Jogos de Mesa para Idosos – análise e considerações
sobre o dominó
Board Games for the elderly – analysis and considerations about domino
Lopes, Ludmila Mara Banks Ferreira; Mestre em Arquitetura e Urbanismo; FAU – USP
[email protected]
Taralli, Cibele Haddad; Doutora em Arquitetura e Urbanismo; FAU – USP
[email protected]
Resumo
Os jogos de mesa são um tipo de atividade lúdica e terapêutica que proporciona estímulos
físicos, mentais e psíquicos a pessoas idosas, contribuindo para minimizar os declínios
naturais do envelhecimento. Este estudo analisa o dominó, jogo preferido por idosos. O
respaldo teórico tem como referência alguns requisitos de design de produto relacionados à
forma (Gestalt), cor, usabilidade e ergonomia, e uma analise qualitativa do objeto (dominó)
verificada em pesquisa com o grupo de estudo selecionado. A analise dos dados obtidos
subsidiou também a formulação de parâmetros para o projeto e a produção de outros jogos
voltados ao público idoso.
Palavras-chave: design, idosos, jogos de mesa, dominó.
Abstract
Board games are a type of playful and therapeutic active leisure that promote physic, mental
and psychic stimulus that could help elderly to retard the negative effects of natural act of
aging. This study analyses the domino, a favourite to the elderly. The doctrinaire base has as
reference aspects of product design related to form (Gestalt), colors, and ergonomics, and
also a qualitative analysis of the object (domino) which was reserchead in a selected study
group. It also provided parameters to be considered in the project of other games designed
for the elderly.
Key words: design, board games, elderly, domino.
Jogos de Mesa para Idosos – análise e considerações sobre o dominó
Envelhecimento e atividades de lazer
O envelhecimento da população é um fenômeno mundial que se intensificou
principalmente no decorrer do século XX, em grande parte devido aos avanços da medicina.
Apesar da longevidade ser uma grande conquista, CARLI coloca que (2004, p.2) „atualmente,
busca-se cada vez mais um envelhecimento sadio, o que significa a manutenção e o
fortalecimento da capacidade funcional do idoso. E isso somente ocorre se o idoso tiver
controle sobre a própria vida.‟
Mesmo não sendo obrigatoriamente acompanhada de doenças, durante a senescência
há declínios físicos e mentais, decorrentes deste processo natural que, se somados à
diminuição „das taxas de inter-relações sociais‟ podem causar perda de autonomia e da
independência.
A autonomia está relacionada diretamente à capacidade de recepção e de
processamento das informações do meio físico/ social, através do Sistema Sensorial que
recebe os estímulos externos; do Sistema Nervoso Central (SNC) que processa a informação
recebida; e do Sistema Motor que realiza uma ação, produzindo a „resposta‟ do SNC ao
estímulo inicial.
Segundo Ahonhein et. Al (1994), a capacidade de decisão de uma pessoa “baseia-se
em diversas habilidades, tais como: envolver-se com o assunto; compreender ou avaliar o
tipo de alternativas e comunicar uma preferência. É a capacidade de pensar e deliberar.”
(Apud FREITAS, 2002, pg.85)
Neste contexto, a prática de atividades estimulantes do ponto de vista físico, mental e
social pode contribuir para retardar os efeitos deletérios do envelhecimento.
As atividades de lazer como os jogos de mesa assumem um papel importante ao
possibilitarem uma gama variada de estímulos, contribuindo para a independência e a
autonomia dos idosos e melhorando sua saúde e qualidade de vida.
Dentre os diversos estímulos decorrentes deste tipo de jogo destacam-se os mentais,
sendo necessário entender suas regras e objetivos; motores, posto que é preciso manipular
objetos para efetuar as jogadas durante as partidas; e sensoriais, através das quais ocorre a
interface entre os jogadores e o jogo. Além disso, estes incentivam também a interação social.
