A “guerra do açúcar” e o “luxo do açúcar”
A globalização do mercado do açúcar no século XIX e suas conseqüências para a
economia e o custo de vida na Europa
Werner Abelshauser
(Universidade de Bielefeld)
Tradução: Raul Oliveira
Formulação do problema
O antagonismo entre o açúcar de cana dos trópicos e o açúcar de beterraba europeu produziu
efeitos, na Europa, em muitos setores da economia e da sociedade. Para além de sua influência
sobre o desenvolvimento econômico, os conflitos de interesses e a política (econômica), ele
também esteve ligado, ao longo de muitas décadas, à dramática transformação da estratificação
social, do mundo da vida, do quotidiano e da cultura durante a formação da sociedade industrial. O
açúcar também está entre as mercadorias que, desde muito cedo, são comercializadas no
“mercado mundial”.1 Desde o surgimento de uma indústria européia do açúcar de beterraba, na
Era Napoleônica, estas tendências globalizantes da economia açucareira mundial têm estado
sujeitas a uma tensão que, igualmente, se origina do antagonismo entre as duas formas de
produção. Elas fazem do mercado mundial do açúcar um compensador objeto de estudos que
buscam, no passado, formas de solucionar conflitos decorrentes da globalização. Nisto consistirá
um dos pontos focais da presente análise. Ao mesmo tempo, tratar-se-á da importância do açúcar
de beterraba enquanto base para as estratégias de industrialização da Europa continental no século
XIX, importância esta que está intimamente relacionada à formulação do problema. Já antes do
advento do açúcar de beterraba, as importações de açúcar de cana criaram condições essenciais
para um avanço contínuo da expansão industrial, a qual, no século XVIII, pela primeira vez não se
viu presa da armadilha malthusiana. O açúcar – ao lado de outros gêneros alimentícios trazidos das
colônias para a Europa – assegurou, enquanto preciosa fonte de calorias, a estabilização da base
nutricional de uma crescente população não agrária. Desta forma, o consumo do açúcar contribuiu
para resolver o dilema malthusiano na Europa, ao superar o efeito refreador exercido pelo
crescimento populacional sobre o desenvolvimento industrial, e transformar o fator demográfico
numa fonte de trabalho produtivo. Foi precisamente esta importância do açúcar para a chamada
Revolução Industrial na Inglaterra, bem como para os esforços da Europa continental em superar o
próprio atraso econômico, que provocou o antagonismo.2 A independência com relação a
importações caras e, em caso de conflito, incertas, a auto-suficiência almejada pela política
1
T. Kuster, 500 Jahre kolonialer Rohrzucker – 250 Jahre europäischer Rübenzucker, in:
Vierteljahrsschrift für Sozial- und Wirtschaftsgeschichte, 85 (1998), pág. 480 e seg.
2
Sobre a reavaliação da “Revolução Industrial” na pesquisa científica, vide, entre outros, J. Mokyr
2
(ed.), The British Industrial Revolution. An Economic Perspective, Boulder, CO 1999
e W.
Abelshauser, Von der Industriellen Revolution zur Neuen Wirtschaft. Der Paradigmenwechsel im
wirtschaftlichen Weltbild der Gegenwart, in: Wege der Gesellschaftsgeschichte, editado por J.
Osterhammel, D. Langewiesche e P. Nolte (Geschichte und Gesellschaft, Sonderheft 22) Göttingen 2006,
pág. 201 – 218.
2
econômica governamental, a penetração industrial da zona rural para elevar o padrão de vida, a
busca, cientificamente orientada, por métodos inovadores, a fim de dominar, com a ajuda de
procedimentos químicos e agroindustriais de produção, um importante mercado – tudo isto
constituía fortes motivos para se fomentar o açúcar de beterraba como base de uma indústria
açucareira própria. No ponto em que os interesses econômicos entravam em choque – aqui, o
açúcar de cana, ali o de beterraba –, podem ser encontrados os primeiros exemplos de potenciais
de conflito decorrentes dos efeitos do entrelaçamento da economia mundial e da dependência
global sobre o desenvolvimento das economias nacionais, exemplos estes que, ainda hoje, podem
despertar interesse.
Neste contexto, a pluralidade dos mercados europeus de açúcar presta-se muito bem a uma
comparação entre diferentes estratégias de política industrial e soluções multilaterais de conflitos
decorrentes da globalização. É possível isolar exemplos de casos que põem claramente em
evidência a influência dos interesses e a sua capacidade de se impor, sobre o pano de fundo de
diferentes culturas econômicas. A França foi o único mercado europeu de açúcar que, de forma
duradoura, possuiu tanto importantes colônias açucareiras quanto uma significativa cultura de
beterraba.
Presta-se,
por
isto,
especialmente
bem
para
a
investigação
dos
efeitos
do
entrelaçamento da econômica global sobre um mercado interno que – como também em outras
economias européias – estava exposto, no século XIX, às crescentes influências do mercado
mundial. A Alemanha prussiana, ao contrário, fornece um bom exemplo de um desenvolvimento
que não teve de levar em conta interesses coloniais. Já no século XVIII, o açúcar era, ali, um
importante objeto da política governamental de desenvolvimento interno, que perseguia o objetivo
da utilização industrial da beterraba como fonte de açúcar. Também ali se contrapunham – ainda
que de forma menos marcada do que na França – interesses comerciais aos interesses dos
produtores. Mas, sobretudo, o mercado do açúcar encontrava-se exposto às oscilações da política
comercial, entre o protecionismo e o livre mercado. A Grã-Bretanha, o maior mercado de açúcar da
Europa, encarnava um terceiro modelo. Ali, sobre o pano de fundo de uma desagrarização
prematura, não se pôde desenvolver uma produção própria de açúcar de beterraba. Sob a égide do
livre comércio e com um acesso livre aos mercados coloniais e europeus, o mercado britânico
tornou-se, antes, um palco da concorrência econômica global entre os produtores de açúcar. Por
isto, o papel da Inglaterra foi, a princípio, apenas o de mercado de referência.
