UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM CIÊNCIAS DO DESPORTO ESPECIALIZAÇÃO EM ATIVIDADES DE ACADEMIA FERNANDA AUGUSTA DE ALMEIDA MENDES Orientadores: Prof. Doutor Francisco José Félix Saavedra Prof. Doutor Jefferson da Silva Novaes VILA REAL, 2013 PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro FERNANDA AUGUSTA DE ALMEIDA MENDES Orientadores: Prof. Doutor Francisco José Félix Saavedra Prof. Doutor Jefferson da Silva Novaes UTAD Vila Real – 2013 II Dissertação apresentada com vista à obtenção do grau de Mestre em Ciências do Desporto na área de especialização em Atividades de Academia da Universidade De Trás-os-Montes e Alto Douro, em conformidade com o Decreto – Lei nº.216/92, de 31 de Outubro. III Dedico este trabalho à Deus, em primeiro lugar, meu escudo, meu amigo, e que de uma forma tão maravilhosa orientou-me, fortaleceu-me, sustentou-me e ajudou-me a chegar até o final deste trabalho. (In memorium): A meus exemplos de vida: meus pais, Octávio e Dagmar amados e inesquecíveis. Sei que estão sempre comigo e estão felizes por verem sua caçula seguindo seus ensinamentos: “meus filhos, deixo para vocês a riqueza que ninguém vai lhes tirar: o estudo”. Enquanto eu viver vou lembrar - me de vocês... Papai, mamãe, amo vocês! À minha querida irmã Tereza Izabel, que é atualmente o meu referencial de família pelo seu apoio e estimulo, por estar sempre presente, mesmo quando ausente e as minhas amigas Celinha e Cléo que sempre me ajudaram, me apoiaram e me acompanharam neste grande passo da minha vida. Elas que, com muita sabedoria, discernimento, bom senso e dedicação estiveram ao meu lado me encorajando nas horas difíceis e me aplaudindo nos momentos de glória. Obrigada por serem: minha irmã e minhas amigas corretas e competentes, fonte de apoio e ensinamento diário. IV AGRADECIMENTOS Aos meus pais Octávio Mendes de Oliveira e Dagmar de Almeida Mendes de Oliveira (in memorium), meus verdadeiros mestres e inspiração de vida, que apesar das enormes dificuldades impostas pela vida, lutaram e venceram, concluindo suas jornadas nesta dimensão com brilhantismo invejável. À minha tia Dica diminuitivo de Raimunda, que com 91 anos é cinco vezes tataravó e com estas quatro letras traduz uma imensidão de Dedicação, Inspiração Carinho e Amor. Aos meus irmãos, Emanuel Antunes de Almeida Mendes, minha enciclopédia ambulante e João Mendes de Oliveira Neto com os quais compartilhei a infância e adolescência. Minha irmã... o que dizer da e para a minha única irmã, Tereza Izabel de Almeida Mendes! Para ela, um carinho especial pelo companheirismo, carinho, força e apoio que me deu em todos os sentidos e momentos para que eu pudesse alcançar meus objetivos e que pacientemente compreendeu minhas ausências, nas férias de julho. À minha cunhada Maria do Socorro Timbó Mendes, que nos primeiros passos da minha dissertação estendeu – me sua mão disponibilizando – se no que fosse preciso. Aos meus sobrinhos, sobrinha e em especial ao meu afilhado Adriano Mendes Volney Valente, que sempre esteve participativo nos momentos de dificuldades linguísticas.Por isso e muito mais, digo-lhe: “Sempre quis ter um filho assim”. À minha grande amiga, de um metro e setenta de amizade, sinceridade e dedicação, colega de trabalho e do dia a dia, professora doutoranda Celia Maria Couto Correia, que na sua “gigantude” me apoiou em momentos difíceis, sorriu, vibrou em tempos de alegria, sempre esteve comigo, me incentivou, convenceu e ajudou a trilhar este caminho. V À minha amiga, professora pós graduada Cleonice Gonçalves da Silva, que me assistiu neste percurso, por vezes difícil, mostrando-se sempre presente disponível para ajudar, participativa, mas acima de tudo pelas suas palavras reconfortantes e de estimulo, apoiando – me diretamente nos encontros com as minhas idosas e me incentivando para seguir em frente. À minha cunhada, amiga e colega de turma professora mestra Valéria Barros Moreyra, pela sua total presteza ao colocar - me a disposição sua academia a todo e qualquer momento para uso da minha pesquisa. Ao Professor Doutor Jefferson da Silva Novaes, primeiro incentivador para o meu novo desafio: Ser Mestre. Pelos saberes que partilhou, orientou, ajudando-me sempre que solicitado, pela sua disponibilidade e pela sua paciência e boa vontade em atender – me às seis e meia da manhã, e por ter acreditado que eu seria capaz de vencer este desafio. Professor Doutor Francisco José Félix Saavedra. Ser-lhe-ei eternamente grata pela “vossa” acolhida e atenção em uma etapa difícil vivenciada por mim durante a produção da dissertação e principalmente por ter aceitado, prontamente, o convite para orientar – me e dar contribuições deveras importantes e significativas para a conclusão do meu trabalho. Ao Professor Doutor Victor Manuel Machado de Ribeiro Reis pela credibilidade e confiança na minha capacidade, real desejo e empenho enquanto aluna ao permitir a minha continuidade nos estudos de pós graduação na UTAD. Ao Professor Doutor Nuno Garrido pela presteza, gentileza e competência na preparação final desta dissertação. Ao Professor Doutor José Manuel Vilaça Maio Alves pelo incentivo e preciosas recomendações para a continuidade desta dissertação. Ao Professor Doutor Giovanni da Silva Novaes por todo encorajamento, apoio e torcida por esta empreitada. À minha amiga e colega de faculdade, de estudo, e porque não de nossas viagens, professora doutoranda Eliete Sousa Aguiar Motta Cardoso que me ajudou e apoiou na minha qualificação e nos trabalhos do mestrado. VI À professora doutoranda Tânia Lúcia Werner da Silva, que nos nossos encontros de pesquisas e viagens de estudo, trazia sempre palavras de alegria e descontração a todos. Ao meu colega de departamento na Universidade Professor Doutor Alexandre Palma, pelo seu empenho e dedicação ao me orientar e ajudar quando do processo de aprovação da minha dissertação junto ao Comitê de Ética em Pesquisa. Ao meu colega professor Ricardo José Ramos, chefe do departamento de Jogos da EEFD, pela compreensão e apoio nesta difícil etapa da minha vida. À minha amiga e colega de faculdade Professora Doutora Silvia Maria Agatti Lüdorf, sempre pronta a me auxiliar, respondendo de imediato os meus e-mails. À Maria de Lurdes, pérola colocada no meu caminho que auxiliou nos meus contatos com minhas entrevistadas. Aos amigos, Luís Aluízio e Jandyra Maria, pela torcida positiva no desenvolvimento das minhas atividades. À Izabel Tauss, que me fortaleceu em momentos difíceis, transmitindo em suas palavras, tranquilidade, apoio, incentivo e confiança. As minhas idosas que confiaram a mim suas vidas e histórias: verdadeiras heroínas anônimas. À academia KDM que me acolheu para a realização da coleta de dados, por meio do seu coordenador professor Geraldo Menezes Leal e da professora de hidroginástica Roseneli Rodrigues Formoso (Rose) pela confiança e abertura para o meu estudo. Ao meu amigo professor Mário Duarte, do departamento de Jogos da E.E.F.D. da UFRJ, pela sua dedicação como amigo e presteza. Ao funcionário do CEP/HUCFF/FM/UFRJ, Leonardo Fagundes, que me prestou apoio na tramitação de documentos e sempre me atendeu com muita dedicação e presteza. VII Aos funcionários da biblioteca da FADEUP, Pedro Novais e Patrícia Martins sempre prestativos e pacientes no atendimento às minhas solicitações. Ao Nuno, Marina, “seu” Manoel e dona Maria das Dores, amigos portugueses, pessoas que jamais esquecerei e que, mesmo sem saber, participaram na elaboração desta dissertação. À Universidade Federal do Rio de Janeiro, o meu local de trabalho, pela sua credibilidade, e aos meus colegas professores desta casa que são referência nos estudos e na pesquisa científica. A todos que me ajudaram para que este estudo fosse concretizado, meu agradecimento sincero. VIII ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS.......................................................................................... V ÍNDICE GERAL ................................................................................................. IX ÍNDICE DE TABELAS ...................................................................................... XII INDÍCE DE QUADROS .................................................................................... XII LISTA DE ABREVIATURAS ............................................................................ XIII RESUMO ......................................................................................................... XIV ABSTRACT....................................................................................................... XV 1.INTRODUÇÃO.................................................................................................. 1 1.1.APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA .............................................................. 4 1.2.OBJETIVOS DO TRABALHO ........................................................................ 6 2.REVISÃO DA LITERATURA ............................................................................ 7 2.1.HIDROGINÁSTICA ........................................................................................ 8 2.2.PROPRIEDADES FÍSICAS DA ÁGUA .......................................................... 9 2.3.BENEFÍCIOS DA HIDROGINÁSTICA PARA O IDOSO .............................. 11 2.4.ENVELHECIMENTO ................................................................................... 12 2.4.1.ENVELHECIMENTO FÍSICO E FISIOLÓGICO ................................. 16 2.4.2.ENVELHECIMENTO PSICOLÓGICO E SOCIAL .............................. 18 2.4.3.ENVELHECIMENTO E EXERCÍCIO FÍSICO ..................................... 19 2.4.4.ENVELHECIMENTO FEMININO ....................................................... 22 2.5.IMAGEM CORPORAL ................................................................................. 24 2.5.1.IMAGEM CORPORAL DO IDOSO..................................................... 25 2.6.AUTOESTIMA ............................................................................................. 28 2.6.1.AUTOESTIMA DO IDOSO ................................................................. 29 3.METODOLOGIA ............................................................................................. 31 IX 3.1.CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO ............................................................. 32 3.2.CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA ........................................................... 32 3.3.DELINEAMENTO DA PESQUISA ............................................................... 33 3.4.INSTRUMENTO E MATERIAIS DE RECOLHA DE DADOS ...................... 34 3.5.FASES DE PESQUISA................................................................................ 34 3.5.1.CONTATO INICIAL ............................................................................ 34 3.5.2.ESTUDO PRELIMINAR ..................................................................... 34 3.5.3.PARECER DO ESTUDO PRELIMINAR............................................. 35 3.5.4.ESTUDO PRINCIPAL ........................................................................ 36 3.6.TAREFAS, PROCEDIMENTOS E PROTOCOLOS..................................... 36 3.6.1.ÉTICA NA PESQUISA ....................................................................... 37 3.6.2.LIMITAÇÕES DO ESTUDO ............................................................... 38 3.7.DESCRIÇÃO DA TÉCNICA DE ANÁLISE DE DADOS............................... 38 3.7.1.A PRÉ-ANÁLISE ................................................................................ 40 3.7.2.EXPLORAÇÃO DO MATERIAL ......................................................... 40 3.7.3.TRATAMENTO DOS RESULTADOS, A INFERÊNCIA E INTERPRETAÇÃO ...................................................................................... 41 3.8.A CODIFICAÇÃO ........................................................................................ 42 3.8.1.UNIDADE DE REGISTRO ................................................................. 42 3.8.2.UNIDADE DE CONTEXTO ................................................................ 43 3.8.3.DEFININDO AS CATEGORIAS ......................................................... 43 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS .............................. 46 4.1.CATEGORIA A – CORPO FUNCIONAL ..................................................... 50 4.1.1.AUMENTANDO A INDEPENDÊNCIA E AUTONOMIA...................... 51 4.1.2.AUMENTO DA AUTOCONFIANÇA ................................................... 54 4.2.CATEGORIA B – CORPO PESSOAL ......................................................... 56 X 4.2.1.SENTIR-SE BEM ............................................................................... 56 4.2.2.SATISFAÇÃO/ GOSTO...................................................................... 58 4.2.3.MELHORIA DA APARÊNCIA FÍSICA ................................................ 60 4.3.CATEGORIA C – CORPO SAÚDE ............................................................. 61 4.3.1.MELHORIA DO CONDICIONAMENTO FÍSICA................................. 61 4.3.2.REDUÇÃO DAS LIMITAÇÕES .......................................................... 63 4.3.3.QUALIDADE DE VIDA ....................................................................... 65 4.4.CATEGORIA D – CORPO SOCIAL............................................................. 68 4.4.1.RELAÇÃO SOCIAL ............................................................................ 69 4.4.2.ADERÊNCIA/ INFERÊNCIA FAMILIAR ............................................. 70 4.5.CATEGORIA E – CORPO ESTÉTICO ........................................................ 73 4.5.1.IDEAL ESTÉTICO .............................................................................. 74 4.5.2.PREOCUPAÇÃO COM A IMAGEM CORPORAL .............................. 77 4.5.3.SATISFAÇÃO COM A IMAGEM CORPORAL ................................... 78 5.CONCLUSÃO ................................................................................................. 81 5.1.CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES DE NOVOS ESTUDOS ........................................................................................................................... 84 6.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................... 86 7.ANEXOS ....................................................................................................... 101 ANEXO 1 – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE ESCLARECIDO ANEXO 2 – APROVAÇÃO DO CONSELHO DE ÉTICA DA UFRJ ANEXO 3 –ROTEIRO DAS ENTREVISTAS ANEXO 4 – POST SCRIPTUM XI ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 – Atividades Físicas e Tempo de Prática ........................................... 49 INDÍCE DE QUADROS Quadro 1 – Principais implicações biopsicossociais do envelhecimento ......... 15 Quadro 2 – Sistema categorial ......................................................................... 45 Quadro 3 – Clientes inscritas na Academia Alvo .............................................. 48 XII LISTA DE ABREVIATURAS ACSM - American College Of Sports Medicine AF – Atividade Física AIVD - Atividade Instrumental de Vida Diária AVD - Atividade de Vida Diária EA - Exercício Aquático EF - Exercício Físico IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística MS - Ministério da Saúde OMS - Organização Mundial de Saúde OPAS - Organização Pan-Americana de Saúde QV - Qualidade de Vida XIII RESUMO A necessidade e o encorajamento de conhecer novas pessoas e ambientes, fugir da solidão, procurar atividades culturais e praticar atividades físicas, refletem a preocupação dos idosos em preencher o tempo livre, sair da rotina e procurar o bem estar geral. No decurso do envelhecimento, o papel da atividade física é muito significante, não só nos aspectos fisiológicos, mas também nos psicológicos e sociais. A presente pesquisa teve, como objetivo, analisar a forma como as mulheres idosas percebem seus corpos e as consequências da hidroginástica para suas qualidades de vida. Este estudo foi realizado em uma academia da zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. A técnica de coleta de dados utilizada foi a entrevista semi estruturada, aplicada a 23 mulheres idosas, com idades compreendidas entre os 60 e 91 anos de idade, praticantes de hidroginástica na referida academia, com 3 sessões por semana a pelo menos 6 meses. Para o tratamento da informação utilizamos a técnica da análise de conteúdo. Após a análise do material recolhido, delineou se um conjunto de categorias associadas à percepção do corpo das idosas: Corpo Funcional, Corpo Pessoal, Corpo Saúde, Corpo Social e Corpo Estético. Deduzimos qua a atividade física, hidroginástica, surgiu como um fator determinante de alteração da identidade corporal destas idosas entrevistadas, na medida que constatamos através dos discursos, sentimentos de domínio e controle sobre o próprio corpo, auto confiança e auto estima elevada. Enfim, podemos concluir que, os discursos estão em concordância com os aspectos valorizados pela literatura, no que se refere aos motivos que levam as idosas à prática da hidroginástica visando os benefícios físicos, psicológicos e sociais. Palavras-chave: Atividade Física, Autoestima, Hidroginástica, Idosas, Qualidade de Vida XIV ABSTRACT The need and the encouragement to know other people and environments, avoid loneliness and perform cultural and physical activities reveal the concearn of elderly people in filling the spare time, running away from routine and searching for wellness. During the aging process, the role of physical activities is very significant not only in physiological aspects but also in psychological and social ones. This research took place in one gymnastic academy in the North zone of the city of Rio de Janeiro/ Brazil and aims to analyze the way how elder women conceive their bodies and the consequences of hidrogymnastics to their quality of life. Semi-structured interviews were applied to 23 elder women aging between 60 and 91 years old who practice hidrogymnastics 3 times a week for at least 6 months. Using the method of analysis of content, there emerged a group of categories associated to the body perception of those women: functional body, personal body, health body and aesthetic body. It was deduced that hidrogymnastics appears as a determinant factor of the modification of the body identity of the interviewed women. In their discourse it could be found feelings of dominium and control over their own bodies and augment of self-confidence and self-esteem. The conclusion is that their discourses agree with the weighty aspects considered by literature about the reasons which induce elder women to practice hidrogymnastics aiming physical, psychological and social results. Keywords: Physical Activity, Self-esteem, Hidrogymnastic, Elderly, Quality of Life XV 1 INTRODUÇÃO 1.INTRODUÇÃO PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro 1 1.INTRODUÇÃO 1.INTRODUÇÃO “É um paradoxo que a idéia de ter vida longa agrade a todos, e a idéia de envelhecer não agrade a ninguém”. (Andy Rooney) Existe uma verdadeira recusa em reconhecer a fragilidade e aceitar a finitude. O envelhecimento é um processo inerente à condição humana, inevitável, natural e irreversível, que ocorre do nascimento à morte, sendo caracterizado pelo declínio das funções biofisiológicas (Cozin, 2009). É sabido que, no período neolítico, por volta de 8.000 anos a. C., a expectativa de vida dos homens das cavernas, devido às constantes lutas pela sobrevivência, entre outros fatores, impostos pelo meio ambiente, era aproximadamente de apenas 20 anos. No século XIX, na era da Revolução Industrial, a média de idade do homem era de 47 anos, devido em parte ao aumento dos cuidados de alimentação, saúde e higiene. A partir de 1940, após a acessibilidade à penicilina, considerada como a grande aliada na detenção de doenças infecciosas como a tuberculose, é aumentada a esperança de vida do ser humano para 60 anos, havendo os primeiros registros de indivíduos que atingiram o centenário. A partir do ano 2000, nos paises desenvolvidos, o homem já vive além dos 76 anos, considerando em definitivo o estabelecimento da terceira idade, velhice entre outras designações (Antonelli, 2007). Mas o que significa o termo Idoso? Segundo a Organização Mundial de Saúde [OMS] (2011), uma forma correta de classificar este termo, seria dividir o envelhecimento em quatro estágios: meia idade, de 45 a 59 anos; idoso, de 60 a 74 anos; ancião de 75 a 90 anos e velhice extrema, de 90 anos em diante. Sabe-se que a dimensão cronológica não é a única a ser considerada na pessoa com idade avançada, outros fatores estão envolvidos, entre eles o biológico, econômico, cultural, ideológico e sobre tudo social. Segundo a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] (2011) em 2050, para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172,7 idosos, com o patamar de 81,29 anos. Os avanços da medicina e as melhorias nas condições gerais de vida da população repercutem no sentido de elevar a 2 1.INTRODUÇÃO média de vida do brasileiro. Os idosos do século XXI serão em maior número e mais velhos (porque viverão mais tempo), mas terão maior rendimento, mais saúde, mais instrução, possibilitando melhores condições habitacionais. Eles serão mais ativos profissional e civicamente, mais conscientes dos direitos e mais disponíveis para usufruir da cultura e do lazer (IBGE, 2011). O envelhecimento é um processo dinâmico e progressivo, levando a alterações morfológicas, funcionais e bioquímicas pela alteração do mecanismo proteico e progressivamente altera o organismo. É acompanhado por alterações como o decréscimo da função muscular, que afeta diretamente as tarefas diárias e reflete negativamente na qualidade de vida [QV] (Rossi Junior, Schuster & Polese, 2009). Para a nossa sociedade atual ser um velho tem um grande significado subjacente, muito negativo e salienta fundamentado numa idéia errônea de que obrigatoriamente o envelhecimento causa “incompetência comportamental”. A sociedade julga o idoso um sujeito pouco importante, demonstrando que ser velho corresponde ser incapaz e ser problema, associando o envelhecimento natural à senilidade, a dependência, a perda de status social e à impotência. Enfim, o idoso torna-se uma pessoa que incomoda e atrapalha as outras. Diante desta imagem tão negativa ditada pela sociedade, destaca que o idoso opõe-se a pensar e nega o seu próprio envelhecimento. Através dessa desvalorização, o idoso diminui a sua participação no meio social, gerando um sentimento de inutilidade, levando-o a apresentar problemas orgânicos e psicológicos ocasionando o isolamento social deste sujeito (Mazini, Lima, Venturini, Zanella, Savóia & Matos 2009). Silva, Mesquita, Souza e Salles (2011) dizem que qualquer forma de exercício físico (EF) proporciona benefícios psicológicos, de autoestima e de melhoria do relacionamento social, ou seja, melhora os aspectos biopsicossociais muito importantes para adultos de idade avançada, devido às inúmeras mudanças advindas dessa fase da vida. Em geral as pessoas que praticam atividades físicas (AFs) tendem a ser menos deprimidas do que as que não praticam. 