EDUCAÇÃO INCLUSIVA E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: NARRATIVAS DE PROFESSORAS SOBRE PRÁTICAS EDUCATIVAS DE INCLUSÃO NA ESCOLA BÁSICA DA REDE PÚBLICA DE SANTA MARIA/RS QUADROS, Taiana Flores de1 - UFSM CANDELONI, Caroline Fabiane2 - UFSM SILVA, Marli da,3 - UFSM Grupo de Trabalho- Diversidade e Inclusão Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O presente texto tem o intuito de compreender a importância de como a prática da Educação Inclusiva nos processos de ensino na Escola Básica vem se constituindo, visto que, a partir da década de 1990 intensificou- se as discussões sobre educação, em especial, Educação Inclusiva. Dessa forma, pensa-se em educação considerando a pluralidade de grupos que por anos estiveram excluídos da sociedade, dentre eles: os pobres, os negros, os indígenas, os deficientes, entre outros tantos que sofreram/sofrem com o descaso das elites e de Políticas Públicas de médio e longo prazo. Com base na Declaração de Salamanca, este trabalho analisa os fundamentos, a política, as possibilidades e limites da formação de educadores para trabalhar com a Educação Inclusiva. Buscou-se ouvir professores santamarienses sobre o processo de Formação Inicial e Formação Continuada para a prática de Educação Inclusiva. Assim, optou-se pela participação de três professoras colaboradoras, sendo duas professoras com formação em Pedagogia e uma professora em Sociologia, e a partir dessa escolha e da temática têm-se as seguintes questões que nortearam o presente trabalho, a saber: A- De que maneira a Formação Inicial contempla a atender a Educação Inclusiva no Ensino Regular?; B- Quais as perspectivas dos professores no desenvolvimento e constituição da Educação Inclusiva na Escola Básica?. Como resultados parciais, constatou-se a partir da narrativa das professoras colaboradoras que na Formação Inicial dos professores (de modo geral) há lacunas que necessitam ser supridas, como a falta de espaço para discussões relacionadas à 1 Graduada em Pedagogia e graduanda em Educação Especial, pela Universidade Federal de Santa Maria; Pesquisadora do Núcleo de Estudos Sobre Memória e Educação – Clio. E-mail: taianaflores @yahoo.com.br 2 Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Santa Maria; Pesquisadora do Núcleo de Estudos Sobre Memória e Educação – Clio; Bolsista do Programa de Bolças de Iniciação Científica/PROBIC – FAPERGS. 3 Graduada em Filosofia e mestranda em Educação, pela Universidade Federal de Santa Maria; Pesquisadora do Núcleo de Estudos Sobre Memória e Educação - Clio. E-mail: [email protected]. 19349 Educação Inclusiva, os assuntos abordados nas disciplinas voltadas para Educação Especial abordam temáticas que poderiam ser repensadas, dando mais ênfase para a prática. Também, surgiu nas narrativas das professoras que na Formação Inicial delas foram raros os momentos de discussão sobre a temática tratada neste trabalho. Palavras-chave: Formação Continuada. Educação Inclusiva. Formação Inicial. Professor. Introdução O presente texto visou socializar estudos que vêm sendo feito no grupo de pesquisa Povo de Clio/CNPq4 sobre a temática, Formação de Professores para a Educação Inclusiva5. Na escolha da análise de narrativas de professoras da Escola Básica de Santa Maria/RS buscou-se, explicitar a necessidade de (re)pensar a Formação Inicial de professores da Escola Básica, tendo em vista a construção de conhecimentos e práticas pedagógicas que assegurem o direito à diversidade, a inclusão de todos os educandos nos processos de constituição do conhecimento e da promoção da autonomia, alteridade, cidadania e a formação do ethos. Sendo assim, pensar à educação remete-nos a necessidade de ampliarmos estudos e pesquisas que tratem de contemplar e dar visibilidade à diversidade e pluralidade cultural de grupos, que por décadas estiveram à mercê de interesses econômico/político que visavam priorizar e atender as elites brasileiras, inclusive, a elite intelectual. Os grupos marginalizados socialmente em sua grande maioria eram, e ainda continuam sendo compostos por: pobres, negros, indígenas, agricultores, mulheres, deficientes, entre outros tantos que carecem de Políticas Públicas