UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO TESE DE DOUTORADO Os Saberes Docentes na Tutoria em Educação a Distância Thaís Philipsen Grützmann Pelotas, 2013 THAÍS PHILIPSEN GRÜTZMANN Os Saberes Docentes na Tutoria em Educação a Distância Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação Universidade em Educação Federal de da Pelotas, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em Educação. Orientador: Prof. Dr. Mauro Augusto Burkert Del Pino Pelotas, 2013 Catalogação na publicação: Maria Fernanda Monte Borges CRB - 10/1011 G893s Grützmann, Thaís Philipsen Os saberes docentes na tutoria em Educação a Distância / Thaís Philipsen Grützmann ; orientador Mauro Augusto Del Pino. - Pelotas, 2013. 259 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2013. 1. Educação a Distância 2. Tutoria 3. Saberes docentes 4. Polidocência 5. Recontextualização I. Del Pino, Mauro Burkert, orient. II. Título CDD 370 Banca Examinadora: Prof. Dr. Mauro Augusto Burkert Del Pino (Fae/UFPel – Orientador) Prof. Dr. Daniel Ribeiro Silva Mill (UFSCar) Profa. Dra. Gertrudes Aparecida Dandolini (UFSC) Profa. Dra. Maria Cecília Loréa Leite (FaE/UFPel) Profa. Dra. Rosária Ilgenfritz Sperotto (FaE/UFPel) Dedicatória Este trabalho é dedicado a todos aqueles que foram, são ou serão tutores na Educação a Distância em nosso país. Agradecimentos A Deus, meu criador, pelo dom da vida e da inteligência, e pela oportunidade de continuar a formação acadêmica. Ao meu marido, Marcos, que diariamente estava ao meu lado com seu amor e cumplicidade, apoiando-me e incentivando-me. À minha filha, Maria Eduarda, sinônimo de pureza e felicidade, que enche meus dias de alegria com suas risadas e brincadeiras. Aos meus pais, Luiz Carlos e Dalgisa, pelo exemplo, amor incondicional e bons ensinamentos cristãos. À minha irmã, Thaiana, por ser sempre uma pessoa alegre e disponível, incentivadora constante, companheira de lutas e amante da educação. Ao meu orientador, colega e amigo, Mauro Del Pino, pelas incansáveis contribuições, pelas palavras ditas e escritas, pela sabedoria compartilhada, pela doação de tempo e conhecimento. Por ser um grande orientador, um mestre. Aos professores da banca, Daniel, Gertrudes, Maria Cecília e Rosária, que gentilmente aceitaram participar desta caminhada ao meu lado, contribuindo com suas vivências e aprendizados, ajudando-me a trilhar um bom caminho entre as diferentes escolhas teóricas. Aos meus colegas tutores a distância do CLMD, que gentilmente aceitaram o convite e embarcaram nessa aventura comigo. Que disponibilizaram seu tempo e compartilharam suas vivências. Que acolheram o desafio de ajudar a pensar a tutoria na Educação a Distância. Aos meus colegas e amigos do PPGE, pelas muitas leituras e “dicas”, contribuições importantes para o resultado “final” do processo. Aos amigos e familiares, dos quais abdiquei de tempo e mantive distância forçada em função da escrita desta tese. Acredito que valeu a pena! Aos que já se foram, mas que lá de cima olham por mim, na torcida pelo sucesso. A vocês, Muito obrigado! Epígrafe Quem presta atenção no que lhe ensinam terá sucesso. Quem confia no Senhor será feliz. Provérbios 16. 20 Resumo A estruturação pedagógica da Educação a Distância vem sendo analisada sobre diferentes enfoques, proporcionando uma gama potencial de pesquisas. Esta Tese de Doutorado em Educação, vinculada à linha Currículo, Profissionalização e Trabalho Docente, buscou refletir sobre os saberes docentes dos tutores virtuais, sujeitos ativos no processo de ensino-aprendizagem dentro dos cursos na modalidade a distância. Como referencial teórico principal, foram escolhidos Maurice Tardif e Cecília Borges, em relação aos saberes docentes; Daniel Mill, que estuda sobre a polidocência na Educação a Distância e, Basil Bernstein, sociólogo que desenvolveu uma teoria sobre a estruturação do discurso pedagógico. Por meio de leituras e reflexões, esses autores foram levados a dialogarem com o problema de pesquisa proposto: como o tutor a distância do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD) recontextualiza os seus saberes docentes na atuação em Educação a Distância? O lócus de pesquisa foi o Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da Universidade Federal de Pelotas, o qual iniciou suas atividades acadêmicas em 2006 e que, atualmente, atende 30 polos e aproximadamente 770 acadêmicos. A pesquisa proposta teve o caráter qualitativo, sendo definida como um estudo de caso. Os sujeitos pesquisados foram os tutores a distância do CLMD. Os dados foram coletados através de questionário online, entrevista semi-estruturada e observação não sistemática da prática dos tutores, e posteriormente, analisados através da Análise de Conteúdo de Bardin e da teoria de Bernstein. Os principais resultados obtidos foram que a recontextualização dos saberes docentes na prática da tutoria acontece pela reestruturação e reorganização dos conteúdos; pelo tipo de comunicação realizada com os estudantes, principalmente na forma escrita; pela forma diferenciada com que os materiais e as atividades precisam ser apresentados, invariavelmente de forma mais detalhada a fim de que o estudante possa estudar de forma individual e também no coletivo; e através do contato contínuo entre tutor e estudante, respeitando o prazo para retorno de 24 horas, conforme as atribuições do tutor, bolsista da CAPES. O retorno ao aluno – feedback − acontece de forma predominantemente escrita e é individualizado. A recontextualização também se configura na afetividade e na interação com o aluno que acontece de forma virtual e mais particularizada, mediada pelas tecnologias. Ficou evidente que a dinâmica espaço-temporal da EaD tem especificidades, exigindo a compreensão dos momentos síncronos e assíncronos como potenciais de aprendizagem dos acadêmicos. Palavras-chaves: tutoria, saberes docentes, recontextualização, polidocência, educação a distância. Abstract The pedagogic structuring of Distance Learning has been analyzed by different approaches, providing a considerable potential for researches. The present PhD Thesis on Education, linked to the themes Curriculum, Profissionalization and Teaching Work, aimed to reflect on the teaching knowledge of virtual tutors, active subjects in the teaching-learning process in the distance learning courses. As the main theoretical framework, Maurice Tardif and Cecília Borges were chosen, concerning the teacher knowledge; Daniel Mill, who studies about politeaching in Distance Learning and, Basil Bernstein, sociologist who developed a theory concerning the structuring of the teaching discourse. Through readings and reflections, these authors engaged in talks about the research problem proposed: how does the distance tutor of the Distance Math Teaching Course (DMTC) re-contextualizes his teaching knowledge in the field of Distance Learning? The research was carried out at the Federal University of Pelotas in the Distance Math Teaching Course, which started its academic activities in 2006 and which currently serves 30 places and around 770 students. The proposed research had a qualitative approach, being defined as a case study. The subjects researched were distance tutors from the DMTC. The data was collected through online questionnaires, semi-structured interview and a non-systematic observation of the tutors’ practice, and were later analyzed through Bardin’s Content Analysis and Bernstein’s theory. The main results obtained were that the re-contextualization of teacher knowledge in the tutoring practice occurs by the restructuring and reorganization of the contents; by the type of communication held with the students, mainly written; by the differentiated way in which the materials and activities need to be presented, invariably in a more detailed way in order to enable the student to study individually as well as in a group; and by the continuous contact between the tutor and the student, respecting the time for return of 24 hours, according to the tutor assignments, a CAPES scholar. The feedback for the student takes place mainly through writing and is individualized. The re-contextualization occurs in the affectivity and interaction with the student which happens virtually and in a more private setting, mediated by the technologies. It was clearly evident that the temporal-spatial dynamics of Distance Learning has its specific peculiarities, demanding the understanding of synchronous and asynchronous moments as learning potentials of the students. Key words: tutoring, teacher knowledge, re-contextualization, politeaching, distance learning. Lista de Figuras Figura 1: Os dez primeiros cursos na modalidade a distância .......................... 26 Figura 2: Gerações da Educação a Distância ................................................... 28 Figura 3: Altair 8800 .......................................................................................... 31 Figura 4: Estatística de acesso ao AVA Moodle do CLMD ................................ 32 Figura 5: Evolução do Número de Matrículas de Graduação por Modalidade de Ensino e do Número de Matrículas a Distância Públicas e Privadas–Brasil–20012010 ................................................................................................................... 40 Figura 6: Distribuição do Número de Matrículas de Graduação por Grau Acadêmico e Modalidade de Ensino–Brasil–2010 ............................................. 41 Figura 7: Novo Campus Porto ........................................................................... 43 Figura 8: Site do CEAD/UFPel .......................................................................... 44 Figura 9: Funcionamento do Sistema UAB ....................................................... 47 Figura 10: Conhecimentos necessários para a formação do professor de matemática ......................................................................................................... 56 Figura 11: Eixos Temáticos do CLMD/CEAD/UFPel ......................................... 56 Figura 12: Configuração de Estágios do CLMD/CEAD/UFPEL/CEAD/UFPel ... 57 Figura 13: Tela inicial de acesso ao Moodle/CLMD .......................................... 59 Figura 14: Tela inicial do Moodle/CLMD após acesso ....................................... 59 Figura 15: Tela inicial do Eixo Geometrias: Espaço e Forma ............................ 60 Figura 16: Tela inicial do Eixo RP de Álgebra Funcional ................................... 60 Figura 17: Tela inicial da disciplina Matemática Elementar B ............................ 61 Figura 18: Tela inicial do Moodle/CLMD (2009-2011) ....................................... 61 Figura 19: Acesso ao CLMD (2009-2011) ......................................................... 61 Figura 20: Apostilas do CLMD ........................................................................... 62 Figura 21: Media Center .................................................................................... 62 Figura 22: Exemplo de vídeo aula ..................................................................... 63 Figura 23: Peça Teatral do Polo Turuçu – I Workshop do CLMD ...................... 67 Figura 24: II Workshop do CLMD ...................................................................... 68 Figura 25: Mapas com os polos do CLMD......................................................... 72 Figura 26: Organograma da equipe pedagógica do CLMD/CEAD/UFPel ......... 75 Figura 27: Saberes Docentes .......................................................................... 107 Figura 28: Fios condutores dos saberes docentes .......................................... 110 Figura 29: Saberes docentes na prática docente ............................................ 113 Figura 30: Código e relações........................................................................... 126 Figura 31: Gramática interna do discurso pedagógico .................................... 137 Figura 32: Discurso Instrucional e Discurso Regulador ................................... 142 Figura 33: Níveis de Recontextualização ........................................................ 143 Figura 34: Níveis de Recontextualização aplicados à tese ............................. 145 Figura 35: Divisão da Prática Pedagógica ....................................................... 147 Figura 36: Estudo de Caso .............................................................................. 150 Figura 37: Desenvolvimento de uma análise ................................................... 159 Figura 38: Gênero dos tutores a distância ....................................................... 164 Figura 39: Faixa etária dos tutores .................................................................. 164 Figura 40: Estado civil dos tutores a distância................................................. 165 Figura 41: Número de filhos dos tutores à distância ........................................ 165 Figura 42: Renda mensal dos tutores a distância............................................ 166 Figura 43: Sobre a bolsa de tutoria ................................................................. 166 Figura 44: Formação inicial – graduação ........................................................ 167 Figura 45: Formação continuada dos tutores a distância ................................ 168 Figura 46: Primeira experiência docente na EaD dos tutores a distância ....... 170 Figura 47: Elementos que interferem na prática como tutor na EaD ............... 184 Figura 48: Experiência docente vinculada aos níveis/modalidades de ensino 188 Lista de Tabelas Tabela 1: Leis, decretos, portarias e resoluções sobre EaD .............................. 33 Tabela 2: Algumas publicações entre 2006 e 2012 referentes ao CLMD .......... 63 Tabela 3: Trabalhos apresentados na ANPEd, entre 2006-2012....................... 87 Tabela 4: Trabalhos selecionados da ANPEd, entre 2006-2012 ....................... 88 Tabela 5: Síntese das pesquisas sobre o tema “tutor” e/ou “tutoria” em revistas e eventos ............................................................................................................... 99 Tabela 6: Os saberes dos professores ............................................................ 115 Tabela 7: Relações de poder – classificação ................................................... 130 Tabela 8: Grau de controle – enquadramento ................................................. 133 Tabela 9: O que é ser tutor na EaD? ............................................................... 171 Tabela 10: Porque ser tutor no CLMD? ........................................................... 179 Tabela 11: Elementos que interferem ou interferiram na prática como tutor na EaD .................................................................................................................. 183 Tabela 12: O que significa recontextualizar? ................................................... 202 Tabela 13: Como os saberes docentes são recontextualizados ...................... 215 Lista de Abreviaturas e Siglas ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância AM – Amazonas ANATED – Associação Nacional dos Tutores da Educação a Distância ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior ANPEd – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CD – Conselho Deliberativo do FNDE CEAD – Centro de Educação a Distância CES – Câmara de Educação Superior CIAED – Congresso Internacional ABED de Educação a Distância CLEC – Curso de Licenciatura em Educação do Campo a Distância CLMD – Curso de Licenciatura em Matemática a Distância CLPD – Curso de Licenciatura em Pedagogia a Distância CNE – Conselho Nacional de Educação COCEPE – Conselho Coordenador do Ensino, da Pesquisa e da Extensão CRO – Campo de Recontextualização Oficial CRP – Campo de Recontextualização Pedagógica DED – Diretoria de Educação a Distância da CAPES DL – Dispositivo linguístico DOU – Diário Oficial da União DP – Dispositivo Pedagógico DPO – Discurso Pedagógico Oficial DPR – Discurso Pedagógico de Reprodução EaD – Educação a Distância ECS – Estágio Curricular Supervisionado ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino ENADE – Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes ESSA – Estudos Sociológicos da Sala de Aula ESUD – Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância FaE – Faculdade de Educação FPELE – Formação de Professores Espanhol como Língua Estrangeira FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FPELE – Formação de Professores de Espanhol como Língua Estrangeira GT – Grupo de Trabalho IEEAB – Instituto Estadual de Educação Assis Brasil IES – Instituições de Ensino Superior IFM – Instituto de Física e Matemática IGC – Índice Geral de Cursos INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira IPES – Instituições Públicas Ensino Superior Lemad – Laboratório de Ensino de Matemática a Distância LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação MG – Minas Gerais NSE – Nova Sociologia da Educação PAR – Plano de Ações Articuladas PARFOR – Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica PDE – Plano de Desenvolvimento da Educação PE – Pernambuco PR – Paraná Pró-Lic – Pró-Licenciatura PUCRS – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul RBAAD – Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância RS – Rio Grande do Sul SC – Santa Catarina SEED – Secretaria de Educação a Distância SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SESu – Secretaria de Educação Superior SINAES – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior SP – São Paulo TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação UFBA – Universidade Federal da Bahia UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais UFPE – Universidade Federal de Pernambuco UFPel – Universidade Federal de Pelotas UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas UniRede – Associação Universidade em Rede www – World Wide Web Sumário As escolhas pelo instigar do novo ............................................................... 18 Capítulo 1: Conhecer a história é importante: fatos e focos da Educação a Distância no contexto da pesquisa.......................................... 25 1.1. Revisitando a história da Educação a Distância: como tudo começou ............. 27 1.2. A legislação e a expansão da EaD no Brasil .................................................... 33 1.3. A Universidade Federal de Pelotas e a EaD: tecendo as relações ................... 42 1.4. Universidade Aberta do Brasil: o que é isso? ................................................... 46 1.4.1. Coordenador de Tutoria ............................................................................. 50 1.4.2. Professor Pesquisador ............................................................................... 50 1.4.3. Tutor .......................................................................................................... 51 Capítulo 2: Sujeitos na EaD, sujeitos no CLMD: conversas pertinentes sobre o ser tutor e a polidocência ................................................................ 53 2.1. O Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPel: criação e estrutura curricular .................................................................................................. 54 2.2. A equipe pedagógica do CLMD ........................................................................ 69 2.3. Quem são os sujeitos que fazem a EaD? Um olhar sob o tutor e a polidocência ............................................................................................................ 76 2.4. O que se tem escrito sobre o tutor na EaD? ..................................................... 85 Capítulo 3: Saberes Docentes. De quem? De onde vem? ........................ 101 Capítulo 4: Dialogando com Basil Bernstein, trazendo os sujeitos tutores para a conversa ............................................................................... 121 4.1. Código ............................................................................................................ 125 4.2. Classificação e Enquadramento ..................................................................... 129 4.3. O Dispositivo Pedagógico .............................................................................. 134 4.3.1. Regras distributivas ................................................................................. 137 4.3.2. Regras recontextualizadoras.................................................................... 140 4.3.3. Regras avaliativas .................................................................................... 146 Capítulo 5: Horizontes delimitados: o que e o como foi feito .................. 148 Capítulo 6: A percepção dos tutores nesta caminhada: um relato .......... 163 6.1. Quem são os sujeitos? Um breve perfil... ....................................................... 163 6.2. Categorias definidas... Trabalho feito! ............................................................ 168 6.2.1. Ser tutor na EaD ...................................................................................... 169 6.2.2. O que são os saberes docentes para os tutores? .................................... 181 6.2.3. Saberes docentes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na atuação como tutores a distância no CLMD .............................................................................. 189 6.2.4. Saberes docentes específicos na atuação da tutoria em EaD.................. 198 6.2.5. A recontextualização dos saberes docentes dos tutores na EaD ............. 201 Capítulo 7: Considerações: um olhar de quem viveu a tese .................... 217 Caminhos percorridos: as referências ....................................................... 224 Apêndices ..................................................................................................... 240 Apêndice 1: Questionário Online .......................................................................... 240 Apêndice 2: Questões para entrevista dos tutores a distância ............................. 247 Apêndice 3: Termo de autorização do questionário online e das observações..... 249 Apêndice 4: Termo de autorização da entrevista ................................................. 250 Anexos .......................................................................................................... 251 Anexo 1 – Estatística de acesso mensal do AVA Moodle – CLEC........................ 251 Anexo 2 – Estatística de acesso mensal do AVA Moodle – CLPD........................ 252 Anexo 3 – Estatística de acesso mensal do AVA Moodle – FPELE ...................... 253 Anexo 4 – Grade curricular original do CLMD, em 2006 ....................................... 254 Anexo 5 – Ementas do Currículo por Eixos Temáticos, a partir de 2011 .............. 256 18 As escolhas pelo instigar do novo Toda tese tem uma história, que tem páginas engraçadas, alegres, divertidas e outras que são difíceis, pesadas, tristes. Aprendemos com todas elas e não são lições de consumo imediato, pelo contrário serão incorporadas na nossa vida. Maria Ester de Freitas Nossa vida é uma escolha. Pesquisar é buscar e escolher. Esta Tese é um conjunto de escolhas. Com certeza, busquei justificar aqui e ali o porquê de minhas escolhas. O porquê eu escolhi os saberes docentes, a tutoria em Educação a Distância e a teoria de Basil Bernstein. Pois bem, começo justificando o porquê de meu primeiro capítulo não ser o capítulo intitulado “Introdução” ou então “Apresentação”. Ao ler um texto de Sandra Corazza (2012) fiquei instigada com sua chamada aos novos pesquisadores, mestrandos e doutorandos, para que ousassem voar, criar, arriscar sair da mesmice e buscar dar ao seu texto um ar de novo, a sua própria marca, ou seja, que a escrita de cada pesquisador que está emergindo da pós-graduação possa de fato ter uma marca registrada e não sair como um molde pronto. A autora argumenta ainda para darmos uma atenção especial aos títulos, que devem ser uma mescla requintada, com tom lúdico, irônico e provocador, do objeto da pesquisa e da teoria utilizada (CORAZZA, 2012). Assim, justifico que, cada título, ao longo do trabalho, buscou ter esta mistura original, instigante, criativa, ousada, sensível e inovadora. Devo esclarecer ao leitor que esta Tese indaga como os tutores a distância recontextualizam os seus saberes docentes na prática cotidiana da tutoria. Para tal, faço uma discussão sobre os conceitos de tutoria e polidocência, saberes docentes e recontextualização, baseados nas teorias de Mill (2006; 2010; 2012), Tardif (2010; 2011; 2012) e Borges (2001; 2004; 2012), Bernstein (1984; 1996; 1998), respectivamente. Escolhi pesquisar sobre a Educação a Distância (EaD1) visto sua expansão na última década, proporcionando aos pesquisadores diferentes enfoques de 1 Eu utilizarei a sigla EaD para Educação a Distância, não considerando nela os termos como Ensino a Distância ou Aprendizagem a Distância (e-learning), pois nem na concepção e nem na prática estes termos deveriam ser sinônimos, apesar de muitos autores não fazerem tal distinção. Nesta Tese, considerando a EaD como uma modalidade de educação, é englobada a educação virtual como um tipo de EaD (MILL, 2012). 19 investigação, sendo que alguns precisam ser mais explorados pela academia. Também, por esta modalidade de ensino estar vinculada a formação de professores, sendo que o tutor, sujeito foco da pesquisa, participa deste processo pedagógico como parte da equipe polidocente. Assim, maiores considerações foram tecidas nas seções 2.3 e 2.4. Mas, voltando às minhas escolhas... por que os saberes docentes? A escolha pelos saberes docentes vem pelo fato de ser professora. Minha carreira docente começou, formalmente, quando ingressei no Curso de Magistério, em 1999, no Instituto Estadual de Educação Assis Brasil (IEEAB), na cidade de Pelotas/RS. Após essa experiência, em 2002 dei início a graduação em Licenciatura em Matemática, na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). No primeiro semestre do curso fiz paralelamente o Estágio Curricular Supervisionado do Magistério com uma turma de 3ª série do Ensino Fundamental. Concluída a licenciatura no final de 2005, tive a primeira oportunidade profissional numa escola municipal da zona rural no município de Turuçu, no ano de 2006, com turmas de 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental. Neste mesmo ano iniciei a formação continuada no curso de Especialização em Matemática e Linguagem na UFPel e, também, a atuar como tutora a distância nas primeiras turmas do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD) da mesma instituição. Nessas diferentes experiências que vivenciei, percebi que alguns de meus saberes docentes vinham da minha vida pessoal, antes de ingressar no Magistério. Outros foram construídos e modificados neste curso e, também, durante o espaço da formação inicial na graduação. Outros ainda remetem a prática docente, seja ela presencial ou virtual. O tempo ajudou e continua ajudando a repensar esta prática e como fazer para atuar da melhor forma junto aos alunos que comigo compartilham momentos de ensino e aprendizagem. Assim, questionei-me sobre quais os saberes que tinha, desenvolvia, mobilizava na prática docente que também estavam sendo utilizados na educação a distância, a partir da prática da tutoria. Eis aí minha segunda escolha... Por que a tutoria na Educação a Distância? 20 Atuar como tutora2 do CLMD foi o marco importante da minha carreira, pois desde então venho trabalhando diretamente com a Educação a Distância (EaD). Em 2006, também fiz seleção para ser professora substituta na UFPel, atuando exclusivamente no CLMD3, contudo não deixei de atuar como tutora a distância. Em 2007 concluí a Especialização e, no ano seguinte, ingressei no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática, da Faculdade de Física, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Apesar de atuar profissionalmente com a EaD, a dissertação teve outro foco, a saber, a formação de professores de Matemática por meio de jogos teatrais. Desde 2006, a minha atuação no CLMD como bolsista passou por vários níveis, de acordo com as políticas governamentais vinculadas à Universidade Aberta do Brasil (UAB). Iniciei como tutora, depois fui professora formadora e, por último, professora pesquisadora até março de 2010, quando, em abril deste mesmo ano, fui nomeada Professora Assistente Nível I do CLMD/UFPel, lotada no Centro de Educação a Distância (CEAD). Durante esses cinco anos iniciais participei dos projetos do curso, preparei e ministrei aulas, presencialmente e por webconferência, gravei vídeo aulas, organizei apostilas, listas de exercícios e suas resoluções, ajudei na organização de eventos, visitei polos e trabalhei com os Estágios Curriculares Supervisionados (ECS). A cada nova experiência4 fui me entusiasmando mais pelo ensino na modalidade a distância. Relacionado ainda a Educação a Distância, percebo a abertura de um campo profissional para os docentes, mediante sua atuação como tutores ou professores pesquisadores e conteudistas, especialmente vinculados a Universidade Aberta do Brasil (UAB), de acordo com as políticas públicas vigentes para a expansão do ensino superior. Porém, a modalidade de tutor ainda não é reconhecida enquanto profissão, o que deixa transparecer a falta de plano de carreira e a precarização deste tipo de trabalho docente. Para auxiliar na constituição da tutoria como profissão docente existe desde 2009 a Associação Nacional dos Tutores da Educação a Distância (ANATED). Esta é uma entidade sem 2 Adotei o termo tutor(a), pois é a nomenclatura utilizada no curso, considerando que o(a) tutor(a) é de fato um sujeito ativo dentro da equipe docente do curso. 3 Atuei durante dois anos como professora substituta na UFPel, tempo máximo permitido pela instituição para cada concurso. 4 Experiência entendida como reflexão, retomada, reprodução, reiteração daquilo que se sabe naquilo que se sabe fazer, a fim de produzir sua própria prática profissional (TARDIF, 2011, p. 21). 21 fins lucrativos, a qual “representa seus tutores associados no território nacional e internacional, tendo como objetivo principal fortalecer, organizar, incentivar e difundir o trabalho do tutor nas comunidades científicas, acadêmicas e na sociedade em si 5”. Considero este relato parte da minha trajetória inicial enquanto docente e como justificativa das escolhas feitas para esta Tese. Acredito nos saberes docentes e na tutoria em EaD, por entender a relevância do papel do tutor no cenário atual desta modalidade de ensino e busquei estudar mais a sua atuação, focando quais são os seus saberes e como estes são recontextualizados a partir do ensino presencial. E... por que a teoria de Basil Bernstein? Porque a partir da teoria de Bernstein obtive sustentação teórica para fazer uma análise de como os saberes docentes dos tutores são recontextualizados do ensino presencial para a modalidade a distância. Conheci parte da obra de Bernstein no primeiro semestre do doutorado, no início de 2011, e me identifiquei com sua teoria, apesar de reconhecer que sua leitura é complexa, com alto nível de abstração. Suas obras são pesquisadas e utilizadas como aporte teórico e procedimento metodológico por duas autoras portuguesas, fontes de aprendizado e inspiração, Ana Maria Morais e Isabel Pestana Neves. Elas coordenam um grupo de pesquisa em Portugal, denominado Estudos Sociológicos da Sala de Aula6 (ESSA), o qual trabalha com a aplicação dos conceitos bernstenianos. Ao escolher esses temas e relacioná-los, percebi não existirem trabalhos conectados sobre tais assuntos, ou seja, falar sobre saberes docentes na tutoria da Educação a Distância utilizando a teoria de Bernstein é algo original, ousado, inusitado, que propõe novos horizontes de investigação e justifica o ineditismo desta pesquisa. Assim, as escolhas iniciais conduziram às escolhas da Tese, o problema de pesquisa, o objetivo geral, os objetivos específicos, os sujeitos, a metodologia, a análise. A partir de agora, então, devo esclarecer ao leitor por onde caminhei nas páginas de escrita, mostrando quais foram as ideias norteadoras de minha pesquisa. O objetivo geral da pesquisa foi investigar como os tutores a distância do CLMD recontextualizam os seus saberes docentes na atuação em EaD. Destaco 5 Disponível em: <http://tutor.anated.org.br/_site/page/?p=anated_quem_somos-2>. Acesso em: 18 out. 2012. 6 Disponível em: <http://essa.ie.ul.pt/indexport.htm>. Acesso em: 26 mar. 2012. 22 que os tutores a distância são aqueles que atuam junto à sede do curso, ou seja, são os tutores que trabalham em Pelotas, atendendo os alunos dos polos de apoio presencial espalhados pela região sul do país. Estes sujeitos foram escolhidos como os protagonistas da pesquisa, pois acredito que sejam os que, de fato, realizam uma adaptação dos saberes docentes na atuação em EaD, visto que os tutores que atuam no polo (tutores presenciais) agem de forma semelhante ao professor presencial. Nessa linha de pensamento, o problema da pesquisa foi definido: como o tutor a distância do CLMD recontextualiza os seus saberes docentes na atuação em Educação a Distância? A questão proposta partiu do pressuposto que existe sim a recontextualização desses saberes de uma modalidade de ensino para a outra, por isso a ideia de ver como ela está acontecendo neste curso, na percepção do grupo de tutores virtuais. Buscando complementar o objetivo geral a que me propus, os objetivos específicos desta pesquisa foram: descrever o que é ser tutor na EaD, na percepção dos próprios tutores; apresentar qual a percepção que os tutores a distância têm sobre os saberes docentes; identificar quais são os saberes docentes que os tutores a distância mobilizam, adquirem e/ou constroem em sua atuação junto ao CLMD; identificar os saberes docentes que segundo os tutores do CLMD são específicos a sua atuação na EaD. Para desenvolver os objetivos propostos neste trabalho realizei uma pesquisa de caráter qualitativo, caracterizada como um estudo de caso. Os dados analisados foram coletados por meio do questionário online, da entrevista semiestruturada e, também, do diário de campo da pesquisadora. Os sujeitos escolhidos foram os tutores a distância do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância, que atuam na sede do curso, em Pelotas/RS. O grupo atual era composto de 50 tutores a distância. O questionário foi aplicado ao grande grupo, com retorno de 35 sujeitos. Os critérios de seleção para a entrevista determinaram 12 sujeitos, sendo que estes foram explicitados no capítulo 5, referente à metodologia. 23 A análise dos dados foi realizada por meio de Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011), juntamente com a teoria de Bernstein, esta última tendo sido utilizada com caráter conceitual e metodológico. Sobre a estrutura desta Tese, no capítulo 1, “Conhecer a história é importante: fatos e focos da Educação a Distância no contexto da pesquisa”, fiz inicialmente um breve histórico da EaD, a nível nacional e internacional, e um apanhado de leis, decretos, portarias e resoluções que regem a Educação a Distância no país. Na sequência, apresentei a constituição da EaD na Universidade Federal de Pelotas, a partir da solicitação de credenciamento da instituição junto ao MEC para a oferta de cursos na modalidade a distância. Para finalizar o capítulo, expliquei o que é o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), programa governamental no qual a UFPel está inserida a partir da oferta dos seus cursos de graduação na modalidade a distância. No capítulo 2, “Sujeitos na EaD, sujeitos no CLMD: conversas pertinentes sobre o ser tutor e a polidocência”, apresentei a criação e a estrutura do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD), o pioneiro nesta instituição de ensino e a equipe pedagógica que nele atua. Na seção seguinte trouxe uma discussão teórica sobre a docência na Educação a Distância onde considero o termo polidocência o mais propício para utilização. Neste contexto, o tutor é considerado como membro ativo na equipe docente, tendo funções específicas e determinadas. Por fim, apresento o “estado da arte” referente aos termos “tutor” e/ou “tutoria”, relacionados a revistas, periódicos e eventos renomados nas áreas de Educação e Educação a Distância. No capítulo 3, “Saberes Docentes. De quem? De onde vem?” abordei a teoria dos saberes docentes desenvolvida por Maurice Tardif e utilizada em pesquisas também por Cecília Maria Ferreira Borges. Dentre as fontes dos saberes docentes, por exemplo, encontram-se as experiências de vida, os saberes préprofissionais, a formação inicial e continuada e os saberes da prática profissional, os quais foram discutidos no decorrer do capítulo. No capítulo 4, “Dialogando com Basil Bernstein, trazendo os sujeitos tutores para a conversa” trouxe uma discussão sobre a teoria de Bernstein, apresentando alguns dos conceitos desenvolvidos pelo autor, como código, classificação e enquadramento e o dispositivo pedagógico. Este último utilizei como referencial 24 teórico na Tese, a partir das regras que o constituem: regras distributivas, recontextualizadoras e avaliativas. Neste capítulo já apresento alguns resultados da análise feita, com inserções da fala dos sujeitos da pesquisa. No capítulo 5, “Horizontes delimitados: o que e o como foi feito”, apresentei a metodologia utilizada na pesquisa, sendo esta de caráter qualitativo, mostrando um estudo de caso no Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPel. Realizei a pesquisa com o grupo de tutores a distância do curso, sendo que os dados foram coletados por meio de questionário online, entrevista semi-estruturada e observações não sistemáticas da prática destes tutores, registradas no diário de campo da pesquisadora. A análise dos dados foi realizada através de Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011), mesclada com a teoria do dispositivo pedagógico de Basil Bernstein. O capítulo 6, “A percepção dos tutores nesta caminhada: um relato” traz a análise dos dados obtidos. Num primeiro momento, apresenta uma breve descrição do perfil dos tutores que participaram desta pesquisa. Na subseção seguinte são apresentadas as cinco categorias de análise do trabalho, vinculadas aos objetivos propostos. A primeira, descreve a percepção do grupo sobre o que é ser tutor na educação a distância, o porquê optaram pelo CLMD e quais as principais dificuldades apresentadas. A segunda aborda a percepção do grupo sobre o que são esses saberes docentes, vinculados à teoria escolhida. A terceira categoria traz a tona os saberes docentes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na atuação dos tutores a distância no CLMD. A penúltima apresenta os saberes docentes considerados pelo grupo como específicos na atuação da tutoria em EaD. Por fim, a quinta categoria descreve como os tutores a distância do CLMD recontextualizam os seus saberes docentes do ensino presencial para a atuação na EaD. O capítulo 7, “Considerações: um olhar de quem viveu a tese” traz as considerações finais do trabalho, mostrando que um caminho foi trilhado, mas existem outros ainda a serem percorridos, deixando a possibilidade para novos pesquisadores se aventurarem. Para encerrar, apresento os “Caminhos percorridos: as referências”, os apêndices e os anexos. 25 Capítulo 1: Conhecer a história é importante: fatos e focos da Educação a Distância no contexto da pesquisa Ao proporcionar esses espaços e momentos de encontro e diálogo, tanto na sala de aula presencial como em uma sala da modalidade EaD, o profissional docente estará promovendo a interação entre os indivíduos, condição essencial para a construção do conhecimento. Aldo Pontes Por que estudar sobre a Educação a Distância (EaD)? De que modo ela contribuiu, contribui ou contribuirá com a educação de milhares de jovens e adultos brasileiros, de norte a sul do país? Quais são os fatores relevantes a serem considerados quando se fala nesta modalidade de ensino? Pensando a EaD, ela é uma modalidade de ensino centenária no Brasil, porém sua expansão vertiginosa ocorreu de forma significativa a partir do surgimento da Internet e da World Wide Web (www). Com o avanço e o desenvolvimento da tecnologia e a sua popularização foi possível criar, implantar e aperfeiçoar os cursos nesta modalidade. Conforme pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), “em 2011, 77,7 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade declararam ter usado a internet no período de referência de três meses anteriores à data da entrevista, um aumento de 14,7% em relação a 2009”7, confirmando que cada vez mais brasileiros, e mais cedo, tem acesso à rede em busca de informações. “EaD em Revista”, de junho de 2011, noticia que o número de brasileiros usuários da internet supera 63 milhões, sendo que destes, 7 milhões (11%) estudam ou já estudaram a distância pela web8. Antes, a formação inicial a nível superior ficava restrita às pessoas que tinham melhores condições financeiras e acesso às Instituições de Ensino Superior (IES). Porém, hoje milhares de pessoas podem cursar uma graduação nos lugares mais remotos do país, em instituições públicas ou privadas. Contudo, acompanhando o seu crescimento, surgem preocupações em torno de vários aspectos da EaD, desde questões relacionadas a gestão do processo de ensino7 Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia =2222&id_pagina=1>. Acesso em: 21 dez. 2012. 8 Extraído de EaD em Revista, Ano 2 – Edição 13 – Junho de 2011. Notícias, p. 23. 26 aprendizagem, passando pela qualidade desta modalidade de ensino até a formação necessária para atuar nos diferentes programas disponibilizados atualmente no panorama educacional brasileiro. Compreender a história da Educação a Distância é fundamental para situar sua relevância e abrangência nos dias atuais. A trajetória da EaD é instigante, cheia de nuances, desde o período das cartas, sucedido pelo rádio, pela televisão, pela comunicação via satélites, até chegar às tecnologias conhecidas recentemente. A internet proporciona hoje espaços de troca simultâneos e síncronos a partir de softwares, aplicativos e redes sociais, propiciando a interação, em tempo real, de pessoas localizadas em diferentes espaços, eliminando distâncias e qualquer tipo de barreira territorial. A multiplicação de cursos na modalidade a distância tornou necessária a elaboração de um conjunto de normas específicas, que pretendem disciplinar sua expansão e garantir sua qualidade. A EaD é vista como uma modalidade de ensino na qual, durante a maior parte do tempo (ou tempo integral), professores e alunos estão em locais distintos, durante o processo de ensino e aprendizagem (MOORE; KEARSLEY, 2008). A partir do Decreto 5.622/2005, ela é caracterizada “como modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação” (BRASIL, 2005), de tal forma que tanto estudantes como professores podem desenvolver suas atividades em lugares e/ou tempos diferentes. Em conformidade com esta caracterização da EaD, destaco os dez primeiros cursos de IES públicas e privadas, com o maior número de matrículas, oferecidos nesta modalidade, conforme o Censo da Educação Superior de 2009 (Figura 1). Figura 1: Os dez primeiros cursos na modalidade a distância Fonte: Censo da Educação Superior/MEC/Inep/Deed 27 Percebe-se que a Matemática está entre os dez maiores cursos nesta modalidade de ensino, sendo a terceira licenciatura (após Pedagogia e Letras), com 2,8% do total de matrículas. Destaquei a Matemática por ser a minha área de atuação e, também, pelo Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD) da Universidade Federal de Pelotas ter sido o local de minha pesquisa. É interessante salientar que os cursos de Pedagogia e Administração, juntos, abarcam 61,5% do número total de alunos. Assim, a Educação a Distância apresenta uma trajetória instigante, a qual possibilita diferentes pesquisas na área. Encontra-se hoje, na literatura, um conjunto importante de investigações que abordam o tema da EaD sob diferentes aspectos (MILL, 2006, 2012; MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010; LITTO; FORMIGA, 2009; BELLONI, 2009; MOORE; KEARSLEY, 2008; CORRÊA, 2007; GOUVÊA; OLIVEIRA, 2006; PETERS, 2003). De tal modo que, na sequência do texto, apresento, inicialmente e de forma sucinta, a história da EaD mundial e no Brasil. 1.1. Revisitando a história da Educação a Distância: como tudo começou O início da história da EaD no mundo aconteceu nos Estados Unidos, em 1728, quando Caleb Philips anunciou aulas por correspondência. Uma referência mundial é a Open University, na Inglaterra, a qual iniciou seus trabalhos em 1970 e tem hoje cerca de 160 mil alunos e, também, as universidades abertas da Espanha e da Venezuela. Atualmente, os cinco continentes, abrangendo mais de 80 países, utilizam a Educação a Distância em seus sistemas formais e não formais de ensino (NUNES, 2009). No Brasil, a EaD começou através de cursos por correspondência, em 1904, com a instalação das Escolas Internacionais no Rio de Janeiro. Em 1934 foi implantada a Rádio-Escola por Edgard Roquete Pinto e em 1939, em São Paulo, é instituído o Instituto Universal Brasileiro, que tem ampla divulgação a nível nacional. Em 1946 o SENAC9 começou suas atividades, desenvolvendo a Universidade do Ar em São Paulo e no Rio de Janeiro (ALVES, 2009). Já na década de 70 é organizado o Projeto Minerva e, também, um programa de educação supletiva à distância para o 1º e 2º graus, pela Fundação Roberto Marinho. Destacam-se ainda algumas 9 SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. 28 emissoras, que após a criação da TV a cabo, dedicam-se a programas de caráter educacional, como as TVs universitárias, o Canal Futura e a TV Escola (GOUVÊA; OLIVEIRA, 2006). Na década de 90, a partir da Lei 403/92, é criada a Universidade Aberta de Brasília, com três focos de atuação, sendo: cursos que buscavam a ampliação do conhecimento cultural, abertos ao público em geral, formação continuada e cursos de nível superior, com graduação e pós-graduação. Surgem, na sequência, outras tantas instituições que aderem ao ensino na modalidade a distância (GONZALEZ, 2005). Merece destaque a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), primeira a implantar de forma efetiva cursos de graduação na modalidade a distância (OSÓRIO, 2010) e a Universidade Federal do Pará (UFPA), primeira a receber do Conselho Nacional de Educação (CNE), em 1998, o parecer oficial de credenciamento (ALVES, 2009). Moore e Kearsley (2008), dentre outros autores, como Peters (2003), abordam o contexto histórico da EaD dividindo-o em gerações. Peters (2003) estrutura a EaD em três gerações, porém aqui apresento as cinco gerações de EaD propostas por Moore e Kearsley (2008), conforme Figura 2. Figura 2: Gerações da Educação a Distância Fonte: Elaboração da autora, fundamentado em Moore e Kearsley (2008) 29 Primeira geração: o estudo por correspondência O início da Educação a Distância foi através dos cursos por correspondência, enviados pelo correio, em 1880, quando os serviços postais tornaram-se confiáveis e acessíveis à população. As pessoas que almejavam qualificação e instrução poderiam, a partir deste momento, obter auxílio de um professor a distância. Um nome importante nesta geração é o de Willian Rainey Harper, que após ser nomeado o primeiro presidente da University of Chigago, criou o primeiro programa formal de EaD, a nível mundial, através de um programa por correspondência. Pode-se dizer que esta primeira geração proporcionou o fundamento para a EaD de forma individualizada. A denominação aprendizagem por correspondência se deve ao fato de ser o “processo de mediação entre aluno e tutor ou professor ou instrutor ser realizado por meio de cartas” (PALHARES, 2009, p. 48). Segunda geração: transmissão por rádio e a televisão O rádio surgiu como tecnologia no início do século passado. Em 1921 foi autorizada a primeira emissora educacional via rádio, da University of Salt Lake City. Contudo, essa tecnologia de divulgação da educação não atendeu às expectativas, seja pelo interesse restrito dos docentes, seja pelo amadorismo daqueles que lidavam com a tecnologia, pois como complementa Bianco (2009), se explorava pouco os recursos próprios da linguagem radiofônica. Em 1934 estava em desenvolvimento a televisão educativa, a qual teve expansão acentuada após a Segunda Guerra Mundial, obtendo mais sucesso do que a rádio educativa em virtude de doações financeiras da Fundação Ford. Nesta geração, a partir de 1952, está incluída também a televisão a cabo, que proporcionou vinculação de programas educativos, chamados de telecursos. A segunda geração, então, “teve pouca ou nenhum interação de professores com alunos, exceto quando relacionada a um curso por correspondência” (MOORE; KEARSLEY, 2008, p. 47), mas foi a geração que adicionou as dimensões oral e visual ao conteúdo repassado aos estudantes. Terceira geração: as universidades abertas Esta geração caracteriza-se pela abordagem sistêmica da Educação a Distância. Merece destaque o Projeto Mídia de Instrução Articulada, da University of 30 Wisconsin, financiado pela Carnegie Corporation, entre os anos de 1964 a 1968. Nesse, a ideia em relação aos alunos era de que usar uma variedade de mídias significava não somente que o conteúdo poderia ser mais bem apresentado do que por qualquer mídia isoladamente, mas também que pessoas com estilos de aprendizado diferentes poderiam escolher a combinação específica que fosse mais adequada para suas necessidades (MOORE; KEARSLEY, 2008, p. 35). Outro fato importante é a criação da Universidade Aberta do Reino Unido, em 1969, sendo a primeira Universidade Nacional de Educação a Distância, totalmente autônoma, com controle sobre seus recursos financeiros, corpo docente e com autorização para a emissão de seus diplomas. Quarta geração: teleconferência A teleconferência surgiu nos Estados Unidos a partir de 1980, pensando a Educação a Distância para um grupo de pessoas. Assim, a EaD aproximou-se da educação tradicional nas escolas, onde esta é oferecida em classes de estudantes. A primeira forma de teleconferência foi a audioconferência, a qual “permitia ao aluno dar uma resposta, e aos instrutores, interagir com os alunos em tempo real e em locais diferentes” (MOORE; KEARSLEY, 2008, p. 40). Junto a esta geração encontra-se a transmissão por satélite, onde o primeiro satélite foi o Early Bird, e a videoconferência interativa. A também, nas décadas de 80 e 90, a televisão comercial, onde o foco era o treinamento de corporações e educação continuada a uma variada gama de profissionais liberais. E, ao final da década de 90, já era possível realizar uma videoconferência bi-direcional, ou seja, os alunos podiam ver e ouvir os professores e podiam, então, responder por áudio, apresentando também suas dúvidas sobre o tema em discussão. Quinta geração: internet e web Esta é a geração atual, de acordo com o posicionamento de Moore e Kearsley (2008). As aulas são virtuais, utilizando o computador e a internet como ferramentas de apoio. Em 1971 a Intel inventou o microprocessador e em 1975 foi projetado o primeiro computador pessoal, conhecido como Altair 8800 (Figura 3). 31 Figura 3: Altair 8800 10 Fonte: http://history-computer.com/ModernComputer/Personal/Altair.html Atualmente, é perceptível a possibilidade de aquisição de computadores pessoais, especialmente pela variedade de modelos e valores, se comparados aos primeiros computadores, oportunizando conexão à rede a milhares de pessoas. O surgimento da rede mundial de computadores foi essencial para a expansão exponencial que teve a EaD. O fato de se ter acesso a milhões de documentos disponíveis em diferentes lugares do planeta oportunizou o crescimento dos cursos na modalidade a distância. Desta forma, esta geração das classes virtuais baseadas na internet, resultou em “interesse e atividade em escala mundial pela educação à distância, com métodos construtivistas de aprendizado em colaboração, e na convergência entre texto, áudio e vídeo em uma única plataforma de comunicação” (MOORE; KEARSLEY, 2008, p. 48). O CLMD utiliza o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) Moodle como sua plataforma de ensino-aprendizagem. Com cerca de 770 alunos, o número de acessos mensais fica em torno de 3.500, conforme relatório da equipe de TI do CEAD (Figura 4). Estes acessos referem-se aos materiais disponibilizados, sejam textos, áudios ou vídeos, links para atividades e avaliações, salas de chat, entre outros. 10 Acesso em: 20 dez. 2012. 32 Figura 4: Estatística de acesso ao AVA Moodle do CLMD 11 Fonte: http://moodle.ufpel.edu.br/clmd Se considerarmos os quatro cursos de graduação do CEAD, o número de acessos mensais é de aproximadamente 16.000, sendo no período considerado, de 19 de novembro a 19 de dezembro de 2012, 16.331 acessos. Os gráficos de acesso dos demais cursos podem ser encontrados nos Anexos 1, 2 e 3. Com o desenvolvimento da EaD, geração após geração, as novas tecnologias acabam incorporando as anteriores, ou seja, os diferentes recursos disponíveis se complementam (DIAS; LEITE, 2010). Porém, em lugares de difícil acesso, onde a conexão com a internet é ruim ou inexistente, as primeiras tecnologias, como material impresso, rádio, TV ou transmissão das aulas via satélite, ainda são os recursos mais utilizados nos processos de ensino-aprendizagem. A apresentação das cinco gerações de EaD, propostas por Moore e Kearsley (2008), bem como a abordagem a nível nacional, foi realizada sucintamente, visto este não ser o foco desta pesquisa. Muito se tem a falar sobre o contexto histórico do desenvolvimento da EaD no Brasil e no mundo e sobre as experiências das universidades pioneiras nesta modalidade de ensino, portanto, sugiro os trabalhos de Peters (2003), Moore e Kearsley (2008), Nunes (2009), Alves (2009), Bierhalz (2012), para aqueles que pretendem aprofundar-se sobre este tema. Outro fato a ser referido nesta pesquisa é a legislação que atualmente rege a Educação a Distância no Brasil, visto que a ampliação de cursos na modalidade a 11 Acesso em: 19 dez. 2012. 33 distância tornou necessária a elaboração de um conjunto de normas específicas, que pretendem disciplinar sua expansão e garantir sua qualidade. Esta explanação foi feita na próxima seção, a partir de leis, decretos, portarias e resoluções específicas sobre o tema. 1.2. A legislação e a expansão da EaD no Brasil Ao falar da legislação pertinente à Educação a Distância muitos recorrem direto ao Decreto n.º 5.622/2005. Este, de fato, tem papel fundamental, pois é a partir dele que a EaD é regulamentada, de forma pormenorizada, como modalidade de ensino, nos diferentes níveis. Porém, antes disso já se mencionava a Educação a Distância na legislação brasileira. A seguir apresento um levantamento de leis, decretos, portarias e resoluções que abordam de alguma forma a EaD e o Sistema Universidade Aberta do Brasil, conforme a Tabela 1. Tabela 1: Leis, decretos, portarias e resoluções sobre EaD Lei / Decreto / Portaria / Resolução Lei de Diretrizes e Bases – Lei n.º 9.394 Decreto n.º 2.494 Portaria n.º 301 Decreto n.º 2.561 Plano Nacional da Educação – Lei n.º 10.172 Portaria n.º 2.253 Lei n.º 10.861 Decreto n.º 5.622 Lei n.º 11.273 Decreto n.º 5.773 Decreto n.º 5.800 Resolução FNDE/CD/n.º 044 Portaria Normativa n.º 2 Lei n.º 11.502 Lei n.º 11.507 Referenciais de Qualidade para Educação Superior à Distância. Decreto n.º 6.303 Portaria Conjunta CAPES/CNPq n.º 01 Data 20 de dezembro de 1996 10 de fevereiro de 1998 07 de abril de 1998 27 de abril de 1998 09 de janeiro de 2001 18 de outubro de 2001 14 de abril de 2004 19 de dezembro de 2005 06 de fevereiro de 2006 09 de maio de 2006 08 de junho de 2006 29 de dezembro de 2006 10 de janeiro de 2007 11 de julho de 2007 20 de julho de 2007 Agosto de 2007 12 de dezembro de 2007 12 de dezembro de 2007 34 Portaria Normativa n.º 40 Resolução CD/FNDE n.º 24 Portaria n.° 318 Resolução CD/FNDE n.º 26 Lei n.º 11.947 Portaria n.º 10 Portarias n.º 802 e nº 803 Resolução n.º 49 Portarias n.º 75, n.º 77, n.º 78 e n.º 79 Resolução n.º 8 Portaria n.º 220 Portaria n.º 1.369 Portaria n.º 7 Lei n.º 12.551 13 de dezembro de 2007 04 de junho de 2008 02 de abril de 2009 05 de junho de 2009 16 de junho de 2009 02 de julho de 2009 18 de agosto de 2009 10 de setembro de 2009 14 de abril de 2010 30 de abril de 2010 12 de novembro de 2010 07 de dezembro de 2010 09 de fevereiro de 2011 15 de dezembro de 2011 Fonte: Elaboração da autora A Lei de Diretrizes e Bases (Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996) já comentava em seu artigo 80 que o “Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada” (BRASIL, 1996). Para a oferta desses programas a instituição deverá estar credenciada e, ainda, o governo especificava um tratamento diferenciado em determinados aspectos, como na avaliação, por exemplo. O Decreto n.º 2.494, de 10 de fevereiro de 1998, complementa o artigo 80 da LDB, deliberando pontos sobre a EaD. Primeiro, define que Art. 1º Educação a distância é uma forma de ensino que possibilita a autoaprendizagem, com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados, apresentados em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos diversos meios de comunicação (BRASIL, 1998). Neste mesmo decreto são abordados outros assuntos importantes, como por exemplo, que os cursos na modalidade a distância podem aceitar alunos por transferência e, também, aproveitar créditos de outras IES. A Portaria n.º 301, de 07 de abril de 1998, normatiza os procedimentos de credenciamento de instituições para a oferta de cursos de graduação e educação profissional tecnológica à distância. O Decreto n.º 2.561, de 27 de abril de 1998, 35 altera a redação dos artigos 11 e 12 do Decreto n.º 2.494/98, que regulamenta o disposto no artigo 80 da Lei n.º 9.394/96. O Plano Nacional da Educação (Lei n.º 10.172, de 09 de janeiro de 2001), aprovado para um período de dez anos, traz uma seção sobre “Educação a distância e tecnologias educacionais”, a qual é dividida em três partes: diagnóstico, diretrizes e, objetivos e metas para o período vigente. A Portaria n.º 2.253, de 18 de outubro de 2001, institui que os Institutos de Ensino Superior do Brasil poderão, a partir da presente data, oferecer até 20% de suas disciplinas na forma de cursos não presenciais. As avaliações finais destas disciplinas serão feitas na forma presencial, assim como os métodos e práticas de ensino-aprendizagem deverão utilizar tecnologias integradas de informação e comunicação. A Lei n.º 10.861, de 14 de abril de 2004, institui o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES e dá outras providências, sendo uma delas a avaliação do desempenho dos estudantes dos cursos de graduação, realizada mediante aplicação do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – ENADE. O Decreto n.º 5.622, de 19 de dezembro de 2005, regulamenta o art. 80 da LDB 9.394/96. O primeiro capítulo do decreto traz as disposições gerais e, na sequência, o capítulo II aborda o credenciamento de instruções para a oferta de cursos e programas na modalidade a distância. O capítulo III fala da oferta de educação de jovens e adultos, educação especial e educação profissional na modalidade a distância, na educação básica. O capítulo IV fala da oferta de cursos superiores nesta modalidade e o capítulo V trata da oferta de cursos e programas de pós-graduação à distância. O capítulo VI apresenta as disposições finais. A Lei n.º 11.273, de 06 de fevereiro de 2006, autoriza a concessão de bolsas de estudo e de pesquisa aos participantes de programas de formação inicial e continuada de professores para a educação básica, inclusive na modalidade a distância. O Decreto n.º 5.773, de 09 de maio de 2006, dispõe sobre o exercício das funções de regulação, supervisão e avaliação de instituições de educação superior e cursos superiores de graduação e sequenciais no sistema federal de ensino. 36 O Decreto n.º 5.800, de 08 de junho de 2006, dispõe sobre o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), onde de acordo com o Art. 1º, a UAB fica voltada “para o desenvolvimento da modalidade de educação a distância, com a finalidade de expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior no País” (BRASIL, 2006). A Resolução FNDE/CD/n.