Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.127-131, 2003 ISSN 1517-8595 127 ANÁLISE SENSORIAL DE ALIMENTOS FUNCIONAIS ENRIQUECIDOS COM FOLHA DE Manihot spp. Karina O. L. de Almeida1, José C. C. Santana2, Roberto R. de Souza3 RESUMO A pouca utilização da folha de mandioca (Manihot spp) na alimentação humana deve-se à falta de informações técnicas-científicas que permitam o conhecimento detalhado deste alimento. Neste trabalho realizou-se um estudo sobre a folha da mandioca, consistindo de uma revisão da literatura onde foi possível avaliar a obtenção, produção, composição e utilização tanto para a folha da mandioca como para a raiz, pois esta última, ao contrário das folhas, atualmente é muito utilizada pelo homem. Para isto, realizou-se pesquisa em laboratório para avaliação do paladar via análise sensorial tendo como avaliadores um conjunto de 52 pessoas, os quais experimentaram suco de acerola e caju (ricos em vitamina C) associados ou não ao pó da folha de mandioca. Com base nos resultados obtidos, podemos observar que o critério BOM recebeu 34,62% de aceitação, seguido pelo MUITO BOM com 24,62%, mostrando assim que as misturas realizadas para cada suco obtiveram uma aceitação boa. Palavras-Chave: folha de Manihot spp.; análise sensorial; alimentos funcionais. SENSORIAL ANALYSIS OF FUNCTIONAL FOOD, WHICH IS ENRICHED BY Manihot spp. LEAF ABSTRACT The little use of the cassava leaf (Manihot spp) in the human feeding is due to the lack of technique-scientific information that allows the detailed knowledge of this food. In this work it took place a study on the cassava leaf consisting of a revision of the literature where it was possible to evaluate the obtaining, production, composition and use so much for the cassava leaf as for the root, because it is very used by the man nowadays, unlike the leaves. A research, at the laboratory, was done for the evaluation of the taste through sensorial analysis, having tends as a group of 52 appraisers who tried West Indian cherry and cashew (rich in vitamin C) juices associated or not to the powder of the cassava leaf. According to the obtained results, we can observe that the good criterion received 34.62% of acceptance, followed by the very good one with 24.62%, showing that the accomplished mixtures for each juice obtained a good acceptance. Keywords: Manihot spp. leaf; sensorial analysis; functional food. . __________________ Protocolo 102 de 10/ 09/ 2003 1 Especialista em Tecnologia de Alimentos, DEQ/UFS 2 Doutorando, FEQ/UNICAMP, Campinas SP - Brasil, E-mail: [email protected]. 3 Professor, DEQ/CCET/UFS, Av Marechal Rondon, S/N, Jd. Rosa Elze, São Cristóvão-SE, Brasil, CEP: 49100-000, E-mail: [email protected], Fax: (0xx) 79 212-6684. 128 Análise sensorial de alimentos funcionais enriquecidos com folha de Manihot spp. Almeida et al. INTRODUÇÃO Por constituir a base alimentar de uma parte considerável da população em extensas regiões da África, Ásia e América Latina, a mandioca (Manihot spp) é uma importante cultura agrícola assumindo posição de destaque sócio-econômica mundial, em face de elevada capacidade de adaptação a condições climáticas e produção de goma por unidade de área. Em 1991, o Brasil produziu 24.632.000 toneladas, ou seja, 16% da produção mundial, tendo os estados abaixo citados como os de maior produção nacional no período Bahia, Pará, Paraná, Maranhão, Rio Grande do Sul, Piauí, Santa Catarina, Pernambuco e Ceará. Os índios, desde a colonização, utilizaram-na no preparo de alimentos como em bebidas licorosas. Se, corretamente utilizada, enriquece nossa alimentação, pois, além de seu delicioso sabor, possui alto valor nutritivo. Assim podemos observar que maior parte da produção de mandioca destina-se ao consumo humano (Basttisti, 1979, Santana, 1985; Vilela e Ferreira, 1987). Sendo este de fundamental importância na dieta do ser humano, fornece alimentos nas mais variadas formas, tanto in natura , quanto processada. De acordo com a idade da planta, a composição química e o valor nutricional da mandioca apresentam uma larga variação (condições climáticas e práticas culturais), devendo ser processado dentro dos parâmetros para que as raízes e plantas apresentem potencial adequado para alimentação