BIG BANG – O Grande Equívoco A VISÃO TERMODINÂMICA Para um esclarecimento sobre os conceitos utilizados pelos cientistas ligados ao modelo do Big Bang e os conceitos termodinâmicos, é preciso esclarecer o que se conceitua como estudo termodinâmico e suas principais formas de energia, a coesão e a entropia. Conceito de Termodinâmica A termodinâmica é o estudo quantitativo das modificações das propriedades dos sistemas materiais com a temperatura. Ela também pode ser definida como o estudo das leis gerais das transformações das diferentes formas de energia. Um sistema termodinâmico é caracterizado como uma parte do universo sujeita à análise termodinâmica, o que indica que nenhum sistema pode ser caracterizado como termodinâmico pela existência de propriedades específicas, mas, fundamentalmente, pelo método com que é analisado, razão pela qual, para se estudar termodinamicamente um sistema qualquer, é necessário acrescentar às variáveis inerentes ao sistema, uma nova variável: a temperatura (T). A caracterização de um sistema termodinâmico é dado pelas coordenadas do sistema, que é um conjunto de variáveis associadas a ele e que permitem identificá-lo univocamente. A cada conjunto de valores das variáveis que caracterizam um sistema, corresponde um determinado estado do sistema. A análise das transformações de energia podem ser feitos por dois processos diferentes: -o primeiro consiste na condução da análise utilizando hipóteses ou teorias sobre a constituição atômico molecular dos corpos e que são chamadas variáveis microscópicas. -o segundo consiste na condução da análise utilizando apenas as variáveis que caracterizam o sistema como um todo e que são chamadas variáveis macroscópicas. A descrição microscópica requer um grande número de variáveis para descrever o sistema; geralmente essas variáveis são difíceis (às vezes impossíveis) de serem medidas diretamente. Esta é a forma de descrição adotada pela termodinâmica estatística. A descrição macroscópica geralmente requer apenas um pequeno número de variáveis, que podem ser medidas diretamente e que têm uma relação intuitiva com os sentidos humanos. Esta é a forma de descrição adotada pela termodinâmica clássica. A análise termodinâmica de um processo não leva em conta a variável tempo. Se as coordenadas termodinâmicas do sistema não variam com o tempo, o sistema se encontra em equilíbrio termodinâmico. Os sistemas naturais tendem para um estado de equilíbrio seguindo um processo espontâneo. Muitas transformações de um estado de não equilíbrio para um estado de equilíbrio ocorrem com extrema lentidão, o que não influi na análise termodinâmica do processo, que não inclui a variável tempo. Termodinamicamente um processo ou transformação é dito reversível quando ele é constituído por uma sucessão contínua de estados de quase equilíbrio, isto é, o sistema em evolução passa sucessivamente por estados infinitamente próximos uns aos outros, mas sempre se conservando em condições infinitamente próximas do equilíbrio. Quando, durante um processo, não há alteração brusca de nenhuma variável intensiva entre dois pontos vizinhos do sistema, diz-se que o sistema evolui segundo um processo com reversibilidade interna (só diz respeito ao interior do sistema). 1 BIG BANG – O Grande Equívoco Quando, durante um processo, em cada estágio desse processo, as variáveis intensivas do sistema diferem infinitamente pouco das variáveis intensivas análogas do exterior, diz-se que o sistema evolui em condições de reversibilidade total. Conceito de Entalpia Existe uma certa confusão na conceituação de entalpia, principalmente em relação a sua natureza. Os físico-químicos estão acostumados a lidar e a se referir a duas características termodinâmicas: a Entalpia e a Entropia. Como a Entropia é classicamente ligada ao conceito de desordem, de caos, alguns são levados intuitivamente a fazer correlação da entalpia com alguma forma de energia de ligação entre partículas, ou seja, com energia coesiva. É comum observarmos nos livros texto, referências à entalpia como energia, e à entropia como desordem, caos de posição. A própria discussão do equilíbrio termodinâmico nos leva a isso; lá diz que e diz que para T baixo, importa a quem comanda o equilíbrio é a relação T distribuição caótica de energia entre as partículas do sistema. E segue que, com o aumento de T, a relação se torna tão pequena que a distribuição de energia deixa de ter importância, passando a importar aí, a distribuição caótica de posição. É claro que essa afirmação está correta; entretanto, pela forma como é apresentada, leva muitos a fazerem a confusão citada. O que é preciso ficar claro é que a Entalpia é apenas o "apelido" que se dá ao calor (q) quando ele é trocado entre o sistema