Por mais distinta que fossem a origem e as vias de abastecimento do açúcar na Europa, os padrões
do consumo de açúcar e os seus efeitos sobre o quotidiano e a cultura dos três mais importantes
“países açucareiros” europeus assemelhavam-se muito entre si. Diferenças na forma cultural de
lidar com a doce substância, se que é que existiram dentro do continente, orientavam-se por
padrões de estrutura social, nos quais o consumo de açúcar carregava conteúdos de significado
bastante diferentes entre si. Assim, o consumo em massa de açúcar, independentemente de sua
proveniência, parece, de certo modo, dever sua dinâmica à inspiração nos padrões de consumo da
corte, que cunharam determinados ideais de gosto e modelos simbólicos (de status). Esta pode ser
a razão por que a pouca relevância cultural do açúcar nos países escandinavos, na Europa oriental
e nos Bálcãs, que carecem de uma forte tradição feudal, distingue-se claramente do luxo do açúcar
3
da Europa ocidental.3 Nos lugares onde o açúcar, no contexto histórico, pôde tornar-se um símbolo
do estilo de vida da corte e de um padrão elevado de vida, ele desempenhou também um papel
destacado no desenvolvimento de hábitos alimentares modificados, de novos símbolos de status do
consumo ostentador e, ao mesmo tempo, da democratização do consumo. Por isto, tratar-se-á,
primeiramente, do papel do açúcar na transformação dos hábitos alimentares da sociedade
industrial. De antigo atributo da sociedade palaciana e privilégio da nobreza, ele transformou-se,
no curso deste processo de democratização, num indicador do padrão de vida e num ícone do
consumo em massa.
A seguir serão, então, investigadas as diferentes condições de concorrência e de fabricação nos
locais onde a produção do açúcar de beterraba gozava de importância, ou seja, na comparação
entre os exemplos de caso francês e alemão. A Grã-Bretanha, que não conheceu uma fabricação
própria de açúcar, desempenhou, ao contrário, um papel decisivo na solução de conflitos
decorrentes da globalização. Com a emergência das forças imperialistas na política econômica
externa britânica, ela transformou-se, por volta do final do século, no poder regulador, que
exerceria uma influência fundamental sobre a regulação do mercado mundial de açúcar. Era ali, em
última análise, que se decidiam que regras do jogo prevaleceriam no processo de globalização. O
mercado mundial de açúcar oferece um bom exemplo para a solução dos conflitos decorrentes da
globalização no século XIX.
O açúcar na “revolução nutricional” do século XIX
O açúcar de cana foi trazido para a Europa na época das cruzadas, vindo da Índia via Alexandria e
Veneza. Difundiu-se, através dos eixos comerciais transcontinentais, para a Alta Alemanha e
Antuérpia. De lá, após a invasão dos Países Baixos pelos espanhóis, em 1573, muitas “padarias de
açúcar” transferiram-se para Hamburgo. Mas foi somente com a ascensão da indústria de açúcar
de beterraba que o açúcar tornou-se um gênero alimentício popular.
Figura 1
O novo protagonista no mercado do açúcar: Ilustração do açúcar de beterraba, da semente, da
plântula e da planta com sementes (da “fábrica-modelo” de Achard). (Fonte: SÜDZUCKER AG,
Südzucker-Archiv)
A classe média e, finalmente, também os trabalhadores passaram ao consumo regular de açúcar.
Uma vez que o consumo de carne e de banha, devido aos altos preços, era muito limitado na
classe trabalhadora, o açúcar, enquanto valiosa fonte de calorias, e com preços sempre em queda,
desenvolveu-se como um gênero alimentício atraente, capaz de compensar antigos déficits
nutricionais. Ele possuía, ainda, outras vantagens. O açúcar ainda carregava consigo o prestígio de
3
G. Wiegelmann, Zucker und Süßwaren im Zivilisationsprozeß der Neuzeit, in: H. J. Teuteberg u. G.
Wiegelmann, Unsere tägliche Kost. Geschichte und regionale Prägung, Münster, Verlag F.
Coppenrath 1986, pág. 136 e seg.
4
um item de luxo da sociedade da corte. Alimentos doces eram tão populares na era pré-industrial,
que praticamente se determinavam a qualidade e o bom gosto de cada prato em função do seu
grau de doçura.4 Mas o açúcar também servia como uma bem-vinda diversificação no monótono
ritmo de trabalho, e também como revalorização de alimentos e bebidas de gosto “neutro”. O
“vício” das operárias por chá, café e açúcar estende-se, assim como a sua função de “matar o
tempo” para além do aspecto meramente nutricional, como um fio condutor através dos relatórios
dos inspetores das fábricas.5 Por volta de 1900, o açúcar não constituía mais um artigo de luxo,
posto que o consumo de uma família de trabalhadores com quatro membros correspondia, de
forma bastante precisa, à média nacional. Com isto, ele chegou ao ápice de sua importância
relativa enquanto componente da dieta industrial.
Tabela: A estrutura do consumo privado de gêneros alimentícios selecionados, em
percentual com relação à totalidade dos gêneros alimentícios
Farinha de
trigo e pão
Açúcar
Carne de porco
Banha de
porco
Leguminosas
1850/54
8,6
0,7
7,0
1,8
4,5
1865/69
8,7
0,9
9,3
2,9
2,7
1870/74
9,9
1,3
11,0
3,7
2,3
1890/94
12,0
2,0
12,8
5,0
1,1
1910/13
11,5
3,4
15,7
6,4
1,0
Fonte: W.G. Hoffmann et al., Das Wachstum der deutschen Wirtschaft seit der Mitte des
19. Jahrhunderts, Berlim, Heidelberg, Nova York 1965, pág. 116-121.
Dentro das despesas com gêneros alimentícios, é sempre crescente a proporção dos itens valiosos.