humana. Assim podemos observar que a composição média das raízes apresenta: 60 a 65% de umidade, 30 a 35% carboidrato, 1 a 2% de proteína bruta. Estas raízes, também, contêm pequena quantidade de vitaminas e sais minerais e possuem valor razoável de cálcio, vitamina C, tiamina, riboflavina e ácido nicótico. Possuem, também, de 3,2 a 4,5% de fibra, sendo o restante de amido (fécula). Encontramos, também, na sua composição carboidratos como: sacarose, maltose, glicose e frutose, em quantidades limitadas. Apresentam ainda uma grande quantidade de cálcio e fósforo, apesar de ser, relativamente, pobre em minerais e vitaminas. Já as folhas da mandioca (parte aérea) frescas apresentam uma quantidade de 11,4% de carboidratos. (Balagopalan et al., 1988; Gramacho, 1973). As folhas são ricas em HCN, devendo ser feita à secagem delas, eliminando, assim, grande parte das toxinas, como o cianureto, que é uma substância que apresenta rápida ação como veneno e seu efeito depende da concentração ingerida ou inalada, podendo levar o ser humano a ter convulsões, vômitos, coma e até a morte. Foi observado em estudos que a dose letal de cianeto em adultos é de 50 a 60mg (Balagopalan et. al., 1988). A deficiência protéica na alimentação humana é um grave problema em muitos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos; haja vista que o pó da folha de mandioca como fonte de alimentação alternativa adicionada a outros alimentos tais como: sucos, sopas, mingaus e batidos de frutas, enriquece estes alimentos, pois esta é rica em minerais a exemplo do ferro e em vitaminas como o ácido ascórbico. Quando adicionada aos sucos ricos em vitamina C, a exemplo dos sucos de acerola e caju, a literatura relata que haverá uma maior absorção do ferro associado com a vitamina C pelo trato gastrintestinal, diminuindo ou curando doenças como anemia. Apesar de constituir uma fonte de nutrientes essenciais para o homem e animais, as folhas são materiais ricos na sua estrutura em fibras, sendo, em muitos casos, difícil a digestão pelo organismo do homem. Segundo Allen (1984) e Molina (1989), o consumo direto de folhas verdes está fortemente limitado, não só pelo alto teor de fibra, como pela presença, também, de substâncias tóxicas, fatores antinutritivos e pelo sabor. Assim, este trabalho teve como objetivo primordial uma avaliação da aceitação da adição do pó da folha de mandioca desidratada aos sucos de acerola e caju, visando o consumo pelo ser humano. Contribuindo, assim, para uma diminuição e/ou eliminação de doenças, tendo, conseqüentemente, um aumento na qualidade de vida. MATERIAIS E MÉTODOS Produtos utilizados: Pó de folha de mandioca seca, polpa de caju, póla de acerola, água mineral sem gás e açúcar cristal. Equipamentos utilizados: Balança analítica, liquidificador, vidros de relógio, provetas graduadas, balões volumétricos. Preparo das Amostras: Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.127-131, 2003 Análise sensorial de alimentos funcionais enriquecidos com folha de Manihot spp. Almeida et al. Amostra 1 - Polpa de caju com o pó da folha de mandioca: Foi preparada, pesando-se cerca de 5,0 g de pó de folha de mandioca seca e misturando-se em liquidificador, a 800 mL de polpa de caju, 300 g de açúcar cristal e 1500 mL de água mineral medidos em provetas graduadas. Acondicionou-se a mistura em geladeira até a análise sensorial. Amostra 2 Polpa de caju: Após medição de 800 mL de polpa de caju e 1500 mL de água mineral em proveta graduada e pesagem de 300 g de açúcar cristal, misturou-se em liquidificador para obter uma homogeneização de todos os componentes. Acondicionou-se a mistura em geladeira até a análise sensorial. Amostra 3 Folha de mandioca com água: Pesou-se aproximadamente 5,0 g de pó de folha de mandioca seca e misturou-se em liquidificador, a 1500 mL de água mineral e 300 g de açúcar cristal. Acondicionou-se a mistura em geladeira até a análise sensorial. Amostra 4 Suco de acerola: Mediu-se 1500 mL de água mineral e 800 mL de polpa de acerola em proveta graduada, e misturou-se em liquidificador a 300 g de açúcar cristal. Acondicionou-se a mistura em geladeira até a análise sensorial. Amostra 5 Suco de acerola com pó de folha de mandioca: Foi preparada, misturandose