DO FATO À INTERPRETAÇÃO A PARTIR DO PENSAMENTO DE NIETZSCHE
Alison Ferreira Oliveira (Bolsista – PET Filosofia)
Glória Maria Ferreira Ribeiro (Orientadora – Tutora do Grupo PET)
Agência financiadora: MEC/SESu
Resumo: O presente trabalho analisa a noção de saber (do lat. Sapore) como
interpretação dos fatos (do lat. Factu) no pensamento do filósofo Friedrich W. Nietzsche (18441900). Nietzsche parte da noção de que saber é interpretar o fato, já que este não existe nele
mesmo – feito, acabado - independente de uma interpretação. Em nossa análise partiremos da
afirmação feita pelo filósofo de que “todo acontecimento do mundo orgânico é um assenhorar-se, e
1
todo subjugar e assenhorar-se é uma nova interpretação” .
Palavras-chave: Vida, Vontade de poder, Ação, Interpretação, Fato.
Si um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro!
Mário de Andrade.
A vida aberta às interpretações.
F
riedrich Nietzsche (1844-1900) ao elaborar a questão sobre o conhecimento da
verdade em duas de suas principais obras de maturidade, quais sejam: Além do bem e do
mal: prelúdio a uma filosofia do futuro (1886) e sua obra complementar Genealogia da
moral: uma polêmica (1887), diz que o conhecimento deriva da vontade de poder [Wille
zur Macht]2. Por sua vez, , a vontade deseja interpretar, e o que interpreta é uma parcela
da realidade, sendo uma perspectiva da realidade e não ela mesma em seu todo, a
interpretação que se faz, não se confunde com a verdade em si.
Pois bem, segundo Nietzsche, sobre a realidade se exerce um ato interpretativo e esse
ato interpretativo é uma ilusão. Contudo, essa ilusão não tem um valor menor em relação
à realidade; ao contrário, essa ilusão corresponde a uma perspectiva (uma verdade para
mim), por isso o filósofo nos diz que “todo acontecimento do mundo orgânico é um
assenhorar-se, e todo subjugar e assenhorar-se é uma nova interpretação”3. Esta
1
NIETZSCHE, 2008, p.66.
Toda força impulsora é vontade de poder, não há outra força física, dinâmica ou psíquica.
3
Idem.
2
“Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da
Universidade Federal de São João Del-Rei – Ano IV - Número IV – janeiro a dezembro de 2008.
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interpretação se faz sobre a relação efetiva4 agente sobre a “realidade”, em que o agente
toma para si uma função desta “realidade” e se vale desta interpretação que fez.
Esta interpretação é uma máscara, uma ilusão da qual o homem se vale para estabelecer
suas ações oriundas da vontade. A interpretação abarca uma parte da realidade e não ela
toda, daí Nietzsche elaborar a noção de perspectivismo.
Vontade de poder: uma fonte inesgotável.
As relações vitais se desenvolvem sob o âmbito da vontade de poder. Este fenômeno é o
afeto elementar à vida: é o que a impulsiona e faz com que ela (vida) seja mais do que ela
é, sendo ela mesma. A vontade de poder não pode ser mensurável, não finda neste ou
naquele fenômeno, mas possibilita que estes se realizem. É essa vontade que devolve à
realidade suas possibilidades de ser atuando como um o dínamo [Do gr. Dýnamis]5
propulsor da vida, desde onde as coisas podem vir a ser de uma forma ou de outra.
algo existente, que de algum modo chegou a realizar, é sempre
reinterpretado
para
novos
fins,
requisitado
de
maneira
nova,
transformado e redirecionado para uma nova utilidade, por um poder
6
que lhe é superior .
Segundo Nietzsche, para apreender a realidade como pura possibilidade faz-se
necessário a coragem – pois o homem se vê defronte a uma realidade em que não há
sentido ou significado. É preciso coragem para perder velhos sentidos e significados para
depois recriá-los, essa coragem implica em sabedoria, em disposição para experenciar a
vontade, a vida.
A sabedoria como disposição à vontade e à vida.
4
Nietzsche usa o adjetivo substantivado “von Wirklichen”, que corresponde ao verbo wirken, que significa
“atuar”, “ter efeito” sobre a realidade, onde se atua. Cf. nota de Paulo César de Souza, pág. 158, Genealogia
da Moral.
5
“Força”, “potência”. Cf. Dicionário Aurélio
6
NIETZSCHE, 2008, pág. 66.