Isto se aplica, sobretudo, ao açúcar, mas também à farinha de trigo e ao pão, e à carne e à banha
de porco. A proporção do açúcar no consumo geral de gêneros alimentícios quintuplica de 1850 até
a Primeira Guerra Mundial, desenvolvendo, de longe, a maior dinâmica entre os gêneros
alimentícios da sociedade industrial.
Como indicador da mudança dos hábitos alimentares e de vida por meio da expansão do consumo
de açúcar em diferentes classes sociais, presta-se, em primeiro lugar, o desenvolvimento das
indústrias de processamento do açúcar e seus produtos, como chocolate, doces e artigos de
4
G. Wiegelmann, Volkskundliche Studien zum Wandel der Speisen und Mahlzeiten, in: Teuteberg e
Wiegelmann, Wandel, pág. 299.
5
Teuteberg, op. cit., pág. 160.
5
pastelaria, de conservação de víveres, bem como de produção de rum e de bebidas alcoólicas. Sua
influência sobre os hábitos de consumo pode ser acompanhada observando-se o movimento de
vendas dos cafés, confeitarias e delicatessens, ou do comércio de bebidas.6 A observação desta
evolução, de artigo de luxo a gênero de primeira necessidade, permite, também, compreender as
modificações do contexto associativo do açúcar e dos doces com luxo e exotismo, e da cana-deaçúcar com feudalismo e escravidão, bem como do açúcar de beterraba com o empresariado
burguês ou, até mesmo, com uma atitude progressista “esclarecida”, que se volta, explicitamente,
contra o “açúcar de sangue” produzido pelo trabalho escravo. Este discurso fornece o pano de
fundo e a trilha sonora social para um conflito econômico concreto, que possui um componente
tanto de economia interna quanto de economia externa.
A França: antagonismo global e nacional
As guerras revolucionárias destruíram a importante posição ocupada pela França no comércio
internacional do açúcar de cana do século XVIII.7 Uma acentuada escassez de mercadorias
coloniais durante o Bloqueio Continental levou Napoleão I, um pouco mais tarde, a ampliar e
fomentar uma indústria de açúcar de beterraba, a qual, após uma grave crise durante a
Restauração, evoluiu, a partir do final dos anos vinte do século XIX, para tornar-se uma
ameaçadora concorrência ao açúcar colonial de Guadalupe, Martinica e Reunião.8 A exigência das
colônias de que fosse instituída uma taxação do açúcar de beterraba surtiu efeito, pela primeira
vez, em 1837. Porém, a disputa em torno do imposto de importação deteve-se face à queda dos
preços. Os Governadores da Martinica e de Guadalupe chegaram, até mesmo, a adotar,
arbitrariamente, medidas de combate em 1839, ao liberar os exportadores para fretar também
navios estrangeiros. Isto levou às barricadas o lobby dos armadores e comerciantes nas cidades
portuárias da metrópole. O decreto dos Governadores foi revogado, mas também, ao mesmo
tempo, o imposto de importação foi reduzido. Isto, por sua vez, levou à ruína inúmeros fabricantes
de açúcar de beterraba.
Figura 2
A “guerra do açúcar”: O açúcar de cana derrota o de beterraba. Caricatura, França, 1839 (Fonte:
SÜDZUCKER AG, Südzucker-Archiv)
Políticos adeptos do liberalismo econômico exigiam, até mesmo, a completa dissolução da indústria
nativa de açúcar, mediante o pagamento de uma indenização pelo Estado. Toda a Europa
acompanhava, ansiosamente, o debate francês, que correspondia, no nível científico, à disputa
entre o liberal Teorema de Ricardo das vantagens comparativas de custos e a Teoria de List das
6
Mintz, Macht; Meyer, Histoire.
e
e
P. Butel, Histoire des Antilles françaises, XVII -XX siècle. Paris, Perrin (2002),pág. 337-338; K.H.
O’Rourke, The worldwide economic impact of the French Revolutionary and Napoleonic Wars, 17931815, in: Journal of Global History (2006)1, pág. 123-149; R. Stein, The French Sugar Business in
Eighteenth Century: A Quantitative Study, in: Business History XXII (1980), pág. 3-17.
8
J. Meyer, Histoire du sucre, Paris, Desjonquères 1989; O’Rourke, Impact.
7
6
forças produtivas.9 No final da guerra do açúcar entre os defensores de interesses e entre
concepções científicas, restava, em 1843, a taxação fundamentalmente idêntica do açúcar de cana
e do de beterraba, embora este último tivesse conseguido preservar algumas vantagens. Depois
que a Monarquia de Julho tentara, com esforço, servir de mediadora nesta primeira disputa do
açúcar, as colônias, no mais tardar a partir da abolição da escravatura em 1848, não conseguiram
mais, a despeito da crescente industrialização, manter o passo, de forma duradoura, com a
dinâmica econômica do açúcar de beterraba. Não obstante, a indústria de refinarias da França,
tradicionalmente fixada nas grandes cidades portuárias (Marseille, Nantes, Le Havre, Bordeaux) e
recém-estabelecidas
em
Paris,
continuou
a
assegurar-lhes
uma
base
comercial.