3 1.INTRODUÇÃO A ideia de que a AF regular é um importante elemento para a manutenção da saúde e da qualidade de vida das pessoas idosas é aceita por unanimidade nos meios científicos. Há dados abundantes sobre sua eficácia na melhoria da funcionalidade física e na diminuição no risco de desenvolvimento ou agravamento de diversas patologias mais frequentes na velhice. Além dos benefícios nos domínios da saúde física e da funcionalidade, existem indícios na saúde mental, além de benefícios no domínio psicológico, entre eles melhoria do humor e da autoestima e redução da ansiedade e da depressão (Costa, 2010). Como observado, durante a velhice há um declínio das capacidades fisiológicas, motoras e mentais. Assim, os indivíduos que estão passando por essa fase não possuem tantas habilidades e acabam adquirindo certas limitações, impedindo-os de realizar alguns EF (Gondim, Cunha, Souza, Schmith & Barros, 2011). Levando isso em consideração, Paula e Maffia (2010) e Mota (2009), dizem que a procura pela hidroginástica tem crescido entre os indivíduos idosos, pois essa prática tem grandes vantagens para essa classe social. Entre as vantagens pode-se citar a segurança aos praticantes, pois dentro da água o peso corporal diminui fazendo com que algumas regiões do corpo fiquem menos vulneráveis, como ossos, músculos e as articulações que ficam livres de impactos, podendo se movimentar com mais amplitude. Assim, pode-se notar que a busca por esta atividade tem sido crescente na última década e também tem sido muito produtiva para a melhoria da QV desta classe populacional. 1.1.APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA Muitos estudos sobre envelhecimento enfatizam a expectativa de vida e os fatores de risco para morte, assim como seu desgastado no organismo e na saúde do idoso. Entretanto, pouco se tem pesquisado a respeito da opinião do idoso nesse período da vida em que se encontra. O interesse pelo relato dos idosos quanto a sua auto percepção no processo de envelhecimento, considerando ganhos e perdas nesse trajeto, tende a quantificar de maneira íntegra e real as mudanças percebidas no ambiente social e no próprio corpo a partir da prática da hidroginástica (Guerra & Caldas, 2010). 4 1.INTRODUÇÃO Para a população idosa, ter uma percepção melhor da autoimagem é um desafio, pois na sociedade atual, há vários conceitos equivocados e estereotipados ligando velhice a declínios físicos (Matsudo, Velardi & Brandão 2007). Além disso, o impacto do envelhecimento é muito forte para alguns idosos e nem sempre aceito, pois eles não se adaptam a essas mudanças tornando-se assim, um fator limitante em todos os aspectos da vida humana. Isto pode resultar em uma imagem corporal equivocada, modificando a forma de se ver e sentir o corpo (Paula & Maffia, 2010). Essas alterações na imagem corporal das pessoas idosas ocorrem por vários aspectos. Nesse sentido, Fugulin, Rosche e Resende (2009), afirmam que essas alterações têm atingido mais as mulheres do que os homens. Há estudos que apresentam resultados, mostrando que as mulheres idosas focalizam mais sua preocupação na aparência física do que os homens idosos, que estão mais preocupados com a perda da funcionalidade fisiológica (Matsudo, et al., 2007). O Centro Nacional para Estatística e Saúde (CNES) estima que 84% das pessoas com idade de 65 anos ou mais são dependentes de outras pessoas para executar suas tarefas cotidianas. No entanto, podemos verificar que com a prática da hidroginástica essa porcentagem de idosos dependentes pode diminuir consideravelmente. Já que, sua prática possibilita melhorar as capacidades físicas proporcionando uma vida mais independente, como também conduz a uma grande melhora mental, pois, além de ser um exercício de fácil execução, proporciona uma grande integração entre os participantes elevando assim a autoestima (Marangoni, 2009). Mazo, Lopes e Benedetti (2009), realizaram uma pesquisa sobre QV e AF com 198 idosas participantes dos grupos de convivência no município de Florianópolis. A autora verificou que as idosas mais ativas possuíam melhor autoimagem e autoestima. Mcauley, Elaysky, Motl, Konopack e Márquez (2005), estudaram 174 idosas participantes de um programa de exercícios físicos durante seis meses e verificaram que a AF influência positivamente nos níveis de auto-estima. A AF além de prevenir a dependência é um estímulo para o bem estar das idosas, consequentemente, melhora a autonomia e a 5 1.INTRODUÇÃO independência, o que irá se refletir em melhor autoimagem e autoestima (Benedetti, Petroski & Gonçalves, 2003). Até que ponto os benefícios da hidroginástica são percebidos pelos idosos, para melhoria e satisfação de sua imagem corporal? 1.2.OBJETIVOS DO TRABALHO O presente estudo tem como objetivo analisar a forma como as mulheres idosas percebem os seus corpos e as consequências da hidroginástica para a QV das praticantes de hidroginástica em uma academia da zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. No que se refere aos objetivos específicos, estabelecemos os seguintes: cIdentificar a percepção corporal das idosas antes de serem práticantes da hidroginástica. c Verificar de que forma a percepção corporal das idosas se alterou após tornarem – se praticantes da hidroginástica. A partir da definição deste objetivo, apresentamos as seguintes questões norteadoras: c O que leva as idosas a procurar a prática da hidroginástica? c O que desejam/esperam da prática da hidroginástica? c Qual a percepção dos seus corpos antes da prática da hidroginástica? c O que leva as idosas a frequentar uma academia? c Qual a importância da hidroginástica para o convívio social? c De que forma percebem as possíveis mudanças corporais consequentes da prática da hidroginástica? 6 2 REVISÃO DA LITERATURA 2.REVISÃO DA LITERATURA PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro 7 2.REVISÃO DA LITERATURA 2.REVISÃO DA LITERATURA 2.1.HIDROGINÁSTICA Há poucos registros históricos do início da prática de hidroginástica. A água sempre existiu na vida do homem e se aguçarmos um pouco à imaginação teremos um quadro onde aparece o Home Sapiens se banhando em cachoeiras e rios, imitando os animais e ensaiando os primeiros movimentos aquáticos (Primo, 2000). A hidroginástica é uma tradição milenar dos romanos, que a exemplo da cultura helénica, transformaram os banhos teraupêuticos em prática corriqueira. Na Grécia, qualquer cidade possuía balneário público, chegando a ter onze termas públicas, além de quase mil privadas. Foram os Gregos os precursores da hidroginástica (hidroterapia), usada para reanimar, relaxar e exercitar (Delgado & Delgado, 2004). Na Alemanha, por volta de 1772, os banhos mornos, já eram utilizados para aliviar espasmos e nos pacientes necessitados de relaxamento. Aproximadamente sete anos depois (1779), em Edimburgo, foi empregado o banho frio em várias condições febris. De acordo com alguns documentos por volta do ano de 1830, Vincent Pressnitz, iniciou o uso da água fria e exercícios vigorosos. Este acreditava que essa atividade trazia inúmeros benefícios para o corpo, embora sua tese fosse considerada empírica nos meios clínicos da época (Vitti, 2006). Na primeira e segunda Guerra Mundial, os alemães e os ingleses usavam a hidroginástica para socorrer os lesionados. Logo após, passou–se a usar a técnica em pessoas idosas que obtinham alívio em dores generalizadas pelo corpo. Foi um sucesso. A Alemanha, Inglaterra e os Estados Unidos da América do Norte empregaram a hidroginástica como terapia para proporcionar o bem-estar físico e mental às pessoas que precisavam praticar uma atividade e só podiam fazê-la na água. Os americanos começaram a aplicar em outros tratamentos e também em pessoas saudáveis. Foram, portanto os americanos 8 2.REVISÃO DA LITERATURA que fizeram uso pela primeira vez da hidroginástica como AF (Delgado & Delgado, 2004). Acredita-se que a hidroginástica teve a sua ascensão no Brasil e no mundo, no início da década de 80, devido ao elevado número de lesões provocadas pela prática da ginástica aeróbica. Isto posto, vários especialistas dos Estados Unidos, começaram a estudar os exercícios aquáticos (EA) a fim de minimizar o impacto encontrado nas atividades feitas em sala de aula. Sendo assim, foi possível com o resultado das pesquisas, reduzir o impacto através da correção da execução dos movimentos de alto impacto e estimular o uso de tênis como efeito amortecedor (Vitti, 2006). 2.2.PROPRIEDADES FÍSICAS DA ÁGUA A hidroginástica hoje é procurada por vários grupos: idosos, gestantes e adultos e em diferentes contextos, tais como: clubes, academias ou associações com objetivos e expectativas muito diversificadas (Fernandes, 2011). O EA em sua abordagem grupal pode ser considerado como uma inovadora e eficaz intervenção promotora de um envelhecimento saudável, ao possibilitar aos idosos as melhoras funcionais associadas às mellhoras da autoestima e da autoconfiança, permitindo-os desempenhar suas funções cotidianas de forma independente dentro do seu círculo sócio-econômico e, acrescentando à velhice qualidade e significado (Camurça, Silva, Freire, Veloso & Silva, 2010). É fundamental que nas atividades aquáticas, o profissional possa compreender as propriedades físicas da água e sua aplicabilidade, tendo melhores condições de utilizar seus benefícios, protegendo principalmente as articulações dos joelhos, tornozelos, quadris e até mesmo a coluna vertebral, a fim de implantar e desenvolver um programa adequado aos seus alunos (Fernandes, 2011) Broach e Dattilo (2006), afirmam que a combinação das propriedades físicas da água com a atividade dentro de água cria um ambiente único e Freire, Martins, Araujo e Borragine (2011) dizem que a água possui 9 2.REVISÃO DA LITERATURA propriedades físicas que incluem densidade, flutuação, pressão hidrostática e viscosidade. A densidade de uma substância, segundo Barros (2007), é a relação entre sua massa e seu volume. Assim, se a densidade relativa da água pura é igual a 1, um corpo com densidade menor que 1 flutuará, maior que 1 afundará. A flutuação é considerada a primeira força física que percebemos ao entrar na piscina. É a força que atua em sentido contrário à ação da gravidade (empuxo para cima), regida pelo princípio de Arquimedes, ou seja, “quando um corpo está completo ou parcialmente imerso em um líquido, ele sofre um empuxo para cima, igual ao peso do líquido deslocado”, pois sua utilização básica facilita a execução dos movimentos, diminui o stress biomecânico (atrito), assim como os riscos de lesões, atuando no processo de fortalecimento muscular. Temos também outro tipo de força atuando que é a pressão hidrostática exercida igualmente, em todas as direções. Os efeitos da pressão hidrostática dependem da profundidade a que o corpo é submerso e quanto maior a profundidade, maior será a pressão exercida. (Aboarrage, 2008). A pressão hidrostática do liquido é exercida igualmente sobre todas as áreas da superfície de um corpo imerso, em repouso, a uma dada profundidade (Lei de Pascal). Esta aumenta proporcionalmente à profundidade e densidade do fluido. É a primeira contribuição para o exercício (há uma estimulação imediata da circulação periférica e, com a água na altura dos ombros uma resistência sobre a caixa torácica. Por isso, pessoas com comprometimento respiratório grave ou com capacidade vital reduzida, devem iniciar o programa em piscinas mais rasas e de acordo com suas possibilidades. A utilização básica desta propriedade é a resistência ao movimento de sobrecarga natural, estímulo a circulação periférica, facilitação do retorno venoso e fortalecimento da musculatura envolvida na respiração (Aboarrage, 2008). A viscosidade é definida pelo atrito que ocorre entre as moléculas de um determinado elemento. O líquido é considerado de alta viscosidade quando flui lentamente e de baixa viscosidade, quando flui mais rapidamente, variando também com a temperatura deste líquido. A viscosidade da água quente é maior que a água fria. A turbulência pode ser usada como forma de resistência 10 2.REVISÃO DA LITERATURA e também de massagem nos exercícios na piscina, quanto mais rápido o movimento, maior a turbulência, e, portanto, um exercício pode ser progredido aumentando-se a velocidade à qual é efetuado. O corpo pode estar alinhado (vertical) ou desalinhado (horizontal), em relação à piscina. Conforme o alinhamento, alteramos a resistência oferecida (Aboarrage, 2008). A temperatura da água é um fator deveras importante no desenvolvimento de exercícios, principalmente para pessoas com fibromialgia, pois temperaturas extremamente altas ou baixas pioram os sintomas. Os exercícios realizados a uma temperatura de aproximadamente 26 a 29,5ºC propiciam melhor resposta fisiológica. Em temperaturas muito frias, a circulação periférica é diminuída devido à vasoconstricção, o que reduz a oxigenação muscular, aumentando a rigidez, o risco de lesões e a ocorrência de cãibras. As temperaturas muito elevadas podem, por outro lado, dificultar a dissipação do calor produzido metabolicamente durante o exercício (Baun, 2010). 2.3.BENEFÍCIOS DA HIDROGINÁSTICA PARA O IDOSO A hidroginástica difere da natação por ser realizada em posição vertical. Esta posição acarreta em uma diminuição do peso hidrostático, diminuindo as forças compressivas nas articulações, reduzindo assim o estresse e, provavelmente, as lesões articulares (Souza & Dias, 2012). Segundo Barros (2007), a principal vantagem da hidroginástica é justamente a segurança que proporciona ao praticante. Dentro da água os movimentos ficam mais seguros, tornando os traumas menos vulneráveis, inclusive durante saltitos, e essa segurança permite ao praticante superar seus limites naturais, sem riscos. Nakagava e Rabelo (2007) afirmam que a hidroginática é procurada e recomendada para a população idosa, por além de ser um excelente exercício respiratório, facilita o fortalecimento da musculatura e das articulações, sem sobrecarregar os membros inferiores com os impactos comuns nas atividades terrestres, já que na água, se reduz em aproximadamente 90%, o peso corporal de uma pessoa que se mantém submersa, até a altura dos ombros. 11 2.REVISÃO DA LITERATURA A hidroginástica também tem efeito relaxante; proporciona um bem estar físico e mental, aquece simultaneamente as diversas articulações e músculos, logo após a imersão e durante a execução dos exercícios, tanto pela movimentação dentro da água, quanto pela temperatura da mesma; melhora as trocas gasosas; melhora a irrigação, ativando vasos capilares, veias e artérias, garantindo elasticidade aos mesmos; diminui os problemas de hipertensão e hipotensão; atua no aspecto estético do corpo, desenvolvendo os músculos, a resistência muscular e diminuindo a gordura corporal; aumento dos níveis de força; incremento do consumo máximo de oxigênio (VO2máx); excreção aumentada de urina (diurese), sódio (natriurese) e potássio (potassiurese); aumento da amplitude e mobilidade articular, permitindo determinados movimentos, que eram difíceis de serem realizados fora da água (Texeira, Pereira & Rossi, 2007). De maneira geral, a prática de EF melhora o humor devido à liberação do hormônio endorfina, que causa sensação de bem-estar e relaxamento (Silva et al., 2011) e, segundo McArdle, Katch e Katch (2008), o aprimoramento na autoestima é um dos benefícios psicológicos potenciais do exercício. Para, além disso, a hidroginástica por ser uma atividade de grupo, promove a sociabilização, tão importante para os idosos, pois a solidão é uma constante quiexa dos mesmos. A água é no fundo um elemento lúdico e de relacionamento social, que permite sempre o diálogo e o divertimento. (Spirduso, Francis & MacRae, 2005). No entanto, apesar dos idosos procurarem a hidroginástica, também por estes motivos, existe ainda a grande dificuldade de mantê-los motivados para uma prática contínua. O programa de AF deve, então, englobar exercícios que não levem a exaustão e não tenham um elevado grau de dificuldade. Podem, no entanto, aumentar gradualmente a sua exigência, desde que sejam cativantes. Neste sentido as aulas podem ser realizadas com música e com diversos materiais (Nakagava & Rabelo, 2007). 2.4.ENVELHECIMENTO À medida que as condições gerais de vida e o avanço da ciência têm contribuído para controlar e tratar doenças responsáveis pela mortalidade, a 12 2.REVISÃO DA LITERATURA expectativa de vida da população cresce significativamente. Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde [OPAS] (2005) e OMS (2011), a taxa de crescimento anual da população idosa, estimada em cerca de 3% para as duas primeiras décadas deste século, o total de pessoas com 60 anos ou mais, atingirá os 149 milhões. Crescendo esse número para 292 milhões até metade do século XXI. A OMS define a população idosa como aquela a partir dos 60 anos de idade. Esse limite é válido para os países em desenvolvimento, mas admite – se um ponto de corte de 65 anos de idade para os países desenvolvidos, pela tradição destes em utilizarem esse índice há várias décadas (Silva, Carvalho, Lima & Rodrigues, 2011). Dentro desta visão, o Brasil se encontra nessas duas situações de 60 e 65 anos, pois é um país que geograficamente possui regiões totalmente adversas umas das outras, no que se refere tanto a: clima, cultura e miscigenação permitindo que este trinômio atue diretamente na QV do idoso. Sendo o envelhecimento um processo biológico natural, não existe meio de evitá-lo (American College of Sports Medicine [ACSM], 2007). A OPAS, com a concordância do Ministério da Saúde, define o envelhecimento como um processo constante, individual, irreversível, comum a todos os seres vivos, esperado, de deterioração progressiva (Morais, Rodrigues, & Gerhardt, 2008). Considerando os fatores genéticos individuais e específicos, traduz o processo universal das mudanças humanas do envelhecer, registrando diminuição de plasticidade do comportamento, vulnerabilidade aumentada, perdas cumulativas e evolutivas e, claro, maior probabilidade de morte. Biologicamente, o envelhecer compreende transformações orgânicas de pós-maturação sexual, que geram essa diminuição gradativa das probabilidades de tempo e de vida (Neri, 2008). Segundo o Ministério da Saúde [MS] e a Secretaria de Atenção à Saúde [SAS] (2007), o envelhecimento compreendido como um processo natural, de diminuição progressiva da reserva funcional dos indivíduos em condições normais é definido como senescência. Por outro lado, condições de sobrecarga 13 2.REVISÃO DA LITERATURA como, por exemplo, doenças, acidentes e estresse emocional, podem ocasionar uma condição patológica definida como senilidade. De acordo com o que defende Branco (2010) o processo de envelhecimento biológico ocorre em diversas fases: O Idoso – é uma fase em que ainda não existem grandes alterações orgânicas, estando o indivíduo apto para satisfazer as suas necessidades. Nessa fase podemos distinguir, entre “os idosos mais jovens”, que se mostram mais saudáveis, e os “idosos verdadeiramente mais velhos”, com mais de oitenta anos, sendo este grupo o que maior crescimento apresenta. A Senescência – nesta fase o indivíduo já passa a sofrer alterações de diversas naturezas, como (e.g., na sua condição física). Surge nesta altura à necessidade de começar a confiar em terceiros. Inicia-se um processo de dependência. A Senilidade – o indivíduo já não exerce a sua função como órgão de adaptação, tornando-se dependente a vários níveis de cuidados. Contudo, apesar dos inúmeros conceitos de envelhecimento encontrados na literatura, definí-lo em sua essência é extremamente complicado. As mudanças estruturais e funcionais relacionadas às doenças que são comuns em pessoas idosas são, frequentemente, difíceis de serem diferenciadas do processo de envelhecimento em si. Além disso, os fatores ambientais influenciam profundamente a taxa de envelhecimento, trata-se de um processo não homogêneo entre os diferentes tecidos e as manifestações funcionais também variam em relação ao seu início e sua progressão (Nair, 2005; Fedarko, 2011). O envelhecimento é um processo biológico, universal, estocástico, dinâmico e progressivo, no qual ocorrem modificações morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas que reduzem a capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, afetando sua integridade e permitindo o surgimento das doenças crônicas, com impacto sobre a saúde e a QV do idoso (Hayflick, 2007). O quadro seguinte, ilustra os principais tipos de alterações que o envelhecimento causa no indivíduo, contribuindo para uma natural alteração da 14 2.REVISÃO DA LITERATURA sua personalidade. Sendo este um quadro síntese e que apenas faz uma representação geral, não significa que todos os idosos passem por estas alterações obrigatoriamente. Quadro 1 – Principais implicações biopsicossociais do envelhecimento Personalidade Alterações Biológicas Alterações Psicológicas Alterações Sociais - Pertubações Metabólicas; - Órgãos Ineficientes; - Doenças Físicas; - Incapacidades Motoras. - Deterioração Mental; - Pertubações Afetivas; - Reação de Compensação; - Pertubações Comportamentais. - Reforma; - Isolamento; - Inatividade; - Dificuldades Econômicas; - Dificuldades Habitacionais. Fonte: Branco (2010) Embora existam alterações que podem ser classificadas como ganhos, de acordo com Neri (2008) e Papalia, Olds e Feldman (2006), as mudanças evolutivas, que são reconhecidas como perdas, tendem a aumentar com o passar da idade. O exemplo disso pode ser constatado ao serem observadas as capacidades cognitivas ligadas ao processamento da informação, à memória e à aprendizagem, que declinam por causa das alterações sensoriais e neurológicas que acompanham o envelhecimento. De acordo com (Aykawa & Neri, 2008; Duarte, Andrade & Lebrão, 2007), a capacidade funcional, está relacionada com a medida do grau de preservação da capacidade do indivíduo, para realizar atividades de vida diária (AVDs) e do grau de capacidade, para desempenhar as atividades instrumentais de vida diária (AIVDs). As AVDs são as que se referem ao autocuidado, ou seja, permitem ao idoso cuidar-se e responder por si só no 15 2.REVISÃO DA LITERATURA espaço limitado de seu lar, envolvendo, (e.g., alimentar-se, ter continência urinária, movimentar-se, tomar banho, vestir-se, usar o banheiro, andar pela casa, subir e descer escadas e cortar as unhas). Já as AIVDs estão relacionadas a funções mais complexas que permitem a vida independente na comunidade, incluindo, (e.g., fazer compras, cozinhar, arrumar a casa, telefonar, utilizar o transporte, lavar roupa, tomar remédios e ter habilidade para lidar com as próprias finanças). 