e o meio sob pressão constante. Basta verificar a origem do termo, obtido a partir do Primeiro Princípio da Termodinâmica: q = dU + p.dV + V.dP No caso do processo evoluir a pressão constante, V.dP = 0, logo, a expressão se torna: q = dU + p.dV a qual, para o caso de p cte, pode ser integrada obtendo-se: q = (U2 + p.V2) – (U1 + p.V1). A expressão U + p.V recebeu o nome de Entalpia e sua variação já leva em conta, além da variação de energia interna (U) também a variação de volume (V) durante a evolução do processo. A variação de Volume só tem sentido em gases, pois nos sistemas condensados (líquidos e sólidos) essa variação é desprezível. O esclarecimento pode ser obtido na própria definição de Entalpia: ela é definida como o "conteúdo térmico" ou o "conteúdo de calor" do sistema, quando o sistema evolui a p constante. Dessa forma, como quem gera a Entropia é o calor recebido pelo sistema, podese concluir que a Entalpia é a própria energia entrópica. Assim sendo, pode-se afirmar que a variação de Entalpia (H) num processo, nada mais é do que a variação de energia entrópica desse sistema, quando o processo evolui a p constante. H por mol) A própria expressão da Entropia, deduzida mais a frente (S = R.T evidencia que a variação de Entropia (S), que é adimensional, é diretamente 2 BIG BANG – O Grande Equívoco proporcional à variação de Entalpia (H), que nada mais é do que o “calor” recebido pelo sistema a pressão constante. Daí, fica fácil observar que o fator RT (R é a constante universal dos gases perfeitos e T é a Temperatura absoluta em que o sistema se encontra), que transforma a variação de entalpia (que tem dimensão de energia) em um número adimensional, já que S nada mais é do que o número de “quanta” fornecidos ao sistema, é um fator que tem a dimensão de energia. E, de fato, como a dimensão de R é energia / mol x °K e a Temperatura é °K, resta que o fator RT tem como dimensão energia / mol. Dessa forma, o produto desse fator com dimensão de energia (RT) pelo adimensional S, que significa variação de caos, gera a energia que quantifica esse caos (entropia). Por outro lado, quando o processo evolui com variação da pressão, perde o sentido falar em Entalpia e se obtém a Entropia diretamente a partir do calor (q). Assim, por se tratar de um caso particular do calor (q), a generalização do uso do conceito de Entalpia é que permite essa confusão. Portanto, parece ser mais claro a utilização do conceito de energia ligado ao de coesão, ou seja, energia organizada oriunda da ligação entre quaisquer partículas, e o calor “q” trocado entre o sistema e o meio como energia desorganizada, ligada ao conceito de Entropia. O Conceito de Coesão O conceito de coesão é o oposto ao conceito de entropia: enquanto este mede a desordem (caos) do sistema, a coesão mede a força com que as partículas estão ligadas. O estudo completo da coesão é bastante complexo, devido ao enorme número de formas de apresentação da energia coesiva, especialmente das forças de coesão que lhe dão origem. Neste trabalho não há interesse em apresentar um estudo profundo sobre as forças e energias de coesão, bastando que fique claro que essas forças apresentam direcionamento e contribuem para o abaixamento da energia livre total do sistema através do envio desta energia para o universo, em forma de entropia. Contribuem para a coesão entre as partículas do sistema todas as forças (energias) que as ligam com cada vez mais intensidade e, dentre elas pode-se citar: - as forças nucleares forte e fraca; as forças eletromagnéticas; as forças do retículo cristalino das ligações iônicas; as forças das ligações covalentes; as forças das ligações metálicas; as forças de atração dipolo-dipolo (permanentes e induzidos); as forças dispersão de Van der Waals; as forças das pontes de hidrogênio, etc. 3 BIG BANG – O Grande Equívoco O Conceito de Entropia O conceito de Entropia é mais delicado que o de Coesão, e tem causado muita confusão, que parece estar intimamente ligada à defasagem entre a conceituação filosófica e a indevida generalização de sua formulação matemática. a - Conceituação Filosófica A conceituação filosófica da Entropia não é difícil de ser compreendida: ela é ligada ao conceito de probabilidade intrínseca do sistema. Sabe-se que o aumento da temperatura aumenta o conteúdo energético (energia térmica) do sistema, sendo que a partir de determinada temperatura, onde a energia coesiva deixa de ser importante, passa a importar a energia entrópica, medida pelo caos de posição das partículas do sistema. Deve ficar claro que quando se fala em mudança aleatória (caos) de posição das partículas do sistema, isto não obriga a uma troca na posição que cada partícula ocupa no espaço tridimensional em relação às