Este estudo analisa um dos jogos mais conhecidos e praticados pelos idosos em SP,
apoiando-se em estudos teóricos e conceituais das áreas da medicina, da psicologia e do
design de produtos, buscando verificar através de pesquisa qualitativa em locais de
entretenimento, o uso do jogo de mesa – dominó- e, a partir deste conjunto de informações e
dados, elencar um conjunto de parâmetros a serem aplicados na melhoria desses produtos. *¹
Problemas da senescência e da perda de autonomia
Levantamentos nas áreas da medicina (SIMÕES, 1998) e da ergonomia (IIDA, 1990)
apontam alguns dos principais declínios comuns ao processo de envelhecimento diretamente
relacionados à autonomia física e mental, que podem ser estimulados pela prática dos jogos
de mesa:
- Sistema Sensorial:
Visão - Diminuição da acuidade visual (capacidade de discriminação de pequenos
detalhes) e endurecimento das lentes dos olhos, que dificulta a focalização de objetos
próximos;
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Tato - Diminuição da habilidade em discriminar texturas e temperaturas e aumento da
sensibilidade da pele, que se torna mais seca e mais fina;
- Sistema Motor - Diminuição da massa muscular (cerca de 50% entre 40 e 60 anos),
decréscimo da coordenação sensório-motora, dificultando a manipulação de objetos;
- Sistema Nervoso Central - Tendência de estabilidade em relação às experiências
acumuladas pela aprendizagem ao longo da vida e de redução da capacidade relacionada às
qualidades básicas de funcionamento do sistema nervoso. Isto, aliado ao déficit sensorial
decorrente da senescência, gera maior imprecisão na percepção de informações do meio.
Apesar dos sintomas do envelhecimento não ocorrerem de forma semelhante a todos
os indivíduos, estes fazem parte de um processo natural. Como tendência, estes declínios
poderiam ser prevenidos e combatidos por práticas como o jogo, uma atividade tanto
terapêutica quanto de lazer.
Jogo – características, definições, significados
Mas quais são as características que definem essa atividade jogo? Segundo
HUIZINGA „jogo’ é caracterizado como uma atividade: livre; „não séria‟; exterior a vida
habitual, mas capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total; sem interesse material
(não se pode obter lucro); passível de repetição; delimitada no espaço e no tempo (está
separada da vida cotidiana); de acordo com uma certa ordem; e com regras que, se quebradas,
ameaçam a sua existência.
Dos jogos industrializados atualmente comercializados no Brasil não foram
encontrados exemplares direcionados ao público idoso. Pode-se considerar que aqueles para
adultos estão mais próximos do seu universo, sendo que alguns são praticados atualmente em
Instituições Públicas, Privadas e em espaços públicos, nomeadamente a “dama”, as “cartas” e
o “dominó”.
Características como regras simples, pequena variedade de peças e acessórios de fácil
visualização, podem refletir a preferência dos idosos por estas modalidades. De modo geral,
são todos jogos de baixa complexidade.
LOBACH (1981) coloca que “as funções dos produtos seriam todas as relações entre
o produto e o usuário, através dos quais as necessidades dos usuários são satisfeitas”. (Apud
PEREIRA, 2000, p.142)
Será que estes jogos que fazem parte do repertório lúdico dos idosos satisfazem esta
relação entre objeto e usuário? Considerando-se a ampla gama de características diferentes
que estruturam os jogos de mesa, englobando variáveis de materiais, forma, textura, tamanho,
entre outras, optou-se pela análise do dominó.
Em entrevista a idosos praticantes de damas, cartas e dominó em duas instituições em
São Paulo (CRI Leste e SESC Pompéia), totalizando 13 idosos, homens e mulheres de 60 a 80
anos, pode-se concluir que, para este grupo específico observado, das três modalidades
elencada,s o „dominó‟ é o mais jogado, sendo inclusive igualmente difundido nos dois
gêneros.
Como método de abordagem e síntese destas questões, MUNARI (1998, p.96) coloca
que a análise de um artefato deve ser feita de acordo com “valores objetivos - tais como a
funcionalidade, a manuseabilidade, a cor, a forma, o material de que são feitos, e assim por
diante -, verificando sempre se o resultado é bom ou mau, de acordo com um critério
objetivo.”
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Foram elencados como aspectos de design que interferem diretamente no projeto e na
análise do objeto os: de percepção visual, relacionados à forma e a estruturação dos elementos
pictóricos nas peças e partes do jogo; os de cor, considerando este um atributo intrínseco aos
artefatos materiais, sendo um dos itens que estruturam a relação objeto-usuário; os de
ergonomia e usabilidade.
Percepção - elementos selecionados para analise
A percepção resulta da interação do homem com o meio que o cerca, composto de
objetos e ambientes. No percurso da evolução humana, a relação com os objetos foi pautada
prioritariamente pelo desenvolvimento do sentido da visão.