2.4.1.ENVELHECIMENTO FÍSICO E FISIOLÓGICO São inúmeras as alterações que advêm do processo de envelhecimento, o qual evidencia: antropométricas, músculo esquelético, neuromuscular, cardiovasculares, cardiorespiratórias, neurológicas, capacidade motoras, força muscular, além da diminuição da agilidade, coordenação, equilíbrio, flexibilidade, mobilidade articular com aumento da rigidez de cartilagens, tendões e ligamentos. Ainda se menciona que essas mudanças, associadas ao baixo nível de AF, propiciam a diminuição da capacidade funcional do idoso (Souza, 2010). Como o envelhecimento cronológico, nem sempre corresponde ao envelhecimento fisiológico, este pode classificar-se em primário, secundário e terciário (Spirduso et al., 2005). Por envelhecimento primário, entende-se o conjunto das mudanças intrínsicas do processo de envelhecimento – irreversíveis, progressivas e universais (e.g. aparecimento de rugas, o embranquecimento dos cabelos, perdas de massa óssea e muscular, o declínio do equilíbrio, da força e da velocidade bem como das perdas cognitivas). O envelhecimento secundário engloba as mudanças causadas por doenças inerentes à idade, com o aumento da exposição a fatores de risco. Os efeitos deletérios dessas mudanças são cumulativos, o que faz com que os organismos apresentem uma crescente vulnerabilidade com o passar da idade (e.g., doenças cérebro-vasculares, neuro-degenerativas cardiovasculares, esclerose múltipla, Alzheimer, Parkinson). Por último o envelhecimento terciário, refere-se ao declínio terminal, caracterizado por uma grande taxa temporal de diminuição de funções resultando na morte. 16 2.REVISÃO DA LITERATURA Demongeot (2009) enfatizou que a idade cronológica não dá informação útil, sobre o estágio em que acontece o processo de envelhecimento do organismo. O processo do envelhecimento não ocorre da mesma forma com todos os indivíduos, assim como as teorias, e sozinhas, não conseguem explicar, todos os passos do processo de envelhecimento. Desse modo, as transformações, com o passar dos anos de vida, também sofrem influências do ambiente físico e social, e algumas mudanças fisiológicas do envelhecimento, podem ser destacadas quanto a modificações externas evidentes: a pele começa a enrugar, os cabelos ficam grisalhos e mais finos, a pele perde o tônus, tornando-se flácida, há um alargamento do nariz, os olhos ficam mais úmidos, há um aumento na quantidade de pêlos nas orelhas e no nariz, há um encurvamento postural devido a modificações na coluna vertebral, havendo também diminuição da estatura pelo desgaste das vértebras. As modificações internas são: endurecimento dos ossos; o cérebro perde neurônios e atrofia-se, tornando-se menos eficiente; o metabolismo fica mais lento; a digestão é mais difícil; a visão de perto piora devido à falta de flexibilidade do cristalino; há perda da transparência (catarata); há endurecimento das artérias; o olfato e o paladar diminuem (Paula, 2010; Papalia et al., 2006). As alterações orgânicas que se destacam são: diminuição da água corporal total, do peso corporal e da massa muscular; o ritmo do coração tende a tornar-se mais lento e irregular; a pressão arterial costuma aumentar; alguns idosos tendem a dormir menos; há uma limitação nas atividades que exigem resistência e força. Além disso, com o envelhecimento, as pessoas ficam mais susceptíveis a quedas, em razão não só da diminuição da sensibilidade das células receptoras e das informações sobre a posição do corpo no espaço, como também da diminuição dos reflexos (Paula, 2010; Papalia et al., 2006). Além das alterações físicas e fisiológicas, o processo de envelhecimento caracteriza-se por alterações psicológicas e sociais, bem como, pelo surgimento de doenças crônicas degenerativas, acrescidas de hábitos de vida inadequados (dieta desadequada, tabagismo, ausência de atividade laboral e inatividade), com significativa redução da capacidade para a realização das atividades básicas diárias. Estabelece-se um ciclo vicioso pernicioso entre a 17 2.REVISÃO DA LITERATURA inatividade física, a incapacidade e a disfuncionalidade do idoso (Machado, 2008). 2.4.2.ENVELHECIMENTO PSICOLÓGICO E SOCIAL Segundo Schneider e Irigaray (2008), o ser humano pode ser considerado mais velho, dependendo de como ele se comporta, diante de uma posição que a sociedade espera para sua idade. O envelhecimento social promove mudanças de papéis sociais, que a sociedade espera de um idoso em seu comportamento. Para além da idade cronológica e da idade biológica (saúde ou doença dos diversos órgãos, capacidades de adaptação e de funcionalidade) definidas por Spirduso, et al. (2005), é importante considerar a idade psicológica (entusiasmo e expectativas positivas vs. depressão e desilusão). Se na análise do envelhecimento, o estudo biológico tem prevalecido, relativamente aos estudos psicológicos e sociais, o funcionamento humano não pode ser entendido pela sua redução à dimensão biológica (Ferreira, 2009). As três vertentes do envelhecimento humano, fisiológica, psicológica e social, interpenetram-se e devem ser sempre consideradas as suas interações. Conforme Mariz (2010), o processo de envelhecimento psíquico, é caracterizado por sintomas de diminuição das capacidades intelectuais e está em estreita relação, com as alterações biológicas e sociais. Ao nível psicossocial, os idosos enfrentam problemas como solidão, ausência de objetivos de vida e de atividades ocupacionais. A diminuição das suas capacidades físicas, e consequente lentidão de execução, remete a pessoa idosa para um segundo plano quanto à vida social (Oliveira, 2008). Sob o ponto de vista social, a velhice significa uma desorganização, uma perda de relação social significativa, com a inerente perda da importância e do reconhecimento social. A velhice aparece como redutora da sociabilidade, do esvaziamento do reconhecimento familiar e extra familiar, da solidão minimizadora do eu, enquanto ser social (Mota, 1989; Santiago, 2006). Esta etapa da vida está muitas vezes associada a uma enorme quantidade de perdas sucessivas (saúde, aptidão física, morte de familiares, 18 2.REVISÃO DA LITERATURA profissão), que afetam o amor próprio e a dignidade pessoal, propiciando a deterioração da saúde mental (Rocha, 2009). Vivemos numa sociedade, que pressiona o sujeito para ser cada vez mais produtivo, mas por outro lado, a mesma sociedade não prepara o indivíduo para quando essa etapa da produtividade termina, tendo o mesmo, a necessidade de se adaptar a uma nova situação social, que deveria ser de gozo e de descanso. Daí, a importância de encontrar atividades, que levam os idosos a sair do seu isolamento e os obriguem a contactar o mundo exterior, relacionando-se com outras pessoas e encontrando novos papéis na sociedade. Entre outras, a AF e em particular os programas de EF, parecem aqui desempenhar um papel de relevo (Souza, 2010). 2.4.3.ENVELHECIMENTO E EXERCÍCIO FÍSICO Refletindo sobre o acima exposto, importa saber como homens e mulheres, envelhecem. Com efeito, ao aumento da esperança média de vida, coloca-se uma questão decisiva, que é a de se saber como se pode adicionar mais qualidade aos anos de vida. É muito importante que a qualidade do tempo de vida que se perspectiva a mais, seja a melhor possível (Melo, 2010). As mudanças psíquicas e sociais que acompanham o processo de envelhecimento têm como uma de suas bases as alterações que se operam no nível biofísico. Qualquer iniciativa que melhore a expectativa de vida, o bem estar e a capacidade funcional na vida adulta depende muito da melhora das bases físicas adquiridas, evidenciando as implicações dos aspectos biológicos sobre a saúde mental das pessoas idosas (Balbinot, 2012). É importante percebermos que as transformações induzidas pelo envelhecimento são inevitáveis, mas podem ser retardadas pelo modus ativo. Torna-se assim necessário relacionar a AF com a saúde, dadas as repercussões que o estilo de vida sedentário, próprio das sociedades modernas, e em particular dos escalões etários mais velhos, tem na saúde das populações (Spirduso et al., 2005). Deste modo, realça-se novamente a importância dos planos e medidas de promoção da QV dos mais velhos. Mantê-los independentes e autônomos, 19 2.REVISÃO DA LITERATURA numa fase da vida em que o tempo dedicado ao trabalho já passou, é fundamental para que permaneçam em boas condições físicas e psicológicas, condições estas, para as quais a sociedade nem sempre os prepara. Prevenir a dependência e promover uma velhice ativa e saudável, parece ser o tema central do debate e da discussão em torno da problemática da longevidade conquistada. Com efeito, os idosos de hoje vivem mais tempo, mas é premente que vivam em qualidade e integrados na sociedade e na família (Melo, 2010). É descrito por Balbinot (2012), que o EF bem dosado e cuidadosamente escolhido, de acordo com as especificidades e condições individuais, é a melhor ferramenta contra o envelhecimento precose. Esta afirmativa, só vem corroborar às várias pesquisas que têm demonstrado os efeitos positivos do EF regular sobre a saúde física e mental (Bauer & Egeler, 1989; Acosta, 2002; Benedetti, Borges, Petroski & Gonçalves, 2008). Balbinot (2012), menciona, ainda, que a questão fundamental na QV do idoso refere-se ao isolamento social, e que pesquisas realizadas com essa população, apresentam o contato interpessoal e grupal como grande fonte de satisfação. Dessa forma, o exercício físico torna-se grande aliado nesse processo de criação de vínculos sociais, em razão da forma de trabalho utilizada, tendo atualmente como proposta para esta população, atividades em grandes grupos. Benedetti, et al. (2008), afirmam que há uma diminuição do nível de prática de EF regular relacionado ao aumento da idade, sendo encontrado na literatura, um porcentual de sedentarismo de 93,5% entre idosos no âmbito do trabalho. Essa diminuição é decorrente de uma tendência natural da humanidade, além de ser um fenômeno, que está intimamente ligado à motivação do sujeito e acontece por inúmeros motivos (Balbinot, 2012). Ao analisar o processo de direção de um motivo, Tresca e De Rose Júnior (2000) ressaltam que a motivação é um termo com significado amplo, que inclui necessidades, impulsos, desejos, interesses, propósitos, atitudes e aspirações de um indivíduo. Portanto, o motivo é um fator interno, que aciona o comportamento da pessoa em determinada situação ou circunstância. 20 2.REVISÃO DA LITERATURA O EF nos idosos confina vários benefícios a nível físico, fisiológico, social e psicológico e vizam fundamentalmente, dotar o idoso de um estilo de vida mais ativo como uma QV superior. O objetivo do EF é desenvolver estratégias que promovam a independência do idoso, na realização das suas tarefas diárias. Não são relevantes a técnica e o perfeccionismo, mas sim, o desenvolvimento e aperfeiçoamento do gesto utilitário, indispensável para a realização das tarefas diárias. O EF para este escalão focaliza-se na prevenção, manutenção e reabilitação com envolvimento lúdico (Mariz, 2010). A prática de EF para aumento da QV, só deverá ser realizada num enquadramento integrante do sujeito (Carvalho, 2006). Assim, um programa de EF para o idoso deve estar perspectivado para quebrar o ciclo vicioso do envelhecimento, incrementando a sua condição física e funcional e diminuir os efeitos do sedentarismo (Mariz, 2010). Nesta pespectiva, podemos descrever os seguintes benefícios do EF (Mariz, 2010). a) Benefícios físicos e fisiológicos: Aperfeiçoamento do gesto “utilitário” indispensável para a realização das tarefas da vida diária; aumento da aptidão física através do desenvolvimento das capacidades físicas de força, resistência, flexibilidade, coordenação e equilíbrio; diminuição do risco de patologias mais frequentes, como as do aparelho locomotor e cardiovascular; controle do peso, aumentando o metabolismo e alterando o estilo de vida com a prática de hábitos saudáveis. Ainda numa pespectiva psico-sicial, são descritos os seguintes (Geis, 2003; Spirduso et al., 2005). a) Benefícios psicológicos e sociais: Ocupação dos tempos livres de forma alegre e saudável; aumento da integração social, com convívio e inter-relação superando ou diminuindo a solidão e o isolamento; recuperação da consciência do seu corpo e da sua utilização com eficácia; aumento da autoimagem, autoestima e autoconceito; diminuição dos estados de ansiedade e depressão; Aumento do bem estar mental e emocional. 21 2.REVISÃO DA LITERATURA Esta prática diminui significativamente os custos médicos a curto e longo prazo, de tal modo que, a promoção do EF e AF se converteu num dos objetivos prioritários em matéria de saúde pública (Ribeiro, 2009). Nunca é demais salientar, que o EF deve ser realizado com cuidado e precauções específicas à capacidade física do praticante, do mesmo modo que as prescrições da intensidade e duração das atividades, devem ser totalmente adequadas às limitações em termos de e saúde apresentadas pelo indivíduo, pois somente assim, o processo de adaptação biológica poderá ser otimizado e os benefícios proporcionados pelo EF serão adquiridos satisfatoriamente (Texeira, 2005). 2.4.4.ENVELHECIMENTO FEMININO Conforme Bocalini, Santos e Miranda (2007), o envelhecimento conduz a uma perda progressiva das aptidões funcionais do organismo, situação que é acentuada com o sedentarismo. Tais alterações acabam por limitar a capacidade funcional da mulher idosa, em realizar suas atividades habituais do dia a dia como limpar, cuidar da casa e de si mesma. Sendo o sedentarismo uma das principais causas para as doenças crônicas degenerativas, como problemas cardiovasculares, diabetes, hipertesão, osteoporose, acidente vascular cerebral, dentros outros, a prática de EF além de combatê-los, contribui de maneira significativa para a manutenção da aptidão física funcional da idosa, fazendo com que ela tenha uma melhora no funcionamento geral do seu corpo. O ACSM registra que, para indivíduos idosos, um bom programa de exercícios de flexibilidade, de resistência aeróbia e exercícios de força devem ser enfatizados para a manutenção da massa muscular, isso resulta em avanços na saúde física da mulher idosa, deixando-a mais disposta, com um corpo mais saudável melhorando sua QV e sua autoestima (Bocalini et al., 2007). De acordo com Lima e Bueno (2009), o envelhecer da mulher é também influenciado por fatores sociais. Anteriormente, envelhecer para a mulher significava desempenhar intensamente o papel de avó, mas, atualmente para algumas traz o desejo de realizar os sonhos e vontades postergadas. Estes 22 2.REVISÃO DA LITERATURA autores, também afirmam que as idosas mais jovens, com idade entre 60 e 64 anos, morrem geralmente de problemas isquêmicos do coração, seguidos de doenças cerebrovasculares, o que pode ser evitado com a prática de exercícios físicos. No processo de envelhecimento, a mulher passa por um período transicional, polêmico e crítico, o climatério (do grego Klimaktér). É o período compreendido entre a fase reprodutiva e a não-reprodutiva da vida da mulher, que ocorre geralmente entre 37 e 65 anos, quando os ovários têm sua produção estrogênica reduzida e insuficiente, para garantir a reprodução e a manutenção, das características funcionais dos órgãos sexuais femininos. Com o declínio dos níveis de estrógenos, podem ocorrer alterações físicas hormonais, metabólicas, somáticas, psíquicas e sociais, que se manifestam ou não, por sinais e sintomas que caracterizam a síndrome climatérica (Gonçalves & Merighi, 2007). A síndrome climatérica relaciona-se aos sintomas que a mulher sofre mediante a falência do ovário, sendo caracterizada por calores intermitentes e em ondas, chamados fogachos; irritabilidade; aumento da sensibilidade emocional; alterações no sono. Paralelamente, a pele se torna progressivamente ressequida e quebradiça; a vagina fica menos lubrificada e a mulher pode vir a ficar com humor deprimido. Quando tais sintomas são manifestados em idade inferior a 40 anos, a falência ovariana é considerada pré madura. Quando sua manifestação se dá abaixo dos 35 anos de idade, torna-se necessário fazer uma investigação criteriosa (Freitas & Miranda, 2006). Na idade avançada, a mulher se sente desvalorizada, pois a juventude é muito focada pela sociedade atual, a menopausa influencia muito nas condições físico-psíquicas, tornando as idosas muito mais fragilizadas quanto ao envelhecimento do seu próprio corpo. Neste caso a AF, bem como a dança, ajuda as mulheres na superação dessas dificuldades, trazendo-as para o envolvimento com outras pessoas da mesma idade, com as mesmas dificuldades e experiências (Lima & Bueno, 2009). 23 2.REVISÃO DA LITERATURA 2.5.IMAGEM CORPORAL De acordo com Paim & Kruel (2012), o corpo é compreendido de diferentes maneiras, dependendo do campo epistemológico de investigação. Na história, por exemplo, a época e o lugar onde os entendimentos sobre o corpo se produzem vão delinear diferentes compreensões. Nesse caso, a cultura demarca e distingue as diferentes concepções de corpo. O corpo em si, como uma essência natural, não se sustenta. É a cultura e a linguagem que lhe atribuem diferentes sentidos, pois são investigadas de um poder regulador que localiza o corpo dentro de limitações, autorizações, obrigações e modelos. Isso vai além da sua condição fisiológica. Após estas abordagens, Balestra (2002), tendo como referencia Paul Schilder que em 1935, ao publicar a Imagem do Corpo – Energias Construtivas da Psique, demonstra uma visão avançada para aquele momento histórico. Seu estudo sobre a imagem que cada um tem de si próprio, procura compreender a articulação da realidade biológica, libidinal e sociológica. Relaciona o modelo postural sem a rigidez definida pelos neurologistas, dando à vida efetiva uma importância até então nunca vista. É possível incorporar à nossa imagem corporal parte do corpo de outras pessoas, podendo alterar completamente a sua percepção, copiando a “imagem dos outros”, identificando com eles, induzindo-nos a uma atitude particular a respeito de certas partes deste corpo. Para Balestra (2002), imagem corporal é o retrato de nosso corpo formado em nossa mente. Esse retrato seria elaborado através das sensações que são dadas para nós, ou seja, da maneira que vemos o nosso corpo, através das sensações táteis, das impressões olfativas e de dor, das sensações térmicas, das inervações, dos músculos e das vísceras. O esquema corporal é uma imagem tridimensional que temos de nós mesmos e incluem, na elaboração da imagem corporal, elementos conscientes e incoscientes, sofrendo influências dos desejos, das atitudes emocionais e das interações com os outros e com o meio. A imagem corporal segundo (Balestra, 2002), tendo como referencia Paul Schilder no seu livro, Imagem do Corpo – Energias Construtivas da 24 2.REVISÃO DA LITERATURA Psique é constituída por três estruturas que se inter-relacionam continuamente: a fisiológica, a libidinal e a sociológica. A estrutura fisiológica seria a responsável pelas organizações anatomofisiológicas, que dispõem o arcabouço ósseo, muscular, nervoso e hormonal em suas inter-relações particulares a cada indivíduo. Incluem-se nesta estrutura, as contribuições geneticamente herdadas e as modificações sofridas pelas funções somáticas, durante fases anteriores da vida do sujeito. A estrutura libidinal é considerada como o conjunto das experiências emocionais, vivenciadas nos relacionamentos, desde a gestação. Aqui, o conceito de libido refere-se à quantidade de energia investida em determinado órgão, ou função e liga-se indiretamente com o grau de satisfação que o indivíduo tem consigo mesmo. E a estrutura sociológica, derivando-se parcialmente dos intercâmbios pessoais, a imagem corporal está formada também à base da aprendizagem dos valores culturais e sociais. Esta estrutura aborda especialmente, os motivos pelos quais as pessoas de um grupo tendem a valorizar certas áreas ou funções, o papel das vestes e dos adornos na comunicação social, assim como do olhar e dos gestos. Segundo Balestra (2002), não é só a questão patológica que tem pertinência à imagem corporal, mas também todos os eventos da vida. A postura corporal está diretamente relacionada à imagem corporal e, está em constante transformação. Uma observação final é que sempre temos uma forte tendência em observar nosso próprio corpo, tanto quanto o corpo dos outros, e que, além de observar, existe o desejo de conhecê-lo através do tato, da tendência dos gostarmos de sermos vistos pelas outras pessoas, confirmando mais uma vez a imagem corporal um fenômeno social. 