º 044, de 29 de dezembro de 2006, estabelece orientações e diretrizes para a concessão de bolsas de estudo e de pesquisa a participantes dos cursos e programas de formação superior, no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil, vinculado ao Ministério da Educação, a ser executado pelo FNDE no exercício de 2006. A Portaria Normativa n.º 2, de 10 de janeiro de 2007, dispõe sobre os procedimentos de regulação e avaliação da educação superior na modalidade a distância. A Lei n.º 11.502, de 11 de julho de 2007, altera a Lei n.º 11.273/2006, que autoriza a concessão de bolsas de estudo e de pesquisa aos participantes de programas de formação inicial e continuada de professores para a educação básica, dentre outras providências. E a Lei n.º 11.507, de 20 de julho de 2007, também altera a Lei n.º 11.273/2006, entre outros. Em agosto de 2007, o Ministério da Educação, junto com a Secretaria de Educação a Distância, lançam os Referenciais de Qualidade para Educação Superior a Distância. Embora seja um documento que não tem força de lei, ele será um referencial norteador para subsidiar atos legais do poder público no que se referem aos processos específicos de regulação, supervisão e avaliação da modalidade citada (BRASIL, 2007, p. 2). O Decreto n.º 6.303, de 12 de dezembro de 2007, altera dispositivos dos Decretos n.º 5.622/2005, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e n.º 5.773/2006, que dispõe sobre o exercício das funções de regulação, supervisão e avaliação de instituições de educação superior e cursos superiores de graduação e sequenciais no sistema federal de ensino. A Portaria Conjunta CAPES/CNPq n.º 01, de 12 de dezembro de 2007, dispõe sobre a situação dos bolsistas CAPES/CNPq matriculados em programas de pós-graduação no país e que atuam nas Instituições Públicas de Ensino Superior como tutores da Universidade Aberta do Brasil. 37 A Portaria Normativa n.º 40, de 13 de dezembro de 2007, institui o e-MEC, sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações relativas aos processos de regulação da educação superior no sistema federal de educação. A Resolução CD/FNDE n.º 24, de 04 de junho de 2008, estabelece orientações e diretrizes para o apoio financeiro às instituições de ensino participantes do Sistema Universidade Aberta do Brasil, vinculadas a CAPES e à Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação, nos exercícios de 2008/2009. A Portaria n.° 318, de 02 de abril de 2009, transfere à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) a operacionalização do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB). A Resolução CD/FNDE n.º 26, de 05 de junho de 2009, estabelece orientações e diretrizes para o pagamento de bolsas de estudo e de pesquisa a participantes da preparação e execução dos cursos dos programas de formação superior, inicial e continuada no âmbito do Sistema Universidade Aberta do Brasil, vinculados a CAPES, a serem pagas pelo FNDE a partir do exercício de 2009. A Lei n.º 11.947, de 16 de junho de 2009, altera as Leis n.º 11.273/2006 e n.º 11.507/2007, entre outros atos e providências. A Portaria n.º 10, de 02 de julho de 2009, fixa critérios para dispensa de avaliação in loco e dá outras providências. Art. 2º Nos pedidos de autorização de cursos superiores, na modalidade a distância, os objetivos da avaliação in loco poderão ser considerados supridos, dispensando-se a visita pelo INEP por decisão da Secretaria de Educação a Distância – SEED, após análise documental, mediante despacho fundamentado, se a instituição de educação superior tiver obtido avaliação satisfatória, expressa no conceito da avaliação institucional externa – CI e no Índice Geral de Cursos – IGC mais recentes, iguais ou superiores a 4 (quatro), cumulativamente (BRASIL, 2009). A Portaria n.º 802, de 18 de agosto de 2009, traz uma lista de polos de apoio presencial (anexo à Portaria) implantados referentes às ações do Plano de Ações Articuladas (PAR), com a finalidade de compor o conjunto de polos do Sistema Universidade Aberta do Brasil bem como aprovar as Instituições de Ensino Superior Públicas para oferta de cursos em polos do Sistema UAB. A Portaria n.º 803, de mesma data, resolve implantar o Sistema Universidade Aberta do Brasil com polos de apoio presencial oriundos do Programa Pró-Licenciatura em municípios específicos, listados em anexo na Portaria. 38 A Resolução n.º 49, de 10 de setembro de 2009, dispõe sobre orientações e diretrizes para o apoio financeiro às instituições de ensino participantes do Sistema Universidade Aberta do Brasil. A Portaria n.º 75, de 14 de abril de 2010, da CAPES/MEC, cria o Grupo Assessor para o Sistema Universidade Aberta do Brasil. A Portaria n.º 77, de mesma data, da CAPES/MEC, institui o Banco de Consultores para Acompanhamento e Avaliação do Sistema Universidade Aberta do Brasil, com o objetivo de auxiliar a Diretoria de Educação a Distância da CAPES nos processos de avaliar e acompanhar os polos de apoio presencial e as ofertas de cursos pelas IPES vinculadas a UAB. A Portaria n.º 78, de 14 de abril de 2010, da CAPES/MEC, institui os fóruns de área do Sistema Universidade Aberta do Brasil, constituído das seguintes áreas: Matemática, Física, Biologia, Química, Letras, Pedagogia, Filosofia, História, Geografia, Artes, Informática, Teatro, Música, Educação Física, Sociologia, Administração e Especializações. A Portaria n.º 79, da mesma data anterior, da CAPES/MEC, institui o Fórum Nacional de Coordenadores e Coordenadores Adjuntos do Sistema Universidade Aberta do Brasil, composto pelos Coordenadores UAB das IES integrantes do Sistema Universidade Aberta do Brasil e, também os Fóruns Regionais de Coordenadores do Sistema UAB, composto pelos coordenadores de polo de apoio presencial da região e pelos Coordenadores e Coordenadores Adjuntos das IES integrantes do Sistema UAB e que ofertam cursos na região. A Resolução n.º 8, de 30 de abril de 2010, altera os incisos I a V do Art. 9º, o § 1º do Art. 10 e o item 2.4 do Anexo I da Resolução CD/FNDE n.º 26/2009, que estabelece orientações e diretrizes para o pagamento de bolsas de estudo e de pesquisa aos participantes da preparação e execução dos cursos dos programas de formação superior, inicial e continuada no âmbito do Sistema UAB. A Portaria n.º 220, de 12 de novembro de 2010, regulamenta os programas de concessão de bolsas de estudo da CAPES, em relação ao direito à licença maternidade de suas bolsistas. A Portaria n.º 1.369, de 07 de dezembro de 2010, credencia Instituições Públicas de Educação Superior, vinculadas ao Sistema Universidade Aberta do Brasil, relacionadas no Anexo I desta Portaria, para a oferta de cursos superiores na 39 modalidade a distância, pelo prazo de cinco anos e, também, polos de apoio presencial, relacionados no Anexo II desta Portaria, para a modalidade de educação a distância. A Portaria n.º 7, de 09 de fevereiro de 2011, designa avaliadores para a realização de visitas de acompanhamento do cumprimento das ações de saneamento de deficiências e, estipula os polos que serão visitados. Vários polos do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPel receberam esta visita. A Lei 12.551, de 15 de dezembro de 2011 modifica o sexto artigo da CLT – Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1º de maio de 1943, “para equiparar os efeitos jurídicos da subordinação exercida por meios telemáticos e informatizados à exercida por meios pessoais e diretos” (BRASIL, 2011). A redação do artigo fica assim descrita: Art. 6º Não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de emprego. Parágrafo único. Os meios telemáticos e informatizados de comando, controle e supervisão se equiparam, para fins de subordinação jurídica, aos meios pessoais e diretos de comando, controle e supervisão do trabalho alheio (BRASIL, 2011). Esta lei vem auxiliar na definição de trabalho na docência virtual, especialmente em relação ao local onde os profissionais realizam suas atividades e atendimento aos alunos, sobretudo do tutor virtual, como especificado melhor no capítulo 2, seção 3. A partir das leis, decretos, portarias e resoluções aqui expostas se tem uma ideia de como a educação a distância vem sendo desenvolvida no País desde a LDB de 1996, culminando com a criação do Sistema Universidade Aberta do Brasil, em 2006. É importante salientar que a EaD vem sendo constituída como uma política pública e o seu desenvolvimento é crescente. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), realizou em 2010 o Censo da Educação Superior, buscando diferentes informações sobre as Instituições de Educação Superior, públicas e privadas. “O objetivo do Censo é retratar a educação superior brasileira, disponibilizando informações para a sociedade em geral, incluindo gestores, pesquisadores, administração pública, além de organismos internacionais” (INEP, 2012, p. 13). 40 Sobre o número de Instituições de Educação Superior, em 2001 havia 1.391, sendo 67 públicas federais, o que corresponde a 4,8% do total, não incluídas as públicas estaduais e as municipais. No ano de 2010 o número total de IES passou para 2.378, sendo 99 públicas federais, equivalente a 4,2%. A evolução do número de matrículas também foi considerável, pois em 2001 eram 3.036.113 no total, sendo 504.797 em Instituições Públicas de Educação Superior, correspondente a 16,6% e, em 2010, o número total foi de 6.379.299 matrículas, sendo 938.656 em IPES, equivalente a 14,7%. A democratização do acesso ao ensino superior pode ser percebida pelo número de ingressos: “em 2010 entraram 2.182.229 alunos em cursos de graduação, o que corresponde a um aumento de 109,2% em relação a 2001” (INEP, 2012, p. 40). Observe a Figura 5. Figura 5: Evolução do Número de Matrículas de Graduação por Modalidade de Ensino e do Número de Matrículas a Distância Públicas e Privadas–Brasil–2001-2010 Fonte: MEC/INEP (2012) Este gráfico mostra a expansão relativa às matrículas considerando as duas modalidades de ensino, presencial e a distância. As colunas representativas da evolução do número das matrículas presenciais e a distância reportam ao eixo principal, e as linhas de evolução das matrículas a distância para os setores público e privado associam-se ao eixo secundário. Pode-se observar uma significativa expansão das matrículas a distância no período de 2005 a 2009, com ritmo ligeiramente inferior em 2010. Neste ano, 14,6% das matrículas correspondem à modalidade a distância (930.179 matrículas), das quais 80,5% são oferecidas pelo setor privado (INEP, 2012, p. 42). 41 Considerando as modalidades de ensino presencial e a distância, na distribuição do número de matrículas por grau acadêmico, em 2010 pode-se observar que o bacharelado possui o maior número, tendo 3.958.544 matrículas, seguido da licenciatura com 928.748 e dos cursos tecnológicos, com 545.844 no ensino presencial. Na modalidade a distância o percentual entre o número de matrículas em bacharelado e licenciatura inverte, sendo que a licenciatura tem 426.241 matrículas e o bacharelado 268.173. Nos cursos superiores de tecnologias as matrículas somam 235.765. Esses percentuais representativos são apresentados na Figura 6. Figura 6: Distribuição do Número de Matrículas de Graduação por Grau Acadêmico e Modalidade de 12 Ensino–Brasil–2010 Fonte: MEC/INEP (2012) A partir dos dados, percebe-se que a expansão da Educação a Distância é fato e que a cada ano vem ganhando espaço nas instituições públicas e privadas. Ainda, que a licenciatura é o foco de ação do governo federal, pois praticamente metade das vagas ofertadas na EaD (46%) refere-se a esta modalidade, enquanto que no ensino presencial são apenas 17%. Através desses cursos de licenciatura pela modalidade a distância o governo oportuniza aos professores em exercício, por exemplo, uma formação inicial qualificada, visto que muitos estão atuando sem essa formação. Ainda, oferece formação a pessoas que não teriam oportunidade de frequentar o campus convencional de uma IES, seja pela distância física do mesmo, seja pela falta de tempo para o ensino regular. 12 Nota: A categoria “Não Aplicável” corresponde à Área Básica de Curso. 42 Também é importante ressaltar que, conforme o Censo 2010, os alunos ingressantes nos cursos na modalidade a distância tem a média de idade de 32 anos, superior aos que ingressam no presencial, com média de 25 anos. “As informações relativas à matrícula confirmam a presença de indivíduos com idade mais avançada nos cursos à distância e maior variabilidade em termos da faixa etária atendida” (INEP, 2012, p. 45). Em relação aos concluintes, os resultados mostram-se análogos, corroborando a tese de que a opção pela modalidade a distância representa uma oportunidade de acesso à educação superior para aqueles que não tiveram a oportunidade de ingressar na idade esperada, assim como a hipótese de que atende a um grupo etário mais amplo. Essa modalidade de ensino pode também representar uma alternativa diante de necessidades diversas daqueles que já se encontram no mercado de trabalho (INEP, 2012. p. 45). Nesta perspectiva de aumentar a oferta de cursos e o número de vagas, é que a Universidade Federal de Pelotas ingressou na EaD, oferecendo quatro cursos de licenciatura e quatro cursos de especialização13 nesta modalidade de ensino. Na seção que segue abordo a constituição da EaD na UFPel e sua trajetória até então. 1.3. A Universidade Federal de Pelotas e a EaD: tecendo as relações Para contextualizar, a Universidade Federal de Pelotas foi fundada oficialmente em 08 de agosto de 1969, regida pelo Decreto-Lei n.º 750 que prevê a transformação da Universidade Federal Rural do RS em Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e do Decreto-Lei n.º 65.881/1969 que aprova o seu Estatuto de Fundação (BIERHALZ, 2012). No decorrer deste período a UFPel expandiu e continua a expandir. Possui diferentes campi espalhados pelo centro e bairros de Pelotas, além do Campus do Capão do Leão (cidade vizinha). Em 21 de outubro de 2010, a reitoria e mais três cursos começaram a funcionar no novo Campus Porto14, numa proposta de trazer a administração para o centro da cidade, em função do pleno desenvolvimento da instituição. 13 Os cursos de graduação (licenciaturas) ofertados pela UFPel são Matemática, Pedagogia, Espanhol e Educação no Campo. Os cursos de especialização oferecidos são Gestão de Polos, Gráfica Digital, Mídias na Educação e Saúde da Família. 14 Disponível em: <http://ccs.ufpel.edu.br/wp/2010/10/26/confira-os-discursos-na-inauguracao-dareitoria-e-de-tres-faculdades-no-campus-porto/>. Acesso em: 09 jan. 2013. 43 Figura 7: Novo Campus Porto Fonte: http://ccs.ufpel.edu.br/wp/wp-content/uploads/2013/01/jornal-ufpel_dezembro-2012_ed0311.pdf A UFPel participou do Programa REUNI (Programa de Reestruturação das Universidades Públicas Federais Brasileiras), do Ministério da Educação, o qual liberou recursos para as IPES, visando a criação de novos cursos e a expansão e melhoria dos já existentes. Ainda, é relevante salientar o número de estudantes que ingressam na instituição provenientes de outros estados brasileiros, em função da adesão da UFPel ao SiSU (Sistema de Seleção Unificado), a partir das notas obtidas no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). A UFPel hoje está dividida em Centros, Escolas, Faculdades e Institutos, onde os cursos são lotados. Possui as seguintes unidades acadêmicas15: Centro de Artes; Centro de Ciências Químicas, Farmacêuticas e de Alimentos; Centro de Desenvolvimento Tecnológico; Centro de Educação a Distância; Centro de Engenharias; Centro de Letras e Comunicação; Centro de Integração do Mercosul; Escola Superior de Educação Física; Faculdade de Educação; Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel; Faculdade de Administração e Turismo; Faculdade de Arquitetura e Urbanismo; Faculdade de Direito; Faculdade de Enfermagem; Faculdade de Medicina; Faculdade de Meteorologia; Faculdade de Nutrição; 15 Disponível em: <http://www.ufpel.edu.br/academica.php?PHPSESSID=718627a12cd9e2ab27b8d9 243bf17831>. Acesso em: 27 dez. 2012. 44 Faculdade de Odontologia; Faculdade de Veterinária; Instituto de Biologia; Instituto de Ciências Humanas; Instituto de Física e Matemática; Instituto de Sociologia e Política. No total, são oferecidos na instituição 104 cursos de graduação16 sendo 65 bacharelados, 26 licenciaturas e 13 tecnólogos, com aproximadamente 22.000 alunos. As atividades iniciais da Educação a Distância dentro da UFPel procuraram atender às chamadas públicas do governo, que visavam à expansão e a democratização do ensino superior a nível nacional. Os dados obtidos foram extraídos da página da própria instituição e dos sites dos cursos do CEAD/UFPel . Na pós-graduação17, a UFPel oferece 17 doutorados, 37 mestrados acadêmicos e 3 mestrados profissionais, 29 cursos de especialização e 9 residências médicas. O Centro de Educação a Distância, criado em 27 de abril de 2010 pela Portaria n.º 432, é constituído de quatro cursos de graduação, sendo eles, Licenciatura em Pedagogia a Distância, Licenciatura em Espanhol a Distância, Licenciatura em Educação do Campo a Distância e Licenciatura em Matemática a Distância. Esses cursos atendem ou atenderam aos programas Pró-Licenciatura (Pró-Lic) e Universidade Aberta do Brasil (UAB). Na Figura 8 temos a estrutura do site do CEAD. Figura 8: Site do CEAD/UFPel Fonte: http://cead.ufpel.edu.br/. Acesso em: 02 jul. 2012. 16 17 Disponível em: <http://wp.ufpel.edu.br/prg/cursos/>. Acesso em: 27 dez. 2012. Disponível em: <http://prppg.ufpel.edu.br/index.php?page=cursos>. Acesso em: 27 dez. 2012. 45 O Curso de Licenciatura em Pedagogia a Distância (CLPD) iniciou as atividades acadêmicas em 2008, vinculado a UAB. Foi pensado em termos de aproximação mais direta dos alunos com os espaços de atividade docente, as escolas, e o contexto no qual essas estão inseridas. Neste sentido, estruturou a proposta pedagógica para a formação de professores a partir das atividades de pesquisa e investigação da realidade local de cada polo, sendo executado em oito semestres. Atualmente, no primeiro semestre de 2013, atende 26 polos no estado18. O Curso de Letras Espanhol a Distância (também conhecido como FPELE – Formação de Professores de Espanhol como Língua Estrangeira) está vinculado a UAB. Conforme seu projeto pedagógico, o curso está estruturado em três áreas: Estudos de Cultura/Literatura e de Aquisição da Língua Espanhola, Estudos de Educação Presencial e a Distância, Estudos Individuais, Colaborativos e Formativos, o que totaliza 3.150 horas, distribuídas em oito semestres. Suas atividades acadêmicas iniciaram em 2009 e em 2013/1 atende 25 polos no Rio Grande do Sul19. O Curso de Licenciatura em Educação do Campo (CLEC) é um curso “oferecido em caráter experimental e emergencial pela UAB/UFPel, inicialmente, em sete de seus polos20”. Em seu projeto pedagógico faz uma articulação entre as Diretrizes Nacionais para formação de docentes, as Diretrizes do Procampo, o Projeto Político Pedagógico da UFPel e as demandas dos municípios polos da UAB/UFPel. “Sua proposta prioriza a necessidade de formação de profissionais da educação capazes de atender às especificidades que caracterizam as áreas rurais e de periferia urbana, de cidades do território nacional21”. Suas atividades discentes iniciaram no segundo semestre de 2009 e atualmente atende 27 polos22. O Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD) foi o pioneiro na UFPel. Sua origem remonta o ano de 2002, onde um grupo de professores se reuniu para organizar um curso na modalidade a distância que se enquadrasse dentro da proposta governamental. As atividades acadêmicas começaram em 2006, 18 Texto adaptado. Disponível em <http://www.ufpel.edu.br/lpd/curso.php>. Acesso em: 02 jul. 2012. Texto adaptado. Disponível em: <http://cead.ufpel.edu.br/index.php?option=com_content&view= category&layout=blog&id=19&Itemid=9>. Acesso em: 02 jul. 2012. 20 Disponível em: <http://cead.ufpel.edu.br/index.php?option=com_content&view=category&layout =blog&id=20&Itemid=10>. Acesso em: 02 jul. 2012. 21 Disponível em: <http://cead.ufpel.edu.br/index.php?option=com_content&view=category&layout =blog&id=20&Itemid=10>. Acesso em: 02 jul. 2012. 22 Disponível em: <http://www.ufpel.edu.br/cead/educacao_campo/curso.php>. Acesso em 02 jul. 2012. 19 46 atendendo 120 alunos em três polos de apoio presencial. Neste primeiro semestre de 2013 atende 27 polos e aproximadamente 770 alunos. Como este curso foi o local da pesquisa, delineio sua trajetória no capítulo 2, seção 2.1. Na última seção deste primeiro capítulo apresento o Sistema Universidade Aberta do Brasil. 1.4. Universidade Aberta do Brasil: o que é isso? A Universidade Aberta do Brasil23 (UAB) é um sistema criado pelo Ministério da Educação (MEC), o qual é integrado por Instituições Públicas de Ensino Superior (IPES). O objetivo da UAB é oferecer à população com dificuldade de acesso aos campus regulares a formação universitária por meio da utilização da metodologia da Educação a Distância. A criação deste programa ocorreu em 2005, numa parceria entre o Ministério da Educação, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) e Empresas Estatais, no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação com foco nas Políticas e a Gestão da Educação Superior. O Sistema UAB é uma política pública para a expansão da educação superior (FELDKERCHER, 2011), de acordo com o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), onde havia a articulação entre a Secretaria de Educação a Distância (SEED/MEC), atualmente extinta, e a Diretoria de Educação a Distância (DED/CAPES). O público alvo da UAB são os professores que já atuam na educação básica e não tem a formação inicial, e também os dirigentes, gestores e trabalhadores da rede básica de ensino dos municípios, estados e Distrito Federal além de estudantes oriundos diretamente do Ensino Médio. Desta forma, a EaD contribui para atender a demanda de formação e capacitação de milhares de docentes para a educação básica (MOTA, 2009). A UAB foi instituída pelo Decreto n.º 5.800, de 09 de junho de 2006, cujo artigo primeiro apresenta os objetivos propostos pelo Sistema: o Art. 1 Fica instituído o Sistema Universidade Aberta do Brasil – UAB, voltado para o desenvolvimento da modalidade de educação a distância, com a finalidade de expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior no País. Parágrafo único. São objetivos do Sistema UAB: 23 Texto adaptado de http://uab.capes.gov.br/index.php. Acesso em: 02 jul. 2012. 47 I - oferecer, prioritariamente, cursos de licenciatura e de formação inicial e continuada de professores da educação básica; II - oferecer cursos superiores para capacitação de dirigentes, gestores e trabalhadores em educação básica dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; III - oferecer cursos superiores nas diferentes áreas do conhecimento; IV - ampliar o acesso à educação superior pública; V - reduzir as desigualdades de oferta de ensino superior entre as diferentes regiões do País; VI - estabelecer amplo sistema nacional de educação superior a distância; e VII - fomentar o desenvolvimento institucional para a modalidade de educação a distância, bem como a pesquisa em metodologias inovadoras de ensino superior apoiadas em tecnologias de informação e comunicação (BRASIL, 2006). De tal modo que a UAB, mediante os objetivos definidos, busca uma articulação, interação e efetivação de iniciativas e projetos que incitam a parceria entre os níveis de governo federal, estadual e municipal em conjunto com as IPES e outras organizações interessadas. Além disso, propicia mecanismos alternativos para o fomento, a implantação e a execução de cursos de graduação e pósgraduação de forma consorciada. O funcionamento do Sistema UAB acontece mediante a articulação dos três níveis de governo, buscando atender a demanda por educação superior das localidades. A IPES vai oferecer cursos na cidade ou microrregião, sendo a responsável pelas aulas a serem ministradas nos polos de apoio presencial (DIAS; LEITE, 2010). A Figura 9 representa a articulação descrita. Figura 9: Funcionamento do Sistema UAB Fonte: http://uab.capes.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7:como-funciona&catid=6:sobre&Itemid=19. Acesso em: 02 jul. 2012. 48 De acordo com a proposta do sistema, a UAB sustenta-se em cinco eixos fundamentais24: expansão pública da educação superior, considerando os processos de democratização e acesso; aperfeiçoamento dos processos de gestão das instituições de ensino superior, possibilitando sua expansão em consonância com as propostas educacionais dos estados e municípios; avaliação da educação superior a distância tendo por base os processos de flexibilização e regulação implantados pelo MEC; estímulo à investigação em educação superior a distância no País; financiamento dos processos de implantação, execução e formação de recursos humanos em educação superior a distância. O polo de apoio presencial, fundamental nas ofertas dos cursos em EaD, é definido no Artigo 12, X, c, do Decreto n.º 5.622/2005 como “a unidade operacional, no País ou no exterior, para o desenvolvimento descentralizado de atividades pedagógicas e administrativas relativas aos cursos e programas ofertados a distância” (BRASIL, 2005). A obrigatoriedade dos encontros presenciais acontece para a realização das avaliações, Estágios Curriculares Supervisionados e defesa do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), de acordo com a especificidade de cada curso (DEL PINO; GRÜTZMANN; PALAU, 2011). Para o funcionamento dos cursos pela UAB foram lançados editais. O primeiro edital, chamado de UAB 1, foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 20 de dezembro de 2005, o qual permitiu a concretização do Sistema Universidade Aberta do Brasil através “da seleção para integração e articulação das propostas de cursos, apresentadas exclusivamente por instituições federais de ensino superior, e as propostas de polos de apoio presencial, apresentadas por estados e municípios25”. Já em 18 de outubro de 2006 foi publicado no DOU o segundo edital, denominado UAB 2, permitindo agora a participação de todas as instituições públicas, federais, estaduais e municipais. 24 25 Disponível em: <http://uab.capes.gov.br/index.php>. Acesso em: 29 maio 2011. Disponível em: <http://uab.capes.gov.br/index.php>. Acesso em: 29 maio 2011. 49 O Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPel já estava atuando junto a três polos, pelo Projeto Pró-Licenciatura Fase I. Os professores do curso decidiram, então, participar destes dois editais, aumentando a oferta de turmas para outras cidades do Estado e da Região Sul. Na UAB 1 ingressaram oito polos presenciais, totalizando 400 alunos, sendo 50 vagas em cada. As cidades contempladas foram Arroio dos Ratos, Camargo, Cachoeira do Sul, Herval, Restinga Sêca, São Francisco de Paula, Seberi e Videira/SC. Já na UAB 2 ingressaram mais sete polos, com o mesmo número de vagas, totalizando 350 novos alunos, nas cidades de Balneário Pinhal, Cruz Alta, Ibaiti/PR, Itaqui, Jaquirana, Santa Vitória do Palmar e Santana da Boa Vista. Conforme apresentado, dentre as cidades que receberam o curso, na UAB 1 tem-se uma em Santa Catarina (SC) e na UAB 2 temse uma no Paraná (PR), sendo as demais no Rio Grande do Sul. Mesmo não sendo UAB, é importante salientar que em 2008/2 o curso também foi ofertado em cinco municípios pelo Projeto Pró-Licenciatura Fase II, com 25 vagas em cada um. As cidades contempladas foram Caçapava, Camaquã, Rosário do Sul, Santana da Boa Vista e São José do Norte. Este fato levou o CLMD a expandir de forma vertiginosa o seu número de alunos, passando de 120 no início de 2006 para aproximadamente 950 alunos no segundo semestre de 2008. Em 2010 o CLMD ofereceu o curso para 22 polos26, todos no RS, denominada de UAB 3, sendo 12 polos novos e 10 polos já existentes, os quais receberam a segunda turma, totalizando aproximadamente 1.000 novos alunos. Esses começaram as atividades acadêmicas em 2011/1. No segundo semestre letivo de 2012 ingressaram quatro novas turmas, por nós denominada UAB 4, nos polos de Arroio dos Ratos, Novo Hamburgo, Panambi e Três Passos, onde o curso já está atuando. Em cada turma foram disponibilizadas 50 vagas. Este ingresso está vinculado ao Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR), o qual visa induzir e fomentar a oferta emergencial de vagas em cursos de educação superior, gratuitos e de qualidade, nas modalidades presencial e a distância, para professores em exercício na rede pública de educação básica, a fim de que estes profissionais além de obterem a 26 Cidades contempladas: Arroio dos Ratos, Balneário Pinhal, Cacequi, Cachoeira do Sul, Camargo, Constantina, Cruz Alta, Herval, Itaqui, Novo Hamburgo, Panambi, Picada Café, Quaraí, Rosário do Sul, Santana da Boa Vista, São Francisco de Paula, São Lourenço do Sul, São Sepé, Sapiranga, Sapucaia do Sul, Serafina Corrêa e Três Passos. 50 formação exigida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN, contribuam para a melhoria da qualidade da educação básica27. O Sistema da UAB vincula diferentes profissionais para atuar nas instituições e nos cursos, sendo as funções remuneradas a partir de bolsas da CAPES. As funções são de Coordenador e Coordenador Adjunto UAB, referentes à instituição como um todo. Existe ainda o Coordenador de Curso e o Coordenador de Tutoria, o Professor Pesquisador, o Professor Pesquisador Conteudista, o Tutor28 e o Coordenador de Polo. Dentre as atribuições gerais de cada uma das funções citadas, destaco, conforme o Anexo I da Resolução 26, de 05 de junho de 2009, as relativas ao Coordenador de Tutoria, ao Professor Pesquisador e ao Tutor: 1.4.1. Coordenador de Tutoria participar das atividades de capacitação e atualização; acompanhar o planejamento e o desenvolvimento dos processos seletivos de tutores, em conjunto com o coordenador de curso; acompanhar as atividades acadêmicas do curso; verificar “in loco” o bom andamento dos cursos; informar para o coordenador do curso qual a relação mensal de tutores aptos e inaptos para recebimento de bolsas; acompanhar o planejamento e desenvolvimento das atividades de seleção e capacitação dos tutores envolvidos no programa; acompanhar e supervisionar as atividades dos tutores; encaminhar à coordenação do curso relatório semestral de desempenho da tutoria. 1.4.2. Professor Pesquisador elaborar e entregar os conteúdos dos módulos desenvolvidos ao longo do curso no prazo determinado; adequar conteúdos, materiais didáticos, mídias e bibliografia utilizados para o desenvolvimento do curso à linguagem da modalidade a distância; 27 28 Disponível em: <http://freire.mec.gov.br/index/principal>. Acesso em: 02 jul. 2012. Para as bolsas da UAB não existe distinção entre o tutor presencial e o tutor a distância. 51 realizar a revisão de linguagem do material didático desenvolvido para a modalidade a distância; adequar e disponibilizar, para o coordenador de curso, o material didático nas diversas mídias; participar e/ou atuar nas atividades de capacitação desenvolvidas na Instituição de Ensino; desenvolver as atividades docentes da disciplina em oferta na modalidade a distância mediante o uso dos recursos e metodologia previstos no projeto acadêmico do curso; coordenar as atividades acadêmicas dos tutores atuantes em disciplinas ou conteúdos sob sua coordenação; desenvolver as atividades docentes na capacitação de coordenadores, professores e tutores mediante o uso dos recursos e metodologia previstos no plano de capacitação; desenvolver o sistema de avaliação de alunos, mediante o uso dos recursos e metodologia previstos no plano de curso; apresentar ao coordenador de curso, ao final da disciplina ofertada, relatório do desempenho dos estudantes e do desenvolvimento da disciplina; participar de grupo de trabalho para o desenvolvimento de metodologia e materiais didáticos para a modalidade a distância; realizar a revisão de linguagem do material didático desenvolvido para a modalidade a distância; participar das atividades de docência das disciplinas curriculares do curso; desenvolver, em colaboração com o coordenador de curso, a metodologia de avaliação do aluno; desenvolver pesquisa de acompanhamento das atividades de ensino desenvolvidas nos cursos na modalidade a distância; elaborar relatórios semestrais sobre as atividades de ensino no âmbito de suas atribuições, para encaminhamento à DED/CAPES/MEC, ou quando solicitado. 1.4.3. Tutor mediar a comunicação de conteúdos entre o professor e os cursistas; 52 acompanhar as atividades discentes, conforme o cronograma do curso; apoiar o professor da disciplina no desenvolvimento das atividades docentes; manter regularidade de acesso ao AVA e dar retorno às solicitações do cursista no prazo máximo de 24 horas; estabelecer contato permanente com os alunos e mediar as atividades discentes; colaborar com a coordenação do curso na avaliação dos estudantes; participar das atividades de capacitação e atualização promovidas pela Instituição de Ensino; elaborar relatórios mensais de acompanhamento dos alunos e encaminhar à coordenação de tutoria; participar do processo de avaliação da disciplina sob orientação do professor responsável; apoiar operacionalmente a coordenação do curso nas atividades presenciais nos polos, em especial na aplicação de avaliações. De acordo com a Resolução n.º 8/201029, o valor a ser pago para os bolsistas é, de acordo com a função e experiência comprovada: Coordenador/Coordenador Adjunto UAB, R$1.500,00 ou R$1.100,00; Coordenador de Curso, R$1.400,00 ou R$1.100,00; Coordenador de Tutoria: R$1.300,00 ou R$1.100,00; Professor Pesquisador, R$1.300,00 ou R$1.100,00; Tutor, R$765,00 e Coordenador de Polo, R$1.100,00. Conhecida a parte histórica da Educação a Distância, um pouco sobre sua legislação, a relação da UFPel com a EaD e o Sistema Universidade Aberta do Brasil, no próximo capítulo apresento o Curso de Licenciatura em Matemática a Distância, sua estrutura pedagógica e sujeitos. Ainda, trago uma discussão sobre a docência na Educação a Distância, a partir do conceito de polidocência definido por Mill (2010). Por fim, o “estado da arte” sobre os termos “tutor” e/ou “tutoria” vinculados a eventos, periódicos ou revistas de renome no contexto da Educação e na Educação a Distância. 29 Disponível em: <http://www.uab.capes.gov.br/images/stories/downloads/legislacao/Resolucao8 _BolsasUAB_FNDE.pdf>. Acesso em: 16 jul. 2012. 53 Capítulo 2: Sujeitos na EaD, sujeitos no CLMD: conversas pertinentes sobre o ser tutor e a polidocência Na EaD não existe a opção de um único profissional realizar toda a “aula” porque, via de regra, a quantidade de alunos ou a complexidade do processo de trabalho na EaD impossibilita a “unidocência”. Daniel Mill Este capítulo aborda a criação e a estrutura curricular do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPel, lócus da pesquisa, e a constituição da equipe pedagógica deste curso. Apresenta, também, uma descrição sobre os sujeitos que compõem a EaD hoje, pois a mediação didático-pedagógica, conforme Mill (2012), não pode ser mais realizada por um único sujeito quando estamos considerando um espaço de formação à distância. O autor define o trabalho a distância como sendo desenvolvido por uma equipe polidocente, a qual é responsável pelo processo de ensino-aprendizagem dos estudantes. Essa equipe pode variar segundo as características do ensino a distância, mas tem em sua composição sujeitos que atuam na condição de professores e outros na condição de tutores. O tutor desenvolve um trabalho estratégico junto à equipe e está invariavelmente presente no processo de trabalho. Em que pese estar constituído como um sujeito imprescindível para o desenvolvimento da educação a distância, sua condição de trabalhador da educação e suas especificidades ainda carecem de estudos e pesquisas. Desta forma, trago uma discussão sobre o tutor e a polidocência, termo apresentado por Mill (2006, 2010, 2012) para se referir a esta equipe de profissionais que constituem hoje a docência na modalidade a distância. Por fim, apresento um breve “estado da arte” sobre as palavras-chave “tutor” e/ou “tutoria” presentes em artigos publicados em revistas, periódicos e eventos conceituados na área da Educação e da Educação a Distância. 54 2.1. O Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPel: criação e estrutura curricular A necessidade de expansão do número de vagas da Universidade Federal de Pelotas em cursos de graduação, a falta de professores de Matemática na região ou professores com formação qualificada para atuar na área e as propostas do governo para criação de cursos na modalidade a distância despertaram o interesse de um grupo de professores da instituição, os quais aceitaram o desafio de criar um curso que atendesse as demandas citadas. Em 2002 esses docentes decidiram criar o Curso de Licenciatura em Matemática a Distância, vinculado ao Instituto de Física e Matemática (IFM), o qual atenderia inicialmente uma demanda local, em cidades próximas a sede da instituição. O projeto foi elaborado para a oferta e o credenciamento do curso junto ao MEC. No Parecer CNE/CES n.º 357/2004 consta que Em 6 de setembro de 2002, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) protocolizou o processo nº 23000.013351/2002-56 Registro no Sistema de Acompanhamento de Processos das Instituições de Ensino Superior (SAPIEnS) nº 143399 junto ao Ministério da Educação solicitando seu credenciamento institucional para a oferta de cursos superiores a distância, e autorização do curso de graduação em Matemática – licenciatura a distância (BRASIL, 2004). No ano seguinte, em 2003, a Secretaria de Educação Superior (SESu/MEC) designou uma comissão de verificação, por meio do despacho DEPES n.º 419/2003a. Assim, a UFPel recebeu uma visita desta comissão do MEC, que após análise da infraestrutura da instituição para a oferta de cursos a distância e do projeto apresentado, fez algumas recomendações para seu credenciamento, as quais foram prontamente atendidas. Em sessão do Conselho Universitário da UFPel, em 28 de abril de 2004, após deliberação, conforme Ata n.º 01/2004, a proposta do curso foi aprovada. A instituição criou o Curso de Licenciatura em Matemática a Distância30, vinculado ao IFM, com professores atuantes nas áreas de Matemática, Física e Educação, sendo estes últimos vinculados a Faculdade de Educação (FaE), oriundos dos Departamentos de Ensino e de Fundamentos da Educação. Conforme o parecer CNE/CES n.º 357, de 8 de dezembro de 2004, a UFPel conseguiu seu credenciamento pelo prazo de cinco anos para ofertas de cursos na 30 Publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 08 de julho de 2004. 55 modalidade a distância. A aprovação foi oficializada por meio da Portaria n.º 4.420 do MEC, publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 04 de janeiro de 2005 (BIERHALZ, 2012). No final de 2005, então, três cidades da região sul do RS, Canguçu, Jaguarão e Turuçu, receberam os candidatos para o processo seletivo. No início de 2006, os 120 alunos aprovados, sendo 40 em cada polo, iniciaram suas atividades, pelo Projeto Pró-Licenciatura Fase I (Pró-Lic I) (HALLWASS, 2010), cujo objetivo era melhorar a qualidade de ensino na educação básica por meio de formação inicial consistente e contextualizada do professor em sua área de atuação. O programa tomou como ponto de partida a ação do professor na escola em que desenvolvia seu trabalho, de forma que sua experiência do dia a dia servisse de instrumento de reflexão sobre a prática pedagógica31. O CLMD, vinculado ao IFM, tinha o seu currículo inicialmente disciplinar (Anexo 4), semelhante ao curso presencial, totalizando oito semestres (CLMD, 2006). Em 2008, o CLMD começa a ofertar vagas pelo Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), com oito polos ingressantes no primeiro semestre e sete polos ingressantes do segundo, atendendo aos editais públicos, conforme apresentado na seção 1.4 do capítulo 1. Ainda em 2008/2, cinco turmas ingressaram no CLMD pelo Projeto PróLicenciatura Fase II (Pró-Lic II). Neste ingresso, o curso foi ofertado para os professores que já estavam atuando na Educação Básica, ensino fundamental ou médio, e não tinham a formação necessária. No ano de 2011 o CLMD passou por uma relocação, o qual, por meio da Portaria32 n.º 130, de 24 de janeiro de 2011, foi transferido de sua unidade de origem, o IFM, para o Centro de Educação a Distância, o CEAD. Após essa transferência houve também uma reestruturação curricular, sendo o novo currículo aprovado pelo COCEPE33 da UFPel em 30 de junho de 2011. Este novo currículo é constituído por oito eixos temáticos semestrais (Anexo 5), sem pré-requisitos e sequência pré-definida. Cada eixo temático tem um total de 225 horas para cumprimento dos quatro conhecimentos necessário para formação inicial do professor de matemática da educação básica e 50 horas para prática como 31 Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=708&id=12349&option=com_content& view=article>. Acesso em: 02 jul. 2012. 32 Portaria n.º 130. Disponível em: <http://reitoria.ufpel.edu.br/portarias/arquivos/0130_2011.pdf>. 33 COCEPE – Conselho Coordenador do Ensino, da Pesquisa e da Extensão. 56 componente curricular, conforme Resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002. Na Figura 10 apresento os quatro conhecimentos básicos vinculados ao currículo e na Figura 11 os oito eixos temáticos propostos. Figura 10: Conhecimentos necessários para a formação do professor de matemática Fonte: Arquivos do CLMD Figura 11: Eixos Temáticos do CLMD/CEAD/UFPel Fonte: Arquivos do CLMD 57 A partir da segunda metade do curso, além das 275 horas já descritas, o acadêmico deverá realizar 100 horas de Estágio Curricular Supervisionado por semestre, de caráter obrigatório, conforme Resolução CNE/CP 2 (BRASIL, 2002). Neste estágio, o aluno deverá realizar observação, monitoria e regência de classe em cada um dos semestres, na Educação Formal e Educação Não-Formal, sendo dois semestres no Ensino Fundamental e os dois últimos no Ensino Médio. No quinto semestre, o aluno poderá decidir entre realizar seu estágio na Educação Formal ou Não-Formal, sendo compulsória a escolha do sexto semestre (diferente da do quinto semestre). Analogamente, a escolha para o sétimo semestre deverá ser entre estagiar na Educação Formal ou NãoFormal, e a do oitavo semestre será diversa à escolha do semestre anterior (CLMD, 2013, p. 8). . Figura 12: Configuração de Estágios do CLMD/CEAD/UFPel Fonte: Manual de Estágios do CLMD/CEAD/UFPel, 2013 O currículo ainda prevê 200 horas de formação complementar nas quais o estudante pode escolher entre as inúmeras possibilidades de vivência e estudos acadêmicos em áreas de conhecimento que mantenham conexões com as de seu curso. Podem ser incluídas atividades oferecidas pelo próprio curso, eventos na área da Educação Matemática, da Matemática, da Educação, da Educação a Distância e áreas afins, bem como atividades extracurriculares, as quais serão analisadas posteriormente pelos professores e validadas em reunião do Colegiado do Curso. Assim, o total de horas da atual proposta curricular é de 2.800 horas, sendo: 1.800 horas de aulas para os conteúdos curriculares de natureza científicocultural; 58 400 horas de prática como componente curricular, vivenciadas ao longo do curso; 400 horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda metade do curso; 200 horas para formação complementar, de acordo com Resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002. Desta forma, o trabalho desenvolvido no CLMD vem ao encontro do que Barreto (2006) coloca no artigo “Política de Educação a Distância: a flexibilização estratégica”, pois neste a autora aborda a EaD sobre dois aspectos principais, sendo modalidade de ensino e estratégia de formação. Primeiro, a EaD como modalidade de ensino vem oportunizando muitos alunos a retornarem as salas de aulas, mesmo que virtuais, para complementarem sua formação, que não pôde acontecer em outro momento, sendo um dos motivos o fato dos campus das universidades estarem localizados em grandes centros urbanos. De acordo com Mota (2009, p. 299), dados de 2004 “indicam que apenas em torno de 11 por cento dos jovens com idade entre 18 e 24 anos têm acesso à educação superior presencial”. A EaD tem sido uma alternativa de ensino/aprendizagem, principalmente, em um cenário marcado pelas dificuldades de acesso de nossa população ao ensino formal e pelas altas taxas de defasagem de escolarização e de analfabetismo, em função de uma carga horária de trabalho que impossibilita o investimento em educação continuada (CORRÊA, 2007, p. 910). Desta forma, Barreto (2004, p. 1182) afirma que “a educação como um todo e o trabalho docente, em especial, estão sendo reconfigurados” e que as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) podem (e estão) se fazendo presentes. “Assim, as TIC podem ser postas como meio mais eficaz de realizar a EAD, correspondente à transposição dos conteúdos de ensino para os novos meios, preferencialmente digitais” (idem, 2006, p. 189). Percebendo a EaD como estratégia de formação, a autora argumenta que esta “problematiza os processos de incorporação das tecnologias mesmas. (...), focaliza as relações entre as TIC e os modos da sua utilização educacional” (BARRETO, 2006, p. 190), ou seja, as tecnologias desenvolvidas acabam sendo 59 adaptadas para a utilização no âmbito escolar, sem muitas vezes uma análise política e ideológica. Para o desenvolvimento das atividades didático-pedagógicas desde o início o CLMD utiliza o Ambiente Virtual de Aprendizagem Moodle (Modular ObjectOriented Dynamic Learning Environment), um software livre de apoio a aprendizagem, onde na Figura 13 pode-se ver a tela inicial de acesso ao AVA, a partir do ano de 2012. Figura 13: Tela inicial de acesso ao Moodle/CLMD Fonte: http://moodle.ufpel.edu.br/index.php/auth/login/clmd/. Acesso em: 30 jan. 2013 Após o acesso inicial o aluno e os demais sujeitos pedagógicos encontram a tela abaixo, Figura 14, onde aparece a categoria dos cursos, por semestre. No canto a esquerda, no menu “navegação”, tem o item “meus cursos”, onde aparecem todos os cursos (disciplinas e/ou eixos) nos quais cada um dos participantes está inscrito. Figura 14: Tela inicial do Moodle/CLMD após acesso Fonte: http://moodle.ufpel.edu.br/clmd/. Acesso em: 30 jan. 2013 60 Em 2012/2 o CLMD ainda ofertava disciplinas, para os alunos que não concluíram o curso no prazo de quatro anos, além do Eixo em execução e do Eixo da recuperação paralela. A Figura 15 mostra a tela inicial do Eixo Geometrias: Espaço e Forma, a Figura 16 a tela inicial do Eixo de Recuperação Paralela de Álgebra Funcional e a Figura 17 a tela inicial da disciplina de Matemática Elementar B, todos do segundo semestre letivo de 2012. Figura 15: Tela inicial do Eixo Geometrias: Espaço e Forma Fonte: http://moodle.ufpel.edu.br/clmd/course/view.php?id=22. Acesso em: 30 jan. 2013 Figura 16: Tela inicial do Eixo RP de Álgebra Funcional Fonte: http://moodle.ufpel.edu.br/clmd/course/view.php?id=73. Acesso em: 30 jan. 2013 61 Figura 17: Tela inicial da disciplina Matemática Elementar B Fonte: http://moodle.ufpel.edu.br/clmd/course/view.php?id=67. Acesso em: 30 jan. 2013 De 2009 a 2011 o CLMD utilizava uma versão anterior do Moodle, conforme podemos observar nas Figuras 18 e 19. O primeiro espaço Moodle utilizado, de 2006 a 2008, não está mais disponível para acesso. Figura 18: Tela inicial do Moodle/CLMD (2009-2011) Fonte: http://avaacademico.ufpel.edu.br/. Acesso em: 30 jan. 2013. Figura 19: Acesso ao CLMD (2009-2011) Fonte: http://avaacademico.ufpel.edu.br/course/category.php?id=6. Acesso em: 30 jan. 2013. 62 Complementar ao AVA Moodle, no período do currículo disciplinar do CLMD, os alunos recebiam apostilas das disciplinas34, ilustradas na Figura 20. Esse material era enviado ao polo de forma impressa, no número suficiente relativo aos alunos matriculados. Figura 20: Apostilas do CLMD Fonte: Elaboração da autora Os alunos ainda tinham webconferências, duas vezes por semana, de caráter obrigatório e as vídeo aulas, que eram gravadas pelos professores do curso e disponibilizadas no Media Center, Figura 21. Para acesso a essas aulas, os alunos poderiam realizar buscas pelo nome do professor ou pela disciplina. Figura 21: Media Center Fonte: http://clmd.ufpel.edu.br/mediacenter/teachers/view/3, acesso em: 30 jan. 2013. 34 Algumas apostilas foram confeccionadas pelos professores do CLMD e as demais por profissionais de outras IES, contratados especificamente para isso. Praticamente todas as disciplinas possuíam apostilas. 63 No início o acesso ao Media Center era livre, porém, com o tempo os alunos começaram a acessá-lo através de senha, sendo esta a mesma utilizada para entrar no AVA Moodle. A Figura 22 mostra o início de uma vídeo aula, que pode ser assistida online, ou se o aluno preferir, realizar o download. Figura 22: Exemplo de vídeo aula Fonte: http://clmd.ufpel.edu.br/mediacenter/videos/view/636. Acesso em: 30 jan. 2013. No atual sistema de Eixos Temáticos, os alunos utilizam o AVA Moodle, onde é disponibilizado o material do semestre, em arquivo PDF. Não são mais realizadas webconferências periódicas e são gravadas poucas vídeo aulas, sendo mais relacionadas à resolução de atividades e exercícios. Os alunos têm, semanalmente, um encontro presencial, porém de caráter não obrigatório. A presença é exigida somente em dias de avaliação. Durante este período foram realizadas várias publicações sobre o CLMD, focando diferentes aspectos: gestão, tutoria, práticas pedagógicas, estágios, TIC. A Tabela 2 apresenta alguns desses trabalhos, seus respectivos autores, local de publicação/apresentação e ano. Tabela 2: Algumas publicações entre 2006 e 2012 referentes ao CLMD Publicação Curso de Licenciatura em Matemática a Distância – Uma Síntese do Projeto Pedagógico Laboratório de Ensino de Matemática a Distância O Sistema de Tutoria no CLMD Autores João Artur de Souza; Elton Luiz Vergara Nunes; Gertrudes Aparecida Dandolini; Luiz Alberto Brettas. Elton Luiz Vergara Nunes; João Artur de Souza; Gertrudes Aparecida Dandolini. Thaís Neuenfeld Philipsen; Reginaldo Fabiano da S. Afonso; Local Ano RENOTE. Revista Novas Tecnologias na Educação, v.3, nº 1. 2005 RENOTE. Revista Novas Tecnologias na Educação, v.3, nº 1. RENOTE. Revista Novas Tecnologias na 2005 2006 64 Gertrudes Aparecida Dandolini; João Artur de Souza; Inês Farias Ferreira. Educação, v.4, nº 2. SIMED – Simpósio de Matemática e Ensino a Distância Pelotas/RS XV Congresso de Iniciação Científica (CIC) e VIII Encontro de Pós-Graduação (ENPOS) da UFPel. Pelotas/RS A Tutoria no Curso de Licenciatura em Matemática a Distância Thaís Neuenfeld Philipsen; Reginaldo Fabiano da S. Afonso. A Tutoria como auxílio no ensino de matemática a distância Thaís Neuenfeld Philipsen; Reginaldo Fabiano da S. Afonso; Gertrudes Aparecida Dandolini; João Artur de Souza. Curso de Licenciatura em Matemática a Distância: Um Relato de Experiência Gertrudes Aparecida Dandolini; João Artur de Souza; João Carlos Roedel Hirdes; Iuri Barcelos Pereira Rocha; Paulo Moacir G. da Rosa Junior. O uso de vídeo-aulas no Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPEL Reginaldo Fabiano da S. Afonso; Thaís Philipsen Grützmann. Curso de Licenciatura em Matemática a Distância: Relato de Experiência João Artur de Souza; Gertrudes Aparecida Dandolini; João Carlos Roedel Hirdes; Maurício Braga de Paula. Motivos para ser aluno do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância Thaís Philipsen Grützmann; Mauro Augusto Burkert Del Pino. Aprendizagem em educação a distância: afecções on line Rosária Ilgenfritz Sperotto; Maria Simone Debacco. Experimentações On line: Aprendizagem em Educação a Distância Rosária Ilgenfritz Sperotto; Maria Simone Debacco; Maurício Braga de Paula. Aprendizagens on line: Experimentação em Educação a Distância Rosária Ilgenfritz Sperotto; Maria Simone Debacco; Maurício Braga de Paula. Os desafios de ser tutor num Curso a Distância Vanderleia Leitzke; Gertrudes Aparecida Dandolini; João Artur de Souza. XVI CIC e IX ENPOS da UFPel. Pelotas/RS Acta Scientiarum. Human and Social Sciences, v. 29, p. 6976. XVII CIC e X ENPOS da UFPel. Pelotas/RS VII Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul. Itajaí/SC V Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância e 6º Seminário Nacional ABED de Educação a Distância. Gramado/RS Anais XII Encontro Regional Sul da ABRAPSO. Chapecó/SC RENOTE. Revista Novas Tecnologias na Educação, v. 6, p. 1-5. João Artur de Souza; Gertrudes Aparecida Dandolini; Jairo da Silva Campelo. RENOTE. Revista Novas Tecnologias na Educação, v. 6, p. 1-5. 2008 Thaís Philipsen Grützmann; Melissa Rabassa de Souza Colvara. XVIII CIC e XI ENPOS da UFPel. Pelotas/RS 2009 Thaís Philipsen Grützmann; Melissa Rabassa de Souza Colvara. 4º CONAHPA – Congresso Nacional de Ambientes 2009 Reestruturação do modelo de gestão de cursos na modalidade a distância frente às novas demandas A Prática de Ensino de Matemática no Ensino Fundamental: o uso de material concreto e de jogos na busca do ensino e da aprendizagem O ambiente de ensinoaprendizado no CLMD RENOTE. Revista Novas Tecnologias na Educação, v.4, nº 2. 2006 2006 2006 2007 2007 2008 2008 2008 2008 2008 65 Experimentações on line: Aprendizagem em Educação a Distância Rosária Ilgenfritz Sperotto; Maria Simone Debacco; Maurício Braga de Paula. O uso dos Blogs como uma intervenção didática na disciplina de Fundamentos Psicológicos da Educação Rosária Ilgenfritz Sperotto; Ana Paula Freitas Margarites; João Carlos Roedel Hirdes. A primeira experiência de estágio no Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPEL Crisna Daniela Krause Bierhalz; Nadiane Feldkercher; Thaís Philipsen Grützmann. A visão das estagiárias do CLMD sobre suas experiências de estágio curricular Nadiane Feldkercher; Crisna Daniela Krause Bierhalz; Thaís Philipsen Grützmann. A utilização de recursos didático-pedagógicos na disciplina de Álgebra Linear do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (UFPEL) Estágio no Ensino Fundamental: a 1ª experiência na formação do professor de matemática a distância Hipermídia para Aprendizagem. Florianópolis/SC In: SPEROTTO, R. I.; DEBACCO, M.S. (Org.). Psicologias e Aprendizagens. 1ed. Pelotas, RS: Editora e Gráfica Universitária [Editora da UFPEL], 2009, v. 1, p. 50-58. XII Congresso Internacional EDUTEC Manaus/AM 1º CIEAD – Congresso internacional de Educação a Distância da UFPel. Pelotas/RS 1º CIEAD – Congresso internacional de Educação a Distância da UFPel. Pelotas/RS 2009 2009 2010 2010 Reginaldo Fabiano da S. Afonso; Thaís Philipsen Grützmann; Vinicius Carvalho Beck. 1º CIEAD – Congresso internacional de Educação a Distância da UFPel. Pelotas/RS 2010 Crisna Daniela Krause Bierhalz; Thaís Philipsen Grützmann. 10° Encontro sobre o PODER ESCOLAR. Pelotas/RS 2010 O Uso de Portfólios como mediadores de Aprendizagem em Educação a Distância Rosária Ilgenfritz Sperotto; Maria Simone Debacco; Maurício Braga de Paula. O Uso dos Blogs como uma Intervenção Didática na Disciplina de Fundamentos Psicológicos da Educação Os Desafios na Utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação no Ensino da Geometria Os desafios na utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação no Ensino da Geometria Rosária Ilgenfritz Sperotto; João Carlos Roedel Hirdes; Ana Paula Freitas Margarites; Rozane da Silveira Alves. Rozane da Silveira Alves; Rosária Ilgenfritz Sperotto; Luciane Goveia. Rozane da Silveira Alves; Rosária Ilgenfritz Sperotto; Luciane Goveia; João Carlos Roedel Hirdes. Oficina de Geometria Plana: aproximando da escola os alunos do curso de Licenciatura em Matemática a Distância Rozane da Silveira Alves; Rosária Ilgenfritz Sperotto; João Carlos Roedel Hirdes. Experimentações no ensino de Geometria Plena no Curso de Licenciatura em Matemática a Rozane da Silveira Alves; Rosária Ilgenfritz Sperotto; João Carlos Roedel Hirdes. World Congress on Communication and Arts 2010 - WCCA 2010 World Congress on Communication and Arts 2010 - WCCA 2010 World Congress on Communication and Arts 2010 - WCCA 2010 16º Congresso Internacional ABED de Educação a Distância. Foz do Iguaçu/PR XV ENDIPE – Encontro Nacional de Didáticas e Prática de Ensino. Belo Horizonte/MG 1º CIEAD – Congresso internacional de Educação a Distância 2010 2010 2010 2010 2010 2010 66 Distância O professor tutor e seu papel na educação a distância Vantagens e desvantagens do uso das tecnologias na educação a distância O papel do tutor na aprendizagem do aluno de EaD A interação entre alunos e tutores no MOODLE: a experiência no estágio curricular supervisionado A educação a distância nas instituições federais de ensino: novas relações no processo de trabalho docente O trabalho do Tutor na formação de professores em Licenciaturas a distância: a experiência do Estágio Curricular Supervisionado Educação a distância na UFPel: o início do processo Combinação de recursos assíncronos para promoção de novos significados sobre o papel do erro no processo de ensino e aprendizagem da matemática Alecia Saldanha Manara; Nadiane Feldkercher; Rosária Ilgenfritz Sperotto. Alecia Saldanha Manara; Nadiane Feldkercher; Rosária Ilgenfritz Sperotto. Melissa Rabassa de Souza Colvara; Thaís Philipsen Grützmann; Thaís Philipsen Grützmann; Mauro Augusto Burkert Del Pino. da UFPel. Pelotas/RS XIX CIC e XII ENPOS da UFPel. Pelotas/RS XIX CIC e XII ENPOS da UFPel. Pelotas/RS I Seminário Nacional de Tutores da Educação a Distância Rio de Janeiro/RJ 5º CONAHPA – Congresso Nacional de Ambientes Hipermídia para Aprendizagem Pelotas/RS 2010 2010 2011 2011 Mauro Augusto Burkert Del Pino; Thaís Philipsen Grützmann; Roberta de Carvalho N. Palau. Revista Cadernos de Educação Edição Nº 38, p. 235257. 2011 Thaís Philipsen Grützmann; Mauro Augusto Burkert Del Pino. VII Congresso Internacional de Educação – Unisinos São Leopoldo/RS 2011 XIV ENPOS da UFPel. Pelotas/RS 2012 ESUD 2012 – IX Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância. Recife/PE 2012 Thaís Philipsen Grützmann; Marcos Grützmann; Mauro Augusto Burkert Del Pino. Patrícia da Conceição Fantinel; Crisna Daniela Krause Bierhalz; Dinara Angelo; Liliane da Rosa Coll; Neide Pizzolato Angelo; Thaís Philipsen Grützmann. Fonte: Elaboração da autora O CLMD ainda organizou três eventos, nos anos de 2006, 2007 e 2008. Em 2006 aconteceu o SIMED – Simpósio de Matemática e Ensino a Distância, em Pelotas, nos dias 24 e 25 de novembro. Este evento foi aberto ao público em geral e contou com a participação de alunos dos três polos: Canguçu, Jaguarão e Turuçu. Na programação foram contempladas palestras, colóquios e sessão de comunicações. Em 2007 preparou o I Workshop do CLMD, na cidade de Jaguarão, nos dias 15 e 16 de dezembro. Participaram deste grande parte dos alunos, além de diversos professores e tutores presenciais e a distância do curso. Este evento aconteceu na Unidade Militar da cidade, com o auxílio do comandante e de outros militares. Entre 67 as diversas atividades tivemos palestras, apresentação de trabalhos e de teatro dos alunos, além de uma trilha na mata, com direito a passeio nos carros do exército. Foram dois dias de trocas de experiências e aprendizados. A Figura 23 ilustra uma das peças de teatro apresentadas pelo Polo de Turuçu, resultante de um trabalho na disciplina de Instrumentação para o Ensino de Matemática I (IEM I), no segundo semestre de 2007. Figura 23: Peça Teatral do Polo Turuçu – I Workshop do CLMD Fonte: Arquivo pessoal O II Workshop do CLMD – Colhendo frutos do conhecimento através da Matemática – ocorreu em Pelotas, nos dias 20, 21 e 22 de novembro de 2008, com a participação dos polos que ingressaram pela UAB em 2008/1 e 2008/2 e também pelo Pró-Licenciatura Fase II (2008/2), além dos alunos do Pró-Lic I. As palestras e as demais atividades ocorreram no Campus do Capão do Leão, na Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel e no Instituto de Física e Matemática. Como programação, foram desenvolvidas palestras, relatos de experiências, oficinas e reuniões de coordenadores e representantes de turma, além de um passeio pelas instalações do curso, centro histórico da cidade e praia do Laranjal. 