cerca de 5,0 g de pó de folha de mandioca seca em liquidificador, a 1500 mL de água mineral e 800 mL de polpa de acerola, medidos em proveta graduada, e 300 g de açúcar cristal. Acondicionou-se a mistura em geladeira até a análise sensorial. Análise sensorial: Foi realizada no Laboratório de Processos de Separação do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de Sergipe; foram avaliadores alunos, professores e servidores, totalizando um conjunto de 52 pessoas. A avaliação foi feita pelo enquadramento das amostras nos critérios especificados na Tabela 01, pelos sensores analistas. RESULTADOS E DISCUSSÕES Com base nos procedimentos descritos anteriormente, obtiveram-se as amostras das respectivas misturas a serem avaliadas que são mostradas nas Figuras 1 a 5 e seus respectivos resultados obtidos, nas Tabelas 1 e 2. 129 Figura 1 Suco de caju com pó da folha de mandioca Figura 2 Suco de caju Figura 3 Pó da folha de mandioca Com base nesses resultados, podemos concluir que numa avaliação geral, o critério BOM recebeu 34,62% de aceitação, seguido pelo MUITO BOM com 24,62%, mostrando, assim, que as misturas realizadas em cada suco obtiveram uma aceitação boa. É importante salientar que a amostra 3 não teve aceitação do público alvo, mesmo Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.127-131, 2003 Análise sensorial de alimentos funcionais enriquecidos com folha de Manihot spp. Almeida et al. 130 tendo uma excelente aparência, como podemos observar na Figura 3. Figura 4 Suco de acerola Com base nos dados apresentados na Tabela 2, podemos concluir que a amostra 5 obteve 15,38% do critério ÓTIMO, mostrando ser o mais adequado dentro das formulações estudadas. Quando comparada esta amostra com a amostra 1, observa-se que a aceitação para o critério ÓTIMO é de 60% maior. Vale ressaltar que para o critério ÓTIMO o valor obtido para a amostra 05 é superior aos obtidos para as amostras 2 e 4, que correspondem aos sucos de caju e acerola, respectivamente, sem adição do pó da folha de mandioca. Mostrando que a adição deste pó ao suco é uma forma viável do ser humano absorver o ferro e a vitamina C contidos na mistura, minimizando a incidência de doenças que possam ser causadas pela ausência desta vitamina e deste mineral. A amostra 1 mostrou uma pequena aceitação, quando comparada com a amostra 2, indicando que esta combinação não é muito apropriada para que o pó da folha de mandioca seja consumido. Já para as amostras 4 e 5, nota-se que a mistura (amostra 5) teve uma aceitação maior que para o suco da própria fruta. Assim, podemos concluir que a amostra 5 é a mais apropriada para o referido estudo. Figura 5 Suco de acerola com pó de folha de mandioca Tabela 1 Resultados obtidos da análise sensorial CRITÉRIOS AMOSTRAS 01 02 03 04 ÓTIMO 05 07 00 07 MUITO BOM 09 21 01 16 BOM 32 14 04 18 REGULAR 04 10 19 10 RUIM 02 0 28 01 52 52 52 52 Tabela 2 05 08 17 22 04 01 52 27 64 90 47 32 Percentual Obtido da Análise Sensorial CRITÉRIOS ÓTIMO MUITO BOM BOM REGULAR RUIM 01 09,62 17,30 61,54 07,70 03,84 02 13,47 40,38 26,92 19,23 00,00 AMOSTRAS 03 00,00 01,93 07,69 36,54 53,84 04 13,47 30,76 34,62 19,23 01,92 05 15,39 32,69 42,30 07,70 01,92 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.127-131, 2003 Análise sensorial de alimentos funcionais enriquecidos com folha de Manihot spp. Almeida et al. CONCLUSÕES Neste trabalho, pode-se observar através de dados da literatura que a folha de mandioca possui um teor considerável de minerais, especialmente o ferro, sendo este de fundamental importância para o combate da anemia no ser humano. Logo, o suco de frutas (especialmente as ricas em vitamina C) associado com o pó da folha de mandioca mostra-se uma alternativa alimentar importante, ajudando no combate da anemia, uma vez que o organismo absorve melhor o ferro, quando associado a vitamina C. Assim, com base nos dados experimentais para a análise sensorial, podemos concluir que as aceitações dos sucos associados foram BOAS, mostrando que é possível uma a utilização desta associação (suco de fruta rica em vitamina C mais o pó da folha de mandioca), não só como alternativa alimentar, mas também como um suplemento para o combate à anemia, principal na saúde de pessoas de baixo poder econômico. 