2.5.1.IMAGEM CORPORAL DO IDOSO Envelhecer implica alterações físicas e psiciológicas. O aumento da idade cronológica traz alteradções nas dimensões corporais. As variáveis propioceptivas sofrem modificações: idosos apresentam diminuição de sensibilidade, alteranção na coordenação motora, têm um maior tempo de 25 2.REVISÃO DA LITERATURA resposta dos músuculos efetores, perda de equilíbrio e menor destreza nos movimentos, (Fonseca, Gama, Thurm, Pereira, Limongelli & Miranda, 2012). A percepção das dimensões corporais nessa idade está relacionada com a integridade do sistema nervoso e do esquema corporal. Este é um aspecto neurológico, que representa as relações espaciais desse indivíduo, entre as partes do corpo percebidas cinestésica e proprioceptivamente. Caracteriza-se por uma interação neuromotora, que permite perceber o próprio corpo no espaço e desenvolver as ações de forma adequada (Barros, 2005; Medina & Coslett, 2010). O desgate natural do organismo, característico do idoso, provoca perda na multiplicidade do sistema sensorial e altera o processo de fornecimento de informações sobre a percepção corporal (Benvenuto, 2010). O envelhecimento traz também impactos emocionais e uma interpretação distorcida dos parâmetros corporais (Guerra & Caldas, 2010). O insucesso na tentativa de reverter as mudanças característica do envelhecimento, a não aceitação do processo de declínio e a exigência social por um ideal físico difícil de ser alcançado, geram insatisfação com a aparência. Assim, estudar formas de minimizar a intensidade das alterações fisiológicas e o desenvolvimento de mecanismos, que melhorem a satisfação e adaptação do idoso a sua condição e a criação de estratégias que promovam qualidade no envelhecimento é imprescindível (Varejão, Dantas & Matsudo, 2007; Matsudo & Matsudo, 2000). Alguns estudos que relacionam, a satisfação corporal com a idade feitos por Halliwell e Dittmar (2003) entrevistando 42 mulheres e homens (22 – 62 anos), com o objetivo de compreender a relação que tinham com seus corpos, principalmente quanto às atitudes frente às mudanças com o envelhecimento. Os resultados revelaram que os homens tendem a focalizar a funcionalidade e as mulheres a aparência. Estes achados podem auxiliar na compreensão da insatisfação com o corpo, nas mulheres durante a velhice, visto que, estas encaram o envelhecimento negativamente devido o seu impacto na aparência. Além disso, a imagem corporal possui uma característica dinâmica e mutável, pois retrata o corpo, uma entidade em constantes transformações, 26 2.REVISÃO DA LITERATURA podendo ser reconstruída a partir de novas sensações que se somam às antigas. O que pode acontecer é que no decorrer dessas fases de mudanças, se o indivíduo idoso sofrer influência, seja de doenças e declínios físicos comuns da velhice, seja pelos estereótipos sociais, a sua imagem corporal altera-se durante a reconstrução (Balestra, 2002; Monteiro, 2003; Tavares, 2003). Um outro fator que pode exercer nessa reconstrução é a mídia. Estudos, como o de Bedford e Johnson (2006) e Forman e Davis (2005), demonstraram forte relação entre a mídia e a insatisfação com a imagem que se tem do corpo. A imagem corporal é a maneira pela qual o corpo se apresenta para cada um, sendo, portanto, a representação mental que possuímos do nosso corpo. A percepção que temos do nosso corpo é influenciada pelos conceitos e valores da sociedade, e estrutura-se também através do contato social. Apesar de construirmos essa imagem, a partir de sensações, somos influenciados pelo que a sociedade pensa e idealiza sobre o nosso corpo (Matsudo et al., 2007). Com o envelhecimento, diversas modificações ocorrem no organismo, tanto no aspecto fisiológico, quanto no psicológico e social, que variam de indivíduo para indivíduo, podendo afetar, entre outros, a autoimagem dos idosos. Nesse sentido, Balestra (2002), mostra que as pessoas, por motivos diversos, não conseguem conviver com essas mudanças, não se adaptando a elas, acabam limitando suas possibilidades de comunicação e expressão na tentativa de uma melhor convivência social e/ou familiar, o que pode levar a algum tipo de alteração na forma como veem e sentem o seu corpo, ou seja, na sua imagem corporal. Complementando, Chaim, Izzo e Serra (2009), apontam que muitos idosos rejeitam o próprio envelhecimento em virtude da imagem que fazem de si mesmos, desenvolvendo sentimentos de autodesvalorização e de baixa autoestima. Balestra (2002), relaciona a AF às melhoras na percepção da imagem corporal em idosos, identificando-a como uma importante aliada para melhor compreensão por parte dos idosos sobre suas individualidades fisiológicas, psicológicas e sociais. Federici (2004), em um estudo similar verificou além de 27 2.REVISÃO DA LITERATURA uma melhor percepção do envelhecimento, modificações positivas na imagem corporal de idosos após frequentarem um programa de AF. 2.6.AUTOESTIMA Nos últimos anos, o domínio da autoestima tem sido objeto de variados estudos, devido à sua influência determinante no desenvolvimento psicológico do indivíduo. Rosenberg (1979), refere-se à autoestima como sendo a avaliação que o indivíduo faz a respeito do seu próprio valor. Para ele, a autoestima divide-se em três componentes: o “Eu existente”, que é a forma como cada pessoa se visualiza a si própria; o “Eu desejado”, que é a maneira como a pessoa gostaria de ser; e o “Eu revelado”, que corresponde à maneira como o indivíduo se tenta mostrar ou dar a conhecer aos outros. Em 1986, o autor refere duas formas de interpretação da autoestima: a maneira como as pessoas se vêem quando olham para si próprias e a maneira como se descrevem nas suas várias dimensões. Carvalho e Forti (2008), referem-se à autoestima como o respeito e a apreciação que os indivíduos fazem deles mesmos, ou com a dimensão dos sentimentos positivos acerca deles próprios. A autoestima é claramente um constructo multidimensional, dado que inclui a visão que os indivíduos fazem deles mesmos em todas as dimensões da sua vida, sejam elas psicológica, social, fisiológica ou física. Vieira (2010), entende que a autoestima é um processo de decisão em que o indivíduo avalia as suas realizações, capacidades e atributos, de acordo com os valores e padrões pessoais, expressando-se em atitudes de aprovação ou desaprovação em relação a si próprio. Nesta perspectiva, os indivíduos não valorizam as suas ações ou atributos todos da mesma maneira, focando a sua atenção nos dominios onde têm aspirações de ser bem sucedidos. Assim, parece-nos que a autoestima depende da valorização que cada um faz das suas competências. Um indivíduo terá uma autoestima elevada se for bem sucedido nos domínios onde tem aspirações. Se o sujeito não for bem sucedido onde queria ser competente, surgirão consequências negativas, levando-o a uma autoestima baixa. 28 2.REVISÃO DA LITERATURA A autoestima sofre também influencia das informações que se obtêm de experiências atuais, comparações com um modelo, persuasão verbal dos outros e pelo seu próprio estado psicológico. Portanto, o indivíduo que se sente com capacidades e encare com naturalidade as mudanças que vão ocorrendo na vida, poderá manter os seus níveis de autoestima, independentemente da idade e das alterações fisiológicas (Freitas, 2008). Freitas (2008), cita que Abrantes, em pesquisa realizada no ano de 1998, investigou a variabilidade da satisfação com a imagem corporal e expressão da autoestima em adultos entre os 45 e os 65 anos de idade e observou, entre outros resultados, que apenas no sexo feminino a prática de AF surgiu associada à satisfação com a imagem corporal. De resto, não foi observada qualquer associação entre a prática de AF e a autoestima global. Estudos, do mesmo pesquisador, em 1998 documentaram a manutenção, ou aumento dos níveis de autoestima na entrada da idade adulta. No entanto, outras pesquisas revelaram uma associação negativa entre autoestima e idade, com perda de noção do valor de si próprio, pelo surgimento de mudanças importantes na vida (e.g., Shieman & Campbell, 2001). 2.6.1.AUTOESTIMA DO IDOSO A Gerontologia entende que o envelhecimento não significa uma decadência, e sim uma seqüência da vida, com suas peculiaridades e características. Ora, sabemos que a fonte da juventude é uma utopia e, certamente, as pessoas que perseguem tal ideal sofrem de muitas angústias, pois se recusam a encarar a realidade – afinal, ninguém é tão velho que não acredite poder viver ao menos mais algum tempo. Deve-se pensar, portanto, em envelhecer com qualidade, evitando, assim, as contínuas mortes de direitos e deveres do cotidiano. E, principalmente, o olhar do outro que aponta nosso envelhecimento. É comum reconhecermos o envelhecimento, pois ele se anuncia em termos de estética (Almeida & Lourenço, 2007) Nesse contexto, permeado pela ênfase contemporânea na beleza, juventude e produtividade, na qual o significado social de “ser velho” assume estereótipos negativos, há uma tendência de negar essa fase da vida, como se ela não correspondesse a uma fase do desenvolvimento humano. Com isto, 29 2.REVISÃO DA LITERATURA muitas vezes, os próprios idosos não se reconhecem como tal e falam da categoria “velho” como se não fizessem parte da mesma (Almeida & Cunha, 2003; Jones, 2006; Schneider et al., 2008). Com o avançar da idade, o processo de envelhecimento passa a ser mais acelerado, provocando alterações nas funções fisiológicas, psicológicas e sociais, modificando assim o comportamento em ritmo de vida, que pode comprometer a saúde, o bem estar emocional e social, e ainda possíveis alterações na autoestima do idoso (Cheik et al., 2003; Brandão & Brandão 2006; Papaléo & Netto, 2006). Para Mazo, Cardoso & Aguiar (2006) e Luz & Amatyzzu (2008), a autoestima em idosos, está relacionada a alguns aspectos do seu cotidiano (como o convívio social e familiar, morbidade, problemas de saúde física ou mental), e que segundo Rabelo e Neri (2005), estes eventos da vida podem ser estressantes por causarem no indivíduo fortes ajustamentos, impactando sobre a sua saúde e bem estar. A autoestima, considerada como um aspecto central da saúde e do bem estar psicológico, interfere no comportamento dos idosos em relação à saúde (Krug, Marchesan, Conceição, Mazo, Antunes, & Romitti, 2011). A idéia de uma saúde positiva está associada a um grau de percepção que o idoso tem da sua condição física, sendo que a ausência de doença não é garantia de uma boa saúde (Mazo, 2008). Alguns autores (Hasse, 2000; Safons, 2000; Matsudo, 2002; Benedetti et al., 2003; Mazo et al., 2006), relacionam os benefícios sociais, psicológicos e físicos da AF para os indivíduos idosos, que resultam numa melhor autoestima. Mosquera e Stobäus (2006), descrevem que o ser humano é dependente do seu corpo, de suas habilidades e capacidades, as quais devem estar em harmonia com relação ao eu. Assim, a AF constitui-se como uma forma de envelhecer saudável e ativa para os idosos, afim de que possam ter autonomia, independência, condições de saúde positivas, com gradativa melhora da autoestima e autoimagem. 30 3.METODOLOGIA 3 METODOLOGIA PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro 31 3.METODOLOGIA 3.METODOLOGIA 3.1.CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO Este estudo se caracterizou como uma pesquisa tipo descritivo de dados qualitativos, geralmente denominada análise de conteúdo, que segundo Minayo (2001, p.14), a pesquisa qualitativa, “trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e nos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis”. Este método procura se afastar da ilusão da transparência dos fatos sociais, pretende compreender para além dos significados imediatos. De forma geral, esta técnica permite a ultrapassagem da incerteza (rigor) e o enriquecimento da leitura, mediante uma leitura atenta, que possibilite o esclarecimento de elementos de significações susceptíveis de conduzir a uma descrição de mecanismos de que, a priori, não detínhamos a compreensão (Bardin, 2010). 3.2.CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA Cabe, em primeiro lugar, resgatar de Gaskell (2002), a noção de que: [...] não existe um método para selecinar os entrevistados das investigações qualitativas. Aqui, devido ao fato de o número de entrevistados ser necessariamente pequeno, o pesquisador deve usar sua imaginação social científica para montar a seleção dos respondentes. [...] sejam quais forem os critérios para seleção dos entrevistados, os procedimentos e as escolhas devem ser detalhados e justificados [...] (Gaskell, 2002, p.70). Neste estudo, a amostra foi composta de 23 idosas selecionadas aleatoriamente, com idades entre 60 anos a 91 anos, sendo um grupo, praticantes de hidroginástica, tendo como média de idade 68,6 anos. Para fazer parte da amostra deste estudo, as idosas tiveram que atender a alguns critérios de inclusão: a) ser voluntária; b) ter idade igual ou superior a 60 anos; c) ter uma frequência assídua nas aulas de hidroginástica; d) praticar hidroginástica a pelo menos seis meses e como critério de exclusão foram 32 3.METODOLOGIA adotados: a) retirar o seu consentimento em qualquer fase da pesquisa; b) não assinatura do termo de consentimento livre esclarecido; c) pessoas com deficiências visual e auditiva. Além disso, todas foram instruídas sobre o procedimento e objetivos do estudo, e em seguida assinaram um Termo de Consentimento Livre Esclarecido (Anexo - 1) para sua participação, conforme modelo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) [ Anexo - 2]. 3.3.DELINEAMENTO DA PESQUISA No delineamento metodológico, participaram idosas praticantes de hidroginástica, matriculadas em uma academia de ginática da zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, há mais de seis meses, com três sessões de aulas semanais, com duração de 50 minutos. As aulas eram ministradas sempre pela manhã, em uma piscina térmica medindo 16,0m x 8,0m, com barras de apoio ao redor das paredes das bordas e tendo como acesso escadas postadas na parede, água bem tratada, com variação da temperatura entre 27°C e 29°C e profundidade crescente entre 1,10m e 1,20m (sem declínios bruscos). As aulas eram musicalizadas e envolviam basicamente atividades aeróbicas, localizadas, alongamentos, relaxamentos, atividades lúdicas entre outras sem e com uso de aparelhos como bolas e pesos de plásticos, pranchas, espaguetes, halter, caneleiras, flutuadores. A escolha do número de entrevistadas não obedeceu a nenhum critério específico. A nossa única preocupação foi a de realizar um número de entrevistas que fosse minimamente representativo para a nossa pesquisa. Resta-nos ainda referir que a escolha da academia foi, também, aleatória. A única obrigatoriedade que impusemos prendeu-se ao fato dela oferecer a atividade física alvo do nosso estudo, dentro da faixa etária por nós préestabelecida e estar situada na zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. 33 3.METODOLOGIA 3.4.INSTRUMENTO E MATERIAIS DE RECOLHA DE DADOS Embasando-se no tipo de informações que pretendíamos obter no âmbito deste estudo, tivemos como instrumento mais adequado a entrevista individual, cujo principal objetivo é a obtenção de informações do entrevistado, acerca de determinado problema ou assunto. “O processo de condução da investigação qualitativa reflete uma espécie de diálogo entre os investigadores e os respectivos sujeitos, dados estes não serem abordados de forma neutra” (Bogdan & Biklen, 2010, p.51). Para a recolha das informações foram utilizados: um gravador da marca Olympus modelo Digital Voice Recorder VN120 PC no que permite maior qualidade das falas das entrevistadas, bloco de papel, prancheta, caneta e Laptop com o programa Windows 7 ano 2010. Neste sentido, foi aplicada a entrevista semi-estruturada, através de um roteiro de questões pré-elaboradas (anexo - 2), permitindo adaptações, que possibilitam riqueza de informações referentes ao estudo. 3.5.FASES DE PESQUISA 3.5.1.CONTATO INICIAL O contato inicial é muito importante, exigindo da pesquisadora muita segurança para poder obter os objetivos alcançados. Desde modo, inicialmente foi estabelecido contato com o coordenador da academia, mediante carta de apresentação, com a finalidade de explicar o objetivo do estudo e solicitar autorização para aplicação da entrevista. Em um segundo momento, foi realizado novo contato e apresentação a professora e estagiárias envolvidas. Feito isto, dando continuidade ao processo, fizemos contatos com as idosas que praticavam hidroginástica, explicando os objetivos do estudo e convidandoas a participarem voluntariamente como colaboradoras. 3.5.2.ESTUDO PRELIMINAR A etapa inicial com o campo de pesquisa é sempre muito importante, necessitando a pesquisadora ter muita habilidade, para que esta tenha sucesso na investigação, atingindo o seu objetivo. 34 3.METODOLOGIA Para Marconi e Lakatos (2007), depois de redigido o roteiro de entrevista, este precisa ser ensaiado antes da sua utilização definitiva, aplicando-se alguns exemplares numa pequena população escolhida, não participantes do estudo. Desta maneira, o estudo preliminar teve como objetivo, fazer com que a pesquisadora se familiarizasse, com os procedimentos e instrumentos de coleta de dados previstos para o estudo. Como afirma Bogdan e Biklen (2010), a realização do estudo preliminar é indispensável, antes de se iniciar em definitivo a coleta das informações, por ser fundamental o treinamento do entrevistador, garantindo que, por meio da estratégia adotada, possa coletar as informações que permitirão esclarecer o problema. Pode-se reformular ou ampliar algumas questões e procedimentos dos instrumentos de coleta de dados, e para isso, é importante que se realize o estudo com pessoas e locais, que tenham as mesmas características semelhantes daquelas do público alvo. Os resultados deste estudo permitem ao investigador fazer os ajustes necessários, para garantir um melhor aproveitamento e o sucesso da pesquisa. O local da entrevista é de suma importância, pois poderá alterar a qualidade das informações recebidas (Bogdan & Biklen, 2010). Conhecendo-se a necessidade do estudo preliminar, foi realizado com três idosas que participam de aula de hidroginástica na academia no horário da tarde. As entrevistas foram previamente agendadas e aplicadas em uma sala localizada na academia, na medida do possível silenciosa, agradável e manteve a privacidade da entrevistada evitando interferências externas. Após a leitura do Termo de Consentimento e Esclarecidos, os objetivos do estudo, foi solicitada a assinatura das colaboradoras, dando início às entrevistas com a utilização de um gravador. 3.5.3.PARECER DO ESTUDO PRELIMINAR A partir do estudo preliminar, foi possível analisar as questões referentes à aplicação da entrevista, não sendo necessárias modificações e adequações, visto que se teve um bom aproveitamento e familiarização com os procedimentos de coleta de dados. 35 3.METODOLOGIA 3.5.4.ESTUDO PRINCIPAL O estudo principal foi desenvolvido conforme o previsto no estudo preliminar, com mais 23 idosas que praticam aula de hidroginástica a mais de seis meses. 3.6.TAREFAS, PROCEDIMENTOS E PROTOCOLOS As entrevistas foram realizadas, pela autora deste projeto, através de abordagem direta com as voluntárias na própria academia, após obtenção do consentimento das mesmas, antes e após as aulas de hidroginástica no período compreendido entre 03 a 12 de dezembro de 2012, no período de 06:30 às 11:30 horas, de segunda a sábado. Foi garantido o anonimato de todas as participantes, a confidencialidade dos dados e, previamente foi pedida autorização as colaboradoras para que as entrevistas pudessem ser gravadas em áudio. A entrevista foi semi–estruturada, a partir de um roteiro, por ser a mais utilizada em pesquisa social (Quivy & Campenhoudt, 2005). Neste tipo de entrevista o discurso do entrevistador não é linear e nem todas as intervenções do entrevistador serão previstas com antecedência. Foram colocadas perguntas guia e não se fazendo necessário, seguir a ordem das mesmas no desenvolvimento do processo. (Quivy & Campenhoudt, 2005; Léssard-Hébert et. al., 2005). As entrevistas foram gravadas, pois como sugerem Quivy e Campenhoudt (2005), a gravação para posterior transcrição parece ser uma ajuda eficaz. Após a transcrição integral, as entrevistas foram analisadas. Vale ressaltar que, relativamente aos relatos recolhidos houve a preocupação de efetuarmos uma transcrição o mais fiel possível. Entretanto, em se tratando de entrevistas individuais, a presença de um gravador constituiu, por vezes, um fator de inibição para algumas das entrevistadas. Neste caso, vimo-nos de certa forma, a ser um pouco mais incitadoras da resposta que acabava por surgir mais entrecortada. Tentamos, na medida do possível, incutir um ambiente informal, iniciando o diálogo com assuntos que em nada se relacionavam com o estudo 36 3.METODOLOGIA objetivando ganhar a confiança da entrevistada, pois de acordo com Bogdam e Briklen (2010), é importante a relação existente entre entrevistado e o “entrevistador”, no sentido de que tudo possa correr com fluência e sem qualquer tipo de retrações. Numa primeira abordagem, tivemos a preocupação e o cuidado de colocar em prática alguns procedimentos para que tudo fluisse com a maior clareza possível. Então, num primeiro momento, pusemos a entrevistada a par do nosso estudo e dos objetivos da sua realização. Num segundo momento, como era a nossa intenção gravar as entrevistas, pedimos autorização para tal fato, salvaguardando desde logo que seríamos as únicas a ter acesso às gravações, bem como a transcrição das entrevistas seriam documentos anônimos. Portanto, a confidencialidade dos dados recolhidos foi salvaguardada. O tempo de duração foi muito variável de acordo com o tempo que cada idosa levava para se expressar e para expor suas idéias, pensamentos e opiniões a respeito das questões levantadas. No nosso estudo, as entrevistas foram aplicadas após marcação prévia com as idosas, algumas com a presença de suas acompanhantes e foram, como já referido, gravadas com o consentimento das entrevistadas, transcritas e digitadas. A sua transcrição tentou obedecer o máximo possível ao discurso oral e à gramática própria, constituindo-se dessa forma o corpus do nosso trabalho. 3.6.1.ÉTICA NA PESQUISA O presente trabalho atendeu às normas para a realização de pesquisa em seres humanos, resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde de 10/10/1996 (Brasil, 1996), foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética de Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro com o número 07142312.2.0000.5257, parecer número 151.483 ( Anexo - 2). Foi solicitada uma autorização à academia de hidroginástica, através de um termo de consentimento da ação envolvida na pesquisa, assim como a todas as voluntárias participantes da mesma. 37 3.METODOLOGIA Todos os objetivos e procedimentos do trabalho foram explicados às alunas individualmente que participariam de forma anônima e voluntária da pesquisa. No presente trabalho consta o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde – CNS. Todas as participantes do estudo assinaram o Termo de Participação Consentida contendo: objetivo do estudo, procedimentos de avaliação, possíveis consequências, procedimentos de emergência, caráter de voluntariedade da participação do sujeito e isenção de responsabilidade por parte do avaliador, e por parte da Instituição que abrigará o tratamento experimental (Anexo - 3). Além disso, foi também elaborado um Termo de Informação à Instituição na qual se realizou a pesquisa, com os mesmos ítens do termo de participação consentida (Anexo – 4). 3.6.2.LIMITAÇÕES DO ESTUDO As entrevistas, tal como todas as técnicas de recolha de dados, também possuem suas desvantagens. Das limitações destacamos: tempo despendido nas entrevistas; por receio de a identidade ser revelada a entrevistada retem dados importantes; dificuldade de expressão e comunicação de ambas as partes. 3.7.DESCRIÇÃO DA TÉCNICA DE ANÁLISE DE DADOS As informações recolhidas através de documentos (são disso exemplo as entrevistas) constituem-se como “fatos sociais” e não como simples textos, uma vez que se trata de representações, pelo que são complexas (Denzin & Lincoln, 2000). Porém, apesar da sua complexidade, através do discurso das entrevistadas, é possível inferir fatos, sendo necessário para tal, utilizar uma técnica de análise apropriada. Neste caso, a análise de conteúdo servirá para esse propósito. As razões que levaram à escolha desta técnica, para a concretização do nosso estudo prendem-se ao fato de facilitar as pesquisas em matéria do forum empírico, tendo como grande vantagem a de trabalhar em entrevistas abertas, em mensagens dos vários órgãos de comunicação escrita e verbal e ainda efetuar inferências, sobre as fontes e o material objeto de análise (Correia, 38 3.METODOLOGIA 2006). Ainda de acordo com o mesmo autor, a finalidade da análise de conteúdo será efetuar elos de ligação, numa lógica explicitada, entre as mensagens cujas características foram inventariadas e sistematizadas. É, portanto, uma técnica de tratamento de informação e não um método. Como define Bardin (2010, p. 38), é um conjunto de técnicas de investigação que, através de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tem por finalidade a interpretação destas mesmas comunicações. Para atingir mais precisamente os significados manifestos e latentes trazidos pelos sujeitos será utilizada a análise de conteúdo temática, pois segundo Minayo (2007), esta é a forma que melhor atende à investigação qualitativa do material referente à saúde, uma vez que a noção de tema referese a uma afirmação a respeito de determinado assunto. Segundo Bardin (2010), tema é a unidade de significação que naturalmente emerge de um texto analisado, respeitando os critérios relativos à teoria que serve de guia para esta leitura. Sendo assim a análise de conteúdo temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação cuja presença ou frequência signifiquem alguma coisa para o objetivo analítico visado (Bardin 2010; Minayo, 2007). Este método procura se afastar da ilusão da transparência dos fatos sociais, pretende compreender para além dos significados imediatos. De forma geral, esta técnica permite a ultrapassagem da incerteza (rigor) e o enriquecimento da leitura, mediante uma leitura atenta, que possibilite o esclarecimento de elementos de significações susceptíveis de conduzir a uma descrição de mecanismos de que, a priori, não detínhamos a compreensão (Bardin, 2010). Esta pesquisa tomou por base três pólos cronológicos indicados no estudo de Bardin (2010): (1) pré-análise; (2) exploração do material; (3) tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. 