PROFT em Revista
ISBN 978-85-65097-00-0
Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2011
Vol. 2, Nº 1 Junho de 2012
QUE SEJA ETERNA ENQUANTO DURE: A
TRADUÇÃO ENQUANTO ATO COMUNICATIVO E O
VALOR DAS RETRADUÇÕES
RESUMO
Renato Railo
Bacharel em Filosofia (USJT)
Bacharel em Biblioteconomia (USP)
Tradutor italiano > português
Nos estudos tradutológicos contemporâneos, é bastante difundida a
visão da tradução enquanto ato comunicativo, entendendo-a como
responsável por permitir a superação do bloqueio existente entre
autores e leitores, devido às variantes linguísticas e extralinguísticas de
ambos. Diante disto, o objetivo deste artigo será o de analisar o papel
das retraduções enquanto atualização do ato comunicativo autor/
leitor, procurando compreender se, considerando este aspecto, estas são
mais aptas em relação às traduções precedentes. Para tal estudo, a
metodologia empregada foi revisão de literatura das áreas de Tradução
e Linguística e estudo de caso qualitativo realizado a partir da análise
contrastiva de duas traduções brasileiras de uma mesma obra do
filósofo italiano Benedetto Croce, separadas temporalmente por mais de
50 anos. A conclusão a que se chegou é a de que as traduções mais
recentes facilitam a comunicação, uma vez que o ato tradutório está
inserido no contexto presente (ou, pelo menos, mais próximo deste), o
que permite a sugestão de que traduções de obras já traduzidas no
passado devem ser incentivadas, pois contribuem para uma maior
disseminação da informação e do conhecimento com menos ruídos,
além de propiciar novas possibilidades profissionais aos tradutores e às
editoras
Palavras-Chave: Tradução – comunicação; Tradução – cultura;
Retradução; Tradução italiano – português; Filosofia italiana
ABSTRACT
This article examines the role of retranslations as communicative act
between author/ reader, trying to understand if retranslations are more
apt than previous translations. The methodology used was a literature
review of Linguistic and Translation Studies and a qualitative case
study carried out from the contrastive analysis of two Brazilian
translations of the same work of the Italian philosopher Benedetto
Croce. The conclusion reached is the retranslation makes
communication easier, because the act of translation is inserted in the
current historical context
Renato Railo
Contato:
[email protected]
Keywords: Retranslation; Communication; Culture; Italian-Portoguese
translation; Italian philosophy
1
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
INTRODUÇÃO
Um dos mais conhecidos sonetos de Vinícius de Moraes é o Soneto de fidelidade1. Nele,
Vinícius abordou o tema do amor de certa forma inovadora, uma vez que, além de demonstrar
seu amor pela mulher amada, como tantos o fizeram anteriormente, dizendo-lhe, por exemplo,
o quanto lhe é caro, não negou a consciência de que, como tudo na vida, também este amor
chegaria um dia ao fim.
Segundo Lyra (1983, p. 22), este soneto representa “uma formulação que se tornou
popular e clássica, pela condensação da verdade psicológica do desejo de fruição e fixação do
momento feliz”. Ampliando a abordagem, Villaça (2009, p. 101) diz que “essa marca nostálgica
liga-se, na poesia de Vinícius, a uma promessa (e desejo) da forma permanente e garantida que,
no entanto, de súbito se dissipa”, sendo que “tal anseio de infinitude, representado no espaço
contido e no tempo momentâneo [...] parece ajustar-se plenamente ao voo impetuoso mas breve
do soneto”.
Não se pretende aqui realizar uma análise acurada deste poema, até pelo fato de que
muitos já a fizeram com muito mais propriedade; porém, duas considerações podem ser feitas:
a primeira é sobre a possível intenção de Vinícius de transmitir a ideia de que, por mais que
fosse atento à sua amada, o que demonstra o seu desejo de viver esse amor intensamente, não
se iludia em relação à duração do mesmo, ao considerar que, inevitavelmente, um dia
apresentar-se-iam ou a morte, ou a solidão. Desta forma, não seria possível considerar este
amor como imortal, já que, como uma chama, naturalmente se apagaria um dia, o que,
entretanto, não impede e não exclui a possibilidade de “que seja infinito2 enquanto dure”, isto é,
que seja desfrutado enquanto existir.
A segunda observação é a de que, segundo os estudiosos acima citados, Vinícius obteve
êxito ao escolher o soneto como composição propícia para transmitir o amor, enquanto
sentimento e representação – já que, embora incomensurável, era ao mesmo tempo finito,
respectivamente. Assim, centrando-se na exata equivalência entre os signos escolhidos e a
combinação entre eles, capaz de permitir que sua mensagem fosse bem compreendida por sua
amada, o poeta recorreu a uma estrutura que levasse em conta todos estes elementos,
favorecendo assim a justa comunicação.
Desta forma, a partir desta breve análise do poema é possível concluir o seguinte: a fim
de que uma determinada mensagem atinja sua função de transmitir determinada (s)
informação (s), constituindo assim o ato comunicativo, é necessário que determinados
1
De tudo, ao meu amor serei atento; Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto; que mesmo em face do maior encanto; Dele se
encante mais meu pensamento/ Quero vivê-lo em cada vão momento; E em seu louvor hei de espalhar meu canto; E rir meu riso
e derramar meu pranto; Ao seu pesar ou seu contentamento/ E assim quando mais tarde me procure; Quem sabe a morte, angústia
de quem vive; Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa lhe dizer do amor (que tive):; Que não seja imortal, posto que é
chama; Mas que seja infinito enquanto dure (MORAES, 1946).
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requisitos sejam considerados por parte daquele que foi solicitado a transmitir/ compartilhar
tal mensagem, sendo que estes requisitos não devem pautar-se somente por aspectos
linguísticos, mas também extralinguísticos, baseando-se, portanto, não só na interpretação e
codificação da mensagem por parte do emissor/ solicitado, mas também na noção de que estas
ações devem ser efetuadas visando a possibilidade de decodificação da mesma pelo receptor/
solicitante – a fim de que este a compreenda.
