AS CONCEPÇÕES DE AVALIAÇÃO E DE CONHECIMENTO MATEMÁTICO – POSSÍVEIS REFLEXOS NA ELABORAÇÃO DE RELATÓRIOS AVALIATIVOS SILVA∗, Maria José da – UFMT [email protected] DARSIE∗∗, Marta Maria Pontin – UFMT [email protected] Resumo Este texto é parte de uma pesquisa que tem como questão, saber se a origem das dificuldades apresentadas pelos professores na elaboração dos relatórios avaliativos tem relação com as concepções de avaliação e conhecimento matemático dos mesmos. Esta pesquisa surge das reflexões feitas ao longo do exercício do magistério, tanto na docência em Matemática, como nos encontros de formação continuada. Estas reflexões, advindas de certezas e incertezas com a prática pedagógica, especificamente, com a avaliação da aprendizagem escolar, e intensificada com as mudanças determinadas pela escola ciclada, estão focadas mais precisamente na avaliação do conhecimento matemático e, em seu mais recente instrumento de formalização de resultados, o relatório avaliativo. A pesquisa é qualitativa com análise interpretativa, cuja preocupação principal é a compreensão do fenômeno estudado. Os dados foram coletados por questionários, análise documental e entrevista. Para isso a pesquisa contará com a análise das situações retiradas dos relatórios avaliativos (pesquisa documental), das respostas à questionários e entrevistas com os 05 (cinco) professores efetivos, Licenciados em Matemática atuando com esta disciplina em 05 (cinco) escolas públicas, da rede estadual, em Cáceres-MT. Palavras Chaves: Concepções; Avaliação; Conhecimento Matemático; Relatório avaliativo. Introdução O interesse por esse tema emerge de reflexões feitas sobre o nosso trabalho, como professora de Matemática do Ensino Fundamental e como professora-formadora do CEFAPRO1, onde neste último temos como função, promover reflexões junto aos professores no processo de formação continuada. Corroborando para estas reflexões, está a implantação, ∗ Mestranda em Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMT – Cuiabá –MT. Linha de Pesquisa Educação em Ciências. ∗∗ Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMT – Cuiabá –MT. Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo – USP. 1 Centro de Formação e Atualização do Professor – Criado desde 1998, ligado à Secretaria de Estado de Educação – SEDUC e tem por objetivo a formação continuada dos professores da Rede Estadual em Mato Grosso. 3615 em grande parte das escolas públicas estaduais de Mato Grosso, partir do ano de 2000, do Projeto Escola Ciclada, que propõe uma nova organização curricular em ciclos de formação. Essa nova forma de organização curricular visa substituir a organização por seriação. Cada ciclo tem duração de três anos, os quais compreendem as três fases de desenvolvimento pelo qual a criança e o adolescente passam, perfazendo 03 ciclos para os nove anos do ensino fundamental. Nessa reorganização proposta por Ciclos de Formação Humana2, as discussões, reflexões e novas aprendizagens dos docentes, giram em torno do repensar nossas concepções e práticas a partir de uma nova compreensão sobre os tempos e espaços, da aprendizagem e da organização do ensino. Conseqüentemente, essa forma de organização curricular, traz para a discussão educacional os vários componentes curriculares dos quais destacamos a avaliação como nosso objeto de investigação, através das dificuldades apresentadas na hora da elaboração do Relatório Avaliativo descritivo, pois ao invés dos resultados prontos tem que descrever o processo de construção individual da aprendizagem do aluno, seus avanços e dificuldades e intervenções feitas pelo professor, na medida em que revê sua prática de ensino. É neste contexto de dificuldades e necessidade de melhor compreender os processo avaliativo e o que pensam os professores neste processo, que desenvolvemos nossa investigação, guiados pelo objetivo geral: Compreender se as concepções de avaliação e de conhecimento matemático estão de alguma forma, relacionadas com as dificuldades apontadas pelos professores de Matemática para a elaboração de relatórios avaliativos sobre a construção de conhecimentos matemáticos dos alunos do Ensino Fundamental no 3° ciclo. Repensando as concepções e as práticas avaliativas Ao se considerar a avaliação como uma atividade humana, e impregnada das hipóteses/concepções prévias de conhecimento e de aprendizagem de cada um. O ato de avaliar está presente nas atividades cotidianas do ser humano, como em situações de comparação, de juízos, de revisão, de medidas e muitas outras. 