39 3.METODOLOGIA 3.7.1.A PRÉ-ANÁLISE É a fase de organização que tem por objetivo operacionalizar e sistematizar as idéias iniciais de maneira a conduzir a um esquema preciso de desenvolvimento da pesquisa (Bardin, 2010, p.121). Retomam-se as hipóteses e os objetivos iniciais da pesquisa, reformulando-os frente ao material coletado, e na elaboração de indicadores que orientem a interpretação final (Minayo, 2007). Esta fase se é composta de três etapas (Bardin, 2010; Minayo, 2007): leitura flutuante, constituição do corpus e reformulação de hipóteses e objetivos. c Leitura flutuante: consiste em tomar contato exaustivo como o material para conhecer seu conteúdo (Minayo, 2007). O termo flutuante é uma analogia a atitude do psicanalista, pois pouco a pouco a leitura se torna mais precisa, em função de hipóteses, e das teorias que sustentam o material. (Bardin, 2010). c Constituição do corpus: organização do material de forma que se possa responder a algumas normas de validade: exaustividade (todos os aspectos do roteiro devem ser contemplados, deve se esgotar a totalidade do texto); representatividade (que represente de forma fidedigna o universo estudado); homogeneidade (deve obedecer com precisão aos temas) e pertinência (os conteúdos devem ser adequados aos objetivos do trabalho (Bardin, 2010; Minayo, 2007). c Reformulação de hipóteses e objetivos: determinam-se a unidade de registro (palavra ou frase), a unidade de contexto (a delimitação do contexto de compreensão da unidade de registro), os recortes, a forma de categorização, a modalidade de codificação e os conceitos teóricos mais gerais que orientarão a análise (Minayo, 2007). 3.7.2.EXPLORAÇÃO DO MATERIAL Esta é a etapa mais longa e cansativa. É a realização das decisões tomadas na pré-análise. É o momento da codificação – em que os dados brutos são transformados de forma organizada e agregadas em unidades, as 40 3.METODOLOGIA quais permitem uma descrição das características pertinentes do conteúdo (Bardin, 2010, pp. 121-122). Esta fase consistiu essencialmente de operações de codificação e categorizarão, em função das regras previamente formuladas, na pré-análise. Correspondeu a uma transformação efetuada segundo regras precisas dos dados brutos do texto, transformação esta que, por recorte, agregação e enumeração, permitiu atingir uma representação do conteúdo, ou da sua expressão, susceptível de esclarecer o analista acerca das características do texto, que podem servir de índices (Bardin, 2010). Esse processo visa transformar os dados brutos do texto e deverá identificar as “unidades de registro” que são as unidades de base necessárias à categorização. As categorias a serem estabelecidas são como “pequenas gavetas”, permitindo melhor classificação, com base, obviamente, em critérios para a obtenção daquilo que se procura. Portanto, a análise categorial vai considerar o texto como um todo, apontando a freqüência ou ausência dos termos de sentido. O critério de categorização utilizado neste trabalho é o baseado na regra de recorte. No processo de codificação, quando houver qualquer ambigüidade ou dúvidas em relação às “unidades de registro”, recorre-se às “unidades de contexto” para fornecer maior clareza em relação ao significado ou contexto dessas unidades, podendo acarretar modificações expressivas nos resultados obtidos (Bardin, 2010). 3.7.3.TRATAMENTO DOS RESULTADOS, A INFERÊNCIA E INTERPRETAÇÃO Os resultados brutos, ou seja, as categorias que serão utilizadas como unidades de análise são submetidas a operações estatísticas simples ou complexas dependendo do caso, de maneira que permitam ressaltar as informações obtidas. Após isto são feitas inferências e as interpretações previstas no quadro teórico e/ou sugerindo outras possibilidades teóricas (Bardin, 2010; Minayo, 2007). Se a descrição (a enumeração das características do texto, resumida após tratamento) é a primeira etapa necessária e se a interpretação (a significação concedida a estas características) é a última fase, a inferência é o 41 3.METODOLOGIA procedimento intermediário, que vem permitir a passagem, explícita e controlada, de uma à outra (Bardin, 2010). Servindo-se da análise de conteúdo, o estudo posiciona-se numa abordagem exploratória, isto é, sem ter como guia um corpo de hipóteses, segue um percurso de descoberta ao longo do corpus, deixando que os documentos falem por si. Na função de comprovação parte-se de um corpo de hipóteses que servem de diretrizes e faz apelo aos procedimentos de análise para verificar, no sentido de uma confirmação ou não (Bardin, 2010). Na próxima parte, descreveremos como foram escolhidos e estruturados os indicadores, as unidades de registro e, por fim, as categorias de análise deste estudo. 3.8.A CODIFICAÇÃO A codificação é o processo através do qual os dados brutos são sistematicamente transformados em categorias e que permitem posteriormente a discussão precisa das características pertinentes do conteúdo. 3.8.1.UNIDADE DE REGISTRO A Unidade de Registro, é a unidade de significação a codificar e corresponde ao segmento de conteúdo a considerar como unidade de base, visando a categorização e a contagem frequencial. A unidade de registro pode ser de natureza e dimensões variáveis. Por exemplo: a nível lingüístico, podemos considerar como unidade de registro a “palavra” ou a “frase”; a nível semântico, o tema é a unidade de registro mais largamente utilizada. A unidade de registro que selecionamos para a análise é o tema, uma vez que este, é geralmente utilizado para estudar dentre outras coisas, atitudes, valores e tendências. Através da análise temática, podemos descobrir fragmentos de texto portadores de significação, podendo estes ser uma frase, um resumo, uma afirmação. 42 3.METODOLOGIA 3.8.2.UNIDADE DE CONTEXTO A Unidade de Contexto é a unidade de compreensão para codificar a unidade de registro e corresponde ao segmento da mensagem, cujas dimensões - superiores às da unidade de registro, são as melhores para que se possa compreender a significação exata da unidade de registro. Por exemplo: pode ser a frase para a palavra e o parágrafo para o tema. Desta forma, optamos por utilizar como unidade de contexto os documentos completos que queríamos analisar. 3.8.3.DEFININDO AS CATEGORIAS As categorias geram classes que reúnem um grupo de elementos da unidade de registro. As classes são batizadas a partir da correspondência entre a significação, a lógica do senso comum e a orientação teórica do pesquisador. A categorização compreende duas etapas. O inventário, onde se procede o isolamento dos elementos que têm significação e a classificação, que consiste em repartir os elementos e, portanto, impor uma certa organização à mensagem. Faz-se necessário assinalar, que o procedimento de repartição se pode ser feito através de dois processos inversos: a) o sistema de categorias é determinado a priori e em seguida, repartem-se da melhor forma possível os elementos de significação à medida que vão sendo encontrados no corpus; b) o sistema de categorias não é fornecido, resultando antes, da classificação progressiva e analógica dos elementos de significação. O título conceptual de cada categoria só é definido no final deste procedimento. Neste caso, o sistema é definido a posteriori. No nosso estudo, a categorização é feita a priori, sugeridas pelo referencial teórico e de acordo com os objetivos que sustentam este estudo, criamos um conjunto de categorias correspondentes a concepções particulares e tentamos detectar a sua presença nos documentos a analisar. Ao longo deste processo, respeitamos com o maior rigor possível os princípios que presidem à construção de um conjunto de categorias, a saber: 43 3.METODOLOGIA a) Exclusão mútua: cada elemento não pode existir em mais de uma categoria. b) Homogeneidade: o princípio anterior depende deste; numa mesma categoria só se pode funcionar com um registro e com uma dimensão de análise. c) Pertinência: uma categoria é pertinente quando está adaptada ao material de análise escolhido, e quando pertence ao quadro teórico definido. d) Objetividade e fidelidade: as variáveis tratadas devem estar claramente definidas, assim como devem ser definidos os índices que determinam a entrada de um elemento numa categoria. e) Produtividade: um conjunto de categorias é produtivo se fornece resultados férteis e índices de inferências e em dados exatos (Bardin, 2010). O sistema de categorias que definimos e nos serviram de base para a análise é o que se segue: Categoria A - Corpo Funcional: é um corpo autônomo e independente (Gomes, Rocha, & Carvalho 2010). Categoria B - Corpo Pessoal: corpo pensado e vivido em proveito de interesses pessoais, onde a AF privilegia a relação do indivíduo com ele próprio. Categoria C - Corpo Saúde: o corpo num contexto de bem estar e QV. Categoria D - Corpo Social: o corpo associado aos valores da sociedade atual. Relação com os outros e com o seu próprio corpo. Categoria E – Corpo Estético: o corpo associado à questão da estética que na sociedade contemporânea é por demais valorizado, independentemente da faixa etária. Dentro de cada categoria definimos subcategorias, que no conjunto definem o quadro de valores, atitudes e comportamentos que caracterizam cada concepção de corpo (Quadro n° 1). 44 3.METODOLOGIA Quadro 2 – Sistema categorial CATEGORIAS A SUB-CATEGORIAS R Aumento de independência e autonomia Corpo Funcional R Aumento da autoconfiança B Corpo Pessoal R Sentir-se bem R Satisfação / Gosto R Melhoria da aparência física C Corpo Saúde R Melhoria do condicionamento físico R Redução das limitações R Qualidade de vida D R Relação social Corpo Social R Aderência / Inferência familiar E Corpo Estético R Ideal estético R Preocupação com a imagem corporal R Satisfação com a imagem corporal 45 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro 46 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Como sugere a própria denominação deste capítulo, iremos fazer simultaneamente a apresentação e a discussão das falas das entrevistadas, organizando-as pelas categorias anteriormente apresentadas. Salientamos aqui o fato de ao longo da análise dos textos termos encontrado alguns aspectos que nos pareceram relevantes e pertinentes para o estudo dado serem altamente valorizados pelas entrevistadas. É ainda, o nosso pressuposto, a par da apresentação dos resultados, sua discussão e interpretação, fundamentar sempre que nos for possível, os textos com leitura relativa a cada ponto abordado. Com isto, pretendemos promover uma ponte entre o que as idosas dizem, a nossa análise e o que a literatura refere relativamente a cada um dos assuntos a tratar. Desta maneira, não nos esquecendo que estaremos analisando discursos, iremos apresentar e refletir sobre o que o material recolhido e estudado nos apresentou. Ao aproximarmo-nos das praticantes de hidroginástica para compreender o que fazem, como fazem e como justificam aquilo que fazem, a tentativa foi a de identificar o significado das práticas que realizam na academia. Para isso, foram necessárias, durante as entrevistas, não somente observações e anotações, mas um esforço intelectual para interpretar o que fazem e dizem. Essa interpretação foi feita procurando identificar o não dito. Partindo da elucidação dos grupos categoriais que serviram como norte para guiar nossas discussões, entendemos que no discurso das participantes tais categorias estão extremamente relacionadas como elementos diferenciáveis de uma mesma experiência. Em alguns momentos, esse tipo de classificação facilitou a discussão; já em outros, dificultou nossa busca por uma compreensão global dos significados da hidroginástica para as praticantes que respeitasse a interdependência entre os grupos categoriais e o contexto das falas. Foi possível perceber que havia uma posição ou valor diferenciado que era atribuído a cada categoria, relacionado talvez às experiências anteriores dos sujeitos da pesquisa, tempo de prática e idade. Antes de passarmos para a discussão dos resultados da pesquisa, pensamos que seja importante problematizar mesmo que de forma sintética alguns dados ou 47 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS características importantes que nos chamaram atenção e que talvez possam nos fornecer indicadores sobre o grupo pesquisado. No Quadro - 3, podemos observar o número de mulheres inscritas na Academia que serviu de fonte de pesquisa, bem como o número total de idosas, de idosas praticantes de hidroginástica e o número total de idosas entrevistadas. Quadro 3 – Clientes inscritas na Academia Alvo Academia Alvo Número Total Mulheres 672 Idosas 76 (100%) Idosas na Hidroginástica 41 (54%) Idosas Entrevistadas 23 (30%) Ao analisarmos estes dados, aos quais tivemos livre acesso, observamos que do número total de mulheres frequentadoras da academia, 76 são idosas. Deste total de idosas, verificamos que 54% pratica hidroginástica e pudemos entrevistar 30% deste percentual, ou seja, de 41 praticantes de hidroginástica, 23 foram entrevistadas pela pesquisadora. 48 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Tabela 1 – Atividades Físicas e Tempo de Prática Cliente Idade Tempo de Hidro (anos) Atividade 1 68 Caminhada 2 75 Nenhuma 3 70 Nenhuma 4 68 Nenhuma Musculação/Ginástica 6 73 Musculação/Ginástica 7 60 Nenhuma 8 64 Caminhada Nenhuma 3 65 11 61 12 71 Nenhuma 9 Natação 20 Caminhada 4 64 Caminhada 14 70 15 68 16 79 Caminhada 1 3 Yoga / Caminhada 10 Hidroginástica 15 17 84 Nenhuma 18 68 Raramente / Caminhada 19 62 Caminhada 20 60 62 4 13 65 4 mais de 20 10 23 5 91 22 7 9 65 1 60 15 10 13 4 Caminhada / Pilates Não sabe Caminhada 3 Nenhuma Natação/Hidroginástica 10 5 21 2,5 22 Um outro dado muito curioso que pudemos observar (Tabela 1), foi o fato de ao iniciarmos as entrevistas, algumas praticantes de hidroginástica afirmaram não praticar nenhuma AF antes de iniciarem a hidroginástica. Ao longo da entrevista, diziam que somente faziam caminhada e os trabalhos domésticos, o que nos remete ao fato de as mesmas não considerarem a “caminhada” e as AF domésticas, tais como: subir e descer escadas, varrer e limpar a casa, como uma AF. “Não. Só caminhava”. [Ent. 19] “Atividade física não … eu sou dona de casa, aquele serviço sobe escada, desce escada, limpa pia, limpa ali, né?…hummmmm, lava roupa, passa roupa”. [Ent. 2] 49 passa pano, 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS “Não… só caminhava, assim uma vez ou outra”. [Ent. 18] A AF é definida como qualquer movimento corporal produzido pela contração do músculo esquelético, aumentando consideravelmente o gasto energético. A AF dos tempos livres abrange as atividades correspondentes, baseadas nos interesses e necessidades pessoais. Podem incluir programas formais de exercício e também o caminhar, jardinar, fazer desportos, dança, etc.. O EF é uma subcategoria da AF que é planejada, estruturada e na qual são efetuados movimentos corporais com o intuito de melhorar ou manter uma ou mais componentes da aptidão física (Howley, 2001). No discurso das entrevistadas supracitado, podemos percerber a falta de esclarecimento quanto ao que é considerado AF e EF. “Sim, a rata ioga que não deixa de ser uma atividade física, né? Corpo e mente, né? E … e o resto é só caminhadas, caminhadas … livres, né?” [Ent. 14] Isto nos remete a pensar no desconhecimento das idosas no que é preconizado por Silva et al. (2011), quando ponderam que qualquer forma de EF proporciona benefícios psicológicos, de autoestima e de melhoria do relacionamento social, pois em geral, as pessoas que praticam AF tendem a ser menos deprimidas do que as que não praticam. Passaremos a seguir a apresentar o que o material estudado nos revelou, e com ele tentar refletir, não perdendo jamais de vista que nós estamos centrando-nos apenas ao nível do discurso, com todas as implicações que anteriormente apontamos para o significado dos discursos. 4.1.CATEGORIA A – CORPO FUNCIONAL Para Paula (2010), a capacidade funcional está relacionada com a medida do grau de preservação da capacidade do indivíduo para realizar as AVDs e do grau de capacidade para desempenhar as AIVDs. As alterações que advêm do processo de envelhecimento são em grande número, o qual evidencia: antropométricas, músculo esquelético, neuromuscular, cardiovasculares, cardiorespiratórias, neurológicas, capacidade motoras, força muscular, além da diminuição da agilidade, coordenação, 50 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS equilíbrio, flexibilidade, mobilidade articular com aumento da rigidez de cartilagens, tendões e ligamentos. Enfatizando que essas mudanças, associadas ao baixo nível de AF, propiciam a diminuição da capacidade funcional do idoso (Souza, 2010). Essas premissas são observadas nos relatos a seguir. “Cada dia mais... lentozinho, né?... as perninhas já tão querendo... eu tô querendo ir prá frente, elas tão querendo ir prá trás, mas eu vou andando.” [Ent. 17] “Eu pretendo melhorar essas... esses problemas de joelho (apontando para os joelhos), a minha.... performance prá caminhar, melhorar que gostaria muito tá caminhando, num tô por causa do joelho, aí eu tô procurando vê se com a ginástica... a hidroginástica se isso... vai... me levar mais adiante. É... me levar um pouco mais adiante, eu adoro caminhar também... só num tô caminhando porque... porque.... eu tô sentindo um pouco quando posso caminhar, entendeu?” [Ent. 05] “Isto que tô te dizendo: “melhorar sempre o corpo no caso me abaixar e levantar” que eu tava tendo dificuldade, né? E a própria idade vai mostrando. Eu me abaixava com facilidade, eu dobrava as pernas ultimamente eu não tava praticando... vou ter que fazer... e os próprios médicos aconselha, né?” [Ent. 16] 4.1.1.AUMENTANDO A INDEPENDÊNCIA E AUTONOMIA É sabido que por definição, independência é estado ou condição de quem ou do que é independente, de quem ou do que tem liberdade ou autonomia, e autonomia, é definido como sendo liberdade ou independência moral ou intelectual; independência administrativa (Ferreira, 2004). Partindo-se destes conceitos, podemos basearnos no que é defendido pelo Professor Doutor médico Alexandre Kalache, um dos maiores especialistas do mundo em envelhecimento, quando afirmou recentemente (abril de 2012), em uma entrevista à rádio CBN - SP, deixando claro que o maior investimento que se pode fazer para viver bem, após os 50 anos é no binômio “independência e autonomia”. Para ele, a independência está ligada à liberdade de movimentos, enquanto a autonomia nos permite viver de acordo 51 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS com as próprias regras. Isto posto, entendemos que as subcategorias independência e autonomia teriam que estar diretamante ligadas uma à outra. Manter os idosos independentes e autônomos, numa fase da vida em que o tempo dedicado ao trabalho já passou, é fundamental para que permaneçam em boas condições físicas e psicológicas. Prevenir a dependência e promover uma velhice ativa e saudável é “o preço” da longevidade conquistada. Com efeito, os idosos de hoje vivem mais tempo, mas é premente que vivam em qualidade e integrados na sociedade e na família (Melo, 2010). Dentro deste contexto, podemos verificar inúmeros relatos das entrevistadas: “Claro... me deixa mais flexível para poder andar, fazer as minhas coisas em casa, eu faço tudo, né?” [Ent. 02] “Principalmente... eu já comentei na... nas articulações do joelho, porque eu tinha muita dificuldade para subir escada me cansava muito... com hidroginástica eu não tenho mais este problemas de escadas... realmente foi benéfico pra ele (massageando o joelho)...” [Ent.03] Uma pesquisa feita pelo Centro Nacional para Estatística e Saúde (CNES) estimou que aproximadamente 84% das pessoas com idade acima de 65 anos, de uma maneira ou de outra, dependem de outras pessoas para executar suas tarefas básicas do dia a dia. No entanto Marangoni (2009) verificou que com a prática da hidroginástica, essa percentagem de idosos dependentes é consideravelmente reduzida, por possibiltar melhorias das capacidades físicas o que proporciona uma vida mais independente assim como propicia uma melhora mental, pois, além de ser uma atividade a princípio de fácil execução, implica em uma grande integração entre os participantes. Isto pode ser percebido nos discursos das entrevistadas. “você ficar uma pessoa… um idoso mais saudável... ah... com menos dores muscularesmais flexível, mais comunicativa (movimentando as mãos), não a parte da forma física como também a forma... psicológica, também eu acho hidroginástica favorece também esse... entrosamento entre as pessoas... então favorece também o lado comunicativo, lado psicológico do ser humano.” [Ent. 23] 52 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS “é... ter condições física, né? prá fazer... pra mim... tá... independente dos outros, né?” [Ent. 5] A participação nas aulas de hidroginástica trouxe mudanças na percepção do corpo destas mulheres e consequentemente melhoria das condições de saúde. Elas percebem agora, um corpo menos cansado, mais ativo, confiante e saudável. “Maior flexibilidade... é... fortalecimento muscular, né... para evitar de dá mais trabalho no futuro (risos) e... dá... bom exercício né... prá não perder... o... pique”. [Ent.14] “Necessidade de movimento... de... melhoria de condições de saúde, depois de uma determinada idade começa-se a ficar mais... cansada precisar mesmo de exercícios… [Ent. 3] “Eu achei que eu melhorei das... das minhas dores... fico assim mais ativa... eu quando eu falto eu fi... fico aguniada”. … [Ent. 19] É de senso comum em qualquer sociedade que a partir do momento em que um indivíduo, e aqui também inclui-se o idoso, venha depender de parentes e/ou outrem, essa dependência sempre gera desconforto tanto para quem provê como para quem necessita de auxílio. Este fato fica claro nas declarações de algumas entrevistadas. “... dependendo de outras pessoas prá andar, dependendo de uma bengala, dependendo de cadeira de roda, né? Então... a gente tem que, né? Prevenir isto antes, né? Se for do destino tudo bem, né? Se não for a gente vai contribuindo prá ocupar menos o outro.” [Ent. 14] “Aí, depois saí por causa que meu marido teve AVC (semblante triste) aí fiquei tomando conta do meu marido...” [Ent. 02] O ser humano é dependente do seu corpo, de suas habilidades e capacidades, as quais devem estar em harmonia com relação ao eu. Assim, a AF constitui-se como uma forma de envelhecer saudável e ativa para os idosos, objetivando o alcance de autonomia, independência e condições de saúde positivas. Embasando – se na visão de Mosqueira e Stobäus (2011), no acima exposto, o relato das entrevistadas só vem ratificar o que preconiza os autores. “Essa semana eu só porque já fiz melhora aqui assim... mais assídua eu já senti que minhas pernas (mostrando as pernas) tão mexendo 53 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS mais, tão melhor, não tão tão duras... eu até prá cai... a calcinha cai no chuveiro eu tinha que.... ter dificuldade de apanhar, agora não, eu tô outra vez com minha desenvoltura”. [Ent. 16] “É isso que eu acho, manter o corpo para se poder... prá mim me abaixar, levantar sem dificuldade”. [Ent. 16] O discurso das entrevistadas remete-nos Benedetti et al. (2003), que afirmam que AF, para além de precaver a dependência é também um ótimo estímulo para o bem estar das idosas, o que consequentemente, vai implicar numa melhora da autonomia e da independência. 