Uma das principais teorias desenvolvidas para entender o funcionamento deste sentido
humano foi a da Gestalt. Criada na década de 20, ela sugere que a percepção visual humana é
regida por princípios de organização segundo os quais a “visão” tem uma predisposição para
reconhecer padrões. Desta forma, os estímulos visuais percebidos são organizados de acordo
com o reconhecimento de padrões simples e imediatos, segundo a qual “as configurações
tendem a parecer tão claras, nítidas e estáveis quanto seja possível.” (VERNON, 1974,
pg.41).
Da Gestalt duas categorias se destacam para analise dos requisitos visuais do jogo, que
se estruturam a partir: da relação de agrupamento entre as partes pictográficas de um objeto
(figura); e da relação entre as partes pictográficas de um objeto (figura) e o resto da imagem
(fundo).
Tabela 1 – Regras de agrupamento das partes de um objeto
Proximidade
Similaridade
Continuidade
Fonte: BAXTER, 2003, p.31
Fechamento
Fonte: KOFFKA, 1975, p.178
Segundo KOFFKA (1975, p.196), ao comparar “as partes que constituem a figura e o
fundo, verificamos sempre que as segundas são mais simples, no sentido de maior
uniformidade e menos articulação do que as primeiras”.
Tabela 2 – Regras de estruturação entre figura e fundo
Simetria
Orientação
Contorno
Fonte: Autora
Fonte: Autora
Fonte: Autora
Tamanho relativo
Fonte: Autora
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Eixos referenciais
Há indícios de que é mais fácil se reconhecer as formas simples do que as formas
complexas. PINKER (1998, p.283), ao abordar o assunto, ressalta que na percepção de
objetos “o eixo mental que indica „em cima‟ e „embaixo‟ também é um poderoso organizador
de nosso senso de forma e de contorno.
Quando várias formas iguais são alinhadas, elas constituem estruturas que podem ser
fator preponderante no estabelecimento de referenciais.
Tabela 3 – Eixos referenciais
Objetos individuais
Objetos alinhados
Fonte: PINKER, 2004, p.284
Em uma análise ou proposição de um jogo de mesa, estas regras de percepção
possibilitam averiguar até que ponto a relação entre figura e fundo é suficientemente eficiente
para destacar as informações visuais que precisam ser percebidas pelo usuário.
Aspectos físicos da cor
São três os aspectos ou atributos da cor considerados na analise do dominó: o matiz, o
valor (ou luminosidade) e a saturação (ou croma)
Tabela 4 – Atributos da cor
Matiz
Luminosidade/
valor
Saturação/
croma
Permite a distinção entre por ex. o
„magenta‟ e „vermelho‟
Menos luminoso - ex. marrom / Mais
luminoso - ex. bege
Saturado - ex. vermelho /
Dessaturado - ex. marromacinzentado
Fonte: GUIMARÃES, 2000, pg.55
Além da cor, é importante considerar também a aparência de um material, que
depende da quantidade e do tipo de dispersão e absorção da luz que incide sobre cada
superfície.
Uma superfície polida como o metal reflete naturalmente a luz. Em uma superfície
mais áspera há a reflexão difusa, o que é mais adequado em jogos, por não causar
ofuscamento.
Considerando que o contraste está relacionado à acuidade visual, é interessante buscar
composições que possam gerar o efeito da intensificação do contraste. Um experimento citado
em PEREIRA (2000) demonstrou que a acuidade visual é superior no caso em que há maior
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contraste entre figura e fundo, a exemplo de figuras brancas sobre fundos pretos e figuras
pretas sobre fundos brancos.
Alguns artifícios podem intensificar o contraste figura-fundo, como exemplo: um
objeto de determinada cor pode parecer mais claro quando colocado sobre um fundo escuro e
mais escuro quando colocado sobre um fundo claro; a cor de uma figura parece mais saturada
se colocada sobre um fundo pouco saturado.
Tabela 5 – Efeito de Intensificação do Contraste
Influência da Cor do Fundo/Figura
Sobreposição de complementares
Fonte: GUIMARÃES, 2000, Fig 14, pg. 58
Fonte: PEREIRA, 2000, FIG 12, p.71
Apesar de ser interessante um aumento do contraste a sua intensificação excessiva
pode causar fadiga visual, como é o caso de cores muito saturadas, que levam a um efeito de
expansão visual, dificultando a visão de contornos.
