito “sutil”.
Retomando Foucault: para ele, o discurso é um espaço em que saber e poder se articulam,
pois, quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente.
E esse discurso, assim formulado, passa por verdadeiro, veicula um saber ou um pseudosaber; logo, é gerador de poder.
Nos anos 80, mais precisamente, em 1983, aparece uma teoria analítico-discursiva
denominada “Semiolingüística”, criada por Patrick Charaudeau, com a qual venho
trabalhando já há alguns anos, porque ela oferece um instrumental teórico bem prático e
aplicável a diferentes corpora. Como o teórico em questão mesmo diz, é uma “teoria
antropofágica”: Charaudeau parece ter reunido, em sua abordagem discursiva, idéias
oriundas de Foucault, Bourdieu, Bakhtin, Benveniste e também de pragmáticos ingleses e
outros... Notem bem, dissemos: “parece ter reunido”. É lógico que Charaudeau não admite
toda essa filiação como base construtora de sua teoria, em termos claros: somos nós, seus
estudiosos, que temos verificado, no Núcleo de Análise do Discurso da FALE/UFMG, um
relativo encontro entre as idéias que Charaudeau veicula, através da Semiolingüística e o
pensamento de outros estudiosos que o antecederam.
Nada mais natural, aliás, se nos lembrarmos de Bakhtin e de sua concepção de discurso
como “palavra em circulação”...
Para quem não conhece, Charaudeau defende a hipótese de que o discurso seria o fruto de
um situação psico-sócio-linguageira; ora, para ser reconhecida, essa situação necessita ter
um sujeito-falante ou “escrevente” legitimado para este papel; eu, pessoalmente, não estou
legitimada para fazer uma lei do Governo Federal que conceda a nós funcionários das IFES
um aumento de 50%; posso até fazer tal lei, a título de protesto ou de brincadeira, mas não
terei nenhuma credibilidade “legal”, pois, não estou legitimada para exercer tal ato de
linguagem, percebem? Esta hipótese charaudiana tem algo a ver, pois, com as idéias de
Foucault.
Voltando ainda a Foucault: ele diz que a legitimidade e a credibilidade estão associadas ao
poder. Ora, a produção de um discurso gerador de poder é controlada, selecionada,
organizada e redistribuída através de certos procedimentos, cuja função seria a de eliminar
toda e qualquer ameaça que surja à manutenção desse poder...
Aí, embora já seja um discurso meio dépassé, eu cito o exemplo da Rede Globo: foi ela
quem levou, praticamente, Fernando Collor ao poder. Foi o dirigente da Globo, o já
falecido jornalista Roberto Marinho quem criou e legitimou, através de um veículo de
difusão nacional de notícias – a televisão – o discurso e o ethos (fabricado) de Collor, como
todos vocês sabem. Foucault tinha então razão e o exemplo que cito é até “suave” se for
comparado ao que se passou na época de certas ditaduras da América Latina...
Mas, deixemos Foucault de lado e passemos a outras considerações sobre o “discurso”, ou,
mais especificamente, sobre a lingüística do discurso. Como bem o diz Maingueneau
(2004), desde os anos 80, o termo “discurso” passa a ser muito empregado nas ciências da
linguagem, seja no singular, seja no plural. Para este teórico isso é um sintoma claro que
evidencia uma mudança de orientação nos estudos lingüísticos: se houve uma época em que
o estudo da frase foi o denominador comum, agora, acredita Maingueneau, é a vez do
discurso. Isso funciona ao menos para aqueles teóricos (nos quais, modestamente, me
incluo) que só conseguem pensar a linguagem como algo que está em ação, no jogo
constante do vai-e-vem das trocas comunicativas da vida que a sociedade nos impõe.
Mas, como tudo o que acontece na ciência é imbricado a outras redes de idéias, essa
mudança de perspectiva – da frase ao discurso – deve-se à influência de diferentes correntes
e de diferentes visões sobre o assunto.