4.1.2.AUMENTO DA AUTOCONFIANÇA O sentimento de autoconfiança está associado aos comportamentos bem sucedidos. O exercício aquático em sua abordagem grupal pode ser considerado como uma inovadora e eficaz intervenção, promotora de um envelhecimento saudável, ao possibilitar aos idosos as melhoras funcionais, associadas às melhoras da autoestima e da autoconfiança, permitindo-os desempenhar suas funções cotidianas de forma independente, dentro do seu círculo sócio-econômico, acrescentando à velhice qualidade e significado (Camurça et al., 2010). Pudemos constatar o que nos dizem os autores quando vemos as afirmações feitas pelas entrevistadas, após um período da prática da hidroginástica quando declinam que: “... no princípio tinha que ficar pertinho da barra porque não tinha equilíbrio... fiquei seis meses de cama, né, mas depois eu comecei a andar melhor, aí a hidroginástica me ajudou bastante”. [Ent. 2] “ … é a minha condição física, quer dizer, eu poder abaixar, poder ter flexibilidade de … te… de fazer uma atividade, poder … ter força pra segurar uma criança no colo (movimentando as mãos) uma coisa nesse nível …” [Ent. 23] Outro ponto que merece relevância, e que nos chamou a atenção, aborda a incontinência urinária. A incontinência urinária não está relacionada somente a comprometimentos físicos; também pode gerar consequências que atingem uma ampla esfera envolvendo aspectos psicossociais, deteriorando significativamente a qualidade de vida, limitando sua autonomia e reduzindo 54 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS sua autoestima. Fazem parte do quadro clínico alterações como vergonha, depressão, isolamento, ansiedade, estresse emocional, insatisfação sexual, constrangimento social, baixo desempenho profissional e perda da autoestima. Os efeitos psicossociais podem ser mais devastadores que as consequências sobre a saúde física, podendo afetar atividades diárias, a interação social e a autopercepção do estado de saúde (Melo, Freitas, Oliveira e Menezes, 2012). Embora o assunto tenha sido citado por uma única entrevistada quando afirma que: “… e outra coisa que melhorei muito na hidroginástica é num... tinha um pouco assim... de sorria perdia um pouco de urina. E a hidro depois que comecei fazendo um ano nunca mais eu tive isso.” [Ent. 01] “É, tinha um pouco de perda de urina quando eu foorçava, mas não era para eu fazer períneo que o médico não a senhora não é o caso de fazer períneo. Resolveu com a hidroginástica.” [Ent. 01] A capacidade funcional apresenta - se associada com a medição do grau de preservação da possibilidade do indivíduo, poder realizar AVDs e do grau de capacidade, para executar as atividades instrumentais da vida diária (AIVDs). As AVDs são as que se referem ao autocuidado, ou seja, permitem ao idoso cuidar-se e responder por si só no espaço limitado de seu lar, envolvendo, (e.g., alimentar-se, ter continência urinária, movimentar-se, tomar banho, vestir-se, usar o banheiro, andar pela casa, subir e descer escadas e cortar as unhas). Já as AIVDs estão relacionadas a funções mais complexas que permitem a vida independente na comunidade, incluindo, (e.g., fazer compras, cozinhar, arrumar a casa, telefonar, utilizar o transporte, lavar roupa, tomar remédios e ter habilidade para lidar com as próprias finanças). O discurso das entrevistadas só vem corroborar as afirmações de (Aykawa & Neri 2008; Duarte et. al., 2007). “Eu acho que dá muita disposidade, muita disposição, trás mais alegria, mais ... é assim, eu acho que se ficar parada começa a ficar entendiada não sei se porque eu eu tenho um temperamento 55 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS muito... porque eu estou com sessenta e oito anos, né? Então... às vezes as pessoas como com essa idade, pô, mas eu adoro a fazer as coisas eu tenho muita energia, eu acho (enfatizou).” [Ent. 01] “poder andar com mais desenvoltura, por fazer as coisas melhor, isto preocupa” [Ent. 03] De um modo geral, os discursos em relação ao Corpo Funcional (mais agilidade, melhor mobilidade e flexibilidade, menos fadiga e dores) e o consequente aumento para as realizações das AVDs, evidenciam o quanto a melhoria na habilidade motora faz a idosa sentir-se independente e capaz. Portanto, verificamos agora, percepções de um corpo que consegue manter a capacidade de “ser e fazer”, um corpo que ainda garante seu lugar social, um corpo, sobretudo “Funcional”. 4.2.CATEGORIA B – CORPO PESSOAL Na sociedade ocidental contemporânea o sentido da visão é previlegiado relativamente a todos os outros (Lacerda & Queirós, 2004), portanto cada vez mais as pessoas sentem – se “obrigadas” a cuidar do corpo, já que a aparência física depende da representação do corpo, ou seja, por meio do corpo acontece a exposição visual. 4.2.1.SENTIR-SE BEM O corpo aparece como objeto, mero produto, distanciando o indivíduo do seu eu corporal, e o que notamos é que a percepção que se tem do corpo atualmente está ligada a um extenso acervo de imagens visuais (Ferreira, 2006). Sentir-se bem não é um estado a que se chegue naturalmente ou em um passo de mágica. As pessoas que conseguem isso com freqüência costumam dedicar parte da sua energia para construir esse estado positivo. A autoestima, considerada como um aspecto central da saúde e do bem estar psicológico, interfere no comportamento dos idosos em relação à saúde (Krug et al., 2011). É o que destacam as entrevistadas nos seus discursos. “… a gente sente... falta da aula, do... do... movimento, e do companheirismo também, o corpo pede e... e... é muito, muito alegre a aula, né? bem divertido, então nos temos dois... dois... dois... 56 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS benefícios, além do benefício físico, o benefício emocional também ” [Ent. 11] “Eu percebo que meu corpo responde bem ao exercício... que ele gosta que eu faço exercício, porque a minha mente sente quando eu não faço exercício, então ele responde bem.” [Ent. 11] “Enquanto puder... eu vou vir. Porque eu me sinto bem”. [Ent.03] “Como... Com muito bem estar”. [Ent. 06] “… porque a hidroginástica a gente já fica não... não... não é prá emagrecer, não é prá engorda é prá movimentar mesmo, então, eu me sinto bem...” [Ent. 03] Cunha, Ribeiro e Oliveira (2008), relatam que alguns efeitos da beta endorfina, um hormônio peptídeo opióide endógeno secretado pela glândula hipófise anterior, são muito importantes para o treinamento, como analgesia, maior tolerância ao lactato ou ao excesso de bases, promovem a diminuição da percepção do esforço, diminuição do desconforto muscular e respiratório e, o mais importante deles, euforia do exercício. Interessantemente, diversos estudos têm demonstrado que os níveis de beta endorfina aumentam durante o exercício, aeróbio. Segundo (Silva et al., 2011), de maneira geral, a prática de EF melhora o humor devido à liberação do hormônio endorfina, que causa sensação de bem-estar e relaxamento. É o que podemos confirmar conforme os relatos das entrevistadas. “Porque... o... a fase pior quando a gente tá parando de fumar é de manhã e a gente precisa do exercício físico, principalmente aeróbico, porque ele libera... endofina? Endofina? Pois é, a gente precisa liberar endofina prá suprir a falta do cigarro...” e a hidro é legal,...” [Ent. 20]. “… é essa aqui faz bem prá saúde... e que põe com autoestima, porque você... fazendo academia você já se sente bem... quando a pessoa se sente bem dá vontade de conversar, de falar, de fazer as coisas, não tá prá baixo” [Ent. 2] “Ah, mudou porque eu sinto mais assim... mais disposta... é... eu me sinto melhor... é... na parte assim... mais feliz até... que adrenalina é muito grande quando a gente faz uma atividade física, então você... faz com que você retorne... a fazer sempre...tá sempre ali, entendeu? 57 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Nessa atividade... e... e... é muito bom, eu sinto assim muito bem estar fazendo”. [Ent. 21] Marconcin (2009) acredita que as melhorias nas condições físicas dos indivíduos idosos acarreta um impacto na percepção subjetiva da saúde e influência positivamente no bem estar e na QV. Na esfera psicológica, os indícios indicam aumento da autoestima e do bem estar em indivíduos que se exercitam regularmente (Piraí, 2007). Outrossim, a prática de exercícios pode melhorar o humor, a ansiedade, a depressão e a resistência a doenças, além de evitar e/ou diminuir o estresse (Krug et al., 2011). Neto e Castro (2012) realizaram um estudo comparativo com idosos ativos e sedentários, para investigar a prática de atividade física com a independência funcional e QV. Em relação à QV os dados obtidos, apresentaram melhor QV e independência funcional entre os que participavam de atividades regularmente. 4.2.2.SATISFAÇÃO/ GOSTO Ao considerar as experiências corporais vividas pelas idosas na hidroginástica, é necessário destacar também os efeitos sobre o bem estar psicológico. Acreditamos que a AF proporcionou significações de bem estar com o corpo que gerou a percepção de um bem estar com a “mente”, como foi assim mencionado por elas: “Corpo e mente, né?” “É... esse exercício, né? Prá mim é... ele envolve corpo e mente, né? Porque tem outro grupo que... que a gente trabalha muito com a mente, entendeu? Então, é o exercício e essa disciplina.” [Ent. 14] “Mas eu troquei com Deus o joelho pela cabeça, então minha cabeça tá boa e meu joelho tá ruim, num foi uma boa troca?” [Ent. 17] “Ai, a gente vem o mundo que tá aí, seja jovem, seja velho, seja adulto, tem muita gente aporrinhada, né? É, psicologicamente, né? Então, eu acho que tem... que aproveitar academia que a maior parte de gente jovem que quer vir prá cultuar o físico, e tal, né?” [Ent. 14] Como vimos anteriormente, para Lima e Bueno (2009), na idade avançada, a mulher se sente desvalorizada, isto porque vivemos em uma sociedade onde a juventude é o centro das atenções e valorizações enquanto beleza. Assim sendo, o fato da menopausa influenciar muito nas condições 58 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS físico-psíquicas, torna as idosas muito mais fragilizadas quanto ao envelhecimento do seu próprio corpo. Neste caso a AF, ajuda as mulheres na superação dessas dificuldades, trazendo-as para o envolvimento com pessoas da mesma faixa etária e possuidoras das mesmas dificuldades e experiências. A hidroginástica por ser considerada uma atividade de baixo impacto, e que sustenta o peso corporal podendo ser feita em diferentes intensidades é com certeza uma AF ideal para este grupo dessa faixa etária, tornando-se dessa forma, em significativos efeitos benéficos para a saúde, pois abrange grandes grupos musculares. Esta atividade contribui ainda de forma efetiva para aumentar o contato social, principalmente com grupos em risco de isolamento, depressão e demência. Com esta visão, e de acordo com recente metanálise realizada por Arent, Landers e Etnier (2000), o EF está associado diretamente com uma melhora significante do humor em pessoas idosas, sendo que os efeitos têm sido encontrados com qualquer tipo de AF, mas em específico no que tange ao treinamento de força muscular, realizado em intensidades de leve à moderada. Da mesma forma, a melhora do condicionamento aeróbico parece estar associada em indivíduos que envelhecem com melhor função neurocognitiva (Matsudo, Matsudo & Neto, 2001). Podemos verificar nas falas das entrevistadas o que é preconizado por estes autores. “Obviamente está aí colocado à faixa etária, né? Eu sinto que estou bem... entendeu? Me sinto com força, me sinto disposta… “Gosto e me sinto muito bem... me arrumar... para ir a academia... já começa aí todo o processo de satisfação, me sinto bem.” [Ent. 13] “Não... não... simplesmente pró meu prazer...” [Ent. 03] “… e a hidroginástica é muito prazeroso aí então eu fico muito motivada a fazer. Entendeu. (Suspirou profundamente)” [Ent. 01] “Religiosamente eu chego aqui seis e meia da manhã mas acordo, ah vou pra hidro toda satisfeita. Eu gosto. (ar de satisfeita)” [Ent. 01] “... e quando eu levanto, às vezes eu fico com preguiça de levantar... aí tenho assim... preguiça... é preguiça porque depois que eu venho eu adoro, adoro!” [Ent. 09 – 91 anos] 59 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 4.2.3.MELHORIA DA APARÊNCIA FÍSICA Esteves (2005) diz que na sociedade contemporânea o corpo tem um enfoque por demais valorizado e tem tido, por conseguinte, um investimento exarcebado no que se refere ao seu aspecto, sua forma e a capacidade de renovação constante, influenciada de forma constante pela mídia. O objetivo da sociedade atual é o ideal de um corpo completamente firme, musculoso com percentual próximo de zero de gordura corporal, jovem, belo, protegido dos sinais do tempo e totalmente subjulgados aos regimes alimentares, pelo EF e pela cirurgia estética (Novaes, 2001). O corpo tem como seu maior inimigo o próprio corpo, quando o seu estado defronta – se com a flacidez, a gordura o enrugamento da pele e o envelhecimento. Isto é constatado pelas falas das entrevistadas quando afirmam: “Envelhecendo mesmo, envelhecido (risos). Já tô sentindo... a... a mudança da idade, né? Desde os cinquenta e poucos anos já notei muita diferença.” [Ent. 19] “Sinto o peso da idade já, né? Partindo de uma condição que você era mais jovem e... que você conseguia fazer as coisas com mais facilidade atualmente algumas coisas você já não tem aquela facilidade prá fazer...” [Ent. 23] “Bom, por exemplo, agora que eu estou saindo da hidroginástica mais bonitinho, mais leve, aí depois ele vai os músculos vai acomodar, né? E aí a pessoa se sente mais cansada, mais pesada, mas na hora que sai da hidro... parece que você tá leve, leve (sorriso)” [Ent. 02] “(Pensativa) Mais assim... melhorou no aspecto assim... físico um pouco. No momento estou numa fase boa. Tô sentindo bem.” [Ent. 21] “ Tenho bem estar físico, acho que é... no final é o estético. É me ver bem... caminhando mais firme... acho que tem a ver com a estética também, minhas pernas ficam mais firmes, meus braços... mais firmes, isso tem a ver também no final.” [Ent. 11] É notório que nessa faixa étária, o pensar feminino em relação ao corpo, demonstra certa insatisfação visto que as limitações começam a manisfestar-se de maneira clara e evidente. Como nos diz Le Breton (2011, p. 11), faz-se 60 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS necessário “dar atenção redrobrada ao corpo lá onde ele se separa dos outros e do mundo”. É deveras importante para as pessoas idosas cuidar do corpo em todas as suas dimensões para torná-lo não um lugar de exclusão, mas o da inclusão na sociedade. O fato de manterem a prática da AF – hidroginástica, de certo modo proporciona um sentimento de sentir-se com as suas melhorias na aparência física. Isto posto, é de vital importância a relevância de achar atividades, que arrebatam os idosos do seu isolamento e os estimulem a contactar o mundo exterior, convivendo com outras pessoas e descobrindo novos papéis na sociedade. Entre outras, a AF e especialmente os programas de EF, representam aqui um papel de destaque (Souza, 2010). 4.3.CATEGORIA C – CORPO SAÚDE Em 1946, a OMS define saúde como “o completo bem-estar físico, mental e social e não somente a ausência de doenças ou agravos”. Entendemos que o EF contribui positivamente na condição de saúde e para as percepções de bem estar dos idosos. 4.3.1.MELHORIA DO CONDICIONAMENTO FÍSICA O EF para os idosos implica em vários benefícios a nível físico, fisiológico, social e psicológico, objetivando criar métodos que tem como meta principal promover a independência dessa população, na realização das suas tarefas diárias e cotidianas. Evidentemente, não são relevantes a técnica e o perfeccionismo, mas sim, o desenvolvimento e aperfeiçoamento do gesto utilitário, impressindíveis para a realização das necessidades básicas do dia a dia. O EF para os idosos focaliza-se ainda, na prevenção, manutenção e reabilitação com envolvimento lúdico. Assim, um programa de EF para esta faixa etária deve estar direcionado para a quebra do ciclo vicioso do envelhecimento, ampliando a sua condição física e funcional e diminuir os efeitos do sedentarismo muito típico nessa fase da vida (Mariz, 2010). “Como tô dizendo agora, um pouquinho melhor porque comecei a fazer exercícios eu estava me sentindo muito dura”. [Ent. 16]. “ eu acho que é melhorar sua autoestima, melhorar... o teu condicionamento... você como está... no caso terceira idade, não é? 61 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Ver a parte de muscu... do músculo, trabalhar o músculo, fazer musculação, tudo que ajude para você não ter quedas...né? [Ent. 13] “… eu sempre pratiquei academia só que não era dentro d´água. Ginástica (gesticulando com os braços e fazendo sinal de positivo com a cabeça) musculação, andar de bicicleta... Sempre. Quando chegar na minha idade... (sorrindo) e como (sorrindo) e com essa força... né?” [Ent. 06] “Olha, o que muda na gente é o condicionamento físico... é... disposição, pro idoso ele tem que fazer alguma atividade. A hidroginástica é o ideal.” [Ent. 08] “Condicionamento físico e melhoria da minha qualidade de... corpore em função da lesão que eu tenho de coluna.” [Ent. 10] Baseando-nos em Bento (1995), o corpo, formado como instrumento e ferramenta do cotidiano, com treino e disciplina, à luz dos mais variados e distintos objetivos, culturalmente estabelecidos, configura a função seletiva que é chamado a assumir e que lhe é atestado pelos seus “construtores”. Assim sendo, o corpo vive uma dialética de constância e mutabilidade imposta pela mutabilidade e diversidade dos seus construtores e dos respectivos interesses, culturas e necessidades, manifestando-se numa variedade de corpos: funcionais, estéticos, operados, controlados, desfeitos e porque não torturados. O corpo idoso é sujeito a sacrifícios e sofrimentos para atingir centésimo e/ou centímetro que possa vir fazer a grande diferença. Reportando-nos, mais uma vez à Mosquera e Stobäus (2006) quando descrevem que o ser humano é dependente do seu corpo, de suas habilidades e capacidades, as quais devem estar em harmonia com relação ao eu. Desta forma, a AF torna-se imprescindível para um envelhecimento saudável. No entanto, algumas pesquisas revelam uma associação negativa entre a autoestima e a idade, onde surge uma perda de noção do valor de si próprio em função do surgimento de mudanças importantes na vida (Shieman & Campbell, 2001). “... então já fica mais difícil, mas você tenta vencer aquele… aquele obstáculo, então você já se sente assim uma pessoa mais fraca no sentido de não conseguir fazer principalmente na parte de força, né? a força e da flexibilidade eu acho que são as duas... áreas que eu 62 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS sinto mais assim... eu sinto assim uma... uma deficiência maior.” [Ent. 23] “Eu acho que toda pessoa... que acima dos quarenta, cinquenta anos tem que procurar uma atividade física é isso que eu di... gostaria de dizer porque... a pessoa com a idade... ela vai tendo limitações e quanto mais ela tiver preparada fisicamente melhor... entendeu?” [Ent. 20] Ué! Isso... que eu te falei eu preciso de... de... eu tô nesse processo que eu te falei e outra porque com a idade a gente precisa... movimentar o corpo senão vai ficar arrastando chinelo (risos), né? Sempre ter... (risos) quanto mais saudável a gente ficar mais velho... melhor, mas a gente fica... ativo... entendeu? [Ent. 20] “A importância da hidroginástica no condicionamento físico não só estético como melhoria da... da flexibilidade (mexeu os dedos da mão), das articulações é... alguns movimentos que ela dá prá cintura. Hoje eu cheguei: [“Rose, eu não quero nem mexer na água”.] Os dois joelhos doendo, então você sai mais disposta prá encarar o dia, entendeu?” [Ent. 08] Está aqui implícito a questão de ter um corpo idoso, ou seja, as transformações que acontecem ao mesmo induzidas pelo envelhecimento, as quais são inevitáveis e que podem ser retardadas e/ou controladas pela AF (Spirduso et al., 2005). Ter um corpo que precisa de cuidados específicos, no caso prática de EF constante, regular, bem dosado e cuidadosamente escolhido, torna-se a melhor ferramenta contra as limitações advindas da velhice. 