outras partículas: esta é somente uma das formas de manifestação do caos de posição, chamado deslocamento translacional. Mas existem também os movimentos de rotação e de vibração das partículas: o de rotação faz a partícula girar em torno de um de seus eixos de rotação, o que não envolve mudança de posição no espaço tridimensional e o movimento vibracional, pelo qual, cada duas unidades de uma mesma partícula vibram (movimento de vai e vem) em torno de um ponto médio, sendo que a excitação desse movimento pode ampliar a freqüência dessa vibração ou aumentar sua amplitude. Para o aumento da desordem (caos) do sistema, a quantidade de calor (q) recebida do universo e que gera o aumento do conteúdo térmico do sistema, deve ser distribuído às partículas em forma de pacotes de energia (quanta energéticos) distribuídos ao acaso em função dos graus de liberdade existentes (translacional, rotacional e vibracional) e do espaçamento energético de cada grau de liberdade. Isto também fica explícito a partir da teoria da capacidade calorífica de EinsteinDebye, segundo a qual: "a entropia das oscilações é tanto maior quanto menor for a rigidez do enlace". Isto significa que se o enlace entre duas partículas é menos rígido, o par pode vibrar mais livremente, além de uma das partes poder girar em relação a outra parte. Logo, no mesmo intervalo de tempo considerado, haverá mais variações nas posições possíveis para o conjunto, o que confere ao sistema uma maior probabilidade intrínseca, logo, uma maior entropia. Portanto, o aumento da rigidez do enlace, seja pela multiplicidade de ligações entre seus constituintes, seja pelo aumento da coesão (gerado pela diminuição da temperatura), além de dificultar a oscilação (vibração), impede a rotação de uma parte da partícula em relação a outra, diminuindo muito a probabilidade intrínseca do sistema, logo, diminui muito sua entropia. Como a 0 0K é atingida a maior rigidez possível entre as ligações, já que elas se tornam tão rígidas que acabam todos os graus de liberdade, fica óbvio que nesse ponto a entropia será nula. Logo, pode-se concluir que a entropia de um sistema é tanto maior quanto maior for a probabilidade de estado desse sistema. E, como se viu, a maior probabilidade intrínseca de um sistema depende da maior probabilidade de alterações nas posições dos 4 BIG BANG – O Grande Equívoco elementos constituintes do sistema, que por sua vez, é tanto maior quanto maior for a agitação térmica do sistema, logo, maior seu conteúdo térmico. A influência da temperatura na Entropia pode ser bem compreendida na seqüência de comportamentos da desordem de um gás quando o mesmo baixa a temperatura, conforme encontrado nos livros texto de físico-química, descrito como segue: - quando um gás é resfriado, sua entropia diminui. Isto porque, com a diminuição da temperatura a energia a ser distribuída em forma translacional (cujo valor é 3/2. kT) é cada vez menor, logo, a desordem de movimentos diminui, como também há restrição aos graus de liberdade rotacional e vibracional. Em todos três graus haverá cada vez menos estados excitados ocupados. - quando um gás se liquefaz, sua entropia diminui drasticamente. Na temperatura onde o gás se condensa, a translação das partículas é muito mais restrita, diminuindo drasticamente a desordem de posição; diminuem menos a rotação e a vibração. - quando um líquido é resfriado, sua entropia diminui. O abaixamento da temperatura restringe mais ainda o movimento molecular do líquido e os estados de energia ocupados é cada vez menor, diminuindo portanto, a desordem de movimentos. - quando um líquido se solidifica, sua entropia diminui drasticamente. Na solidificação as moléculas se distribuem regularmente no retículo cristalino, perdendo mais liberdade de movimento, mantendo tão somente os modos normais de vibração do cristal, mas refletindo a rigidez e a regularidade do estado sólido. - quando um sólido se resfria, sua entropia diminui. Como no estado sólido já não existem mais os graus de liberdade translacional e rotacional, o abaixamento da temperatura vai diminuindo progressivamente o movimento vibracional das moléculas em torno de suas posições de equilíbrio, diminuindo portanto, a desordem de movimento (a desordem de posição já não existe no estado sólido). A 00K todo movimento desordenado deve cessar, já que cada molécula adquire posição fixa no retículo cristalino, não havendo nem vibrações caóticas excitadas e o sistema fica isento de qualquer tipo de desorganização, logo, só existe um arranjo possível, que corresponde ao cristal perfeito. Como a entropia é o logaritmo da probabilidade, com um só arranjo possível (P=1, logo, lnP=0) a entropia do sistema é zero. b - Avaliação Qualitativa da Entropia Uma forma