Desta forma, é melhor que jogos para idosos sejam constituídos de materiais opacos e
semi-ásperos. É interessante que se busque também uma intensificação moderada entre as
cores da composição entre figura- fundo. Pode ser um bom recurso a sobreposição de cores
saturadas (figura) sobre cores dessaturadas (fundo), sendo a área da primeira inferior à da
segunda.
Aspecto da Ergonomia e os idosos
A ergonomia considera as relações humanas com os objetos no projeto, nas situações
de uso, em analises e estudos englobando diferentes aspectos - fisiológicos, anatômicos,
psicológicos. Esta ciência teve como foco inicial o estudo do homem em relação ao seu
ambiente de trabalho na indústria, se expandindo posteriormente para as residências e
escritórios. (Iida, 1971)
Grande parte dos dados antropométricos adotados e desenvolvidos pela ergonomia têm
como objetivo a obtenção de parâmetros universais, utilizados em projetos de produtos para
grandes segmentos da população, desconsiderando as minorias e suas características
específicas, como é o caso dos idosos. Alguns desses parâmetros foram selecionados para a
aplicação neste estudo sobre o jogo.
PANERO (2002) apresenta dados retirados de estudos antropométricos realizados com
idosos homens e mulheres, que podem ser considerados na analise de atividades sobre um
plano horizontal:
- a distância média de alcance da mão, com o braço estendido sobre uma mesa é de 64,40cm
(p);
- A média do raio de deslocamento do braço direito estendido com a mão segurando um giz,
é de 49cm (w).
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Fig. 1 – Medidas de alcance de idosos
Fonte: PANERO, 2002, Quadro 3-2, pg.49
Manejo
Há dois tipos de manejo: o grosseiro e o fino. (BERGMILLER, apud IIDA, 1971) O
„manejo fino‟ se utiliza basicamente do movimento com a ponta dos dedos, enquanto no
„manejo grosseiro‟, o movimento é realizado principalmente pelo punho e pelo braço.
Fig. 2 – Tipos de manejos
Fonte: IIDA, Itiro, 1971, Fig.2-6, pg.252
Nos jogos de mesa do ponto de vista dos tipos de manejo e de pega, os principais
movimentos são de manejo fino (pega digital), sendo o movimento principal realizado pela
oposição do polegar aos demais dedos, principalmente o dedo médio e o indicador.
b
g
Fig. 3 – Analogia mecânica dos manejos: “b”, pega digital; “g”, pega em anel
Fonte: IIDA, 1971, Fig.2.3, pg.20.
No dominó há ainda um tipo de manejo grosseiro, quando as peças são justapostas em
uma das mãos durante as partidas (pega em anel)
Ao se projetar um objeto, há dois tipos de desenho que influem no manejo:
„elementar‟ ou „antropomorfo‟. O desenho elementar (ou geométrico) IIDA (1971, p.22) “se
assemelha a formas geométricas regulares, como o cilindro, cone, paralelepípedo, esfera e
outros.” Já o desenho antropomorfo normalmente gera superfícies irregulares, que
acompanham a forma do órgão de manejo (mãos ou pés).
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No caso dos jogos de mesa tradicionais, há uma tendência de manutenção do desenho
geométrico nas formas das peças, mais adequados para movimentos que exigem maior
precisão e pouca força.
PANERO (2002), ao apresentar dados antropométricos coletados de grupos de homens
e mulheres idosos, coloca que o diâmetro de preensão médio do dedo indicador é de 3,4cm, e
o diâmetro de preensão do dedo médio é de 3,9cm.
No manuseio de peças de jogos de mesa, a pega mais usual (digital) engloba objetos de
até 7,5cm, de modo que se pode considerar como adequado para estes artefatos, peças que
estejam circunscritas entre 3,4cm e 7,5cm de diâmetro.
Parâmetros de análise do dominó
Para análise do dominó foram utilizados como modelos os jogos desta modalidade
comercializados na cidade de São Paulo (Novembro de 2008), com o intuito de identificar se
há exemplares mais adequados ao uso pelos idosos nos aspectos de design relacionados à
percepção visual, à cor e à ergonomia, considerando-se as limitações decorrentes da
senescência, e as condições de uso focadas nos ambientes e nas relações sociais e culturais.