4.3.2.REDUÇÃO DAS LIMITAÇÕES Sabemos que é de aceitação unanime nos meios científicos a ideia de que a AF regular é de suma importancia para a manutenção da saúde e da QV das pessoas idosas, e para isto, há dados abundantes sobre sua eficácia tanto na melhoria da funcionalidade física quanto na redução no risco de desenvolvimento e/ou agravamento de diversas patologias frequentes na velhice (Costa, 2010). Outro fato observado durante a velhice e já citado anteriormente é o que tange ao declínio das capacidades fisiológicas e motoras. Os indivíduos que se 63 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS encontram nessa fase já não possuem as mesmas habilidades da vida adulta e acabam por adquirir certas ou muitas limitações, o que vem a tornar-se um impedimento na realização de alguns EF (Gondim et al., 2011). A prática da AF hidroginástica vem proporcionar um aumento da amplitude e da mobilidade articular, permitindo dessa forma a execução de determinados movimentos, que a princípio eram difíceis de serem realizados fora da água (Texeira et al., 2007). “Eu fiz uma cirurgia no joelho (pondo a mão no joelho) a cinco anos atrás, atroplastia total... e não pude mais caminhar, aí a única coisa que eu posso fazer é a hidroginástica... e... pouquíssimos movimentos mais. A hidroginástica é o ideal”. [Ent. 8] “... nas articulações do joelho, porque eu tinha muita dificuldade para subir escada me cansava muito... com hidroginástica eu não tenho mais este problemas de escadas... realmente foi benéfico pra ele (massageando o joelho)...” [Ent. 3] “ Então, né?... isso incomoda, mas, fora isso, depois que eu faço aula eu saio andando melhor, viu?” [Ent. 03] “Ah! Eu acho que a hidroginástica é tudo de bom para o idoso, foi a melhor coisa que se inventou... foi a hidroginástica... fiquei boa dos tendões... a hidroginástica”. [Ent. 18] “Com certeza, é... por exemplo, quando eu comecei a estar com dor no ombro (coloca a mão no ombro), aí ao longo... das... dos dias que venho fazendo está dor sumiu... eu tava com dor no joelho esquerdo (segurando o joelho) agora tá no direito (sorri), mas do esquerdo sumiu, mas não é nada que não dê para eu fazer que eu sofra na hora do exercício, não, e... meu condicionamento físico dá prá perceber que... melhor bem... minha disposição...” [Ent. 05] “(risos) eu achei que ... eu andava... eu andava de ônibus eu fazia tudo, hoje já não faço mais nada disso, porque agora eu tô quero tratar um táxi prá mim trazer pelo menos até aqui, a vinda... porque a ida, eu já fiz ginástica tô com... o corpo tá mais... desenvolvido prá mim andar...” [Ent. 09 – 91 anos] “É... a dificuldade de andar, de fazer as coisas com os braços (movimentos com os braços e abrir e fechar das mãos) tudo isso... tudo isso né, eu entrei na hidroginástica...” [Ent. 2] 64 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS “É... é você num conseguir andar fazer as suas coisas sem... sem muitas dores...” [Ent. 19] Pudemos mais uma vez, baseados nos relatos das entrevistadas, ratificar o que nos dizem Paula e Maffia (2010) e Mota (2009), quando afirmam que a procura pela AF hidroginástica tem crescido muito na última década entre a população idosa. Isto se deve ao fato dessa prática trazer grandes vantagens para essa classe social, entre elas podemos citar a segurança aos praticantes pois dentro da água, o peso corporal diminue fazendo com que algumas regiões do corpo fiquem ou tornem-se menos vulneráveis, como ossos, músculos e as articulações que ficam livres de impactos, podendo movimentar-se com mais amplitude. “A hérnia de disco a gente deve evitar o impacto no peso do corpo com o solo dentro d´água então favorece... a... que não haja esse impacto, né? E não sobrecarregando a coluna”. [Ent. 23] “Bem, eu tenho problema de obesidade mórbida, já pesei até cento e sessenta e sete quilos e procurei ajuda de um endocrinologista que me encaminhou fazer... hidroginástica...” [Ent. 22] “É devido a minha obesidade eu não poder fazer exercícios... com muito impactos, aí, eu escolhi a hidroginástica”. [Ent. 5] “Eu já faço hidroginástica, fiz aqui mesmo há quinze anos atrás... porque o médico por causa de ossos, essas né?” [Ent. 16] “É... a hidroginástica faz parte do... programa de minha reabilitação que eu já operei coluna.” [Ent. 10] 4.3.3.QUALIDADE DE VIDA Baseando-nos em Rikli e Jones (2008) que afirmam que “a maioria das pessoas concorda que a QV na idade avançada depende em grande parte de uma condição de saúde que lhes permita fazer as coisas que desejam, sem dor e durante o máximo de tempo possível”, e em Neto e Castro ( 2012) quando da realização de um estudo, entre idosos ativos e sedentários, com o objetivo de comparar a independência funcional e a QV entre os mesmos, verificaram a importância da realização de AFs, para manutenção de uma boa QV e independência funcional entre os idosos. Assim sendo, a práticar regular da AF mostrou ser um fator de suma importância para a população da terceira idade, 65 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS podendo trazer benefícios significativos na independência funcional e uma percepção destes sobre sua QV, permintindo-nos constatar nos discursos das entrevistadas algo que vem exatamente endosar estes autores. “Ah, não sei! Mudou... eu não sei se é a minha vontade agora de ter uma qualidade de vida melhor... é... eu já não estava podendo... eu acordava com dor nas costas... dói aqui, dói... E hoje em dia não”. [Ent. 07] “Ah... é... ter maiiis... jovê... comê... ser mais jovem, melhorou... melhorei todos... todas minha circulações tudo... minha pressão baixou... no normal, colesterol baixou... tudo isso, aí eu estou me sentindo bem por isso”. [Ent. 4] “Ah, mudou, eu acho que... muda a autoestima, melhora, você fica mais... quer dizer você convive mais, a parte de... de exercícios, eles ficam mais leve( gesto com as mãos) na medida que não há impacto, não é? Então, eu acho que prá mim melhorou muito, inclusive baixou meu colesterol... eu não tenho alto, mas... tenho um pouquinho acima... baixou”. [Ent. 13] “Uma qualidade de vida melhor, né? Vai ficando com idade... é dor ali, é dor aqui (apalpando o ombro, lateral da coxa) e a médica mandou... conselhou a fazer uma hidroginástica, caminhar...” [Ent. 19] As melhoras nas condições físicas dos indivíduos idosos acarretam um impacto na percepção subjetiva da saúde e influencia positivamente no bem estar e na QV. É sabido que a medida que um indivíduo envelhece, sua QV é determinada por sua habilidade de manter autonomia e independência. Expectativa de vida saudável é uma expressão geralmente usada como sinônimo de “expectativa de vida sem incapacidades físicas” (Marconcin, 2009). Estes depoimentos comprovam a importância que estas entrevistadas dão a QV. “Fazer meu exerc... minha hidroginástica, né? prá chegar minha forma melhor, como eu falei, a minha vida saudável... mais se eu... mais durar uns anos...” [Ent. 4] “… prá minha... prá minha saúde mais nada”. [Ent. 3] “Eu... eu pretendo me sentir como estou hoje e continuar assim ao longo da minha vida”. [Ent. 21] “Objetivo é só ficar... com mais saúde, né”? [Ent. 17] 66 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS O EF é um importante fator de promoção da saúde, imprescindível para um envelhecimento saudável. Nessa população, se faz necessário dar ênfase aos grandes grupos musculares de natureza rítmica e aeróbica, tais como nadar, andar de bicicleta, caminhadas, hidroginástica, entre outros, que melhore a aptidão física de idosos (Britto et. al, 2005) e (Ferreira, Gobbi & Arantes, 2008). “...fazer... hidroginástica devida a parte circulatória... e eu sou diabética... problema circulatório e cardíacos também, isso me veio fazer emagrecer também com os exercícios, né? Me sinto bem relaxada... e tenho me achado... bastante melhora”. [Ent. 22] “Hoje em dia eu sinto menos dores... eu sentia muito mais dores a noite devido ao peso, né? e num fazer tanto exercício, hoje em dia eu já... tomo menos medicação e... me sinto mais leve, mais disposta... devido a hidroginástica, e caminhar para vir a academia isso me faz também muito bem”. [Ent. 22] “Eu melhorei... quando entrei a primeira vez no... no dois mil eu roncava, depois que entrei na hidroginástica parei de roncar.” [Ent. 02] Observando os discursos das entrevistadas, podemos perceber a importância e/ou necessidade que as mesmas sentem em praticar uma AF pois qualquer iniciativa que venha melhorar a expectativa de vida, o bem estar e a condição física na vida adulta, depende muito da melhora das bases físicas adquiridas, evidenciando as implicações dos aspectos biológicos sobre a saúde mental das pessoas idosas (Balbinot, 2012). É fundamental ainda que nas atividades aquáticas, o profissional possa e deva compreender as propriedades físicas da água e sua aplicabilidade, para dessa forma obter melhores condições na utilização de seus benefícios, protegendo principalmente as articulações dos joelhos, tornozelos, quadris e até mesmo a coluna vertebral, a fim de implantar e desenvolver um programa adequado aos seus alunos (Fernandes, 2011). “É uma atividade que eu gosto... que é... pu que.... é gostosa, prazerosa, porque é dentro d´água e dentro d´água você... sente todo o fluir da água e...também ao mesmo tempo porque... como eu tenho hérnia de disco, né?” [Ent. 23] 67 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS “Eu busquei a hidroginástica porque eu tenho problema de ... cervical ... artrose, entendeu? Então nada de impacto, né? ... eu posso fazer. E já na na hidro eu faço os exercícios, né? você levanta a perna, abre e fecha tudo é leve (fez movimento sentada na cadeira de afastar e unir as pernas) faço qualquer nunca faria fora da água. Entendeu?” [Ent. 01] Cabe aqui ressaltar que a temperatura da água é um fator deveras importante no desenvolvimento de exercícios, principalmente para pessoas com fibromialgia, pois temperaturas extremamente altas ou baixas pioram os sintomas. É recomendável que os exercícios devam ser realizados a uma temperatura que varie entre 26 a 29,5ºC, pois dessa forma propiciam melhor resposta fisiológica (Baun, 2010). “…a fibromialgia…e…dentro d´água em me sinto mais… leve eu consigo fazer exercícios que eu não consigo fazer…de solo, que eu faço também exercício no programa da UERJ… alguns exercícios que eu não consigo fazer …den… fora d´água, eu consigo fazer na fi…na hidro.” [Ent. 11] Podemos perceber claramente que a participação na hidroginástica trouxe mudança na percepção destas mulheres, elas projetam agora um corpo menos cansado, mais ativo e confiante, o qual estimula a manutenção da prática do EF. 4.4.CATEGORIA D – CORPO SOCIAL O corpo numa visão das Ciências Sociais deve ser considerado nas situações que lhe emprestam significado social. Existe sempre uma disputa acerca dos valores e sentidos envolvendo o corpo e o seu uso, onde encontram-se em jogo classificações sociais e posições de prestígio. Neste contexto o corpo envelhecido é atravessado por esse jogo de classificações e posições de status (Alves, 2011). É indiscutível a importância da vida na sociedade, o ser humano é eminentemente social. O corpo social, que está ligado ao corpo construído pela sociedade, refere-se à dimensão do corpo na qual é possível ler as inscrições e marcas sociais. É a sociedade que vai legitimar determinados tipos de corpos, favorecendo alguns modelos em detrimento de outros. 68 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS “Olha só... ééééé... eu gostaria de perder peso, então, isso não me incomoda tanto a ponto de eu me deprimir ou deixar de curtir a vida, de sair, dançar (suspiro)... ir por pagode (sorrindo), sambar, embora joelho dói samba assim mesmo”. [Ent. 5] 4.4.1.RELAÇÃO SOCIAL Nos reportamos aqui, mais uma vez à Spirduso et al., ( 2005), quando afirmam que a hidroginástica por ser uma atividade de grupo, promove indubitavelmente à sociabilização, que é de uma importância imensurável para os idosos, pois a solidão é uma constante quiexa dos mesmos. A água não deixa de ser no fundo, um elemento lúdico e de relacionamento social, que acaba por permitir sempre o diálogo e porque não o divertimento. “Sim... fazemos amizade, o meio social é ótimo são pessoas... que vem em busca de uma melhor ... é ... é proposta de vida e são amizades novas amizades boas e ... devido a nossa idade a gente tem problema de solidão e a gente acaba aqui ... né? uma ... acaba fazendo amizade com a outra e é muito bom... muito bom”. “... pelas amigas ... né? parte social muito bom sente muita falta das meninas ... quando eu não venho, final de semana ... e ... é uma família, nós somos uma grande família”. [Ent. 22] “Eu acho que mudou, até fiquei mais comunicativa porque quando fazia natação, natação você fica muito isolada dentro d´água sem conversar com ninguém. Na hidroginástica como a gente fica com o rosto fora d´água a gente tem a possibilidade de se comunicar mais apesar de a gente ter... ciência de que é importante o controle da respiração durante a atividade mas mesmo assim uma vez ou outra a gente dá uma conversa... conversa (movimentos de mãos) com uma pessoa que tá ao lado... ajuda a pessoa que tá ao lado... ou pede uma ajuda também.” [Ent. 23] “Converso, demais. Eu faço hidroginástica (risos) mais eu converso a boca não para, principalmente com as minhas amigas que estão tudo ali do lado. Aí a professora reclama, mas, olha não vou fazer diferente (gesticulando com os braços), entendeu? Porque eu venho prá cá é uma terapia prá mim... é uma tremenda terapia, entendeu? A hidroginástica prá mim é uma... terapia mesmo, entendeu? Eu vim prá cá prá me divertir... aí o professor: [ “ah, eu... não consigo dá 69 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS aula” ] digo: “problema é seu se você não consegue dá aula eu vou... fazer a minha parte, você faz a sua (risos)” [Ent. 15] “ Então a gente fala muita bobagem (bateu costas da mão na mão), a gente... sabe, é uma hora assim que vale tudo, sabe! De rir, de conversar, de chorar, de contar a gente tem uma integração de às vezes contar algum problema ... faz assim...uma psicoterapia também ... (risos).” [Ent. 01] “Às vezes quando a professora não chama atenção: “olha a respiração, vamos falar menos” ai eu converso sim é isso que eu digo... facilita a comunicação, acho que você fica um ser mais social na hidroginástica”. [Ent. 23] “(pensativa) ter bom convivo também com as pessoas. Mudou o convivo com as pessoas...” [Ent. 17] Fica aqui mais uma vez comprovado através dos discursos das praticantes da hidroginástica, a importancia do EF na vida das idosas, importância esta que é difundida e defendida por Silva et al., (2011), quando afirmam que qualquer tipo de EF, proporciona benefícios de várias formas e dimensões quais sejam, psicológicos, de autoestima e de imensa melhoria do relacionamento social, e mais, melhora os aspectos biopsicossociais muito importantes para pessoas da terceira idade, devido às inúmeras mudanças advindas dessa fase da vida. De um modo geral as pessoas que praticam atividades físicas (AFs) tendem a ser menos deprimidas do que as que não praticam. É de senso comum no meio científico que para formas mais moderadas de depressão, o EF pode ser tão útil quanto à psicoterapia. 4.4.2.ADERÊNCIA/ INFERÊNCIA FAMILIAR Ao iniciarmos esta subcategoria, cabe ressaltar que a mesma encaixa-se naquilo que dissemos ao iniciar a apresentação e discussão dos resultados, ou seja, que em alguns momentos, esse tipo de classificação facilitou a discussão e já em outros, dificultou nossa busca por uma compreensão global dos significados da hidroginástica para as praticantes. 70 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Foi possível perceber que havia uma posição ou valor diferenciado que era atribuído à permanência e/ou frequência nas aulas, relacionado talvez às experiências anteriores dos sujeitos da pesquisa, tempo de prática, idade e a inferência familiar. “Eu... eu faço ginástica a minha vida inteira... desde de garota... eu... quando começou aparecer a... a hidroginástica eu fui experimentar porque eu adoro água. (sorriu).” [Ent. 06] “Eu não falto nem um dia, às vezes quando eu falto, tem uma... tem... tem aula.... que eles chamam... aulão... dia de sábado e eu venho dia de sábado, ninguém vem, mas eu... às vezes eu venho. E agora... venho sempre no dia de sábado. Frequência eu nunca falto, não falto mesmo”.[Ent.15 “Estou aqui no grupo há dez anos fazendo ginástica, hidroginástica junto...” [Ent. 06] “Deixo, deixo, deixo. Se eu tiver que ir agora de manhã na rua, hoje mesmo eu tenho que ir... vou de tarde porque eu tenho minha hidroginástica na parte da manhã”. [Ent. 18] “Meu trabalho, (risos) eu vou trabalhar mais tarde, mudei totalmente meu horário”. [Ent. 11] “… mas aqui foi que me deu melhor... porque aqui já estou aqui há quatorze anos, né? Fazendo a mesma, ou seja, eu faço hidroginástica.” [Ent. 15] “Agora eu comecei (risos) não pretendo parar. Ah! Porque eu gostei, né? É (risos). Depois que tomou o gostinho (risos).” [Ent. 15] “... se eu tiver que ir prá praia, por exemplo, eu não vou à praia antes de vir prá ginástica, entendeu? Se eu tiver qualquer um compromisso que seja prá resolver negócio de documento, qualquer coisa, primeiro vou prá hidroginástica...” [Ent. 05] “Porque me dá satisfação, tem resultados... é uma relação com a água muito boa, melhor do que você fazer musculação.” [Ent. 10] “... primeiro de tudo tem que ser a hidroginástica, antes de... antes de... de... de ir ao mercado, ir prá banco tem que primeiro fazer minha hidroginástica, depois... é o resto.” [Ent. 04] Apresenta-se aqui a questão falada anteriormente, ou melhor, ao iniciar a discussão desta subcategoria. Podemos analisar tendo uma visão 71 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS direcionada aos benefícios físicos e fisiológicos e também com uma visão dos benefícios psicológicos e sociais. Ficou caracterizado, no nosso entendimento que a permanência das idosas na hidroginástica deve-se ao fato dos benefícios físicos advindos da prática da atividade, mas também e principalmente pelo fato de ser o local e momento em que podem estar em contato com pessoas da mesma faixa etária, onde podem ter o seu momento de prazer, lazer e socialização antes e acima de qualquer outra coisa. No entanto, apesar dos idosos procurarem a hidroginástica, também por estes motivos, existe ainda a grande dificuldade de mantê-los motivados para uma prática contínua, conforme podemos observar nos discursos das três entrevistadas a seguir: “ Olha, eu não gosto muito não, mas as minhas filhas começaram a falar que eu tinha que me movimentar…nem, nem, nem… aí eu fui.” [Ent. 12]. “ porque estou com noventa e dois … mas aí meus filhos tudo, a família toda, desde eu mais nova ainda... queriam que eu fizesse ... e aí... eu fui... me entusiasmei... que eu tava com um problema... eu andava muito de vagar e... era muito assim... medrosa... de água dessas coisas, então, eu achei que eu devia fazer... a hidroginástica.” [Ent. 09]. “mas gosto de fazer, por isso que eu me esforço, aí meu marido... então, volta prá KDM veio aqui e me matriculou, eu faço segunda, quarta e sexta.” [Ent. 16] Estes relatos levou-nos a criar um elo na subcategoria, visto que imaginávamos encontrar um número considerávelmente grande de idosas a praticar a hidroginástica por inferência familiar. No entanto, dentre as 23 entrevistadas, podemos perceber somente três que ali estavam por recomendação e “pressão” de familiares e que, no entanto, ao longo da entrevista declararam já estar a gostar da atividade pelo fato de perceberem melhoras físicas e sociais. “Agora eu comecei (risos) não pretendo parar. c Por que? Ah !!! Porque eu gostei, né?” [Ent. 12] “Na academia? Prá mim é o meio social, é um meio muito importante, né? E... 72 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Não minha filha, não penso porque... eu me sinto bem.” [Ent. 09] Fica mais uma vez constatado o que nos diz a literatura, ou seja que um programa de AF para a idade avançada deve englobar exercícios que não levem a exaustão e não tenham um elevado grau de dificuldade, ou seja, ajustado à faixa etária pois isto torna-se para além de eficaz, cativante e agregador, o que podemos verificar nos discursos das entrevistadas quando demosntravam durante as suas falas da satisfação em irem para as aulas de hidroginásticas e ainda ao referirem-se com certa “alegria” da competência da professora (Nakagava & Rabelo, 2007). “… tô frequentando e se Deus me deixar mais... vida quero continuar... primeiro que a professora é uma ... uma excelente professora, né? E eu to cansada de dizer a ela: “Rose se ainda estou aqui é por sua causa”, ela é jeitosa, ela é carinhosa, ela é... tem todos os seus dons prá... prá a atividade, então a gente tem que valorizar, né? [Ent. 09] “… mas tô gostando, as companheiras são boas, né? Então a professora é alegre … é boa, né? Isso também influencia, né? Se ela não fosse assim muito simpática ... [Ent. 12] “...eu tenho... eu tenho um grupo de amizade aqui muito bom... muito bom mesmo. Então, eu venho... hoje eu venho aqui prá tomar café com elas... [Ent.15] Foi referido pelas entrevistadas que através da participação nas aulas de hidroginástica elas criaram novas amizades e ampliaram os seus contatos sociais. A comunicação com outras idosas as possibilitou compreender que todas possuem problemas, limitações perdas e a troca dessas experiências as enriqueceram e revelaram que a vida ainda tem significado sendo preciso aceitar e viver a realidade. 4.5.CATEGORIA E – CORPO ESTÉTICO A atual sociedade considera que o corpo está dentro do esquema de dimensão vertical, ou seja, o corpo jovem, esguio e belo, “é o corpo”, e o que se curva e vira para o chão, está inexoravelmente gasto pelo tempo, é renunciado. 