68 Figura 24: II Workshop do CLMD Fonte: Arquivo pessoal A EaD, desta forma, surge como modalidade de ensino, pois já ofereceu mais de 2.000 vagas de formação inicial pelo CLMD. É uma oportunidade em municípios pequenos e/ou distantes dos grandes centros, visando o estudo e a qualificação dos profissionais. Pode ser percebida, também, como estratégia de formação, pois faz parte de programas desenvolvidos pelo Ministério da Educação, com objetivo de atender às demandas sociais. Assim, o CLMD já possui uma caminhada considerável na modalidade a distância, tendo formado três turmas em maio de 2010, concluintes de 2009/2, pelo Projeto Pró-Licenciatura Fase I. Essas turmas ainda esperam o diploma, em que pese o curso ter sido reconhecido em 22 de maio do corrente ano35. Pela UAB, já finalizaram o curso seis turmas em março de 2012, concluintes em 2011/2 e 15 turmas entre agosto e novembro de 2012, concluintes em 2012/1, sendo que estes alunos já estão recebendo o diploma, visto o curso ter sido reconhecido em três de junho do corrente ano, conforme notícia no DOU, Seção 1. Em 2012/2 aconteceram algumas formaturas internas em Pelotas e nos polos, com alunos que estavam finalizando disciplinas pendentes. 35 Portaria nº 227, de 22 de maio de 2013, publicada no DOU, Seção 1, em 23 de maio. Disponível em: <http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=23/05/2013&jornal=1&pagina=23&totalArquivos= 148>. Acesso em: 31 jul. 2013. 69 Na próxima seção descrevo a estrutura pedagógica do CLMD, com os sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. 2.2. A equipe pedagógica do CLMD Ao estudar um curso na modalidade a distância é preciso compreender o seu sistema educacional, de forma que cada instituição é livre para adotar o modelo que melhor lhe convém, buscando atender às necessidades e demandas da região (GONZALEZ, 2005). O Curso de Licenciatura em Matemática a Distância, como mencionado anteriormente, foi criado em 2005 e iniciou suas atividades acadêmicas em 2006. No primeiro ingresso, pelo Pró-Lic I (2006/1), pelo ingresso do Pró-Lic II (2008/2) e pelos dois primeiros ingressos do Sistema UAB (UAB 1 – 2008/1 e UAB 2 – 2008/2), o curso tinha uma grade curricular disciplinar, com duração de oito semestres e uma carga horária total de 2.960 horas36. Alguns dos objetivos específicos da implantação do curso eram abranger populações que vivem em regiões afastadas dos grandes centros; contribuir para o desenvolvimento dos municípios envolvidos no projeto, denominados de polos; possibilitar que houvesse um maior número de docentes na área de Matemática com formação específica (CLMD, 2006). Para essas primeiras 23 turmas, o curso apresentava a seguinte estrutura na sede, em Pelotas: o professor responsável pela disciplina e um ou mais tutores a distância atuando em conjunto, dependendo no número de alunos matriculados. O professor responsável pela disciplina organizava o conteúdo a ser trabalhado, selecionando o material necessário para tal, de acordo com a ementa. Além disso, gravava vídeo aulas explicando os conceitos e/ou resolvendo exercícios. Inicialmente, essas aulas eram longas, até que pela experiência37, percebeu-se que os vídeos deveriam ser curtos, com no máximo 15 minutos de duração cada. Essas aulas ficavam disponíveis no espaço CLMD Mediacenter38. O professor ministrava ainda aulas por webconferências, em tempo real, com os alunos reunidos nos polos de apoio presencial. Essas tinham como objetivo a explicação do conteúdo, a 36 Essa era a carga horária inicial do curso, que sofreu alterações de acordo com as modificações nas disciplinas que pertenciam ao currículo. 37 Experiência relacionada ao tempo de concentração dos alunos para assistirem ao vídeo. 38 Disponível em: <http://clmd.ufpel.edu.br/mediacenter/>. Acesso em: 16 jul. 2012. 70 resolução de exercícios ou, então, fazer uma revisão antes das avaliações. A webconferência possibilitava ao professor “explorar e compartilhar imagens visuais de modo síncrono” (BORBA; MALHEIROS; ZULATTO, 2007, p. 66), de forma a romper as barreiras geográficas, utilizando a oralidade e a visualização de imagens de forma paralela. Para as turmas do Pró-Lic I as aulas aconteciam nas sextas-feiras a noite e sábados, manhã e tarde. Para a UAB 1, segundas e quartas-feiras a noite e para o Pró-Lic II e UAB 2 as terças e quintas-feiras a noite. O professor (da área da Matemática) também organizava listas de exercícios e fazia os gabaritos, com explicações detalhadas, visando a maior autonomia dos alunos no momento de estudar. Era responsável pela preparação das avaliações, que poderiam ser prova, trabalho, pesquisa, seminário, entre outros. Alguns professores da área da Educação faziam reuniões semanais com o seu grupo de tutores, buscando discutir as questões pedagógicas envolvidas e o planejamento das atividades a realizar com os alunos. Aqui, como exemplo de inovação e utilização das tecnologias, cito a disciplina de Fundamentos Psicológicos da Educação, em 2009/2, na qual foi desenvolvido um blog com as turmas, sendo um trabalho de parceria entre alunos, professores e tutores (BIERHALZ, 2012), onde estes últimos trabalharam como uma equipe docente, o que caracterizo neste trabalho como a polidocência na Educação a Distância (MILL, 2012). Neste cenário, o tutor à distância, atuando na sede do curso em Pelotas, ficava responsável pela interação no ambiente virtual de aprendizagem, o Moodle, através do qual auxiliava os alunos, esclarecia dúvidas e incentivava a maior participação no processo de aprendizagem. Também ajudava o professor na preparação das listas de exercícios e suas resoluções (Matemática) ou outras atividades pedagógicas (Educação), bem como ficava responsável pela correção das avaliações, sempre com a supervisão dos professores. Na sede do CLMD atuava o Coordenador de Curso (nesta época não havia Coordenador Adjunto), que administrava a parte pedagógica, financeira e estrutural. Esse era auxiliado pela secretaria do curso, que cuidava também da parte burocrática. No início dos trabalhos existia uma equipe multidisciplinar, onde tínhamos uma professora da área das letras, equipe de diagramadores, equipe técnica para manutenção dos laboratórios e do Moodle, equipe da gravação e edição das vídeo 71 aulas e webconferências. Aos poucos, como muitos desses serviços eram terceirizados, deixaram de existir no curso. Nos polos de apoio presencial, localizados nos municípios vinculados aos projetos e que receberam a oferta do curso, trabalham os tutores presenciais e o coordenador de polo. Com a expansão de muitos polos, atualmente recebendo cursos de diferentes níveis de ensino (extensão, capacitação, técnicos, tecnólogos, graduação e pós-graduação) e de diferentes IES, possuem hoje o serviço de secretaria, biblioteca e técnico em informática, este último responsável pela manutenção de toda parte tecnológica e de internet do local. O coordenador do polo, dentre algumas de suas atribuições, deve acompanhar e coordenar todas as atividades no polo (atividades docente, discente ou administrativa), participar de atividades de capacitação, elaborar diferentes tipos de relatórios, acompanhar as atividades de ensino (presenciais ou à distância), receber e prestar informações aos avaliadores externos do MEC quando em visita ao polo (BRASIL, 2009). O tutor presencial assistia juntamente com os alunos as webconferências, organizava grupos de estudo, de caráter não obrigatório, auxiliava no esclarecimento de dúvidas, aplicava as avaliações presenciais, como, por exemplo, a prova, e avaliava os alunos, se necessário, como na apresentação de seminários e no Estágio Curricular Supervisionado. Ainda, era mediador entre alunos e professores do curso, ajudava os alunos a fazerem o download das vídeo aulas, lembrava a turma sobre as atividades avaliativas propostas e outras datas importantes. Seu trabalho era realizado diretamente com os alunos, sendo que a presença dos alunos no polo era obrigatória uma vez por semana. Ao ingressarem as 22 turmas da UAB 3, em 2011, o curso foi relotado no Centro de Educação a Distância (CEAD), mediante a Portaria 130/2011, e passou por uma reestruturação curricular, deixando de ter o caráter disciplinar, passando a ser ofertado por Eixos Temáticos, como mencionado na seção 2.1. A Figura 25 mostra o mapa com os polos do CLMD no segundo semestre de 2012, sendo alguns já extintos. 72 Figura 25: Mapas com os polos do CLMD Fonte: Equipe Técnica de TI do CEAD/UFPel 73 Nesta nova estrutura, o curso conta com oito professores efetivos no quadro da UFPel, lotados no CEAD/CLMD, sendo que sete assumiram em 2010 e um em 2011. O curso também tem bolsistas da UAB, sendo estes professores pesquisadores e tutores, além da coordenação de curso, coordenação de tutoria e secretaria. A equipe de técnicos não é mais do CLMD e sim do CEAD. O curso é coordenado por uma das professoras do quadro efetivo da UFPel, sendo que existe hoje, a coordenação adjunta do curso, realizada por outra docente efetiva. O trabalho de coordenação tem responsabilidade sobre a administração do curso como um todo, da parte pedagógica a estrutural. Não gerencia a parte financeira. Outra professora do quadro efetivo exerce a função de coordenadora de tutoria39, que tem, dentre algumas atribuições, participar de atividades de capacitação, acompanhar o processo seletivo dos tutores, verificar in loco o andamento do curso, acompanhar e supervisionar as atividades desenvolvidas pelo grupo de tutores (BRASIL, 2009). Os professores efetivos do CLMD juntamente com a equipe de professores pesquisadores (bolsistas UAB) são os responsáveis pelo planejamento e execução dos Eixos Temáticos40. Dentre alguns destes professores pesquisadores existem aqueles que são denominados de Professores Referência41, os quais são responsáveis pelo acompanhamento mais detalhado de um grupo, auxiliando e supervisionando o trabalho dos tutores presenciais e a distância destes polos. O tutor a distância tem como atribuições mediar a comunicação entre os conteúdos e os alunos, acompanhar os alunos conforme o cronograma, salientando datas importantes e os prazos das atividades, apoiar o grupo de professores nas atividades docentes, manter acesso regular ao Moodle, responder os fóruns referente a dúvidas de conteúdo, corrigir as atividades propostas de acordo com os roteiros de correção e dar feedback apropriado, que estimule o aluno ao raciocínio e ao senso crítico, entre outros. Cada tutor a distância acompanha um ou mais polos, com aproximadamente 25 alunos no total. O tutor presencial acompanha os alunos, principalmente quando estes vão ao polo. A atual estrutura dos eixos organiza um encontro semanal nos polos, de 39 Esta professora assumiu a Coordenação de Tutoria em abril de 2013. Quando o curso era disciplinar cada professor planejava sozinho a sua disciplina. Atualmente com o Eixo Temático, existe sempre um grupo de professores planejando em conjunto. 41 Os professores efetivos do CLMD não exercem a função de Professores Referência. 40 74 caráter não obrigatório, para o desenvolvimento de atividades relacionadas com os conteúdos que estão sendo trabalhados. Como não existe disponibilidade de um único dia para os 22 polos, cada um realiza a atividade no dia que melhor convém à turma, relacionado também a disponibilidade do polo. Essas atividades presenciais geralmente tem caráter lúdico e/ou investigativo, onde os alunos tenham que atuar ativamente durante o processo. Lúdico e/ou investigativo no sentido que as atividades propostas apresentam uma aplicação prática dos conceitos, ou utilizam um material concreto, ou um software, ou são desenvolvidas por meio de um jogo, instigando os alunos no sentido de que a Matemática pode ser apresentada de outras formas além da aula expositiva. Desta forma, o tutor presencial media o processo de construção do conhecimento, de acordo com o roteiro que recebeu para tal. Este roteiro é enviado pelo ambiente, numa sala especial só para os tutores (a qual os alunos não têm acesso), dias antes do encontro, o que possibilita aos tutores presenciais lerem o material e procurarem pela equipe de execução do eixo em caso de dúvidas. Este tutor ainda aplica as avaliações presenciais (provas e seminários) e, depois, encaminha-as para a sede do curso, via correio, quando, então, serão corrigidas pelo tutor a distância. Se necessário, faz a avaliação dos alunos, como é o caso do seminário final do eixo, onde o tutor presencial avalia a apresentação e o tutor a distância avalia o relatório e demais materiais enviados pelo Moodle. Ainda, o tutor presencial, assim como o tutor a distância, busca estimular a participação ativa dos acadêmicos em todas as atividades propostas no semestre. Para isso, interagem com o aluno por mensagens pessoais pelo próprio ambiente, pelos fóruns, por emails e até por telefone, se for necessário. “A prática da tutoria deve ser compreendida pelos tutores como docência” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 83). A estrutura atual do CLMD está representada na Figura 26, salientando que temos sempre uma equipe de professores pesquisadores (alguns sendo professores referência), de professores efetivos, de tutores presenciais e tutores a distância. 75 Figura 26: Organograma da equipe pedagógica do CLMD/CEAD/UFPel Fonte: http://moodle.ufpel.edu.br/clmd/course/view.php?id=4. Acesso em: 02 jul. 2012. Pela figura acima, nos polos temos o coordenador de polo, que continua com as mesmas atribuições já descritas, e os alunos. Para atender o semestre atual, existe uma Equipe de Execução, que é composta pelos tutores a distância, tutores presenciais e professores referência (bolsistas UAB), denominada Equipe Docente do Polo. É a esta equipe que os alunos devem se dirigir num primeiro momento em caso de dúvidas. Os professores efetivos que integram a Equipe de Execução são os que no semestre anterior fizeram parte da Equipe de Planejamento e estruturaram o Eixo em questão. Na Equipe de Execução, esses professores organizam o ambiente Moodle, disponibilizam os materiais, elaboram as avaliações e fazem os ajustes necessários no decorrer do semestre. No semestre seguinte, alguns tutores a distância, os tutores presenciais e alguns professores efetivos formam a Equipe de Recuperação Paralela do Eixo, que atende a cada aluno pontualmente nos conceitos em que esse não conseguiu atingir a média mínima para a aprovação. É um sistema diferenciado, sendo que o Eixo não é simplesmente reofertado, como acontecia no caso das disciplinas. É feita uma análise do histórico de cada aluno que reprovou para ver quais são os conceitos que não foram assimilados, focando o trabalho nestes conceitos específicos, de forma que haja de fato uma “recuperação”. Desta forma apresentei a estrutura pedagógica atual do CLMD, com as Equipes de Planejamento, Execução e Recuperação Paralela do Eixo, além da Equipe Docente do Polo. Na sequência do texto, abordo a estrutura pedagógica e a 76 tutoria nos cursos de Educação a Distância, de acordo com cada um dos autores e, por fim, faço um levantamento dos trabalhos referentes ao termo “tutor” e/ou “tutoria”, publicados nos principais eventos, revistas e periódicos da área de Educação e Educação a Distância. 2.3. Quem são os sujeitos que fazem a EaD? Um olhar sob o tutor e a polidocência Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Antoine de Saint-Exupéry Ao se pensar a estrutura pedagógica de cursos em Educação a Distância encontram-se variadas personagens que a compõem para que as aulas aconteçam (DEL PINO; GRÜTZMANN; PALAU, 2011), diferentemente do ensino presencial. Quando se faz referência ao ensino presencial, remete-se a imagem de um único professor em sala de aula com uma turma de alunos. Já na Educação a Distância esta realidade é diferente, uma vez que não encontramos um único profissional realizando todo o processo de ensino-aprendizagem, além do espaço da sala de aula não se constituir como um elemento que reúne, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, os estudantes envolvidos no processo. Mill (2010) justifica a peculiaridade do trabalho na EaD a partir da quantidade de alunos e da complexidade do processo de trabalho, o que impossibilita, segundo o autor, a unidocência. Na modalidade a distância, dependendo do curso, seja de extensão, capacitação, aperfeiçoamento, técnico, tecnólogo, graduação ou pós-graduação (especialização lato sensu), existem diferentes sujeitos atuantes, entre eles, o professor-conteudista, o professor-executor, o tutor (virtual, a distância e presencial), o web design, o técnico em informática, o responsável pelo ambiente virtual de aprendizagem (AVA), entre outros42, além da equipe de coordenação e secretaria. Antes de descrever cada um destes sujeitos conforme determinados autores, defino o que se entende por docência, professor e tutor nesta Tese. A docência é vista como “uma categoria profissional do trabalhador do magistério, da educação” (MILL, 2012, p. 56), relacionada a quem ensina. Entre os 42 Ou estas funções com outras nomenclaturas, dependendo do curso e/ou do autor. 77 elementos presentes nesta categoria, que são vários, cito os saberes e as competências para ensinar e a precarização do trabalho docente (MILL, 2012), que de certa forma foram trabalhados no decorrer da Tese. O termo professor vem do latim professore e significa “1. Homem que professa ou ensina uma ciência, uma arte ou uma língua; mestre. 2. Aquele que é perito ou muito versado em qualquer das belas-artes. 3. O que professa publicamente as verdades religiosas43”. Já a palavra tutor vem do latim tutore, e significa “1. Aquele que, por disposição testamentária ou por decisão do juiz, está encarregado de uma tutela ou tutoria. 2. O que protege, ampara ou dirige; defensor44”. O dicionário online Houaiss45 traz que o termo tutor data do século XIII e tem o significado de “tutor como ‘indivíduo que exerce uma tutela (ou tutoria)’, ‘aquele que ampara e protege’, ‘quem ou o que supervisiona, dirige, governa’”, ou seja, o tutor é responsável por algo ou alguém. Quando se situa o tutor no ambiente virtual, relacionado a EaD, este aparece como um guia aos estudantes, ajudando-os na organização e participação de forma enriquecedora nos processos de ensino-aprendizagem. A partir da definição dos termos, na sequência exploro a polidocência, ou seja, “o trabalho docente virtual [que] é realizado coletivamente (de modo colaborativo e fragmentado)” (MILL, 2012, p. 58). Porém, primeiro vou descrever cada um destes sujeitos que compõem a equipe de um curso na modalidade a distância, de acordo com Gonzalez (2005) e Mill (2010). Após, foco o trabalho do tutor, integrante da polidocência, descrevendo, por fim, as funções e as características da tutoria em EaD. Para Gonzalez (2005), o professor é chamado de coordenador da aprendizagem, e pode ser, ao mesmo tempo, responsável pela criação do conteúdo e coordenador do processo de aprendizagem dos alunos. Ao pensar na estrutura atual do CLMD, este é o professor efetivo do curso, que participa do planejamento e da execução do eixo temático. Já o web designer é definido como sendo a pessoa responsável em desenvolver os aspectos gráficos das páginas de internet ou do AVA utilizado. Ainda, tem-se o técnico em informática, chamado de orientador de 43 Do dicionário online Michaelis. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/ index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=professor>. Acesso em: 06 fev. 2013. 44 Do dicionário online Michaelis. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/ index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=tutor>. Acesso em: 06 fev. 2013. 45 Do dicionário online Houaiss. Disponível em: <http://200.241.192.6/cgi-bin/houaissnetb.dll/frame>. Acesso em: 28 jun. 2013. 78 ambiente, sendo o responsável pela parte da informática do curso. Este deve conhecer de forma ampla o AVA que é utilizado e suas principais ferramentas, para auxiliar os alunos nesta questão. Ainda, é sua competência baixar os softwares necessários durante o curso, resolver os problemas de conexão, entre todos os outros que envolvem diretamente o computador. Por último, Gonzalez (2005) define o professor-tutor como sendo um profissional docente que possui duas características simultâneas, ou seja, precisa dominar o conteúdo técnico-científico do curso ao qual faz o atendimento e ter habilidade para estimular o estudante a participar e buscar suas próprias respostas. Este autor busca superar “a ideia do tutor como aquele que ampara, protege, defende, dirige ou que tutela alguém” (GONZALEZ, 2005, p. 21), resignificando o termo de forma que “trabalhar como tutor significa ser professor e educador” (ibidem) no ambiente da EaD. A este professor-tutor caberá à mediação durante o curso, em todos os aspectos, pois será o responsável por sanar dúvidas referentes ao conteúdo, estimular a participação das atividades propostas e a entrega das tarefas e avaliações e, quando necessário, fazer a avaliação dos estudantes. Complementa que, no cenário da EaD, “o papel do tutor extrapola os limites conceituais, impostos na sua nomenclatura, já que ele, em sua missão precípua, é educador como os demais envolvidos no processo de gestão, acompanhamento e avaliação dos programas” (GONZALEZ, 2005, p. 80). Mill (2006; 2010; 2012) estrutura a equipe polidocente, ou seja, a equipe pedagógica que atua no planejamento e execução do curso em EaD, da seguinte forma: o professor-conteudista, o professor-formador, o tutor presencial e o tutor a distância. Cada um desses sujeitos desenvolve determinadas atividades, todavia, as atividades podem ser sempre encontradas no processo de trabalho, mas não necessariamente esses sujeitos encontram-se da forma mencionada em todas as modalidades de EaD. O professor-conteudista é o responsável pela elaboração de materiais, adaptando-os metodologicamente para a modalidade EaD. É aquele que organiza os materiais em diferentes mídias: impressa, vídeos, materiais virtuais na internet, entre outros. Se o professor-conteudista for o mesmo que irá acompanhar os alunos durante a aplicação, é chamado de professor-coordenador de disciplina. O professor-formador (ou professor-aplicador) é aquele que acompanha a turma 79 durante a aplicação da disciplina (no caso atual do CLMD, durante a aplicação do Eixo). Ele ainda acompanha e orienta a equipe de tutores que está trabalhando consigo. Alguns cursos não possuem esse sujeito, passando para os tutores diretamente esta responsabilidade pelo acompanhamento da aplicação do conteúdo aos alunos, o que torna os “custos” do curso mais baratos. Outro sujeito que compõe a equipe polidocente proposta pelo autor é o tutor. O trabalho de tutoria é desenvolvido por dois tipos diferentes de profissionais, o tutor virtual e o tutor presencial. O primeiro tem o foco dirigido ao conteúdo a ser trabalhado com os alunos e, normalmente tem formação inicial na área em que atua. Mill (2010, p. 35) argumenta que “a função de tutor virtual é demasiadamente complexa e trabalhosa para atender um grupo com mais de 25 alunos num determinado conteúdo”, explicitando que com um número maior do que este a qualidade pode ficar comprometida. O tutor a distância − outra denominação para o tutor virtual − trabalha na sede do curso e faz o atendimento de forma virtual, seja pelo Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), seja por redes sociais, emails, chats ou bate-papos. Está subordinado ao coordenador da disciplina/eixo em todos os sentidos (MILL, 2006). Já o tutor presencial tem a função de atender localmente os alunos, sanando dúvidas pontuais e auxiliando a equipe nas atividades presenciais, avaliativas ou não, mediando o processo junto aos estudantes. Salienta que nem todos os cursos utilizam a figura do tutor presencial. Nesta pesquisa, reintero que o trabalho foi desenvolvido somente com os tutores virtuais, por opção metodológica. Todavia, no CLMD também há tutores presenciais, como mencionado na seção anterior. Quando se refere à equipe multidisciplinar, o autor faz menção aos especialistas em mídia impressa, audiovisual, virtual, vídeo e webconferência, além de outros profissionais eventuais. Esses, por trabalharem diretamente com os alunos, são considerados por esse autor como parte constitutiva da equipe da polidocência, qualificando o trabalho docente na EaD. Ele destaca ainda a função do projetista educacional, que adapta os materiais da EaD para as diferentes mídias disponíveis, auxiliando o professor-conteudista na organização da disciplina, módulo ou eixo. Argumenta que os cursos apresentam uma equipe coordenadora, que pode influenciar na polidocência a partir de definições tomadas para o curso, e uma equipe de apoio técnico, que está presente tanto na instituição como nos polos. 80 Essas equipes têm por função, também, auxiliar nas demais questões administrativas. Assim, questionei-me: qual é a formação do tutor na EaD? O que utiliza dessa formação em sua prática de tutoria? Quais são os saberes que mobiliza para a atuação na EaD? Após esta reflexão sobre a caracterização dos sujeitos que compõem o processo de ensino-aprendizagem na modalidade a distância, que não tem uma estrutura fixa e varia de curso para curso, de acordo com a proposta pedagógica e institucional, vou considerar na Tese o tutor como parte da equipe docente durante o processo de ensino-aprendizagem. Daniel Mill (2010, 2012), pesquisador da UFSCar, que estuda questões sobre o Trabalho Docente na Educação a Distância, considera que nesta modalidade de ensino não temos somente um professor, como é no ensino presencial. Fica evidente, portanto, que na EaD faz-se necessário um trabalho coletivo, com diferentes sujeitos desempenhando distintas funções, que compõem o todo pedagógico, corroborando com a ideia de que “o ensino é uma ocupação cada vez mais complexa que remete a uma diversidade de outras tarefas além das aulas em classe” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 133). Nessa abordagem, considera-se que as “aulas em classe” na EaD são os momentos de ensino-aprendizagem dos alunos, tanto os presenciais como os virtuais. Mill (2010, p. 23), então, define o conceito de polidocência como um “conjunto articulado de trabalhadores, necessários para a realização das atividades de ensino-aprendizagem na EaD”. Assim, considera que o professor não é somente aquele que ministra os conteúdos, mas também aquele responsável por acompanhar os estudantes e, ainda, os que organizam pedagogicamente os materiais disponibilizados pelo curso. Logo, corroboro com a visão deste autor, pois o tutor, foco desta pesquisa, igualmente faz parte da docência na EaD. O termo polidocente foi escolhido, pois o termo professor-coletivo, como é utilizado por Belloni (2009), remete a necessidade de aula, o que não necessariamente é verdadeiro na EaD, visto que muitas atividades realizadas não são caracterizadas como aula, no sentido tradicional do termo. Assim, Mill (2006, 2010) se questiona sobre quem educa na EaD, questionamento que me fiz constantemente na escrita desta Tese, e ele mesmo responde que quem ensina é 81 um polidocente, ou seja, este “coletivo de trabalhadores que, mesmo com formação e funções diversas, é responsável pelo processo de ensino-aprendizagem na EaD” (MILL, 2010, p. 24). Mill (2010) ainda observa que, se no ensino presencial o trabalho docente pode ser desenvolvido por um único sujeito, o professor, no trabalho pedagógico virtual isto é praticamente impossível, visto a “complexidade dos saberes docentes na EaD virtual ou como consequência da mediação tecnológica intensificada e reforçada pelos objetivos de racionalização do trabalho pedagógico” (ibidem, p. 28). Assim, busco na fala deste autor um link para a minha pesquisa, cujo objetivo é ver como os tutores a distância recontextualizam os seus saberes docentes, provenientes da atuação no ensino presencial, para a atuação na EaD, entendidos os tutores também como docentes, integrantes deste processo de ensinoaprendizagem. Neste contexto, é importante ressaltar que Mill, Ribeiro e Oliveira (2010), autores da obra “Polidocência na educação à distância: múltiplos enfoques” argumentam que a docência pode ser analisada de duas formas distintas, primeiro como categoria profissional e, segundo, como atividade pedagógica cotidiana. Na primeira, o foco da análise é o ofício de mestre, porém, na segunda, abordada e discutida no livro, a docência é vista como o fazer do professor com seus alunos, no processo de ensino-aprendizagem. De forma mais ampla e abrangente, “a docência é uma categoria profissional do trabalho do magistério, da educação” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 15). Assim, outros aspectos merecem atenção, sendo “ética profissional, saberes e competências para ensinar, autonomia no trabalho, relação com gestores/proprietários dos meios de produção, precarização do trabalho, formação profissional” (ibidem, p. 15). Nesta forma de perceber a docência, ou seja, de compreendê-la a partir de um conjunto de sujeitos que atuam de forma próxima e entrelaçada, com funções definidas e se auxiliando mutuamente, é que pretendo focar os saberes docentes que o grupo de tutores virtuais envolvidos no curso do CLMD tem ou desenvolvem durante a sua atuação, pois “é provável que a docência na EaD requeira alguns saberes complementares ou diferentes daqueles da docência presencial” (RIBEIRO; MILL; OLIVEIRA, 2010, p. 54), como descrito na análise dos dados coletados. 82 A prática do tutor nos cursos da modalidade EaD deve ser ativa durante todo o processo educativo, de forma que os estudantes sintam-se autônomos para construírem suas aprendizagens, tendo certeza que este profissional, assim como os demais membros da equipe docente, está ali para auxiliá-los (PEREIRA, 2007). Hallwass (2010), em sua dissertação, afirma que o tutor não somente acompanha o aluno em suas tarefas, mas também o acompanha em “seu processo de aprendizagem e de suas necessidades particulares, dando auxílio, interpretando sinais enviados pelos alunos, detectando a incidência de dúvidas ou desmotivação” (HALLWASS, 2010, p. 53). Desta forma, é ressaltado o tutor como parte da equipe docente do curso preocupada com a aprendizagem dos alunos que lhe são confiados. É importante salientar que em alguns cursos o tutor não é visto como docente, mas sim como uma mão de obra operacional, barata, que agiliza a correção de atividades e mantém certo vínculo entre os alunos e o curso, mas sem preocupação com a forma como este sujeito é tratado profissionalmente. Aqui não farei uma discussão aprofundada sobre este assunto, visto que considero o tutor como parte da docência virtual e utilizei autores que corroboram com esta ideia. Após a discussão inicial sobre os sujeitos que compõem a estrutura dos cursos na modalidade a distância, aqui merece destaque o personagem que foi o foco de estudo deste trabalho, o tutor, entendido como sendo parte da equipe docente que atua no processo de ensino-aprendizagem dos alunos virtuais. Em muitos cursos em EaD temos o tutor a distância ou tutor virtual, que fica na sede e faz o atendimento de forma virtual, seja pela plataforma de ensino, seja por chats e bate-papos, e o tutor presencial, que acompanha os alunos em seus respectivos polos, proporcionando os encontros presenciais e mediando as atividades. Para fins desta pesquisa trabalhei de forma intencional com os tutores a distância, visto que são os mais próximos da pesquisadora e mais distantes (fisicamente) dos alunos. A escolha desses sujeitos foi descrita de forma detalhada no capítulo referente à metodologia da pesquisa. Quais são as competências e as funções que os tutores exercem durante a prática de tutoria? O que esperar da sua atuação? Como devem se relacionar com os alunos e os demais sujeitos da equipe docente e técnica? 83 No Curso de Formação de Tutores em EaD, do Programa de Formação Continuada de Gestores da Educação Básica (PROGED), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), são explicitadas as competências e funções do tutor, sendo que a tutoria é considerada como uma extensão da docência neste caso. As competências e funções foram descritas de maneira clara e precisa, de forma que serão citadas aqui. As competências são agrupadas em três dimensões: a técnica, a gerencial e a pedagógica, sendo entre si complementares. Competências técnicas: Domínio dos recursos tecnológicos utilizados no curso; Capacidade de socialização desses saberes com os cursistas; Domínio de procedimentos para confecção de relatórios técnicos sobre o desenvolvimento do curso. Competência gerencial: Habilidade de planejamento a curto e médio prazo; Prontidão na formulação de estratégias para o redimensionamento de problemas; Autonomia na tomada de decisões. Competências pedagógicas: Domínio do conteúdo específico a ser trabalhado; Habilidade para estimular a busca de resposta pelo participante; Disposição para continuar aprendendo (UFBA, p. 9-10). Essas competências esperadas do tutor são articuladas às suas funções, a saber: Função pedagógica – diz respeito ao fomento de um ambiente social estimulador da aprendizagem, com a utilização e potencialização de recursos didáticos por meio da mediação tutorial. Função gerencial – envolve normas referentes ao agendamento das atividades do curso, ao acompanhamento sistemático dos alunos, ao tempo de resposta e uma avaliação constante de sua prática e da participação dos cursistas. A sugestão de novos procedimentos para o redimensionamento de problemas e tomada de decisões com autonomia é parte da função gerencial. Função técnica – diz respeito ao conhecimento técnico do tutor e ao seu potencial didático para compartilhá-lo com os cursistas. (UFBA, p. 10). A forma como é abordada as competências e funções do tutor é semelhante à adotada no CLMD, onde os tutores precisam atuar nestas três esferas: técnica, gerencial e pedagógica (COLVARA; GRÜTZMANN, 2011), porém suas funções e 84 encargos dependem diretamente da organização didático-pedagógica do curso em questão (CHARCZUK, 2010). Após esta visão sobre os sujeitos da Educação a Distância e a delimitação inicial das competências e funções do tutor, busco aproximação com o objetivo geral de meu trabalho, os saberes docentes na tutoria. Mill, Ribeiro e Oliveira (2010) colocam que a experiência na EaD proporciona a muitos professores uma oportunidade de desenvolvimento profissional, visto que para exercerem a docência virtual precisam de outros saberes docentes, além dos que já vinham utilizando no ensino presencial. Um professor do ensino presencial deveria ter o domínio de conteúdo e os conhecimentos pedagógicos para ministrar de forma satisfatória sua aula. O docente na EaD, considerando aqui a equipe polidocente, além dos conhecimentos necessários à docência presencial, precisaria mobilizar outros saberes, como domínio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), gerenciamento e organização do tempo e habilidade de trabalho em equipe. Os docentes na EaD vão atuar, provavelmente, com ênfases e abordagens diferentes em relação à transmissão do conteúdo e a gestão da classe virtual se comparados com a modalidade presencial, porém existe um fundamento pedagógico comum, oferecido na formação inicial. Apesar de alguns pontos serem distintos, a pesquisa realizada buscou pistas para saber como os tutores recontextualizam os seus saberes docentes na prática da tutoria em EaD. Importante ressaltarmos que o processo de construção do conhecimento ocorre de forma semelhante, pois em ambas as modalidades de ensino é preciso, inicialmente, ver quais são os conhecimentos necessários, negociar os conteúdos a serem trabalhados, planejar as atividades a serem propostas e avaliar o desenvolvimento dos alunos (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010). A seguir, apresento um pequeno panorama sobre artigos, teses e dissertações publicados tendo por referência os termos “tutor” e/ou “tutoria”, mostrando como este assunto vem sendo discutido nos principais eventos e publicações nas áreas de Educação e Educação a Distância. 85 2.4. O que se tem escrito sobre o tutor na EaD? Para começar o estudo sobre o tema, fiz um levantamento de trabalhos relacionados às palavras-chave “tutor” e/ou “tutoria” na EaD, a fim de perceber com que intensidade e de que forma este assunto vem sendo explorado nas publicações em revistas, periódicos e encontros conceituados de Educação e de Educação a Distância, até o ano de 2012. A primeira pesquisa aconteceu na Revista Brasileira de Educação46, um periódico quadrimestral, Qualis A1, publicado pela ANPEd juntamente com a Editora Autores Associados, o qual destina-se a publicação de artigos acadêmico-científicos na área das ciências humanas e sociais, com o objetivo de fomentar e facilitar o intercâmbio acadêmico. Dos 218 artigos disponíveis no site, nenhum foi encontrado com as palavras-chave “tutor” e/ou “tutoria”. Como curiosidade pesquisei a palavrachave “educação a distância”, encontrando apenas dois trabalhos dentre estes 218 publicados. Outra busca efetivou-se na Revista Educação & Sociedade47, Qualis A1, publicada trimestralmente, pelo Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES), sendo, atualmente, um dos mais importantes periódicos editados na área da Educação no país. Para a palavra-chave “tutoria” nada foi encontrado. Já para a palavra-chave “tutor” foi encontrado apenas um artigo, de Antonio A. S. Zuin: “Educação a distância ou educação distante? O Programa Universidade Aberta do Brasil, o tutor e o professor virtual48”. Neste, o autor busca uma reflexão no âmbito da Universidade Aberta do Brasil, focando o tutor e o professor virtual, sobre as várias questões que surgem diante da possibilidade de utilização das mediações tecnológicas para o desenvolvimento do processo educacional/formativo dos profissionais da área da educação, a saber: de que modo tais mediações podem ser empregadas em tal processo? Como se desenvolve a relação entre autoridade pedagógica e autoritarismo num ambiente de aprendizagem virtual? (ZUIN, 2006, p. 1). A Revista Cadernos de Educação49, da Faculdade de Educação da UFPel também foi analisada. Esta é uma publicação quadrimestral, Qualis A2, criada em 46 Pesquisa realizada em 04 de julho de 2012 no site http://www.anped.org.br/rbe/rbe/rbe.htm. Pesquisa realizada em 04 de julho de 2012 no site http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ serial&pid=0101-7330&lng=pt&nrm=iso. 48 Artigo publicado na revista em outubro de 2006, vol. 27, n.º 96, p. 935-954. ISSN 0101-7330. 49 Pesquisa realizada em 16 de julho de 2012 no site http://www.ufpel.edu.br/fae/caduc/index.htm. 47 86 1992, que socializa conhecimentos locais, nacionais e internacionais. É reconhecida pela variedade das temáticas publicadas, orientações teórico-metodológicas e estilos. No site, a última publicação é a edição nº 39, de maio-agosto de 2011. Foi feita uma varredura desde a edição 24, de maio-agosto de 2006 até esta última edição disponível, buscando pelos temas “tutor” e/ou “tutoria” nos títulos, sendo que dos 227 artigos publicados, nenhum fez referência aos termos procurados. Outra pesquisa foi realizada nos Anais das Reuniões Anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), cujo objetivo é buscar a ampliação e a consolidação da pesquisa e do ensino de pós-graduação na área da Educação no Brasil e fomentar a produção de trabalhos científicos e acadêmicos na área educacional, facilitando também sua difusão e intercâmbio com outras instituições50. Analisei o GT 08, Formação de Professores e o GT 16, Educação e Comunicação51, nos anos52 de 2006 a 2012, entre trabalhos completos e pôsteres. Na Tabela 3 apresento o resultado quantitativo dessa pesquisa, ou seja, o número de trabalhos e pôsteres apresentados em cada um dos GTs selecionados, no período especificado. 50 Pesquisa realizada em 09 de julho de 2012, no site http://www.anped.org.br/internas/ver/reunioesanuais. 51 Foram escolhidos os GTs Formação de Professores e Educação e Comunicação por serem aqueles que apresentam mais trabalhos relacionados com a educação a distância. 52 Foi escolhido o período de 2006 a 2012, pois o Decreto 5.622, que rege a educação a distância atualmente é de dezembro de 2005. 87 Tabela 3: Trabalhos apresentados na ANPEd, entre 2006-2012 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Trabalho Completo Pôster Trabalho Completo Pôster Trabalho Completo Pôster Trabalho Completo Pôster Trabalho Completo Pôster Trabalho Completo Pôster Trabalho Completo Pôster GT 08 Formação de Professores GT 16 Educação e Comunicação Total 29 18 47 14 1 15 31 20 51 8 6 14 18 25 43 8 1 9 21 22 43 5 4 9 21 15 36 3 - 3 22 22 44 8 3 11 15 14 29 11 4 15 Fonte: Elaboração da autora, dados extraídos do site da ANPEd 53 A partir da análise da Tabela 3 é possível perceber que houve um considerável número de trabalhos apresentados no evento. Porém, ao analisar a Tabela 4, na qual estão descritos quantos desses trabalhos relacionam-se aos termos “tutor” e/ou “tutoria”, constatei serem poucos. 53 Disponível em: <http://www.anped.org.br/internas/ver/reunioes-anuais>. Acesso em: 09 jul. 2012. 88 Tabela 4: Trabalhos selecionados da ANPEd, entre 2006-2012 GT 08 Formação de Professores GT 16 Educação e Comunicação Total 1 Tutoria - 1 - - 0 - - 0 1 Tutor - 1 - - 0 - - 0 - 1 Tutoria 1 - - 0 - - 0 - - 0 - 1 Tutoria 1 - - 0 - - 0 - 1 Tutor 1 Trabalho 2006 Completo Pôster Trabalho 2007 Completo Pôster Trabalho 2008 Completo Pôster Trabalho 2009 Completo Pôster Trabalho 2010 Completo Pôster Trabalho 2011 Completo Pôster Trabalho 2012 Completo Pôster Fonte: Elaboração da autora O total de artigos completos publicados entre 2006 e 2012 no GT 08, Formação de Professores, foi de 157, sendo que somente um aborda o tema “tutoria”. Já no GT 16, Educação e Comunicação, foram 136 trabalhos completos, com dois abordando o tema “tutoria”. Quando faço referência aos pôsteres apresentados, foram 57 no GT 08, sendo que um aborda o tema “tutor”. Já no GT 16 foram 19 pôsteres, com apenas um abordando o tema “tutor”. O primeiro trabalho é um artigo completo no GT Formação de Professores, de 2006, intitulado “A orientação da prática pedagógica na formação superior de professores em serviço: um estudo sobre o serviço de tutoria”, de Léa S. P. Silva. A autora analisa “qual o significado da intervenção do tutor na prática pedagógica do cursista no que se refere às visitas feitas à sala de aula e se as orientações, dadas por esse tutor, contribuíram para a resignificação da prática do cursista” (SILVA, 2006, p. 1), tendo como foco o Projeto Veredas. 89 O trabalho em 2007 que aborda o tema “tutor” foi apresentado em forma de pôster no GT de Formação de Professores. A autora é Rita de Cássia de Alcântara Braúna, e o artigo denomina-se “Narrativas de professores tutores: a experiência do Projeto Veredas”. Neste trabalho a autora se propõe a “desvelar a produção de saberes pedagógicos e constituição de identidade profissional de professores por meio de narrativas sobre suas experiências no campo de atuação/desenvolvimento profissional” (BRAÚNA, 2007, p. 1). Em 2009 o artigo apresentado no GT de Educação e Comunicação intitulado “Afetividade, aprendizagem e tutoria online”, de Carmen Lúcia de Araújo Paiva Oliveira, discute sobre “a importância da afetividade nos ambientes online, o papel mediador da linguagem e a presença da afetividade nos diálogos que se estabelecem nos fóruns” (OLIVEIRA, 2009, p. 2), onde ressalta o papel do tutor como promotor de um relacionamento afetivo, buscando a aprendizagem colaborativa. O trabalho publicado no GT 16 em 2011 é das autoras Roseli Zen Cerny e Andrea Brandão Lapa, denominado “O professor coletivo na perspectiva do trabalho docente da tutoria”, onde discutem a “atuação do professor em equipe” (CERNY; LAPA, 2011, p. 2) ou como denominaram no decorrer, um professor coletivo. No ano de 2012 temos apenas o texto “Investigando a atividade docente na EaD – percepções de tutores sobre a mediação da aprendizagem colaborativa”, de Elaine dos Reis Soeira. Nesse, a autora faz um “recorte relacionado à mediação da aprendizagem colaborativa, pretende-se investigar de que modo os tutores a distância de uma instituição pública de ensino superior percebem a sua atividade docente” (SOEIRA, 2012, p. 1-2). Outra fonte de pesquisa foram os anais do Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino (Endipe), realizado bianualmente. Nesse, foram investigados os encontros de 2012, 2010, 2008 e 200654. O foco do Endipe é congregar profissionais da área da educação para socializar e debater pesquisas na área da educação em geral. Importante salientar que nesta última edição, em 2012, o Endipe apresentou um subtema específico para a EaD, o que não era realizado nas edições anteriores, onde o tema estava vinculado a comunicação e as tecnologias. Este destaque para 54 Foi escolhido o encontro a partir de 2006, pois o Decreto 5.622, que rege a educação a distância atualmente é de dezembro de 2005. 90 a EaD é importante, de forma que se possa mostrar o que vendo sendo realizado e pesquisado sobre a modalidade nas instituições de ensino pelo país. Em 2012, o XVI Endipe foi realizado na Faculdade de Educação da UNICAMP, em Campinas, SP, de 23 a 26 de julho. O tema geral do encontro foi “Didática e práticas de ensino: compromisso com a escola pública, laica, gratuita e de qualidade”. Neste encontro, foram disponibilizados três Eixos Temáticos para submissão de trabalhos, sendo que em cada um havia subtemas. O Eixo Temático escolhido para fazer a pesquisa foi o 2: Políticas de Formação Inicial e Continuada de professores, com o subtema 2-4: Programas de Formação de Professores a Distância: entre concepções, propostas e experiências. Neste Eixo Temático 2, subtema 2-4, foram apresentados sete paineis, totalizando 21 trabalhos completos. Em relação aos pôsteres, foi um total de 14, sendo que dois apresentam a palavra “tutores” em seus títulos. Não foi feita a leitura destes trabalhos, pois os anais ainda não haviam sido disponibilizados de forma online55. Em 2010, o XV Endipe aconteceu na UFMG, em Belo Horizonte/MG, de 20 a 23 de abril. O tema deste encontro foi “Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais”. Foram publicados seis livros com os artigos dos simposistas, sendo o livro 3 relacionado a EaD, intitulado Avaliação Educacional, Educação a Distância e Tecnologias da Informação e Comunicação, Educação Profissional e Tecnológica, Ensino Superior, Políticas Educacionais56. Neste, a parte II, Educação a distância e tecnologias da informação e comunicação: convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente, apresenta dez artigos, sendo que nenhum deles apresenta o termo “tutor” e/ou “tutoria” em seus títulos. Neste Endipe foram apresentados 28 paineis relacionados ao subtema 6, Educação a Distância e Tecnologias da Informação e Comunicação, com três trabalhos em cada um. Deste total de 84 artigos, somente cinco apresentavam a palavra “tutor(es)” no título e nenhum apresentava a palavra “tutoria”. Em relação aos pôsteres apresentados neste subtema, também foram 84 trabalhos, sendo que quatro apresentaram a palavra “tutor(es)” no título e dois a palavra “tutoria”. Na sequência, faço uma descrição dos cinco trabalhos completos. 55 56 Busca realizada em 15 nov. 2012. Disponível em: <http://www.fae.ufmg.br/endipe/publicacoes.php>. Acesso em: 11 jul. 2012. 91 Dos cinco trabalhos apresentados nos paineis, o primeiro se intitula “Formação de professores/tutores: percepções dos sujeitos quanto ao seu processo formativo”, de Cláudia Valéria Nobre. Neste a autora descreve a experiência de um curso cujo objetivo era capacitar professor/tutores nos aspectos relativos à Educação a Distância e aos Sistemas de Tutoria (NOBRE, 2010). O segundo trabalho é “Contribuições do tutor de sede para as aprendizagens de alunos na educação modalidade a distância”, de Vanice dos Santos e Rosane Aragón de Nevado. As autoras abordam sobre as atribuições do tutor presencial, que se efetivam considerando a pedagogia da pergunta, o pensar crítico e a aprendizagem cooperativa (SANTOS; NEVADO, 2010). O terceiro trabalho é de Mariangela Lenz Ziede e Rosane Aragón de Nevado, “A apropriação tecnológica dos tutores do Curso de Graduação em Pedagogia – Licenciatura na modalidade a distância da Faculdade de Educação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul”. Neste, as autoras relatam como foi à apropriação tecnológica de um grupo de 53 tutores, “no uso de ambientes virtuais e seus recursos como ferramenta de interação, autoria e atividades colaborativas” (ZIEDE; NEVADO, 2010, p. 14). O quarto artigo, “Aprendizagens construídas por tutores de sede que atuam em um Curso de Pedagogia a Distância”, de Simone Bicca Charczuk, aborda as aprendizagens dos tutores da sede, definidas em categorias, sendo uma delas as aprendizagens sobre a própria função de tutor (CHARCZUK, 2010). O último desses cinco artigos é de Filomena M. G. da Silva C. Moita, “Ambiente Virtual de Aprendizagem e o papel de tutor inteligente no aprender e ensinar de conceitos geométricos”. O texto relata o exemplo de uma aplicabilidade dos games no e-learning, “relacionada com o papel do tutor imerso em um ambiente virtual de aprendizagem, utilizando técnicas de inteligência artificial, para ensino de geometria, baseado nos níveis de aprendizagem propostos por Van Hiele” (MOITA, 2010, p. 13). Dos cinco artigos lidos, este último não é foco da pesquisa em questão, a qual busca trabalhar com as questões relacionadas à tutoria de cursos na modalidade a distância. Em 2008 o XIV Endipe foi realizado na PUCRS, em Porto Alegre, RS. O tema geral foi “Trajetórias e Processos de Ensinar e Aprender: lugares, memórias e 92 culturas57”. Neste encontro houve sete subtemas/eixos, sendo que o último era Ensinar e aprender no meio virtual e outras linguagens (Educação a Distância; mídias e tecnologias de informação e comunicação; outras linguagens: artes, literatura, etc). Em relação aos artigos publicados, foram 41 paineis, com três artigos em cada, totalizando 123 trabalhos. Destes, somente um relaciona a palavra “tutor” em seu título. O referido trabalho é “Avaliação de um curso de licenciatura na modalidade a distância: as falas dos alunos e tutores”, de Elisa Maria Quartiero, Roseli Zen Cerny e Sônia Maria Souza Cruz. Neste as autoras trazem o resultado de uma pesquisa avaliativa que discutiu os processos de ensino e aprendizagem do curso de Física na modalidade EaD, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que iniciou as atividades em março de 2006 (QUARTIERO; CERNY; CRUZ, 2008). Em relação aos pôsteres, foram 79 neste eixo, sendo que somente um apresentou a palavra “tutoria”. Este trabalho intitula-se “Analisando o diálogo em um processo de tutoria”, de Luciana Caixeta Barboza e Marcelo Giordan. O texto dos autores aborda a questão das interações discursivas entre um estudante de licenciatura em Química e um aluno do Ensino Médio, mediadas por um sistema de tutoria via Internet, denominado ambiente virtual assíncrono Tutor em Rede. Neste, o acadêmico atua como tutor, respondendo as dúvidas do estudante de nível médio. Na análise, percebeu-se que ambos utilizam uma escrita sensível para promover o diálogo (BARBOZA; GIORDAN, 2008). Em 2006, o XIII Endipe realizou-se na UFPE, em Recife/PE, de 23 a 26 de abril, com o tema “Educação, Questões Pedagógicas e Processos Formativos: compromisso com a inclusão social”. Não consegui o detalhamento sobre os trabalhos do evento, pois os anais não estão disponíveis na internet. Um importante evento na área de Educação a Distância é o Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância (ESUD), realizado anualmente pela Associação Universidade em Rede (UniRede). Fiz a pesquisa em relação aos termos “tutor” e/ou “tutoria” nos últimos três encontros, 2012, 2011 e 2010. Em sua nona edição, em 2012, o evento realizou-se em Recife/PE, de 19 a 21 de agosto e, teve como tema “Educação a Distância: Semeando Cidadania”, apresentando seis áreas temáticas: EaD e Cidadania, Concepções e Práticas 57 Eu tenho os anais do encontro em CD, pois participei do evento. 93 Pedagógicas em EaD, Objetos de Aprendizagem para EaD, Institucionalização e Gestão de EaD, Inovação em TDIC para EaD e Avaliação da Aprendizagem em EaD. Do total de 237 trabalhos, 63 foram apresentações orais e 174 pôsteres. Das apresentações orais, somente um trabalho trazia em seu título as palavras “tutor” e “tutoria” juntas, o que representa 1,6% do total dos trabalhos, índice baixo mesmo num evento específico de EaD. Nos pôsteres, houve 12 trabalhos com a palavra “tutor”, oito com a palavra “tutoria” e um com as palavras “tutor” e “tutoria” juntas, o que representa 12,1% dos trabalhos nesta modalidade. Esta pesquisa foi realizada na página do evento, sem acesso aos trabalhos58. Na oitava edição do ESUD, em 2011, o evento ocorreu em Ouro Preto/MG, de 03 a 05 de outubro, onde o tema foi “A EaD e a transformação da realidade brasileira”, apresentando oito áreas temáticas: EaD e Transformações Sociais, Mediação e Relações Pedagógicas em EaD, Práticas de Formação em EaD, Planejamento e Gestão de EaD, Inovações em TDIC para EaD, Institucionalização da EaD, Avaliação da Aprendizagem em EaD e Avaliação Institucional e de Cursos de EaD59. No total, foram 48 apresentações orais, sendo que uma apresentou a palavra “tutor” e uma a palavra “tutoria”. Em relação aos pôsteres, foram 191, sendo que 11 apresentaram a palavra “tutor(es)” e oito a palavra “tutoria”. No total destes 21 trabalhos, nenhum abordou diretamente a questão dos saberes docentes na atuação do tutor, os trabalhos focaram majoritariamente a questão do papel, competências, funções e atribuições do tutor; depois a prática pedagógica nos cursos de EaD; a interação tutor-alunos pelas ferramentas de comunicação; avaliação do tutor e das disciplinas; o porquê da escolha em ser tutor num curso de EaD e o seu papel como motivador; análise de cursos de capacitação para a tutoria e, ainda, o sistema de tutoria versus o rendimento dos alunos. Na sétima edição do ESUD60, em 2010, o evento ocorreu em Cuiabá/MT, de 03 a 05 de novembro, com o tema “A EaD e sua institucionalização: reflexões e processos”, apresentando sete temas principais: Avaliação da Aprendizagem, 58 Disponível em: <http://www.esud2012.com.br/docs/trabalhos-por-forma-de-apresentacao-esud2012 .pdf>. Acesso em: 15 nov. 2012. 59 Disponível em: <www.esud2011.ufop.br>. Acesso em: 21 ago. 2012. 60 Disponível em: <http://www.nead.ufmt.br/esud/>. Acesso em: 21 ago. 2012. 94 Mediação e Relações Pedagógicas, Práticas de Formação, Gestão, Tecnologias da Informação e da Comunicação, Institucionalização e Avaliação Institucional. Os anais deste encontro não estavam disponíveis na internet, porém pela programação da apresentação dos trabalhos pude fazer uma pesquisa do total de artigos apresentados, sendo 56 apresentações orais, das quais apenas três traziam o termo “tutor(es)”. Desses, “As funções do tutor online”, de Gilmar Pereira Duarte e Jossivaldo de Carvalho Pacheco estava vinculado ao tema Mediação e Relações Pedagógicas. Outros dois trabalhos, “Capacitação de tutores a distância: discutindo competências”, de Mára Lúcia Fernandes Carneiro; Luciana Boff Turchielo e Eliane Brochet e “O caminhar na Formação de Tutores a Distância”, de Edirles Mattje Backes, Gabriel Correia Alves, Naiara Silva de Souza, Taciane Garcez Mauricio e Tadeusa Margarida de Melo, estavam vinculados ao tema Práticas de Formação. Na Educação a Distância tem-se a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), sociedade científica criada em 21 de junho de 1995 por um grupo de educadores interessados em Educação a Distância e em novas tecnologias de aprendizagem, sem fins lucrativos, voltada para o desenvolvimento da educação aberta, flexível e a distância. Seu principal objetivo é incrementar o saber compartilhado em Educação a Distância e a crença de que, tal modalidade educativa já é uma realidade e um paradigma educacional adequado às grandes mudanças deste milênio61. Um dos eventos promovidos pela ABED é o Congresso Internacional ABED de Educação a Distância (CIAED), realizado anualmente, com Qualis B Nacional, onde foram analisados os últimos três eventos. Em 2012, o tema geral foi “Histórias, Analíticas e Pensamento “Aberto”: guias para o futuro da EAD”, o qual aconteceu de 23 a 26 de setembro, em São Luiz/MA. Os anais do evento ainda não estão disponíveis na página 62. Em 2011 o encontro aconteceu em Manaus/AM, de 30 de agosto a 02 de setembro, com o tema “A Grande Conversação: diferentes formas de aprender, conteúdos variados e tecnologias diferenciadas – interação com diversidade”. Neste encontro foram apresentados 45 relatos de experiências (RE) e 93 trabalhos científicos (TC) em sessão oral e 18 relatos de experiência e 19 trabalhos científicos na forma de pôster63. 61 Disponível em: <http://www.abed.org.br/congresso2011/abed.asp>. Acesso em: 22 ago. 2012. Disponível em: <http://www.abed.org.br/congresso2012/>. Acesso em: 15 nov. 2012. 63 Disponível em: <http://www.abed.org.br/congresso2011/abed.asp>. Acesso em: 22 ago. 2012. 62 95 Das apresentações orais, houve somente um RE com o termo “tutoria”, sendo “A utilização de ferramentas de gestão do conhecimento para a construção de um modelo de tutoria em educação a distância”, de Wanderson Gomes de Souza, Celso Augusto dos Santos Gomes e Simone de Paula Teodoro Moreira. Dos TC, um apresenta o termo “tutoria” e três o termo “tutor”. Os trabalhos são: “Tutoria em educação a distância: indicadores para políticas públicas”, de Daniele da Rocha Schneider e Elena Maria Mallmann; “Avaliação do grau de satisfação dos tutores presenciais nos cursos de graduação do Instituto Federal do Espírito Santos – IFES”, de Marize Lyra Silva Passos, José Mário Costa Junior e Danielli Veiga Carneiro Sondermann; “Educação a distância: as novas tecnologias e o papel do tutor na perspectiva da construção do conhecimento”, de Ari Gonçalves Silva, Luci Carlos Andrade e Milene Bartolomei Silva e “O trabalho do professor-tutor nos cursos a distância: um olhar sobre a regulamentação e a organização do trabalho docente em algumas IES públicas de Pernambuco”, de José Severino da Silva. Das apresentações em formato de pôster, somente um TC apresentou o termo “tutor”, sendo “Os processos educativos e o papel do professor tutor na e para comunicação e interação”, de Nara Nörnberg. De todos os trabalhos apresentados, nenhum focou a questão dos saberes docentes relacionados com a prática do tutor. Em 2010, a cidade de Foz do Iguaçu/PR, recebeu o CIAED de 31 de agosto a 03 de setembro. A temática do encontro foi “Conteúdo, Apoio ao Aprendiz e Certificação – Os Ingredientes Centrais para Eficácia na EaD”. Foram apresentados na forma de comunicação oral 135 trabalhos, sendo que destes, dois RE com o termo “tutoria”, seis TC com o termo “tutor”, cinco TC com o termo “tutoria” e um TC contendo ambos os termos. Na sessão de pôsteres foram 35 apresentações, sendo que um RE e dois TC abordaram o termo “tutor” e somente um TC o termo “tutoria”64. Destes 18 trabalhos, um chamou a atenção em especial para a Tese, “Saberes Docentes e Formação Profissional em EaD: Uma pesquisa sobre as características do trabalho docente na EaD, de acordo com a percepção dos tutores do curso de Filosofia a distância da Universidade Estadual do Maranhão”, de Fernando Rodrigues Maffra e Carolline de Souza Botelho. Neste texto os autores buscam analisar a formação da tutoria para o curso de Filosofia, através do ensino a 64 Disponível em: <http://www.abed.org.br/congresso2010/trabalhos.asp>. Acesso em: 22 ago. 2012. 