Esta tarefa não compete, no entanto, somente aos poetas, mas a todos os indivíduos que
tenham por intenção transmitir/ trocar/ disponibilizar informações. Em termos de profissão,
algumas se destacam por possuírem este mister, tais como a de jornalista, a de bibliotecário e a
de tradutor. Referindo-se especialmente a este último, pode-se dizer que a conclusão acima
exposta encontra correspondência direta àquilo que atualmente se entende por tradução3. Isso
porque, nos estudos tradutológicos contemporâneos, é bastante difundida a visão do ato
tradutório enquanto ato comunicativo, uma vez que o primeiro ato pode agir como instrumento
facilitador de intercâmbio entre culturas, sociedades e indivíduos, responsável por, como bem
disse Aubert (1993), permitir a superação do bloqueio existente entre autores e leitores devido
às variantes linguísticas e extralinguísticas de ambos, favorecendo, assim, a comunicação.
Esta visão da tradução apresenta-se como diversa da definição outrora considerada
como ideal da mesma, a de fidelidade4 – ao menos se esta última for compreendida enquanto
tradução ipsis litteris. Afinal, a fidelidade, se é que existe, não se configura enquanto literalidade5
linguística, pois outros aspectos devem ser levados em conta, tais como, além das
especificidades de cada língua e da relação entre ambas, as especificidades de cada cultura, de
cada sociedade e, naturalmente, dos objetivos a que se deseja atingir com a tradução – e não só
os da editora como também do público-alvo. Refletindo sobre estes procedimentos e aplicandoos sempre que necessário, crê-se que traduções adequadas possam surgir enquanto produto de
um processo consciente que tenha por finalidade romper com o bloqueio parcial ou total da
comunicação.
Mas a noção de que, durante a tradução, não se deve prender-se em demasia somente às
dificuldades linguísticas não significa a total desconsideração destas; pelo contrário, como
dizem Lotman e Uspensky (1978, p. 213), “[...] language is molded into a more general system of
culture and, together with it, constitutes a complex whole”6. Neste sentido, deve-se analisar o todo, o
que, de certa forma, assemelha-se ao modelo de tradução proposto por Eco (2010, p. 10),
2
Que não tem limite; imenso, incalculável; grandeza cujos valores não são limitados (HOUAISS, 2009).
Ao se mencionar tradução durante todo o texto, a menos que se mencione o contrário, a modalidade a que se faz referência é a
interlingual, no sentido proposto por Jakobson (1991a, p. 65), isto é, “tradução propriamente dita”, que “consiste na
interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua.”
4
Característica do que é fiel; que dá mostras de lealdade; que dá mostras de exatidão (HOUAISS, 2009).
5
Qualidade do que é literal; que reproduz exatamente, palavra por palavra (HOUAISS, 2009).
6
“A língua é moldada dentro de um sistema de cultura mais geral e, junto com esta, constitui um todo complexo.” (T. A.)
3
3
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
quando este utiliza o termo negociação para tratar das diversas instâncias as quais o tradutor
deve atentar-se – e também ao de Aubert (1993, p. 10), quando este demonstra que o tradutor,
se num primeiro momento, é o receptor/ solicitante, num segundo é o emissor/ solicitado e
deve, portanto, ter em mente quais são serão seus possíveis leitores.
Neste sentido, se Vinícius, ao utilizar o vocábulo fidelidade o fez em sentido restrito, já
que esta, segundo a situação por ele proposta, só se dará até certo ponto, também na tradução a
fidelidade há certo limite. Não só em relação ao fato de que a tradução é também interpretação,
como também ao fato de que, enquanto interpretação, ela carrega em si marcas dos contextos
aos quais está inserida (cultural, social, linguístico etc), ao mesmo tempo em que, numa relação
dialética, imprime sua marca nestes contextos – situação esta em que a negociação entre
diferentes esferas se faz necessária.
Diante do exposto, o objetivo deste artigo será o de analisar o papel que as retraduções
desempenham enquanto atualização do ato comunicativo autor/ leitor, procurando
compreender se, considerando o aspecto comunicativo, as novas traduções são mais aptas em
relação às traduções precedentes a atingir esta finalidade.
Além de uma revisão de literatura, far-se-á uma análise contrastiva qualitativa de duas
traduções da obra Breviario di Estetica, de Benedetto Croce, tendo-se escolhido para tal duas
traduções brasileiras da obra em questão separadas por mais de 50 anos, com o objetivo de
refletir sobre a problemática exposta.
Tradução e comunicação
Antes que seja feita a abordagem da retradução especificamente, considera-se necessário
definir a própria tradução. Obviamente que estas poucas linhas não serão suficientes para tratar
exaustivamente de um tema tão complexo, porém julga-se que tal exposição, ainda que breve,
será satisfatória em relação à abordagem proposta.
Em primeiro lugar, quando na introdução se fez menção aos estudos tradutológicos
contemporâneos, levou-se em conta para tal o fato de que nem sempre o ato tradutório foi
entendido enquanto ato comunicativo. Pelo contrário, em muitos períodos históricos esta
atividade foi vista, para usar os termos de Bassnett (2003, p. 21), “como um processo mais
‘mecânico’ do que ‘criativo’”, sugerindo assim a ideia do tradutor enquanto servo, dependente
e/ ou imitador do “texto original”. Já em outros períodos, coexistiu certa dicotomia, geralmente
marcada entre aqueles que defendiam a primazia do conteúdo, e aqueles que valorizavam mais
a forma.
Segundo a autora acima citada, a tradução é uma invenção romana, e, citando Horácio e
Cícero, diz que para estes “a arte do tradutor consistia numa interpretação ponderada do texto
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fonte [língua de partida; LP] para produzir uma versão na língua de chegada [LC]”, baseada no
princípio de “exprimir não palavra por palavra, mas sentido por sentido” (Idem, p. 83).
Devido à dificuldade de definir esta ponderação, tal dilema percorreu séculos e
favoreceu a adoção de diversos pontos de vista na tentativa de resolvê-lo – como no caso dos
contemporâneos Dante Alighieri e Roger Bacon, uma vez que o primeiro se preocupava mais
com a “acessibilidade que a tradução proporciona”, enquanto que o segundo detinha-se mais
com a problemática da perda (Ibidem, p. 95).