Nos
Departamentos do nordeste, ao contrário, já tinham se desenvolvido, desde cedo, centros de
produção de açúcar em bruto, extraído da beterraba.10
Figura 3
Fabricação francesa de açúcar em Chateu-Frayé (próximo a Villeneuve), 1843 (Fonte: SÜDZUCKER
AG, Südzucker-Archiv)
A França produzia excedentes desde 1856, sendo o primeiro país da Europa a fazê-lo, e
permaneceu, até o final dos anos sessenta do século XIX, como o mais importante exportador,
estando na liderança também em termos tecnológicos.11 A era do livre comércio europeu,
inaugurada em 1860 com a celebração do Tratado Cobden-Chevalier entre a Grã-Bretanha e a
França, e as conseqüências da guerra civil norte-americana, que levaram maiores quantidades de
açúcar cubano para a Europa, logo provocaram, ali, um excesso de oferta, que produziu tensões
nas colônias, bem como na própria França. Devido a altos subsídios à exportação e a medidas
protecionistas para as colônias, a crise onerou de forma extrema, sobretudo, o orçamento estatal
francês. A França destinava a subvenções o dobro dos recursos estatais que a sua principal
concorrente, a Alemanha.12
Enquanto a Primeira Guerra Mundial deixara a indústria alemã e austríaca de açúcar de beterraba
substancialmente a salvo, a francesa, ao contrário, havia sido, em grande parte, destruída, de
forma que, ali, o açúcar colonial, a princípio, voltou a ganhar importância. Em breve, porém, os
esforços pela auto-suficiência e a reconstrução já se encontravam, novamente, em primeiro plano.
Enquanto, nos anos vinte do século XX, esteve associada a isto uma ampla modernização da
indústria do açúcar de beterraba, a produção colonial não foi mais ampliada, e sim se viu reduzida,
9
D. Ricardo, The Principles of Political Economy and Taxation, London 1817; F. List, Le Système
Naturel d’Ếconomie Politique (1837), Werke vol. IV, Berlim 1927.
10
e
e
J. Fiérain, Les raffineries de sucre des ports en France (XIX - début du XX siècle), Paris, Honoré
Champion 1976; J. A. Pennock, La question du sucre en Europe depuis la Guerre Mondiale.
Lausanne, Paris, Librairie J.-B. Baillière et Fils 1935.
11
H. Paasche, Zuckerindustrie und Zuckerhandel der Welt. Jena, Fischer 1891, pág. 57-77; D.
Schaal, Rübenzuckerindustrie und regionale Industrialisierung. Der Industrialisierungsprozeß im
mitteldeutschen Raum 1799 - 1930. Münster, LIT Verlag 2004.
12
E. R. M. Boizard und H. E. Tardieu, Histoire de la législation des sucres (1664-1891), Paris,
Bureaux de la Sucrerie indigène et coloniale 1891, pág. 117.
7
no âmbito da produção francesa total, a uma quantité négligeable.13 O retorno do país ao mercado
mundial do açúcar somente ocorreria às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Seus excedentes,
no entanto, permaneceram insignificantes frente à concorrência internacional dos países que
haviam se transformado em grandes produtores.14
Os antagonismos global e nacional foram determinantes para a economia açucareira francesa. A
França, nos séculos XIX e XX, não pôde mais dar seguimento, de forma duradoura, ao seu passado
de “global player” da economia açucareira mundial. O duplo caráter da economia açucareira
francesa fez com que ela ficasse dependente da conjuntura em ambos os mercados. Isto, em
última análise, exerceu um efeito negativo sobre ambas as esferas de interesses e sobre todas as
classes sociais envolvidas. Estruturas e desenvolvimentos comparáveis não podem ser observados
em nenhum outro país açucareiro.15 Esta configuração faz do caso francês um campo comparativo
ideal para abordagens da historiografia transnacional, histoire croisée e cross-cultural encounters
sob uma perspectiva global, nacional e regional. Por isto, pesquisas ora em curso na Universidade
de Bielefeld tematizam, além da questão da política açucareira e de seus antecedentes, também,
precisamente, a formação e a influência de grupos de interesse, campos de tensões, processos de
entrelaçamento e efeitos sociais recíprocos – como, por exemplo, os processos de concentração
econômica na metrópole ou os efeitos das tensões sociais nas colônias.16 Elas adotam a
categorização básica contemporânea em interesses de consumidores, de refinadores, de
produtores de açúcar em bruto, e fiscais. Com relação às diversas regiões produtoras de matérias
primas, aos diferentes grupos sociais e aos interesses da agricultura, da indústria de máquinas, das
cidades portuárias, do comércio, da navegação, das companhias de navegação e da política
(colonial), tais pesquisas efetuam uma diferenciação teórica ampliada dos conflitos e interesses.
A Alemanha Prussiana: o açúcar de beterraba como setor líder da industrialização do
espaço rural
Diferentemente do que ocorre com o açúcar de cana ultramarino, a história dos produtores
europeus de açúcar de beterraba tem sido menos intensamente pesquisada.17 A principal fonte de
13
No início dos anos 30, 13% da produção total francesa ainda se recaíam no açúcar. M. AugéLaribé, L'Agriculture pendant la Guerre, in : Histoire économique et sociale de la Guerre mondiale,
Publications de la Dotation Carnegie pour la paix internationale. Sect. d'économie et d'histoire", Paris,
PUF 1926, pág. 219; Pennock Question, pág. 116.
14
League of Nations, International Sugar Conference held in London from April 5th to May 6th, 1937;
I. Text of the Agreement, II. Proceedings and Documents of the Conference. Series of League of
Nations Publications, Genf, League of Nations 1937.
15
As economias de outros países (e suas respectivas colônias), como, por exemplo, Inglaterra,
Alemanha ou Cuba, possuíam ou setores de açúcar de cana ou de açúcar de beterraba. Em outros –
como no caso da Espanha – a indústria do açúcar de beterraba desempenhava um papel
insignificante.