2 Possibilidade de um atendimento mais adequado e atencioso aos educandos, considerando não apenas os aspectos cognitivos – tradicionalmente considerados na organização do currículo escolar –, mas também os aspectos sociais, morais, éticos e afetivos, constitutivos da natureza humana, num tempo escolar demarcado por critérios diferentes dos estabelecidos numa escola seriada, embasada teórico-metodologicamente no paradigma positivista e funcionalista que, pela sua natureza, ignora a flexibilidade, a mobilidade e a possibilidade diferenciada de avanços na apropriação do conhecimento e na constituição da cidadania. (MATO GROSSO, 2000 p. 26) 3616 A avaliação sob perspectiva tradicional tem como uma das principais características a sua terminalidade, pois é desenvolvida sempre ao final de um programa, de um conteúdo, buscando um único objetivo que é o de definir uma nota ou estabelecer um conceito, que passará a representar o nível de aprendizagem de cada aluno, e desse processo incluindo-os ou excluindo-os das salas de aula. Utilizando no lugar de tradicional a palavra classificatória, temos uma avaliação que se configura, A partir de uma concepção mecanicista de aprendizagem, que valoriza as capacidades de armazenamento e de reprodução do que foi ensinado. Estando o conceito de avaliação aprisionado à idéia de verificação, a diferença que emerge na realização dos projetos não oferece informações suficientes para a avaliação, na medida em que não permite a comparação entre a resposta que o aluno dá e a resposta esperada, que tem como referência os objetivos do ensino. Neste caso, estabelecem-se práticas contraditórias no cotidiano escolar: por um lado, o convite à diferença, por outro, o enquadramento dos alunos e alunas em modelos homogêneos. (ESTEBAN, 2003, p. 86) A avaliação desenvolvida nestes termos alia-se a perspectiva empirista ou racionalista do conhecimento. Como subsidiárias da palavra tradicional temos nomes como burocrática, classificatória, excludente, punitiva, somativa e vários outros que representam os caminhos trilhados no sistema escolar na utilização desta concepção. A avaliação sob perspectiva construtivista (empirista e racionalista) aparece em oposição à avaliação do tipo tradicional. Um de seus nomes é emancipadora, que também está ligada a uma hipótese acerca dessa origem do conhecimento, só que desta vez é a hipótese construtivista. A avaliação na perspectiva construtivista, também, recebe diferentes nomes, tais como: formativa, diagnóstica, reflexiva, investigadora e muitos outros. Como elemento desencadeador de nossa reflexão, nesta concepção avaliativa, escolhemos uma pergunta, que ao nosso entender deve permear a prática pedagógica do professor: “no espaço escolar, não deveria a atividade de avaliação ser construída, antes de tudo, como uma prática pedagógica a serviço das aprendizagens?” (HADJI, 2001, p. 09). Pergunta esta, que entendemos, venha responder a necessidade de mudança clamada pelo sistema atual de ensino e que nos faz acreditar que a avaliação realmente é o cerne das questões educativas em relação ao processo ensino-aprendizagem, pois, Uma avaliação capaz de compreender tanto a situação do aluno quanto de ‘medir’ seu desempenho; capaz de fornecer-lhe indicações esclarecedoras, mais do que oprimi-lo com recriminações; capaz de preparar a operacionalização das ferramentas do êxito, mais do que se resignar a ser apenas um termômetro (até mesmo um instrumento) do fracasso, não seria o mais belo auxiliar, e o primeiro meio, de uma pedagogia enfim eficaz? (HADJI, 2001, p. 09) 3617 Sem dúvida, esse seria o cenário ideal para uma prática avaliativa inclusiva, pois se trabalharia com atividades que apresentariam algum tipo de medição, de correção, de classificação, no entanto, estariam apenas compartilhando um espaço pedagógico e ao mesmo tempo se diferenciando pela forma e recursos utilizados para o desenvolvimento da aprendizagem através do caráter de continuidade de cada uma. E neste cenário discutiremos nossa compreensão do que vem a ser a avaliação formativa, a mediadora, a diagnóstica e a reflexiva. Assim a avaliação formativa, mediadora e reflexiva, faz parte de uma mesma concepção e todas passam pela diagnóstica que é tida como o primeiro momento do processo avaliativo. Podendo “ser realizada através dos mais variados instrumentos, até mesmo por provas e testes, desde que sejam encarados como elementos integrantes do processo ensinoaprendizagem, não dicotomizados ou com feição ritualística” (FERREIRA, 2002, p. 42) Então, a proposta se configura em compartilhar e desenvolver responsabilidades com o aluno, sujeito aprendiz, beneficiado ao participar de sua própria aprendizagem, o que faz com que se valorize e através dessa valorização fique mais responsável; e com o professor que vai se ocupar do processo avaliativo como parte integrante de suas responsabilidades profissionais não se contentando em apenas fazer publicável resultados dos quais ele não se responsabilize. Repensando as concepções de conhecimento matemático Somado às reflexões já desenvolvidas para a avaliação, ainda estão às dificuldades inerentes às especificidades do trabalho