Ainda na tentativa de solucionar o problema salientado acima, ora uma visão se
sobrepunha à outra, como aconteceu, por exemplo, durante o Renascimento, período em que,
segundo Bassnett, a tradução não era vista “como atividade secundária”, já que por vezes “a
figura do tradutor parece quase mais a do ativista revolucionário do que a do servo de um
autor ou texto original (Ibidem, p. 103)”. Em contrapartida, “o conceito vigente no século XVIII,
do tradutor como pintor ou imitador com um dever moral quer para com o autor original, quer
para com o leitor da tradução estava bastante generalizado”, a ponto de, se por um lado,
Goethe “postula um novo conceito de ‘originalidade’ em tradução a par da existência de
estruturas profundas universais que o tradutor deve empenhar-se em descobrir”, por outro esta
abordagem pode conduzir a uma “teoria da intraduzibilidade” (Ibidem, p. 109). Devido a esta
dificuldade de se determinar esta “estrutura universal”, aliada a outros fatores históricos,
desenvolveu-se no século XIX a “ênfase exagerada na precisão técnica e ao conseqüente
pedantismo das traduções” (Ibidem, p. 114), que por conseqüência não leva em conta o leitor, já
que deste se esperava que se deparasse “com a obra tal como ela é, enfrentando, através da
estranheza do texto traduzido, a “estrangeireza” da sociedade que originalmente produziu o
texto” (Ibidem, p. 117).
Cabe dizer que esta situação permite que se a entenda não só como uma concepção
elitista de cultura – que, por sinal, permaneceu até meados do século XX – mas também que se
defina o termo ruído comunicacional; afinal, utilizando-se da situação proposta por Eco (2010, p.
9-10), para quem seria absurdo se um tradutor, por exemplo, diante da expressão inglesa it’s
raining cats and dogs (que em português brasileiro tem por equivalência está chovendo canivetes,
isto é, está chovendo muito), traduzisse-a por piove cani e gatti, (já que a expressão justa em
italiano seria ou piove a catinelle, ou piove come Dio la manda), nota-se que ao invés de demonstrar
fidelidade ao texto de partida o que se faz é prejudicar a compreensão pelo leitor da
comunidade de chegada, uma vez que a escolha por estruturas semanticamente inexistentes na
língua de chegada não significarão absolutamente nada para este leitor – ocasionando ruídos na
comunicação. Obviamente que, por exemplo, no caso de uma estória de ficção científica
traduzir por “chove cães e gatos” não deixaria de ser verossímil; porém, este é mais um
exemplo de que o contexto em sentido amplo deve ser considerado durante a tradução.
5
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
O exemplo de Eco é apenas um dos inúmeros possíveis e capazes de ilustrar a mudança
que vem ocorrendo desde as últimas décadas no entendimento do que seja a tradução e de
quais sejam seus objetivos, já que agora esta vem sendo relacionada ao conceito de ato
comunicativo, que se dá entre indivíduos de comunidades linguísticas e extralinguísticas
diversas. Portanto, na esteira de Scarpa (2008, p. 79), conclui-se que
La traduzione è in definitiva un’operazione di riformulazione 7 di un testo in
una lingua A in un altro testo in una lingua B dopo aver stabilito una
gerarchia tra le diverse soluzioni traduttive possibili e aver scelto quella più
adatta alla specifica situazione comunicativa in cui avviene la traduzione.8
Desta forma, entende-se que a tradução não é (ou não deve ser) uma “cópia fiel do
original”, mas sim um novo texto, que para existir, naturalmente, baseia-se em um outro, mas
que possui certa independência deste, escrito de forma a atender determinada demanda. Isso
está de acordo com Aubert (1993, p. 10), quando este diz que “toda tradução é motivada por
uma necessidade ou por um conjunto de necessidades, subjetivas e/ ou objetivas, individuais
e/ ou coletivas”, necessidades estas que se manifestam sempre que “venha a ocorrer um
bloqueio parcial ou total na relação comunicativa emissor-receptor e que possa ser atribuído a
interferências provocadas pela variação linguística”.
Que não se pense, no entanto, que Aubert propôs que somente a variação linguística
interfere na comunicação, uma vez que, segundo o próprio autor,
“[...] um sotaque, um arcaísmo, um jargão, um cacoete de expressão; o
analfabetismo absoluto ou funcional de um dos participantes da relação
emissor/ receptor; um pronunciado diferencial de motivação entre tais
participantes; uma efetiva diferença de conhecimento ou de ponto de
vista sobre o referente; uma marcada discrepância de domínio do
código empregado; (...) pode levar a uma ruptura da relação
comunicativa” (Idem, p. 11-12).
Ou seja, para este autor “a língua incorpora em sua estrutura formal e em seu uso social
e histórico todo um repositório cultural, antropológico, imagético, que delineia um primeiro
quadro de apreensão e expressão do mundo”, que por sua vez são difíceis de “serem
reencontrados na mesmíssima configuração de valores em outro idioma” (Ibidem, p. 40). Ou
como diz Blikstein (1985, p.80), ao realçar o caráter dialético da relação língua-cultura: “embora
a significação dos códigos verbais seja tributária, em primeira instância, da semiose não verbal,
é praticamente só por meio desses mesmos códigos verbais que podemos nos conscientizar da
7
Em português, reformulação, ato de reformular; formular de novo, dar nova formulação (HOUAISS, 2009).
A tradução é definitivamente uma operação de reformulação de um texto escrito em uma língua A para um outro em língua B,
após o estabelecimento de uma hierarquia entre as diversas soluções tradutórias possíveis e a escolha da mais adequada referente
àquela circunstância comunicativa específica (T. A.).
8
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significação escondida na dimensão da práxis”, o que por conseqüência faz com que “a semiose
não verbal só pode ser explicada pela língua”.
É por isso que, ao traduzir, isto é, usando as palavras de Aubert (1993, p. 16), “ao
produzir um novo texto tendo por referência um outro, manifestam-se diferenças diacrônicas
marcantes, não apenas de natureza linguística como também de natureza referencial, de visão
de mundo”. Portanto, o bloqueio comunicativo abarca
“as variações que se apresentam em uma (cor) relação geográfica
(línguas, dialetos, falares regionais), passando pelas variações
temporais (dialetos diacrônicos), sociais (socioletos), individuais
(idioletos), de canal (escrita/ fala) e até as circunstanciais (condições de
produção da mensagem numa determinada situação” (Idem, p. 11).