16
É este, por exemplo, o caso do projeto de doutorado de Christoph Raneberg “A França na guerra
do açúcar. Conflitos internos e externos na França, desde o surgimento da indústria da beterraba até
o final da Terceira República” na Bielefeld Graduate School in History and Sociology.
17
J. Galloway, Sugar. The Cambridge World History of Food, Cambridge, Cambridge University Press
2000, vol. 2, pág. 437-449; Schaal Rübenzuckerindustrie; H. Pruhns, Die Europäische
Rübenzuckerindustrie im Frühindustrialismus: Wirtschaft-Staat-Verband, 1747 - 1799 - 1850,
Festschrift 150 Jahre Verein der Zuckerindustrie, 50 Jahre Wirtschaftliche Vereinigung Zucker,
8
informações sobre o desenvolvimento na Alemanha, um dos dois principais produtores europeus,
consistiu, durante muito tempo, em documentos de empresas e associações, bem como em artigos
curtos, publicados em revistas especializadas. Nos últimos anos, no entanto, têm-se desenvolvido
também amplas abordagens, as quais também levam em consideração contextos históricosociais.18 A partir de pesquisas sobre a história do açúcar e sobre a história colonial européia,
também a história do açúcar de cana nos séculos XIX e XX vem sendo atualizada enquanto história
social, econômica e cultural.19 Já por volta da virada para o século XX, a abordagem comparativa
com um horizonte global adquiria uma importância crescente sob a impressão causada pelas crises
do final do século XIX.20
Na Inglaterra, o consumo crescente de açúcar no século XVIII – seja como adoçante no chá, como
melaço no mingau ou como geléia no pão – contribuiu para a ampliação da base nutricional de uma
população em crescimento.21 Ela permitiu o rápido crescimento da indústria do algodão, sem que
ocorressem pontos de estrangulamento no abastecimento de gêneros alimentícios para a classe
trabalhadora. No continente – e especialmente na Alemanha – a indústria açucareira teve uma
importância ainda maior para a expansão industrial. Segundo Werner Sombart, um dos mais
importantes pesquisadores do capitalismo na virada para o século XX, não se pode subestimar o
importantíssimo papel da indústria açucareira para o desenvolvimento da Alemanha até tornar-se
uma “potência capitalista”. Tal indústria, juntamente com a do álcool etílico, desempenhou,
segundo ele, o mesmo papel decisivo para o processo de industrialização que a indústria do
algodão e a do ferro desempenharam para a Inglaterra.22 Isto, certamente, é verdade no que se
refere à fase inicial da industrialização, ainda que, em meados do século XIX, um incipiente e
dramático processo de recuperação do tempo perdido frente à first industrial nation tenha sido,
antes, conduzido pela construção ferroviária e ramos afins.
Wirtschaftsverbände Zucker, Bonn, Berlim 2000; H. J. Teuteberg e G. Wiegelmann, Der Wandel der
Nahrungsgewohnheiten unter dem Einfluß der Industrialisierung. Göttingen 1972; H. J. Teuteberg, Der
Beitrag des Rübenzuckers zur "Ernährungsrevolution" des 19. Jahrhunderts, in: H. J. Teuteberg and
G. Wiegelmann, Unsere tägliche Kost, pág. 153-162.
18
K.-P. Ellerbrock, Geschichte der deutschen Nahrungs- und Genußmittelindustrie 1750-1914,
Stuttgart 1993; Kuster, 500 Jahre, in: VSWG 1998, pág. 477-513; M. Pohl, Die Geschichte der
Südzucker AG. München, Piper 2001; Teuteberg e Wiegelmann, Wandel; Teuteberg, Beitrag; Schaal,
Rübenzuckerindustrie; J. A. Perkins, The Agricultural Revolution in Germany 1850-1914, in: The
Journal of European Economic History 10(1981), pág. 71-118; J. A. Perkins, The Organisation of
German Industry 1850-1930: The Case of Beet-Sugar Production, in: The Journal of European
Economic History 19 (1990), pág. 549-574; J. Perkins, Comparative Economic Development: The
German and French Beet Sugar Industries before 1914, in: Fra Spazio e Tempo: Studi in Onore di
Luigi di Rosa. I. Zilli. Neapel, Edizioni Scientiche Italiane 1995, vol. 3, pág. 411-26; J. A. Perkins,
Sugar Production, Consumption and Propaganda in Germany, 1850-1914, in: German History
15(1997), pág. 22-31.
19
J. Baxa e G. Bruhns, Zucker im Leben der Völker: Eine Kultur- und Wirtschaftsgeschichte. Berlim,
Verlag Dr. Albert Bartens 1967; Galloway, Sugar; Mintz, Macht.
20
Paasche, Zuckerindustrie; H. Paasche, Die Zuckerproduktion der Welt, ihre wirtschaftliche
Bedeutung und staatliche Belastung, Leipzig, Berlim 1905.
21
S. Mintz, Die süße Macht, Kulturgeschichte des Zuckers. Campus Verlag, Frankfurt sobre o Meno,
Nova York 1987, pág. 96; sobre a relação com a industrialização, vide E. Boserup, Population and
Technological Change: A Study of Longterm Trends, Chicago 1981 e J. Komlos, Ein Überblick über
die Konzeptionen der Industriellen Revolution, in: VSWG 84 (1997), pág. 461-511.