Em primeiro lugar, remontando então a Harris, já se pode dizer que o discurso revela uma
organização que ultrapassa a da frase. Isso não quer dizer que todo discurso tem que se
manifestar por uma série de frases, mas, sim, que o discurso mobiliza estruturas outras que
as da frase. Um provérbio tal como “Não diga: desta água não beberei” ou um cartaz
dizendo “É proibido telefonar”, “Silêncio”, são discursos, pois, formam uma unidade
completa, ainda que sejam constituídos por uma só frase ou por um desenho ou por uma
foto. Os discursos, enquanto unidades transfrásticas, são submetidos – e aí eu lembro
Charaudeau (1984, 1992, 1997), para quem a idéia de contrato é “preciosa” – os discursos
estão submetidos aos contratos que os veiculam.
Um discurso só é discurso se houver, em sua base, um contrato capaz de acioná-lo. Assim,
dito de modo rápido, o chamado discurso didático, por exemplo, é fruto de um contrato
previamente estabelecido entre um professor e seus alunos.
O contrato é, pois, um elemento que precede os discursos. Se eu escrever no quadro, para
dar um exemplo de frase com sujeito+verbo+complemento, “A casa é verde”, estarei
escrevendo uma frase, obviamente. Mas, vamos imaginar que há um contrato de
espionagem que precede esta frase: sou uma espiã e meu mot de passe (senha) para ser
reconhecida por meu colega espião é “A casa é verde”: ora, isso implica em outros
universos de saber, em toda uma história que engloba o lingüístico e o extra-lingüístico e
então, a frase “A casa é verde” vai virar um discurso.
Um outro exemplo que gosto de dar para meus alunos é o das cartas de Tarot. Por exemplo,
posso mostrar a carta 19 para meu interlocutor dizendo “A carta do Sol” ou “O Sol”.Isso é
discurso? Dito assim secamente, nem tanto. Mas, se eu estiver jogando Tarot para “prever o
futuro de alguém” e sair essa carta (que, geralmente, é muito boa no contexto em questão)
então vou anunciar ao meu interlocutor todo um discurso que é pressuposto pelo Arcano
19.
O discurso, se lembrarmos a visão de Anscombre e Ducrot (1988) sobre o assunto, é algo
que recebe uma “orientação”. Isso, porque ele é concebido em função de uma intenção do
locutor, ele visa a uma finalidade, ele não é aleatório. Então, para levar meu interlocutor a
seguir o fio de meu raciocínio, a concluir meu enunciado na direção que eu quero, eu utilizo
várias estratégias de “mapeamento”, no meu discurso. Estou contando um filme e aí digo,
por exemplo “espera, espera aí, a melhor parte ainda vem” e com isso garanto um pouco
mais da atenção de meu interlocutor. Este é apenas um exemplo entre tantos. O uso do
conector “mas”, por exemplo, também é um modo de “guiar” meu interlocutor em meu
discurso, de orientá-lo para uma determinada conclusão.
Se pensarmos na influência das teorias pragmáticas, podemos também dizer que o discurso
é uma forma de ação. Falar é exercer uma certa ação sobre o outro, falar não é só querer
expor uma representação do mundo.
O discurso é interativo: e aí, basta pensarmos, de novo em Bakhtin com seu Dialogismo.
Mas também no duo benvestiniano do Eu & TU presente nas trocas linguageiras. Porém, é
importante não confundir a interatividade inerente a todo discurso com a interatividade de
um discurso do tipo oral, conversacional.
O discurso é, enfim, assumido por um sujeito e este sujeito vai contextualizá-lo, ou seja:
vou utilizar um determinado jeito de falar em uma sala de aula, um outro jeito para explicar
um mal-estar para um médico, um outro jeito para escrever uma carta administrativa e
assim por diante. Vou tentar contextualizar meus enunciados, adaptando-os à situação em
que eu e meu interlocutor (in presentia ou in absentia) nos encontramos.