96 distância, “tendo como foco a análise das principais características identificadas pelos próprios tutores como características indispensáveis a formação profissional e trabalho docente em EaD” (MAFFRA; BOTELHO, 2010, p. 7), porém o mesmo não foca os saberes docentes especificamente no texto. Outro evento analisado foi o II Congresso Internacional TIC e Educação – ticEDUCA 2012, o qual adotou o tema “Em direção à educação 2.0”, realizado em Lisboa, Portugal. Apresentou como principais objetivos: Analisar práticas de inovação educativa com as tecnologias desenvolvidas em contextos formais e não formais; Divulgar resultados da investigação no domínio da utilização das tecnologias na educação numa perspectiva de construção de novos problemas e novas linhas de investigação e desenvolvimento; Contribuir para a identificação de domínios e áreas prioritárias de intervenção e de investigação como contributo para o desenvolvimento de agendas de ação com vista à renovação das 65 perspectivas sobre as tecnologias na educação . Este evento estava organizado em cinco eixos: Perspectivas teóricas sobre a utilização das tecnologias para fins educativos; Projetos e práticas de integração curricular das tecnologias; Ambientes virtuais de aprendizagem e habitats digitais; Competências e desenvolvimento profissional de professores, educadores e outros profissionais e E-learning e aplicações educativas emergentes. Em relação ao número de artigos, houve 237 publicações, sendo 64 no primeiro eixo, 57 no segundo, 39 no terceiro, 18 no quarto e 59 no quinto. Somente no último eixo dois trabalhos foram relacionados ao tema “tutor” e/ou “tutoria”, sendo eles: “Modelos de tutoria e a profissionalização do tutor virtual em cursos de pedagogia das instituições de ensino superior parceiras da universidade aberta do Brasil”, de Franscisnaine Oliveira e “Tutoria a distância no curso de licenciatura em educação física a experiência da Universidade Aberta do Brasil na Universidade de Brasília”, de Rosana Amaro. Os pôsteres totalizaram 33 publicações entre os cinco eixos, sendo que somente no último havia um trabalho relacionado ao tema “tutor”, sendo “Reflexões sobre a Formação de Professores Tutores para o Ensino de Teatro à Distância”, de Luzirene do Rego Leite e Kalina Lígia de Almeida Borba. Na Educação a Distância tem-se a Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância (RBAAD), Qualis B4, eletrônica e interativa, trílingue, focada em 65 Disponível em: <http://ticeduca.ie.ul.pt/?page_id=635>. Acesso em: 27 dez. 2012. 97 pesquisa, desenvolvimento e prática da Educação a Distância em todos os níveis educacionais, formais e informais, e em todas as tecnologias disponíveis, publicada pela ABED66. Esta revista, de caráter anual, teve seu primeiro volume publicado em 2002. Desde então, são dez volumes disponíveis no site, totalizando 122 artigos. Destes, somente um apresenta o termo “tutoria” e dois o termo “tutor”. O primeiro artigo denomina-se “Tutoria em EaD on-line: aspectos da comunicação que favorecem a interação sócio-afetiva em comunidades de aprendizagem”, de Rosalva Ieda Vasconcelos Guimarães de Castro e Gina Mattei. Nesse, o objetivo das autoras com o trabalho era “analisar a importância da atuação do tutor em ambiente de Educação a Distância on-line, na perspectiva de incentivar a interação e a interatividade” (CASTRO; MATTEI, 2008, p. 2), onde identificaram as atitudes que favoreceram ou potencializaram a interação sócio-afetiva na aprendizagem. O segundo trabalho, “O professor/tutor e as relações de ensino e aprendizagem na educação a distância”, é de Ana Maria Soek e Sonia Maria Chaves Haracemiv. Nesse, o foco é contextualizar as transformações tecnológicas que vem acontecendo nos últimos anos, discutindo as “relações de ensino/aprendizagem nos processos de educação a distância, especialmente ao que se refere aos aspectos didático-metodológicos” (SOEK; HARACEMIV, 2008, p. 1), a partir da mediação dos tutores presenciais e a distância. O terceiro trabalho, “A importância do tutor presencial na educação a distância”, de Francisléia Giacobbo dos Santos, traz a tona a relevância da atuação da tutoria presencial, e, também, para a sua formação enquanto profissional, a partir de habilidades e competências mais complexas, voltadas para a EaD (SANTOS, 2009). No Banco de Teses da CAPES67 a pesquisa foi realizada utilizando os descritores “tutor” e/ou “tutoria”, primeiro em nível de doutorado. O sistema fez referência a 134 teses, das quais selecionei aquelas que apresentavam pelo menos um dos termos no título. No total, foram 33 trabalhos, sendo que 14 faziam referência ao Sistema Tutor Inteligente, um sistema de computador que fornece instruções diretas personalizadas ou feedback aos alunos, o que não conversa com 66 Disponível em: <http://www.abed.org.br/revistacientifica/_brazilian/>. Acesso em: 23 ago. 2012. Pesquisa realizada no site http://capesdw.capes.gov.br/capesdw/Teses.do, em 31 de agosto de 2012. 67 98 o foco da Tese. Ainda, sete trabalhos não se relacionam ao objeto de estudo, o tutor na Educação a Distância. Assim, apenas 12 teses de fato interessam, sendo que em oito aparece o termo “tutor”, duas o termo “tutoria” e duas ambos os termos. Na segunda busca realizada, com os mesmos termos, porém em nível de mestrado, o sistema referenciou 615 trabalhos. Destes, apenas 175 apresentaram em seus títulos o termo “tutor” ou “tutoria”. Novamente, 68 fizeram referência ao Sistema Tutor Inteligente e 22 não focavam a EaD, logo estes 90 foram descartados. Assim, dos outros 85 trabalhos, 61 apresentavam o termo “tutor” e 24 o termo “tutoria”. No total, então, foram 749 trabalhos analisados pelos títulos, sendo inicialmente selecionados 208 e, depois, relacionados à EaD, foram apenas 97, entre teses e dissertações. Estes 97 trabalhos representam aproximadamente 13% do total das produções referentes ao tema “tutor” e/ou “tutoria”, o que representa um pequeno índice das produções acadêmicas do país relacionadas à Educação a Distância, o que justifica a opção pelo meu objeto de estudo na pesquisa, visto a carência de publicações nesta área científica. Destes 97 trabalhos, chamou-me especial atenção a dissertação “O tutor na formação de professores a distância: saberes que fundamentam a prática tutorial na experiência do Curso de Pedagogia a Distância da UNIRIO”, de Angela Maria Rebel de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, defendida em 2005. Nesta, a autora busca resposta para duas questões: “a) Que saberes fundamentam a prática dos tutores? b) A prática tutorial pode ser considerada como uma prática docente?” (CARVALHO, 2005, p. 10), baseada no conceito de saberes docentes de Tardif. A outra dissertação que me despertou curiosidade a partir das leituras foi “A prática docente em ambientes virtuais de aprendizagem: saberes necessários ao professor-tutor na educação a distância”, de Claudenice de Freitas Souza, da Universidade Federal do Ceará, porém não consegui localizar o texto completo de forma virtual. Como síntese das pesquisas realizadas em revistas e eventos sobre o tema “tutor” e/ou “tutoria” na EaD, apresento a Tabela 5. 99 Tabela 5: Síntese das pesquisas sobre o tema “tutor” e/ou “tutoria” em revistas e eventos Período ou ano Número total de trabalhos Número de trabalhos sobre “tutor” e/ou “tutoria” Data de realização da pesquisa Todo site 218 artigos 0 (zero) 04/07/2012 Todo site ? 1 artigo 04/07/2012 Cadernos de Educação maio-ago/ 2006 a maio-ago/ 2011 227 artigos 0 (zero) 16/07/2012 Anais da ANPEd GT 08 2006 a 2012 (anual) Anais da ANPEd GT 16 2006 a 2012 (anual) 157 trabalhos completos 57 pôsteres 136 trabalhos completos 1 trabalho completo 1 pôster 2 trabalhos completo 19 pôsteres 1 pôster Revista ou evento Revista Brasileira de Educação Revista Educação & Sociedade Anais do Endipe Eixo 2, subtema 2-4 Anais do Endipe Livro 3, parte II Anais do Endipe Subtema 6 Anais do Endipe Subtema 7 Anais do Endipe Anais do ESUD 2012 21 trabalhos completos 09/07/2012 09/07/2012 2 pôsteres 15/11/2012 10 artigos 0 (zero) 11/07/2012 84 artigos 5 artigos 84 pôsteres 6 pôsteres 123 artigos 1 artigo 14 pôsteres 2010 2010 2008 2006 2012 Anais do ESUD 2011 Anais do ESUD 2010 79 pôsteres 1 pôster Ainda não disponíveis na internet 63 1 apresentação apresentações oral orais 174 pôsteres 21 pôsteres 48 apresentações orais 191 pôsteres 56 apresentações orais 2 apresentações orais 19 pôsteres 3 apresentações orais 11/07/2012 12/07/2012 12/07/2012 15/11/2012 21/082012 12/08/2012 100 Anais do CIAED 2012 Anais do CIAED 2011 15/11/2012 22/08/2012 37 pôsteres 1 pôster 135 apresentações orais 35 pôsteres 237 artigos 33 pôsteres 14 apresentações orais 4 pôsteres 2 artigos 1 pôster 2002-2011 122 artigos 3 artigos 23/08/2012 Todo site 134 teses 12 teses 31/08/2012 Todo site 615 dissertações 85 dissertações 31/08/2012 Anais do CIAED 2010 ticEDUCA 2012 Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância Banco de Teses da CAPES Banco de Teses da CAPES Ainda não disponíveis na internet 138 5 apresentações apresentações orais orais 22/08/2012 27/12/2012 Fonte: Elaboração da autora Mesmo a Educação a Distância crescendo de forma exponencial nas instituições de ensino pública e privada, nos mais variados níveis educacionais, trabalhos que façam referência ao sujeito “tutor” dentro desta modalidade de ensino ainda são poucos, conforme se pode observar na Tabela 5. Assim, entendo que urge estudos sobre os tutores que abordem aspectos deste sujeito que não se encontra devidamente reconhecido, ainda, como um profissional da educação. Visando contribuir com esta lacuna, esta pesquisa se deteve especificamente sobre aspectos do seu trabalho. Assim, no próximo capítulo analiso os saberes docentes, na perspectiva dos autores Tardif e Borges, buscando explicitar o que são e quais são os saberes docentes e como estes são adquiridos pelos professores durante sua vida profissional. 101 Capítulo 3: Saberes Docentes. De quem? De onde vem? O saber é sempre de alguém que trabalha alguma coisa no intuito de realizar um objetivo qualquer. Maurice Tardif Escolher trabalhar com os saberes docentes não foi simples, visto a pluralidade e complexidade de sua análise (BORGES; TARDIF, 2001; BORGES, 2004). As dificuldades foram de caráter conceitual e metodológico. Primeiro, porque o próprio conceito de saberes docentes possui controvérsias, visto que o mesmo é trabalhado de diferentes formas por distintos autores, ou seja, dentro do próprio campo de pesquisa sobre os saberes docentes há abordagens diversas para esse assunto (BORGES, 2004; TARDIF, 2010, 2011, 2012; NÓVOA, 1995a; GAUTHIER et al, 2006; PIMENTA, 2009; ENS; VOSGERAU; BEHRENS, 2012; FREIRE, 1996). Borges (2004) argumenta que essa variação ocorre a partir de diferentes perspectivas das ciências humanas e sociais. Segundo, porque, metodologicamente, fazem referência à questão de classificar ou não classificar os saberes docentes, do respeito ao trabalho do professor, de ser uma nova concepção de pesquisa, de considerar o específico. Porém, ao escolher este tema para minha pesquisa, busquei responder a exortação de Donaldo Schön sobre a importância de realizarmos investigações com o foco no saber desenvolvido por profissionais em sua própria prática (BORGES, 2004). Neste caso, a prática dos tutores a distância do CLMD em sua atuação na tutoria. Para Schön (apud BORGES, 2004), esse tipo de pesquisa é importante para revelar aos próprios sujeitos os seus saberes profissionais. Borges (2001; 2004) aborda algumas possíveis classificações para os saberes docentes, mostrando assim a diversidade de enfoques que podem aparecer, tanto relacionados às correntes de pesquisa bem como aos contextos teóricos e metodológicos nos quais estas são desenvolvidas. Este fato acaba sendo o reflexo da expansão deste campo como produtor de conhecimento. A autora apresenta os trabalhos de Lee Schulman (1986), Daniel Martin (1992) e Gauthier et al (1998), os quais fizeram um mapeamento aprofundado da produção das pesquisas que focavam o ensino e o professor, produzindo uma classificação dos trabalhos publicados sobre a profissão docente até o momento, no 102 cenário norte-americano. Esta diversidade reflete a expansão deste campo de pesquisa e ajuda, a partir da organização do mesmo, a perceber onde ainda existem lacunas a serem exploradas. Esses três trabalhos foram desenvolvidos em períodos distintos, sendo influenciados pelo contexto social, científico e político da época, bem como por interesses particulares de cada um dos autores (BORGES, 2001). Shulman inicia seus estudos na década de 80, quando a pesquisa sobre a profissão docente estava constituindo-se. Já os outros dois trabalhos, de Martin e de Gauthier et al, já são da década de 90, momento de expansão das pesquisas sobre os saberes docentes. O estudo de Shulman (1986) é “uma das sínteses mais importantes para o estudo dos saberes docentes”, destaca Borges (2001, p. 62), sendo que a partir desta pesquisa começa a ser considerada a temática dos saberes docentes, ou seja, a existência de saberes específicos dos professores. Das três sínteses apresentadas, a com maior destaque foi a de Shulman (1986). Esta teve como objetivo “mapear os diferentes programas de pesquisa sobre o ensino e suas respectivas abordagens e, também, indicar perspectivas futuras para a pesquisa, considerando as lacunas observadas nos programas anteriores” (BORGES, 2001, p. 62). Deste mapeamento, apresentou cinco programas, a saber: 1º) as pesquisas processo-produto; 2º) o programa Academic learning time; 3º) o programa sobre a cognição dos alunos; 4º) o Classroom ecology; 5º) o programa sobre a cognição dos professores. Ao final, delineia seu próprio programa, identificando conhecimentos que possuem os docentes, classificados em três tipos: o conhecimento da matéria ensinada, o conhecimento pedagógico da matéria e o conhecimento curricular (ibidem). A síntese apresentada por Martin (1992) analisa a pluralidade metodológica, em contexto norte-americano das pesquisas focadas nos professores e seus saberes. Este autor propõe um reagrupamento das pesquisas conforme a natureza dos saberes docentes. Delineia quatro abordagens teórico-metodológicas, sendo: 1º) psico-cognitiva; 2º) subjetiva-interpretativa; 3º) curricular; 4º) profissional. Destas, destaco a última, a abordagem profissional, considerando os professores como “produtores de saberes e que existe um saber que emerge da prática profissional” (BORGES, 2001, p. 68). O trabalho de Gauthier et al (1998) descreve trabalhos norte-americanos sobre o que ficou popular como knowledge base. As investigações pesquisadas 103 centralizam a “natureza dos saberes subjacentes ao ato de ensinar, mais precisamente, os estudos sobre o ensino que buscam identificar e/ou definir um repertório de conhecimento dos docentes” (BORGES, 2001, p. 69). Para o autor e seus colaboradores, existem três paradigmas com os seguintes enfoques: 1º) processo-produto; 2º) cognitivista; 3º) interacionista-subjetivista. Feita a apresentação sucinta das três sínteses propostas por Schulman (1986), Martin (1992) e Gauthier et al (1998), descritas por Borges (2001), percebese diversos autores explorando o tema saberes docentes, com enfoques metodológicos diferentes. Complementando a apresentação desta autora, apresento o trabalho de Nunes (2001), que retrata um panorama da pesquisa no Brasil sobre o tema. Este assunto começa a aparecer nas investigações brasileiras de forma discreta a partir da década de 1990, onde inicia-se o desenvolvimento de pesquisas que, considerando a complexidade da prática pedagógica e dos saberes docentes, buscam resgatar o papel do professor, destacando a importância de se pensar a formação numa abordagem que vá além da acadêmica, envolvendo o desenvolvimento pessoal, profissional e organizacional da profissão docente (NUNES, 2001, p. 28). Para Nóvoa (1995b), o desenvolvimento dos saberes docentes no âmbito internacional traz uma abordagem que dá a voz ao professor, analisando sua trajetória, história de vida, etc., deixando-o como foco central nos estudos e debates, buscando produzir um novo tipo de conhecimento, aproximado da realidade educativa e do quotidiano docente. A influência internacional dos trabalhos de Tardif e Gauthier trouxe inspiração aos pesquisadores brasileiros, os quais começam a considerar “o professor como um profissional que adquire e desenvolve conhecimentos a partir da prática e no confronto com as condições da profissão” (NUNES, 2001, p. 32). Buscando o elo com a Tese, o tutor como sujeito da equipe docente na EaD também adquire e desenvolve diferentes conhecimentos para atender sua função de forma satisfatória, a partir de sua atuação junto aos alunos e aos demais sujeitos envolvidos no processo pedagógico, bem como quando considerada as condições do ‘ser tutor’, uma função docente ainda não reconhecida oficialmente como profissão perante os órgãos competentes, expondo assim a precarização do trabalho docente. 104 Referenciando pesquisas no contexto brasileiro, Nunes (2001) cita as obras de Pimenta (1999), Fiorentini (1998), Guarnieri (1997), Borges (1995) e Caldeira (1995). Não cabe aqui uma descrição detalhada de tais pesquisas, visto não ser foco da Tese. A partir dos artigos de Borges (2001) e Nunes (2001), os quais apresentam uma síntese sobre pesquisas relacionadas aos saberes docentes no contexto internacional e nacional, respectivamente, optei pela escolha de dois autores para aprofundamento teórico. Isto porque o objetivo da Tese não é fazer uma análise comparativa entre diferentes autores nacionais e/ou internacionais, mas sim utilizar a teoria dos saberes docentes, de acordo com determinados autores, para analisar a prática dos tutores e o seu entendimento sobre seus saberes docentes, assim como a recontextualização desses saberes para a atuação na Educação a Distância. Desta forma, optei por valer-me da teoria de Tardif (2010, 2011, 2012) e Borges (2004). Escolhi estes dois autores, já consagrados pela academia, pela proximidade da sua perspectiva sobre o tema dos saberes docentes, sendo que Tardif é um pesquisador reconhecido internacionalmente e Borges é uma pesquisadora brasileira que realizou seu doutorado no contexto brasileiro, apoiada na teoria desenvolvida por Tardif. Desta forma, incluo a visão internacional e posso estudá-la e analisá-la juntamente com o resultado de uma aplicação em contexto nacional. O tema saberes docentes vem ganhando espaço nas pesquisas da academia, tanto internacional como nacionalmente, de acordo com o Dossiê publicado em 2001 pela revista Educação & Sociedade. Esse, intitulado “Os Saberes dos Docentes e sua Formação”, buscou discutir as questões relacionadas ao ensino e a formação docente, como expõem Borges e Tardif (2001), já na apresentação da edição. Como um dos objetivos do Dossiê, os autores procuram destacar “as diferentes abordagens e concepções sobre o saber dos docentes e sua formação, mostrando que essa questão é complexa e que ela pode ser tratada sob diferentes ângulos” (BORGES; TARDIF, 2001, p. 18). Tardif (2010) argumenta que hoje em dia ainda não é fácil responder o que vem a ser os saberes dos professores. Justifica o fato por três razões importantes. Primeiro, porque o campo de pesquisa sobre o assunto é muito dividido, abarcando diversas disciplinas e teorias, que não puderam ser integradas em torno de uma 105 visão comum do saber profissional. Alega que as numerosas correntes de pesquisa apresentam os saberes como representações mentais, crenças particulares, regras tácitas de ação, argumentos práticos, competências, saberes da ação, entre outros. Segundo, que os saberes docentes vêm interligados às demais dimensões do trabalho dos professores, a saber, “formação, desenvolvimento profissional, identidade, carreira, condições de trabalho, tensões e questões socioeducativas que marcam a profissão, características das instituições escolares onde trabalham os professores, conteúdos dos programas” (TARDIF, 2010) entre outros. O terceiro ponto refere-se ao fato que de as questões normativas e epistemológicas não são totalmente separáveis. Sendo assim, os saberes “são integrados às práticas docentes cotidianas as quais são amplamente sobredeterminadas por questões normativas e até mesmo éticas e políticas” (ibidem). Contudo, apesar dessas três observações, o autor argumenta que há mais de três décadas as diversificadas pesquisas vêm mostrando alguns pontos importantes, destacando quatro deles: primeiro, os saberes dos professores são enraizados no seu trabalho e na sua experiência de vida; segundo, estes saberes estão fundamentados em sua experiência de vida no trabalho; terceiro, os saberes são caracterizados pelo contexto de interação com os estudantes, assim, são saberes com interações humanas, marcados por essa interação; quarto e último, os saberes também dependem do contexto socioeducativo e institucional no qual a sua profissão está inserida. Sendo assim, “os saberes dos professores são saberes em debate” (TARDIF, 2010). A partir do exposto, o próprio autor destaca a centralidade ainda vigente sobre o assunto dos saberes docentes no meio acadêmico e nas pesquisas, bem como na própria profissão docente. Assim, trouxe para a minha Tese essa discussão, utilizando os conceitos deste autor e de Borges (2004) para um diálogo com a Educação a Distância, a partir das análises realizadas. Caracterizando os autores escolhidos, Tardif é filósofo e sociólogo de formação, sendo um pesquisador canadense reconhecido internacionalmente por suas obras, as quais foram traduzidas e publicadas em diversos países. É professor titular na Universidade de Montreal e participa de pesquisas relacionadas à profissão 106 docente, sendo membro ativo de grupos, comissões e associações brasileiras sobre o tema (TARDIF, 2011). Sua obra “Saberes Docentes e Formação Profissional”, de 2002, está na 12ª edição, o que confere credibilidade à teoria que desenvolveu e ainda desenvolve sobre o tema. Assim, apresento uma discussão inicial sobre os saberes dos professores referenciando este trabalho. Tardif (2011) argumenta que, a partir dos estudos desenvolvidos por ele e seus colaboradores, a noção de saber é ampla, refletida a partir da fala dos próprios sujeitos docentes. O saber engloba “os conhecimentos, as competências, as habilidades (ou aptidões) e as atitudes dos docentes, ou seja, aquilo que foi muitas vezes chamado de saber, de saber-fazer e de saber ser” (ibidem, p. 60). É importante destacar no contexto desta pesquisa o que se entende por docência. Assim, o termo docência é compreendido “como uma forma particular de trabalho sobre o humano, ou seja, uma atividade em que o trabalhador se dedica ao seu ‘objeto’ de trabalho, que é justamente um outro ser humano, no modo fundamental da interação humana” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 8). Esta interação no trabalho docente repercute sobre o próprio professor e na constituição de seus conhecimentos, sua identidade e sua experiência profissional. Ao refletir sobre o tema saberes docentes, diversos questionamentos surgiram: quais são os saberes que os professores precisam mobilizar diariamente em sala de aula ou no espaço pedagógico que atuam a fim de realizarem suas atividades? Qual é a natureza e a origem desses saberes? Em que espaços e tempos são mobilizados, construídos e/ou adquiridos? Como eles influenciam a prática educativa? Específico à Tese, quais são os saberes docentes dos tutores, membros da equipe docente na EaD? Como os tutores percebem e definem os seus saberes docentes? Como estes são mobilizados, construídos, adquiridos e/ou adaptados (recontextualizados) para a atuação na modalidade a distância? Tardif (2011) expõe sobre os saberes docentes considerando duas importantes vertentes: o saber dos professores em seu trabalho e em sua formação. Para o autor, não se pode estudar o saber docente sem relacioná-lo com os condicionantes e com o contexto onde os profissionais do ensino estão inseridos. Desta forma, os saberes só têm ou adquirem sentido na sua relação com o trabalho dos professores. O saber docente é um saber sobre o trabalho, para o trabalho e 107 que vem do trabalho. Até mesmo aqueles saberes adquiridos em tempos e espaços anteriores à prática profissional só passam a ter significado quando se encontram, se defrontam com as necessidades profissionais dos professores. O saber não é uma coisa que flutua no espaço: o saber dos professores é o 68 saber deles e está relacionado com a pessoa e a identidade deles , com a experiência de vida e com a sua história profissional, com as suas relações com os alunos em sala de aula e com os outros atores escolares na escola (TARDIF, 2011, p. 11). Para ilustrar, abaixo apresento a Figura 27, onde se tem uma visão geral da ideia defendida pelo autor sobre os saberes docentes. Figura 27: Saberes Docentes Fonte: Elaboração da autora, baseado em Tardif (2011) Tardif (2011) expõe que os saberes docentes são sociais, contextualizados e individuais, dando margem a uma ampla discussão sobre o assunto e enfatizando o cuidado que se deve ter com o mentalismo e o sociologismo. Os saberes docentes são sociais, pois são adquiridos no contexto de socialização profissional, ou seja, ao longo de sua carreira o professor vai construindo progressivamente esses saberes, como conhecer o ambiente de trabalho ao passo que nele se insere e o interioriza para a ação docente. São sociais também, pois são partilhados por um grupo de agentes que pertencem ao mesmo núcleo no ambiente escolar, os professores, os quais têm uma formação inicial comum em cada área específica, podendo variar de acordo com os níveis ou graus de ensino. 68 Grifo no original. 108 A legitimação dos saberes docentes por sistemas também lhe confere o caráter social, pois “um professor nunca define sozinho e em si mesmo o seu próprio saber profissional” (TARDIF, 2011, p. 12). Este vem pela negociação em distintos momentos com diferentes grupos, pois o que um professor deve saber ensinar, acima de tudo, é um conhecimento construído e valorizado socialmente, legitimado pelo grupo que o construiu, sendo função da escola perpetuá-lo. Cabe ressaltar que neste sentido a modalidade a distância atua de forma análoga, pois os conhecimentos a serem ensinados são pensados e discutidos por uma equipe docente. No CLMD, pontualmente, este grupo de profissionais é chamado de Equipe de Planejamento e, num momento posterior, Equipe de Execução, relacionado aos eixos temáticos do currículo vigente, conforme relatado na seção 2.2. Os saberes docentes são sociais, pois os seus objetos de trabalho são objetos sociais que estão inter-relacionados mediante relações complexas. O professor ao trabalhar com os alunos tem um objetivo, educá-los, pois “ensinar é agir com outros seres humanos” (ibidem, p. 13), ninguém ensina algo a um ser inanimado. Deste modo, os alunos fazem parte do processo de construção dos saberes dos professores, pois é também na relação com eles que este professor aprende a sua profissão. A evolução dos conteúdos e conceitos assim como do saber ensinar também fazem os saberes docentes serem sociais, pois esta evolução advém de características sociais, sendo que algo pode ser bom hoje e já não ser tão bom amanhã. Isso é fácil de ser percebido quando nos referimos à alimentação: hoje determinado alimento é ótimo para a saúde e, em seguida, transforma-se num vilão, após a descoberta de alguma característica que até então havia passado despercebida69. Desta forma, considerando os saberes docentes como sociais, procura-se evitar o mentalismo, que tende a reduzir os saberes a processos mentais do próprio indivíduo, sua atividade cognitiva, como representações, crenças e esquemas, por exemplo. Sobre este assunto, Borges (2001) expõe em seu artigo que Shulman, ao fazer o mapeamento sobre os diferentes programas de ensino e as abordagens de cada um, identificou cinco programas, sendo que o último refere-se exatamente a cognição dos professores, o qual busca examinar os pensamentos dos docentes 69 Exemplos como o consumo do café, do ovo e do chocolate na dieta alimentar. Disponível em <http://doutoraliliane.com.br/blog/?tag=pratica-ortomolecular&paged=2>. Acesso em: 16 ago. 2012. 109 relacionados às suas próprias ações, baseado na psicologia cognitiva de Piaget. O foco é estudar o processo de aprendizagem da profissão como um processo que é biológico, pela modificação das estruturas mentais dos professores. Na Figura 27, igualmente é apontado que os saberes docentes são contextualizados, evitando o sociologismo, que busca a eliminação das contribuições dos sujeitos envolvidos no processo de educação, tratando-o somente “como uma produção social em si mesmo e por si mesmo, produção essa independente dos contextos de trabalho dos professores” (TARDIF, 2011, p. 14). Tardif e Lessard (2011) abordam a importância do trabalho interativo na docência, tanto que escreveram uma obra relacionada ao tema, ou seja, defender que a atividade profissional dos professores é uma atividade de relações e interações humanas e que estas relações e interações são pautadas por um espaço específico, que é a escola. Ao longo dos capítulos do livro eles vão analisando como o espaço escolar e as atividades desenvolvidas pelos professores e demais agentes deste espaço possibilitam a construção profissional de suas carreiras. Os autores consideram alguns focos de análise como a escola enquanto espaço social, as estruturas burocráticas que fazem parte do cotidiano escolar, a carga de trabalho e a jornada dos professores e, os fins do trabalho docente. Por último, na figura supracitada, os saberes docentes tem a característica pessoal, pois dependem diretamente da história de vida de cada sujeito, sua formação inicial e continuada, sua identidade e personalidade, a forma como se relacionam com os demais atores no âmbito educacional e com a trajetória profissional que vão construindo durante os anos de atuação docente. É importante salientar os saberes adquiridos em contextos pré-profissionais, como a influência da família, as experiências escolares enquanto aluno, os valores e princípios aprendidos pelo professor em sua educação, a construção do caráter e princípio éticos, entre outros. Desta figura anterior, pode-se perceber que estudar os saberes docentes nos remete a vários focos de análise, considerando o professor como um ser completo e complexo, porém em constante formação. Nesta Tese referi-me ao tutor, um dos sujeitos envolvidos na constituição da docência na Educação a Distância. Assim, é importante destacar que Um saber é sempre ligado a uma situação de trabalho com outros (alunos, colegas, pais, etc.), um saber ancorado numa tarefa complexa (ensinar), 110 situado num espaço de trabalho (a sala de aula, a escola), enraizado numa instituição e numa sociedade (TARDIF, 2011, p. 15). Fazendo um paralelo à fala de Tardif, o saber do tutor a distância está ligado a uma situação de trabalho com outros (alunos, professores pesquisadores, professores efetivos, tutor presencial, coordenações, secretaria, equipe de TI), um saber ancorado numa tarefa complexa (mediar/auxiliar no processo de ensinoaprendizagem), situado num espaço de trabalho virtual (AVA, chats), enraizado numa instituição (IPES, vinculada a UAB) e numa sociedade contemporânea complexa. Tardif (2011) então propõe seis fios condutores que procuram situar os saberes do professor entre a perspectiva individual e social, entre o sujeito e o sistema no qual atua. Esses fios estão apresentados na Figura 28. Figura 28: Fios condutores dos saberes docentes Fonte: Elaboração da autora, baseado em Tardif (2011) O primeiro fio, saber e trabalho, supõe que o professor está imerso em seu ambiente profissional, a escola e a sala de aula, sendo que precisa utilizar diferentes saberes, porém esta utilização não é livre, ao acaso, mas focada nas condições e circunstâncias que este trabalho será desenvolvido e nos objetivos que se pretende alcançar, ela é intencional. Pode-se dizer que “o saber está a serviço do trabalho” 111 (TARDIF, 2011, p. 17), relacionando o saber ao docente e a sua docência, trazendo neste saber as marcas da ação, pois ele é produzido e moldado no e pelo trabalho. O segundo, diversidade do saber, faz referência a diversificados pontos relacionados ao seu saber, como o seu próprio conhecimento e ao seu saber ensinar, aos programas e currículos, bem como os livros didáticos que lhe são disponibilizados, a experiência adquirida com a prática cotidiana e a formação inicial e continuada. “O saber dos professores é plural, compósito, heterogêneo, porque envolve, no próprio exercício do trabalho, conhecimentos e um saber-fazer bastante diversos, provenientes de fontes variadas” (ibidem, p. 18). O terceiro, temporalidade do saber, refere-se à aquisição desses saberes ao longo do tempo, na própria história de vida de cada docente, bem como no período de sua formação inicial e na prática profissional cotidiana. Como argumenta o autor, para ensinar é preciso aprender a ensinar, e isso só acontece com o tempo, com a experiência docente. A experiência de trabalho enquanto fundamento do saber, o quarto fio, mostra que nem todos os saberes são considerados da mesma forma pelos docentes quando da prática. Alguns são privilegiados, pois os professores percebem que tem uma utilidade mais acentuada, desta forma, são hierarquizados em relação a suas funções no ensino. O quinto fio, saberes humanos a respeito de seres humanos, foca o trabalho docente como interativo. Desta forma, o autor fala que toda a ação docente é mediada pela interação com outros seres humanos, alunos e demais membros da equipe e da comunidade escolar. Assim, os saberes docentes possuem características dessas interações humanas, ou seja, “dos poderes e regras mobilizados pelos atores sociais na interação concreta” (TARDIF, 2011, p. 22). No último, saberes e formação de professores, Tardif (2011) expõe sua preocupação de se repensar a formação docente, onde se devem considerar os saberes já adquiridos por esses profissionais, bem como a realidade do ambiente de trabalho no qual serão inseridos futuramente. Ainda, como aproximar os saberes produzidos no meio acadêmico das universidades com aqueles saberes desenvolvidos pelos docentes na sua prática em sala de aula. Sobre este problema de aproximação entre os saberes produzidos na academia e a atuação docente no dia a dia, Tardif (2011) comenta que na América 112 do Norte é recorrente a discussão sobre tal, de forma que os professores universitários canadenses e americanos fizeram um balanço assustador, indicando um conservadorismo relacionado às Faculdades de Educação, citando apenas os problemas de natureza epistemológica. Estes problemas referem-se ao modelo aplicacionista de ensino, ou seja, por determinado tempo os acadêmicos assistem aulas de forma disciplinar e, posteriormente, aplicam aquilo que estudaram em algumas turmas, geralmente no período dos estágios. Porém, após concluírem o curso e assumirem o ofício na prática, percebem que somente na ação cotidiana é que conseguem construir de fato sua docência, muitas vezes não aplicando os tantos conhecimentos abordados no curso. O modelo aplicacionista, segundo Tardif (2011), também é um modelo institucionalizado por meio do sistema de práticas e de carreiras universitárias, sendo que nela a pesquisa, a formação e a prática são três polos separados de atuação. Os pesquisadores das instituições produzem o conhecimento, que são assumidos pelos formadores e transmitidos aos acadêmicos no momento de formação, os quais são, finalmente, aplicados pelos novos professores na prática de sala de aula. Assim, “cada um desses grupos de agentes é submetido a exigências e a trajetórias profissionais conforme os tipos de carreiras em jogo” (TARDIF, 2011, p. 271). Deste modelo emanam diferentes problemas, sendo que Tardif (2011) cita apenas dois: a estrutura disciplinar e não centrada na lógica profissional do professor, através de suas tarefas e contexto de trabalho e, segundo, que os alunos são vistos como “espíritos virgens”, não sendo levado em consideração suas crenças e seus conhecimentos prévios. Na sequência o autor expõe possibilidades promissoras e campo de trabalho aos pesquisadores universitários, a partir de quatro tarefas. A primeira refere-se à criação de um repertório de conhecimentos para o ensino baseado no estudo dos saberes profissionais dos professores a partir de sua prática cotidiana, na forma como esses são utilizados e mobilizados na ação docente. A segunda refere-se à inclusão de dispositivos úteis e conexos para a prática dos professores em sala de aula. A terceira, ainda considerada utópica, refere-se à quebra da estrutura disciplinar nos cursos de formação profissional dentro das instituições e, por último, 113 que os pesquisadores universitários façam pesquisas sobre sua própria atuação docente, sobre suas práticas de ensino. Desta forma Tardif (2011) argumenta o quão importante é buscar esta aproximação entre a teoria estudada na formação e a prática em sala de aula. Retomando, o autor fala dos saberes docentes considerando duas vertentes: o saber dos professores em seu trabalho e em sua formação. Decompõe, então, este saber advindo de várias fontes. Ele expõe sobre os saberes disciplinares, curriculares, profissionais e experienciais (TARDIF, 2011), que na visão de Borges (2004) é uma proposta de um modelo de análise que se baseia na origem social dos saberes. Figura 29: Saberes docentes na prática docente Fonte: Elaboração da autora, baseado em Tardif (2011) Os saberes disciplinares fazem referência aos saberes relacionados aos diversos campos de conhecimentos constituídos hoje em nossa sociedade. Nas universidades, normalmente aparecem na forma de disciplinas ou blocos temáticos, elucidando determinado conjunto de conceitos numa respectiva área. Por exemplo, as disciplinas voltadas para a Matemática, como Cálculo ou Álgebra, salientando que estas são transmitidas sem dialogarem com a Faculdade de Educação e os cursos de formação docente, na maioria das vezes. Os saberes curriculares, por sua vez, focam os discursos da instituição escolar, bem como seus objetivos, conteúdos e métodos. Conforme esta 114 organização é que a escola transmite os valores que julga necessários à sociedade em geral, de acordo com o planejamento escolar, em forma de programas a serem aprendidos e aplicados pelos docentes. Os saberes de formação profissional, também chamados de saberes pedagógicos, são os saberes das ciências da educação e da ideologia pedagógica, sendo chamado de “o conjunto de saberes transmitidos pelas instituições de formação de professores” (TARDIF, 2011, p. 36), seja na formação inicial ou continuada. Os saberes pedagógicos apresentam-se como doutrinas ou concepções provenientes de reflexões sobre a prática educativa no sentido amplo do termo, reflexões racionais e normativas que conduzem a sistemas mais ou menos coerentes de representação e de orientação da atividade educativa (ibidem, p. 37). Ainda, os saberes experienciais, que são saberes específicos desenvolvidos pelos professores em seu trabalho diário, na execução de suas funções e no conhecimento de seu espaço de atuação. São saberes que nascem com a experiência e por ela são corroborados, incorporados à prática no formato de habilidades e habitus. Saberes experienciais são “o conjunto de saberes atualizados, adquiridos e necessários no âmbito da prática da profissão docente e que não provêm das instituições de formação nem dos currículos” (TARDIF, 2011, p. 48-49). Borges (2012) também corrobora com esta ideia, afirmando que se os saberes da prática profissional são essenciais, devem estes ser estudados paralelamente aos saberes acadêmicos. Na relação hierárquica que os professores estabelecem entre seus saberes, normalmente os saberes experienciais ganham lugar de destaque, sendo os únicos produzidos pelos professores como classe profissional. Tardif (2011) salienta, ao final do capítulo dois de sua obra, algumas características desse saber experiencial, sendo elas: este é um saber ligado aos encargos dos docentes, é um saber prático, interativo, sincrético e plural, heterogêneo, complexo e não analítico, aberto e permeável, personalizado, existencial, pouco formalizado, temporal e social. Segundo o autor, essas características delineiam uma epistemologia da prática docente, correspondente a de um trabalho que tem como objeto o ser humano e cujo processo de realização é fundamentalmente interativo, chamando assim o trabalhador a apresentar-se “pessoalmente” com tudo o que ele é, com sua história e sua personalidade, seus recursos e seus limites (ibidem, p. 111). 115 Tardif (2012) argumenta que toda a atividade humana mobiliza dimensões cognitivas e praxiológicas, ou seja, “o ser humano age ao mesmo tempo em que pensa, e pensa ao mesmo tempo em que age” (p. 29), elaborando assim os saberes da sua ação, que são a ela incorporados, servindo como guias, reguladores, realizadores e transformadores desta mesma ação. Neste mesmo texto o autor fala que a experiência é a “fonte pessoal primeira de produção de seu saber profissional e de validação de sua competência” (TARDIF, 2012, p. 35). Neste lugar cotidiano de trabalho o professor, por tentativa e erros, vai ajustando as situações de ensino e aprendizagem, adquirindo uma bagagem de situações corriqueiras e inusitadas. Aprende seu trabalho em meio às interações humanas, complexas, pois seus sujeitos são outros seres humanos, onde, desta forma, sua personalidade torna-se um elemento fundamental na relação. Ainda, vai constituindo sua identidade docente pelo fazer contínuo, dia após dia, ano após ano, com variadas turmas e, muitas vezes, ambientes escolares. Conclui dizendo que uma formação que não considere o saber das experiências docentes é uma formação de má qualidade. Maurice Tardif propõe, então, um modelo tipológico, apresentado na Tabela 6, para identificar e classificar os saberes docentes considerando as especificidades de sua origem, aquisição e incorporação à prática profissional dos professores. Tabela 6: Os saberes dos professores Saberes dos professores Fontes sociais de aquisição Modos de integração no trabalho docente Saberes pessoais dos professores A família, o ambiente de vida, a educação no sentido lato, etc. Pela história de vida e pela socialização primária Saberes provenientes da formação escolar anterior A escola primária e secundária, os estudos pós-secundários não especializados, etc. Pela formação e pela socialização préprofissionais Saberes provenientes da formação profissional para o magistério Os estabelecimentos de formação de professores, os estágios, os cursos de reciclagem, etc. Pela formação e pela socialização profissionais nas instituições de formação de professores 116 Saberes provenientes dos programas e livros didáticos usados no trabalho A utilização das “ferramentas” dos professores: programas, livros didáticos, cadernos de exercícios, fichas, etc. Saberes provenientes de sua própria experiência na profissão, na sala de aula e na escola A prática do ofício na Pela prática do trabalho escola e na sala de aula, e pela socialização a experiência dos pares, profissional etc. Pela utilização das “ferramentas” de trabalho, sua adaptação às tarefas Fonte: Tardif, 2011, p. 63 Neste quadro descreve os saberes que acredita serem utilizados pelos docentes na sua atividade profissional e que, assim, interferem na sua ação cotidiana. Faz referência aos saberes que estão vinculados a atividade profissional do professor, sendo esses os saberes da formação profissional, os saberes da experiência e os saberes pessoais. E, ainda, aos saberes que podem ser definidos como instrumentais, relacionados ao fazer, como exemplo, os saberes provenientes dos programas e livros didáticos usados no trabalho. Quando faz referência às fontes sociais de aquisição, Tardif (2011) busca explanar que é importante considerar o lugar do presente e do passado na aquisição do conhecimento e dos saberes, considerando fundamentalmente a história de vida de cada um, incluindo o contexto familiar, bem como a trajetória de formação inicial e continuada, além da trajetória escolar pré-profissional. Tudo isso é importante na formação da identidade profissional, o que elucida a característica temporal a ser considerada quando se estuda os saberes docentes. O autor ainda argumenta que o modo de integração dos saberes à prática profissional dos professores, na maioria dos casos, advém de processos de socialização, seja esta pré-profissional ou profissional. Procura clarificar que o professor não constroi os seus saberes somente de forma isolada. De acordo com Tardif (2011), é importante ressaltar que os docentes de fato utilizam todos esses saberes em seu contexto de atuação. Seu argumento para esta estrutura é que uma classificação para os saberes dos professores só pode ser legítima se considerar as suas fontes de aquisição e o modo como estes são incorporados ao trabalho do professor. 117 A atuação como tutor é também uma forma de incorporação desses saberes à prática do professor, pois se ele recontextualiza seus saberes docentes a partir dessa atuação é porque está havendo essa modificação e resignificação. Pensando sobre o trabalho docente, é interessante salientar como Tardif e Levasseur (2011) definem trabalho educativo, sendo este o conjunto das tarefas e funções realizadas pela totalidade dos agentes da educação – incluídos sem dúvida os docentes – que contribui, segunda as diversas modalidades e finalidades, na realização do processo atual de escolarização, em estreita interação com os alunos (p. 12). A partir dessa definição os autores exploram a função dos novos ofícios educacionais bem como as novas categorias de agentes educativos que emergiram no âmbito escolar, de forma que analisaram como estas interferem na organização da escola. Percebi um link com a pesquisa realizada, visto que na Educação a Distância o professor não atua sozinho, como é (ou era) no ensino presencial, mas junto a si tem um grupo de sujeitos, os quais constituem a polidocência, definida por Mill (2006, 2010, 2012). Desta forma, cada vez mais aparecem divisões no trabalho docente exercido por esse grupo de sujeitos e propriamente pelo professor. Buscando complementar a proposta teórica de Tardif (2011), pesquisei alguns trabalhos sobre os saberes docentes que pudessem, de alguma forma, trazer a tona as questões relacionadas à EaD. Percebi que, os autores que de alguma forma já se aventuraram em discutir os saberes docentes nesta modalidade de ensino citam como uma das bases a teoria dos saberes docentes proposta por este autor (OLIVEIRA; MILL; RIBEIRO, 2009; FORTES, 2011; OLIVEIRA, 2007; OLIVERA, SOBRINHO, 2010). A ideia é que os saberes docentes mobilizados, adquiridos e/ou construídos no ensino presencial sejam o alicerce para a docência na EaD, porém não são suficientes. Alguns apontamentos já aparecem em relação a questões como domínio das TIC, gestão do tempo e capacidade de trabalhar em equipe. As considerações propostas pelos sujeitos dessa pesquisa, os tutores virtuais do CLMD, foram descritas no Capítulo 6. A outra autora considerada na Tese é Cecília Maria Ferreira Borges, pesquisadora brasileira sobre os saberes docentes. Ela é atualmente professora na Universidade de Montreal, no Departamento de Psicopedagogia e Andragogia da Faculdade de Ciências da Educação, licenciada em Educação Física e possui 118 mestrado e doutorado em Educação. O seu foco de interesse é pela problemática dos saberes, do trabalho e da formação dos docentes, sendo que suas pesquisas abordam principalmente a formação inicial, os saberes e o trabalho dos docentes e, as práticas pedagógicas dos professores70. Borges, apoiada na teoria de Tardif entre outros autores, argumenta em sua obra “O professor da escola básica e seus saberes profissionais”, resultante de sua tese de doutoramento, que o foco do trabalho desenvolvido foi ver o que os docentes falavam a respeito dos seus saberes, tanto na formação como no seu trabalho cotidiano, a partir de três eixos de análise (BORGES, 2004). No primeiro eixo Borges investigou a aprendizagem do trabalho docente, e a relação entre os diferentes componentes, disciplinares, pedagógicos e práticos, que estão presentes na formação do professor de ensino fundamental, anos finais. O eixo seguinte abordou os saberes na base do ensino, os quais foram apontados pelos docentes como fundamentais, a partir da formação e da prática. O terceiro e último eixo explorou o trabalho curricular, focando a relação entre os componentes disciplinares e a atividade do professor, no mesmo contexto de ensino fundamental. Inicialmente, ao fazer um apanhado sobre os diferentes tipos de pesquisas sobre os saberes, a formação e o trabalho docente, a autora cita que para estudar os saberes docentes é indispensável considerar as interações do professor no seu espaço de trabalho diário, por isso coloca que a sala de aula é parte fundamental nas análises sobre o assunto, sendo lugar privilegiado para a construção dos saberes e da identidade docente (BORGES, 2004; 2012). Salienta, ainda, a temporalidade do saber, argumentando que muitos docentes deparam-se com uma realidade na prática, ao assumirem uma sala de aula, realidade esta distinta muitas vezes daquela contemplada na academia. E, somente com o tempo, com a prática cotidiana, é que vão adquirindo experiência e segurança em seu fazer docente. “A prática é ela mesma vista como um espaço de edificação de saberes e competências” (BORGES, 2004, p. 35). A obra de Borges está fundamentada especialmente nos trabalhos de Tardif e Shulman, os quais dialogam de forma ampla com a problemática dos saberes, defendendo a ideia de que esses saberes docentes são plurais e amalgamados, ou seja, uma mistura de elementos diversos. Ainda, em sentido amplo, Tardif (2011) 70 Texto adaptado de http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=E857366. 119 fala que os saberes docentes referem-se também aos conhecimentos, às competências, às habilidades ou às aptidões e às atitudes dos professores. Logo, ensinar, na visão de Tardif, é “mobilizar uma grande variedade de conhecimentos compostos, reinventando-os no trabalho, para adaptá-los e transformá-los para e pelo trabalho” (BORGES, 2004, p. 69). Tardif, como expõe Borges, centraliza sua análise na categoria do trabalho no âmbito de ensino, logo põem em evidência os saberes que se constroem com a experiência, além dos saberes proposicionais, disciplinares e científicos. Assim, mostra “como o saber do professor é marcado e influenciado não só por outros saberes mas, também, por um processo de reformulação, reapropriação da informação (conhecimento, saberes)” (BORGES, 2004, p. 77) que vão além das formas tradicionais de transmissão e aplicação dos conhecimentos. Neste sentido é que a teoria de Basil Bernstein dialoga com a questão dos saberes docentes, pois essa reformulação, reapropriação da informação é considerada como a recontextualização dos saberes para Bernstein. Essa recontextualização dos saberes docentes na perspectiva dos sujeitos tutores foi o foco da minha Tese, buscando elucidar como e quando isso acontece. Borges (2004) ainda argumenta a importância de estudar os saberes considerando-os na experiência individual e coletiva de cada docente. Individual, pois considera elementos particulares de cada sujeito, como suas crenças, valores, história de vida, personalidade, percepção de mundo, entre outros. Coletivo, pois este sujeito está inserido num contexto, num ambiente escolar, onde partilha com outros colegas docentes os saberes ali construídos. Em relação à temporalidade do saber, Borges menciona que estes saberes sofrem transformações no decorrer da carreira docente, caracterizada por fases, de acordo com Tardif (2011). Os professores novatos geralmente fazem um alto investimento em suas carreiras, que com o passar dos anos se estabiliza e, ao final da carreira, pode sofrer um desinvestimento, acompanhada ou não de um sentimento amargo ou sereno. Os saberes docentes ainda são considerados como relacionais, ou seja, “são frutos das interações produzidas pelo docente no seu trabalho e em decorrência da sua atividade profissional” (BORGES, 2004, p. 86), pois o objeto de trabalho do professor são seres humanos. “A relação de inúmeros professores com 120 os alunos e com a profissão é, antes de tudo, uma relação afetiva” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 151). Como consequências, o docente precisa considerar a individualidade de cada aluno ao passo que trabalha com a coletividade, precisa se adaptar as questões éticas e emocionais envolvidas no lecionar e, ainda, por ser a docência um trabalho interativo, precisa desenvolver diferentes qualidades, como paciência, tolerância e capacidade de negociação. A análise dos depoimentos apresentados por Borges (2004) traduzem um diálogo rico entre os sujeitos que atuam na escola, os professores, e a teoria que se tem sobre os saberes docentes, fazendo um entrelaçar de fios interessante. Pela escrita da autora, percebe-se sua afinidade com as ideias de Tardif, visto ser este um dos autores referenciados por ela. Este é o motivo de ter escolhido estes dois pesquisadores para dialogarem sobre os saberes docentes em meu trabalho. A partir de suas considerações realizei a análise da fala dos sujeitos e busquei entender como que eles fazem essa recontextualização dos saberes docentes do ensino presencial para a Educação a Distância. No próximo capítulo trouxe uma discussão sobre a teoria de Basil Bernstein, apresentando alguns dos conceitos desenvolvidos pelo autor, como código, classificação e enquadramento e o dispositivo pedagógico. Este último utilizado como referencial teórico na Tese, a partir das regras que o constituem: regras distributivas, recontextualizadoras e avaliativas. Neste capítulo já apresento alguns resultados da análise feita, com inserções da fala dos sujeitos da pesquisa. 121 Capítulo 4: Dialogando com Basil Bernstein, trazendo os sujeitos tutores para a conversa O discurso pedagógico é um princípio para apropriar outros discursos e colocá-los numa relação mútua especial, com vistas à sua transmissão e aquisição seletivas. Basil Bernstein A teoria de Bernstein é rica e profunda, podendo ser explorada sobre dois aspectos, conceitual e metodológico, visto seu poder de diagnosticar, descrever, explicar, prever e transferir (MORAIS; NEVES, 2001; MORAIS; NEVES, 2009). Neste capítulo apresento uma reflexão sobre as contribuições deste sociólogo da educação relacionadas à pesquisa, trazendo para a discussão alguns de seus conceitos, visto que seu modelo teórico é proposto para analisar as relações pedagógicas em geral (LEITE, 2007). Basil Bernstein é natural da cidade de Londres e nasceu em 1º de novembro de 1924, membro de uma família de imigrantes judeus. Ele começou sua carreira acadêmica na década de 60, na Universidade de Londres. Durante sua vida dedicou-se aos estudos e mostrou particular interesse pela educação, situando-se entre os grandes sociólogos do século XX (MORAIS, 2004). Ele foi professor da cátedra Karl Manheim, de Sociologia da Educação, na Universidade de Londres, até o ano em que se tornou professor Emérito da instituição, em 1990 (BERNSTEIN, 1996; LEITE, 2007; MAINARDES; STREMEL, 2010). Em 1958 Bernstein começou a publicar e o desenvolvimento de sua teoria aconteceu de forma contínua até o ano 2000, quando veio a falecer em 24 de setembro. A sequência de suas obras apresentou a evolução do seu pensamento, as quais se organizaram em cinco volumes, no conjunto denominado “Class, Codes and Control, I–V”, traduzido como “Classe, códigos e controle”. Os três primeiros livros aparecem com o mesmo nome, Class, Codes and Control, variando, porém o seu subtítulo (PORTO, 2011): 1971: Theorical studies towards a sociology of language (Estudos teóricos da sociologia da linguagem); 122 1973: Applied studies towards a sociology of language (Estudos aplicados a sociologia da linguagem); 1975: Towards a theory of educational transmissions (Em direção a uma teoria das transmissões educacionais). O quarto livro, de 1990, The structuring of pedagogic discourse, foi o único até agora traduzido para o português, por Tomaz Tadeu da Silva e Luíz Fernando Gonçalves Pereira, com o título “A estruturação do discurso pedagógico: classe, código e controle”. Foi publicado em 1996 pela Editora Vozes. Sua última obra desta coleção de cinco volumes foi publicada em 1996 e denomina-se Pedagogy, simbolic control and identity: theory, research, critique (Pedagogia, controle simbólico e identidade: teoria, pesquisa, crítica). A segunda edição saiu no ano 2000. O próprio autor, fazendo uma análise retrospectiva de sua teoria, considerou ainda que existem, dentre os vários artigos que publicou, quatro que foram marcos em sua trajetória (MORAIS; NEVES, 2007; MORAIS, 2004): 1971: On the classification and framing of educational knowledge; 1981: Codes, modalities and the process of cultural reproduction: A model; 1986: On pedagogic discourse; 1999: Vertical and horizontal discourse: An essay. Basil Bernstein é um dos principais representantes da Nova Sociologia da Educação (NSE), junto com Michael Young (LEITE, 2007; MAINARDES; STREMEL, 2010). Para os representantes da NSE, a principal preocupação era o desenvolvimento de uma sociologia do conhecimento e, para isso, investiram em estudos que analisassem as relações entre a organização do conhecimento e a distribuição do poder. A teoria bernsteniana vai explorar os conceitos de classificação, vinculado ao poder e, enquadramento, vinculado ao controle, por exemplo. Sua preocupação o levou a criar “uma linguagem que, ao gerar descrições específicas das práticas e discursos das relações pedagógicas, possibilitasse o estudo dos processos concretos de transmissão e aquisição de conhecimentos, valores e formas de consciência” (LEITE, 2007, p. 23). Após a leitura inicial de parte das obras de Bernstein e, ainda, cursar disciplinas que discutiram sua teoria, confirmei o que muitos pesquisadores dizem sobre ela, a saber, que esta é complexa, com conceitos abstratos e um tanto difíceis 123 de serem assimilados, porém com um elevado poder de descrição da realidade escolar, como exemplificado em Bernstein (1984); Morais (1992); Morais et al (1993); Afonso; Morais; Neves (2002) . Silva (2009) argumenta que a teoria desenvolvida por Bernstein é complexa e sofisticada, chegando a afirmar que, com o passar dos anos foi ficando cada vez mais formal, tornando-se quase matematizada. Então, este foi um dos fatores que me motivou a aprofundar os estudos sobre a teoria bernsteniana, o poder de abstração dos conceitos, justamente por vir de uma área considerada “dura” pela academia, a área das ciências exatas, a Matemática. Nesta busca pelo conhecer e compreender a teoria de Bernstein pesquisei por teses e dissertações que a tivessem utilizado de alguma forma. No Banco de Teses da Capes fiz uma pesquisa em nível de doutorado onde encontrei 25 teses e, em nível de mestrado, 38 dissertações, nas quais foi utilizada a palavra-chave “Basil Bernstein”. Após a leitura do resumo das teses, percebi que algumas abordavam questões relacionadas ao currículo, outras às políticas curriculares, conceitos de classificação e enquadramento, bem como o controle simbólico. Outras utilizavam o dispositivo pedagógico e a recontextualização, sendo que apresento uma síntese de alguns trabalhos na sequência, por ordem alfabética dos autores. A primeira tese é de Andreia Maria Pereira de Oliveira, intitulada “Modelagem Matemática e as tensões nos discursos dos professores”, defendida na UFBA. Nesta, o foco são os discursos dos professores quando estes recontextualizam a modelagem matemática em suas práticas pedagógicas (OLIVEIRA, 2010). Benedito Gonçalves Eugenio defendeu a tese “Políticas curriculares para o ensino médio no Estado da Bahia: permeabilidades entre contextos e a cultura da escola” pela UNICAMP. Nela, aborda as políticas educacionais sobre o currículo no ensino médio, utilizando as regras do discurso pedagógico e da recontextualização. O primeiro capítulo retrata os conceitos da teoria de Bernstein (EUGENIO, 2009). A tese seguinte é de Carmen Isabel Gatto, intitulada “O processo de definição das diretrizes operacionais para a Educação de Jovens e Adultos: participação democrática das agências do campo recontextualizador oficial”, defendida na UFRGS. Nesta a autora utiliza o conceito de classificação de Bernstein 124 para “descrever e analisar as relações entre agências do campo recontextualizador oficial abrangendo, também, o campo recontextualizador pedagógico e as posições dos representantes dessas agências acerca dos temas” (GATTO, 2008, p. 6). O capítulo quatro é destinado às contribuições da teoria de Basil Bernstein. A quarta tese é de Clarice Monteiro Escott, defendida na UFRGS, denominada “Currículos, pedagogia e avaliação em cursos de enfermagem e de direito: influências do discurso regulador geral e do discurso recontextualizador”. O terceiro capítulo descreve a estruturação do discurso pedagógico de Basil Bernstein (ESCOTT, 2008). Davi Maragon defendeu a tese “Mobilização para o saber, discurso pedagógico e construção de identidades: uma análise do livro didático público de Educação Física do Estado do Paraná”, na UFPR. Investigou o processo de constituição da mobilização para o saber no discurso pedagógico (MARAGON, 2009). A sexta tese, de Maria Cecilia Loréa Leite, “Decisões pedagógicas e inovações no ensino jurídico”, foi defendida na UFRGS. Como enfoque central a autora apresenta “a relação entre currículo, conhecimento e poder” (LEITE, 2003, p. 6) inserida no campo da Pedagogia Jurídica. O terceiro capítulo aborda alguns conceitos de Basil Bernstein, como regras e tipos da prática pedagógica. A tese de Russel Teresinha Dutra da Rosa, “Formação inicial de professores: análise da Prática de Ensino em Biologia” foi defendida na UFRGS. Um dos tópicos desenvolvidos foi a “análise de discursos e de modalidades de conhecimentos que constituem a Licenciatura em Ciências Biológicas e que são mobilizados quando da recontextualização dos conteúdos biológicos para o Nível Médio” (ROSA, 2007, p. 13). O capítulo três traz a teoria sociológica de Bernstein, entre outros autores. A última tese que descrevo foi defendida na UFRGS por Viviane Esther Lorenz, denominada “Arte e conscientização ambiental: uma reflexão sobre a formação continuada de professores, fundamentada em Basil Bernstein”. O quarto capítulo refere-se à abordagem de contextos educacionais segundo a teoria deste autor (LORENZ, 2009). 