Tabela 6 – Exemplares de dominó analisados
Miniatura
Amarelado
Branco
Amarelo
Vermelho
Preto
Perfil “I”
Madeira
MDF
Pontos Coloridos
Foi feita uma tabela comparativa, na qual cada modelo foi avaliado em termos de:
forma, distância entre os pontos, proporção destes em relação à peça, cor da peça e dos
pontos, peso, relevo dos pontos (baixo relevo, sem relevo), cantos das peças (arredondado,
reto), brilho, rugosidade, contraste figura-fundo na peça, contraste peça/fundo com mesa de
apoio clara e escura.
Para coleta de dados qualitativos, foi escolhida uma instituição pública na qual os
idosos se reúnem regularmente todas as semanas para a prática dos jogos de mesa, o CRILeste. Foram aplicadas entrevistas com os idosos praticantes do dominó. O intuito foi
averiguar a facilidade na identificação dos elementos pictóricos das peças do jogo nos
diversos modelos, os aspectos de manuseabilidade e de alcance, assim como as preferências e
hábitos relacionados ao uso deste artefato por este grupo específico de usuários. Por objetivo
final, pretendeu-se identificar e determinar os parâmetros físicos/ formais adequados para o
uso deste artefato pelas pessoas idosas.
Inicialmente foram feitas entrevistas individuais com quatro idosos, três homens e uma
mulher, de 68 a 78 anos de idade. Para cada exemplar de dominó, havia uma sequência de
pedras simulando uma situação de jogo e um conjunto de peças justapostas, não seqüenciais.
Foi solicitado aos idosos que descrevessem os números de cada pedra que compunha a
sequência, e que identificassem, no conjunto de peças justapostas, quantas repetiam
determinado número. Os tempos de resposta foram registrados.
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Fig. 4 – Disposição das peças simulando uma situação de jogo
Fonte: Autora
Fig. 5 – Conjunto de peças justapostas
Fonte: Autora
Em um segundo momento, foi solicitado a um grupo de quatro idosos que jogassem
uma partida com cada um dos exemplares de dominó e respondessem a algumas perguntas
referentes à visibilidade e manuseabilidade das pedras e sobre suas preferências pessoais.
Os dados obtidos foram tabulados, de acordo com a média do tempo de resposta,
sendo depois cruzados com as informações coletadas das entrevistas aos idosos durante as
partidas, e com as informações extraídas da tabela de comparação dos exemplares, realizada
de acordo com os aspectos de design elencados.
Análise dos exemplares de dominó
O jogo de dominó é constituído por poucos elementos basicamente 28 peças em forma
de prismas retangulares de mesmas dimensões, um desenho geométrico coeso e de fácil
reconhecimento.
A representação pictórica dos números é constituída por um único elemento, o círculo,
sendo os números representados pela junção de mais ou menos pontos, que podem se
localizar em 7 posições distintas.
O n° 3
O n° 1
Fig. 6 – A sete posições dos pontos
Fonte: Autora
Os números no dominó ocupam uma área pequena em relação ao fundo são percebidos
como figura e a peça como fundo, sendo as primeiras naturalmente destacadas em primeiro
plano.
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Fig. 7 – Organização dos pontos e Alinhamento de peças
Fonte: Autora
Apesar de estarem fisicamente separados, o agrupamento dos pontos está ordenado de
modo que estes sejam percebidos como símbolos que representam os números de “0” a “6”,
devido à:
- Simetria entre os pontos dentro da área de distribuição,
- Similaridade entre os pontos,
- Proximidade entre os pontos, eqüidistantes entre si
- Continuidade, pela tendência de agrupar os pontos como linhas contínuas.
Quando são alinhadas várias peças durante as partidas, a similaridade entre as metades
de pedras justapostas intensifica a visualização dos números representados.
Embora o agrupamento dos pontos ocorra de forma similar em todos os dominós
tradicionais, a identificação do número representado nas peças é favorecida quando o
diâmetro dos pontos corresponde a aproximadamente 1/10 do comprimento total da peça.
Assim, a peça ideal para manuseio e visualização é a de 5,0cm de comprimento, com pontos
de 0,5cm de diâmetro.
Fig. 8 – Proporção entre dos pontos e a pedra
Fonte: Autora
Outro elemento importante é a presença do traço central, por facilitar a visualização
dos números pelos idosos, considerando-se suas perdas de acuidade visual.
