UFPB – PRG _____________________________________________________________X ENCONTRO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA 4CCHLADHMT03 O ENSINO DE HISTÓRIA NA CONTEMPORANEIDADE: A EXPERIÊNCIA DA MONITORIA E OS DESAFIOS DA SALA DE AULA (1) Ana Carolina Strapação Guedes Vianna , (3) (3) Regina Maria Rodrigues Behar , Paulo Giovani Antônio Nunes Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes / Departamento de História / MONITORIA. RESUMO O trabalho ora apresentado pretende, relatar a experiência de Monitoria na disciplina de História do Brasil III. O projeto de Monitoria do Departamento de História da UFPB se intitula “História – A Capacitação para o Ensino e a Formação Multidisciplinar do Historiador”. Tendo esse projeto como base e refletindo sobre o objetivo geral da disciplina de História do Brasil III possibilitar a compreensão do Brasil contemporâneo a partir de suas origens republicanas, considerando os imperativos de ordem econômica, social e política que marcaram nossa história entre 1889 e 1945 – a professora orientadora desse projeto formulou a seguinte proposta de trabalho para os períodos de 2006.1 e 2006.2: “Roteiros históricogeográficos do Brasil Republicano”. Palavraschave: Ensino de História, Material Didático, Roteiros históricogeográficos e Geografia Histórica. INTRODUÇÃO Esse artigo pretende, relatar a experiência de Monitoria na área de História, no âmbito do projeto de Monitoria do Departamento de História da UFPB, intitulado “História – A Capacitação para o Ensino e a Formação Multidisciplinar do Historiador”, com ênfase nos conhecimentos adquiridos sobre o Ensino de História na contemporaneidade objetiva, além de apresentar e explanar brevemente a cerca da atividade de Monitoria na disciplina de História do Brasil III. SOBRE O ENSINO DE HISTÓRIA E A EXPERIÊNCIA DA MONITORIA O oficio do Historiador tem como um dos seus pressupostos o olhar para o passado a partir do presente, assim é necessário que o profissional conheça muito bem o seu próprio tempo. Atualmente, mesmo vivendo em uma sociedade em que a lógica do mercado se sobrepõe ao social, nosso tempo se mostra complexo e fértil, munido das mais diversas espacialidades e temporalidades, o que significa ampliação das possibilidades de abordagem. Com essa nova reordenação do mundo que temos vivido atualmente, o Conhecimento Histórico também vem passando por drásticas mudanças, tanto epistemológicas, quanto teóricas e metodológicas. Atualmente, se vê no campo da História o (re)surgimento, por exemplo, de memórias individuais, assim como coletivas, que antes se encontravam relegadas. Portanto, o foco atual não é e não está somente no macro, mas também no micro. Esse novo modo de “fazer” História tem desestruturado as formas unidimensionais e consequentemente simplistas de ver e trabalhar a História. Trabalhar no sentido multidimensional é mais adequado frente à vasta complexidade social de toda e qualquer época. Isso ainda dá continuidade à abertura e conseqüente alargamento dos campos da História: História Cultural, História das Mentalidades, História Social. Além disso, a contemporaneidade exige que o Historiador trabalhe não somente o tempo espaço macro, mas também com as várias escalas e ritmos temporaisespaciais na perspectiva de melhor compreender o atual mundo globalizado. A aproximação entre os diversos campos do saber, no sentido interdisciplinar, e também o fato de por muito tempo as Ciências Sociais terem usado procedimentos metodológicos das __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ (1) (3) Monitor(a) Bolsi sta(a); Prof(a) Orientador (a)/Coordenador(a). UFPB – PRG _____________________________________________________________X ENCONTRO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA Ciências da Natureza, têm trazido à tona discussões a cerca da Metodologia da História e suas especificidades. Essa crítica ao cientificismo e à questão da interdisciplinaridade, influi na construção do Conhecimento Histórico. A narrativa histórica está cada vez mais próxima da narrativa literária e da linguagem do cotidiano. As fontes históricas também sofreram mudanças diante da possibilidade de podermos contar com fontes visuais e sonoras, por exemplo. Também é importante salientar que a sociedade atual exige e promove a reaproximação e rearticulação dos vários