PALESTRA
21ª RAIB
PRINCÍPIOS DE BEM-ESTAR ANIMAL E SUA APLICAÇÃO NA CADEIA AVÍCOLA
Irenilza de Alencar Nääs
FEAGRI/UNICAMP, Campinas, SP
Bem-estar animal: definição e princípios
A literatura internacional está repleta de referências sobre o tema e sobre definições já aceitas, principalmente com o propósito de esclarecimento informativo.
Uma definição bastante utilizada é a encontrada em
BROOM (1991), que descreve o bem-estar como a habilidade do animal de interagir e viver bem em seu ambiente. Assim como esta definição está correta, existem
outras semelhantes que, entretanto, são pouco úteis na
questão de dar subsídio a decisões práticas, ou seja, de
como utilizar os animais como parte de um processo
econômico. A definição não é clara e implica em que o
animal deva estar normalmente em duas situações
antagônicas: ou está em bem-estar ou não; ou seja, o
animal ou vive bem no ambiente do alojamento, ou
simplesmente não está bem, quando se sabe que há
certamente diferentes graus de adaptação aos extremos citados. Também é universalmente aceita a saúde
física, que envolve análise de batimentos cardíacos,
temperatura corporal, liberação de certas secreções e
hormônios, níveis de glicose, lactação e ácidos livres,
entre outros, como medida de bem-estar animal. Ainda
é controverso se essas medidas são suficientes, já que
esses indicadores fisiológicos de bem-estar podem ser
também respostas naturais a atividades ou excitações
naturais do animal, ao invés de apontar, especificamente, o bem-estar (DAWKINS , 1990).
Para a definição do bem-estar animal é também
sugerido um perfil de 5 liberdades que devem ser
atendidas: liberdade psicológica (de não sentir medo,
ansiedade ou estresse), liberdade comportamental
(de expressar seu comportamento normal), liberdade
fisiológica (de não sentir fome ou sede), liberdade
sanitária (de não estar exposto a doenças, injúrias ou
dor), liberdade ambiental (de viver em ambientes
adequado, com conforto).
O conceito de bem-estar animal foi, em seu início,
estabelecido dentro de parâmetros de natureza muito
ampla e de aspectos pouco científicos e, portanto, de
difícil aceitação por países produtores. Países
escandinavos, seguidos pela França, foram os primeiros a adotar conceitos mais pragmáticos de bem-estar
e delinear as normas para criação de animais. Em
países onde a produção de animais é uma atividade
eminentemente econômica, não tendo foco substancial nos problemas éticos, a adoção do conceito de bemestar está estreitamente vinculada com os requisitos
demandados pelo mercado exterior, que é o que vem
ocorrendo no Brasil.
Aplicação na cadeia avícola
Dentro da produção de aves, o setor mais criticado
é, sem dúvidas, a criação de poedeiras, onde a questão
da densidade de aves por gaiola é freqüentemente
colocada em caráter de agressão e crueldade. Na
União Européia, onde a nova diretiva de 2007 prevê,
até 2012, a abolição de gaiolas, a prática de criação de
poedeiras livres inicialmente foi adotada, sem sucesso econômico, e hoje se busca uma solução intermediária, definida como “livre dentro de galpões”. Por
outro lado, algumas práticas de manejo julgadas
normais, são também questionadas por especialistas
da área, como, por exemplo, a apara do bico que,
quando inadequada (seja por inabilidade do tratador
ou ineficiência do equipamento) pode provocar
sangramento excessivo, constituindo uma atitude
potencial de agressão às aves (DUNCAN, 1992).
Uma questão importante no tocante à produção
avícola é se alcançar condições ideais de ambiente
interno no alojamento, que é a faixa de temperatura
ambiente em que a taxa metabólica é mínima e a
homeotermia é mantida com menor gasto energético.
Nessa condição, de zona de conforto térmico, a fração
de energia metabolizável utilizada para termogênese
é mínima e a energia líquida de produção é máxima,
podendo ser considerada de bem-estar (RYDER et al.,
2004; ARADAS et al., 2004).
Mitos e valores econômicos e éticos
Historicamente, os animais têm uma função econômica importante. Nos Estados Unidos, a indústria
de produto derivados de animais movimenta um
montante de 40 bilhões de dólares, empregando cerca
de 200 milhões de pessoas no mundo. Independente
da importância do assunto em termos de normatização,
as publicações mais significativas estão ligadas ao
tema de direitos dos animais (JOHNSON, 1992; A LBRIGHT ,
2004) e, embora existam regras práticas para a produção animal com responsabilidade, ter-se-ia que buscar um meio termo entre os critérios estabelecidos
pelos defensores dos direitos dos animais e a população que quer alimentar-se de animais produzidos de
maneira industrial (NÄÄS, 2005; ARLUKE, 1994).