No dominó, a materialidade das peças é importante tanto para a identificação da
numeração quanto para o manejo grosseiro (quando as peças são agrupadas em conjunto em
uma das mãos) e fino (quando as peças são encaixadas às outras durante as partidas).
A perda natural do tato, comum a senescência pode ser em parte contornada pelo
aumento do peso de cada peça. O exemplar testado pelos idosos que obteve melhor avaliação
em termos de tamanho e peso foi o do dominó branco com pontos coloridos, cujas pedras têm
5,2cm x 2,5cm x 0,9cm e 18,4g, sendo esta a mais pesada de todas as peças analisadas.
Estas medidas da peça são adequadas tanto para os movimentos de manejo fino quanto
para os de manejo grosseiro.
Fig. 9 – Manejo Fino
Fonte: Autora
Fig. 10 – Manejo Grosseiro
Fonte: Autora
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Pode-se ainda considerar que a geometria simplificada do dominó tradicional facilita a
manipulação pelos idosos, apesar das perdas motoras comuns à idade.
Em relação ao alcance dos idosos durante as partidas, observou-se que o
posicionamento das peças do jogo era tal que a área ocupada estava entre 40 e 45 cm de
largura e de profundidade. Estas medidas estão de acordo com os 50x50cm, recomendados
por parâmetros ergonômicos de uso do plano horizontal de trabalho.
Fig. 11 – Área ocupada pelas peças durante uma partida no CRI Leste
Fonte: Autora
Em relação ao acabamento das peças, é recomendado que estas tenham cantos
arredondados, pois as peças com cantos vivos oferecem risco de formação de hematomas.
Considerou-se também que os dominós de baixo-relevo (mais comuns), são
adequados por conterem informações táteis e visuais, decorrentes de sua geometria semiesférica.
Em relação aos materiais, pode-se adotar como produtos ideais ou de avaliação
positiva os exemplares de plástico, pois permitem: cantos arredondados, pontos em baixo
relevo, moldagem das peças de acordo com o número representado. Na madeira há restrições
de produção em relação à geometria e a profundidade dos pontos (insuficiente), aos cantos
(sempre vivos) e à espessura das peças, que dependem das dimensões das placas de material
utilizadas para a produção.
Outro elemento importante a se considerar é a reflexão dos materiais, que também
influi na nitidez do desenho das peças.
Dos exemplares de plástico estudados, os de médio ou pouco brilho são os mais
indicados, por não causarem ofuscamento, mesmo quando utilizados em ambientes com
iluminação artificial direta. De todos os analisados, o melhor exemplar mencionado pelos
idosos é o amarelado com pontos pretos e pino central.
Fig. 12 – Brilho das peças
Fonte: Autora
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Em relação ao contraste entre os pontos e as pedras, os tipos que apresentaram maior
nível de contraste foram os de peças brancas com pontos pretos ou então de peças pretas com
pontos brancos.
No entanto, o exemplar preto com pontos brancos não é o mais adequado aos idosos,
pois a cor branca, por ser muito luminosa, quando colocada sobre fundo preto parece se
expandir, o que pode causar uma sensação de ofuscamento, além de dificultar a visualização
dos contornos.
Em relação ao contraste entre as peças e a superfície de apoio, pode-se dizer que os
dominós de pedra colorida são os mais versáteis, uma vez que apresentam uma boa
diferenciação tanto em superfícies claras, quanto em superfícies escuras.
Parece ser mais importante para os idosos um contraste adequado dos pontos em
relação às peças do que destas em relação à mesa de apoio. Deve-se ainda considerar que a
tridimensionalidade das peças do dominó auxilia no contraste entre estas e o fundo, pelo
efeito de luz e sombra.
Considerações Finais
Com a síntese dos dados das pesquisas realizadas, tomando-se como base todas as
observações sobre os exemplares de dominó estudados, considerando-se suas características
físicas e estruturais, a percepção dos idosos e as limitações decorrentes do processo natural de
envelhecimento, pode-se dizer que, para este grupo estudado, os modelos mais adequados de
dominó em relação às cores, contraste, peso, uso e manuseabilidade são os prismas de fundo
ou base clara com pontos multicoloridos ou pretos. Como exemplos citam-se os modelos
pesquisados nas resoluções: o branco com pontos coloridos, o branco com pontos pretos, o
amarelado e o amarelo com pontos pretos. Pode-se ainda concluir que, para este mesmo
grupo, os exemplares menos adequados em relação ao quesito de cor, contraste, peso e
manuseabilidade são o dominó de madeira, o modelo miniatura e o preto de perfil “I”,
seguidos do exemplar de MDF e, por último, do vermelho com pontos brancos.