125 Conforme descrito nas pesquisas, as quais utilizam da teoria de Bernstein, o autor apresenta um pensamento estruturalista71 (LOPES, 2005), o qual “refere-se a perspectiva sociológica baseada no conceito de estrutura social e busca a objetividade, a coerência, o rigor e a verdade” (MAINARDES; STREMEL, 2010, p. 4). Bernstein tem contribuições a oferecer no campo escolar, apesar de pretender que sua linguagem conceitual possa vir a descrever qualquer relação pedagógica (LEITE, 2007). Sua teoria busca compreender o papel da escola no processo de produção, reprodução e mudança cultural e social, sendo que o currículo ocupa um papel importante neste processo. O foco são os processos de socialização do conhecimento, onde busca analisar a comunicação pedagógica. Na sequência explicitei alguns dos conceitos fundamentais da teoria de Bernstein, como código, classificação e enquadramento, finalizando com o dispositivo pedagógico, enfoque desta Tese. 4.1. Código Código é um conceito central na teoria sociológica de Basil Bernstein. “Como se aprendem as posições de classe? Como as estruturas de classe se traduzem em estruturas de consciência? (...) O código é precisamente a gramática da classe” (SILVA, 2009, p. 74). Para o autor, “um código é um princípio regulativo, tacitamente adquirido, que seleciona e integra significados relevantes, formas de realização e contextos evocadores” (BERNSTEIN, 1996, p. 143). São dispositivos de posicionamento determinados culturalmente. Desta forma, sua unidade de análise são as relações entre contextos, e não um enunciado abstrato ou um contexto isolado. “O código é um regulador das relações entre72 contextos e, através dessa relação, um regulador das relações dentro dos contextos” (ibidem, p. 143). Bernstein utiliza o termo “relações de classe” para assinalar diferenças na distribuição do poder e nos princípios de controle entre os grupos sociais. As relações de classe geram, distribuem, reproduzem e legitimam formas distintas de comunicação, as quais transmitem códigos dominantes e dominados, e que, no processo de adquirir esses códigos, os sujeitos são por eles diferentemente posicionados (BERNSTEIN, 1996, p. 28). 71 O estruturalismo, em um sentido amplo, visa a uma análise síncrona das estruturas e projeta a perspectiva de ser um paradigma para as ciências sociais ou um modelo científico, em alguns casos baseado na linguagem (LOPES, 2005, p. 53). 72 Grifos no original. 126 A Figura 30 ilustra essa relação entre as relações de classe, distribuição do poder, princípios de controle e os códigos. Figura 30: Código e relações Fonte: Bernstein, 1996, p. 28 Desde suas obras iniciais sobre linguagem, abordando código restrito e código elaborado, o conceito de código se referia a um princípio regulador que está na base dos sistemas de mensagens (currículo, pedagogia e avaliação73). Definindo os termos específicos. Código restrito se caracteriza por uma ordem de significação particularista, em que os princípios e operações são mantidos implícitos, dado que as significações partilhadas e ligadas ao contexto não carecem de muita verbalização; os falantes de um código restrito tendem a ter papéis comunitários, não estando muito cientes das diferenças individuais (DOMINGOS et al, 1986, p. 344). Código elaborado se caracteriza por uma ordem de significação universalista, cujos princípios e operações são tornados explícitos e que, estando desligada do contexto, dá ao falante possibilidade de distanciamento e, portanto, de reflexividade; os falantes de um código elaborado tendem a estar cientes das diferenças individuais e a ter papeis menos formalizados. (ibidem, p. 343-344). Essas diferenças existem pelo fato dos códigos apresentarem-se de formas distintas em relação à classe social, ou seja, há diferenças entre os códigos de 73 “Para Bernstein (1971), currículo define o que conta como conhecimento válido; pedagogia define o que conta como transmissão válida do conhecimento e a avaliação define o que conta como a realização válida do conhecimento” (MAINARDES; STREMEL, 2010, p. 7). 127 comunicação dos filhos da classe operária e dos filhos da classe média, refletidas pelas relações de classe e de poder na divisão social do trabalho. Estas relações dos códigos são estudadas pelo autor no contexto da sala de aula, visto que a escola reproduz os códigos elaborados, deixando as crianças das famílias das classes operárias à mercê, visto empregarem em grande parte somente o código restrito. Fazendo referência a este assunto, trago a fala de Tardif e Lessard (2011) que se articula com a colocação feita por Bernstein: O discurso dos professores sempre tem certa superioridade em relação aos discursos dos alunos: ensinar não é apenas dizer alguma coisa, é também dizê-lo de certa maneira, em função dos códigos linguísticos e culturais; esse discurso também manifesta, em suas formas de expressão, o domínio de um certo nível de linguagem (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 251-252). Contudo, o próprio Bernstein salienta que não existem códigos melhores ou piores, superiores ou inferiores, apenas códigos em contextos sociais distintos, códigos culturais diferentes, (ESPANYA; FLECHA, 1998) que merecem ser estudados levando esse fato em consideração. Vinculado à Tese, pode-se perceber que os tutores a distância, ao se comunicarem com os alunos, assumem uma postura mais formal, acadêmica, devido ao fato de constituírem a equipe docente do curso. Desta forma, acabam utilizando um código elaborado nesta comunicação, com um vocabulário específico, tanto relacionado à Matemática, área de estudo dos alunos, como um vocabulário específico da Educação a Distância, modalidade de ensino ofertada, a qual abrange conceitos tecnológicos e virtuais que precisam ser usados durante o curso. Esse código elaborado é, inicialmente, apresentado aos tutores através da capacitação oferecida pelo curso, quando do ingresso destes para o trabalho na tutoria. Essa gramática dos códigos “lhes permite distinguir entre os diferentes contextos, distinguir quais são os significados relevantes em cada contexto e como expressar publicamente esses significados nos contextos respectivos” (SILVA, 2009, p. 74). Em relação à Matemática não houve problemas significativos em relação ao código elaborado, visto que atualmente, apenas seis tutores de um universo de 50, não tem o curso de Licenciatura ou Bacharelado nesta área, sendo estes tutores que atuam em questões específicas vinculadas a parte pedagógica. Já em relação ao código elaborado para a Educação a Distância, a situação foi outra. Como exemplo, duas tutoras, que inicialmente demonstravam possuir o código restrito em relação à 128 EaD, fazem um relato sobre a capacitação inicial que obtiveram. A Tutora 4 fala: “confesso que, a respeito da capacitação, não foi proveitoso para mim; pois não havia trabalhado ainda com esta modalidade e muitas informações passadas não soube do que se tratava”. A Tutora 8 complementa: Pra mim não foi muito claro, pois a maioria dos colegas já era tutor há algum tempo e a linguagem e assuntos eram direcionados a eles. Poucos foram os momentos onde pude compreender como funcionava a tutoria. Muito cresci em conhecimento conversando com colegas que já tinham uma caminhada. O final da fala desta última tutora nos esclarece que ela, aos poucos, assim como os demais colegas, foi adquirindo o código elaborado necessário para o trabalho, com a ajuda de outros tutores mais antigos do curso e, que, provavelmente, já haviam passado por essa adaptação em relação aos códigos. Esse mesmo sentimento de insegurança em relação à comunicação com os alunos aparecem quando a Tutora 21 argumenta que ao estar pela primeira vez em contato com os alunos, mediados pelo computador, sentiu-se estranha e “com medo que o aluno não entendesse minha explicação”, devido à falta de clareza em como fazer essa interação. Quando fazemos referência aos alunos, de acordo com a própria percepção do grupo de tutores pesquisados, fica evidente a carência sobre os conhecimentos referentes aos códigos elaborados vinculados à EaD e às tecnologias. E esta diferença não é somente de classe social, como Bernstein (1996) expõe em sua teoria. Quando se trata de alunos de EaD, a faixa etária média é mais avançada, pois são alunos que ficaram anos sem estudar e, desta forma, mesmo alunos pertencentes a uma classe social com maior poder aquisitivo e cultural encontram dificuldades oriundas dos contínuos avanços tecnológicos. Isto é, mesmo estudantes com uma situação econômica mais favorecida não possuem os conhecimentos necessários à Educação a Distância. Desta forma, os códigos elaborados estão sendo construídos ao longo do curso, com estudo e auxílio constante da equipe docente, especialmente dos tutores. Assim, conforme tutores e alunos vão desenvolvendo uma relação mais próxima e constroem uma comunicação eficaz entre si, percebe-se a construção dos códigos elaborados necessários para o bom desenvolvimento do curso, ou seja, ambos aprendem esta nova linguagem da EaD. A interação e comunicação se 129 realizam, então, de forma tranquila, fluente, por meios dos códigos elaborados específicos para este contexto da Matemática na Educação a Distância. 4.2. Classificação e Enquadramento Classificação e enquadramento são dois conceitos centrais na teoria do discurso e da prática pedagógica de Bernstein. O termo classificação, vinculado ao poder, é utilizado para explicar as relações de poder e controle do que é ensinado e aprendido. Domingos et al (1986), define o termo como o “grau de manutenção da fronteira ou força de isolamento entre categorias (agências, agentes, recursos), criado, mantido e reproduzido pelo princípio da distribuição de poder da divisão social de trabalho” (p. 343). Por sua vez, enquadramento, vinculado ao controle, é utilizado para explicar as relações de poder e controle que interferem no como é conduzido o processo de ensino-aprendizagem. É o “grau de manutenção da fronteira ou do isolamento entre práticas comunicativas das relações sociais criado, mantido e reproduzido pelos princípios de controle social” (ibidem, p. 347). O termo classificação refere-se à natureza da diferenciação entre conteúdos e áreas do conhecimento. “A classificação diz o que é legítimo ou ilegítimo incluir no currículo” (SILVA, 2009, p. 72). Se existe um forte grau de isolamento entre os conteúdos, dizemos que existe uma classificação forte (denotada por +C). Se o grau de isolamento entre os conceitos for fraco, ou seja, há uma reduzida separação entre os conteúdos e as áreas do conhecimento, então a classificação é fraca (–C). Fazendo uma comparação com o atual currículo vigente no CLMD, percebese que a ideia proposta pelo mesmo caracterizaria, conforme Bernstein (1996), uma classificação fraca (–C), visto que este é constituído por oito Eixos Temáticos semestrais, conforme Anexo 5, sem pré-requisitos e sequência pré-definida. Em cada um destes eixos são articulados os quatro conhecimentos básicos vinculados ao currículo: Conhecimento do Conteúdo Matemático para Atuação Profissional do Professor de Matemática, Conhecimento dos Processos de Ensino-Aprendizagem dos Conteúdos Matemáticos, Conhecimento do Conteúdo Matemático Especializado do Professor de Matemática e Conhecimento do Conteúdo Especializado de Áreas afins para Atuação do Profissional do Professor de Matemática. Assim, o conteúdo 130 não é mais apresentados aos acadêmicos de forma linear e sequenciada, deixando de caracterizar uma classificação forte (+C), como apresentava em seu currículo inicial (Anexo 4), passando a ter essa classificação fraca (–C), “quando se esbatem as fronteiras entre os vários assuntos de uma dada disciplina, o que se traduz numa articulação dos conteúdos em conceitos sucessivamente mais abrangentes” (MORAIS; NEVES, 2007, p. 124). Dependendo da relação de poder que se estabelece entre os agentes, professores e tutores, a classificação vai ser mais forte ou mais fraca. Especificamente no caso do CLMD, com as análises feitas, eu percebi que essa relação é forte (+C), visto que as fronteiras estão bem delimitadas e existe uma relação de hierarquia. São os professores que organizam o curso como um todo e cada eixo em específico, cabendo aos tutores apenas auxiliarem na sua reprodução, mediante o atendimento aos alunos. O fato pode ser exemplificado pela fala do Tutor 34, “o tutor, apesar de ter o contato direto quase diário com os alunos, não tem muita autonomia, não participa efetivamente da elaboração do curso, apenas na execução”. A Tabela 7 sintetiza essas relações. Tabela 7: Relações de poder – classificação Categorias +C –C Relações intradisciplinares (Matemática) Os conteúdos eram apresentados por meio de disciplinas. Os temas de estudo são interrelacionados e as atividades propostas envolvem conhecimentos abrangentes. Relações interdisciplinares (Matemática, Física e Pedagógicas) Currículo antigo – Anexo 4. Os conteúdos eram apresentados por meio de disciplinas em cada uma das áreas. Currículo antigo – Anexo 4. Currículo atual – Anexo 5. Os conhecimentos das várias áreas do saber envolvidas no currículo do curso são igualmente valorizados, articulados e inter-relacionados durante o eixo, tanto nos textos como nas atividades. Currículo atual – Anexo 5. Professor – Tutor Nesta relação de poder são os professores que delimitam o que e o como será desenvolvido o Em algumas disciplinas no currículo antigo havia reuniões entre o professor e os tutores, de 131 eixo. As fronteiras são bem delimitadas. Há uma relação de hierarquia. modo que planejavam a mesma em conjunto. As fronteiras eram menos delimitadas. “O professor tem a responsabilidade maior dentro da EaD, principalmente porque é o professor que elabora toda grade de conteúdos, material didático e seleção do melhor para o aluno” (Tutor 25). “Quando ingressei na EaD, o trabalho era conjunto entre professores e tutores, combinávamos toda a disciplina que ia para o Moodle juntos e opinávamos sobre tudo o que acontecia na instituição. Hoje já não percebo essa interação” (Tutora 26). “Ao contrário do presencial, na EaD as aulas precisam estar sempre bem preparadas e com antecedência para ser repassada aos tutores” (Tutora 23). “O professor deve se preocupar em como preparar um bom material para os alunos. Já o tutor deve se preocupar em sanar as dúvidas que, por ventura, venham a existir, além de acompanhar diariamente esses alunos” (Tutor 13). “O professor é responsável pela determinação e organização de todo o material e tarefas da disciplina” (Tutora 29). “Primeiro que ela [professora efetiva do CLMD] é uma pessoa que te dá liberdade, liberdade criativa dentro da disciplina, entende? Ela nunca exerceu uma disciplina isolada assim, ela era a professora e os tutores respondiam dúvidas, não, a gente sempre construiu a disciplina com ela, a gente sempre participou de tudo, sabe? Desde montar a web, de escolher a questão pra prova, de escolher a questão para o trabalho, de responder aluno, a gente participava muito da disciplina. A gente dividia, compartilhava mesmo a execução e a elaboração da disciplina” (Tutor 34). “Eu considero pelas possibilidades que a gente, enquanto tutores aqui, e especificamente no grupo que eu trabalhei, a gente sempre teve de opinar, de buscar construir junto, da voz, da gente ser ouvida, de sentar pra reunir, pra avaliar algumas coisas, pra dar sugestões e as sugestões serem acolhidas” (Tutora 16) Fonte: Elaboração da autora Nas relações intra-disciplinares, referente aos conteúdos matemáticos do curso, num primeiro momento do CLMD tinha-se uma classificação forte (+C), pois o 132 currículo era apresentado na forma disciplinar, com um isolamento determinado entre as disciplinas. Atualmente, a partir da vigência do novo currículo, por eixos temáticos, essa classificação é fraca (–C), visto que em cada eixo os conteúdos da Matemática são apresentados de forma independente e sem pré-requisitos, ou seja, o aluno durante o semestre constroi os conceitos necessários para sua aprendizagem. Nas relações inter-disciplinares (Matemática, Física e Pedagógicas) acontece a aprendizagem de forma semelhante neste currículo atual, apresentando uma fraca classificação (–C) visto que não somente os conteúdos matemáticos são apresentados de forma integrada, mas integrando-se as demais áreas necessárias, buscando uma unidade entre as diferentes ciências do saber para a formação de um professor de Matemática. No currículo antigo a classificação era forte (+C), pois a estrutura era disciplinar e isolada. Na categoria professor-tutor, no currículo antigo, disciplinar, aconteciam os dois tipos de relação, classificação forte e classificação fraca. Na classificação fraca, de acordo com as inserções das falas dos tutores (tabela anterior), determinados professores buscavam construir com o seu grupo de tutores a disciplina a ser ministrada no semestre. Assim, eram realizadas reuniões periódicas e o acompanhamento do trabalho era conjunto e contínuo. Pode-se dizer que havia uma equipe docente que atuava em conjunto no processo de ensino-aprendizagem dos alunos, o que podemos relacionar com a polidocência descrita por Mill (2010). Contudo, alguns professores nesta época já traziam todo o material pronto para os tutores, que só deveriam ajudá-lo a executar a disciplina, dando suporte no atendimento aos alunos e na correção das avaliações. Esta forma de classificação forte (+C) também é a percebida pelos tutores no atual sistema por eixos temáticos. Alegam que, nas condições atuais, recebem tudo pronto da equipe de execução eixo, não tendo liberdade para opinar, sendo que devem apenas oferecer suporte aos estudantes. O Enquadramento refere-se ao grau de controle do que pode ou não pode ser transmitido na relação pedagógica. A modalidade de socialização, ou seja, esta interação pedagógica, é regulada pela intensidade do enquadramento (MORAIS; NEVES, 2007). Se o enquadramento for forte (+E), o transmissor (professor, pais, sistema educacional) controla esta seleção, organização e critérios da comunicação 133 referentes ao conteúdo, sequenciamento, forma, compasso e discurso que constituem o contexto da aprendizagem. Se o enquadramento for fraco (–E) o transmissor tem um controle menor sobre estes elementos (MAINARDES; STREMEL, 2010). Para efeitos dessa pesquisa, pensando na atual estrutura das equipes do CLMD, pode-se dizer que o enquadramento é forte (+E), visto que existe um grupo de professores que planejam o eixo a ser executado (Equipe de Planejamento) e, durante esta execução, a Equipe Docente do Polo, composta pelo grupo de tutores presenciais e a distância, juntamente com os professores referência, que integram a Equipe de Execução, não tem poder para fazer alterações (vide Figura 26 – seção 2.2). Caso se faça necessária alguma modificação nos materiais produzidos, no cronograma ou na proposta das atividades, avaliativas ou não, essas solicitações são encaminhadas aos professores efetivos da Equipe de Execução, para que estes façam as alterações que julguem necessárias. Alunos, tutores e professores referência até possuem alguma voz, mas a decisão final vem desse grupo de professores efetivos, por isso, o enquadramento é forte. Este fato pode ser verificado pela argumentação do Tutor 20: O professor tem o desafio de planejar todo o cronograma do Eixo assim como os conteúdos a serem desenvolvidos e avaliações, além de orientar os tutores, tendo como objetivo passar para o aluno de forma que ele, mesmo a distância, consiga, por si só, compreender e estudá-los, aprimorando sua aprendizagem. O tutor tem a função de orientar os alunos no processo de aprendizagem,assim como corrigir as atividades. Nesta inserção, o tutor fala sobre o cronograma, que se refere à ritmagem, aos conteúdos, que abordam a seleção e a sequência e ainda, sobre as avaliações. A seguir, apresento a Tabela 8, que resume estes pontos, trazendo alguns posicionamentos dos tutores pesquisados sobre os itens descritos para o currículo vigente. Tabela 8: Grau de controle – enquadramento Categorias +E Seleção e sequência Nas relações entre professores-tutores, pois os conteúdos e as atividades são previamente determinados pelos professores, que os exploram no decorrer do eixo mediante uma –E 134 ordem previamente determinada. “Não sou eu que defino os conteúdos e a forma de abordagem” (Tutora 7). Avaliação Nas relações entre professores-tutores, pois os critérios de avaliação são explícitos, mediante a apresentação de roteiros/gabaritos aos tutores por parte da equipe de professores. “Eu não tenho autonomia de como serão as atividades e como elas serão avaliadas” (Tutora 24). Ritmagem Nas relações entre professores-tutores, pois é do conhecimento dos tutores o cronograma das atividades proposta desde o início do semestre, o qual já contém as datas das atividades e avaliações, estabelecendo o tempo para a aprendizagem. “A grande diferença que percebo está no quesito planejamento. O professor tem como uma das principais funções planejar, direcionar, dar ritmo a aprendizagem” (Tutora 5). Fonte: Elaboração da autora Em cada um dos quesitos percebo que existe um enquadramento forte (+E), visto que os tutores não possuem autonomia alguma para determinar seleção, sequência, avaliação e/ou ritmagem dos conteúdos a serem trabalhados com os alunos durante o processo de ensino-aprendizagem. Todo o processo é definido pela equipe de planejamento e, posteriormente, pela equipe de execução do eixo, sendo que a palavra final é sempre de um professor efetivo do CLMD. 4.3. O Dispositivo Pedagógico “Para Bernstein, a sociologia da educação deve voltar sua atenção para a análise das características intrínsecas que constituem e distinguem a forma especializada de comunicação que é realizada pelo dispositivo pedagógico da educação” (DOMINGOS et al, 1986, p. 283). 135 Para que pudesse fazer a análise dessa comunicação pedagógica, Bernstein desenvolveu o conceito de dispositivo pedagógico, a partir do conceito de dispositivo linguístico. O dispositivo pedagógico é constituído de algumas regras, entre elas a regra da recontextualização, fundamental para a Tese desenvolvida. Fundamental, pois investiguei quais são os saberes docentes que os tutores têm, mobilizaram, construíram e/ou adquiriram, compreendendo como se produziram esses saberes, desde a formação inicial até sua prática na sala de aula presencial e virtual e, ainda, indagando sobre os saberes relacionados à história de vida, formação pré-profissional entre outros que possam emergir de nossas conversas. O foco é investigar essa recontextualização de saberes que os tutores fazem ao atuarem na modalidade EaD, a partir dos saberes prévios que já produziram, construíram, mobilizaram, adquiriram enquanto professores do ensino presencial. Para propor o conceito de dispositivo pedagógico (DP) Bernstein se inspirou no dispositivo linguístico (DL) da teoria de Chomsky. Para ele, o dispositivo linguístico “trata de um sistema de regras formais, as quais regem as distintas combinações que fazemos ao falar ou escrever” (BERNSTEIN, 1996, p. 250). Este dispositivo está baseado em dois meios, o inato, relacionado à sensibilidade do sujeito em relação às regras do dispositivo, e o interativo, que juntos são as condições necessárias para a aquisição dessas regras. O dispositivo linguístico, nesta perspectiva, existe no nível social, mas não no nível cultural, pois suas regras, sua aquisição e suas possibilidades criativas não são dependentes da cultura. Sobre as regras, as relacionadas ao próprio dispositivo pedagógico são consideradas estáveis, porém as regras que regulam a comunicação que nasce deste dispositivo são variáveis e dependem do contexto. Assim, o autor faz a distinção entre o condutor e o conduzido, sendo que o primeiro consiste nas regras relativamente estáveis e, o segundo, consiste nas regras variáveis dependendo do contexto. Salienta que não existe a neutralidade em nenhum dos dois conjuntos de regras do ponto de vista ideológico. Antes de analisar as regras do dispositivo pedagógico, enumero algumas semelhanças entre o DP e o DL: ambos têm a estrutura formal, torna possível uma grande gama potencial de resultados comunicativos, suas formas de realização estão submetidas a regras que variam com o contexto, suas regras intrínsecas são relativamente estáveis, mas dependem da ideologia e ambos se convertem em 136 âmbitos adequados para a apropriação, o controle e o conflito. Uma diferença fundamental entre estes dois tipos de dispositivos é o fato de que no DP “é possível obter um resultado, uma forma de comunicação, que subverta as regras fundamentais do dispositivo” (BERNSTEIN, 1996, p. 253). Para Bernstein, o dispositivo pedagógico é quem fornece a gramática intrínseca do discurso pedagógico mediante regras. Bernstein enfatiza “a dimensão ideológica desses dispositivos, ressaltando que as regras que os estruturam são contextuais, resultantes de jogos de poder social e historicamente localizados” (LEITE, 2007, p. 30). Assim, para o autor, discurso é considerado como “uma categoria na qual todo o sujeito é posicionado ou reposicionado e que enforma as relações de poder e de controle geradas pelo princípio da divisão social de trabalho e pelas suas relações sociais intrínsecas” (DOMINGOS et al, 1986, p. 284). Desta forma Bernstein argumenta que o discurso está vinculado ao poder, sendo que a maneira como estas práticas discursivas são instituídas e as regras que as compõem deixam transparecer este vínculo. Já o discurso pedagógico é definido como sendo um “discurso especializado cujos princípios internos, regulando a produção de objetos específicos (transmissores/aquisidores) e a produção de práticas específicas, regulam o processo de reprodução cultural” (ibidem, p. 346). O discurso pedagógico é um princípio que extrai um discurso de sua prática e contexto de origem e o reloca ajustando-o com seu próprio princípio de focalização e reordenamento seletivos (MAINARDES; STREMEL, 2010). O discurso pedagógico constroi um discurso específico sobre determinado assunto. Bernstein (1996), então, buscou saber como se constitui esse discurso específico e os princípios da sua transmissão, referenciando-se a gramática. Lorenz (2009), ao defender sua tese de Doutorado em Educação, sintetiza dizendo que “o discurso pedagógico é composto por um conjunto formado por três regras: de distribuição74 (que regulam o nível de produção), de recontextualização (que regulam o nível de transmissão) e de avaliação (que regulam o nível de aquisição)” (LORENZ, 2009, p. 58). Essas regras apresentam uma relação hierárquica entre si, como se pode observar na Figura 31. 74 Grifos no original. 137 Figura 31: Gramática interna do discurso pedagógico Fonte: Elaboração da autora, baseada em Bernstein (1996) A partir do apresentado na figura acima, temos que as Regras distributivas regulam a relação fundamental entre poder, grupos sociais, formas de consciência e prática e suas reproduções e produções. As regras recontextualizadoras regulam a constituição do discurso pedagógico específico. As regras de avaliação são constituídas na prática pedagógica (BERNSTEIN, 1996, p. 254). Bernstein buscou, através dessas três regras, ordenar o aparelho pedagógico relacionando-as e, através delas, então, compreender a dinâmica interna do discurso que é capaz de reproduzir essas relações. Apesar de estar visando à reprodução, isto permite que as coisas aconteçam não exatamente como estavam previstas. O processo que possibilita um espaço para esta contestação na teoria bernsteniana é exatamente a recontextualização. A recontextualização vai abrir uma margem para encontrar na ponta do processo educacional não exatamente aquilo que estava previsto. A recontextualização é o que possibilita a mudança. Na sequência, analisei cada uma dessas regras que compõem a gramática interna do discurso pedagógico, as quais são fornecidas pelo aparelho pedagógico, buscando a compreensão teórica sobre elas. 4.3.1. Regras distributivas Na sociedade é possível perceber que existe uma relação entre o poder, os grupos sociais e as formas de consciência estabelecidas. Esta se constitui por meio do controle sobre a especialização e distribuição das diferentes ordens, que por sua 138 vez criam diferentes conhecimentos e práticas. Bernstein (1996), para explicar o que são as regras distributivas, introduz os conceitos de conhecimento pensável e conhecimento impensável, fazendo ligação com o conhecimento mundano e o esotérico. “As regras distributivas fundamentais marcam e especializam o pensável e o impensável e suas consequentes práticas para os diferentes grupos, através da mediação de práticas pedagógicas diferentemente especializadas” (BERNSTEIN, 1996, p. 255). A partir da discussão que Bernstein faz das regras de distribuição na estruturação da gramática interna do discurso pedagógico, ele mostra que as regras de distribuição criam esses princípios de classificação entre a produção e a reprodução do discurso educacional e estabelece, então, esses dois conceitos pra analisar a classificação durante a produção e a reprodução desse discurso, que é o pensável e o impensável. Essa relação na sociedade contemporânea, Bernstein argumenta, se dá através de uma forte classificação entre a produção e a reprodução desses discursos. O conhecimento pensável, que é o conhecimento mundano, do possível, do outro, é aquele atualmente trabalhado na educação básica, estando ligado a reprodução do discurso vigente. Já o conhecimento impensável, esotérico, possibilidade do impossível, está relacionado, sobretudo, às instituições de ensino superior, que são as principais responsáveis pela produção deste discurso. “Em geral, aqueles que produzem o conhecimento legítimo institucionalizam o impensável, enquanto aqueles que reproduzem esse conhecimento institucionalizam o pensável” (DOMINGOS et al, 1986, p. 288). Ainda, o que hoje pode ser considerado esotérico, impensável, em outra época e contexto, poderá vir a ser um conhecimento mundano (BERNSTEIN, 1996; SANTOS, 2003; ARAUJO, 2002). Para efeitos dessa pesquisa, pode-se considerar que os tutores a distância são os responsáveis pelo conhecimento pensável, ou seja, pela reprodução do discurso, conforme estrutura atual dos eixos e suas atribuições, como mencionado na seção 2.2. “Não sou eu quem defino os conteúdos e a forma de abordagem” afirma a Tutora 7. É possível fazer essa relação à semelhança das regras de distribuição no processo de produção da docência na Educação a Distância, que estabelece também uma classificação entre aqueles que são os professores – pesquisadores e efetivos, digamos, que trabalham mais focados com a estruturação 139 e o controle do processo, e os tutores, que acabam reproduzindo em outro nível de recontextualização o trabalho pedagógico. A partir dessa relação, os tutores estão muito mais próximos do conceito do pensável, e os professores do impensável, variando, portanto, essa classificação a partir da relação que se estabelece entre esses diferentes sujeitos que constituem o processo pedagógico. Porém, apesar dos professores estarem mais próximos dos conhecimentos impensáveis (ligados a criação e produção do discurso), eles não criam ou produzem um discurso novo, eles apenas recontextualizam os conhecimentos produzidos e disponibilizados pela academia, quando se fala em relação aos conceitos matemáticos e/ou pedagógicos. Estes professores recontextualizam o discurso impensável já posto nessas áreas do processo educativo. Na sequência, os tutores fazem a parte da reprodução desta recontextualização feita pela equipe de professores ao grupo de alunos atendidos. “Porque eu não tenho autonomia de como serão as atividades e como elas serão avaliadas, (...). A diferença é que o professor planeja o processo de ensino-aprendizagem”, confirma a Tutora 24. Portanto, as regras de distribuição são aquelas que, para diferentes grupos, marcam e especializam o conhecimento pensável e o conhecimento impensável e suas consequentes práticas, através de diferentes instituições de ensino especializadas. Assim, as regras de distribuição “constituem expressão dos princípios dominantes da sociedade, são relativas ao nível gerador do discurso pedagógico que, imbuídas de poder, determinam quem pode ensinar o quê, para quem, e em quê condições75” (LORENZ, 2009, p. 58). As regras de distribuição criam esse princípio de classificação entre a produção do discurso educacional e a reprodução desse discurso. Bernstein (1996) sugere assim que a partir das regras distributivas do dispositivo pedagógico são realizadas as relações entre o poder, o conhecimento e as formas de consciência e de prática. Para o autor, essas regras distributivas seriam concebidas no que nomeia de “contexto primário”, sendo este um dos três contextos do discurso. Os tutores são responsáveis pela parte da reprodução no processo pedagógico. Olhando adiante, para a regra da recontextualização, a partir dos saberes, para que os tutores possam fazer essa reprodução eles precisam fazer uma recontextualização a partir dos saberes docentes que têm, mobilizaram, 75 Grifos no original. 140 adquiriram e/ou construíram na educação presencial, e que eles modificam na EaD, porque não é exatamente a mesma forma de atuar no ensino. O saber de conhecimento, de conteúdo, é o mesmo, pois a Matemática é a mesma. Mas a forma como eles utilizam esse conhecimento pra dar o atendimento dentro da modalidade a distância é diferente, seja pela forma de conhecimento, comunicação ou interação por meio das tecnologias, por exemplo. Portanto, os tutores fazem sim a reprodução, mas eles precisam recontextualizar os seus próprios saberes de forma a serem produtivos para o atendimento aos alunos na EaD. 4.3.2. Regras recontextualizadoras A partir do processo de pedagogização do conhecimento, Bernstein se preocupa em criar uma linguagem conceitual capaz de descrever os caminhos de construção do discurso e da prática das relações pedagógicas, priorizando os contextos escolares e considerando fundamental nesse processo a configuração dos saberes que ali circulam (LEITE, 2007, p. 29, grifo meu). Leite (2007, p. 29) aborda uma questão que chama a atenção, justamente quando fala da “configuração dos saberes que ali circulam”. Dentro do ambiente escolar existem as relações de poder, e, segundo Bernstein, a partir desta segunda regra do discurso pedagógico, a regra de recontextualização, é que são criados seletivamente os sujeitos pedagógicos, mediante um processo de deslocação e recolocação do texto ou do documento. Assim, são definidos, então, como os sujeitos recontextualizadores, responsáveis por fazer as modificações nos textos ou documentos selecionados para serem incluídos no discurso pedagógico. Enquanto as regras de distribuição marcam e distribuem quem pode transmitir o quê, a quem e sob que condições, estabelecendo dessa forma os limites externos e internos do discurso legítimo, o discurso pedagógico constitui as regras de comunicação especializada que afetam a transmissão-aquisição diferencial (BERNSTEIN, 1996, p. 288). As regras de recontextualização são, portanto, derivadas das regras de distribuição. Essas regras vão reconfigurar determinado conhecimento a partir de relações, tanto de poder como de controle. Ao pesquisar sobre publicações relacionadas à teoria de Bernstein encontrei trabalhos que empregam o conceito de recontextualização para analisar a estrutura dos programas e currículos no ambiente escolar, fazendo relação ao que Bernstein 141 chama de Campo Recontextualizador Oficial (CRO), Campo Recontextualizador Pedagógico (CRP) e Contexto de Reprodução. Todavia, não encontrei trabalho algum que fizesse a relação entre os saberes docentes produzidos e recontextualizados pelos sujeitos que atuam neste ambiente. De tal modo, a ideia central aventurada na pesquisa é ver como os saberes docentes são recontextualizados na prática pela atuação dos tutores, considerando-os como parte efetiva da docência na modalidade a distância. Na sequência, delineio a proposta apresentada. Inicialmente, o discurso pedagógico é formado pelas regras de comunicação especializadas, a partir das quais são criados seletivamente os sujeitos pedagógicos. Desta forma, este discurso pedagógico é definido como as regras que relacionam dois discursos, o Discurso Instrucional (DI) e o Discurso Regulador (DR). O Discurso Instrucional é definido como aquele “que transmite as competências especializadas e sua mútua relação” (BERNSTEIN, 1996, p. 258), é o discurso das destrezas ou o discurso particularizado das disciplinas (LOPES, 2005). O Discurso Regulador é o responsável pela criação da ordem, da relação e da identidade especializadas, está relacionado ao discurso da moral e da transmissão de valores (ibidem). As regras recontextualizadoras constituiriam o cerne do discurso pedagógico, na medida em que, para Bernstein, este não é propriamente um discurso, estando mais próximo a um princípio de apropriação de outros discursos, com a finalidade específica de atender ao processo de transmissão e aquisição de conhecimentos – um princípio recontextualizador (LEITE, 2007, p. 32). “O discurso pedagógico é, pois, um princípio que tira (desloca) um discurso de sua prática e contexto substantivos e reloca aquele discurso de acordo com seu próprio princípio de focalização e reordenamento seletivos” (BERNSTEIN, 1996, p. 259). O seletivamente é fundamental, pois o próprio currículo, por exemplo, é uma seleção do conhecimento existente, vinculado ao DI. O discurso regulador modela, sustenta o discurso instrucional. O discurso instrucional é colocado numa base moral, não no vazio, e essa base moral é o discurso regulador, que diz respeito aos princípios de ordem, relação e identidade. Portanto, o Discurso Instrucional está embutido no Discurso Regulador, como mostra a Figura 32. 142 DI discurso DR discurso instrucional regulador Figura 32: Discurso Instrucional e Discurso Regulador Fonte: Bernstein (1996) Portanto, “o discurso pedagógico se constitui em um princípio de recontextualização, que, seletivamente, se apropria, reloca, refocaliza e relaciona outros discursos, para constituir sua própria ordem” (BERNSTEIN, 1998, p. 63). A partir, então, do princípio de recontextualização, são criados os campos de recontextualização e seus agentes. A teoria do discurso pedagógico de Bernstein (1996; 1998) é apresentada como um modelo, no qual o texto de determinado currículo ou programa manifesta o Discurso Pedagógico Oficial (DPO) produzido no Campo de Recontextualização Oficial (CRO) (Ministério de Educação, por exemplo) como consequência das várias influências dos campos do Estado, do controle simbólico e da economia, bem como de influências internacionais (MORAIS; NEVES, 2006). Nesta Tese, o Discurso Pedagógico Oficial é proposto de uma nova forma, porém também sendo influenciado de diferentes maneiras. A ideia não é analisar o currículo vigente no CLMD, mas sim os saberes docentes de um grupo de sujeitos que compõem a equipe docente do curso, os tutores a distância. Desta forma, faz sentido que, ao invés de escolher os programas oficiais do MEC, por exemplo, como fonte de dados do DPO, este seja configurado como sendo os saberes da formação inicial dos tutores, os quais são adquiridos durante a graduação. Saliento que, mesmo antes desta formação os tutores já têm adquiridos outros saberes, como Tardif (2011; 2012) expõe em sua teoria, como a história de vida e a formação escolar anterior, entre outros. O texto do DPO, considerando um currículo, um programa ou os saberes, sofre um processo de recontextualização no Campo de Recontextualização Pedagógica (CRP), no âmbito das instituições escolares, quando é utilizado na elaboração de livros, manuais ou planos de ensino, por exemplo, passando a assumir-se como Discurso Pedagógico de Reprodução (DPR). De forma semelhante, ao considerar os saberes da formação inicial como o DPO na tese, a recontextualização acontece no CRP, sendo este considerado o próprio CLMD, curso para o qual o tutor foi selecionado para trabalhar. O DPR será os saberes constituídos na formação que os tutores receberam para atuarem na educação a 143 distância, a partir das capacitações. Deste DPR, o foco é os saberes docentes que ele vai adquirindo, de forma implícita ou explícita, conforme a recontextualização realizada pelos professores do curso. Esses saberes são do tipo disciplinares, vinculados aos conceitos e conhecimentos específicos, curriculares, conforme o discurso da IES, seus objetivos e métodos e de formação profissional (ou pedagógicos), relacionados as ciências da educação e a ideologia pedagógica. A Figura 33 mostra os níveis de recontextualização de acordo com a teoria de Bernstein (1996). Figura 33: Níveis de Recontextualização Fonte: Elaboração da autora, adaptado dos materiais do ESSA Ainda, complementando a figura anterior, no Contexto de Reprodução, como é o contexto da escola ou da sala de aula, quer o texto do programa ou currículo (DPO), quer o texto dos livros, manuais escolares ou planos de ensino (DPR), são objetos de recontextualização ao nível das práticas pedagógicas dos professores. Aqui, a prática pedagógica considerada é também de alguém que exerce a docência, porém não dos professores, e sim dos tutores, sujeitos deste estudo e que compõem a equipe polidocente. A ideia apresentada é que esses tutores, professores licenciados em sua formação inicial, façam a recontextualização dos saberes docentes que mobilizaram, adquiriram e/ou construíram durante sua trajetória de formação inicial, bem como na trajetória pessoal e profissional e na formação específica recebida pelo CLMD para atuarem como tutor, para os 144 utilizarem na atuação docente na modalidade a distância. Então, o foco da pesquisa é ver como essa recontextualização de saberes, de fato, acontece, visto que os tutores fazem parte de uma equipe docente, porém inserida numa outra modalidade de ensino, que apresenta suas especificidades. Estes processos de recontextualização, que têm lugar sempre que há um deslocamento do texto de um contexto para outro, conduzem a modificações do texto cujo sentido e grau refletem, entre outros fatores, os princípios pedagógicos dos sujeitos dos respectivos campos e as influências resultantes das interações sociais que se estabelecem entre agentes do mesmo campo e de campos diferentes (MORAIS; NEVES, 2006). O texto original, aqui reconfigurado pelos saberes da formação inicial, também sofre essas modificações, sendo constantemente mobilizados, adquiridos e/ou construídos, mediante a interação cotidiana com os alunos e/ou demais sujeitos do processo pedagógico, bem como quando da prática docente, que no caso dos sujeitos tutores a distância, é realizada praticamente na forma virtual. Ainda, esses saberes são mobilizados, adquiridos e/ou construídos no agir de cada tutor, nas suas experiências pessoais ou profissionais fora do âmbito da EaD. Portanto, “existe assim um potencial espaço de mudança quando se passa de contexto para contexto, ao longo do sistema educativo” (MORAIS; NEVES, 2006, p. 76). Desta forma, a recontextualização dos saberes acontece. Como? Veremos isso na sequência do texto, a partir da análise dos dados coletados. Bernstein vê a complexidade no campo de recontextualização “na medida que admite que tanto os processos de produção, quanto os de recontextualização podem acontecer em outros contextos do sistema educacional” (LEITE, 2007, p. 32), exemplificado pela ideia deste trabalho. Para sintetizar a proposta feita em relação ao modelo dos níveis de recontextualização aplicados à Tese, apresento a Figura 34. 145 Figura 34: Níveis de Recontextualização aplicados à tese Fonte: Elaboração da autora, adaptado dos materiais do ESSA Como exemplo do discurso recontextualizador, Araujo (2002) traz uma situação do cotidiano escolar. Ela argumenta que antes de começar uma atividade com os alunos na sala de aula, “o professor especifica como ela deverá ser realizada, com o que se relaciona e para que serve. O aluno precisa seguir as regras específicas do professor para que o trabalho seja validado” (ARAUJO, 2002, p. 65). Assim, o discurso pedagógico representa “o conjunto de regras de recontextualização do aparelho pedagógico que regulam a constituição dos discursos pedagógicos específicos” (DOMINGOS et al, 1986, p. 290). Outro exemplo interessante é descrito por Bernstein durante uma entrevista em 1998, na qual aborda questões sobre sua quinta obra. Nesta o autor menciona que pediu para alguns alunos analisarem diferentes livros de um mesmo conteúdo e apontar as diferenças. Após analisarem, questionou-os o motivo de existir livros didáticos distintos de um mesmo assunto para faixas etárias diferentes, com diferentes tipos de escrita, imagens e organização dos capítulos. “Desse modo tentarei tacitamente, e não de modo direto, conseguir que os estudantes 146 compreendam que o texto pedagógico é o texto recontextualizado e que este texto vem de diferentes autores, com diferentes posturas” (BERNSTEIN apud ESPANYA; FLECHA, 1998, p. 87). Na Tese, parti da premissa que o tutor recontextualiza os seus saberes docentes. De que forma? As hipóteses iniciais eram relacionadas à comunicação, interação e formas de atendimento ao aluno, vinculadas aos saberes disciplinares, curriculares, de formação profissional e da experiência. Fazendo uma relação à teoria de Tardif, “ensinar, de certa maneira, é sempre fazer algo diferente daquilo que estava previsto pelos regulamentos, pelo programa, pelo planejamento, pela lição” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 43), o que na argumentação de Bernstein, é recontextualizar. 4.3.3. Regras avaliativas As regras de avaliação são aquelas que regulam a transformação do discurso pedagógico em uma prática pedagógica, estando submetidas hierarquicamente as regras de recontextualização e de distribuição, conforme visto na Figura 31. O nível da recontextualização cria o DI/DR seletivamente, de forma a produzir uma especialização de tempo, de texto e de espaço, na sua configuração mais abstrata. De forma mais compreensível, pode-se transformar o tempo em idade, levando o DI/DR a uma divisão por faixas etárias, sequencialmente relacionadas. O texto será modificado em um conteúdo vinculado à idade. Assim, o espaço depende do contexto histórico a ser considerado. Analisando esses três itens no nível das relações sociais da prática pedagógica, tem-se que “a idade se transforma em aquisição. O conteúdo se transforma em avaliação. O contexto se transforma em transmissão” (BERNSTEIN, 1996, p. 263). 147 Figura 35: Divisão da Prática Pedagógica Fonte: Bernstein, 1996, p. 263. A concretização das especializações de tempo (idade), de espaços (contextos) e de textos (conteúdos) é efetivada na prática contínua das avaliações realizadas nas salas de aula, como ilustra a Figura 35, onde são consideradas as relações verticais e horizontais presentes. É o acompanhamento contínuo. “Todos os discursos pedagógicos necessitam ser recontextualizados, obedecendo a uma hierarquia, uma sequência e ritmo, de acordo com o tempo, a idade e o contexto específicos” (ARAUJO, 2002, p. 66). O dispositivo pedagógico é assim ordenado como uma gramática que regula as relações no interior e entre esses três níveis, sendo suas fronteiras dependentes do contexto. “O aparelho pedagógico, ao regular a relação entre as regras de distribuição, de recontextualização e de avaliação, estabelece a relação entre poder76, conhecimento e consciência e, desta forma, constitui um instrumento crucial de reprodução cultural” (MORAIS; NEVES, 2007, p. 121). A teoria de Bernstein é extensa e possui tanto potencial teórico como metodológico. Como o objetivo foi utilizar apenas pequena parte de sua teoria na construção da Tese e análise dos dados, vou me deter em detalhar estes conceitos. Deixo como recomendação as obras de Bernstein (1996; 1998), Domingos et al (1986), Santos (2003), Morais (1992; 2004), Morais e Neves (2007), Morais et al (1993), Leite (2007) para aqueles que ambicionam aprofundar-se no estudo da teoria bernsteniana. 76 Grifos no original. 148 Capítulo 5: Horizontes delimitados: o que e o como foi feito A produção intelectual é ardilosa, por ser flutuante e escorregadia. Ela oscila e tem caprichos. O que chamamos de inspiração é a capacidade de reter e ampliar, com um toque próprio e único, um flash ou um insight, uma coisinha de nada que atravessa o nosso pensamento e pode fugir. Maria Ester de Freitas A pesquisa é concebida como um procedimento formal, onde o pesquisador reflete sistematicamente sobre os dados obtidos, de forma a buscar novas contribuições, fatos, relações para mostrar a sociedade, de acordo com o seu campo de conhecimento e atuação (MARCONI; LAKATOS, 2010). Quando se fala de pesquisas de doutorado, relacionadas à construção e escrita de uma tese, questionava-me, o que de fato é uma tese? Encontrei esta definição: “uma tese consiste num trabalho datilografado, com extensão média entre cem e quatrocentas laudas, na qual o estudante aborda um problema relacionado com o ramo de estudos em que pretende formar-se” (ECO, 2010, p. 1). Assim, ao realizar minha pesquisa de Tese de Doutorado em Educação, segui a definição e optei por um assunto que me interessava e estava relacionado ao meu ramo de estudos e fazer diário, a tutoria na Educação a Distância. Logo, busquei a partir da minha pesquisa analisar o que os tutores da EaD dizem e pensam a respeito de seus próprios saberes docentes e como fazem a recontextualização desses do ensino presencial para o ensino a distância. De forma a alcançar este objetivo, segui as orientações de Marconi e Lakatos (2010) sobre a eficiência de uma tese, a qual deve ser um trabalho original e observar três regras básicas: precisão, referente aos dados utilizados do início ao fim da pesquisa; exaustão, ou seja, esgotar o assunto, fazendo anotações pertinentes e que podem ser utilizadas no decorrer da escrita, limitando-se ao tema do trabalho; clareza, mostrando um texto inteligível, limpo, distinto, o que deve perpassar toda a escrita, incluindo a análise dos dados e as contribuições do pesquisador. Pois, “o objetivo, para quem escreve para os outros, é dar informações precisas e sérias, de modo simples, direto, objetivo e bem definido” (MARCONI; LAKATOS, 2010, p. 229). 149 Para tal, optei por considerar como saberes docentes tudo o que os sujeitos de minha pesquisa, os tutores, disseram sobre o assunto, do ensino às atividades que realizam, ou seja, os saberes mobilizados, construídos, adquiridos e/ou modificados, os quais remetem às suas experiências enquanto docentes. Os saberes relativos à sua experiência pessoal, acadêmica e profissional. Isto porque acredito na capacidade argumentativa das pessoas sobre suas práticas e vivências, estando consciente das limitações aí envolvidas. Por isso, também utilizei a observação assistemática da prática dos tutores, registrada no diário de campo da pesquisadora. Ao pensar na Tese e no caminho percorrido para fazê-la – planejar, ler, buscar, coletar e analisar dados, escrever e reescrever – me deparei com o texto de Maria Ester de Freitas (2012), intitulado “Viver a tese é preciso”. Nesse, a autora argumenta de forma agradável e lúdica a realidade enfrentada por todos os fazedores de tese77, com as dificuldades que aparecem à maioria, senão a todos os que se propõe a fazer um trabalho de tal natureza. Expõe ainda que “desenvolver uma tese é um ato criador que, além de conhecimentos gerais e específicos, exige uma paciência que nem todos estão dispostos a exercitar” (FREITAS, 2012, p. 227). Deste texto destaco a importância de ter feito minha Tese de forma séria, porém vivenciando-a a cada minuto com prazer, para que o resultado do trabalho fosse satisfatório e gratificante. E, ainda, que “a nossa capacidade de pensar ordenadamente necessita de treino, um fio condutor e estímulos concretos, que provêm em grande parte de uma boa bibliografia” (ibidem, p. 228), concluindo que “a maior parte dos fazedores de tese sai dela muito, muito melhor do que entrou” (FREITAS, 2012, p. 234). Desta forma, escolhi a pesquisa de caráter qualitativo para minha Tese em Educação, onde o pesquisador busca entender os fenômenos, de acordo com a percepção dos sujeitos envolvidos, para, a partir daí situar sua interpretação sobre o assunto. Este tipo de pesquisa possui algumas características, a saber, o ambiente natural como fonte de dados, o pesquisador como peça fundamental, o caráter descritivo e o enfoque indutivo (NEVES, 1996). A pesquisa qualitativa, assim como qualquer outra, pode apresentar problemas, dentre os quais destaco a utilização da linguagem na forma de expressar 77 Termo utilizado pela autora para aqueles que estão no processo de escrita de um trabalho de tese. 150 as ideias e a necessidade de codificá-las para que a análise possa ser feita. Para atenuar possíveis dificuldades como a confiabilidade e a validação dos resultados é sugerido seguir quatro critérios: utilizar materiais com credibilidade comprovada, transcrever os dados de forma fiel, considerar os elementos que compõem o contexto de análise e garantir a possibilidade de verificar posteriormente os dados pesquisados (NEVES, 1996). Seguindo as orientações indicadas, o número de pesquisas qualitativas de qualidade confiável vem crescendo, de forma que “os estudos qualitativos têm hoje lugar assegurado como forma viável e promissora de investigação” (ibidem, p. 4). Assim, esta pesquisa qualitativa foi caracterizada como um estudo de caso, devido a sua linearidade, com possibilidades de interatividade, conforme as etapas propostas por YIN (2010), ilustrado na Figura 36. Figura 36: Estudo de Caso Fonte: YIN, 2010, p. 21 Como qualquer tipo de pesquisa, o estudo de caso possui vantagens e limitações, tendo sido importante conhecê-las para melhor aproveitar os dados e as situações que apareceram ao longo do trabalho e, saber justificar o porquê de cada uma das etapas. Um fato a salientar é que o estudo de caso precisa de uma revisão bibliográfica minuciosa, atenta àquilo que foi proposto como questão e objetivos do trabalho. Nesta pesquisa, foi feita esta revisão a partir dos conceitos de Educação a 151 Distância, tutoria e polidocência, saberes docentes e, ainda, sobre a teoria de Basil Bernstein. Este tipo de pesquisa é amplamente utilizado na área da educação, pois permite aos investigadores reterem as características holísticas e significativas das situações da vida real propostas para análise (YIN, 2010), ou seja, avalia o todo levando em consideração as partes e suas inter-relações. Na pesquisa, o todo foi percebido como os saberes docentes que o grupo de tutores possuía e a análise foi realizada a partir da percepção que estes sujeitos tinham a respeito desses saberes e como eles influenciaram suas atuações na EaD. Foram levadas em consideração as histórias de vida e a formação acadêmica e profissional de cada um, bem como a atuação do grupo na sede do curso. O estudo de caso é escolhido quando a pesquisa aborda eventos contemporâneos, porém que não podem ser manipulados, como nesta Tese. Ainda, neste tipo de pesquisa são incluídas duas fontes de coleta de dados fundamentais: a observação direta da situação analisada, concretizada a partir da prática dos tutores no laboratório e registrada no diário de campo da pesquisadora, e entrevistas com os sujeitos envolvidos, realizadas após uma prévia seleção a partir das respostas dadas no questionário online, sendo que estas três fontes de coletas de dados foram descritas e detalhadas na sequência deste texto. Yin (2010), após uma discussão inicial, onde busca diferenciar o estudo de caso dos demais tipos de pesquisa, propõe uma definição dividida em duas partes, sendo: O estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo em profundidade e em seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não são claramente evidentes (p. 39). (...) A investigação do estudo de caso enfrenta a situação tecnicamente diferenciada em que existirão muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados, e, como resultado conta com múltiplas fontes de evidência, com os dados precisando convergir de maneira triangular, e como outro resultado beneficia-se do desenvolvimento anterior das proposições teóricas para orientar a coleta e a análise de dados (ibidem, p. 40). Na sequência, é importante que ao se planejar um estudo de caso se considere os cinco componentes essenciais, conforme Yin (2010): 1) as questões de estudo, através das quais se determina o tipo de questão, relacionada ao “como” ou 152 ao “porque” referente ao método de pesquisa; 2) as proposições, se houver, que podem ser entendidas como a tese ou as hipóteses do trabalho; 3) a unidade de análise, que é considerada o “caso” determinado como o foco, sendo importante, após defini-lo, determinar também os sujeitos, o local e o tempo envolvidos na pesquisa; 4) a lógica que une os dados às proposições, o que se refere a forma como se planeja analisar as informações coletadas; e 5) os critérios para a interpretar as considerações, propondo algumas questões que poderão auxiliar na hora de analisar esses dados. Desta forma, “quanto mais um estudo de caso contiver questões e proposições específicas, mais ele permanecerá dentro dos limites viáveis” (ibidem, p. 51). Assim, conforme Yin (2010), esta pesquisa é um estudo de caso, pois a questão para a qual busquei resposta está relacionada ao “como” o tutor a distância do CLMD recontextualiza os seus saberes docentes na atuação em Educação a Distância. Desta forma, parti do pressuposto que a recontextualização de fato ocorre, buscando o “como” isso acontece. Existia o desejo de compreender um fenômeno social complexo e contemporâneo no contexto em que estava inserido. Portanto, meu caso é definido como uma busca ao “como” a recontextualização dos saberes docentes dos tutores acontece no âmbito da Educação a Distância. Neste estudo, o local investigado é o Curso de Licenciatura em Matemática a Distância da UFPel, os sujeitos são os tutores a distância do curso e a coleta de dados aconteceu num período de seis meses, de outubro de 2012 a março de 2013. Essas informações serão detalhadas na sequência. A partir desta caracterização do estudo de caso, proposta por Yin (2010), detalho o local da pesquisa e como foi feita a escolha dos sujeitos. A pesquisa realizou-se na sede do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD) da Universidade Federal de Pelotas. Como descrito no capítulo 1, este foi o curso pioneiro na modalidade EaD na instituição. A motivação pela escolha do CLMD como o local de pesquisa se deve ao fato de ter sido meu primeiro ambiente de atuação docente, desenvolvendo a atividade de tutora. Ainda, por hoje ser professora efetiva da IES e ter um vínculo afetivo com o curso. Também destaco a importância do CLMD dentro de uma instituição renomada nacionalmente como a UFPel, visto ser o primeiro curso na modalidade a distância, com abrangência nos três estados da Região Sul, totalizando 34 cidades onde o curso é ou foi oferecido, 153 totalizando 49 turmas78 atendidas. Já realizou várias cerimônias de formatura, com mais de 150 alunos graduados, sendo reconhecido pela sua qualidade pedagógica e gerencial tanto na sede como nos polos. A pesquisa no CLMD me motivou, ainda, pelo fato de poder ter trabalhado com um número considerável de profissionais que participam da docência, os tutores. Assim, os sujeitos escolhidos são exatamente estes profissionais, os quais muitas vezes não são reconhecidos pelo trabalho que realizam junto ao curso e aos milhares de alunos, sendo que para Mill (2012, p. 54), “o tutor virtual79 é o principal docente do teletrabalho pedagógico”. Desta forma, optei por não trabalhar com os tutores presenciais por entender, neste momento, que a tutoria presencial está atuando de forma muito similar a de um professor presencial, o que descaracterizaria a ideia inicial. Assim, nesta pesquisa os sujeitos escolhidos são somente os tutores a distância que atuam na sede do curso em Pelotas, que no momento totalizavam 50 sujeitos80. Relacionado à coleta de dados é importante destacar três princípios, de acordo com Yin (2010, p. 127): “a) o uso de múltiplas fontes de evidência, não apenas uma; b) a criação de um banco de dados do estudo de caso; c) a manutenção de um encadeamento de evidências”. Assim, a coleta de dados desta pesquisa realizou-se em três etapas: através de questionário online, de entrevista semi-estrutura e da observação assistemática da prática dos tutores no laboratório, registrada no diário de campo da pesquisadora, durante o período de novembro de 2012 a março de 2013. Desta forma, buscou-se a variedade de fontes de coleta dos dados, como sugerido por Yin (2010). Ainda, conforme argumenta o autor, as informações obtidas foram organizadas num banco de dados, incluindo anotações de como elas conversavam entre si. O primeiro instrumento da coleta de dados foi o questionário online81 (Apêndice 1). Este era composto de questões abertas, fechadas e de múltipla escolha, versando sobre os seguintes tópicos: dados de identificação, formação 78 Dados do segundo semestre de 2012. Grifo no original. 