Aqui pode surgir uma pergunta: se tudo isso for verdade, a tradução não seria então
impossível? Aubert diz que não, uma vez que, ao abordar o ato tradutório enquanto ato
comunicativo, o primeiro está no nível da parole (fala), e não da langue (língua) (Ibidem, p. 30).
Em outras palavras, partindo da tradicional dicotomia proposta por Saussure, se no segundo
terreno inexiste a sinonímia completa, no primeiro o que existe são “[...] duas mensagens [...]
visando fins comunicativos similares, que se aproximam o suficiente [...] para que uma seja
percebida como sendo a tradução – a equivalência – da outra” (Ibidem, p. 32). Isso permite o
entendimento de que “a natureza de cada código resulta em soluções diferentes, não paralelas,
não espelhadas, conforme a direção adotada no ato tradutório em questão” (Ibidem, p. 34).
Dito isso, longe de resolver um problema, criou-se outro: como definir o que é
equivalência, já que o novo texto é independente do primeiro e a fidelidade não existe? Ainda
seguindo o pensamento de Aubert, “não se pode exigir uma fidelidade àquilo que é por
definição inacessível [...], [isto é] a mensagem pretendida do emissor original” (Ibidem, p. 75).
Assim, conclui que “a matriz primária da fidelidade há de ser, por imposição dos fatos, a
mensagem efetiva que o tradutor apreendeu enquanto um entre vários receptores do texto
original”. Mas somente isso não basta; no
“ato de comunicação interlingual, é de se esperar que o tradutor tenha
[...] – em grau passível, é verdade, de certa variação, conforme a
intencionalidade do ato tradutório – um compromisso de fidelidade
com as expectativas, necessidades e possibilidades dos receptores
finais, ou, mais apropriadamente, com a imagem que tal tradutor se faz
de tais” (Ibidem).
Semelhante proposta faz Bassnett, ao dizer que “o problema da equivalência envolve
[...] a utilização e a percepção do objeto num dado contexto” (2003, p. 44), sendo, portanto,
tarefa do tradutor “[...] encontrar uma solução até para o mais intimidante dos problemas”
7
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
(Idem, p. 71). Ou como diz Eco (2010, p. 10): “dire quasi la stessa cosa è un procedimento che si pone,
come vedremo, all’insegna della negoziazione.”9
Novamente, entretanto, novos questionamentos se impõem: seguindo a proposta de
Aubert, como definir esse compromisso de fidelidade para com os receptores finais? Ou, na
esteira de Bassnett, como encontrar uma solução para os problemas intimidantes? Ou ainda, o
que vem a ser esta negoziazione proposta por Eco?
Não se crê que tais perguntas possam ser facilmente respondidas sem que antes se
compreenda de forma mais precisa e acurada o que se entende por comunicação. Embora,
porém, existam inúmeras definições, abordar o tema até a exaustão configurar-se-ia como uma
atividade insana, razão pela qual adota-se aquela que não só permite a coesão textual e
argumentativa do texto, como também a que se considera como filosoficamente adequada.
A comunicação, para Pignatari (1991, p. 16), “significa partilha de elementos ou modos
de vida e comportamento, por virtude da existência de um conjunto de normas”. Os elementos
que constituem esta partilha podem ser ilustrados pelo modelo proposto por Jakobson (1991b,
p. 123), para o qual existe comunicação quando
“O remetente envia uma mensagem ao destinatário. Para ser eficaz, a
mensagem requer um contexto a que se refere (...), apreensível pelo
destinatário, e que seja verbal ou suscetível de verbalização; [isso exige]
um código total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário
(ou, em outras palavras, ao codificador e ao decodificador da
mensagem); e, finalmente, [deve existir] um contato, um canal físico e
uma conexão psicológica entre o remetente e o destinatário, que os
capacite a ambos entrarem e permanecerem em comunicação.”
Importante aqui é ressaltar que, neste modelo, “os interlocutores pertencentes à mesma
comunidade linguística podem ser definidos como os usuários efetivos de um único e mesmo
código linguístico [...], que fundamenta e possibilita efetivamente a troca de mensagens” (1991c,
p. 77-78), sendo que “um processo de comunicação normal opera com um codificador e um
decodificador. O decodificador recebe uma mensagem. Conhece o código. A mensagem é nova
para ele e, por via do código, ele a interpreta” (1991d, p. 23). A tradução, portanto, aqui poderia
ser vista como responsável por estabelecer a comunicação através de um código (língua)
comum.
Mas ao mesmo tempo em que este modelo esclarece os principais agentes e processos
envolvidos na comunicação, pode-se considerá-lo como limitado à luz dos estudos
tradutológicos, pois não considera os dois atos comunicativos envolvidos na tradução. Como
diz Aubert (1993, p. 10-11), o modelo de Jakobson é o primeiro ato comunicativo, isto é,
momento em que o tradutor lê a obra que posteriormente será traduzida. Em outras palavras,
9
“Dizer quase a mesma coisa é um procedimento que se dá segundo o princípio de negociação.” (T. A.)
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nesta etapa o emissor é o autor; o receptor o tradutor; o código é a língua de partida; o contato
se dá pelo suporte (livro, artigo etc); a mensagem é o conteúdo de sua obra; o contexto é o do
autor. Já o ato tradutório, por sua vez, configura-se como um segundo ato comunicativo (Idem),
uma vez que: o emissor é o tradutor; o receptor é o leitor da língua/ cultura de chegada; o
código é a língua de chegada; o contato se dá também por algum suporte; a mensagem é a
interpretação da obra de partida feita pelo tradutor; o contexto deve ser o da cultura de
chegada.
Assim, nas palavras do próprio Aubert (Ibidem), “trata-se, portanto, de uma segunda
relação comunicativa, que se substitui à primeira ou que, de alguma forma, a complementa”,
sendo que este novo ato comunicativo “se fundamenta numa relação de equivalência, ou seja,
as mensagens geradas no primeiro e no segundo atos comunicativos mantêm entre si certo grau
de correspondência”.
Considera-se este ponto como fundamental, pois ele permite a seguinte conclusão:
embora exista correspondência10, “[o texto de partida e de chegada] são, por necessidade,
diferentes em um ou mais aspectos (caso contrário não se efetiva uma substituição11 e sim mera
reiteração12, geralmente inócua)” (Ibidem, p. 11). E, se são diferentes, “a fidelidade, assim, seria o
equilíbrio entre a tendência à alteridade e a procura pela identidade” (Ibidem, p. 75-76),
respondendo assim à questão feita acima sobre o compromisso de fidelidade.