73 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS O valor estético e a liberdade do corpo envelhecido são redimensionados através do EF. A sociedade contemporânea impõe o desequilíbrio entre a idade biológica e a aparência física, de modo que envelhecer deixou de ser natural, tornou-se quase perverso. Há que envelhecer mantendo um aspecto belo, jovem e saudável (Lacerda, 2007). Não obstante, nos reportamos ao seguinte questionamento: qual seria papel da estética no domínio do EF para os mais velhos? Ao nível do senso comum, o papel do EF segue religiosamente o contexto de manutenção de uma forma física adversa da flacidez e da obesidade. Para as mulheres, a utilização do EF como um meio de esculpir o corpo pode tornar-se quase uma obsessão, cobradas pela pressão social relativamente ao estereótipo corporal, exercido de forma bem mais acentuada do que em relação aos homens. Em uma sociedade na qual se descobre e inventam, a um ritmo alucinante, meios para manter a juventude, mas em que não se ensinam a lidar e a aceitar o declínio do corpo com a idade, as categorias morais culpa e censura podem alterar significativamente o dia a dia do genero feminino e cada vez mais também o do masculino. A estética no domínio ideológico há muito já transcendeu o padrão, o cânon e a norma. A visão estética busca persistentemente descobrir e patentear novos tipos nas formas estereotipadas, combinar a luz, com as sombras, com o belo, com o feio, com o espaço, com o tempo. A única estética que eu me preocupe é ruga no rosto. Só isso (risos). [Ent. 19] 4.5.1.IDEAL ESTÉTICO Numa sociedade que adota a utopia do corpo perfeito, de viver intensas e mutáveis sensações, do fim da dor e da velhice e que proclama, como índice de felicidade, atingir o sucesso e o poder a qualquer custo, é natural o temor dos que vivem excluídos deste “nirvana”, pela idade avançada e/ou saúde debilitada. Se a sociedade de consumo fomenta idealizações - tudo pode e deve ser adquirido - gera conseqüentes frustrações e temores (Negreiros, 2011). As questões do corpo voltadas ao aspecto da estética encontram-se diretamente relacionadas com a cobrança de uma sociedade “eternamente 74 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS jovem”. Percebemos um conceito de beleza associado ao seu sentido de senso comum, onde a aparência e a forma do corpo remete a corpos onde músculos devem aparecer bem definidos. “Ah! Não. Se eu for ligar prá isso... não dá! É... ô... a mídia ela mostra hã... é... a cultura da magreza, cultura da... da... eu tenho celulites, eu tenho flacidez, mas... aneroxia... exatamente, então, eu não posso seguir de jeito nenhum. (suspiro fundo). É até maldade (risos) a gente ver aquelas reportagens maravilhosas e... não vamos atingir aquilo, a não ser algumas poucas privilegiadas, né? Ou, não. Eu não sei se isso é bom.” [Ent. 03] “... Nada específico não, eu queria ter uma perninha mais gordinha, pronto (risos), uma perninha mais... menos fininha (risos) que eu sou muito magra. Ah! A gente tendo uma vida mais saudável a gente fica um aspecto melhor, com certeza, mas eu sei que com a idade e... isso aí é... eu vou querer ter... cara de... de trinta, né? Que eu não vou ter nunca, né? (Risos)” [Ent. 20] “ É... Não é estar assim no modelo padrão de beleza, né? (risos) a forma física eu acho é estar com tudo... bem... funcionando, músculos, gi... é... pés até a cabeça tudo é harmonia, né? Não... agora um pouquinho só, mas eu entendo isso muito bem... trato isso muito bem (risos) não me atinge psicologicamente. [Ent. 14] “Não. Se eu quero fazer prá... prá meu bem estar nada com a mídia, nada a ver, é comigo mesmo. Se um dia eu quiser melhorar, fazer uma cirurgia de face (passando a mão no rosto) ou uma “hidro” (passando a mão na barriga e nos seios) seria prá mim mesmo, nada pela mídia. Esteticamente ou fis...? c Esteticamente (Pensativa) Eu faria uma “hidrolipo”. Perder um pouco de barriga... um pouco de vaidade, um pouco de necessidade... junto os dois.” [Ent. 08] Estudos relacionados com a satisfação corporal em pessoas com idade compreendida entre 22 e 62 anos, o que já abrange pessoas da terceira idade, mostrou que a relação que tinham com seus corpos revelaram que os homens tendiam a focalizar a funcionalidade enquanto que as mulheres tinham o seu 75 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS foco direcionado à aparência (Halliwell e Dittmar, 2003). Estes resultados podem auxiliar na compreeensão da insatisfação com o corpo, nas mulheres durante a velhice, tendo em vista que estas encaram o envelhecimento de forma negativa em função do impacto causado na aparência. Com o envelhecimento, como já foi referenciado por Balestra (2002), diversas modificações tanto no aspecto psicológico quanto no social, variando obviamente de uma pessoa para outra, pode afetar entre outras coisas, a autoimagem dos idosos. Ainda nos baseando no mesmo autor, podemos afirmar que alguns indivíduos não conseguem aceitar e conviver com essas mudanças e por não se adaptarem a elas, acabam por limitar suas possibilidades de comunicação e expressão na tentativa de uma melhor convivência social, isto porque as questões do corpo voltadas ao seu aspecto estético são amplamente divulgadas e propagadas pelos mais diversos meios de comunicação. “A sociedade cobra muito a beleza física, né? Muito, esteticamente, né? … não posso fazer nenhum tipo de cirurgia, mas teria vontade de fazer... uma... cirurgia abdominal e de mama. É... eu... eu... as pessoas cobram muito em relação a aparência, né?.” [Ent. 22] “Eu tenho... tenho que emagrecer mais um pouquinho... prá mim ficar satisfeita... chegar ao objetivo. Tirava o seio (segurou os seis rindo), a barriga (risos soltos). Só isso. Não... é que eu tenho muito seio e queria diminuir mais um pouco (risos), mas a coragem não deixa. Não... eu ia fazer uma plástica... mas a coragem não deixa.” [Ent. 04] O corpo contemporâneo nos parece ser mesmo a síntese concreta da velocidade das mudanças, característica do cenário sociocultural. A preocupação reside no fato de que, para se alcançar a imagem corporal ideal ou a que é cobrada pela sociedade remete para opções e/ou soluções mais radicais, não importantando portanto os meios para atingir esse ideal. É o caso da descontrolada disseminação das cirurgias plásticas e lipos. 76 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 4.5.2.PREOCUPAÇÃO COM A IMAGEM CORPORAL A imagem corporal, segundo Matsudo et. al. (2007) é a maneira pela qual o corpo se apresenta para cada um, ou seja, isto quer dizer que a imagem corporal é a representação mental que possuimos do nosso próprio corpo. Mesmo tendo essa imagem construída, somos influenciados pelos conceitos e valores da sociedade a qual pertencemos. “Ah! Com certeza, a mídia taí prá isso. A mídia é... (pensativa) não tenha dúvida... torna... torna o gordo... discriminado... é por causa de quê? Da... dessa... desse modelo... nem todos os gordos.... são doentes.” [Ent. 18] “Então... (pensativa) a minha imagem não... eu não olho no espelho e vejo às vezes tenho um pneuzinho (pressionou na lateral da cintura) É… é a única coisa é o pneuzinho (novamente o gesto de pressionar a lateral da cintura com os dedos) É. A barriga até que não, mas aqui (apontou para a cintura) os peitos também tá bom (segurou nos seios) bota o sutiã levanta, mas essa gordurinha aqui (sorrindo e segurando a lateral da cintura) Tirar esse pneuzinho (segurando na cintura) Operação nem pensar, lipo, nada disso. Mas a hidro eu não acho que vai tirar esta gordura, eu acho... eu não sei... (pensativa, olhando para o teto), eu já vi gente assim... é lógico que é menos, magrinha (pressionou os braços no tronco, com o anti braço flexionado) com idade com esse negocinho aqui (segurando a lateral da cintura) só que o meu podia ser menos, né? Não, eu não acho assim sabe por que? Se vou botar uma roupa assim, eu não gosto de uma roupa colada (ela passou as mãos no tronco) que mold... module o pneu, então, se eu vou botar um vestido mais soltinho eu tenho uma cintazinha que boto..., boto a cinta... entendeu?, eu já tenho as pernas grossas mermo... meu tornozelo é dessa grossura (mostrando o diâmetro com as mãos) que é italiano... herança, ai eu fico legal... eu acho (pensativa) eu me vendo eu acho legal (sorriso) os truquizinhos, né?” [Ent. 01] “Ah, claro que não! nenhum obeso tá satisfeito com o seu corpo (risos). 77 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Os peitos, (sorrindo, colocou as mãos nos seios e depois abriu os braços) é um “airbag” muito grande (sorrindo)”. [Ent. 5] “A sociedade cobra muito a beleza física, né? E... as ...as ... par... partes é sau... saúde também, né? Eu me sinto mal... eu me sinto mal... às vezes não gosto de me olhar. Eu quero... emagrecer, quero emagrecer, me sentir bem se for possível e se eu tiver coragem farei uma plástica na minha barriga”. [Ent. 07] 4.5.3.SATISFAÇÃO COM A IMAGEM CORPORAL O nosso corpo deve ser no sentido real da palavra, uma morada um lar e não um ergástulo, ouma prisão. A forma como o vemos e como com ele convivemos, deve ser estética, mas não no sentido insensível que populariza – se por agora. Os “diferenciados” do mundo estético tais como: os gordos, os baixos, os calvos, os flácidos, os pouco bronzeados, os velhos, são impercebíveis, ficamos cegos perante a sua presença, eles tornam-se ocultos aos nossos olhos (Lacerda, 2007). “Me sinto com força, me sinto disposta... e o meu corpo quando me olho no espelho... eu gosto.” [Ent. 13] Não obstante o corpo envelhecido tem um valor estético próprio, ele conserva a memória da vida por que passou, revela a história do ser do homem no mundo. Na esfera estética, o EF para os idosos terá que projetar para primeiro plano a categoria estético liberdade. O corpo idoso que pratica EF é mais livre, não por exibir, maior amplitude de movimentos, mais agilidade, mais equilíbrio, mais força, mas também porque é mais apto de conciliar a aparência com a essência. “Gosto e me sinto muito bem... me arrumar... para ir a academia... já começa aí todo o processo de satisfação me sinto bem”. [Ent. 13] “é claro... toda mulher se preocupa, magiiiina!!! (enfatizou sorrindo) Só que... não é exatamente este benefício, embora poder andar com mais desenvoltura, por fazer as coisas melhor, isto preocupa, mas, não é... não deixa de me preocupar com a vaidade não, é....” [Ent. 03] 78 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS “Se você olhar prá trás, a gente vai ficar não satisfeita, mas de olhar prá frente (risos) … estou satisfeita (risos).” [Ent. 14] “Tô. Tô sa... e mesmo depois ter sido operada. Eu fiz operação, tirei um seio (mostrou o seio esquerdo)... nem isso... me deu trauma nenhum pelo contrário aceitei numa boa...” [Ent. 16] Aqui a questão também fundamental, a importância de não parecer ou manter-se “gordinha” e ser colocada à margem da sociedade. O fato de ter perdido peso ou estar perdendo peso, está inserido no contexto de estar satisfeita com o corpo, eleva a autoestima e a confiança. “Você tando bem... eu infelizmente eu não estou bem na minha forma física (risos)... mas... quer dizer bem esteticamente. Emagrecer mais… eu tô evitando muitas coisas, sabe? Emagrecendo diminuindo... as guloseimas... que o idoso é muito guloso... nessa parte.” [Ent. 18] “Não pretendo ficar gordona, mas também tá bom meu peso. Prá mim tá bom.” [Ent. 16] Podemos perceber nos discuros acerca do Corpo Estético das idosas o que estudos realizados (Balestra, 2002; Monteiro, 2003; Tavares, 2003) relacionam a AF às melhoras nas percepções da imagem corporal dessa população, identificando-a como sendo uma importante aliada para um melhor entendimento por parte dos idosos sobre suas individualidades. Um outro estudo (Federici, 2004) verificou que para além de uma melhora na percepção do envelhecimento, os idosos que frequentaram um programa de AF, manifestaram uma percepção a mais, ou seja, modificações positivas na imagem corporal. Estes estudos são bastante relevantes uma vez que a imagem corporal possui uma característica dinâmica e mutável, pois retrata o corpo, como uma entidade que sofre constantes transformações, podendo por isto, ser reconstruída a partir de novas sensações que se somam às antigas. Outro ponto observado nos discursos nos remete à influência da mídia sempre presente em qualquer fase da vida. Mais uma vez comprovamos o que (Bedford & Johnson, 2006; Forman & Davis, 2005) constataram em seus 79 4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS estudos afirmando sobre a forte relação entre a mídia e a insatisfação com a imagem que se tem do corpo. 80 5.CONCLUSÃO 5 CONCLUSÃO PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro 81 5.CONCLUSÃO 5.CONCLUSÃO “… mas escrever nunca é tão fácil quanto possa parecer…” (Bogdan & Biklen, 2010) Ao chegarmos ao fim de um percurso, como o de tantos outros ao longo de nossas vidas, torna-se difícil fazer um balanço. Será que cumprimos os nossos objetivos inicialmente previstos? Será que de alguma forma nos afastamos deles irremediavelmente? Estas são questões que assolam quem quer que se arrisque a uma tarefa desta natureza. Quando dizemos arrisque, propositadamente, é porque sempre corremos alguns riscos, especificamente aquele de não atingirmos a meta. Quem participa de uma maratona, poderá ou não chegar ao fim, mas se o fizer, o percurcurso poderá ser mais ou menos fácil ou, mais ou menos sinuoso. De todas as formas, concluir é sempre terminar, encerrar, finalizar, mas também provar ou comprovar algo. Deste modo foi objetivo desta investigação fazer uma leitura axiológica do corpo de idosas na prática da hidroginástica, tendo por base práticas e discursos, ou seja, partindo de entrevistas efetuadas com praticantes desta modalidade e fazendo uma análise do seu conteúdo. Procuramos, por conseguinte, compreender o que pensam as entrevistadas acerca dos possíveis benefícios advindos da prática da hidroginástica. Apresentaremos as conclusões de uma forma parcial para cada um dos pontos estudados. Como as idosas percebiam seus corpos antes da prática da hidroginástica e como a hidroginástica ajudou-as a perceberem uma nova construção social. Pudemos notar nos discursos das entrevistadas, que durante o período em que ainda não praticavam a hidroginástica o corpo ao ser exigido, 82 5.CONCLUSÃO apresentava fadiga, se movimentavam com muita dificuldade, os movimentos eram reduzidos, foram manifestados sentimentos de descontrole sobre o corpo, algumas dificuldades no equilíbrio, falta de autoconfiança e consequentemente uma baixa autoestima. Outra manifestação recorrente, não tinham nenhuma confiança em se locomover e quase sempre se queixavam de dores, principalmente articulares, mais presentes nos joelhos, possuiam ainda pouca flexibilidade, comprometendo assim a QV. Possuiam uma vida social, que podemos considerar limitada sentindo – se normalmente solitárias e com uma comunicabilidade reduzida, uma vêz que suas interações com outras idosas eram bastante reduzidas, não havendo, assim, muita participação em atividades sociais. Quando analisamos as falas sobre como a hidroginástica ajudou-as na superação das limitações e/ou dificulades, pudemos entender e perceber que a atividade hidroginástica possibilitou elaborar uma identidade corporal diferente e renovada das mulheres idosas. Os discursos das entrevistadas apontaram para a conquista de um “outro corpo”, um corpo capaz de movimentar-se mais facilmente, todavia admitindo não desconhecer a presença de doenças e limitações, como situações inerentes ao processo de envelhecer, porém agora já admitindo ter um corpo mais preparado para enfrentar melhor estas adversidades. Portanto, percepções de um corpo que, sobretudo funciona. Constatamos também, através dos discursos que, a prática da hidroginástica proporcionou uma elevada sensação de bem estar, uma maior integração entre corpo e mente, favorecendo assim uma elevada autoestima e confiança readiquirida da autoimagem. Para, além disso, notamos ainda, uma exacerbada preocupação com a saúde, dada a importância e reconhecimento de que a hidroginástica proporciona - lhes, uma qualidade de vida melhor e mais saudável. Isto posto, podemos comprovar o que vimos na literatura, no que tange as dificuldades e limitações das pessoas idosas. Quais as consequências da prática da hidroginástica para a melhoria da qualidade de vida, da saúde e do convívio social. 83 5.CONCLUSÃO Pudemos mais uma vez constatar nos discursos das entrevistadas a valorização dispensada à prática da hidroginástica, visto que, a assiduidade em consequência dos benefícios advindos desta prática foram percebidos e sentidos fisicamente, implicando significativamente na QV que é sabido, um fator subjetivo e que depende única e exclusivamente da percepção do indivíduo de como está a sua vida em determinado momento, levando em consideração três aspectos básicos, qual sejam: físico, social e psicológico. Esses fatores foram determinantes para a percepção de bem-estar das idosas, influindo diretamente em suas qualidades de vida, em seus convívios sociais e familiares, o que uma vez mais foi possível caracterizarmos a aproximação existente entre o que a literatura nos apresenta e o que as idosas realmente sentem e pensam a respeito das possíveis modificações corporais que proporcionar-lhes-á o bem estar e satisfação pessoal. 5.1.CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES DE NOVOS ESTUDOS Resaltaremos aqui a oportunidade que tivemos de constatar uma significativa satisfação das depoentes, em relação ao tratamento dispensado pela professora para com as alunas. Esse contributo indubitavelmente tornouse um incentivo positivo e deveras relevante para a assiduidade e comprometimento das idosas na prática de uma AF no meio líquido, o que verdadeiramente auxilia a melhoria tanto nos aspectos biológicos, psicológicos quanto sociais e afetivos, assegurando a execução das atividades básicas do cotidiano, e inferindo positivamente na autonomia, que é fundamental para essa população, proporcionando desse modo uma notória melhoria na QV. Ao finalizarmos, gostaríamos de deixar registrado que, um trabalho desta natureza não nos permite estabelecer verdades absolutas e muito menos conclusões definitivas. Trata-se, antes e acima de tudo, apenas de mais uma abordagem exploratória com final em aberto, mesmo porque qualquer estudo referente ao “corpo” será eternamente uma obra inacabada. Tendo como base o estudo apresentado, sugerimos uma pesquisa comparativa entre idosas praticantes de hidroginástica de academias situadas na zona Norte, (bairro Tijuca), na zona Sul (bairro Copacabana) e na zona 84 5.CONCLUSÃO Oeste (bairro Barra da Tijuca), todas da cidade do Rio de Janeiro para comparar o que as depoentes podem apresentar principalmente no que tange a percepção de seus corpos e a QV. 85 6.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PERCEPÇÃO DA IMAGEM CORPORAL DE IDOSAS PRATICANTES DE HIDROGINÁSTICA Um estudo com idosas de uma academia da zona norte da cidade do Rio de Janeiro 86 6.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 6.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Aboarrage, N. (2008). Treinamento de força na água: Uma estratégia de observação e abordagem pedagógica. São Paulo, SP: Editora Phorte. Acosta, M. A. (2002). Contribuições para o trabalho com a terceira idade (p.152). Santa Maria, RS: Editora USFM Almeida, A. M. O., & Cunha, G. G. (2003). 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A pesquisadora Fernanda Augusta de Ameida Mendes (da Universidade Federal do Rio de Janeiro) pretende realizar um estudo com as seguintes características: Objetivo do estudo: Analisar a forma como as mulheres idosas percepcionam os seus corpos e as consequências da hidroginástica para o reposicionamento de identidades corpóreas das praticantes em uma academia situada na zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Descrição dos procedimentos para coleta de dados: A coleta de dados será feita apenas através de respostas a uma entrevista. Desse modo, entende-se que o risco de ocorrência de qualquer problema físico ou psicológico em razão de sua participação na pesquisa é mínimo. Além disto, cabe ressaltar que não haverá nenhum procedimento agressivo (injeção, esforço físico, etc.) ou ingestão de quaisquer medicamentos ou mesmo com aparência similar (igual). Benefícios aos participantes e para a sociedade: O presente estudo poderá beneficiar diretamente a informante, na medida em que poderá estimulá-la a compreender os aspectos relacionados às atividades sociais e principalmente relacionados ao bem estar físico e mental. Garantia de acesso aos pesquisadores: Em qualquer fase do estudo você terá pleno acesso aos pesquisadores responsáveis pelo projeto na Escola de Educação Física e Desportos, situado à Avenida Carlos Chagas Filho, 540, Cidade Universitária, Rio de Janeiro, RJ, ou pelos telefones 2562-6804; 9955-8089 Fernanda Mendes. Havendo necessidade, será possível, ainda, entrar em contato com o Comitê de Ética do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ, Rua Prof. Rodolpho Paulo Rocco, 255, 1º. Andar, Sala 01D-46, Cidade Universitária, Rio de Janeiro, RJ, ou pelo telefone 2562-2480, de segunda a sexta-feira, das 8 às 15 horas, ou através do e-mail: [email protected] Garantia de liberdade: Sua participação neste estudo é absolutamente voluntária. Dentro deste raciocínio, todos os participantes estão integralmente livres para, a qualquer momento, negar o consentimento ou desistir de participar e retirar o consentimento, sem que isto provoque qualquer tipo de penalização. Lembramos, assim, que sua recusa não trará nenhum prejuízo à relação com a pesquisadora ou com a instituição e sua participação não é obrigatória. Mediante a aceitação, espera-se que você responda a entrevista. Direito de confidencialidade e acessibilidade: os dados colhidos na presente investigação serão utilizados para elaborar artigos científicos. Porém, todas as informações obtidas através dessa pesquisa serão confidenciais e asseguramos o absoluto sigilo de sua participação. Os dados não serão divulgados de forma a possibilitar a identificação do participante e ninguém, com exceção da própria pesquisadora, poderá ter acesso aos resultados da pesquisa. Cada participante somente poderá ter acesso aos próprios resultados. Despesas e compensações: você não terá, em momento algum, despesas financeiras pessoais. As despesas, assim, se porventura ocorrer, serão de responsabilidade da própria pesquisadora. Também, não haverá compensação financeira relacionada à sua participação. Em caso de dúvidas ou questionamentos, você pode se manifestar agora ou em qualquer momento do estudo para explicações adicionais. Consentimento Eu, _________________________________________________________, acredito ter sido suficientemente informada a respeito das informações sobre o estudo acima citado. Declaro, assim, que discuti com a Prof.ª. Fernanda Augusta de Almeida Mendes sobre minha decisão em participar desse estudo. Ficaram claros para mim quais são os objetivos do estudo, os procedimentos a serem realizados, seus desconfortos e riscos, as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Ficou claro também que minha participação é isenta de despesa. Concordo, voluntariamente, em participar desse estudo e poderei retirar o meu consentimento a qualquer momento, antes ou durante o mesmo, sem penalidade ou prejuízo ou perda de qualquer benefício que eu possa ter adquirido em seu atendimento nesta instituição. Eu receberei uma cópia desse Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e a outra ficará com a pesquisadora responsável por essa pesquisa. Além disso, estou ciente de que eu (ou meu representante legal) e a pesquisadora responsável deveremos rubricar todas as folhas desse TCLE e assinar na ultima folha. Rio de Janeiro, Nome Data: ___ / ___ / ______ Assinatura do informante Data: ___ / ___ / ______ Assinatura do pesquisador ANEXO 2 – APROVAÇÃO DO CONSELHO DE ÉTICA DA UFRJ ANEXO 3 –ROTEIRO DAS ENTREVISTAS Roteiro Para as Entrevistas 1. Praticava alguma atividade física antes da hidroginástica? Qual? 2. O que a levou a buscar a aula de hidroginástica? 3. Você pretende atingir algum tipo de objetivo com a prática da hidroginástica? Qual? 4. Você tem algum ideal estético a atingir? 5. O que é o corpo para você? 6. O que você entende por forma física? 7. Com que frequência você frequenta a academia? Quanto tempo você fica na academia? 8. Desde quando você faz hidroginástica? 9. A sua frequência é regular desde que começou? 10. A sua imagem corporal preocupa-lhe? Há alguma parte do seu corpo que lhe incomoda? 11. Como você percebe (sente) o seu corpo? 12. Você está satisfeita com o seu corpo? 13. Se você pudesse, mudaria alguma coisa no seu corpo? De que forma? 14. Você sofre influência da mídia no que se refere ao corpo? 15. A sua aparência facilita a sua relação com os outros? 16. Mudou alguma coisa em você depois que começou a praticar a hidroginástica? 17. Agrada-lhe o esforço físico ou é um sacrifício? 18. Você pensa em parar de praticar a hidroginástica? Por que? 19. Você deixa outras coisas de lado para vir à academia? O que ? 20. Você conversa com os amigos durante a aula de hidroginástica? 21. Duas grandes razões para vir à academia? 22. Gostaria de dizer mais alguma coisa sobre o que conversamos? ANEXO 4 – POST SCRIPTUM Em mais uma homenagem ao meu amado pai! Texto retirado dos seus escritos: Envelhecer Bastos Tigre Entra pela velhice com cuidado, Pé ante pé, sem provocar rumores Que despertem lembranças do passado, Sonhos de glória, ilusões de amores. Do que tiveres no pomar plantado, Apanha os frutos e recolhe as flores Mas lavra ainda e planta o teu eirado Que outros virão colher quando te fores. Não te seja a velhice enfermidade! Alimenta no espírito a saúde! Luta contra as tibiezas da vontade! Que a neve caia! o teu ardor não mude! Mantém-te jovem, pouco importa a idade! Tem cada idade a sua juventude.