80 Quando da defesa da qualificação do projeto, em dezembro de 2012, o grupo era composto de 51 tutores, porém uma tutora pediu para ser desligada por motivos particulares. Assim, o grupo considerado, no início de janeiro de 2013, tinha exatos 50 tutores a distância. 81 Questionário online disponível em: <https://docs.google.com/spreadsheet/formResponse?formkey= dE9qZ05LRkJpaWdKQzN2cFdVb01XQUE6MQ&theme=0AX42CRMsmRFbUy0xOGQxNWI3Yi01NzQ zLTQ1ZjUtOTk4OS1kODRlZWIwNjMxZTU&ifq>. 79 154 acadêmica e complementar, experiência docente (presencial e virtual), saberes docentes e a tutoria em EaD. Foi enviado um email82 para todos os tutores a distância do CLMD, no qual estava contido o link de acesso para o mesmo. Este questionário foi elaborado utilizando a ferramenta do Google Docs 83, disponível gratuitamente na internet. O questionário teve por objetivo fazer um levantamento da percepção dos tutores sobre a sua prática na tutoria e sobre os saberes que mobilizam no seu trabalho. Ao escolher o questionário como fonte de coleta de dados estava ciente que o mesmo possuía vantagens e desvantagens relacionadas à sua aplicação, de acordo com Marconi e Lakatos (2010). As vantagens que me fizeram escolher esse meio de coletar dados foram: economia de tempo e possibilidade de alcançar um maior número de pessoas, neste caso, a totalidade dos tutores a distância do CLMD; maior tempo para o sujeito responder; menor o risco de distorção pela não influência do pesquisador; obtenção de respostas de forma rápida e precisa. Sobre as respostas, devido ao fato de o questionário ser online, foi possível “baixá-las” para uma planilha Excel sem a necessidade de transcrição ou digitação, o que representa uma vantagem significativa. Algumas das desvantagens apresentadas pelas autoras a esse instrumento referem-se à pequena percentagem de questionários que retornam, alcançando uma média de devolução em torno de 25%, muitos com questões sem respostas; impossibilidade de esclarecer eventuais dúvidas sobre as questões; as respostas podem ser produzidas por outra pessoa, o que prejudicaria a validade do mesmo. Apesar de algumas desvantagens, dos 50 tutores a distância do CLMD, 35 responderam o questionário, totalizando 70% do número total, o que pode ser considerado um retorno significativo conforme Marconi e Lakatos (2010). Além disso, como bem argumentam as autoras, junto ao envio do questionário escrevi uma breve explicação sobre os objetivos dessa pesquisa e o contexto na qual estava inserida, o que pode ter motivado alguns tutores ao preenchimento, visto que este trabalho refere-se diretamente a sua atuação. O questionário online ficou disponível durante o mês de novembro de 2012. Após categorização preliminar dos dados, entre os respondentes do mesmo foram 82 Email enviado no dia 29 out. 2012. A plataforma do Google Docs oferece algumas possibilidades de “temas” para os questionários. Como nenhuma dos temas disponíveis me remeteu ao ambiente da educação a distância, optei pela imagem do livro, que remete aos processos educativos de forma geral. 83 155 selecionados os sujeitos a serem entrevistados. Foram estabelecidos três critérios para a escolha dos sujeitos. O primeiro está relacionado ao edital de seleção para ingresso no curso. O objetivo deste critério foi selecionar tutores que ingressaram nos diferentes momentos do curso. O segundo critério foi contemplar entre os entrevistados tutores que se entendem como professores e outros que não compreendem seu trabalho como um trabalho docente. Este critério foi possível a partir da aplicação de uma pergunta específica que fazia parte do questionário. O último critério está relacionado ao tempo de docência. O objetivo foi contemplar tutores em diferentes fases quanto a sua vida profissional, levando em consideração a relação que Tardif (2011) estabelece entre os saberes, o tempo e a aprendizagem do trabalho no magistério. Os critérios selecionaram 12 tutores para participarem da entrevista, a qual foi realizada nos meses de fevereiro e março do corrente ano. Assim, o segundo instrumento de coletas de dados foi a entrevista semiestruturada (Apêndice 2). Ela pretendeu aprofundar os tópicos anteriores, buscando na fala dos tutores elementos enriquecedores que, no momento de análise, foram utilizados na busca das respostas pretendidas por esta investigação. Ainda, esta entrevista foi previamente organizada a partir de questões essenciais, deixando uma margem para possíveis inserções, conforme o transcorrer dos trabalhos. A entrevista também se torna um momento de organização das ideias e de construção de um discurso para um interlocutor, o que já caracteriza o caráter de recorte da experiência e reafirma a situação de interação como geradora de um discurso particularizado. Esse processo interativo complexo tem um caráter reflexivo, num intercâmbio contínuo entre significados e o sistema de crenças e valores, perpassados pelas emoções e sentimentos dos protagonistas (SZYMANSKI; ALMEIDA; PRANDINI, 2004, p. 14). Com a entrevista semi-estruturada, organizada de acordo com os objetivos propostos na pesquisa, foi possível estabelecer um diálogo enriquecedor com os sujeitos, esclarecendo possíveis dúvidas referentes ao questionário e ao tema do trabalho, sendo uma fonte essencial de coleta de dados no estudo de caso, conforme Yin (2010). Saliento que, dentre os 12 sujeitos selecionados para a entrevista, foi possível somente a realização de dez, sendo que dois sujeitos não retornaram os diversos emails enviados pela pesquisadora nos meses de fevereiro e março do corrente ano. Desta forma, entendeu-se pelo seu não interesse em participar desta segunda etapa da pesquisa. 156 As entrevistas tiveram uma média de 32 minutos cada, e foram transcritas pela própria pesquisadora, entendendo que a transcrição faz parte do processo de análise. O processo de transcrição da entrevista é também um momento de análise, quando realizado pelo próprio pesquisador. Ao transcrever, revive-se a cena da entrevista, e aspectos da interação são relembrados. Cada reencontro com a fala do entrevistado é um novo momento de reviver e refletir. O texto de referência pode incluir as impressões, percepções e sentimentos do pesquisador durante a entrevista e transcrição (SZYMANSKI; ALMEIDA; PRANDINI, 2004, p. 74). Para complementar o questionário e as entrevistas, o terceiro e último instrumento de coletas de dados foi a observação assistemática da prática destes no laboratório, a partir dos registros no diário de campo da pesquisadora. Essa observação assistemática ou não estruturada permite que o pesquisador registre os fatos observados na realidade sem a utilização de meios técnicos para isso ou a necessidade de questionamentos diretos aos sujeitos. Não existe um planejamento do que e do como observar (MARCONI; LAKATOS, 2010). Segundo as autoras, o sucesso desta observação vai depender muito do próprio observador, de sua perspicácia, discernimento, preparo e prontidão para a observação e registro dos dados, mantendo-se sempre fiel àquilo que foi presenciado. É importante salientar que neste tipo de observação, de modo geral, o pesquisador sabe o que observar, de acordo com os objetivos propostos. No caso de minha pesquisa, busquei registrar no diário de campo a rotina dos tutores do CLMD que trabalham no Laboratório de Ensino de Matemática a Distância (Lemad), durante o segundo semestre84 letivo de 2012, visto que alguns cumprem sua carga horária no prédio do CEAD. Apesar da importância das observações para a pesquisa, saliento que o instrumento não foi eficaz como se esperava, visto alguns imprevistos. 1) A internet no prédio do Lemad estava instável, desta forma os tutores foram “liberados” de cumprir sua carga horária semanal total (20h) no prédio, sendo exigido somente 8h no local; 2) A pesquisadora não tinha a possibilidade de observação a noite, por motivos particulares; 3) A concentração de tutores acontecia às quintas-feiras, tarde e noite, devido a reunião semanal do Eixo de Geometrias: Espaço e forma, que iniciava as 18h; 4) Muitos tutores não estavam cumprindo a carga horária mínima 84 O segundo semestre letivo de 2012 na UFPel começou dia 05 de novembro e foi até final de março de 2013. 157 exigida no local; 5) Alguns cumpriam essa carga horária no CEAD; 6) Período de férias nas escolas; 7) Problemas estruturais no laboratório, como vazamentos. Assim, posso resumir que a maioria dos dias de observação, seja manhã ou tarde, com exceção das quintas-feiras, o número de tutores que apareciam no laboratório era de um ou dois sujeitos. Sua rotina era chegar, ligar o computador, acessar o AVA Moodle e ver se haviam mensagens, dúvidas ou pendências. Também checavam sua caixa de emails. Ainda, utilizavam o tempo para a correção das atividades propostas, avaliativas ou não. Nestes dias, era percebida pouca interação, devido ao número restrito de pessoas. Em algumas tardes, com horários pré-agendados, os professores referências (PPs) se reuniam com os tutores que estavam sob sua responsabilidade, para ver o andamento das atividades no eixo e, normalmente, para resolver pendências, a maioria vinculada às avaliações. Os tutores que trabalhavam com as disciplinas geralmente conversavam com os professores pesquisadores responsáveis pelas mesmas só por email85. Às quintas-feiras, como as reuniões do Eixo eram semanais e iniciavam às 18h, a partir do começo da tarde os tutores iam chegando, pois desta forma cumpriam sua carga horária mínima exigida (8h) em somente um dia. Nessas tardes o laboratório ficava lotado, às vezes faltando máquinas. Porém, muitos tutores aproveitavam para discutir as avaliações e gabaritos propostos, trocar ideias sobre avaliações “obscuras”, sobre as quais não tinham certeza de como agir, apesar do gabarito. Nestes dias foi possível perceber grupos de estudos e uma interação maior entre os tutores que atuavam no Eixo. A comunicação entre eles era tranquila. Os professores referência, dentro do possível, também participavam dessas reuniões, e procuravam chegar um pouco antes das 18h para dar atendimento ao grupo de tutores sobre sua responsabilidade. Todos os 35 tutores a distância assinaram um termo de autorização referente ao questionário e as observações (Apêndice 3) e os sujeitos entrevistados assinaram um termo de autorização específico para a entrevista (Apêndice 4), nos quais concordavam em participar da pesquisa de forma espontânea, autorizando a 85 Esse fato aconteceu com a pesquisadora, que ministrou a disciplina de Matemática Elementar B neste semestre e conversou com sua tutora somente por emails. O trabalho transcorreu sem haver problemas. 158 pesquisadora a trabalhar com esses dados de acordo com os seus objetivos acadêmicos, além da possibilidade de publicações futuras. Assim, feita uma descrição de como os dados foram coletados, é fundamental falar de como foi realizada sua análise. Nesta etapa, então, utilizei duas teorias, Análise de Conteúdo, de Laurence Bardin (2011) e o conceito de dispositivo pedagógico de Basil Bernstein (1996; 1998), focando a regra da recontextualização. Primeiramente vou descrever o que é e como funciona a Análise de Conteúdo. De acordo com Bardin, Análise de Conteúdo é Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens (BARDIN, 2011, p. 48). Portanto, a análise de conteúdo busca conhecer aquilo que está escondido nas palavras sobre as quais a análise é realizada. Desta forma, podem-se caracterizar duas funções deste tipo de análise: a função heurística e a função de administração da prova. Na função heurística a análise de conteúdo valoriza a exploração dos dados, aumentando a capacidade para a descoberta. “É a análise de conteúdo ‘pra ver o que dá’” (ibidem, p. 35). Na função de administração da prova, a partir de hipóteses, sendo essas questões ou afirmações temporárias, servem como um guia, recorrendo ao método de análise sistemática a fim de serem conferidas, em sentido afirmativo ou não. “É a análise de conteúdo ‘para servir de prova’” (BARDIN, 2011, p. 36). A partir disso, a análise de conteúdo está divida em três fases: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação, conforme se pode observar na Figura 37. 159 Figura 37: Desenvolvimento de uma análise Fonte: BARDIN, 2011, p. 132 A pré-análise possui três objetivos: 1) a escolha dos documentos a serem submetidos à análise, 2) a definição das hipóteses e dos objetivos e, 3) a elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final (BARDIN, 2011). 160 Pela figura anterior, a pré-análise começa com uma leitura flutuante, a qual é feita para se estabelecer o contato com os documentos que serão analisados, conhecendo os textos e deixando-se por eles invadir, sendo tocado por impressões e as primeiras percepções. Aos poucos, a leitura deixa fluir mais precisão, em função das hipóteses e da perspectiva de utilização das teorias escolhidas. É a partir desta leitura flutuante que os documentos são nomeados. No caso desta Tese, os materiais foram escolhidos em função dos objetivos propostos, constituindo assim o corpus de meu trabalho. Portanto, o corpus foi constituído pelos questionários online, pelas entrevistas e pelo registro das observações da prática dos tutores, através do diário de campo da pesquisadora. Para essa composição do corpus foram observadas quatro regras: 1) regra de exaustividade, ou seja, não deixar de fora qualquer elemento essencial; 2) regra da representatividade, quando a análise for realizada numa amostragem, que será rigorosa se for parte representativa do universo inicial (não aplicada nesta pesquisa); 3) regra da homogeneidade, referente à precisão de critérios para a escolha dos documentos; e 4) regra de pertinência, relacionada à relação dos documentos escolhidos de modo a alcançar os objetivos propostos inicialmente. Nesta etapa é importante a formulação de hipóteses e objetivos. Bardin (2011) define hipótese como uma afirmação provisória, para a qual buscamos validação ou negação, por meios dos procedimentos analíticos, sendo que o objetivo é a finalidade geral que se deseja atingir. Em minha pesquisa, o objetivo geral é investigar como os tutores a distância do CLMD recontextualizam os seus saberes docentes na atuação em EaD, pois parti do pressuposto de que existe sim a recontextualização desses saberes de uma modalidade de ensino para a outra. Quando estes dois pontos estão bem definidos é possível imaginar a dimensão e a direção que a análise vai seguir. Na sequência, devem ser escolhidos os índices que perpassam o texto, os quais serão explicitados pela análise e organizados sistematicamente em indicadores. Essa escolha deverá estar de acordo com o pressuposto adotado para a pesquisa. Uma vez escolhidos os índices, procede-se à construção de indicadores precisos e seguros. Desde a pré-análise devem ser determinadas 86 operações de recorte do texto em unidades comparáveis de categorização 86 Grifos no original. 161 para análise temática e de modalidade de codificação para o registro dos dados (BARDIN, 2011, p. 130). Para garantir a eficiência e a pertinência dos indicadores escolhidos é aconselhável testá-los em pequenas passagens dos documentos pertencentes ao corpus de análise. Cumpridas as etapas, é preciso preparar o material para começar a análise. Essa preparação refere-se a, por exemplo, transcrever as entrevistas que tenham sido realizadas, conservando as gravações originais para possíveis esclarecimentos, organizar as respostas abertas em fichas, entre outros. É bom contar com cópia de todos os materiais, os quais se aconselha estarem numerados. Assim, executando as diferentes operações proposta na pré-análise, conforme a Figura 37, a fase de análise propriamente dita, ou seja, a exploração dos materiais, refere-se à administração sistemática das escolhas realizadas no corpus da pesquisa. É uma fase longa e que exige dedicação do pesquisador. Consiste basicamente em fazer codificações, decomposições e/ou enumerações, em função dos objetivos previamente formulados. A terceira e última fase, o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação, é aquela onde os resultados brutos são lapidados de forma a tomarem significado para a pesquisa feita e, ainda, serem validados. Quando a pesquisa for de caráter quantitativo, nesta fase os dados são submetidos a provas estatísticas e testes de validação, o que não se aplica neste trabalho visto seu caráter qualitativo. Após os dados adquirirem significado pertinente e responderem à questão proposta, seja afirmando-a ou não, esses são selecionados de forma a melhor mostrar o resultado à comunidade, fazendo as inferências e incluindo, também, a interpretação do pesquisador. Desta forma, está concluída a análise, sendo seus resultados utilizados para fins teóricos ou pragmáticos ou, então, revendo orientações para dar início novamente ao processo, buscando uma nova análise. A partir da análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), as categorias de análise foram construídas de forma apriori, ou seja, antes dos dados serem coletados. Essas categorias foram vinculadas ao objetivo geral e aos objetivos específicos definidos. Os dados coletados e pertinentes à pesquisa foram, de certa forma, contemplados nessas categorias. Para elucidar a questão, nomeio as cinco categorias definidas, analisadas no próximo capítulo: 162 Ser tutor na EaD; O que são os saberes docentes para os tutores? Saberes docentes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na atuação como tutores a distância no CLMD; Saberes docentes específicos na atuação da tutoria em EaD; A recontextualização dos saberes docentes dos tutores na EaD. A teoria de Bernstein (1996) foi utilizada para análise já no capítulo quatro, onde apresentei inserções das falas dos tutores relacionadas aos conceitos definidos da teoria bernsteniana que não eram o foco da Tese, a saber, código, classificação e enquadramento. Porém, sua teoria foi utilizada, predominantemente, na quinta categoria definida, quando explorei os saberes docentes recontextualizados na percepção dos tutores. Assim, o campo metodológico da pesquisa é rico, sinuoso e possui inúmeros detalhes que devem ser considerados cuidadosamente, de forma a alcançar um trabalho de qualidade, que seja reconhecido pela academia e pelos pares. Essa foi a minha intenção ao escrever o próximo capítulo, onde apresento a análise dos dados propriamente dita e a percepção obtida sobre os achados desta caminhada. 163 Capítulo 6: A percepção dos tutores nesta caminhada: um relato Um mar de informações. Dados lidos, relidos, vividos e remoídos no consciente e subconsciente, dia após dia, noite após noite [e madrugadas], por algum considerável tempo. E o resultado disso? Algumas categorias construídas, encadeadas na sequência, com os resultados obtidos. Muitas experiências boas, entrevistas surpreendentes e reveladoras, momentos de escrita fluente. Situações difíceis, com ideias turbilhando na mente, mas que não eram tão simples de serem transpostas para a tela do computador. Entendi o que significa “viver a tese” (FREITAS, 2012). Nesta caminhada composta de muitos elementos e incertezas, eis que a escrita, enfim, fluiu. Após os capítulos iniciais, focados especialmente nas teorias utilizadas para embasar a Tese e na metodologia, neste último capítulo apresento a análise à luz da percepção dos próprios sujeitos. A fim de facilitar a compreensão do universo da pesquisa realizada, sintetizando as inúmeras e diferentes informações obtidas, apresento inicialmente o perfil dos tutores a distância pesquisados no CLMD. Após, descrevo as categorias de análise definidas, buscando compor um texto articulado entre a fala dos tutores e as teorias escolhidas. 6.1. Quem são os sujeitos? Um breve perfil... O universo de sujeitos pesquisados totalizou 35 tutores a distância do CLMD, os quais retornaram o questionário online proposto, de um total de 50, o que representa 70%, um percentual significativo para Marconi e Lakatos (2010). Ainda, dos 12 tutores selecionados para a entrevista, mediante os critérios estabelecidos, dez participaram, representando um aceite de 83%, igualmente considerável. Apresento nesta seção as questões propostas no questionário online que caracterizam o perfil desses tutores. Os temas referem-se a gênero, faixa etária, estado civil, número de filhos, renda mensal familiar, bolsa da tutoria como única fonte de renda, formação inicial e continuada. Em relação ao gênero, temos um predomínio feminino, como se pode observar na Figura 38, sendo sete homens (20%) e 28 mulheres (80%). 164 Figura 38: Gênero dos tutores a distância Fonte: Elaboração da autora A faixa etária dos tutores é variada, sendo que até os 25 anos têm-se quatro tutores (11%), entre 26 e 35 anos, 16 tutores (46%), entre 36 e 45 anos, oito tutores (23%), entre 46 e 55, seis tutores (17%), e acima de 55 anos, somente um tutor (3%), conforme ilustrado na Figura 39. Figura 39: Faixa etária dos tutores Fonte: Elaboração da autora Em relação ao estado civil, as opções oferecidas eram: solteiro(a), casado(a), divorciado(a), viúvo(a), união estável ou outro. A Figura 40 ilustra a situação, sendo que 11 responderam serem solteiros (31%), 16 são casados (46%), três divorciados (9%) e cinco possuem uma união estável (14%), não tendo sido escolhidas as opções viúvo(a) ou outro. 165 Figura 40: Estado civil dos tutores a distância Fonte: Elaboração da autora Outra pergunta questionava sobre os filhos. Das respostas obtidas, conforme Figura 41, temos que 17 tutores não possuem filhos (49%), 11 possuem apenas um filho (31%), cinco tutores têm dois filhos (14%), um tutor tem três filhos (3%) e um tutor tem quatro filhos ou mais (3%). Figura 41: Número de filhos dos tutores a distância Fonte: Elaboração da autora Em relação à renda mensal familiar, foram expostas quatro faixas salariais, tendo como parâmetro o salário mínimo nacional87, equivalente a R$ 622,00. Os resultados encontram-se na Figura 42, onde sete tutores recebem entre um e três salários mínimos (20%), 15 recebem entre quatro e seis (43%), 11 tutores a 87 Valor referente ao mês de novembro de 2012. 166 distância estão na faixa entre sete e dez salários (31%) e dois recebem acima de dez salários mínimos (6%). Figura 42: Renda mensal dos tutores a distância Fonte: Elaboração da autora Sobre a bolsa de tutoria, foram questionados se essa era a sua única fonte de renda, sendo que apenas dois tutores a distância (6%) afirmaram que sim, sendo que os outros 33 tutores possuem outro local de trabalho remunerado (94%), como ilustrado na Figura 43. Figura 43: Sobre a bolsa de tutoria Fonte: Elaboração da autora A questão sobre a formação acadêmica, inicial e continuada, destes tutores, solicitava para assinalarem mais de um item da lista, se necessário, porém sei que 167 alguns tutores não marcaram o seu respectivo curso de graduação (formação inicial). O resultado foi cinco tutores com Magistério – Curso Normal (nível médio), não ilustrado nas figuras. A licenciatura em Matemática foi cursada por 27, porém sei que são 28 (80%), um tutor com bacharelado em Matemática (3%), um tutor com Pedagogia (3%), porém sei que são dois (totalizando 5%), um tutor com Filosofia (3%), um tutor com Psicologia (3%), porém sei que são dois (6%88), um tutor com outro curso de licenciatura, sendo este Educação Física (3%), o que totaliza 100% em relação a formação inicial de nível superior, graduação, ilustrado na Figura 44. Figura 44: Formação inicial – graduação Fonte: Elaboração da autora Já a formação continuada é compreendida na pesquisa como os cursos acadêmicos de especialização, mestrado e doutorado. Nesse sentido, são cinco tutores que estão com a especialização em andamento (14%) e 22 já a concluíram (63%), seis tutores com mestrado concluído (17%) e 13 com mestrado em andamento (37%), dois tutores com doutorado em andamento (6%). Percebe-se que este grupo de tutores é qualificado ou está buscando por esta qualificação, de acordo com a Figura 45. 88 A diferença entre 5% e 6% para representar dois sujeitos nas categorias estabelecidas foi um ajuste do próprio programa utilizado. 168 Figura 45: Formação continuada dos tutores a distância Fonte: Elaboração da autora Descrevendo o perfil do grupo de sujeitos que participou desta pesquisa é possível perceber o universo predominantemente feminino (80%) e composto por professores da área da matemática (83%). Ainda, que a faixa etária concentra-se entre 26 e 45 anos (69%) e a renda familiar mensal de quatro a dez salários mínimos (74%). Outro fator a destacar diz respeito ao fato de 94% dos tutores terem outra fonte de renda. Esse fator indica que, para a quase totalidade, o trabalho com a tutoria no CLMD não é o único, evidenciando que os tutores e tutoras têm outras preocupações para além do Curso de Matemática a Distância. Na próxima seção apresento as categorias definidas para a análise. Foram elencadas cinco categorias, sendo: 1) Ser tutor na EaD; 2) O que são os saberes docentes para os tutores; 3) Saberes docentes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na atuação como tutores a distância no CLMD; 4) Saberes docentes específicos na atuação da tutoria em EaD; e 5) A recontextualização dos saberes docentes dos tutores na EaD. 6.2. Categorias definidas... Trabalho feito! A pesquisa realizada apresentou dados interessantes, de forma que minha contribuição a partir desta investigação é por em evidência como os sujeitos se percebem tutores na EaD e qual sua concepção de saberes docentes. Ainda, identificar quais os saberes que, de fato, mobilizaram, construíram ou adquiriram na 169 prática da tutoria e quais definem como sendo específicos da sua atuação como tutor nesta modalidade. Por fim, como foco central do trabalho realizado, é perceber como os tutores recontextualizam esses saberes docentes de sua prática da educação presencial para a atuação na Educação a Distância. Em todas as questões, a concepção dos próprios sujeitos, os tutores virtuais do CLMD, é que foi considerada. Não tive a pretensão de dar conta do debate a partir de minhas questões, pois o mesmo é amplo e complexo, apenas apresentar uma possibilidade de análise viável em conformidade com as escolhas feitas. A primeira categoria apresenta uma descrição do que é ser tutor na EaD, na percepção dos próprios sujeitos pesquisados. Neste ser tutor foi analisado como se percebem nesta equipe docente, a importância da comunicação no processo de ensino-aprendizagem, o motivo pelo qual escolheram serem tutores no CLMD e quais são as principais dificuldades a serem superadas neste contexto. 6.2.1. Ser tutor na EaD A tutoria é um dos elementos essenciais na Educação a Distância e deve ser reconhecida por gestores, alunos e equipe em geral. O cenário atual para a expansão da modalidade pode ser visto com bons olhos, pois, nos últimos anos houve evolução na legislação brasileira pertinente relacionada à EaD, envolvimento de políticas de formação através desta modalidade, busca pela superação da percepção de que EaD é uma educação inferior a modalidade presencial, criação da Universidade Aberta do Brasil (UAB), vinculada às universidade federais, reestruturação constante em função da evolução tecnológica, entre outros (MILL, 2012). Mesmo assim, definir o que é ser tutor hoje na Educação a Distância não é fácil, visto a pluralidade de interpretações que o termo possa gerar, a forma de atuação deste sujeito em diferentes cursos e contextos e o entendimento sobre seu papel, funções e atribuições pela equipe coordenadora e pedagógica de cada estrutura. Ser tutor remete-nos, inicialmente, a alguém que ampara, protege e orienta, como já visto em capítulo anterior, e muito disso também se percebeu na fala dos sujeitos aqui estudados. 170 Deste modo, definir o que é ser tutor para os tutores pesquisados não remeteu a uma única resposta. Foram vários e diferentes posicionamentos, sendo que alguns se complementavam, ou de certa forma, poderia dizer que eram sinônimos. Outros apresentaram aspectos inusitados. Antes de trazer uma tabela com a síntese das respostas, apresento uma questão proposta no questionário online, de certa forma relacionada com esta categoria e que traz uma informação interessante. Buscando definir sobre a experiência docente que os tutores tinham relacionada à Educação a Distância, 33 sujeitos afirmaram que ser tutor foi de fato sua primeira experiência docente (94%) nesta modalidade, sendo que para apenas dois tutores não (6%), como observado na Figura 46. Figura 46: Primeira experiência docente na EaD dos tutores a distância Fonte: Elaboração da autora Neste sentido, pude perceber que existe uma carência de profissionais já experientes nesta área, sendo que a maioria dos docentes tutores vinculados ao CLMD vieram ali adquirir experiência na EaD. Este fato repercutiu mais adiante, ao falarem dos saberes docentes vinculados a Educação a Distância, pois “a maioria dos educadores que estão atuando em cursos virtuais tem desenvolvido seus saberes docentes no cotidiano do trabalho pedagógico virtual” (MILL, 2012, p. 47). Pelo fato de praticamente todos os tutores iniciarem sua carreira docente na EaD através da tutoria no CLMD, seria interessante analisar suas respostas buscando semelhanças e diferenças também relacionadas ao tempo de ação no curso. Os tutores mais experientes, dentre os que participaram da pesquisa, ingressaram no CLMD no ano de 2007 e os mais novos em 2011. Digo que seria 171 interessante pelo fato de que, mesmo com uma diferença de quatro anos, entre os que iniciaram em 2007 e aqueles que começaram em 2011, as respostas foram semelhantes, girando em torno de ser o tutor um suporte para o aluno, um mediador pedagógico durante o processo de ensino-aprendizagem. Talvez não tenham ocorrido diferenças significativas em função do intervalo de tempo do ingresso dos tutores ser pequeno, pois, se pensar no tempo na carreira de magistério, como expõe Tardif (2011), sua primeira categoria, relacionada ao professor ingressante, vincula-se entre os três e os cinco primeiros anos da docência e, deste forma, todo o grupo pesquisado estaria nela. Na tentativa de ser o mais fiel possível à opinião dos tutores, busquei compilar as suas respostas sobre o que é ser tutor na Educação a Distância através da Tabela 9, onde os itens foram listados em ordem alfabética e não por grau de importância. Tabela 9: O que é ser tutor na EaD? O que é ser tutor na EaD? Acompanhar o aluno no processo de aprendizagem Acompanhar o desenvolvimento Ajudar o aluno Amigo virtual dos alunos Amparar o aluno Aprender/relembrar conceitos matemáticos Auxiliar e orientar os alunos Avaliar os alunos Contato com o Ensino Superior Criar vínculo afetivo Cuidar do aluno Cuidar o bom funcionamento das aulas Dar uma aula Desafio a cada semestre Ensinar o aluno pela escrita Entrar todos os dias no ambiente Exercer o trabalho docente Extensão da docência Facilitar e mediar da aprendizagem Fonte: Elaboração da autora. Fazer com que os alunos se sintam motivados Formação continuada Interagir com pessoas que tu não conhece Intermédio entre professor e aluno Ligação com a formação de professores Manter-se atualizado Mostrar o caminho Novo aprendizado, nova experiência Papel burocrático Porto seguro dos alunos Representar os alunos no curso Responder as dúvidas Ser a presença mais constante Ser multidisciplinar Ser professor Ser professor do ensino superior na modalidade EaD Ter liberdade de horário e local de trabalho Trocar aprendizagens Um monitor 172 Das respostas apresentadas, a que mais se repetiu foi que ser tutor é “acompanhar o aluno no processo de aprendizagem”, sendo oito no total, representando 22,9% do total de 35 sujeitos. A partir desta resposta pude perceber que o grupo considera como sua função primordial o acompanhamento discente durante o desenvolvimento do curso, estando ali como um refúgio seguro no qual o aluno pode confiar. Este fato é percebido na fala dos sujeitos, quando o Tutor 13 expõe que “ser tutor na Educação a Distância significa acompanhar o aluno diariamente em suas aprendizagens, dúvidas, anseios”. Complementando, “ser tutor é colaborar na aprendizagem” argumenta o Tutor 18 e “é ser um professor-tutor que atue como facilitador e mediador da aprendizagem” fala a Tutora 19. A Tutora 10 afirma que ser tutor “é auxiliar os alunos na construção do conhecimento, procurando nunca dar respostas, mas mostrar caminhos para que eles busquem as respostas”. Essa percepção vem ao encontro da visão de Mill (2012, p. 267), onde “o tutor na EaD pode ser entendido como aquele que apoia a construção do conhecimento e dos processos reflexivos de estudantes”. Este acompanhar o aluno em suas aprendizagens acaba vinculando-se as outras questões apresentadas na tabela anterior, pois de forma geral o tutor é aquele que no acompanhar o aluno auxilia-o durante o processo, guia, explica conceitos, responde dúvidas, realiza as correções. Ainda, busca acessar o ambiente diariamente, respondendo mensagens pessoais e os fóruns. “O que caracteriza este trabalhador é sua função de acompanhar os alunos no processo de aprendizagem, que se dá, na verdade, pela intensa mediação tecnológica” (MILL, 2006, p. 62). As respostas apresentadas pelos sujeitos variaram na forma de escrita, visto a liberdade do questionário online e da entrevista, mas puderam ser vinculadas pelo sentido que apresentaram. Ser tutor é ser um mediador da aprendizagem. É estar junto dos alunos, é ensinar a buscar. É contribuir no processo de formação de novos professores. Os tutores perceberam sua função como algo desafiador, que os mantém atualizados e os ensina a trabalhar os conteúdos de ensino superior com outra abordagem e em grupo. Também salientaram a flexibilidade de local e horário para trabalhar, podendo atender os alunos à noite e aos finais de semana, de sua residência, legitimando a ideia de que “o rompimento de limitações temporais e espaciais, fruto do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, 173 estimula o aumento dos sonhadores com horários e locais flexíveis de trabalho” (MILL; FIDALGO, 2009, p. 314). Ser tutor “é buscar responder as dúvidas dos alunos, como também, ensinálos mesmo tendo apenas o contato virtual com eles, ou seja, apenas através da escrita” (Tutora 11); “é ser um mediador” (Tutora 9); é “um elo entre o professor da disciplina e o aluno, um facilitador, alguém que está disponível para esclarecer dúvidas, auxiliar no processo de ensino-aprendizagem” (Tutora 32); é “uma experiência muito importante de aprendizado e de responsabilidade com a formação de professores” (Tutora 26); “é um prazer fazer parte deste universo que leva educação para tão longe, é bom saber que estou ajudando a formar futuros professores que se preocupam com seus alunos” (Tutora 2). Essas falas, dentre tantas outras, esclarecem que os tutores tem consciência de sua função pedagógica como mediadores da aprendizagem junto aos acadêmicos do curso, a qual se refere “ao fomento de um ambiente social estimulador da aprendizagem, com a utilização e potencialização de recursos didáticos por meio da mediação tutorial” (UFBA, p. 10). Corroboro com a definição de mediação pedagógica, quando esta diz que a atitude, o comportamento do professor que se coloca como um facilitador, incentivador ou motivador da aprendizagem, que se apresenta com a disposição de ser uma ponte entre o aprendiz e a aprendizagem – não uma ponte estática, mas uma ponte “rolante”, que ativamente colabora para que o aprendiz chegue aos seus objetivos. É a forma de se apresentar e tratar um conteúdo ou tema que ajuda o aprendiz a coletar informações, relacioná-las, organizá-las, manipulá-las, discuti-las e debatê-las com seus colegas, com o professor e com outras pessoas (interaprendizagem), até chegar a produzir um conhecimento que seja significativo para ele, conhecimento que se incorpore ao seu mundo intelectual e vivencial, e que o ajude a compreender sua realidade humana e social, e mesmo a interferir nela (MASETTO, 2009, p. 144-145). Nesta definição de mediação pedagógica, por ser o tutor um sujeito ativo na docência em EaD, é importante percebê-lo como alguém que também precisa desenvolver essas características, pensando no auxílio direto ao estudante do outro lado da tela. São características docentes indispensáveis ao tutor que deseja ver os alunos sobre sua responsabilidade progredirem tanto intelectual como socialmente nos seus respectivos contextos, sendo que “o tutor é responsável pela mediação pedagógica da construção do saber de seus alunos” (MILL, 2006, p. 62). Buscando sintetizar sua atuação, a Tutora 31 afirma que “ser tutor é uma extensão da docência. Tutor é um educador a distância”, complementado pelo Tutor 34: “tutor é simplesmente o papel que eu exerço dentro de um equipe”, o que vem 174 ao encontro da polidocência proposta por Mill (2010, 2012), uma vez que para o autor “a tutoria é a atividade docente realizada pelo tutor, especialmente no âmbito da EaD” (MILL, 2012, p. 267); “em EaD quem ensina é um polidocente” (ibidem, p. 70). Ainda nesta linha de pensamento, é importante destacar que essencial é aprender a “trabalhar em grupo, pois, com o aumento do grau de complexidade das tarefas que requerem habilidades multidisciplinares, parte do trabalho deixa de ser feita individualmente, exigindo novas necessidades relacionadas e um estilo diferente” (CAMPOS; ROQUE, 2011, p. 27). Ser tutor na educação a distância é exercer o meu trabalho docente mediado por uma tecnologia, que me possibilita interação com os alunos na medida que procuro desenvolver um processo de ensino e de aprendizagem analisando, orientando, explicando, corrigindo, trocando ideias e avaliando as tarefas dos alunos (Tutora 16). Na análise do trabalho dos tutores há que se considerar o termo de compromisso que assinaram, relacionado à bolsa que recebem pelas atividades de tutoria desenvolvidas (Anexo I da Resolução 26/2009). Neste documento estão explicitadas as atribuições dos tutores. Saliento que o primeiro item de suas atribuições é “mediar a comunicação de conteúdos entre o professor e os cursistas” (BRASIL, 2009), ou seja, é preciso saber se comunicar para desenvolver suas atividades. Borges (2004), em sua pesquisa sobre os saberes docentes de um grupo de professores de educação básica, o qual também tomou por base a teoria de Tardif (2011) no contexto brasileiro, apontou que os professores valorizam de forma contundente a importância de saberem se comunicar com os alunos. Os professores investigados na pesquisa de Borges (idem) mostraram que é de muito valor para a qualidade do processo de ensino-aprendizagem saber utilizar ferramentas que possibilitem uma boa comunicação entre professor e estudantes. Pesquisando os tutores do curso, encontramos em seus depoimentos uma grande valorização da comunicação. Enfatizam que a boa comunicação é fundamental para o êxito de seu trabalho. Buscando descrever essa percepção sobre a comunicação no ser tutor, focalizei os tutores no atendimento aos alunos, realizado através da plataforma Moodle, ou seja, do ambiente virtual de aprendizagem, onde se estabelecem as trocas entre os docentes e os estudantes. Segundo Mill (2012, p. 141), essa perspectiva de construção do conhecimento está baseada na crença de que aprendemos nas interações, na colaboração, na troca, e, sendo 175 assim, as interfaces devem favorecer a comunicação de forma plural e objetivada pelo contexto/conteúdo a ser desenvolvido. A educação está condicionada pelo intuito pedagógico dos sujeitos envolvidos e pela comunicação estabelecida entre eles. Fica evidente que a comunicação é intrínseca ao trabalho na EaD, em especial ao trabalho dos tutores. A mediação pedagógica oferecida aos alunos deve ser clara e exige atenção nesta comunicação. “Clareza no que é comunicado e atenção a ‘fala’ do aluno e ao feedback do mediador são fundamentais para a interatividade” (CAMPOS; AMARAL, 2011, p. 53). De forma geral, os tutores, ao se reportarem aos momentos iniciais de seu trabalho, argumentaram que ao estarem frente ao computador pela primeira vez sentiram esta situação de forma estranha e difícil, o que lhes deixou ansiosos, visto não saberem ao certo o que deveriam fazer e como se reportar aos alunos. O primeiro indício da importância da comunicação na EaD foi percebida pelo “medo [de] que o aluno não entendesse minha explicação” conforme expõe a Tutora 21 ou ainda “senti a necessidade de saber me expressar de uma forma diferente da verbal. Precisava dar um feedback escrito para uma pessoa que eu não conheço de forma que ela entendesse o que eu queria dizer”, desabafa o Tutor 13. Outra tutora ainda argumenta sobre a sensibilidade na “ponta dos dedos”, fazendo referência à necessidade de saber utilizar a escrita de forma correta e coerente para a comunicação com os alunos: Tinha medo de não me fazer entender para os alunos, que minha escrita fosse muito "seca", muito direta e, eles fossem interpretar como se eu fosse uma professora autoritária. Cuidava muito com o que digitava, procurando ser carinhosa, tendo, como digo sempre, "muita sensibilidade na ponta dos dedos" (Tutora 27). Outro aspecto importante da análise está relacionado ao entendimento da identidade enquanto tutor na EaD. Ao questionar o grupo de tutores sobre sua “marca registrada”, surgiram importantes manifestações relacionadas à importância da comunicação. A Tutora 26 enfatiza a necessidade de “uma boa comunicação com os alunos”, dizendo prezar muito pela relação que se estabelece no ato pedagógico. De forma semelhante, encontramos essa valorização na fala do Tutor 34, quando afirma que se preocupa com a “maneira como me comunico com os alunos. Consigo ser natural, descontraído, incisivo quando necessário”, corroborando com a ideia de que o docente precisa “ter uma personalidade 176 cativante, ser capaz de desempenhar um papel profissional sem perder a autenticidade” (TARDIF, 2012, p. 32). Ainda há que destacar, por semelhança, a fala da Tutora 22, que disse “sempre buscar o diálogo, conhecer os alunos”. Mill (2012), pensando na relação da equipe polidocente e na motivação para desempenhar um bom trabalho no processo pedagógico, argumenta que “a motivação por se manter em contato com outros trabalhadores, relação essencial à qualificação do coletivo do trabalho, depende do poder de comunicação de cada trabalhador” (ibidem, p. 210), o que remete a essa “marca registrada” identificada pelos tutores, que tem como base a comunicação. Além da comunicação como esta marca registrada no ser tutor, apareceram as questões da responsabilidade e do comprometimento com o trabalho a ser desenvolvido. A Tutora 16 afirma que “o compromisso com o meu trabalho docente” é a sua marca registrada, sendo que apresentou a mesma resposta quando questionada sobre sua marca registrada enquanto professora no ensino presencial, o que deixa claro sua percepção da tutoria como uma atividade docente. Outra característica identificada pelos tutores em relação ao seu trabalho é a agilidade e a prontidão em responder mensagens e fóruns. Esse atributo remete à necessidade de que seja mantido um relacionamento saudável com os alunos por meio do pronto diálogo. “Procuro sempre responder todas as mensagens dos meus alunos”, afirma a Tutora 21; “busco ser rápido, mesmo que às vezes não seja possível, nas respostas e nos feedbacks”, enfatiza o Tutor 13. A preocupação demonstrada pelos tutores em serem ágeis e estarem sempre prontos para se comunicarem com os alunos também aparece na pesquisa de Mill (2012), quando destaca, particularmente em relação à tutoria, o cuidado que os educadores devem ter em relação aos saberes e competências necessário às suas funções. O autor (idem) faz uma enfática referência ao domínio de competências sociais e comunicacionais e habilidades de boa comunicação escrita. Argumenta que “o perfil de um bom tutor é bem diversificado, mas sua capacidade de se socializar e de estabelecer boa comunicação está no centro de qualquer análise” (MILL, 2012, p. 276). Fica patente ao longo da análise da literatura e das falas dos tutores a importância de se comunicar por diferentes mídias e tecnologias. Outra preocupação dos tutores entrevistados está relacionada à linguagem utilizada para que a comunicação possa acontecer de forma efetiva. O Tutor 35 177 salienta que “o uso de linguagem coloquial, mais acessível às massas...” e “...explicações detalhadas...” são características que o identifica como tutor. Enquanto a linguagem falada é característica da educação presencial, a linguagem escrita é tida por eles como a linguagem predominante de comunicação na EaD. É o que argumenta a Tutora 11: “em todos os casos é usado apenas a escrita, e assim preciso ser concisa e clara naquilo que estou escrevendo e que o aluno precisará ler e compreender”. De forma geral, sintetizando o apresentado, os sujeitos percebem-se inseridos na docência do CLMD, a partir de suas atribuições específicas da tutoria. “O docente-virtual (o docente-tutor virtual, em particular) participa do ensinoaprendizagem como um mediador e um motivador na relação dos alunos com os conteúdos e os materiais didáticos, na busca pelo conhecimento” (MILL, 2012, p. 78). Esses sujeitos mostraram ainda que gostam do que fazem, é “um interessante desafio a cada semestre” argumenta a Tutora 4; “um desafio, uma nova experiência” a cada atividade proposta, enfatiza o Tutor 20. Porém, dentro da perspectiva do “ser tutor”, como diria o poeta, nem tudo são flores. Eles apresentaram alguns desafios que precisam ser superados o quanto antes para melhor poderem desempenhar suas funções e aperfeiçoar o atendimento aos alunos. Primeiro, destacam o número elevado de alunos por turma, pois “a quantidade de alunos a serem atendidos muitas vezes torna o trabalho mecânico e isso é ruim para os dois lados” argumenta a Tutora 17, e a questão de corrigir as atividades sem conhecê-los: “não seria uma dificuldade, mas sim uma das partes mais trabalhosas do cargo: montar os feedbacks das avaliações. Já que não conheço pessoalmente os alunos, e por isso, não posso saber o seu ritmo de estudos para aconselhá-los melhor” desabafa a Tutora 4. Outra questão salientada pelos tutores é a precarização do trabalho docente apresentada na EaD: “como em todas as áreas da educação a maior dificuldade continua sendo as condições de trabalho e os baixos salários, no caso específico desse curso o valor da bolsa é muito baixo” diz a Tutora 26. Outra dificuldade “é a falta de vínculo empregatício” relata a Tutora 5, “a falta de uma legislação que defina a função como um emprego” confirma a Tutora 6. Questionam-se sobre a tutoria ser mão de obra barata para as instituições, sem os direitos trabalhistas garantidos. Em experiências de EaD brasileiras é muito comum que docentes virtuais (professores e tutores) recebam bolsas de trabalho, estudo ou pesquisa 178 como proventos pelo esforço dedicado ao trabalho virtual. Isso configura uma condição de trabalho desfavorável ao docente virtual e à modalidade de EaD: necessidade de um segundo emprego, uso de tempo de descanso ou lazer para o trabalho virtual, visão da docência virtual como um subproduto do magistério, depreciação da formação pela modalidade de EaD etc (MILL, 2012, p. 262). Esta questão esclarecida por Mill (2012) também aparece na sequência, quando os tutores fazem referência a escolha pela tutoria em função da necessidade financeira, por meio da bolsa, ou mesmo como sua única fonte de renda. A comunicação, por vezes precária, entre os tutores e os demais membros da equipe, também é um fator que atrapalha, pois os tutores sentem-se sem orientação, não sabendo ao certo como proceder junto aos alunos. Argumentam, assim, como dificuldades “a falta de comunicação com os professores do eixo” (Tutora 21) e a “falta de orientações e também quando não temos contato com os professores que planejaram o eixo” (Tutora 33). Minha principal dificuldade é que, como mencionei anteriormente, como tutor, minha autonomia é extremamente restrita. Meu trabalho depende em muitos momentos de decisões, orientações, repostas de outros profissionais da equipe, e muitas vezes estas orientações demoram, não chegam, são insuficientes ou estão em desacordo com o que eu imagino, já que tenho alguma experiência, que seria a melhor decisão ou a melhor escolha em determinada situação (Tutor 34). Os tutores ainda citam outras dificuldades, que apareceram com menor frequência, mas que apresentam sua importância: “a falta de reconhecimento, pois não é um professor, mas participa ativamente do processo, a falta de vínculo” fala a Tutora 32, ou seja, é não ser incluído por alguns colegas professores como membro efetivo na equipe polidocente do curso. Ainda, “saber como se posicionar nos fóruns” desabafa a Tutora 24, ou “o retorno quase que imediato que tutor tem que dar ao aluno, quando questionado, no máximo de 24h” relata o Tutor 25, fazendo menção à forma de escrita que deve ser utilizada no AVA bem como o conhecimento matemático que se faz necessário. Ainda, a questão do curto prazo para responder, o que deixa evidente que o tutor precisa estar conectado, acompanhando diariamente sua turma, confirmando que “o trabalho na EaD é realmente mais exigente e mais cansativo em termos de tempo e atenção do trabalhador” (MILL; FIDALGO, 2009, p. 313). 179 Estas são algumas das dificuldades levantadas pelos tutores em relação às principais dificuldades que vivenciam hoje na atuação da tutoria no CLMD. Provável que existam outras, porém neste momento não foram citadas. Ainda neste cenário de caracterizar o “ser tutor na EaD” para o grupo de sujeitos pesquisados, é interessante salientar os motivos que os levaram a ser tutores no CLMD. A Tabela 10 apresenta uma síntese das respostas obtidas pelos 35 tutores, o número de tutores que elegeram cada uma delas e a percentagem que representa em relação ao número total. Tabela 10: Porque ser tutor no CLMD? Porque ser tutor no CLMD? Ampliar a prática docente Atualização Bolsa Carga horária e funções Contribuir com a formação de novos profissionais do ensino Desafio de trabalhar pelo computador Emprego Experiência em EaD Experiência no Ensino Superior Experiência nova, diferente Melhorar o currículo Pelo curso ser da UFPel Se preparar junto às tecnologias Trabalhar virtualmente Total 4 2 11 1 2 2 4 13 9 7 4 1 3 1 % 11,43% 5,71% 31,43% 2,86% 5,71% 5,71% 11,43% 37,14% 25,71% 20,00% 11,43% 2,86% 8,57% 2,86% Fonte: Elaboração da autora Adquirir experiência em EaD foi o motivo mais mencionado pelo grupo, totalizando 37,14% do total, o que complementa a informação apresentada no início deste tópico, de que apenas dois tutores entre os 35 pesquisados já tinham experiência docente nesta modalidade de ensino. “Tinha curiosidade de saber como era a aprendizagem e as relações nesta modalidade de ensino”, expõe a Tutora 29; “me interessei pela tutoria, primeiramente pelo fato de poder estar em contato com as especificidades de um curso superior, e também pelo desafio de poder trabalhar com a modalidade a distância”, de forma semelhante afirma a Tutora 15. A partir da expansão da EaD no Brasil muitos profissionais da educação estão se inserindo nesta modalidade para conhecer suas especificidades e formas de ensino- 180 aprendizagem, além de estarem vinculados, de certa forma, ao ensino superior, como mencionado por 25,71% dos sujeitos. Porém, se consideramos a questão financeira, entre aqueles que buscavam um emprego e os que desejavam aumentar a renda familiar por meio da bolsa, no total foram 15 sujeitos, representando 42,86%. Desta forma, percebe-se ainda a EaD como uma opção de aumento salarial, muitas vezes em situações precárias ou de sobrecarga de trabalho. “Porque, na época, estava em busca de emprego e surgiu essa seleção. Uma experiência diferente, mostrando ser este tipo de modalidade a forma de educação do futuro” fala a Tutora 27. No início foi pela bolsa, pois me encontrava em séria crise financeira, no entanto, no decorrer do trabalho e, depois em minha estabilidade nas finanças, percebi que estava inserido num grupo muito bom de se trabalhar e disposto a se ajudar para fazer um trabalho bem feito em prol do estudante (Tutor 35). Percebi que diversos foram, então, os motivos para serem tutores no CLMD e hoje, este grupo de 35 sujeitos tem clareza sobre sua função e atribuições, alterando um pouco a cada novo semestre, de acordo com a equipe docente que está à frente do eixo a ser executado. Porém, na essência, ser o mediador pedagógico dos alunos, orientando e auxiliando no decorrer do tempo, sanando dúvidas e sendo um apoio constante são características intrínsecas neste grupo de tutores. A identidade profissional do professor se constroi, pelo significado que cada professor, enquanto ator e autor, confere à atividade docente no seu cotidiano a partir de seus valores, de seu modo de situar-se no mundo, de sua história de vida, de suas representações, de seus saberes, de suas angústias e anseios, do sentido que tem em sua vida o ser professor (PIMENTA, 2009, p. 19). De forma análoga também pode ser construída a identidade profissional do tutor, pensando nesta diferente modalidade de ensino. No sentindo que tem em sua vida o ser tutor na Educação a Distância e como são construídos seus saberes, seus valores e sua história de vida neste novo cenário educacional presente em seu cotidiano. Na próxima seção, apresento a percepção que os tutores a distância têm sobre o que são os saberes docentes, buscando fazer um paralelo entre suas concepções e as teorias utilizadas por Tardif (2011; 2012) e Borges (2004). 181 6.2.2. O que são os saberes docentes para os tutores? Com a ampliação da Educação a Distância fazem-se necessárias adaptações pedagógicas e tecnológicas, buscando oferecer aos estudantes o melhor suporte possível no processo de ensino-aprendizagem. A partir disso, a aceitação dessa modalidade de ensino vem crescendo e a EaD continua sua expansão, especialmente nas universidades públicas e particulares. A sofisticação nas formas de atendimento e comunicação, bem como a possibilidade de compartilhamento de web conferências, aulas e atividades vêm auxiliando nessa percepção da EaD como uma modalidade de ensino eficiente e qualificada. Neste processo de mudanças e avanços, os professores e demais envolvidos na atuação pedagógica acabam sendo influenciados, surgindo a necessidade de novos perfis profissionais, atuando em diferentes funções e setores. Assim, um dos desafios apresentados pela EaD é entender quais são os saberes necessários para estes profissionais e, ainda, quais os saberes docentes necessários, mobilizados na prática pedagógica, para os envolvidos na docência da modalidade a distância. Então, o que são os saberes docentes? Difícil definir em poucas palavras... O capítulo três apresentou a teoria proposta por Tardif (2011; 2012) e Borges (2004), mostrando um pouco a complexidade do assunto. E pensando nos saberes docentes dos tutores, um dos sujeitos envolvidos na equipe docente que atua na EaD, como defini-los? Será que existem diferenças de percepção sobre o que são os saberes docentes quando se está em outra função na docência em EaD que não a do professor? Um dos obstáculos à concepção de cursos de formação docente para a atuação na EaD é o mapeamento ainda deficiente dos saberes e conhecimentos (gerais e particulares) necessários à atuação destes profissionais. Uma das formas de mapeá-los é possibilitar que os próprios docentes os elenque (OLIVEIRA; MILL; RIBEIRO, 2009, p. 5). Seguindo a sugestão de Oliveira, Mill e Ribeiro (2009), busquei ler e ouvir o que os próprios tutores entendem como sendo os saberes docentes. Porém, identificar o que são os saberes docentes para este grupo de sujeitos não foi trivial devido à diversidade e complexidade do tema. A partir da formação específica para a atuação no magistério e sua experiência em sala de aula, presencial e/ou virtual, os tutores se posicionaram, então, sobre o assunto, mencionando habilidades, 182 competências, formas de saber-fazer, vinculadas ao seu trabalho, em diferentes situações (BORGES, 2004). Aos questioná-los sobre os saberes docentes, eles argumentaram, como o Tutor 34, que saber docente “é aquilo que eu preciso conhecer para poder exercer a docência”. O Tutor 12 afirma que são “os saberes necessários para tu trabalhares com a formação de novos profissionais. Os conhecimentos básicos” ou, então, “são aqueles saberes que a gente vai constituindo ao longo da tua trajetória, tanto como acadêmico como docente”, complementa o Tutor 13. A Tutora 16, por ter certo conhecimento teórico do assunto, revelado durante a entrevista, define que para si os saberes docentes são um conjunto de saberes que vão constituindo o trabalho de um professor, (...) desde a experiência escolar do professor enquanto aluno, depois a formação do professor, acadêmica, a sua licenciatura, e os saberes específicos da prática, que vão se constituindo dentro da experiência, que o professor vai adquirindo no transcorrer da sua carreira. A Tutora 16, a partir de sua fala, aproxima-se do que Tardif (2011) define como os saberes docentes, relacionando-os aos seis fios condutores já mencionados neste trabalho. Da experiência do professor como aluno, o autor traz que, “mesmo antes de começarem a ensinar oficialmente, os professores já sabem, de muitas maneiras, o que é o ensino por causa de toda a sua história escolar anterior” (ibidem, p. 20). Argumenta, também, que dentre tantas profissões, o professor, mesmo antes de começar sua prática profissional já tem larga experiência no assunto, do período de sua formação na Educação Básica, em torno de 11 a 12 anos frequentando as carteiras escolares. A Tutora 16 ainda cita a formação inicial, obtida no curso de licenciatura, e a experiência que vai sendo adquirida na prática, sendo que o saber dos professores “não é um conjunto de conteúdos cognitivos definidos de uma vez por todas, mas um processo em construção ao longo de uma carreira profissional na qual o professor aprende progressivamente a dominar seu ambiente de trabalho” (TARDIF, 2011, p. 14). Essa construção, de certa forma, é apresentada pelo grupo de tutores em suas falas e é trazida aqui no decorrer do texto, pois como a maioria deles (94%) começou a experiência docente na modalidade a distância no CLMD, a constituição dos saberes aconteceu de forma individual e coletiva ao mesmo tempo, na busca pelo conhecimento e no compartilhamento deste com os pares. 