para a diminuição das desigualdades sociais, e a promoção da inclusão de alunos com deficiência e com algum tipo de dificuldade de aprendizagem. Formação de professores para a Educação Inclusiva Nos últimos anos têm-se intensificado as discussões sobre educação no que diz respeito à Educação Inclusiva, visto que, a proposta de abordagem inclusiva na educação vem alcançando significativos avanços, e estes, se tornaram mais expressivos após a Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais (1994), realizado na Espanha, quando foi 4 Povo de Clio/CNPq: é o grupo de Pesquisa do Núcleo de Estudos sobre Educação e Memória; coordenado pelo professor Dr. Jorge Luiz da Cunha, no Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Maria, vem, desde a sua criação em 1996, desenvolvendo trabalhos que enfatizam a temática memória/s e narrativa/s e seus usos para a História da Educação. 5 Educação Inclusiva: Surgiu a partir de 1994, com a Declaração de Salamanca. A ideia é que as crianças com necessidades educativas especiais sejam incluídas em escolas de Ensino Regular. 19350 elaborado a Declaração de Salamanca sobre os princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais. Desde essa Conferência, na perspectiva de Martins (2006, p.18) tem-se a disseminação dos conceitos de inclusão e Educação Inclusiva evidenciando, “[...] uma preocupação com todos os tipos de pessoas que se encontravam excluídas da escola, seja do sexo feminino, pobres, negras, com deficiências ou altas habilidades, entre outros”. Mas o que se entende por inclusão? Para responder essa pergunta, busca-se nos estudos de Mittler (2003 p.17), o entendimento de que a inclusão “[...] diz respeito a cada pessoa capaz de ter oportunidades de escolha e autodeterminação”. Tal perspectiva, nos espaços educacionais significa compreender quem são os alunos e o que eles têm a dizer, independente de sua idade e dos rótulos recebidos ao longo de suas trajetórias de vida. Promovendo assim, a possibilidade do aluno (re)construir o conhecimento e se constituir nos processos de alteridade, autonomia, cidadania e na formação do ethos. Diante do que esta sendo dito, pensa-se que para discorrer sobre o conceito de inclusão torna-se pertinente mencionar as questões políticas e práticas de inclusão no âmbito educacional, sendo que, a luta pela inclusão é fruto de movimentos institucionalizados, movimentos estes, que lutam em prol dos grupos que foram/são excluídos do direito de participar das discussões sociopolíticos e culturais que promovem o direito de participar da construção da cidadania. Mas, o que entende-se por cidadania? Quando fala- se em cidadania pressupõe- se, que este conceito é entendido como sendo um conjunto de direitos/deveres políticos que o indivíduo possui na sociedade. Dessa forma, permitindo que o mesmo, possa intervir nas questões públicas do Estado, participando indiretamente ou diretamente na constituição do governo, ou nos processos administrativos do Estado, por exemplo: participação em cargos públicos, o ato de votar, entre outros. Com isso, a educação na construção dos direitos/deveres do cidadão tem papel de grande relevância para a (re)construção e significação do sujeito social. Lembra-se neste artigo que a concepção de Educação Inclusiva ganha força na Declaração de Salamanca (1994), aonde é enfatizado que todas as crianças devem ter acesso a educação. Sendo assim, as escolas passam a se comprometerem em receber todas as crianças e atender as diversidades apresentadas pelos alunos. Na expectativa da escola atingir tais metas, os gestores escolares comprometem-se a proporcionar e promover a Formação 19351 Continuada dos professores, bem como, um currículo diversificado que promova a qualidade de ensino de seus alunos. Encontra-se na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº. 9394/96, cap. V, art. 58, que é assegurado à educação dos alunos com deficiência e que deve ser realizada, preferencialmente, na Rede Regular de Ensino. Assim, a Educação Especial que era vista, por muitos, como modalidade usual de atendimento às pessoas com deficiência, deve atuar como complemento da Educação Básica e do Ensino Superior, sendo um