Já em relação ao questionamento surgido da proposta feita por Eco de negociação, este
se torna mais complexo a partir do momento em que se soma a ele a dúvida quanto ao
equilíbrio proposto no parágrafo anterior por Aubert. Para elucidá-lo, deve-se recorrer ao
próprio Eco (2010, p. 94), para o qual “[...] non si dice mai la stessa cosa”13, uma vez que
“l’interpretazione che precede ogni traduzione deve stabilire quante e quali delle possibili conseguenze
illative che il termine suggerisce possano essere limate via”14. Porém isso não é tudo, já que o próprio
Eco diz que interpretar não é traduzir15; assim, fora a interpretação (que em sua ótica se dá em
vários níveis), é preciso considerar que
“la fedeltà è piuttosto la tendenza a credere che la traduzione sia sempre
possibile se il testo fonte è stato interpretato con appassionata complicità, è
l’impegno a identificare quello che per noi è il senso profondo del testo, e la
10
Similitude (HOUAISS, 2009).
Substituição como sinônimo de troca, transformação (ARROJO, 1986, p. 42), bem diverso da ideia de transferência.
12
Aubert, embora siga os preceitos de Jakobson, difere-se deste, uma vez que, como o mesmo diz, sua “a ênfase primeira é posta
no aspecto comunicativo do ato tradutório” (1993, p. 12), não aceitando, portanto, a tradução como paráfrase proposta pelo autor
russo, pois isso, de certa forma, poderia originar a noção de intraduzibilidade.
13
“Nunca se diz a mesma coisa.” (T. A.)
14
“A interpretação que antecede cada tradução deve estabelecer quantas e quais das possíveis consequências inferidas que o
termo sugere podem ser descartadas.” (T. A.)
15
Aqui, Eco faz referência especialmente às três espécies de tradução propostas por Jakobson.
11
9
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
capacità di negoziare a ogni istante la soluzione che ci pare più giusta”
16(Idem, p. 364).
Portanto, pode-se inferir deste trecho que além de identificar aquilo que se considera
como essencial (que de certa forma configura-se como interpretação), é necessário saber
transmiti-lo, negociando com os diversos elementos envolvidos no processo com o objetivo de
tomar decisões coerentes. É por isso que a tradução não é e não pode ser um ato mecânico e/ ou
automático, pois nem sempre (ou quase nunca) é possível adotar a mesma escolha em
traduções diferentes.
É neste sentido que Bassnett reitera que “não vale a pena pugnar por uma tradução
definitiva, uma vez que a tradução está intimamente ligada ao contexto em que é produzida”
(2003, p. 32). Segundo a mencionada pesquisadora, “[...] qualquer avaliação de uma tradução só
pode ser feita tendo em conta quer o processo da sua criação quer a sua função num dado
contexto” (Idem). Assim, crê-se que a última questão em aberto (a dos problemas intimidantes)
tenha sido respondida.
No entanto, a um olhar desatento esta ideia pode apresentar-se como contraditória, uma
vez que, em tese, devido a esta instabilidade que o tradutor apenas ameniza, poder-se-ia “cair”
novamente na noção de intraduzibilidade; Aubert (1993, p. 41), no entanto, esclarece este ponto
ao dizer que “[...] na “brecha” das instabilidades [...] institui-se um primeiro espaço de
reelaboração, coletiva e individual, para a percepção e para o reconhecimento, ainda que, na
origem, enviesada, da alteridade cultural, linguística, de visão de mundo”. Desta forma, o erro
de tradução ocorreria quando houvesse falha “de equivalência linguística e referencial e
impropriedade de ordem comunicativa”, isto é, falta de sintonia entre a intenção comunicativa
do tradutor em relação aos receptores, cuja solução “deve ser procurada a partir da avaliação
do todo” (Idem, p. 82).
O interessante é que, sob este ponto de vista, ou seja, excluindo o caráter de fidelidade/
reiteração da tradução, e considerando a relevância que os aspectos extralinguísticos
desempenham na mesma – ainda que não se trate da tradução de dois sistemas semióticos, mas
de duas obras fechadas que carregam elementos externos a si – é possível não só compreendê-la
enquanto ato comunicativo, cujo papel central está na figura do tradutor, que deverá saber
negociar – ou “administrar conflitos” (Ibidem, p. 85) – entre as várias possibilidades de
tradução, dependendo das circunstâncias que se lhe apresentam, como é possível também
compreender os estudos de tradução não mais, como bem diz Bassnett (2003, p. 19-20), como
“um mero ramo da Literatura Comparada ou uma área específica da Linguística”, mas sim
16
“A fidelidade é preferivelmente tida como a crença de que a tradução é sempre possível desde que o texto de partida seja
interpretado com apaixonada cumplicidade; é o empenho à identificação daquilo que para nós é o sentido profundo do texto e a
capacidade de negociar a cada instante a solução que nos parece mais acertada.” (T. A.)
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como “disciplina de direito próprio”, que se constitui como “um vasto e complexo campo de
estudos com ramificações de grande alcance”, sendo, portanto, necessária a abordagem de
“fenômenos linguísticos e extralinguísticos que ocorrem no processo tradutório”. Isso permite
que se estabeleçam relações entre os estudos de tradução e outras áreas disciplinares, tais como
“a Estilística, a História Literária, a Linguística, a Semiótica e a Estética” (Idem, p. 28), visão esta
reforçada por Scarpa (2008, p. 79):
“Di conseguenza la lingua non è il fine ultimo ma soltanto uno strumento per
la riformulazione, la linguistica contrastiva è soltanto uno strumento per
aumentare la capacità del traduttore di identificare e risolvere i problemi di
traduzione e, più in generale, la linguistica è uno strumento per produrre
giudizi e valutare in modo motivato il prodotto finale dell’attività
traduttiva.”17
Se por um lado, até aqui, esclareceu-se dúvidas, por outro se criou outras. O que se
considera produtivo até, uma vez que o papel da ciência não é fornecer respostas, mas sim
dúvidas, pois é a partir destas que se chega a novas descobertas – e assim por diante. Assim, foi
dito anteriormente que o ato tradutório é um ato comunicativo, cabendo então a necessidade de
consideração de aspectos linguísticos e extralinguísticos envolvidos neste ato para que seu
objetivo de transmitir informação e, quem sabe, permitir a produção de conhecimentos, fosse
alcançado. Isso, porém, a princípio, poderia sugerir a ideia de que traduções antigas deveriam
ser descartadas, uma vez que são produtos de momentos histórico-culturais determinados.