Lembremos de Benveniste, novamente: o mesmo enunciado, pronunciado por 02
enunciadores distintos corresponderá a dois discursos distintos. Assim, se eu digo “Bomdia” a um desconhecido, no elevador da minha casa, estou praticando um discurso que está
instituído num mundo dominado pelas regras de polidez; ao dizer “Bom-dia” a vocês, aqui
no ICHS, antes de começar essa minha apresentação, como a situação e os interlocutores
mudaram, estou adotando então, com esse simples “Bom-dia” um outro universo
discursivo, ou, mais simplesmente, estou usando a mesma expressão em outro contexto e
logo estou criando um novo discurso, dirigido a novos interlocutores.
Em resumo, um discurso só tem sentido no interior de um universo de outros discursos,
fazendo parte de um interdiscurso, interdiscurso este que está sempre em relação com o
que foi e com o que será dito, no mundo. Cada gênero de discurso tem seu modo de
gerenciar a multiplicidade de relações interdiscursivas: um livro sobre a Análise do
Discurso, por exemplo, não cita as mesmas fontes, nem tem o mesmo discurso que um
catálogo da Natura ou da Avon. Quando classificamos, de modo quase instintivo, um
discurso dizendo coisas do tipo: “Ele me passou um sermão”; “Eu vi isso no Jornal das 20
horas”; “Foi um filme muito bom”, estamos fazendo com que esses citados discursos
entrem em contato com o conjunto ilimitado de outros discursos do mesmo gênero.
Finalmente, gostaria de falar sobre mais duas concepções que me são caras e que dizem
respeito a este vasto manancial de estudos que é o discurso.
Em primeiro lugar a concepção de “universo do discurso”. O que seria isso? Algo muito
simples: o conjunto de elementos que constituem as condições de produção de um
enunciado. O universo do discurso abrangendo tudo o que está implicado em determinados
enunciados, engloba, ao mesmo tempo:
(i)
os elementos lingüísticos propriamente ditos e
(ii)
os elementos extra-lingüísticos, ou seja: a situação na qual o discurso se insere e
que diz respeito às condições situacionais, culturais e psicológicas que
motivaram sua existência.
Em segundo lugar, uma definição de discurso que vem de Jean-Michel Adam (1981) e que
é apresentada como uma fórmula matemática, para diferenciar “texto” de “discurso” e que
retoma um pouco tudo o que falei:
TEXTO= DISCURSO (SEM CONTEXTO)
DISCURSO = TEXTO + CONTEXTO.
Vou então terminando por aqui, lembrando que não quis trazer nenhuma definição
conclusiva para o termo “discurso”, longe disso! Quis apenas apresentar para vocês
algumas reflexões que o termo e seu estudo, através da Análise do Discurso, têm me
sugerido, ao longo destes últimos 12 anos, ou seja, desde que deixei a UFOP pela UFMG.
Mas, o fato é que já carregava comigo, isso é mais que claro, de modo consciente ou
inconsciente, várias idéias aqui adquiridas, graças ao incentivo que o ICHS da UFOP me
deu, tanto para fazer o Mestrado, quanto para fazer o Doutorado em áreas já ligadas ao
estudo do discurso, na USP e na França; mas, esta carga discursiva veio também ou foi
adquirida, sobretudo, pelas trocas comunicativas cotidianas efetuadas entre meus alunos e
colegas ufopianos. Estas trocas vieram se constituir em um grande material para o estudo
do Discurso e da Análise do Discurso e também para o estudo da vida como discurso.
Então, quando eu disser agora, a vocês “Obrigada”, fechando esta apresentação, não
considerem esta palavra como uma mera palavra, mas, pensem que ela contém em si, nas
entrelinhas, todo um vasto discurso...um discurso carregado de emoção, de saudade e de
inúmeras boas coisas. Um maravilhoso pedaço da minha vida; enfim, um discurso de vida.
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Prof. Ida Lucia Machado Borges