instrumento disponível quando necessário. No que se refere à formação de professores, a LDB/1996, em seu Art. 3°, destaca a importância de que o corpo docente seja composto por, “[...] professores que tenham especialização, adequada em nível superior ou médio, para atendimento especializado, bem como, professores do Ensino Regular capacitados para a integração desses educandos nas salas comuns”. Além da ressalva referente à formação dos professores, destaca-se o que é apresentado nas Diretrizes Nacionais para Educação Especial na Educação Básica (Resolução CNE/CBE 02/2001), aonde se recomenda que as instituições de ensino disponibilizem recursos, como: materiais pedagógicos e humanos para que seja possível desenvolver processos educativos de qualidade com os alunos. Desta forma, compreende-se que todo o corpo docente necessita de formação adequada para trabalhar com os sujeitos de forma a atender as diversidades. Formação de professores Santamarienses e Educação Inclusiva O Sistema Municipal de Santa Maria/RS é constituído por 1.558 professores e 80 escolas. Dentre as escolas municipais têm-se 405 alunos incluídos, nas modalidades que compreendem a Educação Infantil, Ensino Fundamental, Anos Iniciais, Anos Finais e Ensino de Jovens e Adultos. Diante desses dados surgem inquietações sobre a Formação Continuada dos professores para atender com qualidade essa demanda. Um dos desafios para a efetivação da inclusão escolar de pessoas com necessidades especiais é o despreparo por parte significativa dos professores e, sobretudo, a falta de formação embasada nas orientações da Educação Inclusiva. Durante o desenvolvimento deste estudo, as professoras colaboradoras, relataram que não estão ou não se sentem preparadas para lidar com alunos com diferentes necessidades educativas. Quando trata- se de inclusão, considera- se como ponto central os aspectos ligados à formação do professor, visto que, estes devem se sentir qualificados para trabalhar com 19352 alunos de necessidade educacional especial. Assim, Almeida (2007, p.336) afirma que, “[...] formar o professor é muito mais que informar e repassar conceitos; é prepará-lo para um outro modo de educar, que altere sua relação com os conteúdos disciplinares e com o educando”. Neste contexto, vale destacar que o professor é fundamental no processo de inclusão. No entanto, torna-se imprescindível que este profissional tenha à disposição: estrutura material, Formação Continuada, melhores salários, valorização profissional por parte do Estado e da sociedade, assim como, Políticas Públicas de médio/longo prazo, que proporcione as condições de efetivação dos processos de constituição da Educação Inclusiva, sendo que “[...] a preparação de todo o pessoal que constitui a educação, como fator chave para a promoção e progresso das escolas inclusivas.” (Declaração de Salamanca, 1994, p. 27). Durante as narrativas identificou-se que nos cursos de Formação Inicial das professoras colaboradoras, as oportunidades ofertadas à respeito da Educação Inclusiva foram poucas, e este “pouco” muitas vezes foi apresentado de maneira fragmentada, como se fosse algo que não pudesse se efetivar. Fica claro isso, na narrativa da Professora Rosa, quando ela refere-se aos discursos de seus professores durante o curso de Graduação em Pedagogia: Dentro do próprio curso de Pedagogia ouvíamos dos professores o quão difícil é a questão da inclusão. Tivemos algumas disciplinas de Educação Especial, mas só tratava das Leis. Não falavam sobre a prática, sobre a realidade das salas de aula, da precariedade. Na verdade, não sei ao certo o que na época eu esperava aprender. Mas hoje sei o que preciso buscar, e não é a fragmentação das coisas, o discurso deve estar acompanhando a nossa prática. E, espero que os currículos dos cursos de Licenciaturas estejam focando mais para estas questões, e não apenas a oferta da disciplina de LIBRAS. Só isso não basta! Como pode- se ver na narrativa da professora Rosa, o curso de Pedagogia tinha disciplinas relacionadas à Educação Especial, porém, não priorizava a prática. Percebe-se, ainda, em sua fala que há certa tensão pela falta de conhecimento por parte dela em relação à Educação