22
W. Sombart, Der moderne Kapitalismus, Leipzig 1902, vol. II, pág. 14.
9
A ascensão da indústria do açúcar de beterraba corresponde, também sob um outro aspecto, ao
modelo da industrialização alemã. Ela está ligada, desde o início, à utilização econômica do
conhecimento produzido cientificamente. O farmacêutico e químico berlinense Andreas Sigismund
Marggraf (1709-1782) conseguiu provar, em meados do século XVIII, que o açúcar (sacarose)
contido na beterraba (em latim, Beta vulgaris L.) era idêntico ao açúcar extraído da cana. O
resultado de suas pesquisas foi publicado em 1749.23 Agora, não havia mais qualquer dúvida de
que o “doce sal” poderia ser produzido tanto a partir das plantas locais quanto da cana-de-açúcar.
Figura 4
A. S. Marggraf, o descobridor do açúcar de beterraba, 1709-1782 (Fonte: SÜDZUCKER AG,
Südzucker-Archiv) A.
Figura 5
F. C. Achard, o fundador da indústria do açúcar de beterraba (Fonte: SÜDZUCKER AG, SüdzuckerArchiv)
[Colocar as figuras lado a lado]
Mas foi somente o seu aluno e sucessor Franz Carl Achard (1753-1821) que conseguiu, após
alguns reveses, isolar a sacarose da beterraba, criar, por meio da seleção genética, beterrabas
mais ricas em açúcar e extrair o açúcar da beterraba em condições técnicas de fabricação. Achard,
desde o início, comemorou os resultados de suas pesquisas também como uma vitória sobre as
imorais relações de produção nas colônias açucareiras.24 Os resultados por ele alcançados foram
implementados, com sucesso, a partir de 1811, também na França. No entanto, após o fim do
Bloqueio Continental, toda a produção prussiana de açúcar de beterraba, subsidiada pelo Estado,
entrou em colapso. Ela só reviveria nos anos trinta do século XIX – a partir de 1836, em escala
industrial. A cultura da beterraba, na Prússia, não é importante apenas como fornecedora da
matéria-prima para a fabricação do açúcar, mas tornou-se um fator indispensável para toda a
agricultura em solos melhores. Era a pré-condição para o método intensivo de rotação de culturas
sobre este solo, porque elevava o rendimento das culturas subseqüentes, especialmente da de
cereais. Era também grande a importância da beterraba como forragem para os rebanhos de gado.
23
A. S. Marggraf, Expériences chymiques faites dans le dessein de tirer un véritable sucre de
diverses plantes, qui croissent dans nos contrées. Histoire de l’Academie Royale des Sciences et
Belles Lettres, Année 1747, Berlim 1749, pág. 79-90.
24
F. C. Achard, Die europäische Zuckerfabrikation aus Runkelrüben in Verbindung mit der Bereitung
des Brandweins, des Rums, des Essigs und eines Coffee-Surrogats aus ihren Abfällen, Leipzig,
Verlag J.C. Hinrichs 1809 (2ª tiragem 1812), § 647, pág. 426. A obra é concluída com a seguinte
colocação: “...visto, porém, como um meio de suprimir a miséria de meio milhão de pessoas, que
suspiram sob o jugo da mais cruel tirania, este trabalho torna-se extremamente importante e benéfico
para toda a humanidade. Aquele não sente isto, eu não gostaria de ter como amigo, posto que a
natureza cometeu um equívoco ao atribuir-lhe a forma humana.
10
Como setor líder da industrialização do espaço rural, ela, além disto, estimulou também a indústria
de máquinas e a de processamento.25 Uma fábrica de açúcar típica era atulhada de máquinas e
equipamentos de todo tipo.
Figura 6
Vista interna de uma fábrica de açúcar por volta de 1885. À esquerda, no alto, aparelhos de
evaporação e cocção. Embaixo, bombas de êmbolos com volantes e transmissões. À direita, em
dois pisos, equipamento de dessacarificação do melaço; abaixo dele, pré-aquecedores (Fonte:
SÜDZUCKER AG, Südzucker-Archiv)
Quanto mais esta importância da cultura da beterraba era reconhecida, e quanto mais ela ampliava
o seu âmbito de abrangência e angariava subsídios estatais, mais acirrado se tornava o combate
ao açúcar de cana. As refinarias de açúcar de cana exigiam, em vão, a eliminação da ampla
proteção aduaneira de que gozava a indústria do açúcar de beterraba. Somando-se a isto conflitos
bélicos, que – como, por exemplo, em 1866 – interrompiam a importação, um número cada vez
maior de indústrias de processamento de açúcar de cana viu-se obrigado a fechar as portas, caso
não passasse ao refinamento do odiado açúcar de beterraba. Na segunda metade do século XIX,
esta guerra do açúcar atingiu o seu auge. A tradicional refinaria Elb-Zuckersiederei, de Hamburgo,
teve de fechar as portas em 1876. A última das refinarias que processavam açúcar de cana foi
fechada em 1877, em Berlim.26
Figura 7
A refinaria Elb-Zuckersiederei em Hamburgo, gravura em aço de C. Adler, por volta de 1850. À
esquerda, em segundo plano, a torre da Igreja Matriz de Altona. (Fonte: SÜDZUCKER AG,
Südzucker-Archiv)
A indústria do açúcar de beterraba estava bem aparelhada para este combate. Assim, ela serviuse, desde o início, de meios inovadores na política de interesses, para consolidar a sua crescente
importância: Em 1850, é fundada a “Associação para a Indústria do Açúcar de Beterraba na União
Aduaneira”. Com o advento das sociedades anônimas, ela passou a dispor de mais um instrumento
para fortalecer o seu poder de barganha: A produção de açúcar organizou-se como “grande
indústria”. Sob o aspecto técnico, o método de difusão havia contribuído para a extração do caldo.