Afinal, se a tradução não é atemporal, qual a utilidade desta assim que novas cheguem ao
mercado? Em outras palavras, poder-se-ia dizer que com o passar dos anos e as consequentes
mutações sociais, culturais e linguísticas, a tradução se tornaria, do ponto de vista
comunicativo, anacrônica, por apresentar ruídos decorrentes do uso de palavras já em desuso,
gramática arcaica, modismos ora desconhecidos etc? Em caso afirmativo, como definir este
“prazo de validade”? Espera-se que estas perguntas possam ser respondidas a partir da análise
da retradução.
Retradução e atualização do ato comunicativo
Milton e Torres (2003, p. 9) alertaram para o fato de que “little theoretical attention has
been paid to the subject of Retranslation and Adaptation”18. Em relação ao primeiro ponto,
especificamente, também ressaltou Faleiros (2009, p. 145), ao dizer que “apesar de ser uma
prática tão corrente, ou mais, do que a própria tradução, devido ao constante interesse
17
“Concluindo, a língua não é o fim último, mas somente um instrumento para a reformulação; a linguística contrastiva é
somente um instrumento para aumentar a capacidade do tradutor de identificar e resolver problemas de tradução; e, de forma
mais geral, a linguística é um instrumento para emitir juízos e avaliar de maneira detalhada o produto final da atividade
tradutiva.” (T. A.)
18
“Pouca atenção teórica tem sido dada ao estudo da retradução e da adaptação.” (T. A.)
11
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
comercial e acadêmico pelos textos canônicos, a retradução tem sido objeto de poucas análises”,
o que é inexplicável devido à sua “riqueza e complexidade, pois a retradução é a reapropriação
de uma obra já traduzida, acrescentando-lhes novas leituras e relevos por meio da reescritura
da reescritura”.
Neste sentido, além de abarcar todas as questões relacionadas à tradução, a retradução
também engendra novas. Para Faleiros (Idem, p. 146-147), a tradução abrange pelo menos
quatro grandes práticas: a) “tradução indireta”; b) “retradução como autocorreção”; c)
“retradução como crítica”; d) “crítica da retradução poética”.
O primeiro caso trata-se da “tradução de um texto a partir de uma outra tradução já
realizada para uma língua de maior divulgação” (p. ex., a tradução francesa de um texto em
finlandês que serve de base para uma tradução em português); já o segundo caso configura-se
como retradução de uma tradução indireta (ou seja, um texto em finlandês é traduzido para o
francês, sendo este último traduzido para o português, mas que, devido ao fato de uma nova
edição francesa ter surgido, uma nova tradução em português é feita, p. ex.); o terceiro caso é o
de uma “nova tradução em função de traduções já existentes” (como p. ex., um texto em
finlandês foi traduzido para o português no início do século XX e esta tradução serve de base –
ou de consulta – para uma nova tradução, realizada no ano 2000); por fim, a quarta prática,
ainda segundo Faleiros, “abarca as três anteriores” e “está relacionada a uma discussão sobre a
historicidade do traduzir” (Ibidem).
Não se pretende aqui adentrar por demais nestas tipologias; o que se pode dizer, no
entanto, é que, segundo Faleiros, em especial referência a este último tipo,
“a retradução, por lidar com um universo discursivo já historicizado,
encontra-se numa posição crítica privilegiada, que lhe permite e, em
certo sentido, obriga a constituir-se em função de um diálogo
temporalmente e retórico-formalmente marcado” (Ibidem, p. 148).
Neste sentido, ao citar Gambier19, o autor acima citado destaca que dentre as razões para
se retraduzir estão:
dar visibilidade a partes suprimidas de uma obra; [...] tratar de algum
contrassenso; remediar um eventual ‘peso’ no estilo; provar uma
destreza de algum tradutor; atender a interesses comerciais de uma
determinada editora” (Ibidem, p. 149 apud GAMBIER, 1994).
Fora isso, o estudioso diz ainda que, em relação ao envelhecimento das traduções,
“Gambier destaca que suas causas são múltiplas, como o surgimento de uma nova edição; a
19
GAMBIER, Y. La retraduction, rétour et détour. Meta, Montreal, v. 39, n. 3, p. 413-417, 1994.
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transformação dos meios de interpretação [...] além de, certamente, a baixa qualidade da
tradução ou de suas retraduções” (Idem).
Ou seja, levando-se em conta os aspectos acima descritos, pode-se inferir que uma
tradução não é, portanto, atemporal. Entretanto, pode-se dizer que, à luz das contemporâneas
teorias tradutológicas, um aspecto impera sobre os demais (e, de certa forma, contempla-os, ao
menos os três primeiros tópicos) na escolha do momento em que a tradução de um texto já
traduzido deve ser feita: a atualização do ato comunicativo. Isso porque, como se viu, uma
determinada tradução, realizada num período temporalmente distante, pode conter, em relação
à contemporaneidade, ruídos dos mais diversos, representados por palavras em desuso,
gramática arcaica, modismos ora “fora de moda” etc, que, em seu conjunto, podem dificultar a
leitura e a comunicação autor/ leitor. E, bom que se diga, essa atemporalidade não é
característica única da tradução, mas como disseram Lotman e Uspensky (1978, p. 215),
“Every culture creates its own model of the lenght of its existence, of the
continuity of this memory. This model corresponds to the concept a given
culture has of the maximum span of time practically comprising its
‘eternity’”20.
Neste sentido, fica clara a ideia de que não só a tradução mostra-se como eterna enquanto
dure, mas a própria cultura que a insere – e que dela recebe influência.