Inclusiva, pois, pelo que foi observado nessa narrativa, o que mais lhe deixa insegura é vivenciar o processo de inclusão na sua prática educativa. Ainda, nessa narrativa identifica-se a preocupação com a Formação Continuada, visto que, a mesma, relata que devido aos seus compromissos, não esta conseguindo participar de eventos. No entanto, informa que por ter em sala de aula um aluno com necessidades especiais, decidiu ingressar no curso de Educação Especial. A Professora Rosa nos diz que essa foi à maneira que encontrou de sentir-se mais segura frente à realidade da Educação Inclusiva: 19353 Adentrei no curso de Educação Especial, para aos poucos conseguir ter mais conhecimento, ter maiores informações e sentir-me mais segura na prática, prá realizar um bom trabalho com os possíveis alunos que poderei estar trabalhando no processo de inclusão. Em outro relato sobre Formação Continuada, a professora Margarida manifesta-se, dizendo: Não, não busquei. Mas, sinto necessidade, e como a maioria das pessoas acredito que só vou procurar uma Formação Continuada quanto enfrentar isso novamente. O que será tarde novamente! Já, a Professora Violeta, em sua narrativa apresenta uma questão importante ao falar da Formação Continuada. Relata que tem participado de muitos eventos, seminários, cursos, e observa que muitos dos eventos tratam basicamente dos mesmos assuntos, sem abordar as temáticas pertinentes as questões relacionadas com pessoas com necessidades especiais: Tenho observado que o que tem sido apresentado nos eventos são questões de Leis. E, de Leis já estamos cansados de saber, queremos soluções, queremos o que está nas propostas, e o que são apresentados nas Políticas Públicas aconteça, devemos fazer a inclusão e não depósitos de pessoas. Dentro da escola onde atuo, tenho escutado muitos colegas falando da impossibilidade de participar de eventos, devido a suas cargas horárias nas escolas, e eu me questiono a respeito da flexibilidade das instituições para que os professores participem de seminários. Na narrativa acima, é destacado que os cursos e eventos que visam à Formação Continuada são de suma importância, desde que constituam bases para que os professores saibam tratar de fatos inesperados do cotidiano escolar. Sendo assim, pressupõe-se que esses espaços formativos são relevantes no planejamento pedagógico, e do calendário escolar. Sendo que, os cursos que são ofertados fora do calendário escolar impossibilitam a participação dos professores. Lembra-se, que Mendes (2002) destaca a importância do diálogo entre os órgãos responsáveis pela formação e elaboração de cursos com os professores, para que os cursos ofertados possam atender à realidade vivenciada pelos docentes. A Professora Margarida destaca que no ano de 2011, a Secretaria da Educação do Município de Santa Maria/RS incluiu no calendário das escolas municipais uma semana de curso de formação sobre Educação Inclusiva. Mas, sinaliza para a necessidade de que as Secretarias de Educação, escolas e demais instituições de ensino assegurem que sejam incluídos nos calendários escolares as atividades de formação para os docentes: 19354 No ano passado tivemos um curso de formação sobre Educação Inclusiva, este foi incluído no calendário escolar, mas ainda é pouco, não contempla todas as demandas que tem sido apresentada por esta temática. Pretendo iniciar um curso de PósGraduação sobre Educação Especial/Educação Inclusiva, ainda tenho muito tempo para ficar dentro da sala de aula, e por isso preciso estar me aperfeiçoando. Nesta narrativa, percebe-se a preocupação da professora com as práticas educativas e a formação que possibilite subsídios para saber lidar com os processos de Educação Inclusiva, de maneira que seja possível efetivar a inclusão dos alunos deficientes. A professora Violeta faz ressalva para a falta de conhecimentos pedagógicos dela, para trabalhar com crianças deficientes: Sinto-me muito insegura para atuar com alunos com necessidades especiais, a Formação Inicial não nos oferta conhecimentos pedagógicos que possam nos dar segurança na prática. Mesmo sabendo que a formação deve ser constante, ela nunca é acaba, acredito que mesmo buscando