campos do saber com o objetivo de integrar esse atual mundo globalizado, o que influencia na construção do Conhecimento Histórico. Assim, nessa perspectiva, é necessário que o Historiador saiba como problematizar o passado e o presente através de determinadas metodologias de realizar a “Operação Histórica” a partir da narrativa. Faz parte do oficio do Historiador incentivar as pessoas para o exercício da temporalidade, “oferecer referenciais para a pessoa se tornar capaz de construir conhecimentos e, com eles, operar no seu tempo histórico, gerando novos conhecimentos para as gerações pósteras.” (SILVEIRA, 2004, p. 7), o que assegura seu direito ao passado e a possibilidade de se identificar como agentes históricos. Assim, todo historiador é também educador e não mero reprodutor de “dados históricos”, como muitos pensam ainda. Das duas principais áreas de atuação do historiador, a pesquisa científica e a educação, ambas são educativas. A construção do conhecimento se faz entre o historiador, portador de signos de seu próprio tempo, e sua relação com os vestígios da passagem dos homens sobre a Terra, registrados nos mais variados tipos de documentação. A produção do conhecimento é uma prática social e é educativa quando a narrativa resultante do processo de pesquisa, além de trazer as intenções de seu autor ao realizála, traz também seu compromisso com a História. Mesmo que o pesquisador não socialize diretamente sua obra, ela é sempre passível de apropriação, por tanto de assimilação e conseqüente transmissão por e através de terceiros. O historiador também pode ser responsável pela transmissão direta do conhecimento. O professor vai se distinguir do pesquisador, na medida em que sua relação com outros agentes, por exemplo, o educando, se torna concreta. Esse tipo de socialização é indispensável para a reprodução e produção de novos conhecimentos. Mas, tanto para a produção quanto para a socialização do conhecimento é necessário que haja comunicação, a educação se dá somente mediante a comunicação e a socialização promovendo assim a Cultura Histórica “que nos situa, nos localiza, nos identifica, material e simbolicamente, e de onde nos movemos, nos fazemos e refazemos historicamente.” (NÁDER, SILVEIRA e BRANCO, 2006, p. 17). A noção de Cultura Histórica pode ser percebida a partir de duas dimensões : Saberes Históricos e Conhecimento Histórico. Todos temos e somos produtores e socilizadores dos Saberes Históricos, pois é parte integrante da Cultura no sentido mais vasto, é memória social, relação entre o Homem e a Natureza, entre o Homem e o próprio Homem no tempo, “transmitindo os tempos passados para os tempos futuros.” (NÁDER, SILVEIRA e BRANCO, 2006, p. 10). Conhecimento Histórico, contudo, é uma especialidade da Cultura Histórica, cujos profissionais são qualificados e preparados, para produzir e socializar esse conhecimento: os historiadores, que “são os guardiões do tempo. [...], portanto, os comunicadores do tempo social, com o tempo, no tempo [...]” (NÁDER, SILVEIRA e BRANCO, 2006, p. 17). A escola é espaço dos conhecimentos organizados, é espaço educativo e socializador da Cultura Histórica. E é na escola que a Historiografia, por exemplo, uma das especialidades da Cultura Histórica, encontra o lugar mais adequando para a sua construção, socialização e reconstrução. UFPB – PRG _____________________________________________________________X ENCONTRO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA É nela que se ensina (ou deveria ensinar) não só os conhecimentos já disponíveis, mas os procedimentos de como aprender, de como construir os conhecimentos, sistematizálos a partir da herança cultural e transformálos pela ação dos agentes educandos, reconstruindo os.” (NÁDER, SILVEIRA e BRANCO, 2006, p. 11) Nessa perspectiva, a Monitoria pretende preparar o graduando para a prática em sala de aula, dandolhe a oportunidade de perceber e assim, poder melhor trabalhar com as adversidades, mas também aproveitar as possíveis eventualidades que podem oferecer boas perspectivas de ação educacional. No caso do Ensino de História é importante que o profissional domine o conceito de Cultura Histórica e saiba como não somente socializar o Conhecimento Histórico, como também incentivar e ensinar a sua produção, mesmo diante das dificuldades do calendário escolar. Além disso, é