Análise contrastiva: duas traduções brasileiras de Breviario di Estetica
De forma a ilustrar a explanação teórica feita até aqui, será feito agora uma análise
contrastiva de duas traduções brasileiras da obra Breviario di Estetica, do filósofo italiano
Benedetto Croce, separadas temporalmente por mais de 50 anos. Procurar-se-á, com este estudo
de caso qualitativo, aspectos capazes de demonstrar se a comunicação autor da LP/ leitor da
LC se mostra como mais adequada, considerando os dias atuais. A primeira tradução foi
realizada por Miguel Ruas, para a Atena Editora, sem data (embora, acredita-se, tenha sido
realizada entre 1914 e 1945); a segunda é a versão da Editora Ática, de 2001, cuja tradução
coube a Rodolfo Illari Jr. Já o texto de Croce em italiano utilizado como referência foi o
publicado pela Gius. Laterza & Figli, 12ª edição, de 1954.
Não se pretende realizar aqui uma biografia completa de Croce, embora se considere
que linhas gerais sobre sua obra possam ser interessantes. Benedetto Croce (1866-1952) nasceu
na província italiana de Abruzzo e é considerado um dos maiores representantes da filosofia
italiana de todos os tempos. Isso devido, principalmente, ao conjunto de sua obra, que abarca
13
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
diversos temas, tais como Filosofia, História, Literatura, Estética etc. Foi também político,
representante do liberalismo. Um de seus mais destacados críticos foi Antonio Gramsci (1991,
p. 219), para quem Croce foi um “leader intellettuale delle tendenze revisionistiche degli anni 1900.”21
Fora isso, diz também que “Il Croce è riuscito a ricreare nella sua personalità e nella sua posizione di
leader mondiale della cultura quella funzione di intellettuale cosmopolita quasi collegialmente dagli
intellettuali italiani del Medio Evo [...]”, que por sua vez “[...] lo inducono ad assumere sempre
atteggiamenti di carattere temporaneo ed episodico [...]”22 (Idem, p. 309).
Como dito anteriormente, este estudo é de natureza qualitativa, o que significa dizer
que, após a explanação geral do problema, segue-se com a coleta de dados determinados,
utilizando-os como objeto de estudo para que, a partir da interpretação dos resultados, cheguese a uma conclusão. Os dados coletados são palavras e/ ou frases presentes nas duas traduções
brasileiras acima descritas, tendo por objetivo concentrar-se na análise das relações semânticolexicais das mesmas enquanto elementos textuais, procurando compreender se a comunicação
autor/ leitor é prejudicada pela tradução mais antiga em relação a mais recente e ilustrar alguns
exemplos disso.
Além disso, cabe dizer que a presente análise não pretende emitir juízos de valor em
relação às obras enquanto traduções – o que demonstraria total contradição com as ideias
expostas anteriormente – mas, se algum juízo for emitido, será somente em relação às obras
enquanto suporte informacional favorável à comunicação. Outra consideração a se fazer é a do
conhecimento de que para uma análise contrastiva que tenha por objetivo comparar duas
traduções de uma mesma obra, mostra-se como relevante (senão indispensável) a consideração
de quais versões/ edições do texto de partida dos quais tais traduções se basearam. No entanto,
isso não será considerado aqui, pois, como se disse antes, não se tem por intenção realizar uma
análise valorativa em termos de tradução comparada.
Para tal, montou-se abaixo a Tabela 1, sendo que: na primeira coluna, encontra-se o
texto na língua de partida, utilizado como referência; na segunda, está a tradução mais antiga;
na terceira, a tradução mais nova; e, na quarta, constam observações, sobretudo à tradução mais
antiga, uma vez que o que se pretende é verificar se esta ainda cumpre com sua função
comunicativa.
20
“Cada cultura cria o seu critério de vigência de sua própria existência, de permanência de sua memória. Esse critério
corresponde ao conceito que uma determinada cultura tem de sua extensão temporal praticamente compreendendo sua
eternidade.” (T. A.)
21
“Líder intelectual das tendências revisionistas dos anos 1900.” (T. A.)
22
“Croce conseguiu recriar na sua personalidade e na sua posição mundial de líder da cultura aquela função de intelectual
cosmopolita de maneira quase idêntica a dos intelectuais italianos da Idade Média [...] que lhe induz a assumir sempre posições
de caráter provisório e episódico”. (T. A.)
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1) Texto de partida
(1954)
Breviario di
Estetica (título)
2) Trad. Miguel
Ruas (s/d)
Breviario de
Estetica (título)
3) Trad. R. Illari Jr.
(2001)
Breviário de
Estética (título)
“[...] nel noto
proverbio francese
[...]” (p. 6).
“[...] no conhecido
proverbio francez
[...]” (p. 10).
“[...] no conhecido
provérbio francês
[...]” (p. 32).
“[...] che un pittore
sarebbe piú grande se
non sciupasse la sua
forza di disegnatore
[...]” (p. 38).
“[...] Non già, si
baldi bene, che la
potenza intuitiva
ceda il luogo a
un’altra potenza,
quasi per turno di
piacere [...]” (p. 65).
“[...] que um pintor
seria maior se não
esperdiçasse a sua
força de desenhista
[...]” (p. 38)
“[...] Não que, notese bem, a potencia
intuitiva ceda o
lugar a uma outra
potencia, quasi por
turno de prazer
[...]” (p. 62).
“[...] que um pintor
seria maior se não
desperdiçasse sua
força de desenhista
[...]” (p. 54).
“[...] Não é que,
note-se, que a
potência intuitiva
deixe seu lugar
para outra
potência, como
num revezamento
[...]” (p. 74).
“E ora che si è
raggiunto il primo
piano, sorge subito,
dietro di esso, il
secondo [...]” (p. 65).
“E agora que se
alcançou o
primeiro plano,
surge subitamente,
de detraz dele, o
segundo [...]” (p.
62).
“[...] perché niente
sembra all’uomo
del volgo piú saldo
e sicuro che il mondo
fisico; ma a noi non
“[...] porque nada
se afigura ao
homem do vulgo
mais solido e
seguro do que o
23
4) Observações23
Atualmente,
‘Breviário’ e
‘Estética’ são
acentuados.
‘Francês’,
atualmente, leva
acento circunflexo
no ‘e’ e seu sufixo
termina com ‘s’. Já
‘provérbio’ é
acentuado.
Embora sinônimos,
é mais usual
atualmente o verbo
‘desperdiçar’.
O adv. italiano
quasi possui por
equivalente o adv.
‘quase’, que
descende do latim
quasi (sin. de ‘do
mesmo modo que’,
‘como’). ‘Quasi’,
em português, não
existe.