uma Pós especifica na área da Educação Especial, deverei estar em constate busca, afinal, tudo muda. Para ela, mesmo que busque um curso de Pós-Graduação para possibilitar maior conhecimento, ainda assim, reconhece que necessita estar continuamente atualizando-se na sua formação, visto que, a sociedade espera que o professor seja capaz e preparado para: […] compreender e praticar o acolhimento à diversidade e esteja aberta a práticas inovadoras na sala de aula. No novo perfil, a professora deve adquirir conhecimento sobre como conhecer as características individuais (habilidades, necessidades, interesses, experiências, etc...) de cada um dos estudantes, a fim de poder planejar aulas que levem em conta tais informações (FERREIRA, 2006, p. 231). Dessa forma, têm-se fortes indícios da necessidade de promover mudanças estruturais de Políticas Públicas no que tange ao pensar/agir do professor desde a sua Formação Inicial, pressupondo-se que, só assim, as possibilidades de maior sucesso na qualidade de realização da inclusão escolar ocorra. A professora Violeta lembrou que: Em minha família há uma criança com deficiência, meu primo é surdo e percebo que a professora não consegue interagir com ele, tenho contato direto com ele, e percebo que às vezes ele fica ansioso para que o compreendam. Este é uma fator que me inquieta, que me preocupa, que me deixa muito angustiada, pois vivenciando estas situações com ele, eu percebo a importância da minha formação. A minha formação implica no desenvolvimento do meu aluno, seja ele deficiente ou não. Na citação, destaca-se o fato da professora Violeta ter um primo deficiente, por isto, ela sente necessidade de qualificar-se através da Formação Continuada. A narrativa dessa professora expressa que a ação docente não se desvincula da trajetória de vida, havendo apropriação dessas experiências para o campo profissional, pois a atuação do professor está 19355 fortemente relacionada à maneira como cada um se constitui como pessoa. Neste sentido, identidades profissionais e pessoais se entrelaçam, oferecendo elementos para a compreensão da experiência pedagógica dos professores. Mas quem é o professor neste processo? Na perspectiva de Nóvoa (1992), tem-se: […] professor é pessoa. E uma parte importante da pessoa é o professor (Nias,1991). Urge por isso (re)encontrar espaços de interação entre as dimensões pessoais e profissionais, permitindo aos professores apropriar-se dos seus processos de formação e dar-lhes um sentido no quadro das suas histórias de vida (NÓVOA, 1992, p.25). Assim, compreende-se que o professor se constitui como docente extrapolando os espaços escolares, pois as experiências pessoais implicam diretamente na formação do professor. Nos estudos de Mizucami (2000), esse processo de aprendizagem inicia antes da preparação formal, este processo se organiza a partir de diversas experiências e vivências e de diferentes modos de conhecimentos. E, neste processo o professor vai dando significados as suas experiências, de modo que a estas significações é que constituem o posicionamento deste docente frente a sua prática. Assim, como a prática em sala de aula torna-se grande ferramenta de reflexão para se pensar na própria prática. Todavia, considerando que o processo de formação pode se constituir por meio: [...] de uma reflexibilidade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal”, é que se torna relevante “investir na pessoa” e atribuir valor aos saberes constituídos no campo de atuação docente (NÓVOA, 1992, p. 25). Assim, todos os saberes adquiridos pelos docentes não é um fenômeno a parte das suas experiências, mas são sempre mediados por estas experiências. De acordo com Tardif (2002), esses saberes são provenientes de fontes diversas e não estão desvinculados das trajetórias de vida dos professores. Sendo o professor um sujeito social, ele está em constante contato com os espaços formativos, e tem uma história de vida, cultura e personalidade. Dessa forma, estes fatores poderão interferir na maneira como pensam e agem, e assim, constituindo a sua prática docente. Considerações Finais Pressupõe-se que é fato que a inclusão escolar traz em si um novo paradigma de