qualitativa de se compreender a entropia, encontrada em livros texto, se baseia em considerar uma sala de aula cheia de crianças com sua professora, e imaginar que o teto é uma enorme máquina fotográfica, capaz de fazer tomadas sucessivas com intervalos tão pequenos quanto se queira. Durante certo período de aula, com todas as crianças sentadas prestando atenção à professora, são tomados um sem número de fotos. A sobreposição destas fotos apresenta pequenas e localizadas manchas leves, correspondendo a eventuais movimentos de braços ou de cabeça das crianças, já que todas estão sentadas e quietas. Esta é a imagem de um sistema de baixíssima entropia, já que o ambiente está completamente organizado, com pouquíssimos movimentos perceptíveis. Em um segundo estágio, imaginemos que a sucessiva tomada de fotos se realize no momento em que toca o sinal do recreio e a criançada toda levanta ao mesmo tempo, correm em todas as direções, atiram cadernos, se abraçam, pegam suas merendas, etc. Neste caso, a sobreposição destas fotos vai mostrar uma enorme e intensa mancha, 5 BIG BANG – O Grande Equívoco ocupando grande parte do espaço total, que indica que o ambiente se tornou altamente entrópico. A comparação das duas situações simuladas, mostra claramente que houve um enorme aumento de entropia da primeira para a segunda situação. c - Formulação Matemática da Entropia A conceituação analítica da entropia é que leva a tantas interpretações nebulosas. Ela foi definida inicialmente, empiricamente, pela relação entre o calor trocado reversivelmente entre o sistema e o meio (qr) e a temperatura absoluta (T) em que essa troca se efetua, ou seja: S = q r ou T S = H T Com a introdução do conceito de probabilidade, ela passou a ser definida matematicamente através do seguinte esquema. Na expansão de um gás ideal à temperatura constante, em dois balões interligados e de volumes diferentes, pode-se observar que no equilíbrio as moléculas se distribuem proporcionalmente aos volumes dos balões. Como exemplo, se tivermos 4 (quatro) moles de um gás num balão de um litro, e este estiver conectado a um balão de 3 (três) litros, ao se abrir a comunicação, o gás migrará para o balão maior, até atingir o equilíbrio. No final o equilíbrio será alcançado quando a pressão for uniforme nos dois balões, o que terá como condição a presença de 1 (um) mol do gás no balão de 1 (um) litro e 3 (três) moles de gás no balão de 3 (três) litros. Isto indica que a distribuição mais provável do gás é proporcional aos volumes dos recipientes. Daí, podemos concluir que a probabilidade (P) do gás é: P = b.V onde b é a constante de proporcionalidade. Portanto, num processo de expansão à temperatura constante, de um gás ideal, do estado 1, a partir de um volume V1 , logo, com probabilidade P1 até um estado 2, com dado volume V2, logo, com probabilidade P2, teremos: P1 = b. V1 e P2 = b. V2 A entropia, por ser uma medida da desordem do sistema em função dos efeitos térmicos, é ligada à probabilidade intrínseca do sistema, daí ser definida como o logarítimo natural da probabilidade de estado do sistema, e portanto: S = ln P Assim, na expansão considerada acima, podemos escrever: S1 = ln P1 e S2 = ln P2 Daí conclui-se que a variação de entropia ligada à expansão isotérmica de um gás ideal é: 6 BIG BANG – O Grande Equívoco S = S2 - S1 = ln P2 - ln P1 = ln b.V2 - ln b. V1 = ln V V 2 1 Considerando que a expansão se processe em condições de reversibilidade, já que a entropia é função de estado (logo, independe do caminho percorrido), o trabalho máximo a ser obtido nessa expansão, é: Trabalho reversível realizado = Calor reversível absorvido E, como S = ln V V qr = H = n.R.T. S 2 = n.R.T.ln V V 2 1 vem que: 1 ou: S = H n.R.T onde: - qr ou H = calor absorvido reversivelmente do ambiente -n = número de moles do gás envolvido na expansão -R = constante universal dos gases perfeitos -T = temperatura absoluta do sistema - S = variação de entropia do sistema O mesmo resultado acima, já havia sido obtido no século passado, quando o calor era considerado uma substância (o calórico) e ainda não havia nenhum relacionamento da entropia com o conceito de probabilidade. De qualquer forma, parece claro que não existe nenhuma diferença entre as duas, tendo em vista que chamar a unidade de calor de “calórico” como fez Clausius no início do século XIX ou de “quantum” como é feito atualmente através da mecânica quântica, H para todo o parece não importar muito, pois em ambos os casos, a relação: S = n.R.T H sistema ou: S = (por mol) apenas representam o número de “quanta” (ou R.T calóricos!) existentes no sistema. E como quem leva a desordem ao sistema é o “quantum”, seu número indica a quantidade de desordem (entropia) levada ao sistema. 7