Esta inovação-chave revolucionou o processo de produção no final dos anos sessenta do século
XIX. O número de fábricas em operação cresceu, na Alemanha, de 148 (1850) para cerca de 400
25
Schaal, Rübenzuckerindustrie; R. Petri, Der Maschinenbau in Halle an der Saale (1856-1914). Ein
Marshallscher Distrikt? In: Preußen im Kaiserreich, Jahrbuch für Wirtschaftsgeschichte 2002/2, pág.
159-190.
26
Baxa e Bruhns, Zucker, pág. 172.
11
até o final do século, e a produção, de 53.000 toneladas para 2 milhões de toneladas de açúcar em
bruto, das quais mais da metade era exportada.
Figura 8
Um típico estabelecimento agro-industrial de larga escala, 1910 (Fonte: SÜDZUCKER AG,
Südzucker-Archiv)
Por volta de 1890, o ramo do açúcar, além de abastecer o crescente mercado interno, era
responsável por um oitavo das exportações alemães para a Grã-Bretanha. Às vésperas da Primeira
Guerra
Mundial, a
cultura
da
beterraba
empregava, aproximadamente, meio
milhão
de
trabalhadores; outros 100.000 trabalhavam na indústria de processamento.27 Em 1914, a
Alemanha era o maior produtor mundial de açúcar de beterraba. Sua participação na produção
global de açúcar era de cerca de um sétimo, e de cerca de um terço a sua parcela na produção do
açúcar de beterraba, que, em 1.450 fábricas, produzia cerca de 6 milhões de toneladas de açúcar
em bruto – 2,5 toneladas a mais do que os produtores de açúcar de cana.28 O êxito da indústria de
açúcar de beterraba parecia ilimitado. O crescimento desmedido somente foi atenuado quando, no
início do século XX, os interesses das colônias conseguiram reequilibrar as condições de
concorrência no nível internacional.
Composição de conflitos decorrentes da globalização
Para a solução de conflitos decorrentes da globalização, havia, no século XIX, um método com
eficácia garantida: a formação de cartéis internacionais. Foi nisto que a França, afetada de forma
especialmente dura, mas também outros concorrentes buscaram, então, uma saída para a ruinosa
concorrência do mercado mundial. Porém, conferências internacionais sobre o açúcar, visando
barrar a superprodução global, cada vez maior, e que tiveram lugar a partir de 1862,
primeiramente por iniciativa francesa, não surtiram qualquer efeito. Um primeiro tratado
internacional sobre o açúcar, freqüentemente contornado, chegou ao fim em 1875. A conseqüência
disto foi a crise internacional do açúcar dos anos oitenta do século XIX que, mais uma vez, exerceu
efeitos negativos sobre a metrópole e as colônias. Os produtores alemães saíram-me melhor no
mercado internacional de açúcar. Até então, os cartéis internos do açúcar tinham tentado, com
sucesso, alcançar os mais altos preços internos, a fim de, em compensação, poder fixar preços
mais baixos para o mercado externo. Somavam-se a isto notas de crédito de exportação para
cobertura de impostos e taxas. Para se defender de tais práticas de dumping por meio de
incentivos à exportação, os Estados Unidos e o Canadá, recorrendo a drásticas sobretaxas
aduaneiras, praticamente excluíram, por completo, o açúcar europeu de seus mercados. Com a
Inglaterra do livre comércio, a história foi diferente. Em 1870, os ingleses ainda importavam 77%
27
28
Perkins, Organisation, pág. 549.
G. Bruhns, 250 Jahre Rübenzucker 1747-1997, Berlim 1997, pág. 36 e seg.
12
de açúcar de cana. Em 1900, eram apenas 9%.29 O governo liberal, entre cujos eleitores havia
cada vez mais trabalhadores, somente admitia um critério: o interesse do consumidor. Foi somente
após uma nova queda de preços nos anos noventa do século XIX, das conseqüências da guerra
hispano-americana, e face a novos grandes produtores, como Java e Rússia, que, em 1902, surgiu,
pela primeira vez, com a Convenção de Bruxelas sobre o Açúcar, um tratado econômico
internacional dotado de eficácia contra os subsídios à exportação e o dumping de preços.30 Para
isto, havia sido determinante a atitude do novo governo conservador da Grã-Bretanha. Para os
defensores dos interesses imperialistas na política externa britânica que, desde 1895, aglutinavamse em torno do Ministro para Assuntos Coloniais Joseph Chamberlain, o que vinha em primeiro
lugar, agora, não era mais abastecer de açúcar o consumidor britânico com as condições mais
vantajosas. O “doce poder” há muito tempo já se tornara um fator político. Como o país com o
maior consumo mundial per capta de açúcar, a Grã-Bretanha podia determinar, em grande
medida, as condições do cartel internacional. Os grandes exportadores de açúcar tiveram de pagar
pela estabilização do mercado, que o tratado garantia, com a renúncia às subvenções que
distorciam a concorrência. Para a indústria do açúcar de beterraba nos países exportadores, pouca
coisa mudou. Após a entrada em vigor da convenção, os preços do açúcar subiram no mercado
mundial, na proporção dos subsídios abolidos. A diferença não foi mais paga pelo governo do país
exportador, e sim pelo consumidor.
Os produtores de açúcar de cana lucraram com os preços mais altos. A proibição aos subsídios
deixou, novamente, o caminho livre para o açúcar de cana. Ele pôde, então, elevar sua
participação na produção mundial, de 3,6 milhões de toneladas (1900/01) para 19 milhões de
toneladas (1913/14). Apesar disto, o açúcar de beterraba também não viu, em absoluto, sua
importância diminuída. Embora tenha perdido em exportabilidade, isto foi compensado pela
extraordinária dinâmica do consumo de açúcar no mercado interno. Pela primeira vez, os
produtores de açúcar empregaram estratégias de marketing que se dirigiam, sobretudo, à própria
população e estilizavam o açúcar como o protótipo de um gênero alimentício “moderno”, ou seja,
jovem e dinâmico.