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A sabedoria, como é dito na obra Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para
ninguém, ama somente a um guerreiro, ou nas palavras do filósofo: “Corajosos,
descuidados, zombeteiros, violentos – assim nos quer a sabedoria: ela é uma mulher, ela
ama somente um guerreiro”7.
Além da coragem ainda é preciso o descuido, ou seja, é preciso que não estejamos tão
seguros do “pronto” (fato), é preciso que sejamos ousados. Para tanto é preciso também
zombar, como a criança que brinca com um papel fazendo dele um barquinho ou um
avião – brinca, zomba do que já se encontra feito. E para poder assim brincar, zombar é
necessário a violência, ou seja, a força para desfazer o feito (no nosso exemplo: desfazer
o papel e transformá-lo em barco, desfazer o barco e transformá-lo em avião)- e, em
assim o desfazendo, assumir e instaurar novas possibilidades de ser (por isso, nos diz
Nietzsche que toda interpretação é uma violência).
Para assumir a vida assim, tal como ela é, faz-se necessário que sejamos um guerreiro.
Isto porque sobre a vida não é possível emitir juízos, conceitos ou valores permanentes,
mas, é necessário continuamente conquistar/afirmar novos valores. Valores que se impõe
sempre na tensão com aqueles (outros velhos valores) que lhe devem ceder o lugar.
Nessa perene conquista é que a vida se faz.
Violentos e escarninhos, eis como nos quer a sabedoria - eis como nos quer a própria
vida.
Saber é experenciar e interpretar o fato.
Interpretar não significa aqui apenas formar um juízo a respeito de um fato, significa
mesmo, se apropriar deste fato, experenciá-lo. Ou seja, torná-lo ação. Nietzsche diz que a
ação é por excelência fenômeno8 vital, ou antes, é na ação que a vontade se faz presente
– “a ação é tudo”9.
7
NIETZSCHE, Sem data, pág. 57
Do gr. Phainómenon: 1 Aquilo que vem à luz 2 Fato, aspecto ou ocorrência passível de observação. Cf.
Dicionário Aurélio.
9
NIETZSCHE, 2008, pág. 36.
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A ação precede mesmo o agente, ou seja, não há um agente determinante da ação, que
escolhe por agir ou não agir, antes ele mesmo já está no ato. Poderíamos mesmo nos
perguntar: “pode-se escolher em que agir e com que intensidade agir?” Até mesmo aí
temos nosso limite, que se situa em nossa condição física, psicológica, cultural etc. Pois
um “homem fraco” não pode agir (desprender uma força) tal “como um homem forte”, já
que a fraqueza é a condição própria do seu ser. A ação expressa o próprio ser – ser em
ato. Sendo assim compreendido, o ser não se confunde com nenhuma noção abstrata,
mas se plasma nas próprias ações dos indivíduos.
Por isso é que o filósofo afirma que a razão (faculdade que deveria se debruçar sobre o
ser) não se separa da ação, ou possui um valor menor que a experiência, justamente
porque a ação é condição prévia à todo existente. Por conta disso, é necessário repensar
a própria noção de saber. Para Nietzsche saber [Do lat. Sapore] é um saborear, um
experenciar a realidade estando sempre numa relação com o fato - este não tem sentido
em si mesmo [como coisa dada, feita], mas ganha seu sentido numa relação, considerada
como uma relação efetiva aberta à novas possibilidades Nesse sentido, saber
e
interpretar são o mesmo.
O factual: a vida pré-estabelecida.
Se o homem em sua ação findar numa ou noutra interpretação, ele estanca a
dinamicidade da vontade, ou seja, o efetivo perde suas possibilidades para se solidificar
numa interpretação só. Segundo Nietzsche o homem ao “preferir um punhado de „certeza‟
a toda uma carroça de belas possibilidades”10, acaba por travar uma “luta vã” contra o
dinamismo da vontade, torna-se um “inteiro fato homem”11.
Esta noção de “inteiro fato homem”, ou inteiro homem feito, é para Nietzsche a expressão
da grande maioria dos homens, é sinal também de uma vontade fraca, covarde que
procura se apegar ao feito - é sinal da decadência.
Decadência é se ater ao feito, a ordem estabelecida seja pela cultura, seja pelo outro;
decadência é também expressão de uma vontade fraca que não se assume como o
10
11
NIETZSCHE, 1992, pág. 15
NIETZSCHE, 1995, pág. 16.