esperado do monitor que ele desenvolva uma postura adequada para a sala de aula e também, sua capacidade comunicativa no sentido de desenvolver a sua habilidade e ação pedagógica. A prática da Monitoria permite ainda que o monitor desenvolva sua intuição permitindolhe perceber e explorar situações atuais e do cotidiano com o objetivo de aprofundar e instigar a reflexão a cerca de um determinado conteúdo a ser trabalhado em sala de aula. No caso do profissional de História, é necessário que ele seja capaz de fazer a ponte entre passado e presente, envolvendo acontecimentos e questões da atualidade e da vida cotidiana e os conteúdos da disciplina, que dizem respeito, sobretudo ao passado. SOBRE OS ROTEIROS HISTÓRICOGEOGRÁFICOS DO BRASIL REPUBLICANO E A EXPERIÊNCIA DE MONITORIA NA DISCIPLINA DE HISTÓRIA DO BRASIL III Tendo como base o projeto de Monitoria do Departamento de História da UFPB que se intitula “História – A Capacitação para o Ensino e a Formação Multidisciplinar do Historiador” e refletindo sobre o objetivo geral da disciplina de História do Brasil III possibilitar a compreensão do Brasil contemporâneo a partir de suas origens republicanas, considerando os imperativos de ordem econômica, social e política que marcaram nossa história entre 1889 e 1945 – a professora orientadora desse projeto formulou a seguinte proposta de trabalho para os períodos de 2006.1 e 2006.2: “Roteiros históricogeográficos do Brasil Republicano”. A elaboração desses roteiros históricogeográficos tem como principal objetivo a “discussão temática dos eventos históricos, utilizando como estratégia didática a elaboração de mapas temáticos que possibilitem acompanhar o desenvolvimento dos temas de forma a garantir a apreensão dos conteúdos e discussão teórica, vinculandoos às dimensões de temporalidade e espacialidade”, além da confecção de um CDROM que contenha imagens, mapas e textos explicativos e que se destine a ser utilizado como material didático em sala de aula. Dentre os muitos conteúdos trabalhados na disciplina de História do Brasil III, dois foram escolhidos por mim, monitora da disciplina, para a elaboração dos roteiros: A Coluna Prestes e A Revolta da Vacina. Até o momento somente o primeiro tema está em fase de finalização e o segundo ainda se encontra em fase de elaboração. Os procedimentos metodológicos são basicamente: o levantamento bibliográfico, incluindo além de livros, também periódicos, dicionários históricos e a internet, o levantamento de imagens cartográficas, fotográficas e iconográficas e posteriormente, a confecção de mapas que possibilitam exatamente o diálogo interdisciplinar com a geografia e a elaboração dos roteiros. UFPB – PRG _____________________________________________________________X ENCONTRO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA A QUESTÃO INTERDISCIPLINAR ENTRE A HISTÓRIA E A GEOGRAFIA Para a elaboração dos roteiros históricogeográficos acima descritos, é necessário um diálogo interdisciplinar entre a História e a Geografia. No entanto, para que tal diálogo aconteça é necessário conhecer os objetos de estudo de cada uma dessas áreas e suas especificidades. No caso da História é imprescindível saber que ela não se limita somente à apreciação de acontecimentos e sua relação com o tempo, mas também e principalmente, objetiva identificar e compreender as ações humanas, fruto e conseqüência de processos do pensamento consciente, no tempo. A Geografia trabalha com fenômenos que em seu “conjunto formam os aspectos da superfície da terra [...]” (PHILO apud GREGORY, MARTIN, e SMITH, 1996, p. 272). Tais fenômenos podem ser observados a olho nu, ou através de aparelhos ou mesmo com o auxílio da estatística. Esse diálogo entre História e Geografia é possível devido à origem comum dessas duas ciências. No momento em que se buscavam os limites e as fronteiras entre as ciências, se estabeleceu a separação analítica entre a História como ciência das relações de tempo e a Geografia como a de relações espaciais. Sobre isso, disserta Kant: A descrição em conformidade com o tempo é História, a que está de acordo com o espaço é a Geografia [...]