“E agora, alcançado
O adv. “detrás” é
o primeiro plano,
formado pela prep.
surge
‘de’ + adv. ‘trás’
imediatamente,
(com ‘s’ e acento no
‘a’) e pode ser
atrás dele, o
substituído, no
segundo [...]” (p.
caso, por ‘atrás’
73).
(prep. ‘a’ + adv.
‘trás’, sin. de
‘após’). O ‘de
detraz’ configurase não só como
redundância
(preps. ‘de’ + ‘de’ +
adv. traz’), como
sua raiz terminada
em ‘z’ é arcaica.
“[...] porque nada
A primeira
parece mais sólido passagem é confusa
(o ‘mais sólido e
e seguro ao homem
seguro’ se refere a
do vulgo do que o
algo em relação ao
mundo físico. Mas
Todas as observações foram feitas a partir de consulta ao Houaiss (2009) e sempre se refere ao português brasileiro corrente.
15
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
è dato, in sede di
verità [...] (p. 13).
mundo físico; mas
a nós não nós
dado, em lugar da
verdade [...]” (p.
16).
“[...] a noi giova ora,
invece, gettarle tutte
via, come ostacoli
al nuovo lavoro al
qual ela nuova
orientazione teórica
c’invita [...]”. (p. 36).
“[...] a nós nos
convém, agora,
atira-las todas fóra,
como obstaculos
novo trabalho a
que a nova
orientação teorica
nos convida [...]”
(p. 37).
a nós não é dado,
quando se discute a
verdade [...]” (p.
36).
‘homem’ ou é este
que é ‘sólido e
seguro’?). Na
segunda,
provavelmente
trata-se de erro de
digitação.
Falta, talvez, do
artigo
preposicionado
‘ao’, ou falta de
revisão. ‘Fora’ não
se acentua mais.
“[...] a nós
interessa, neste
momento, jogá-las
fora todas, como
obstáculos para o
novo trabalho ao
qual nos [...]
convida a nova
orientação teórica
[...] (p. 53).
Tabela 1 – Análise contrastiva de duas traduções da obra Breviario di Estetica
Considerações finais
Conclui-se, portanto, que as traduções mais recentes apresentam-se como mais aptas em
relação às precedentes, consideradas enquanto atos comunicativos, uma vez que o ato
tradutório está inserido no contexto histórico-social-cultural hodierno (ou pelo menos mais
próximo deste), configurando-se como mais adequado em relação à cultura de chegada e às
expectativas do público-alvo atual. O ato comunicativo, neste sentido, atualiza-se e facilita a
interação autor/ leitor. Importante dizer, no entanto, que isso não é culpa da antiga tradução,
bem como não é do tradutor; a culpa, se é que se pode dizer assim, é do próprio tempo, uma
vez que o grupos sociais (e todas as suas manifestações) estão em constante mudança.
Entendido isso, de forma alguma se pretende sugerir que antigas traduções possam e/
ou devam ser descartadas; afinal, antes de qualquer coisa, estas possuem valor histórico
inegável, podendo servir a vários propósitos, tais como: obra de referência e consulta a
pesquisadores e demais interessados em estudar como determinado tradutor traduziu
determinado texto, em determinado momento histórico; obra de referência e consulta àqueles
que se interessarem em realizar uma análise diacrônica da língua de chegada, comparando a
tradução mais antiga com a mais recente; obra de exposição enquanto documento
historicamente datado e, portanto, digno de preservação e conservação; obra de interesse de
bibliófilos e demais colecionadores etc. Além, obviamente, do fato inegável de que por n razões
(de natureza subjetiva, p. ex.) elas possam ser mais estimadas do que as suas sucessoras.
Como disse Faleiros (2009, p. 152), a retradução “não opera um apagamento da tradução
anterior, ao contrário, acrescenta outra camada interpretativa, adensando o tecido discursivo de
uma determinada obra no sistema da língua-cultura receptora”. Assim, ao se propor que as
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retraduções devem ser incentivadas, não se o faz por princípios evolutivos capazes de sobrepôlas às traduções precedentes, mas tão somente porque, para o público da comunidade de
chegada em questão, a retradução se mostra como mais adequada, uma vez que foi elaborada a
partir dos valores culturais, sociais, morais, éticos, linguísticos etc desta mesma comunidade ou
historicamente mais próximos a esta. Já em relação às precedentes, ao invés de serem
descartadas (por bibliotecas, p. ex.:) devem ser conservadas adequadamente e disponibilizadas
a quem por elas solicitar – ainda que, dependendo do caso, seja necessário fazê-lo de forma
controlada e restrita, já que, afinal, pode-se tratar de um patrimônio cultural.
Quanto às retraduções especificamente, além de enriquecer a comunidade de chegada,
como dito antes, estas podem significar novas oportunidades de trabalho para os tradutores,
além de, naturalmente, novas possibilidades comerciais às editoras que, além do ganho
financeiro, poderão propiciar emprego a uma série de profissionais que indiretamente atuarão
na publicação desta nova obra.
Por fim, como último ponto a se considerar neste trabalho, cabe dizer que a escolha do
vocábulo eterno24 para compor o título deste artigo, em detrimento ao “original” infinito, não foi
ao acaso, pois caso se optasse literalmente pelo verso Que seja infinita enquanto dure, a
compreensão da mensagem proposta por este artigo seria dificultada, uma vez que o que se
pretendeu aqui não foi abordar a imensidão ou a grandeza da tradução – embora de certa
forma isso esteja presente ao realçar sua figura de relevância social – mas primordialmente o
seu caráter de finitude, isto é, sua permanência restrita (temporal e culturalmente falando)
enquanto ato comunicativo.
Pode-se dizer, portanto, que as traduções devem perdurar o quanto assim pretender as
comunidades em constante transformação
Como citar:
RAILO, Renato. Que seja eterna enquanto dure: a tradução enquanto ato comunicativo e o valor
das retraduções. PROFT em Revista: Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2011, v. 2, n. 2, p.
1-21. jun. 2012.
24
Fora do tempo, sem início ou fim; sinonímia de permanente: que permanece no tempo, durável (HOUAISS, 2009).
17
Que seja Eterna enquanto Dure: a Tradução enquanto Ato Comunicativo e o Valor das Retraduções
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