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dínamo da “realidade”, o fraco não obedece à vontade, ao devir, mas antes deseja
estancar a dinamicidade da vontade enquadrando a “realidade” neste ou naquele aspecto.
A realidade aparece para o decadente como algo já conceituado e determinado. Ou
melhor: a vida aparece, para o homem decadente, destacada de suas açõesinterpretações – ele apenas se conforma (adapta) a realidade como se ela fosse uma
coisa dada, pronta e acabada.
Assim, o homem decadente ganha aspectos de factual, como se ele mesmo estivesse
pronto, acabado, com todas as suas relações pré-estabelecidas, direcionando para a sua
conformação, não cabendo nelas espaço para o novo. Essa noção de homem factual
equivale a noção metafísica de um sujeito puro, um “Eu” puro, substancial distinto das
relações que possa estabelecer com o mundo (com a vida).
Assim como destruir é necessário também criar.
Ora, para rompermos essa situação de decadência é preciso tanto a coragem para
destruir um templo, quanto para erguer outro. Ora, é precisamente na coragem para
erguer “outros templos” que está a noção de que falseamos a realidade, que a
mascaramos. Isto porque continuamente afirmamos valores, descobrimos significados
para as coisas – continuamente, interpretamos. Ou melhor diríamos: com o mesmo ato
que desconstruimos/destruimos (que zombamos, brincamos com) o significado dado para
as coisas que nos circundam, criamos um novo significado para elas. Retomando o nosso
exemplo, a criança que ao brincar dobra o papel - dobra na qual o papel perde
momentaneamente a sua função original de suporte para a escrita – nessa mesma dobra
se cria (se descobre) o barco. Toda destruição traz em seu bojo a criação. E toda ação
criadora é, em si mesma, uma ilusão (ilusão de permanência), porque tudo que é assim
criado, deve novamente ceder lugar para aquilo que ainda está por vir (a ser feito).
Por isso, para viver plenamente é necessário abrir mão do punhado de „certeza‟ que
parece revestir a realidade (enquanto ela aparece como algo feito e acabado), para
ganhar “uma carroça de belas possibilidades”. Para Nietzsche o grande valor da vida, o
grande respeito à vontade está em assumir toda esta “carroça de possibilidades”.
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Nietzsche assume a vida como uma ilusão, uma luz falsa a qual nos apegamos, e para
qual está voltada nossas ações – toda interpretação é um falseamento, e o falseamento é
tudo o que podemos ter de mais certo.
Por saber a vida uma ilusão, o filósofo considera a arte um espaço privilegiado – não por
ser uma vontade de verdade, mas por ser uma vontade de ilusão. A arte na “qual
precisamente a mentira se santifica”12 tem a boa consciência a seu favor, a arte é a
grande criadora de sentidos, e não se finda numa verdade absoluta, é “uma mentira que
se sabe mentira”, não se volta contra o “real”.
Considerações finais
Ora, através desta análise do pensamento de Nietzsche, podemos considerar que a
vontade de poder é o âmbito desde onde a vida se faz possível, mas a vontade de poder
não se restringe a ela, não se finda neste ou naquele fenômeno, mas é o dínamo que faz
tudo se mover.
A ação é a instauração de “realidade”, ou seja, é a efetivação da vontade nos fenômenos
vitais. Por conseguinte, toda ação é uma interpretação se constituindo numa violência
contra a “realidade”. A realidade nela mesma não tem significado, carecendo sempre de
uma interpretação.
As relações não são fundamentadas por uma verdade em si, ou uma moral, mas são
construídas a partir da relação mesma existente entre o homem e o fato (ação efetiva), e
toda interpretação é fruto de uma perspectiva, que não abarca a realidade em seu todo,
mas suas parcelas.
Assim como não existe um fato pronto, o homem também não está pronto, mas está
sempre redescobrindo novos significados através de suas ações, ele é sempre uma
possibilidade, um devir, que deve se tornar aquilo que é: possibilidade.
12
NIETZSCHE, 2008, pág. 141.
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Por não haver uma “verdade absoluta” Nietzsche privilegia a arte como sendo o espaço
que mais se aproxima da vontade, por ser pura possibilidade de apropriação da realidade
e por não se pretender uma verdade acabada, mas ser uma mentira que se sabe mentira.
Referências Bibliográficas:
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo.
Circulo do Livro.
___________. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo. 1992. Cia. das
Letras.
___________. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo. 2008. Cia. das Letras.
___________. Ecce Homo: Como alguém se torna o que é. São Paulo. 1995. Cia. das Letras.
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