educação. Sendo assim, torna-se imprescindível que a formação dos professores também seja 19356 direcionada nesta perspectiva. No novo perfil, espera-se que o professor seja capaz de compreender e praticar a diversidade e esteja aberto a práticas inovadoras. Deve, portanto, aprimorar conhecimentos sobre como melhor lidar com as características individuais (habilidades, necessidades, interesses, experiências, etc.) de cada aluno. Fica evidente que sem mudança de agir, não há como realizar a inclusão de maneira significativa. A partir das questões apresentadas pelas professoras colaboradoras acredita-se, que seja de suma importância que a mudança comece a se efetivar a partir da Formação Inicial do professor. No entanto, essa formação precisa estar aliada a uma consciência crítica deste profissional em relação à aprendizagem dos seus alunos, ou seja: A formação de professores caracteriza-se como ação fundamental, para que a inclusão ocorra de fato, mudando assim a realidade da educação especial no país, exterminando preconceitos e ampliando horizontes. Na educação a meta principal é satisfazer as necessidades específicas da aprendizagem de cada criança, incentivando a mesma a aprender e desenvolver seu potencial, a partir de sua realidade particular. Isso requer, por parte dos professores, maior sensibilidade e pensamento crítico a respeito de sua prática pedagógica. Esta prática pedagógica deve ter como objetivo a autonomia intelectual, moral e social de seus alunos. A partir do movimento de inclusão o professor precisa ter capacidade de conviver com os diferentes, superando preconceitos em relação às minorias (GAZINEU, 2006, p. 2). Na citação acima, percebe-se o quanto precisa-se avançar em relação a formação de professores para contemplar os pressupostos da Educação Inclusiva. Neste sentido, é relevante expor que a Formação Inicial é um momento importante e decisivo para a formação de professores, pois é nesse período que se tem a possibilidade de familiarizar-se com conhecimentos de situações que provavelmente enfrenta ou enfrentará no seu fazer pedagógico. Porém, vale lembrar que a Formação Inicial não é garantia suficiente para o sucesso do desenvolvimento de práticas pedagógicas que contemplem os processos inclusivos. Destaca-se, também, a importância de uma análise dos currículos dos cursos de Licenciaturas, pois percebe-se que a Formação Inicial, ainda, não contempla as exigências para a efetivação da Educação Inclusiva. Sendo que, quando fala- se em formação de professores, lembra-se da importância do Ensino Superior para a formação desses profissionais que estão/estarão atuando na Escola Básica, seja pública ou privada, para os processos de (re)construção do conhecimento e na formação do ethos das crianças. Na Declaração de Salamanca (1994) destaca-se a preocupação em relação à formação de professores para atuarem na Educação Inclusiva, aonde o documento apela aos governantes 19357 o direito/dever de: “[...] assegurar que num contexto de mudança sistemática, os programas de formação do professorado, tanto inicial como contínua estejam voltados para atender às necessidades educacionais nas escolas.” (Declaração de Salamanca, 1994, p. 11). Dessa forma, as universidades, em especial, aquelas que se dedicam à formação de profissionais da educação, necessitam assumir com responsabilidade o papel que lhes é atribuído, formadoras de profissionais de ensino, capazes de assumir a responsabilidade de atuar frente à diversidades encontradas nas escolas. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Dulce Barros de et al. Política educacional e formação docente na perspectiva da inclusão. Educação. CE/USFM. Santa Maria (RS), v. 32, n. 2, 2007, p. 327-342. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 2, de 11 de setembro de 2001. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Brasília, 2006. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução Nº 1, de 18 de fevereiro de 2002, que institui as Diretrizes Curriculares para Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena. Brasília, 2002. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. 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