. A História difere da Geografia apenas na consideração de tempo e área. A primeira é um relato de fenômenos que seguem um ao outro e têm relação com o tempo. A segunda é um relato de fenômenos um ao lado do outro no espaço.” (KANT apud PHILO apud GREGORY, MARTIN, e SMITH, 1996, p. 273). Contudo, a partir da segunda metade do século XX, estudiosos se preocupam em discutir o relacionamento entre a História e a Geografia e a realizar o diálogo e a troca entre ambas. Dessa forma, surgem a Geografia Histórica e a História Geográfica. Na década de 50 definiuse que a História Geográfica estava no campo de trabalho do historiador, que buscava através do emprego de seus próprios métodos, fazer uso da Geografia que existe por trás da História, com o principal objetivo de localizar com exatidão a seqüência de acontecimentos pela qual ele se interessa. A Geografia Histórica por sua vez era de responsabilidade do geógrafo que desejava reconstruir a geografia do passado, a História da paisagem. No entanto, essa é uma visão ultrapassada e limitadora. Atualmente não existe mais distinção entre essas duas subdisciplinas, existe somente a Geografia Histórica que possibilita que tanto geógrafos quanto historiadores façam uso da História e da Geografia em maior ou menor grau, conforme a necessidade, para auxiliar e mesmo construir seus estudos. “[...] a complexa geografia do mundo está estreitamente ligada com o que acontece em sua história. Eu poderia desenvolver esta alegação em diversas direções, mas meu argumento principal aqui é que a importância da geografia histórica é fazer com que uma sensibilidade geográfica seja introduzida no estudo de todos esses fenômenos do passado [...].” (PHILO apud GREGORY, MARTIN, e SMITH, 1996, p. 270). No caso da construção dos roteiros históricogeográficos o uso de um recurso típico da Geografia, o mapa, é imprescindível. Tanto no caso da Coluna Prestes quanto na Revolta da Vacina, o recurso cartográfico não é importante somente para localizar os eventos espacialmente, mas também para que através da análise do mapa físico seja possível identificar e compreender como o relevo, a hidrografia ou o clima, por exemplo, interferem nas ações humanas e de que forma os agentes desses dos dois fatos históricos a cima mencionados, se relacionaram com o espaço e dele fizeram uso a seu favor ou por ele foram derrotados. UFPB – PRG _____________________________________________________________X ENCONTRO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA CONCLUSÃO Nesse início de século é necessário que o historiador seja sensível e aberto no sentido de problematizar o mundo atual, atue como intermediador entre os mortos e os vivos na perspectiva de construir narrativas e compreenda que seu oficio é o de educador e como educador é agente histórico, juntamente com seus educandos. O historiador deve buscar ainda ser mediador “reduzir dissonâncias de coisas ou acontecimentos/fatos heterogêneos, no caso, entre passados e presente. [...] Ser mediador significa, portanto, tomar partido (o mediador é um inventor), podendo sugerir à compreensão relações diversas entre o presente e os passados: relações que se excluem, se incluem e/ou se implicam, numa correia de transmissão intertemporal [...]” (SILVEIRA, 2004, p. 10). Em relação á monitoria e à confecção dos roteiros históricogeográficos, a partir de sua realização e utilização didática, chegamos à conclusão que a elaboração de um material didático específico e adequado muito auxilia na prática em sala de aula, além de permitir o diálogo interdisciplinar, nesse caso entre a História e a Geografia, mas que pode se dar também entre outras áreas do conhecimento. REFERÊNCIAS PHILO, Chris: História, Geografia e o mistério ainda maior da geografia histórica, In: GREGORY, Derek. MARTIN, Ron e SMITH, Grahan (Orgs.). Geografia Humana: Sociedade, Espaço e Ciência social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1996. NÁDER, Alexandre; SILVEIRA, Rosa Maria Godoy e BRANCO, Uyguaciara Veloso Castelo. Historiadores: Os Filhos que Cronos não devorou (razão histórica e meditações educativas). Anais eletrônicos do XII Encontro Estadual de Professores de História / “História e Multidisciplinaridade: Fronteiras e Deslocamentos”. Universidade Federal de Campina Grande, Campus de Cajazeiras – PB, de 23 a 28 de Julho de 2006. SILVEIRA, Rosa Maria Godoy. Conferência: A formação do Profissional de História para o século XXI. XI Encontro Estadual dos Professores de História (Associação Nacional de História/Núcleo Regional da Paraíba).