183 Dentro da perspectiva teórica escolhida, aos tutores foi questionado sobre alguns elementos que interferem ou interferiram em sua prática como tutor na EaD, sendo disponibilizado 15 opções, algumas vinculadas aos saberes docentes propostos por Tardif (2011). A Tabela 11 apresenta as opções oferecidas, o número de tutores que elegeram cada uma delas e a porcentagem que representa em relação ao número total, 35 sujeitos. Tabela 11: Elementos que interferem ou interferiram na prática como tutor na EaD Nº da categoria C1 C2 C3 C4 C5 C6 C7 C8 C9 C10 C11 C12 C13 C14 C15 Categorias Histórias e aprendizagem da vida pessoal Histórias e aprendizagem da vida escolar Formação inicial (graduação) Formação continuada (especialização, mestrado, doutorado) Curso(s) de capacitação para tutoria oferecido(s) pelo CLMD Histórias e aprendizagem da vida profissional Troca de experiências com os colegas tutores a distância Troca de experiências com os demais sujeitos do processo de ensino-aprendizagem (coordenação, professores, PPs, técnico TI, tutor presencial) Domínio da tecnologia (AVA, softwares, editor de texto, outros) Domínio de redes sociais (Facebook, Twitter, outros) Domínio dos conteúdos específicos Domínio dos conteúdos pedagógicos (como ensinar) Conhecimento geral de mundo Conhecimento das outras disciplinas Outro Nº % tutor 15 42,86% 21 60,00% 18 51,49% 21 60,00% 13 37,14% 16 27 45,72% 77,14% 26 74,29% 21 60,00% 9 24 21 13 9 1 25,71% 68,57% 60,00% 37,14% 25,71% 2,86% Fonte: Elaboração da autora Os dados também são apresentados num gráfico de barras, Figura 47, de forma a elucidar os resultados obtidos e mostrando algumas categorias que se destacaram. 184 Figura 47: Elementos que interferem na prática como tutor na EaD Fonte: Elaboração da autora O que destacar dessas informações? Primeiro, que dentre os 35 sujeitos, 27 optaram pelo item “troca de experiências com os colegas tutores a distância” e 26 pelo item “troca de experiências com os demais sujeitos do processo de ensinoaprendizagem (coordenação, professores, PPs, técnico TI, tutor presencial)”, ambos vinculados ao saber da experiência. Esses foram os dois itens mais marcados, o que reafirma a teoria de Tardif (2011; 2012), quando diz que apesar da variedade de saberes, quando questionados, os saberes da experiência são aqueles que apresentam maior significado para os professores, sendo hierarquizados “em função de sua utilidade no ensino” (TARDIF, 2011, p. 21). O saber da experiência permite ao docente ser mais flexível e mais apto para adequar os conteúdos a serem ensinados as suas necessidades, (TARDIF; LESSARD, 2011), o que também é verdadeiro se pensarmos nas atividades docentes que os tutores desenvolvem com os alunos. Não é de graça que elencaram, enquanto tutores, os saberes da experiência como o mais importante também na sua prática pedagógica na modalidade a distância. Assim, com a pesquisa, confirmou-se que, para este determinado grupo, a mesma perspectiva é 185 válida, ou seja, a atuação docente na EaD tem a mesma dimensão do ensino presencial, destacando prioritariamente o saber da experiência. A partir deste saber da experiência é que os demais saberes são avaliados e utilizados na prática cotidiana do trabalho docente (BORGES, 2004). A Tutora 27 argumenta, vinculado a troca de experiências, que aprendeu a exercer a docência “com todos os meus colegas, tutores e professores. Essa interação de todas as áreas, essa troca, em nosso laboratório, de experiências, esse auxílio que buscamos e obtemos quando solicitamos aos mesmos”. “Acho que carregamos um pouco de cada professor, de cada colega que nos foi importante. Claro sempre temos mestres que nos ensinaram de forma diferenciada, criando o gosto pela educação” afirma, de forma semelhante, o Tutor 25. Nas entrevistas, os sujeitos foram questionados sobre qual dos saberes, a partir da classificação de Tardif (2011), achavam mais significativo para a atuação na Educação a Distância, sendo considerados os saberes disciplinares, curriculares, de formação profissional e da experiência. Dentre os dez entrevistados, cinco optaram pelos saberes da experiência (50%) e cinco pelos saberes disciplinares (50%), pois “a experiência designa um registro de conhecimento e saber-fazer oriundos do trabalho” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 286), reconhecido também na EaD pelo grupo. Cada turma me da uma formação maior, me da um entendimento maior. E a conversa, e o diálogo com a tutora, então, tem turmas que são ótimas, tem turmas que são ruins, e cada vez, assim, eu me sinto mais preparada com a próxima turma, entende? Eu me sinto assim, porque eu sou muito da prática (Tutora 2). Quando tu vai trabalhar a tutoria a distância, tu não conhece os teus alunos, tu vai conhecer ele no... Então eu acho que esse da experiência é que vai te ajudar a trabalhar com eles, porque tu tens aquela dificuldade que tu não vê o teu aluno. Eu, pra mim, é o da experiência. Porque não adianta tu sabe tudo de conteúdo e no conversar com, e no passar pra ele, não vai te servir. E a experiência não, porque no nosso caso mesmo, pelo menos os polos que eu estou esse ano, esse semestre, a maioria deles já são professores, ou trabalham com currículo, ou pedagogia, ou alguma coisa assim. Então eu acho que o da experiência é o que se encaixa melhor pra trabalhar com eles (Tutora 21). Acredito que só se "aprende" na prática. Antes de entrar para a sala de aula, tínhamos apenas a teoria, é no convívio diário com os alunos, é que aprendemos a ser professores, a tomar certas decisões, as maneiras que devemos ensinar este ou aquele conteúdo (Tutora 14). A fala desta última tutora remete as palavras de Tardif e Lessard (2011, p. 285), onde “a experiência se refere à aprendizagem e ao domínio progressivo das 186 situações de trabalho ao longo da prática cotidiana. Ela é qualificante. Mesmo hoje, ensinar se aprende, em boa dose, ensinando”. Na sequência, o questionário mostrou que, após a “troca de experiências”, o item mais selecionado foi o “domínio dos conteúdos específicos”, escolhido por 24 tutores, representando 68,57% do total. Numa relação hierárquica, posso dizer que para este grupo, os saberes da experiência estão no topo, seguidos de perto pelos saberes disciplinares. Em relação ao domínio dos conteúdos o Tutor 34 expõe a seguinte preocupação “que tu tem que ter uma boa bagagem, sabe? É... de conteúdo mesmo. Eu acho que isso é fundamental para qualquer atividade docente, né. Tu tem que saber o que tu ta ensinando”. A Tutora 31 argumenta, de forma similar, que “tu tem que ter uma base, né? Tu tem que saber o que tu vai repassar, tu tem que entender o que tu ta repassando, o conhecimento tu tem que ter né? A experiência é claro, tu vai adquirir com o tempo, mas o conhecimento tu tem que ter”. Já a Tutora 19 traz em sua fala exatamente essa mescla entre a experiência e o domínio dos conteúdos, “se aprende com a interligação de diversos saberes (experiência, conhecimento dos conteúdos, competência)”. Ainda, relevante para 21 tutores, 60% do grupo total, são as questões relacionadas a “Histórias e aprendizagem da vida escolar”, “Formação continuada (especialização, mestrado, doutorado)”, “Domínio da tecnologia (AVA, softwares, editor de texto, outros)” e “Domínio dos conteúdos pedagógicos (como ensinar)”, as quais interferem de forma significativa na sua atuação na tutoria. Dentre esses quatro tópicos, três são mencionados por Tardif (2011) em um quadro apresentado sobre os saberes dos professores. Histórias e aprendizagem da vida escolar retomam a questão do professor e sua vivência como aluno durante sua formação. Está relacionada aos saberes provenientes da formação escolar anterior, vinculados à escola primária e secundária, atreladas à socialização pré-profissional. Os saberes inscrevem-se no tempo, fazendo parte de sua história muito antes da formação inicial (BORGES, 2004). É um saber constituído no decorrer dos anos, desde a Educação Infantil até o período anterior ao ingresso no Ensino Superior. Penso que ser professor é um aprender constante. Nunca estamos prontos, acabados. Acredito que minhas práticas pedagógicas se norteiam nos exemplos que tive enquanto aluno. Desde o primeiro momento de aula no Ensino Fundamental venho me constituindo como docente. Com certeza as experiências mais recentes, no mestrado, possuem uma maior influência, 187 mas continuo acreditando que me constituo professor desde o início da vida escolar (Tutor 13). Formação continuada (especialização, mestrado, doutorado) vincula-se aos saberes provenientes da formação profissional para o magistério, oferecidos pelos estabelecimentos de ensino. É a questão de que um profissional do ensino nunca está totalmente pronto, devendo aperfeiçoar-se constantemente, mediante cursos e capacitações. Do grupo pesquisado, como apresentado no perfil dos sujeitos, na seção 6.1, percebe-se a importância dada a este fato, sendo que 77,14% dos sujeitos concluíram ou estão cursando a especialização, 54,29% o mestrado e 5,71% o doutorado. “Ser professor foi sempre meu desejo. Fui aperfeiçoando a medida que fui me construindo nesses 13 anos de vivência profissional. O mestrado em educação da FaE muito contribuiu na minha formação” salienta a Tutora 3, trazendo a tona exatamente a importância desta formação continuada também para a prática da tutoria. Domínio dos conteúdos pedagógicos (como ensinar) está relacionado ao aperfeiçoamento no como ministrar as aulas, por meio de técnicas, atividades, materiais, recursos, enfim, de um leque de possibilidades utilizadas em prol do aprendizado dos alunos. A ideia de busca constante por maneiras de auxiliar o aluno a aprender. A Tutora 26 expõe parte dessa questão quando afirma que aprende “nas leituras que realizei e realizo (reflexão)”, mostrando a necessidade de o docente estar em atualização contínua. A questão sobre domínio da tecnologia (AVA, softwares, editor de texto, outros) não é trazida explicitamente por Tardif (2011), mas é largamente vinculada quando falamos na aprendizagem pela EaD. A próxima categoria, a saber, os saberes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na atuação na tutoria do CLMD explora melhor este assunto, visto que o domínio das TIC é um dos tópicos levantados pelos tutores como saber adquirido no CLMD. Outro fato interessante, ao questionar sobre o entendimento dos tutores sobre os saberes docentes, é saber a qual nível/tipo de docência estão vinculados os sujeitos pesquisados. Do grupo de 35 tutores, quatro não possuem experiência docente além da tutoria no CLMD, com exceção dos estágios realizados durante a graduação, representando 11,43%. Assim, dos 31 sujeitos restantes, a atuação docente, atual ou não, é assim distribuída, conforme a Figura 48. 188 Figura 48: Experiência docente vinculada aos níveis/modalidades de ensino Fonte: Elaboração da autora Observa-se o predomínio da atuação docente na Educação Básica (83,87%), porém com um grupo considerável com experiência também no Ensino Superior (38,71%). Na síntese, os tutores percebem os seus saberes docentes na tutoria muito próximos daqueles saberes constituídos enquanto professores do ensino presencial, pois “as docências presenciais e virtuais guardam algumas características inerentes à docência de forma geral” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010,p. 65). Salientam que o ser professor, ou o ser tutor, é um construir-se constantemente, em qualquer lugar e a todo o momento: Na escola.... enquanto aluna, com o modelo de professoras as quais considerava ótimas professoras. Na universidade no curso de licenciatura e pós-graduação. Na escola com os demais profissionais, principalmente com outros professores meus colegas, e com meus alunos. Nas leituras por mim realizadas e nos mais variados cursos de formação, congressos, e com trocas de experiências pedagógicas com outros professores (Tutora 16). Não há um local exato e nem um tempo. Estamos sempre aprendendo a ser professor. Cada aula, uma experiência. Há sempre uma situação que nos 189 faz aprender mais, seja na sala de aula, seja trocando ideias e informações com colegas, seja na leitura de um artigo onde há um relato de trabalho desenvolvido que deu certo. A cada dia aprendemos mais, nunca estamos prontos (Tutor 20). De todos os saberes pontuados por Tardif (2011), o grupo de sujeitos indicou que o saber da experiência é fundamental na atuação da tutoria, demonstrando que o tutor constroi suas próprias estratégias de ação docente em função das necessidades e urgências que se apresentam na prática, acompanhado do saber vinculado ao domínio dos conteúdos específicos. Disso, ressalta-se a importância da inserção dos outros saberes na vivência e formação destes tutores, a partir de capacitações e demais ações pedagógicas pertinentes a cada curso e contexto. 6.2.3. Saberes docentes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na atuação como tutores a distância no CLMD A percepção do grupo de tutores a distância sobre os seus saberes docentes é semelhante a dos professores presenciais, conforme a teoria de Tardif (2011; 2012) e Borges (2004), visto que este grupo de sujeitos, em sua maioria, também atua nas escolas no Ensino Fundamental e Médio. Porém, eles destacaram que, além dos saberes que já utilizam em suas salas de aula, precisaram mobilizar, construir e/ou adquirir outros saberes para atuar na tutoria em Educação a Distância. A docência virtual implica novos saberes que precisam ser incorporados pelos professores, na medida em que se propõem a participar de um programa em EaD. Entre eles, destacamos o domínio das tecnologias de informação e comunicação (TIC), gestão do tempo e o gerenciamento de uma equipe de tutores e, portanto, a capacidade de trabalhar em equipe (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 62). Os autores argumentam que novos saberes são incorporados pelos professores na EaD. Considerando os tutores como parte da equipe docente, é importante que esses saberes sejam incorporados por todo o conjunto. Dentre os diferentes saberes mobilizados, construídos e/ou adquiridos a partir da prática dos sujeitos pesquisados no CLMD, eles comentaram que precisaram aprender e aperfeiçoar a utilização das tecnologias da informação e comunicação (TIC), citando o Moodle e os softwares matemáticos utilizados com maior ênfase, entendendo o domínio das TIC como um saber mobilizado, construído e/ou adquirido pelo grupo. 190 O Tutor 34 diz: “aprendi a usar o Moodle, (...). Eu conheci programas que eu não conhecia antes, eu conheci ferramentas de ensino que eu não conhecia antes”. A Tutora 16 complementa afirmando que além dos saberes pontuados por Tardif (2011), a saber, os saberes disciplinares, curriculares, de formação profissional e da experiência, precisaria para a atuação na tutoria, “ter saberes mais específicos em relação às tecnologias utilizadas na educação a distância”, explicitando que aprendeu na prática, no ir fazendo, a relação com essa tecnologia. O espaço do Moodle, especificamente, que me era desconhecido, que eu não tinha conhecimento nenhum, e que sem uma formação específica aqui, eu fui adquirindo pelo intermédio dos colegas, ou de um dos professores formadores que pudessem estar auxiliando (Tutora 16). Dentro do espaço do AVA Moodle cabe ressaltar a utilização do fórum de maneira adequada. O professor do ensino presencial muitas vezes esclarece as dúvidas de forma oral em suas aulas, e no fórum o sistema é outro. O fórum é um registro escrito do processo de ensino-aprendizagem, então saber como postar uma mensagem e como responder aos questionamentos é um aprendizado imprescindível nesta modalidade de ensino. 89 Pela importância dos fóruns em EaD, é essencial que os professores sejam adequadamente formados no seu uso, para que evitem, de um lado, dominar completamente as discussões (tolhendo assim a liberdade de expressão de seus alunos), e, do outro lado, não fiquem totalmente ausentes (dando a impressão de abandono aos alunos) (MATTAR, 2012, p. 121). A Tutora 21 traz na sua fala uma questão interessante, referindo-se as Redes Sociais. Argumenta sobre a facilidade que os estudantes de hoje, nativos digitais90, têm de realizarem diferentes atividades conectados ao mundo digital, expondo que a tecnologia está integrada no cotidiano dos alunos e que esta deve ser também incorporada de forma mais efetiva ao sistema educacional. Tu analisa os alunos que a gente tem hoje, ele são da era digital. Eles conseguem fazer um exercício de matemática conversando no Face, no MSN, no Skype, escutando música, jogando aqueles jogos de computador (...). Ela [tecnologia] ta muito integrada. Hoje tu trabalha direto com tecnologia. É data-show na sala de aula pra mostrar demonstração. Cada vez tu ta usando menos o quadro (Tutora 21). 89 Cabe esclarecer que este autor explica no início de seu livro que considera o tutor como um professor, ou seja, um sujeito vinculado a docência na EaD, utilizando a terminologia professor ao invés de tutor no decorrer da obra. 90 Nativo digital é a pessoa que nasceu e cresceu na Era da Informação, com as tecnologias digitais presentes em seu cotidiano, sendo estas tecnologias representadas por videogames, Internet, telefone celular, MP3, iPod, Tablet, entre outros. O termo faz referência àqueles que cresceram com as tecnologias do século XXI. 191 Nesta questão das Redes Sociais, tão presentes no mundo atual, o Tutor 12 destaca que muitas vezes os alunos buscam auxílio para dúvidas por meio delas, em conversas informais e em horários alternativos. Eles me procuram muito em redes sociais. Facebook é direto, não tem um dia que não tenha uma mensagem: “ah, não to entendendo tal ponto, como é que eu faço isso aqui, não tem como tu me da uma ajuda ali?”. Então eles procuram todas as alternativas que tem, MSN, Facebook, Gmail, direto (Tutor 12). A questão da utilização das tecnologias, como o Moodle, softwares ou propriamente as Redes Sociais é um grande auxílio para a mediação pedagógica entre alunos e tutores, porém “não é a tecnologia que vai resolver ou solucionar o problema educacional do Brasil. Poderá colaborar, no entanto, se for usada adequadamente, para o desenvolvimento educacional de nossos estudantes” (MASETTO, 2009, p. 139). Usar a tecnologia a favor da aprendizagem é essencial, mas não considerando que ela, por si só, vai resolver os problemas de ensinoaprendizagem que aparecem durante o processo. O Tutor 13 afirma: “uma pessoa que não tem contato muito contínuo com elas [tecnologias], tu acaba tendo que desenvolver. A questão do Moodle, que às vezes, a gente passou por uma mudança ali, que precisou ter toda uma reaprendizagem, um reaprendizado”. Nesta fala, deixa claro que mesmo depois de conhecer determinada tecnologia, como o AVA Moodle, utilizado pelo curso, mudanças acontecem e o reaprendizado é necessário. Assim como as tecnologias evoluem é preciso evoluir no curso e nos conhecimentos tecnológicos adquiridos. Isto corrobora com o pensamento de Moore e Kearsley (2008, p. 77), ao afirmarem que é importante ter conhecimento “suficiente a respeito delas para sermos capazes de formular perguntas inteligentes, fazer sugestões, saber quando algo não está operando como deveria e, acima de tudo, conhecer os limites e o potencial de cada uma das tecnologias”. Desta forma, fica evidente que um dos saberes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na prática da tutoria no CLMD foi vinculado ao domínio das TIC, sendo o que mais se destacou entre este grupo de sujeitos. Essas TIC são relacionadas especialmente aquelas utilizadas pelo curso para a comunicação com os alunos, o ambiente virtual de aprendizagem Moodle e os softwares pedagógicos da área específica da Matemática, como o Geogebra e o Logo. “A prática 192 pedagógica da tutoria orienta o educador a articular melhor o uso de determinadas tecnologias em função da construção do conhecimento dos seus alunos” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 83). Relacionado a gestão do tempo, os tutores destacaram que a flexibilidade espaço-tempo para cumprir sua carga horária semanal facilita o melhor atendimento dos alunos, porém tiveram que aprender a gerir este tempo de forma a serem produtivos e não deixar as atividades acumularem, com o pensamento “ah, amanhã eu faço”. Essa mesma gestão do tempo procuraram sempre ensinar para os alunos, visto que muitos trabalham 40 horas semanais e precisam de organização para dar conta de todas as atividades a serem desenvolvidas. A Tutora 31 expõe sobre sua necessidade de auto-organização e disciplina, “a organização, que tem que ter. A disciplina, que os alunos também têm que ter, a gente tem que ter aquela disciplina de horário de estar disponível”, vinculando ao seu horário de atendimento aos estudantes, pois “a organização pessoal do tempo é uma das habilidades essenciais do tutor” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 81). É preciso organizar-se e disponibilizar ao grupo os dias e horários pré-estabelecidos para a tutoria, de forma que os alunos também possam se organizar. De forma similar, a Tutora 21 afirma que “eu tive que me disciplinar em horário”, buscando dar o exemplo aos alunos, pois no decorrer do curso eles “têm que ter aquele horário pra trabalhar” e desenvolver as atividades e tarefas solicitadas. Vinculado à questão da disponibilidade do tempo, Mill (2011, p. 277) argumenta que é preciso que os tutores virtuais tenham “disponibilidade para se dedicar à atividade de tutoria”, não deixando o trabalho como atividade extra, a ser realizada quando sobra tempo. “O planejamento das atividades de acordo com seu tempo disponível e a organização da agenda em função das responsabilidades e tarefas da tutoria é um aspecto importante a ser observado pelos tutores” (ibidem). Assim, a gestão do tempo é um saber importante, pois à boa organização temporal do tutor vincula-se uma clareza aos estudantes sobre os horários disponíveis para atendimento. O trabalho em equipe aparece naturalmente para este conjunto de tutores, visto a estrutura atual do CLMD. Conforme exposto na seção 2.2, no eixo que está sendo executado existem professores efetivos, professores pesquisadores referência, tutores virtuais e presenciais, sendo que todos precisam estar falando a 193 mesma linguagem para que o desenvolvimento do trabalho seja harmonioso e produtivo. A Tutora 30 expõe que são os professores do curso “que ajudam a gente, que dão subsídio pro nosso trabalho”, afirmando a importância deste trabalho de toda a equipe docente. “É super importante a gente formar um elo, assim, bem próximo do professor que a gente ta atuando junto” afirma a Tutora 7, quando referese a conhecer o professor e buscar junto dele esta proximidade para o desenvolvimento de suas atividades. A Tutora 26 fala que “é justamente esse contato que a gente tem, permanente, com os professores pesquisadores, os colegas que fazem tutoria nas disciplinas, eu acho que esse contato, essas reuniões, essas discussões, é que fazem a gente se sentir pertencente a isso”, pertencentes à equipe polidocente do CLMD. É um sentimento que sempre transpareceu no CLMD, o sentimento de pertencimento a uma grande família, família esta preocupada com o ensinoaprendizagem de milhares de estudantes espalhados pela região sul do nosso país. Pois, “o docente que entende essa necessidade e compartilha decisões e autonomia com sua equipe de tutores, admite essa docência compartilhada – polidocência (MILL, 2010) – e colabora para que o processo seja bem sucedido” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 70). Mesmo na antiga estrutura disciplinar o trabalho em equipe era desenvolvido por alguns professores do curso. Estes, por iniciativa própria faziam de seu grupo de tutores uma verdadeira equipe docente. O depoimento da mesma Tutora 26, no CLMD desde 2007, ilustra este fato: Equipe de trabalho, discutir o trabalho, organizar o trabalho, foi isso que a gente começou a fazer quando eu cheguei aqui, reuniões... a gente tinha reuniões permanentes, nós discutíamos a disciplina, como faríamos, e isso foi fazendo um vínculo, com a equipe e óbvio, com a questão dos polos e da relação que a gente estabeleceu a partir daí, dessa equipe com os nossos alunos nos polos. Eu acho que isso foi uma coisa bem importante, assim. A troca de experiências nesse grupo, a troca de conhecimentos, as discussões, isso foi a parte bacana assim de se sentir que tem um trabalho que precisa ser discutido, que precisa ser pensado, e nessa equipe a gente fez isso. Além de estes três saberes já pontuados por Mill (2011), sendo domínio das TIC, gestão do tempo e capacidade de trabalhar em equipe, relacionado aos saberes que são necessários para a atuação docente na EaD, os tutores pesquisados citaram outros. A questão de ter que rever questões específicas dos conteúdos matemáticos pode ser relacionado aos saberes disciplinares de Tardif 194 (2011). Alguns tutores argumentaram que por trabalharem com a Educação Básica acabaram precisando retomar os conteúdos do ensino superior para conseguirem auxiliar os acadêmicos. “Eu revi muita coisa, porque como eu parei muito tempo, fiquei muito tempo afastada do ensino superior eu revi todos os conteúdos ali na tutoria porque até pelas próprias perguntas que os alunos faziam”, fala a Tutora 7. Semelhantemente, “tive que ter conhecimento, voltar ao caderno, voltar a época da faculdade, voltar aos conhecimentos que a gente já tinha aprendido e relembrar eles novamente”, argumenta a Tutora 30, pois é imprescindível que o tutor tenha pleno conhecimento da matéria a ser ensinada (TARDIF, 2012). E a busca, também, do conhecimento, tu ta sempre... são sempre coisas novas, sempre correndo e estudando pra conseguir repassar pra eles, na tutoria. Que no caso, é, eu tenho determinadas áreas que até eu atuo, mas tem outras áreas que foi me passado da tutoria que eu não atuava, eu tive que buscar, o conhecimento (Tutora 31). A Tutora 31, apesar de atuar no ensino superior, levanta a questão da diversidade de áreas dentro da Matemática, precisando estudar aquelas que, até então, não eram por ela trabalhadas de forma mais direta em sala de aula, mostrando a preocupação com o domínio dos conceitos. A mobilização, aquisição e/ou construção dos saberes também se vincula ao acréscimo da experiência, pontuada por Tardif (2011; 2012) como um dos saberes docentes. A experiência é construída durante a vida profissional do professor e do tutor, como membro da equipe docente do CLMD, a partir de tentativas, erros e acertos, de ajustes constantes aos fatos e às situações. E penso que não tem como não ter um enriquecimento, um alargamento, também, na minha experiência, nos meus saberes de experiência, porque, imagina que, quando mais a gente faz, mais experiência a gente vai adquirindo, e com um trabalho diferenciado, que é esse trabalho a distância, eu pude experienciar, e pude conhecer, e pude, como eu te disse no início, assim, desmistificar algumas coisas em relação a educação a distância (Tutora 16). Esta tutora traz à tona a questão de que a experiência, além do alargamento dos saberes proporcionou a desmistificação de alguns preconceitos que tinha com a EaD, como, por exemplo, o fato que o aluno da EaD recebia tudo de forma facilitada, não acontecendo o aprendizado. Ainda, salientou que acreditava não poder haver interação entre professor-aluno ou tutor-aluno na EaD, fato não verdadeiro. Por exemplo, como esta tutora cuida das questões vinculadas aos estágios, percebeu uma grande interação entre os sujeitos, um contato muito próximo, às vezes, até 195 mais próximo do que no ensino presencial, mesmo sendo a comunicação mediada pelo computador. A linguagem escrita dos tutores, muitas vezes através do feedback enviado aos alunos, é outro saber que foi construído pela maioria dos tutores a distância desta pesquisa. “O feedback que mediatiza a aprendizagem é aquele colocado de forma clara, direta, por vezes orientando discursivamente, por vezes por meio de perguntas, ou de uma breve indicação ou sugestão” (MASETTO, 2009, p. 166). Eu tive que adquirir e movimentar mais foi na questão de dar os retornos de forma clara e objetiva (...). E a cada novo feedback parecia que ele ficava mais fácil de ser escrito. É a prática, eu acho, o exercício que a gente vai tendo que fazer e então vai desenvolvendo esse exercício na constituição desses feedbacks. Então pra mim, essa aprendizagem de escrever, ler e reescrever feedbacks, pra dar o retorno pros alunos eu acho que foi um conhecimento que eu precisei adquirir e ao mesmo tempo readquirir ele a cada novo feedback, uma coisa que tava sempre em movimento contínuo porque as atividades eram muito diversas e ao mesmo tempo tu tinha que dar um retorno mais simples pros alunos (Tutor 13). Esse feedback, pela importância que tem para os alunos, é a forma que o tutor tem de “estar acompanhando o crescimento deles, tu tem que ta vendo o que eles tão fazendo, quais as dificuldades. E o feedback vem justamente pra tu dar esse retorno pra eles” conclui o Tutor 12. Esse retorno é o que mobiliza os alunos durante o processo de aprendizagem, visto ser uma das formas que o tutor pode oferecer auxílio ao estudante mediante as atividades apresentadas. Se o feedback for estabelecido de forma a auxiliar o aluno, é um importante recurso dentro da mediação pedagógica na EaD. É preciso que o tutor tenha consciência de que este feedback precisa ser construído individualmente, com responsabilidade e buscando destacar de cada aluno seus pontos fortes, mostrando caminhos para suprir as possíveis falhas que aconteçam. Só dizer “parabéns” ou “você precisa refazer a questão” não contribuem em nada na formação do estudante, ao contrário, podem frustrá-lo e desmotivá-lo, afastando-o ainda mais da possibilidade de futuras aprendizagens. Agregado ao feedback, é essencial a construção da afetividade. O como ser afetuoso com o aluno de EaD é um saber que muitas vezes passa despercebido no ensino presencial, visto o contato físico direto, o “olho no olho” que acontece durante as aulas. A afetividade faz parte da socialização, desta interação tutor-aluno, pois “eu acredito que tenha que ser o lado mais doce no sentido de chamar atenção, mas de uma forma delicada pra não aumentar os problemas” afirma a Tutora 7. Tardif e 196 Lessard (2011) expõem que “na docência, profissão de relações humanas, trabalho com coletividades e ao mesmo tempo centrado nas pessoas, a acolhida dos alunos se reveste de uma importância particular, como no estabelecimento de toda relação humana” (ibidem, p. 177), fato a ser considerado no ambiente da EaD. Muitas vezes, pelo aluno na EaD não ter o contato físico ou o “olho no olho” com parte da equipe docente que fica na sede do curso, é imprescindível que o tutor virtual faça essa ligação afetuosa e de acolhimento, no sentido de que o aluno possa sentir-se pertencente a este grupo, a este curso. “O trabalho docente repousa sobre emoções, afetos, sobre a capacidade não só de pensar nos alunos, mas também de perceber e sentir suas emoções, seus temores, suas alegrias, seus próprios traumas, etc” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 258), sendo que o “tutor necessita conhecer como fazer a interação afetiva com o aprendiz. Saber comunicar-se através da escrita com muita fluência” argumenta a Tutora 33, para que este acolhimento seja eficiente e a aprendizagem aconteça num ambiente saudável e harmonioso. A Tutora 7, de forma singela mas com propriedade nas palavras, afirma que “se tu tem um bom relacionamento pessoal tudo vai andar mais fácil em qualquer área”, especialmente quando se trata de questões vinculadas ao ensino. Outra questão pertinente e que foi destacada pelos tutores é que aprenderam a conhecer os estudantes mediados pela tecnologia. “A gente vai tendo esse contato através da mídia, da tecnologia” diz a Tutora 26, de forma a entender como é esse aluno, suas vivências e expectativas, sua rotina e preocupações, busca conhecer o contexto social e cognitivo dele. A tutora ainda fala da busca pela permanência com determinados grupos, pra poder ter esse tempo de convivência através dos instrumentos pra poder se familiarizar com esse aluno, eu acho que a gente busca isso através dos instrumentos que a gente tem. E isso é um conhecimento diferente do contato né, que tu olha “olho no olho”, que tu vê a reação do aluno. E aí a questão desse contato, através dos vários trabalhos, a gente começa a construir um pouco de como que é esse aluno (Tutora 26). O conhecer o aluno mediado pela tecnologia pode até ser um pouco mais demorado do que em uma sala de aula presencial, por isso a importância de saber utilizar bem as tecnologias disponíveis e estar aberto às novas formas de comunicação vinculadas à modalidade EaD. Por último, mas não menos importante, é a construção do saber vinculado à segurança no trabalho a ser desenvolvido, que pode ser relacionado à experiência adquirida, sendo os saberes temporais “na medida que passam por transformações 197 vinculadas às etapas da carreira docente” (BORGES, 2004, p. 82). O grupo de tutores mencionou em seus depoimentos que entender as funções que deveriam desenvolver enquanto tutores a distância tornou o trabalho mais fácil de ser executado, mais firmeza no que ia ser dito aos alunos. “Quando eu comecei, na verdade, eu não tinha segurança, eu não sabia quais os desafios que estavam por vir, o que eu tinha que realmente fazer”, argumentou o Tutor 12, mencionando certa tranquilidade no trabalho hoje. Mill, Ribeiro e Oliveira (2010) afirmam, a partir de suas pesquisas que “à medida que os tutores se sentem mais experientes, assumem uma postura mais autônoma e passam a se sentir mais confiantes no seu trabalho” (ibidem, p. 80). Mais segurança. Mais confiança no trabalho. A gente... eu comecei insegura, sem saber como fazer, como chegar lá, sempre assim... sempre procurando... a parte da insegurança mesmo, procurando saber “será que estou fazendo certo?”, procurando... vê se aquilo que eu to fazendo ta correto, ta andando, e hoje eu acho que eu tenho mais firmeza. Eu sei onde eu vou ir, o que que eu tenho que fazer, a qual objetivo chegar (Tutora 30). Sendo que “o trabalho docente constitui uma das chaves para a compreensão das transformações atuais das sociedades do trabalho” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 17), é importante refletir sobre este na EaD. Pode-se pensar a Educação a Distância, modalidade de ensino em expansão principalmente na última década, como uma das responsáveis pelas modificações relacionadas ao trabalho docente. Como abordado, na EaD não existe somente a figura do professor, mas sim uma equipe polidocente responsável pela execução de todo o trabalho pedagógico vinculado ao processo de ensino-aprendizagem dos alunos. Nesta equipe, composta por diferentes sujeitos, merece destaque a figura do tutor. Este sujeito que exerce também funções docentes é um dos responsáveis pelas transformações na atual sociedade do trabalho, visto que ser tutor ainda não é uma profissão reconhecida, sendo caracterizada como uma precarização do trabalho docente. Este sujeito acaba mobilizando, construindo e/ou adquirindo novos e diferentes saberes para poder exercer sua função de forma qualificada, como visto nesta seção. A seção seguinte se propôs a identificar alguns saberes que o grupo de tutores virtuais pesquisados definiram como específicos para a sua atuação na EaD. Desde já, é importante salientar que, visto o grande grupo de fato ter o sentimento de pertença à equipe docente do CLMD, poucas foram as inserções no sentido de 198 um saber específico, visto que consideram a EaD apenas como outra modalidade educacional, a qual exige novos e diferentes saberes que podem e devem, dentro do possível, serem contemplados no ensino presencial. 6.2.4. Saberes docentes específicos na atuação da tutoria em EaD Nas seções anteriores foram apresentadas a percepção do grupo de tutores sobre o que são os saberes docentes e quais acreditam ter mobilizado, construído e/ou adquirido na prática da tutoria no CLMD. Neste espaço, discuti-se sobre quais, dentre os saberes mencionados, eles acreditam que seria um saber docente específico para a atuação na modalidade a distância. É importante ressaltar que alguns tutores não perceberam um saber específico para a atuação na tutoria, afirmando que entre aqueles que foram mobilizados, construídos e/ou adquiridos, todos poderiam e/ou deveriam ser utilizados também no ensino presencial. Neste aspecto, como os tutores consideram-se parte ativa da equipe docente do curso, argumentam que os saberes de professores do ensino presencial são os utilizados na prática da EaD e viceversa, de forma que a atuação nas diferentes modalidades complementam-se. “Não, acho que não. Acho que... é como eu te digo né, eu penso que tenha que ter este conjunto de saberes. Não vejo nenhum isolado. Acho que as coisas funcionam basicamente nessa articulação dessa constituição desses saberes” argumenta a Tutora 16. Já a Tutora 19 afirma que “acredito que não exista diferença. É relevante que os dois papeis conheçam bem a tecnologia para trabalhar com diferentes aprendizagens”. É exatamente neste aspecto, vinculado a questão tecnológica, que a maioria dos tutores cita um saber específico para a atuação na Educação a Distância. Importante salientar que o definem como específico, pois sem a utilização da tecnologia não é possível estabelecer a comunicação, a interação com os alunos da EaD, sendo que com os alunos do presencial sim. “Teria que ter pelo menos o mínimo de conhecimento de um programa, do acesso a internet, tem que ter esse conhecimento da tecnologia né?” fala a Tutora 31, referente ao conhecimento mínimo para executar as tarefas na EaD, visto a necessidade dos recursos tecnológicos para que a mediação e a comunicação aconteçam. Esta mesma tutora 199 complementa: “a parte da informática, de conhecer os programas. Claro que eu utilizo também na minha aula presencial, mas aqui é fundamental, eu tenho que saber lidar”. Vinculado à própria contratação para desempenhar as funções estabelecidas “o tutor na EaD precisa ter conhecimentos básicos em informática; já o professor presencial não precisaria destes conhecimentos para ser contratado” afirma a Tutora 4, ou seja, é preciso que na modalidade a distância exista uma familiaridade inicial com os recursos a serem utilizados. “Se o professor presencial precisa estar familiarizado com as tecnologias de informação e comunicação, o professor que atua em EaD precisa ter nelas seu idioma materno” de forma similar expõe o Tutor 34. E ainda, conforme o Tutor 12, “um domínio básico das tecnologias. Tu tem que ta avançando, sempre surgem novos softwares, novas coisas e tu tem que ta sempre correndo atrás”, argumentando que mesmo com esses conhecimentos básicos, é importante sempre buscar, inovar. A cada novo eixo temático a ser executado no CLMD esses tutores precisam aprender ou reaprender a utilizar determinados softwares matemáticos para acompanhar o processo de aprendizagem dos alunos. Aqueles que já conhecem o software escolhido relembram comandos e aperfeiçoam sua utilização. Já os que não conhecem, precisam correr atrás para aprender, a fim de ser o suporte que o aluno vai precisar mais adiante. Neste sentido, os tutores, de forma geral, argumentaram que seria interessante que acontecessem mais capacitações, a fim de apresentar ao grupo como determinado software funciona e qual será sua utilização no decorrer do semestre. A utilização das tecnologias pode ser percebida como uma das funções do tutor, pois entendê-las auxilia no momento de orientação aos alunos, de comunicação e interação: Saber é informática, sabe? É... pelo menos um pouco, né? Tu tem que saber usar as ferramentas é, tecnologias, é TICS, né? Eu acho que isso é fundamental, tu tem que saber recomendar um vídeo, (...) tu tem que saber usar ferramenta de chat, que as vezes é uma coisa bem complicada (Tutor 34). Mas não só o tutor, todos os envolvidos precisam conhecer as tecnologias: “em virtude de a comunicação ser tão importante para a educação a distância, todo 200 aluno e usuário precisa conhecer um pouco a respeito de cada tecnologia e também da mídia que a veicula” (MOORE; KEARSLEY, 2008, p. 77). Outra questão apontada pelos tutores é a forma de explicar os conteúdos. Se no ensino presencial existe a possibilidade de o professor ir ao quadro e resolver exemplos e exercícios para a turma, no ensino a distância, essa possibilidade existe, mas é remota. Pode até acontecer por meio de uma web conferência, mas no atual currículo do CLMD, por exemplo, não é utilizada. Assim, o tutor precisa utilizar outras formas de explicação para os alunos. Deste modo, “pegar uma lista de exercícios e fazer um gabarito inteiro da lista pra que os alunos não tenham como se perder”, de forma esmiuçada, é algo que a Tutora 7 afirma não fazer no ensino presencial mas que acaba executando na EaD, pensando que pode desta forma ajudar o aluno enquanto estuda sozinho em casa, por exemplo. Esta mesma tutora ainda fala que o “aluno que entra na educação a distância, às vezes ele não tem a capacidade, a competência, digamos, de ser mais autônomo, ele tá na educação a distância mais ele quer o tratamento do presencial”, referindo-se a falta de iniciativa em buscar pelo seu próprio aprendizado, não dependendo tanto do professor ou do tutor. É preciso que este aluno desenvolva as características de um aluno virtual, que além de ter um conhecimento mínimo sobre informática e ter uma boa conexão de internet disponível, é preciso não sentir-se “prejudicado pela ausência de sinais auditivos ou visuais no processo de comunicação” (PALLOFF; PRATT, 2004, p. 26) bem como ter automotivação e autodisciplina, dispor de um tempo significativo para o curso, não o encarando como uma forma fácil de aprender, começar a desenvolver o pensamento crítico, refletir sobre seus aprendizados e acreditar que a aprendizagem de alta qualidade pode acontecer tanto no ensino presencial como no ensino a distância. A Tutora 2, uma das responsáveis pela parte dos estágios, traz a tona a necessidade de detalhar também as questões vinculadas a parte pedagógica. “Por exemplo, ele não sabe escrever um relatório, eu também não sabia. Então tentar ao máximo possível esmiuçar para que ele consiga ver como é que se procede, como é que se escreve”, mostrando que no ensino presencial muitas vezes as necessidades são as mesmas, apenas sanadas de outra forma. De maneira geral, os tutores não fizeram grandes referências a saberes específicos para a atuação na EaD, de forma que aqueles que são construídos, 201 mobilizados e/ou adquiridos nesta nova configuração de atuação docente, também poderiam ou deveriam ser utilizados na sala de aula presencial. Como expõe a Tutora 32, “acredito que "saberes" não, porém o modo de se relacionar (a distância) talvez precise de um cuidado maior com as explicações, expressões, posicionamento”, trazendo exatamente a especificidade no modo como a comunicação e a interação acontecem nesta modalidade de ensino. Se o objetivo na EaD for oferecer um ensino de qualidade, não pode haver diferença nos saberes entre tutores e professores presenciais, pois ambos tem que dominar os conteúdos a serem desenvolvidos e, também, as tecnologias empregadas na educação (Tutor 20). De forma simples e direta, as palavras do Tutor 20 sintetizam a ideia exposta por este grupo de tutores virtuais que atuam hoje no CLMD. Os saberes docentes devem ser os mesmos, o que acaba diferenciando uma modalidade para outra é a forma como eles são utilizados. Na Educação a Distância as TIC são indispensáveis, sendo facultativa sua utilização no ensino presencial, porém, com a certeza que trazem muitos benefícios para o aprendizado dos alunos. Na última seção, então, busquei sintetizar o que foi de certa forma explorado nas seções anteriores, ou seja, perceber como os tutores a distância do CLMD fazem essa recontextualização de saberes da modalidade presencial para a modalidade a distância. O que foi preciso nesta recontextualização? Quais são as principais mudanças percebidas? Quais são os saberes docentes dos tutores da EaD? 6.2.5. A recontextualização dos saberes docentes dos tutores na EaD O entendimento sobre o ser tutor na EaD e o que são os saberes docentes para o grupo pesquisado apresentou questões pertinentes e que levaram a uma reflexão interessante no âmbito deste trabalho. Ainda, quando os próprios sujeitos conseguiram pontuar o que foi mobilizado, construído e/ou adquirido em relação aos saberes durante a sua prática tutorial e quais destes consideram que poderiam ser de uso exclusivo na Educação a Distância mostra o quão maduros já se apresentam em relação a função docente que desempenham neste novo cenário educacional. Mas, como estão encarando as mudanças que acontecem do ensino presencial para a modalidade a distância? Como estas refletem na sua prática, 202 desde sua formação inicial? O primeiro ponto a ser destacado, então, é buscar entender o que os tutores a distância compreendem do termo “recontextualização”. Esta questão apareceu no questionário online e trouxe algumas respostas importantes, as quais são apresentadas na Tabela 12, juntamente com o número de tutores que as responderam e a porcentagem que representa em relação ao número total, 35 sujeitos. Tabela 12: O que significa recontextualizar? O que significa recontextualizar? Adaptação de conhecimentos Argumentar uma contextualização que já tenha sido apresentada ao aluno Buscar novo significado para algo que deixou de ser atual Colocar em prática tudo que está a sua volta Contextualização dos saberes da experiência da prática presencial para a EaD Contextualizar novamente Dar novos significados Preferiu não responder Reflexão das práticas adotadas, alterando a metodologia quando necessário Relacionar o conteúdo ao dia-a-dia do aluno Rever conceitos, se aprimorar e pensar a atuação docente Trazer para um novo contexto Usar algo existente em nova possibilidade Nº Tutores 2 5,72 1 2,86 1 1 2,86 2,86 1 2,86 8 1 1 22,86 2,86 2,86 3 8,57 4 1 8 3 11,43 2,86 22,86 8,57 % Fonte: Elaboração da autora Das respostas dadas no questionário, ficou claro que para praticamente metade dos sujeitos, 45,72%, o termo recontextualizar significa “contextualizar novamente” ou “trazer para um novo contexto”, respostas que posso dizer serem bem próximas. Assim, existe um aparente entendimento que ao recontextualizar acontece uma modificação no contexto, sendo que alguns já fizeram referência as modalidades presencial e a distância como contextos distintos no processo de ensino-aprendizagem. As demais questões apresentadas, de certa forma, tem uma similaridade, pois estão vinculadas à possibilidade de adaptações da prática, dos conhecimentos, de novos significados. Buscando o diálogo com Bernstein (1996; 1998), autor que 203 definiu o termo recontextualização utilizado nesta pesquisa, cabe salientar que este criou o dispositivo pedagógico composto por três regras, sendo que a regra recontextualizadora é a que está no meio deste conjunto. Nela, está vinculado o discurso pedagógico, o qual é um princípio para apropriar outros discursos e colocá-los numa relação mútua especial, com vistas à sua transmissão e aquisição seletivas. O discurso pedagógico é, pois, um princípio que tira (desloca) um discurso de sua prática e contexto substantivos e reloca aquele discurso de acordo com seu próprio princípio de focalização e reordenamento seletivos (BERNSTEIN, 1996, p. 259). Neste sentido, o discurso considerado é a prática docente dos tutores a distância, deslocada do ensino presencial e relocada na educação a distância, percebendo como acontece esta adaptação dos saberes docentes. Os saberes docentes dos tutores são marcados e influenciados por outros saberes, bem como pelo processo de reformulação da informação e destes saberes na prática cotidiana da tutoria mediada pela experiência e pela prática profissional, onde um novo conhecimento é produzido para e em relação aos anteriores. Para Tardif e Lessard (2011, p. 211), os professores não aplicam nem seguem os programas escolares mecanicamente; ao contrário, apropriam-se deles e os transformam em função das necessidades situacionais que encontram, das suas experiências anteriores, bem como de muitas outras condições, como seu entendimento da matéria, sua interpretação das necessidades dos alunos, os recursos disponíveis, o andamento da turma, suas preferências e valores, etc. Assim, na sequência são descritas as questões relacionadas pelos tutores que apresentaram, de alguma forma, uma recontextualização do ensino presencial para a modalidade a distância. Ao apresentar a teoria de Bernstein, no capítulo 3, foi proposto que a partir das Regras de Recontextualização do Discurso Pedagógico, fosse feita uma análise dos saberes docentes dos tutores a distância do CLMD. É importante relembrar que Bernstein objetivou “criar uma linguagem conceitual capaz de descrever os caminhos de construção do discurso e da prática das relações pedagógicas” (LEITE, 2007, p. 29). Considerei como o Discurso Pedagógico Oficial (DPO) nesta tese os saberes da formação inicial dos tutores. Estes sofrem recontextualização no Campo de Recontextualização Pedagógica (CRP), criando o Discurso Pedagógico de Reprodução (DPR), que aqui é considerado como os saberes constituídos na 204 formação específica que os tutores receberam para atuar na Educação a Distância (vide figura 34 – seção 4.3.2). Nesta primeira recontextualização, vinculada aos saberes da formação inicial, ficou compreensível que dentre os saberes pontuados por Tardif (2011; 2012) e Borges (2004), os tutores tem a percepção clara sobre os saberes disciplinares, dando ênfase às questões de conteúdo abordadas durante seu curso, porém não relacionam uma preparação pedagógica para atuarem como docentes na Educação a Distância, mesmo quando referenciados os tutores que concluíram a graduação recentemente. Porque a graduação, ela te da um subsídio muito, digamos, técnico. Tu tem toda a parte do conhecimento matemático para tu atuar em sala de aula, mas só o atuar que te faz realmente ter aquela experiência, ter a firmeza e ter o domínio. Então, se tu sai direto da graduação e tu vem pra uma tutoria, eu acho que falta alguma coisa. Falta, de repente, a questão de um domínio, a questão de como tu vai tratar com teu aluno (Tutor 12). A fala anterior remete também ao saber da experiência, que só é adquirido, ou só faz sentido quando o docente começa a ministrar aulas. Ainda, que o saber pedagógico, da questão vinculada ao relacionamento, a interação professor-aluno, ou tutor-aluno, é aprendida na vivência diária, dia após dia. Ou seja, mesmo que muitos saberes sejam ensinados na formação inicial, existem lacunas. “Dentro da universidade tu não tinha essa visão do ensino a distância, não tinha não... Quando eu me formei não tinha. Claro, eu tinha o conhecimento”, salienta a Tutora 31, reafirmando a questão conteudista. A tutora argumenta que tinha os saberes disciplinares, vinculados ao domínio específico da área, porém sem saber como relacioná-los a EaD. Eis aí uma recontextualização necessária do saber disciplinar para a atuação como tutora no CLMD. Outra tutora expõe que “na realidade a formação, tu aprende as disciplinas que tu tem que aprender, mas tu não aprende a lidar com o aluno (...) só a formação não te prepara” (Tutora 21). A Tutora 30 relata uma preocupação, pois no curso de graduação, “faltou a parte da tecnologia”, saber presente e necessário atualmente no ensino, indispensável para a modalidade a distância. Esses tutores tem clareza que um curso de formação inicial não oferece tudo que é necessário para atuar numa sala de aula, seja presencial ou virtual. Quando tu te forma tu vai ter uma..., olha a redundância, tu vai ter uma formação, até pra tua área específica restrita. Tem saberes ali que não vão estar incluídos, porque tu não passasse por eles ainda. Mas, enfim, tu tem que te aventurar, tu tem que começar, tem que ter um começo, né? É claro 205 que a pessoa procuraria começar na sua área específica, pra contar com essa formação (Tutora 16). Do Discurso Pedagógico de Reprodução vem uma recontextualização no Contexto de Reprodução, referenciada pela prática pedagógica dos tutores na EaD. “O trabalho dos docentes na EaD também passa por um reconfiguração” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 60). Aqui, foram significativas as formas que apresentam uma recontextualização do ensino presencial para a modalidade a distância, tendo clareza de que “têm coisas que são parecidas, mas como o modo, a modalidade é outra, eu acho que tu tem que adaptar isso pra melhor atingir o teu aluno”, afirma o Tutor 12. Para Tardif e Lessard (2011), existe uma noção de reflexividade, a qual “significa que os saberes, as competências, as significações e as interpretações dos parceiros de interações são sistematicamente reinvestidos na própria interação e contribuem, desse modo, ao seu desenvolvimento” (ibidem, p. 171). É nesta nova prática, com especificidades em relação ao ensino presencial, que os tutores levantaram questões pertinentes de análise. Primeiro, salientam que a comunicação com o aluno acontece praticamente só pela escrita, o que os obriga a rever as formas de sua escrita e de como chegar ao aluno por meio dela, pois sabem que “a comunicação é fundamental, sem a comunicação não existe ensino a distância” afirma a Tutora 31. Esta comunicação escrita precisa levar em consideração aspectos de cordialidade e receptividade, mostrando ao aluno que ele é bem vindo ao curso e que o tutor a distância está ali para ajudá-lo. Ainda, precisa ter uma linguagem clara, simples e objetiva para que o estudante consiga de fato estabelecer um diálogo com o tutor. Alguns alunos buscam mais por este diálogo, trocando mensagens com os tutores e buscando a proximidade, outros nem tanto. Mas é preciso comunicação, “100% comunicação. A gente só age, e não só a distância, tudo acontece através da comunicação, ou do diálogo, ou do escrito”, de forma sutil conclui a Tutora 2. Alguns tutores salientam ainda a necessidade de maiores explicações ou explicações detalhadas que diferenciam do presencial, justamente por não ter o contato físico com o aluno. Sentem a necessidade de esmiuçar as explicações de forma que o acadêmico possa sozinho compreender os conceitos e avançar na construção dos conhecimentos. “Tu tem que gravar uma vídeo aula, tu tem que fazer 206 um... preparar um material mais bem detalhado pra ele” afirma o Tutor 12. Determinados posicionamentos dos tutores exemplificam esta questão: A comunicação é importante porque eles estão sozinhos na frente de um computador, então eles tem que ver que tem alguém que está ali, que está acompanhando ele, que está vendo o trabalho deles, vendo que eles estão partindo pro caminho certo, se não estão (Tutora 30). Eu acho que esse processo [de comunicação] é um processo muito particular, principalmente nessa dinâmica da educação a distância, diferente do presencial. (...) Na educação a distância, nesse contato individualizado com o aluno, eu acho que a comunicação se dá com alguns, volto a dizer, pela diferença de cada um, com uma proximidade maior, outros nem tanto, e aí eu acho que recai numa questão de forma de ser, de interesse do próprio aluno. Pra alguns alunos eu tenho que estar lá, mandando recadinhos, chamando a atenção, lembrando. Pra outros não. A resposta as tarefas. Pra outros, o que acontece, existe uma comunicação maior, não só pelas dificuldades, mas pela própria vontade de estar escrevendo mais coisas, de estar contando mais coisas. Outros não, outros são mais isolados, ficam só no limite no que diz respeito ao pedagógico, puramente, as tarefas que são encaminhadas. Outros entram em outros detalhes, assim... (Tutora 16). Porque quando tu ta no presencial tu tens uma linguagem, tu está falando diretamente com o aluno. Quando tu está no a distância, tu tem que cuida a maneira como tu vai resolve o exercício e explica pra ele, porque aí tu não tens como desenvolver o... tu desenvolve, mas tu já manda desenvolvido, ele não segue o passo a passo. Então, o que é diferente, a linguagem, o jeito que tu vai explicar a atividade pro aluno. Eu noto essa diferença (Tutora 21). A linguagem eu acho que tem que ser... é a mesma, só que como a gente acaba escrevendo, a gente acaba cuidando muito mais no que escreve, eu acho que a gente resume muito mais o que a gente tem a dizer. Eu acho que parece que, por ser uma mensagem pessoal, que seja, um feedback, a gente acaba resumindo muito o que a gente vai dizer, que de repente tu estando no presencial tu está ali com o aluno, tu mostra pra ele, aí ele acaba.... ele te rebate a pergunta no mesmo momento, tu acaba respondendo novamente (Tutora 30). Ainda é importante ter o cuidado para que esta mensagem escrita seja sutil, de forma a não apresentar uma dupla interpretação, o que poderia ocasionar uma situação constrangedora no curso. “Uma palavra, uma frase, que tu não cuide como tu vai elaborar, que tu mande, já é um... ‘ah, porque tu me chamo disso, tu me chamo de burro’, sabe? Então tu tem que cuidar o que tu vai escrever pra eles” desabafa a Tutora 21, mostrando uma preocupação em como realizar o atendimento de forma satisfatória ao estudante, não gerando mágoas ou outros sentimentos negativos. “No ensino a distância a gente escreve né? Aquilo fica legitimado, aquilo fica escrito, só que às vezes, o que é claro pra mim não é claro pro aluno. Então, eu acho que assim, que essa fala que eu tenho, até essa escrita, é uma adaptação 207 entende?” argumenta a Tutora 2, referindo-se a questão de que a escrita deve ser a mais fluente possível. Eu acho que a gente acaba tendo que desenvolver um pouco a habilidade de questionar o aluno, e de tentar indagar um pouco, às vezes, aquilo que ele traz, de uma maneira um pouco diferente, até porque quando a gente escreve ela fica ali né, e às vezes gera muitas interpretações isso. Eu acho que essa questão da habilidade de escrever, no sentido de poder questionar o aluno, que isso na questão mais direta, se torna mais fácil de fazer e na EaD não, tu recebe um trabalho, tu lê, as vezes precisa dar um feedback e esse feedback precisa... não é questão nem só de concordar ou discordar, que tem questões que a gente nem... estão colocadas de forma que não da pra tu questionar, tu concordar ou discordar do que o aluno traz, do que o aluno produziu, mas de fazê-lo pensar um pouco sobre aquilo que ele fez. É essa habilidade que eu acho que um pouco, meio assim, nesse sentido de, assim, como é que eu faço isso através da escrita, né, que é a nossa forma de comunicação com eles, mais direta é a questão da escrita, do feedback (Tutora 26). Na fala anterior, além de ressaltar a preocupação sobre as interpretações que determinada escrita pode gerar junto aos alunos, a Tutora 26 ainda lembra a necessidade de desenvolver a habilidade de questionar o aluno, levando-o a refletir sobre suas construções. Os tutores ainda afirmam sobre a comunicação diária e que constantemente precisam buscar o aluno que “some” do ambiente. “É diária essa comunicação, tu tem que dar sempre, te falei 24h, tu tem que estar sempre procurando responder as necessidades deles então, tu tem sempre essa necessidade diária de comunicação” fala a Tutora 31, sendo que o Tutor 12 complementa, “na distância tu tem que buscar algum mecanismo pra saber... as vezes tu tem que entrar em contato mais de uma vez com ele por mensagens, correr atrás, num bate-papo mesmo, pra ver... tentar identificar onde tá acontecendo a dificuldade dele”. Se analisarmos estas falas, no ensino presencial o professor ministra sua aula e vai voltar a ter o contato com os alunos só no próximo encontro. Salvo exceções, quando possui algum horário de atendimento para tirar dúvidas. Mesmo que existam as Redes Sociais, é mais difícil ver um professor do presencial auxiliando os alunos por ali, sendo que para os tutores é quase “normal” essa forma de ajuda, como já mencionado numa seção anterior. Assim, recontextualizar a forma de