Apesar da necessidade de estudos mais abrangentes que analisem outros parâmetros de
adequação de jogos de mesa para idosos, podem ser feitas algumas observações acerca de
requisitos adequados para o projeto, a produção e o uso de um jogo de mesa – dominó - com
base neste grupo de usuários estudados. Assim:
- As peças não devem ser muito pequenas ou ter muitos detalhes formais e pictóricos, sendo
adequado que tenham entre 2,5cm e 5cm de largura ou diâmetro;
- Os motivos desenhados nas peças e tabuleiros, se houverem, devem ser simples, com poucos
elementos e padronizados.
- recomenda-se que os elementos pictóricos sigam as regras da percepção, de modo que:
> Figuras repetidas que formem conjuntos sejam similares em sua forma, simétricas ente si,
com um espaçamento pequeno e constante;
> Os elementos desenhados em uma peça tenham área inferior à área restante da sua base,
articulando e ressaltando o contraste figura e fundo;
> Na representação pictográfica, o uso contornos fechados como figuras é mais efetivo do que
linhas abertas;
- É desejável e adequado utilizar desenho de formato apropriado ao manejo grosseiro para as
peças do jogo, visando aumentar as possibilidades de preensão;
- A área de apoio das peças e/ou tabuleiro, considerando as regras do jogo, não deve exceder
50cm x 50cm;
- É adequado que as peças tenham formas regulares e simples (geométricas ou de baixa
complexidade) de fácil reconhecimento pelos idosos;
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- É recomendável que as peças pesem entre 10 e 20g, aumentando a sensibilidade tátil;
- Cantos vivos devem ser evitados, afastando riscos de hematomas na pele;
- Os materiais não devem ser muito lisos ou rugosos, evitando desconforto tátil;
- Os materiais não devem ser muito reflexivos, o que pode gerar ofuscamento, sendo
adequados os plásticos foscos ou semi-foscos e a madeira. O uso de EVA, não é indicado por
ser muito leve e de difícil higienização;
- Os movimentos requeridos para manuseio das peças durante as partidas não devem ser
muito precisos, que demandem pequenos encaixes ou grande destreza;
- As cores utilizadas devem garantir um bom nível de contraste, de modo que:
> as peças sejam contrastantes em superfícies claras e/ou escuras;
> o uso de cores luminosas entre figura e fundo controlado, evitando fadiga visual;
Este estudo que reúne alguns parâmetros e recomendações aplicadas aos jogos de
mesa (com enfoque no dominó) indica a necessidade de ampliar as pesquisas e o
desenvolvimento de produtos para o grupo populacional dos idosos, alertando para a falta de
alternativas adequadas de jogos lúdicos e terapêuticos atualmente disponíveis no mercado
nacional.
Notas
*¹ O conteúdo deste artigo provém de parte da pesquisa realizada para a elaboração da
dissertação “Jogos de Mesa para Idosos – análise e considerações sobre o dominó”, da mesma
autora.
Referências
BAXTER, Mike. Projeto de Produto: Guia prático para o design de nossos produtos. São
Paulo: Ed. Edgard Blucher, 1998, 260p.
CARLI, Sandra Marcondes Perito. Habitação adaptável ao idoso: Um método para
projetos residenciais. [Tese]. São Paulo: FAU USP, 2004.
FREITAS, Elizabete Viana de et. Al. Tratado de Geriatria e gerontología. Rio de Janeiro :
Guanabara Koogan, 2002.
GRANDJEAN, Etienne. Manual de Ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. Porto
Alegre : Bookman, 1998.
GUIMARÃES, Luciano. A cor como Informação. São Paulo: Annablume, 2000.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 1971.
IIDA, Itiro. A Ergonomia do Manejo. [Tese]. São Paulo: Escola politécnica da USP, 1971.
KOFFKA, Kurt. Princípios de Psicologia da Gestalt. São Paulo: Cultrix, sem data.
LOPES, Ludmila Mara Banks Ferreira. Jogos de Mesa para Idosos – análise e
considerações sobre o dominó. [Dissertação]. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da USP, 2009.
9° Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design
Jogos de Mesa para Idosos – análise e considerações sobre o dominó
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Estudos)
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