131 Balagopalan, C; Padmaja, G; Nanda, S. K.; Moorthy S. W. Cassavaim Food, Food and Industry. CRC Press, Florida, 1988. 205p. Battisti, C. R. de. Determinação de toxidade cianogência e carboidratos em cultivares de mandioca (M. esculenta Grantz) e sacrificação do amido por extrusão. Dissertação de Mestrado, Viçosa, UFV, 1979. Gramacho, D. D. Contribuição ao estudo químico e tecnológico do ferro de mandioca. In: Projeto Mandioca. Cruz das Almas, Escola de Agronomia da UFBA, 1973. Molina R. C. Caracterização bioquímica e nutricional de concentrado protéico de folhas de mandioca. (Manihot esculenta grantz) obtido por ultrafiltrção. Campinas: UNICAMP, 1989. (Tese de Doutorado) Santana, A. M. A Toxidade da Mandioca. Cruz das Almas: Escola de Agronomia da UFBA, 1985. (Dissertação de Mestrado). REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA Allen, R. D. Fudstuffs ingredient analysis table. Stuffs, London, 56130: 25, 1984. Vilela, E. R. Ferreira, M. E. Tecnologia de produção e utilização de amido de mandioca. Informe Agropecuário. Belo Horizonte, v.13, n.145, p.69 74, 1987. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.127-131, 2003 132 EDITAL DE SELEÇÃO DE CANDIDATOS Doutorado em Engenharia de Processos O curso de Doutorado em Engenharia de Processos foi criado por Resolução 01/99 do CONSUNI da UFPB. Foi credenciado pela CAPES em março/2002. As inscrições para o Processo de Seleção para ingresso no Doutorado de Engenharia de Processos são abertas anualmente para inicio a partir de março de cada ano, sendo o período de inscrição realizado entre outubro e novembro do ano anterior. DOCUMENTOS EXIGIDOS: Formulário de Inscrição devidamente preenchido Duas cartas de Recomendação (formulário específico) 2 fotos de 3x4 recentes Cópia do diploma de Mestre ou documento equivalente Curriculum Vitae do candidato (com comprovantes) Históricos Escolares da graduação e do Mestrado Plano preliminar de Tese aceito por um orientador credenciado pelo Curso Cópia autenticada da carteira de identidade. Prova de estar em dia com as obrigações militares e eleitorais A seleção dos candidatos será realizada com base na análise do Curriculum Vitae,(peso 4) Histórico Escolar (peso 4) e Plano de Tese aceito por Professor cadastrado no Curso.(peso 2) O Plano de Tese , com um máximo de 6 páginas, deverá incluir introdução, justificativa, objetivos e metodologia. Apresentação Oral do Plano de Tese: 02 e 03 de dezembro de 2002 Vagas: 20 ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: DESENVOLVIMENTO DE PROCESSOS LINHAS DE PESQUISA : PROCESSOS TÉRMICOS E DE SEPARAÇÃO DESENVOLVIMENTO E TECNOLOGIA DE MATERIAIS OBJETIVOS: O Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal da Paraíba tem uma ampla e reconhecida tradição nos cursos de pós-graduação em diversas áreas de engenharia. Modernamente, tendo em vista os recentes progressos no ensino de engenharia, ações que privilegiem atuações multidisciplinares entre áreas afins, são fortemente recomendadas. O Curso de Doutorado em Engenharia de Processos, de natureza interdisciplinar, aglutina docentes dos Departamentos de Engenharia Química, de Materiais, Mecânica e Agrícola em torno de tópicos relativos à Engenharia de Processos, principalmente, através da abordagem de problemas regionais. O objetivo primário do Doutorado em Engenharia de Processos é a pesquisa, treinamento e formação de pessoal altamente capacitado, utilizando os princípios fundamentais da Ciência da Engenharia aplicados ao estudo dos fenômenos das transformações, operações e processos envolvidos nas industrias de diversos setores, tais como: químico, cerâmico, plásticos, bioquímico, farmacêutico, metalúrgico, agroalimentar, etc. Alunos do Curso tem atualmente bolsas da CAPES, CTHIDRO e ANP. Cada uma das duas linhas de pesquisa oferecidas pelo programa inclui grandes temas de pesquisa de natureza multidisciplinar que contemplam o desenvolvimento de uma série de projetos específicos voltados para a área de Desenvolvimento de processos. Maiores informações consultar http://www.cct.ufcg.edu.br/ This document was created with Win2PDF available at http://www.daneprairie.com. The unregistered version of Win2PDF is for evaluation or non-commercial use only.