comunicação para os tutores é aperfeiçoar a forma de escrita, pois é assim que esta comunicação acontece na EaD. Ainda, é esmiuçar os conteúdos para que o aluno possa estudar sozinho; é estar de prontidão para esclarecer as dúvidas. Consideram, como fala a Tutora 16, 208 que é “possível dialogar com o aluno a distância” apesar da distância física, utilizando os recursos tecnológicos que são oferecidos para isso. Sobre a comunicação Tardif e Lessard (2011, p. 253) afirmam que a comunicação pedagógica está constantemente no centro da ação pedagógica. Ela não é algo que vem somar-se à ação, mas é a própria ação como a vivem os professores e os alunos. Esse simples fato permite, sobretudo, compreendermos por que as qualidades expressivas e comunicativas da personalidade dos professores exercem um papel tão importante na docência: trata-se de qualidade que remetem à natureza comunicacional da ação pedagógica, no âmbito da qual a personalidade do professor torna-se um meio de comunicação, um instrumento de trabalho. Aqui, saliento que estas características descritas pelos autores supracima citados também devem estar presentes quando vinculadas a ação pedagógica dos tutores, sujeitos envolvidos na docência da EaD. Complementando a comunicação escrita que acontece na EaD, é importante salientar que os tutores destacam que o retorno dado aos alunos, referente as suas atividades e avaliações, também é recontextualizado. Isso acontece pelo fato de utilizarem novamente só a linguagem escrita para tal, como afirma a Tutora 7: “então, eu tento trazer a minha fala pra uma escrita, pra adaptar para a educação a distância”, sendo que no ensino presencial poderiam corrigir uma atividade de forma oral, com toda a turma presente, por exemplo. “O contato entre as partes é feito de maneira diferenciada, onde o professor não está fisicamente presente, não podendo ser encontrado a qualquer momento na sala dos professores” (BEZERRA, 2012, p. 154). Assim, os sujeitos destacam que este retorno dado por meio do feedback precisa ser cuidadosamente tecido para cada aluno, buscando alcançar as particularidades de cada um, de forma a cumprir a sua missão, mostrar para o aluno onde aparecem falhas e as formas de contorná-las. “O feedback, ele tem que ser bem centrado”, sintetiza a Tutora 7. “O feedback, eu acho que ele é uma resposta pro aluno, uma resposta, assim, não sei se imediata, mas uma resposta onde ele vai saber ali, como ele está indo, como foi desenvolvido o trabalho dele”, argumenta a Tutora 30. De forma análoga, “porque é através dele que tu vai dizer, mostrar pra eles aonde é que eles erraram a atividade, o que que eles podem melhorar pra próxima. E aí tu explica também, tu acaba corrigindo a escrita deles também” fala a Tutora 21; “é ali no feedback que eu tenho condições de dialogar com o aluno, de 209 rever algumas coisas, de ampliar as instruções que eu possa dar, instruções em termos de aprendizagem, de refazer tarefas” confirma a Tutora 16. Este feedback é o retorno diferenciado que o tutor oferece ao estudante dentro da modalidade a distância, proporcionando ao acadêmico um momento de reflexão sobre seus aprendizados, de forma que possa avançar cada vez mais, atingindo os objetivos propostos naquele semestre. Comparando ao ensino presencial, “importância total de tu dar o retorno pra eles, né? O retorno que eles querem saber o que que... é a tua resposta na aula presencial né, o retorno” desabafa a Tutora 31. Acho que a comunicação, ela é importante, tu tem que sabe... tu tem que ter um... essa comunicação tem que fluir bem porque a gente tem esse instrumento, né? E aí vem a questão da escrita junto, então acho que por aí é a questão fundamental nessa relação direta com o aluno, que é através da escrita, do feedback que a gente dá pra ele, acho que ali é que a gente precisa ta bem, ter uma boa comunicação (Tutora 26). A Tutora 26 expôs a necessidade da boa comunicação, onde, de forma complementar a Tutora 21 demonstra um cuidado todo especial na construção desses feedbacks, levando em consideração inclusive a faixa etária dos alunos e contexto: Eu analiso toda a atividade, corrijo, e aí eu, pra cada aluno vai um [feedback] diferente, por quê? Porque cada aluno que eu tenho, um é diferente do outro. Tem aqueles de mais idade, que tu sabe que tem dificuldade, quando chega na parte de software eles tem... quebram a cabeça. Têm aqueles mais malandrão, eu digo malandrão porque eles deixam pra mandar na última hora, e tu sabe que eles não tão nem... E tem aqueles que realmente têm dificuldade, que eles passam o tempo inteiro te perguntando, e perguntando se ta certo. Então assim ó, cada um deles é um feedback. Então eu cuido muito na hora de corrigir, da correção, de escrever, pra dizer pra eles sem dar a resposta certa, aonde eles erraram, o que que eles tem que cuida pra fazer a recuperação daquela atividade. De forma a entrelaçar o que foi dito até então, este “feedback é uma amarração de tudo. (...) E ele é essencial assim, ele tem que ta bem esmiuçado, ele tem que ta bem redigido” conclui a Tutora 2. Complementando a questão do feedback, os tutores virtuais destacam a afetividade na tutoria em Educação a Distância. No ensino presencial, essa acontece muitas vezes com o “bom dia” ou com um simples sorriso ao entrar em sala de aula, o que na EaD não é viável, visto a falta do contato físico. Essa afetividade, então, é suprida através da cordialidade no início e no final de cada 210 mensagem, no interesse por saber como as coisas estão indo, pois “tu tem que ter uma afetividade com eles, a gente se envolve bastante” diz a Tutora 30. Faz parte do meu trabalho essa ideia de trabalhar com afetividade, de trabalhar com atenção especial ao aluno. Acho que sim, acho que cada um de nós, professores ou tutores, tem lá a sua forma, a sua concepção, a sua crença no seu trabalho. E da minha concepção, da minha criação, faz parte isso, contar com essa afetividade, contar com uma atenção no feedback, até ficar pensando depois “ah, será que eu não podia ter dado um feedback de outra forma?”, até de alguma coisa, e ir lá e dizer “olha, eu revi o que eu te disse”, quem sabe chegar de uma forma mais amena até, recebendo o retorno do aluno. Pensar, quem sabe pensar duas ou três vezes na forma de escrever, porque é o nosso elemento de comunicação. Porque quando eu estou lá na aula no presencial, que eu vou me colocar, que eu vou dizer alguma coisa, eu costumo refletir a forma que eu vou fazer isso, eu não me permitiria fazer de qualquer forma, eu fico buscando, sempre pensando a minha postura, professora, e nessa... e como é que eu tenho... que possibilidades eu tenho de fazer isso com o meu aluno da educação a distância? É na escrita, é na forma que eu vou me colocar ali nesse elo de comunicação, que um deles é o feedback, além de outros bilhetes (Tutora 16). A fala da Tutora 16 engloba muito bem sua preocupação com a afetividade aos alunos, que transparece no feedback dado, escrito de forma cuidadosa para cada um, salientando a importância deste elo de comunicação. Assim, o Tutor 34 conclui que “a necessidade de tu te comunicar com esse aluno é a mesma. O mecanismo é que vai mudar”. É preciso que a escrita do tutor seja fluente, superando, como afirma a Tutora 2, “essa dificuldade que a gente tem de pôr no papel o entendimento. Então, esse momento de explicação, tudo por escrito, é uma adaptação do falado, ao meu ponto de vista, entende? E ali ta escrito, ta legitimado”. O escrito é um registro legítimo das ideias que fica disponível para o aluno consultar quantas vezes sentir necessidade. Ainda sobre a afetividade, retomando o posicionamento do grupo de tutores, destaco a fala da Tutora 26: “acho que a gente fica mais cuidadoso no sentido de que a gente pode ser firme com ele, né, e ser exigente e ao mesmo tempo, fazer com que isso não seja um problema”. “Então se tu conseguir dialogar com o aluno de uma maneira que ele se sinta mais íntimo, que ele se sinta vinculado, que ele te conheça pelo nome, por exemplo, que ele saiba... que ele receba uma mensagem afetuosa (...) eu acho que cria um certo vínculo” menciona o Tutor 34. De forma similar, outros depoimentos: Sabe que eu tive, agora, nesse... no semestre que a gente terminou, nesse último trabalho, eu tive uma aluna que era absolutamente afetiva. Era sempre “querida professora”, e “como é que tu estás?”, e no dia dos professores me mandou... se for comparar o número de alunos do 211 presencial que eu tinha com o número de alunos a distância, né, que mandou, que lembrou de mandar mensagem do dia do professor sabe? Algumas coisas assim, entre outras, mas assim, bem marcantes. O tempo inteiro super afetiva, perguntando como é que eu estava, dizendo como é que ela estava, entende? Então essas coisas, entre outras tantas né, do tipo brigar com a gente né, foram ajudando a refazer a ideia ou a desconstruir e construir uma nova ideia em relação ao trabalho na educação a distância (Tutora 16). Sendo afetiva, dando as boas vindas e explicando pra eles que eles são importantes, não deixando eles desistiram, não deixando eles abandonar, porque tem momentos que eles... que eles pensam em desistir de tudo, né, no momento da dificuldade. Então a gente ta ali pra ser o apoio deles (Tutora 30). Sintetizando esta parte, a maior adaptação que os tutores apresentaram, em diferentes momentos, tanto do questionário online como da entrevista, foi justamente a questão da habilidade de comunicação, e comunicação escrita para a Educação a Distância. Fazendo um fechamento parcial, compartilho com o posicionamento do Tutor 34: Habilidade de se comunicar. Eu acho que essa é a questão sabe? O ponto chave mesmo, o que acaba diferenciando um tutor, o que acaba diferenciando o trabalho de um para o trabalho de outro é se esse cara tem a capacidade de se comunicar. E mais, se ele tem a capacidade de se comunicar e se conectar com uma pessoa que ele não conhece, e que ele não consegue interagir fisicamente, porque às vezes as pessoas precisam desse “olho no olho” como a gente ta tendo aqui, né? Mas eu acho que a capacidade de se comunicar, sem isso, é diferencial para um tutor a distância. Outra questão levantada pelo grupo é a interação na Educação a Distância. Neste sentido, o Tutor 30 argumentou que “só a forma de transmitir é que muda, né? Que aí tu tem o acesso pela internet”, referindo-se a forma de aproximação aos estudantes, mediada pelas tecnologias. Interessante observar a fala da Tutora 16: Eu não quero ser contraditória quando eu já te digo, que eu hoje acredito numa possibilidade de interação a distância, mas eu não posso deixar de considerar que no presencial, essa interação é mais permanente, é mais constante, é mais no dia-a-dia, é mais diária. Esta fala demonstra que mesmo com o avanço e a expansão da EaD, com a qualificação de cursos e instituições, e o aprimoramento pedagógico e tecnológico que estão aliados a modalidade, é forte a questão ainda da presencialidade. A Tutora 16, apesar de “acreditar” nesta possibilidade de interação a distância, ainda argumenta que no presencial esta interação é mais permanente. Aqui não me cabe julgar esta colocação, apenas apresentá-la como uma das opiniões que surgiram no 212 decorrer da pesquisa. Porém, esta mesma tutora, em outro momento da entrevista, fala da qualidade das interações que vivenciou no curso. Interação que hoje, que depois de algum tempo, eu passei a entender como possível mesmo tendo uma máquina no meio, mesmo não sendo direta, mesmo não sendo olho-no-olho. Mas podendo constatar assim que, em tantas vezes, e eu com tantos anos de experiência no presencial, não tive diálogos presenciais, nessa experiência toda com crianças, com adolescentes e com adultos no curso normal, como eu pude ter através do Moodle, através dos feedbacks, através das mensagens (Tutora 16). A questão da interação foi descrita pelo grupo justamente pela necessidade de adaptação vinculada ao contato virtual que precisa ser estabelecido, sendo que o contato presencial é raro, e na maioria das vezes não acontece. Quando tu ta dentro de uma sala de aula, que tu cara a cara com teus alunos, tu consegue trabalha o que tu sabe, tranquilo, porque tu ta enxergando o aluno, tu ta vendo o que que ele ta... qual a dificuldade. Quando tu ta trabalhando a distância tem aquela diferença, pelo que o aluno fala nem sempre, pelo que te manda no email, tu sabe como é que ele ta. E aí tu vê, tu começa a conversar, a se comunicar com ele, aí tu percebe que ele ou tá desesperado, ou ta levando na flauta. Então tem diferenças no saberes, tu precisa ter essa diferença pra trabalha tanto a presencial como a distância (Tutora 21). Concluindo a questão da interação, foi apontado que na Educação a Distância, ela acontece de forma mais individual, por mensagens e emails, sendo que no ensino presencial é feita de forma coletiva, normalmente durante as aulas. “Porque o tutor a distância, ele não ta vendo o aluno dele, então é um saber muito... exige muito mais desse professor” desabafa a Tutora 2. Assim, a interação na EaD fica restrita ao tutor e ao aluno, apresentando poucas possibilidades de interação em grupo, salvo nos momentos de encontro presencial, que atualmente no CLMD não são obrigatórios, além de contarem com a presença do tutor presencial e não do tutor a distância. Quando a gente fala na questão da interação, no presencial eu vou interagir com um coletivo. Aqui na tutoria eu acabo interagindo mais individualmente. Sou eu e um aluno. Dificilmente eu participei de fóruns maiores, normalmente é interação um... eu com outra aluna. Então eu poderia ver um diferencial nesse sentido. Da participação, até, de mais ideias de alunos juntos, naquela questão de aula, de onde a gente pode partir e ouvir vários alunos ao mesmo tempo, onde a gente pode fazer outras trocas. Trocas maiores (Tutora 16). Dentro das questões abordadas pelos sujeitos, é possível destacar a necessidade de compreensão da dinâmica espaço-temporal que se apresenta nesta modalidade de ensino, visto alunos e equipe docente não estarem presentes no 213 mesmo local e ao mesmo tempo. “Compreender o significado dos espaços e tempos da EaD exige entendimento de suas especificidades, pois trata-se de uma lógica de organização espaço-temporal diferente daquela da educação presencial” (MILL; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 60). A Tutora 30 expõe que “na educação a distância o aluno tem que procurar muito, ele tem que ter o tempo dele, ele tem que procurar sanar a dificuldade, de repente ali estudando por conta, procurando conteúdo, conhecimento”, buscando auxílio síncrono e assíncrono sempre que necessário. Eu acho que o tutor precisa de mais tempo com o aluno dele, mais dedicação do que o presencial, porque ele ta além das tarefas, tu entende? Na sala de aula, tu da uma tarefa e tu ta andando, tu ta vendo o teu aluno, tu planeja, mas em seguida tu vai aplicar, e tu ta vendo a reação do teu aluno. O tutor não. Então eu acho que tem essa grande diferença, assim, do tutor, por que é exigido muito mais. Tu não ta vendo a reação do teu aluno, tu vê que teu aluno, às vezes, ta “de cara” no olhar, mas o nosso a gente só quando ele lasca um comentário, entende? E de repente tu achando que tava tudo super bem, sabe? Ou, de repente tu acha que ele não aprendeu e daqui a pouco ele escreve um texto que eu digo, “bah, realmente”, entendesse? (Tutora 2). A percepção do tempo é diferente justamente pela não possibilidade de acompanhamento mais de perto dos alunos e de como estão (ou não) realizando as atividades propostas. O Tutor 34 afirma que “o ensino a distância funciona naquela questão do espaço e tempo descontínuos (...) Adaptação na questão da comunicação, de como tu vais conseguir é, transmitir pro aluno as tuas ideias e receber as ideias do aluno, conseguir elaborar” essa comunicação assíncrona, ou seja, respeitando a liberdade e a flexibilidade temporal que existe nesta modalidade de ensino. De todos os aspectos apresentados pelo grupo de sujeitos, é importante frisar a formação contínua do professor, ou propriamente do tutor: “a formação é, na verdade, autoformação, uma vez que os professores reelaboram os saberes iniciais em confronto com suas experiências práticas, cotidianamente vivenciadas nos contextos escolares” (PIMENTA, 2009, p. 29). Esse formação contínua do tutor, que tem formação inicial de professor, também reelabora ou, digamos, recontextualiza seus saberes iniciais e os saberes adquiridos de uma formação específica para a prática na Educação a Distância, que é uma modalidade de ensino com especificidades em relação a educação presencial, porém com a mesma preocupação com a formação de qualidade dos seus alunos. Isso acontece a cada 214 nova prática, na vivência diária de atendimento e mediação pedagógica, por meio das tecnologias disponíveis para interação e comunicação. Mesmo estando dois anos trabalhando na tutoria ainda é tudo é muito novo, tudo é muito... eu to aqui pra aprender. Eu aprendo sempre, diariamente. Com... cada eixo é um eixo diferente, até o momento assim eu sempre passei por vários municípios, por vários polos. Então tudo é muito novo, a gente sempre acaba tendo contato com pessoas diferentes. Eu acho que... acho que tem muito a aprender. Um caminho longo, já aprendi muito mas tenho muito a aprender. Muito (Tutora 30). Nesta preocupação contínua pelo aprender, aperfeiçoar, recontextualizar saberes e práticas, os tutores se percebem ativos na docência na EaD, com elevada participação no processo de ensino-aprendizagem dos acadêmicos. É fato que “todo professor sempre está envolvido num processo de rotinização de seu trabalho, embora devendo permanecer disponível, alerta e aberto às mudanças” (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 168-169). Perceberam, então, o tempo como um companheiro, pois a cada dia enxergam além. Eu acho que os saberes, eles não são muito diferentes. O que eu acho que da uma certa diferença é a questão do tempo. A gente precisa de um tempo a mais na educação a distância pra enxergar algumas coisas que no presencial a gente vê com mais rapidez, eu acho, por causa do contato mais direto, isso na relação de ensino-aprendizagem (Tutora 26). Cabe salientar que atualmente a organização do trabalho docente é complexa, especialmente no âmbito da EaD. Nesse aspecto, os professores trabalham, agora, em organizações mais complexas e mais amplas, nas quais precisam aprender a funcionar com diferentes grupos de agentes. A negociação, as transações com tais grupos tornou-se parte integrante do trabalho. Parte da tarefa e do tempo disponível foi desviada dos alunos para atender a colaboração/negociação com esses grupos. O trabalho dos professores tornou-se mais integrado num conjunto e, nesse sentido, é mais controlado, ao menos no plano da formalização das regras que regem o ambiente de trabalho. Tal formalização é necessária, pois a multiplicação dos grupos e a diferenciação dos campos de atuação levam, como vimos, à anomia, uma vez que as fronteiras e as identidades se multiplicam, ameaçando continuamente misturar os limites do trabalho dos respectivos agentes escolares (TARDIF; LESSARD, 2011, p. 99). De todos os saberes docentes pontuados pelos tutores, os quais passam por uma recontextualização, é inegável que este saber docente é plural, sendo que “o saber da experiência não é um saber entre outros, mas que ele é, de algum modo, o coração de todos os outros, na medida em que esses foram, com o tempo, confrontados com as realidades do trabalho cotidiano, moldados e validados por 215 elas” (TARDIF, 2012, p. 34). É no cotidiano da tutoria que as recontextualizações acontecem, pensadas ou não, mas que visam o sucesso acadêmico. Sintetizando, essa recontextualização, o Tutor 34 traz a tona exatamente uma mescla destes saberes, onde fala que essas três questões que tu colocou [comunicação, feedback e interação], elas resumem muito bem o processo do ensino a distância. Eu acho que é aí que tá o êxito ou não do ensino a distância. Em como eu consigo me comunicar com meu aluno, e com o resto da equipe obviamente, como eu consigo é... reportar ao aluno quais são as dificuldades dele, e isso a gente faz no feedback. E como eu consigo me... e como os alunos conseguem se vincular entre eles, com os tutores presenciais deles, e com o resto da equipe. Se estas três coisas estão funcionando, fatalmente, eu acredito que o curso funcione. Nesta mescla entre comunicação, feedback e interação é que percebi a maior recontextualização realizada por este grupo de sujeitos pesquisados, os tutores a distância do CLMD da UFPel. Mill, Ribeiro e Oliveira (2010, p. 91) afirmam que “a docência na EaD tem características diferentes, já que envolvem tanto saberes do magistério quanto das tecnologias”. Assim, sintetizo na Tabela 13 a recontextualização dos saberes docentes apresentada pelo grupo, ou poderia dizer, os saberes docentes da tutoria em EaD. Tabela 13: Como os saberes docentes são recontextualizados Como os saberes docentes são recontextualizados Conteúdos específicos da área (linguagem para EaD e tecnologias) Comunicação (predominantemente pela escrita) Linguagem utilizada (em função da escrita) Materiais detalhados (o aluno estuda mais sozinho) Resoluções detalhadas (passo a passo escrito) Contato contínuo com o aluno (prazo de 24h para retornos) Feedback (retorno para o aluno - escrito) Particularidade no feedback (atendimento individual) Afetividade (virtual) Interação (virtual e mais individualizada) Compreensão da dinâmica espaço-temporal da EaD (síncrono e assíncrono) Fonte: Elaboração da autora Existem outros saberes recontextualizados? Acredito que sim, pois o processo pedagógico é dinâmico e a tecnologia vinculada a EaD é aperfeiçoada constantemente. Talvez, o próprio contexto propicie diferenças, pois se estivesse 216 analisado os saberes docentes dos tutores presenciais, seria provável que outros resultados surgissem. Apesar da longa jornada da escrita da tese é impossível apresentar um resultado definitivo e incontestável. Encerro algumas possibilidades e abro muitas outras. São dúvidas que ficam no ar, momentaneamente, sem resposta, pois esta parte do trabalho está encerrando aqui, com os resultados obtidos e analisados. Para um próximo momento, em outras pesquisas, quem sabe essas e outras questões sejam retomadas. Talvez, até lá, outros pesquisadores as tenham estudado. Estimulo mais pessoas a se aventurarem no universo da Educação a Distância. Pontuo a importância de novas e variadas pesquisas na EaD, que ainda está se estruturando em nosso país a partir das TIC e da ampliação da Universidade Aberta do Brasil, com o apoio do governo federal. 217 Capítulo 7: Considerações: um olhar de quem viveu a tese A primeira caminhada foi árdua, pois foi preciso definir o que fazer, como fazer, onde buscar as referências. Foi preciso ler e reler várias vezes livros, artigos, teses e dissertações para construir o “estado da arte” dos assuntos escolhidos e se inteirar sobre o que e o como tais assuntos estão sendo abordados pelos pares. Foram cansativas as várias noites mal dormidas (ou não dormidas) em busca do término de uma leitura ou de uma escrita. Como disse Maria Ester de Freitas (2012), “Viver a tese é preciso!”. Mas foi neste andar que escolhi textos e autores pelos quais me apaixonei e descartei aqueles que não souberam me seduzir. Escolhi quais seriam os interlocutores do diálogo a ser estabelecido entre a teoria e os sujeitos da pesquisa, entre os conceitos e os dados coletados. Foi uma fase das primeiras decisões, as quais precisaram ser cuidadosamente pensadas e analisadas, objetivando desenvolver um bom trabalho. No momento seguinte, foi preciso aprender a escutar. Escutar não somente o que é dito, mas o que fica no ar, nas expressões, no dia a dia com deste grupo de tutores. Coletar os dados, categorizá-los, analisá-los. Esta fase exigiu concentração e dedicação. Muitos dados espalhados, diversos livros abertos, citações grifadas para dialogarem com os sujeitos. Um momento de apreensões, mas que revelou resultados surpreendentes. Disso tudo, destaco que estou feliz com o que vi, escutei, vivenciei e produzi nesta Tese. Estudar a Educação a Distância foi muito prazeroso, sabendo que muito ainda se tenha a acrescentar. Foram leituras que me despertaram, que me chamaram à ação, visto ser esse o meu cotidiano, o fazer docente na EaD. Falar em tutoria é falar do início de minha carreira docente, e isto foi um marco. Admiro o tutor e reconheço que é um sujeito da equipe docente ainda pouco valorizado de forma geral nos cursos na modalidade a distância, por isso a escolha. Desta forma, utilizei o conceito de polidocência apresentado por Mill (2006, 2010; 2012), aprofundando-o durante o percurso. Assim, os dois primeiros capítulos apresentaram a Educação a Distância. Primeiro, um resgate histórico a partir das fases que constituíram a EaD na percepção de Moore e Kearsley (2008), desde as cartas até as tecnologias 218 conhecidas atualmente e a internet. Posterior, a apresentação da legislação vigente para esta modalidade de ensino, situando o leitor sobre a trajetória da EaD principalmente no Brasil. Destas leis, cabe salientar o Decreto 5.622, de 2005 e o Decreto 5.800, de 2006, os quais servem de referência atual sobre as especificidades da EaD, bem como definem a Universidade Aberta do Brasil (UAB), respectivamente. Ainda no capítulo um, a apresentação da EaD na Universidade Federal de Pelotas, construindo o caminho trilhado desde 2002 por um grupo de professores que iniciou a modalidade na instituição a partir da elaboração e criação do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD). Para fechar, um panorama sobre a Universidade Aberta do Brasil (UAB), programa governamental com objetivos específicos para atendimento de demandas educacionais focalizadas especialmente no ensino superior. A partir da UAB é que a educação superior, com qualidade reconhecida, vem sendo ofertada em todo o país, em lugares distantes dos grandes centros, oportunizando a formação inicial e a qualificação profissional para uma maior parte da população brasileira. O segundo capítulo trouxe questões mais pontuais da EaD e do Curso de Licenciatura em Matemática a Distância (CLMD). Iniciou-se com um relato de sua criação e estruturação curricular, mencionando uma mudança que ocorreu no final de 2010, onde o curso passou a ser ofertado por meio de eixos temáticos e não mais por disciplinas. Essa mudança aconteceu quando o curso foi relotado, deixando de ser vinculado ao Instituto de Física e Matemática (IFM), passando a ser lotado no Centro de Educação a Distância (CEAD). Na sequência, foi apresentada a equipe pedagógica que compõem o CLMD atualmente, fazendo menção também a forma como era esta equipe enquanto o curso apresentava uma estrutura disciplinar, próxima ao currículo do curso presencial de Licenciatura em Matemática. Nesta seção destaca-se que enquanto o CLMD era disciplinar havia uma equipe maior e mais diversificada de sujeitos, sendo que nesta fase, entre 2006 e 2008, o curso organizou três eventos para os alunos. Ainda, que na atual estrutura existem três equipes docentes, sendo Equipe de Planejamento, de Execução e de Recuperação Paralela, vinculadas aos Eixos Temáticos. A terceira seção refere-se à discussão sobre quem são os sujeitos pedagógicos na EaD, focando para o olhar para o tutor e a sua participação na equipe docente. Nesta parte, então, definiu-se a polidocência apresentada por Mill (2010; 2012), considerando que na EaD o trabalho docente não 219 pode mais ser desenvolvido somente pelo professor, mas sim por um grupo diversificado de sujeitos. O capítulo foi finalizado com a apresentação do “estado da arte” sobre os termos tutor e/ou tutoria, buscando trabalhos publicados em revistas e eventos renomados nas áreas da Educação e da Educação a Distância. A função do tutor na docência em EaD ainda precisa ser mais bem estudada, pois não existe uma definição exata sobre quais sejam as suas atribuições e nem como esta é vinculada a carreira docente. Apesar de alguns trabalhos encontrados, percebe-se que a área precisa ser mais estudada e apresenta carências em diversos tópicos. Na sequência, escrever sobre os saberes docentes a partir da teoria de Tardif (2010; 2011; 2012) e Borges (2004) confesso que foi um pouco mais trabalhoso, pois ainda não havia estudado este assunto. Porém, ao mesmo tempo em que demandou muitas leituras, idas e vindas, também se mostrou um conceito apaixonante, pois os saberes docentes estão presentes em qualquer atividade docente, contudo sempre com particularidades, com cada história de vida mostrando algo novo, inusitado, peculiar, surpreendente, especial. Deste estudo resultou o terceiro capítulo. Nele foi descrito a teoria dos autores e como os mesmos compreendem os saberes docentes dos professores. Importante destacar que o saber docente é social, individual e contextualizado, sendo necessário estudá-lo com esse viés. Ainda, ressaltar que o saber docente é um saber sobre o trabalho, para o trabalho e que vem do trabalho, estando o professor (ou tutor) imerso neste universo. Da classificação exposta por Tardif (2011), finalizo ressaltando que os saber docente na prática é plural, formado pelos saberes disciplinares, curriculares, de formação profissional e vinculados a experiência, descritos no transcorrer do texto. Bernstein (1996) e suas contribuições foram descritas no capítulo quatro. A teoria bernsteniana é refinada, quase matematizada, que desperta interesse àqueles que buscam algo novo, instigante, e não tem vergonha de ir e vir inúmeras vezes, até conseguirem compreendê-la aos poucos. Comigo foi assim, li e reli, tentei escrever, deletei. Li novamente, reli muitas vezes, até conseguir rascunhar as primeiras linhas. Aventurei-me nesta Tese a usar sua teoria, tendo convicção que estou empregando uma fração pequena da generosa contribuição que deixou para a educação. 220 Dentro dos inúmeros conceitos apresentados por Bernstein fiz referência ao código, classificação e enquadramento e ao dispositivo pedagógico. Este último, composto de três regras, a saber, regras distributivas, recontextualizadoras e avaliativas. Dentre essas, a que destaquei na Tese é a regra recontextualizadora, pois a partir dela investiguei a recontextualização dos saberes docentes que os tutores a distância do CLMD realizam na sua prática pedagógica, buscando da experiência com o ensino presencial as adaptações para a atuação na EaD. Esta investigação a partir de um grupo de tutores, função docente na qual eu iniciei minha prática, é algo que me manteve motivada durante este caminhar, mostrando-me a cada dia o quanto ainda precisa ser valorizada a profissão docente, seja presencial, seja em EaD. Desta jornada, diferentes resultados foram obtidos, descritos no capítulo cinco, referente à metodologia utilizada. Para sintetizar, com os dados produzidos e categorizados veio a etapa de dialogar com eles, de forma a aproximar-me ao máximo da resposta a minha questão e dos objetivos propostos. O fato de construir uma Tese é quando se consegue mesclar a teoria utilizada com os dados colhidos, de forma a obter resultados que contribuam para o desenvolvimento das pesquisas na área. É saber escutar os sujeitos em sua totalidade, para que dos dados coletados possa emergir uma produção qualificada, que contribua com os pares na academia e deixe transparecer as ideias do grupo que se propôs em participar desta aventura. Para auxiliar no processo utilizei a teoria de Análise de Conteúdo, de Bardin (2011) e a teoria de Bernstein (1996). Assim, nasceu o capítulo seis, “A percepção dos tutores nesta caminhada: um relato”, onde apresentei as análises realizadas. Primeiro, caracterizei o perfil deste grupo de sujeitos, para então, apresentar sua percepção sobre a tutoria e os saberes docentes. Na caracterização, questões como gênero, faixa etária e formação inicial e continuada foram apresentadas, buscando identificar os 35 sujeitos da pesquisa. Destaco que este grupo preocupa-se com sua formação continuada, sendo que vários estão inseridos em programas de pós-graduação, lato senso ou stricto senso. Na construção das cinco categorias da seção dois do capítulo seis, surpreendeu-me em alguns momentos a convicção apresentada pelo grupo no sentido de que o tutor era um membro ativo da equipe docente, mesmo que isso não 221 fosse considerado por todos os professores efetivos do curso. Desta forma, identificarem-se como tutores na EaD e vincularem os saberes docentes a sua prática foi algo tranquilo, que transpareceu nas entrevistas realizadas e nos resultados obtidos nos questionários online. O ser tutor foi definido como aquele que está ao lado do aluno, ajudando-o das mais variadas formas em todo o processo de ensino-aprendizagem durante o curso. Destacaram, ainda, algumas dificuldades como a falta de vínculo empregatício, o baixo valor da bolsa e a precarização do trabalho docente. Significativo, também, foi a construção que fizeram sobre os próprios saberes docentes e como os mesmos são recontextualizados do ensino presencial para a prática da tutoria na EaD. Conforme a teoria apresentada por Tardif (2011), os tutores evidenciaram os saberes da experiência como o principal dentre os seus saberes docentes, sendo seguido pelo saber disciplinar, referente ao domínio dos conteúdos específicos, neste caso, vinculados a Matemática. Ainda, destacaram os saberes pedagógicos, os vinculados à história de vida, ao domínio das TIC e da formação continuada. Dentre os saberes mobilizados, construídos e/ou adquiridos na prática da tutoria no CLMD, destacaram-se as questões vinculadas ao domínio do Ambiente Virtual de Aprendizagem Moodle e dos softwares matemáticos utilizados, bem como o gerenciamento do tempo e a necessidade do trabalho em equipe. Ainda, o acréscimo de experiência e a retomada de conceitos matemáticos vinculados ao ensino superior. A comunicação recebeu uma atenção especial por parte dos sujeitos. A necessidade de uma comunicação adequada com os alunos, sendo esta clara e constante, realizada predominantemente pela escrita, apresentou neste grupo um senso de responsabilidade pelo trabalho docente realizado, justificando que a EaD é uma modalidade de ensino preocupada com o processo de ensino-aprendizagem dos alunos com ela envolvidos. O comunicar-se predominantemente pela escrita, tanto para o atendimento dos estudantes, como para dar o retorno mediante o feedback fez com que estes tutores virtuais prestassem maior atenção ao que escreviam aos alunos e, como consequência, acabavam cobrando dos discentes também uma melhor escrita em suas atividades e participações nos fóruns. 222 No decorrer, a cada entrevista realizada e transcrita, na leitura dos questionários e do meu diário fui compreendendo momentos do processo que, sem querer, passavam despercebidos, fui aprendendo a ouvir os sujeitos de minha pesquisa. Ou então, conhecer as realidades “escondidas” nas telas dos computadores. A receptividade do grupo de tutores e a liberdade com que expuseram as suas opiniões tornou o trabalho agradável e gratificante, porém não menos árduo. No final, o resultado aqui apresentado buscou ser o mais fiel possível à fala daqueles que participaram de forma voluntária e amigável desta pesquisa. Dessa receptividade, fez-me recordar meus momentos enquanto tutora. Participar de experiências em EaD é algo gratificante, pois os alunos vinculam a figura do tutor, de forma geral, a alguém que, além de auxílio pedagógico e de conteúdo, é também um elemento que transparece a afetividade no processo, pois o professor em si, muitas vezes não tem o vínculo que o tutor desenvolve. Sou grata aos alunos do CLMD, hoje já formados, que tive a oportunidade de tutoriar. De todo o caminho percorrido, salientar que os tutores entendem como necessária essa recontextualização dos saberes, visto que a modalidade de ensino é outra e apresenta suas especificidades. Destaco a importância dada ao como se comunicar, interagir e auxiliar o aluno por meio da escrita, o que exigiu um novo aprendizado da equipe e um esforço extra. Salientar a “afetividade online”, muito presente nos relacionamentos mediados pela máquina, mas feita com seriedade e responsabilidade. De tudo, posso resumir que para este grupo de tutores a distância, vinculados ao CLMD da UFPel, os saberes docentes são recontextualizados na prática da tutoria, a partir das experiência vividas no ensino presencial, bem como a partir de suas histórias de vida e formação inicial e continuada no âmbito do magistério. Como principais recontextualizações cito a reestruturação e reorganização dos conteúdos; a forma diferenciada com que os materiais e as atividades precisam ser apresentadas, invariavelmente de forma mais detalhada, a fim de que o estudante possa estudar de forma individual e também no coletivo; através do contato contínuo entre tutor e aluno, respeitando o prazo para retorno de 24 horas, conforme as atribuições do tutor bolsista da CAPES; pelo retorno ao aluno – feedback – de forma predominantemente escrito e mais individualizado; pela afetividade e interação com o aluno, a qual acontece virtualmente e mais 223 individualizada, mediada pelas TIC; pela dinâmica espaço-temporal da EaD, que tem suas especificidades, exigindo uma compreensão dos momentos síncronos e assíncronos como potenciais de aprendizagem dos acadêmicos. Portanto, cada minuto desta Tese valeu a pena. Cada minuto pensado, escrito, lido e relido. Faria tudo de novo se preciso fosse. A Tese foi construída como uma obra de arte, moldada aos olhos daquele que a idealizara. Assim, considerando a ampliação da EaD no Brasil e no mundo e a importância do trabalho da tutoria no processo de interação entre os sujeitos pedagógicos envolvidos nos cursos e contextos, novos estudos precisam ser realizados. Aqui, apresentei algumas pistas de como está à percepção dos tutores a distância sobre o ser tutor na EaD e os saberes docentes construídos, mobilizados, adquiridos e recontextualizados na polidocência. Outras questões merecem também serem estudadas e analisadas com mais cuidado, de forma que a função tutor seja reconhecida como uma categoria do trabalho docente. Para finalizar deixo uma frase para refletir, “que os vossos esforços desafiem as impossibilidades, lembrai-vos de que as grandes coisas do homem foram conquistadas do que parecia impossível” (Charles Chaplin). 224 Caminhos percorridos: as referências AFONSO, Margarida; MORAIS, Ana Maria; NEVES, Isabel. 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Estudo de caso: planejamento e métodos. 4. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010. ZIEDE, Mariangela Lenz; NEVADO, Rosane Aragón de. A apropriação tecnológica dos tutores do Curso de Graduação em Pedagogia – Licenciatura na modalidade a distância da Faculdade de Educação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. In: ANAIS DO XV ENDIPE – ENCONTRO NACIONAL DE DIDÁTICA E PRÁTICA DE ENSINO. Belo Horizonte, 2010. ZUIN, Antonio A. S. Educação a distância ou educação distante? O Programa Universidade Aberta do Brasil, o tutor e o professor virtual. In: Revista Educação & Sociedade, Campinas, vol. 27, n. 96 – Especial, p. 935-954, out. 2006. Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>. Acesso em: 04 jul. 2012. 240 Apêndices Apêndice 1: Questionário Online 241 242 243 244 245 246 247 Apêndice 2: Questões para entrevista dos tutores a distância 1) O que são saberes docentes para você? 2) A Tese que estou escrevendo denomina-se “Os Saberes Docentes na Tutoria em Educação a Distância”. Utilizo, segundo Tardif (2011), a classificação dos saberes docentes da seguinte forma: 1. Saberes Disciplinares 2. Saberes Curriculares 3. Saberes da Formação Profissional 4. Saberes Experienciais Dentre esses, qual entendes como sendo o mais estratégico para o exercício da tutoria? Por quê? 3) Além desses saberes, consideras algum outro tipo de saber (características, conhecimentos, competências e habilidades) importante, ou mesmo imprescindível para o tutor? 4) Qual e por quê? 5) Que saberes você mobiliza/constrói/adquiri quando do exercício das atividades de tutoria? 6) O que é ser tutor para você? 7) Descreva, como se fosse uma espécie de “linha do tempo”, o processo que levou o professor _______ a se tornar o tutor ______. Que fatores, pessoas, situações foram importantes nesse processo? 8) Onde, quando e com quem pensas que aprendestes a ser tutor? 9) Se fosses fazer uma comparação entre o tutor do primeiro dia com o tutor de hoje, que diferenças há? 10) A que fatores atribuis essas diferenças? 11) Consideras tua formação, hoje, adequada para ser tutor? 12) A tua formação na graduação foi suficiente para te constituíres tutor? Em que ano concluíste a graduação? 13) Existem diferenças entre os saberes do professor presencial e do tutor? Quais as principais? 14) Quais são os saberes específicos na sua atuação como tutor na EaD? 15) Consideras o tutor como parte da equipe docente na EaD, ou seja, da equipe polidocente? 248 16) O que caracteriza a atuação do tutor como parte da equipe docente do curso? 17) Como acontece a mobilização dos saberes da atuação no ensino presencial para a atuação como tutor na EaD? 18) Que elementos estão envolvidos nesta adaptação? 19) Em relação a formação recebida no CLMD (curso de capacitação), ela contribuiu adequadamente para tuas atividades como tutor? 20) O que consideras importante incluir nessa formação? 21) O que consideras que foi improdutivo nessa formação? 22) Qual a importância dos cursos de capacitação para a tutoria na EaD? 23) Que tipo de curso gostarias de fazer? Por quê? 24) Qual era a sua ideia quando se inscreveu no edital de seleção para a tutoria no CLMD? 25) Qual era a sua concepção de tutoria quando se inscreveu no edital? 26) Sua concepção mudou? Por que e em função de que? Qual sua concepção de tutor hoje? 27) Qual o envolvimento que você tutor tem no processo de ensinoaprendizagem dos estudantes? 28) Participas de reuniões? Quais? 29) Quando e para quê és chamado a participar do processo de ensinoaprendizagem no CLMD? 30) Qual a importância da comunicação nas relações pedagógicas? 31) Qual a importância do feedback na relação tutor-aluno? 32) Qual a importância da interação nas relações pedagógicas? 33) Como é feito o acompanhamento das atividades dos tutores pela Coordenação de Tutoria? 34) Você acredita que este acompanhamento está sendo satisfatório? 35) Onde poderia melhorar? Sugestões e/ou observações. 249 Apêndice 3: Termo de autorização do questionário online e das observações UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO TERMO DE AUTORIZAÇÃO DE USO DAS ESCRITAS A pesquisa de doutorado para a qual você, _______________________ _______________________________________, foi convidado a participar voluntariamente denomina-se “Os Saberes Docentes na Tutoria em Educação a Distância”, a qual é desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas, sob a orientação do Prof. Dr. Mauro Augusto Burkert Del Pino. O objetivo da pesquisa é investigar como os tutores a distância do CLMD recontextualizam os seus saberes docentes na atuação em EaD e, para tal, você respondeu um questionário online. Além disso, eu, Profa. Thaís Philipsen Grützmann, realizarei observações não sistemáticas da prática da tutoria nas dependências do Lemad no segundo semestre letivo de 2012. Neste sentido, solicito à autorização de uso das suas respostas ao questionário e das anotações realizadas durante as observações para fins de análise e escrita da tese, bem como apresentar os resultados da investigação em eventos científicos, artigos, trabalhos e outras publicações acadêmicas que se façam necessárias. Assim sendo, peço que assine abaixo a autorização, estando ciente do total sigilo sobre as informações prestadas, sendo possível a qualquer momento acessar os dados da pesquisa em questão. Nome: ________________________________________________________ Assinatura: ____________________________________________________ Pelotas, ____ de ________________ de 2012. 250 Apêndice 4: Termo de autorização da entrevista UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO TERMO DE AUTORIZAÇÃO DE USO DAS FALAS A pesquisa de doutorado para a qual você, _______________________ _______________________________________, foi convidado a participar voluntariamente denomina-se “Os Saberes Docentes na Tutoria em Educação a Distância”, a qual é desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas, sob a orientação do Prof. Dr. Mauro Augusto Burkert Del Pino. O objetivo da pesquisa é investigar como os tutores a distância do CLMD recontextualizam os seus saberes docentes na atuação em EaD e, para tal, você respondeu as questões de uma entrevista semi-estruturada. Neste sentido, eu, Profa. Thaís Philipsen Grützmann, solicito à autorização de uso das suas respostas à entrevista para fins de análise e escrita da tese, bem como apresentar os resultados da investigação em eventos científicos, artigos, trabalhos e outras publicações acadêmicas que se façam necessárias. Assim sendo, peço que assine abaixo a autorização, estando ciente do total sigilo sobre as informações prestadas, sendo possível a qualquer momento acessar os dados da pesquisa em questão. Nome: ________________________________________________________ Assinatura: ____________________________________________________ Pelotas, ____ de ________________ de 2013. 251 Anexos Anexo 1 – Estatística de acesso mensal do AVA Moodle – CLEC Curso de Licenciatura em Educação no Campo a Distância – CLEC 252 Anexo 2 – Estatística de acesso mensal do AVA Moodle – CLPD Curso de Licenciatura em Pedagogia a Distância – CLPD 253 Anexo 3 – Estatística de acesso mensal do AVA Moodle – FPELE Curso de Formação de Professores de Espanhol como Língua Estrangeira 254 Anexo 4 – Grade curricular original do CLMD, em 2006 Grade Curricular, item 7.5.7 do Projeto Pedagógico (2006), páginas 27 a 29. 1º Semestre Introdução à Lógica Matemática (ILM) Matemática Elementar I (ME I) Geometria Plana (GP) Laboratório de Ensino de Matemática I (LEMA I) Fundamentos Sócio-Histórico-Filosóficos da Educação (FSHFE) 2º Semestre Matemática Elementar II (ME II) Álgebra para Licenciatura A (ALic A) Geometria Espacial (GE) Laboratório de Ensino de Matemática II (LEMA II) Educação Brasileira: organização e políticas públicas (EBOPP) 3º Semestre Aritmética Cálculo A (CalcA) Álgebra Linear I (ALinear I) Fundamentos Psicológicos da Educação Teoria e Prática Pedagógica (TPP) 4º Semestre Álgebra Linear II (ALinear II) Instrumentação para o Ensino de Matemática I (IEM I ) Cálculo B Iniciação a Pesquisa no Ensino de Matemática (IPEM) Trabalho de Campo I (TC I) 5º Semestre Cálculo C Laboratório de Ensino de Matemática III (LEMA III) Física I Prática de Ensino de Matemática I (PEM I) 6º Semestre Matemática Elementar III (ME III) Cálculo D Instrumentação para o Ensino de Matemática II (IEM II) Trabalho de Campo II (TC II) 7º Semestre Introdução à Análise Real Física II Tecnologias Avançadas no Ensino de Matemática Pré-Requisito - CH 60 90 60 60 T–P 2–2 4–2 2–2 0–4 Créditos 3 5 3 2 - 60 4–0 4 Total Pré-Requisito ME I ILM LEMA I 330 CH 90 60 60 60 T–P 4–2 2–2 2–2 0–4 Créditos 5 3 3 2 - 60 4–0 4 Total Pré-Requisito ME I ME I Total Pré-Requisito ALinear I 330 CH 90 60 60 60 60 330 CH 60 T–P 4–2 2–2 2–2 4–0 2–2 Créditos 5 3 3 4 3 T–P 2–2 Créditos 3 LEMA I e TPP 60 0–4 2 Cálculo A 90 4–2 5 - 60 2–2 3 LEMA I Total Pré-Requisito Cálculo A e ALinear II LEMA I TC I e TPP Total Pré-Requisito Cálculo C 75 345 CH 0–5 2 T–P Créditos 90 4–2 5 60 60 120 330 CH 60 60 0–4 2–2 0–8 2 3 4 T–P 2–2 2–2 Créditos 3 3 LEMA I e TPP 60 0–4 2 LEMA I Total Pré-Requisito Cálculo B Física I - 75 225 CH 90 60 60 0–5 2 T–P 4–2 2–2 0–4 Créditos 5 3 2 255 (TAEM) Prática de Ensino de Matemática II (PEM II) 8º Semestre Álgebra para Licenciatura B (ALicB) Instrumentos de Avaliação Pós Estágio Disciplinas Optativas Algoritmos e Programação Análise Real Geometria Euclidiana Inglês Instrumental Laboratório de Ensino de Matemática IV Matemática Financeira Modelos Matemáticos Introdução a Probabilidade e Estatística Projetos em Ensino e Redação Matemática Tópicos de Desenho Geométrico e Geometria Descritiva Topologia Variáveis Complexas TC II e TPP Total Pré-Requisito ALicA PEM I e PEM II Total 120 330 CH 60 60 30 120 0–8 4 T–P 2–2 2–2 0–2 Créditos 3 3 1 Pré-Requisito Introdução a Análise Real ILM LEMA I Cálculo B ME III - CH 60 T–P 2–2 Créditos 3 60 2–2 3 60 60 60 60 60 60 60 2–2 2–2 0–4 2–2 2–2 2–2 2–2 3 3 2 3 3 3 3 - 60 2–2 3 Cálculo C Cálculo C 60 60 2–2 2–2 3 3 256 Anexo 5 – Ementas do Currículo por Eixos Temáticos, a partir de 2011 Álgebra Funcional Programar, a partir da linguagem LOGO, uma determinada situação problema, a fim de estudar relações entre grandezas proporcionais ou não, observando o conceito, tipos e representações envolvidas. A partir das relações estudadas explorar o conceito de conjuntos e suas operações, além de aplicá-los para resolver problemas. Fundamentar tais conceitos através da lógica matemática, utilizando adequadamente os conectivos e quantificadores. Estudar as motivações históricas que determinaram o surgimento do conceito de funções, como a necessidade de analisar fenômenos, descrever regularidades, interpretar interdependências e generalizar. Tratar o conceito de função como um caso particular de relação, estudando suas classificações, as diferentes representações: verbal, gráfica e analítica, entendendo a variável como independente, dependente ou parâmetro. Explorar as transformações geométricas, como rotação, reflexão, translação, homotetias, entre outras. Analisar erros referentes aos conceitos de relações e funções e intervenções apropriadas em seu processo de ensino-aprendizagem. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos, teorias de aprendizagem, bem como de tendências em Educação Matemática que contemplem o tema de álgebra funcional. Realizar a leitura de textos específicos que propiciem a reflexão do tema no contexto escolar. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e ações, refletindo sobre o processo de ensino-aprendizagem e constituindo-se como um professor-pesquisador. Ideias da Álgebra Partir de um problema de generalização de padrões aritméticos para perceber uma das dimensões da álgebra, como aritmética generalizada. Ampliar gradativamente a capacidade de representação e generalização, fazendo uso da estrutura axiomática-dedutiva afim de desenvolver e compreender o pensamento algébrico. Estudar as estruturas algébricas de anéis e corpos, destacando a importância das operações e propriedades para fundamentar a álgebra das estruturas, em particular o estudo dos polinômios. Usar as equações diofantinas na solução de problemas introduzindo a álgebra das equações. Resolver problemas focando equações, inequações e sistemas de equações, fundamentando-se pela álgebra matricial, quando possível. Analisar as dificuldades do ensinoaprendizagem da álgebra. Realizar, durante todo o eixo, discussões e reflexões acerca das concepções de igualdade e dos significados das letras. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos, teorias de aprendizagem, bem como de tendências em Educação Matemática que contemplem as dimensões da álgebra como aritmética generalizada, a álgebra das equações e a álgebra das estruturas. Realizar a leitura de textos específicos que propiciem a reflexão do tema no contexto escolar. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e ações, refletindo sobre o processo de ensinoaprendizagem e constituindo-se como um professor-pesquisador. Tratamento da Informação Realizar levantamento estatístico de dados a fim de estudar as medidas de tendência e dispersão (médias, moda, mediana, variância, desvio padrão, entre outras) analisando diferentes raciocínios para compreensão dos conceitos, suas representações e algoritmos. Estudar o raciocínio proporcional, porcentagem, juros simples e composto, sequências e séries e outras noções de matemática financeira, que auxiliem no entendimento das operações financeiras presentes na vida de qualquer cidadão. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos, teorias de aprendizagem, bem como tendências em Educação Matemática que contemplem o tema de tratamento da informação. Realizar 257 a leitura de textos em geral que propiciem a produção de textos matemáticos, preferencialmente com proposta didático-pedagógica, envolvendo conceitos do eixo para o ensino básico. Explorar os temas transversais: ética, saúde, meio ambiente, orientação sexual e pluralidade cultural. A partir do levantamento estatístico de dados: elaborar tabelas e gráficos de distribuição de frequências, revisitar os conceitos de medidas de tendências e dispersão, construir o conceito de probabilidade e seus elementos básicos. Conhecer as diferentes definições de probabilidade e validá-las a partir do conceito intuitivo de probabilidade, resgatando as relações sócio-históricas envolvidas. Explorar a contagem, as estratégias de contagem, as aplicações do princípio multiplicativo para resolução de problemas de probabilidade e a análise combinatória. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e ações, refletindo sobre o processo de ensino-aprendizagem e constituindo-se como um professorpesquisador. Números Partir de jogos de contagem para iniciar a sequência dos números naturais. Estudar a história das representações numéricas produzidas pelas diferentes culturas, ou seja, os diferentes sistemas e bases de numeração inclusive a representação na Língua Brasileira de Sinais (Libras). Definir rigorosamente os números naturais pelos axiomas de Peano. Construir os números inteiros e racionais como classes de equivalências. Partir de situações da matemática escolar para tratar as classificações dos números inteiros, buscando argumentações da Teoria dos Números e sinais correspondentes em Libras. Abordar as diferentes representações dos números racionais e seus diferentes significados. Realizar experimentações para abordar os números irracionais e suas representações. Explorar formas de enumerabilidade dos conjuntos numéricos. Construir os números reais e associá-los a reta numérica, destacando sua completude e não enumerabilidade. Usar problemas históricos para compreensão do surgimento do número imaginário. Representar os números complexos por diferentes formas. Dar significado aos campos numéricos, interpretando informações a partir deles. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos, teorias de aprendizagem, bem como tendências em Educação Matemática que contemplem o tema de números. Realizar a leitura de textos paradidáticos que propiciem a reflexão do tema no contexto escolar e a elaboração de intervenções pedagógicas. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e ações, refletindo sobre o processo de ensino-aprendizagem e constituindo-se como um professorpesquisador. Relações Numéricas Utilizar situações didáticas que explorem diferentes cálculos mentais. Analisar os diferentes algoritmos produzidos ao longo da história da humanidade pelos diversos grupos sociais para as operações com números naturais. Reconhecer a importância de analisar e justificar relações significativas dos elementos aritméticos, utilizando suas múltiplas representações. Estudar as operações numéricas (adição, subtração, multiplicação, divisão, potenciação, máximo divisor comum, mínimo múltiplo comum, radiciação, exponenciação, logaritmo, entre outras) nos diferentes conjuntos numéricos, explorando sua noção intuitiva e sua fundamentação teórica, abordando inclusive teorias de aprendizagem pertinentes à compreensão do tema e sinais correspondentes em Libras. Explorar as progressões aritmética e geométrica, utilizando conceitos de sequências e séries, bem como dando um tratamento gráfico para essa exploração. Mostrar a utilidade da aritmética de ponto flutuante no contexto computacional atual, ressaltando suas vantagens e desvantagens para resolução de determinado problema. Construir o triângulo de Pascal, utilizando planilha eletrônica, para investigar propriedades. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos, bem como tendências em Educação Matemática que contemplem o tema relações numéricas. Realizar a leitura de textos paradidáticos que propiciem a reflexão do tema no contexto escolar e a elaboração de intervenções 258 pedagógicas. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e ações, refletindo sobre o processo de ensinoaprendizagem e constituindo-se como um professor-pesquisador. Geometrias: Espaço e Forma Construir uma maquete com materiais de sucata, representando um contexto real. Interpretar informações visuais, reconhecer padrões geométricos, identificar, classificar e representar formas espaciais e planas, sendo auxiliado pelos conceitos da Geometria Descritiva, do Desenho Geométrico e do Desenho Técnico e conhecendo os sinais correspondentes a essas formas em Libras. Localizar objetos no espaço a partir de diferentes pontos de referências. Trabalhar noções topológicas como interior/exterior, aberto/fechado, conexo/desconexo, convexo/não-convexo, entre outras. Explorar diferentes materiais didáticos para o desenvolvimento das noções geométricas. Realizar medições e cálculos de áreas e volumes, comparando diferentes unidades de medida e conhecendo os sinais correspondentes as principais unidades de medida de comprimento, área e volume em Libras. Formular hipóteses, conjecturas para resolução de problemas geométricos, desenvolvendo assim o raciocínio hipotético-dedutivo. Resolver problemas clássicos de ótica geométrica. Identificar qual a geometria mais adequada para resolver determinado problema. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos, teorias de aprendizagem, bem como tendências em Educação Matemática que contemplem o tema geometrias: espaço e forma. Realizar a leitura de textos específicos que propiciem a reflexão do tema no contexto escolar. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e ações, refletindo sobre o processo de ensino-aprendizagem e constituindo-se como um professorpesquisador. Geometrias: Tratamento Analítico Usar mapas para compreensão dos diferentes sistemas de coordenadas, a fim de constituir o raciocínio analítico. Estudar analiticamente entes geométricos como ponto, reta, polígonos, cônicas, quádricas, vetores, entre outros partindo, sempre que possível, de problemas físicos da cinemática e dinâmica. Calcular áreas pelo método de exaustão como ponto inicial para o estudo do cálculo integral, aproveitando para realizar discussões sobre a matemática escolar envolvida. Secionar um cone segundo determinados planos para estudar os entes geométricos obtidos, tratá-los enquanto lugar geométrico e resultado de uma equação matricial. Estimular o raciocínio argumentativo-dedutivo para promoção de uma cultura de pensar matemático. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos, teorias de aprendizagem, bem como tendências em Educação Matemática que contemplem o tema geometrias: tratamento analítico. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e ações, refletindo sobre o processo de ensino-aprendizagem e constituindo-se como um professor-pesquisador. Modelagem Partir de experimentos físicos para utilizar a tendência de modelagem no estudo de problemas reais, explorando os diversos tipos de funções (polinomiais, exponenciais logarítmicas, trigonométricas, entre outras), identificando o modelo matemático mais apropriado e ajustando pontos quando necessário. Estudar problemas envolvendo grandezas que variam, valendo-se do cálculo diferencial para compreendê-las e solucioná-las. Suscitar discussões sobre o processo histórico da constituição do raciocínio diferencial. Promover a meta-cognição acerca das aprendizagens proporcionadas pelo trabalho desenvolvido com a metodologia de modelagem e refletir sobre as dificuldades enfrentadas ao longo do processo, indicando possíveis alternativas para superá-las. Estudar os Parâmetros Curriculares Nacionais focando os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, seus processos avaliativos e teorias de aprendizagem. Elaborar, executar e avaliar uma proposta pedagógica a ser vivenciada por um grupo especial de alunos, experimentando planejamentos e 259 ações, refletindo sobre o processo de ensino-aprendizagem e constituindo-se como um professorpesquisador.