Sugestões de medida de bem-estar animal recorrem a conceitos de comportamento, em que se comparam animais criados em cativeiro com animais que
vivem livres na natureza, ou seja, animais, criados em
cativeiro, que não tenham o mesmo tipo de comporta-
Biológico, São Paulo, v.70, n.2, p.105-106, jul./dez., 2008
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mento de animais da mesma espécie, que vivem soltos, provavelmente estariam sofrendo redução em seu
nível de bem-estar (DAWKINS , 1990). Entretanto, esta
medida sozinha não é suficiente para gerar conclusões, já que existem certos comportamentos naturais
que o animal não tem necessidade de realizar. Seria
interessante o desenvolvimento de um método de
estimativa de bem-estar baseado em duas questões
chaves: Os animais estão saudáveis? Os animais têm
o que eles desejam? Dessa forma, somente tendo positivas essas duas questões simultaneamente, o animal estaria em bem-estar. Uma forma eficaz de se
medir o bem-estar animal utiliza a vocalização como
medida de bem-estar (MANTEUFFEL, 2004). Um dos
pontos positivos desta técnica é o fato de se tratar de
um método não-invasivo e de resultados rápidos e
diretos e, apesar da existência de um número grande
de diferentes vocalizações, podem-se reconhecer alguns sons emitidos que mudam, seguindo um padrão, conforme o estímulo dado à ave. Todos esses
métodos e tentativas de se avaliar o bem-estar animal
mostram como é importante e ainda incipiente o
estudo e entendimento do assunto.
O fato é que o conceito de que o animal está
“sentindo alguma coisa”, não se traduz necessariamente em uma experiência similar em humanos. A
apara do bico, por exemplo, é comprovadamente uma
atitude de manejo que reduz o canibalismo e minimiza
o estresse social, enquanto reduz a mortalidade em
fase de criação de poedeiras. Já se conseguiu provar
cientificamente que, no tocante à nutrição, não há
prejuízo para aves debicadas.
O estudo do comportamento de aves Gallus gallus
vem sendo estudado por vários autores que
correlacionaram algumas expressões como agressão
e prostração, com as condições de bem-estar (DUNCAN,
1992; M ARX et al., 2001). As escolhas que as aves fazem,
quando são oferecidas escolhas (como a presença de
poleiro) ou, quanto de estresse representa optar por
determinada situação de escolha, pode ser interpretado como uma indicação de que as aves têm ou não,
acesso à sua instalação adequada. Em termos das
atividades dentro do galpão pesquisadores encontraram que, à medida que se aumenta a complexidade do
ambiente, as aves tendem a mostrar, além de melhora
nas questões locomotoras, mudanças no padrão de
seu comportamento. Também as questões ambientais
de associação de alta temperatura e umidade relativa
e baixa velocidade de vento, cuja inadequação pode
levar à prostração, comportamentos agressivos, por
exemplo, de corridas e perseguições, podem ser um
indicativo de baixas temperaturas. Isso leva a possibilidade de se poder avaliar, através do comportamento das aves, como ou com que grau de bem-estar
elas estão ou estiveram enquanto alojadas, desde que
estes dados sejam devidamente registrados.
Considerações finais
As visões da sociedade com relação ao bem-estar
animal estão mudando e existe uma crescente preocupação com os valores éticos que dizem respeito aos
animais de produção de trabalho, carne, leite e ovos.
Isto tem ocorrido devido, principalmente, a dois aspectos: a rápida urbanização da população humana
durante o último meio século combinado com o aumento de seu poder aquisitivo. Em virtude dessas
mudanças, as pessoas não mais consomem simplesmente os produtos alimentícios mais baratos, mas
procuram por várias características qualitativas adicionais, dentre as quais está o bem-estar animal.
Sendo o Brasil um grande exportador de carne de
frango, o país hoje não tem legislação específica nesse
tema, a tendência é que este cenário mude, devido à
demanda do comércio exterior, principalmente daqueles países ditos desenvolvidos.
Referências
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heat stress index to broiler performance. Edmonton:
Poultry Science Association, 2004. p.7.
Biológico, São Paulo, v.70, n.2, p.105-106, jul./dez., 2008
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