Figura 9
Propaganda de açúcar: “O açúcar dá força“, 1900-1918 (Fonte: SÜDZUCKER AG, SüdzuckerArchiv)
Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Suécia, Dinamarca e Holanda permaneceram sendo bemsucedidos países produtores de açúcar de beterraba. Dentre os países produtores de açúcar de
cana, foram, sobretudo, as Índias Britânicas, os Estados Unidos e Cuba que lucraram com a
29
F. Trentini, Die Entwicklung des internationalen Zuckermarktes seit der Brüsseler Konvention 1902
unter besonderer Berücksichtigung der Kriegseinflüsse und der Maßnahmen zur Bekämpfung der
nachkriegszeitlichen Zuckerkrise, Zurique, J. Rüegg Söhne 1932, pág. 7.
30
G. Mikusch, Geschichte der Internationalen Zuckerkonventionen (=Berichte über Landwirtschaft, SH
54), Berlim, Parey 1932, pág. 93-98. P. Dunez, Histoire du libre-échange et du protectionisme en
France. Paris. Institut Social de France et de l'Union Européenne 1995.
13
eficácia do cartel internacional. Antes da Primeira Guerra Mundial, ambos os mercados de açúcar
haviam alcançado um equilíbrio no comércio mundial.
Diversamente da Alemanha, “o país dos cartéis”, a França encontrou dificuldades com os acordos
internacionais. Pouco depois da entrada em vigor das disposições, em 1903, elas conduziram, ali, a
uma onda de especulação, que, mais uma vez, desencadeou uma grave crise em 1905. As
exportações francesas de açúcar não podiam mais fazer frente à pressão da concorrência
internacional das grandes economias exportadoras Alemanha, Rússia, Java e Cuba. Enquanto o
desenvolvimento do setor francês de açúcar de beterraba se desacelerava, as colônias começavam
a ajustar mais fortemente sua economia à produção de rum e de bananas.31
Na Primeira Guerra Mundial, a Convenção de Bruxelas perdeu o sentido, para, finalmente,
extinguir-se em 1920. Enquanto a oferta de açúcar de cana continuava a crescer, os produtores
europeus de açúcar de beterraba também tentavam retomar as suas capacidades anteriores à
guerra. Os preços despencaram. Como conseqüência, os acordos internacionais dos países
exportadores de açúcar modificaram o seu caráter sob o efeito de uma progressiva superprodução
mundial: De cartéis de condições, eles foram se tornando, cada vez mais, cartéis de quotas. No
auge da crise econômica mundial, Cuba logrou, finalmente, alcançar uma regulamentação
internacional de contingenciamento com o chamado Tratado Chadbourne, do qual tomaram parte,
em 1931, Bélgica, Tchecoslováquia, Alemanha, Grã-Bretanha, Java, Cuba, Polônia, Hungria e
Estados Unidos. Para os países europeus produtores de açúcar, como a Alemanha, altamente
desenvolvidos em termos industriais, os lucrativos mercados já há muito tinham se deslocado, do
próprio açúcar, para a construção máquinas e equipamentos de produção de açúcar.
Figura 10
Propaganda da indústria de máquinas de 1941: “Fornecemos, em todo o mundo, instalações
completas para a produção de açúcar de beterraba e de cana.” (Fonte: SÜDZUCKER AG,
Südzucker-Archiv)
Conclusão
O açúcar revolucionou por completo a alimentação quotidiana no século XIX e, juntamente com a
batata, instituiu novas relações alimentares. Ele contribuiu, na Europa, para que as periódicas
crises de carestia, que há séculos se repetiam, fossem definitivamente superadas. O consumo de
açúcar, neste contexto, evoluiu para um exemplo clássico de processo de rebaixamento sóciocultural, que também se poderia chamar, eufemisticamente, de democratização do consumo do
açúcar. A economia latifundiária, as importações maciças e o estabelecimento de uma produção
agro-industrial em grande escala transformaram o açúcar, a princípio, de um gênero alimentício de
luxo para os ricos, num produto para o consumo da média burguesia. A produção do açúcar de
31
Butel fala, neste contexto, de uma “fièvre du rhum” e de uma “révolution bananière” (Butel, Histoire,
pág. 444, 451).
14
beterraba, sobre a base de uma agricultura explorada racional e cientificamente e de um
processamento industrial, permitiram, então, que também amplos segmentos das classes sociais
mais baixas tirassem proveito dele. O açúcar tornou-se parte da alimentação quotidiana.
O processo de rebaixamento sócio-cultural contrapõe-se a um processo de ascensão econômica,
que, no entanto, projeta-se fundamentalmente sobre o açúcar de beterraba nativo, maciçamente
subvencionado pelo Estado. No continente europeu, o açúcar torna-se um produto clássico da
“visible hand”. O Estado acompanhou sua carreira em todas as etapas do ciclo do produto – do
experimento agroquímico no século XVIII até a subvenção aos combustíveis agrícolas em nossos
dias. O entrelaçamento internacional e transnacional do mercado do açúcar em todo o mundo
documenta, de forma impressionante, a dimensão da globalização econômica na segunda metade
do século XIX. Mas ela mostra, também, que a “invisible hand” do anônimo mercado competitivo
não se presta à solução dos problemas criados pelo antagonismo econômico entre esferas de
interesses nacionais e globais. Antes, permaneceu sendo algo reservado à razão dos cartéis
internacionais providenciar para que fossem criadas e implementadas regras do jogo que
mantiveram em funcionamento o processo de globalização.
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A “guerra do açúcar” e o “luxo do açúcar”