com a Matemática, já que o presente trabalho trata das dificuldades na elaboração dos relatórios avaliativos especificamente sobre o conhecimento matemático. A Matemática, da mesma forma que a avaliação também está ligada à hipóteses/concepções previamente construídas. O conhecimento matemático sob perspectiva tradicional (empirista e racionalista) diz que: Encontramos poucas situações que solicitam que os alunos reflitam sobre a matemática que vão aprender sobre o que pensam dessa área ou sobre eles próprios em relação à disciplina. Quando essa prática acontece, reflexões de outras pessoas são-lhes narradas e pede-se simplesmente que eles a memorizem. Esse procedimento foi denominado por Freire (1970, 1973) de método bancário e por Gattegno (1970) de método tradicional de ensino. A ausência, nessa prática, da exigência explícita de reflexão sugere que o aprendizado ocorre na medida em que o indivíduo simplesmente passa por uma sucessão, seja linear ou hipertextual, de experiências. (POWELL; BAIRRAL, 2006, p. 47-48) 3618 Pois, as experiências de ensino desenvolvidas nesse modelo, traz uma matemática dominada pela memorização de regras, algoritmos e fórmulas assim como, um rigor excessivo que não permite claramente uma identificação com as necessidades provenientes do cotidiano, e as relações pedagógicas se torna mantenedora do poder que o professor exerce ao dominar melhor o universo das fórmulas. Por isso dizemos que nesse modelo o professor é quem fornece o conhecimento e o aluno é apenas um simples receptor. Do conhecimento matemático sob perspectiva construtivista advém a afirmação de que a Matemática é uma atividade inerente ao ser humano, pois só ele é capaz de modelar situações, utilizar técnicas diversas em busca de determinados resultados. E devido a essa característica humana de transformar, de produzir e modificar culturas, a matemática vem passando por grandes transformações, assim como o homem de hoje, não é o mesmo de ontem, deixando claro que “os meios de observação, de coleção de dados e de processamentos desses dados, que são essenciais na criação matemática, mudaram profundamente. Não que se tenha relaxado o rigor, mas, sem dúvida, o rigor científico hoje é de outra natureza.” (D’AMBRÓSIO, 1996, p. 58) Nesse processo de transformação do saber científico em saber escolar, a caminhada é longa e difícil, pois não é apenas na natureza epistemológica que as mudanças devem ocorrer. Entremeadas a isso estão as práticas pedagógicas, condições socioculturais que geram os saberes intermediários, as concepções que validam atitudes e formam opiniões. Metodologia Qualitativa: Uma possibilidade para as descobertas A definição de Triviños (2006, p. 129), para a pesquisa qualitativa, como sendo aquela que tem por característica partir de uma descrição “que intenta captar não só a aparência do fenômeno, como também sua essência”. Assim como buscar as “causas da existência dele, procurando explicar sua origem, suas relações, suas mudanças e se esforça por intuir as conseqüências que terão para a vida humana” (), fundamenta nossa escolha, por este tipo de metodologia. Assim, os primeiros passos em busca das possíveis respostas, foram delineados na coleta de dados, com a aplicação de questionários (Q1, Q2, Q3 e Q4), cujo objetivo foi caracterizar o ambiente e os sujeitos da pesquisa e para saber sobre suas concepções de avaliação e de conhecimento matemático; e o recolhimento dos documentos a serem analisados, ou seja, os relatórios de avaliação, referentes ao ano letivo de 2006, produzidos pelos professores sujeitos da pesquisa. 3619 O professor, considerado como agente possuidor de concepções que se deixam perceber através de sua prática pedagógica, os critérios de seleção foram: serem efetivos nas escolas já selecionadas, Licenciados em Matemática e que atuam com esta disciplina, sendo 01 (um) professor por escola, deverá manifestar o desejo em participar da pesquisa. Os relatórios, considerados como documentos elaborados pelos professores, para testemunhar o processo de construção de conhecimento pelos alunos, tiveram como critério de seleção: ser referente ao 3° ciclo, ano letivo 2006, assim como ser um relatório anual, com começo, meio e fim de todos os alunos da fase em questão. A escolha da fase, a ser pesquisada, foi do professor e da própria escola, através do diretor. Depois deste primeiro momento, aleatoriamente, escolheu-se 05 (cinco) relatórios por professor, para posterior análise. Assim, aconteceu a aplicação de questionários (Q1 e Q2) para caracterização dos parceiros nesta trajetória, ou seja, escola e professor. Neste texto traremos somente a caracterização do professor, por isso estaremos falando apenas de Q2. Em relação aos professores, destacaremos a professora identificada pela letra A que é efetiva na escola 1, já caracterizada. A professora A tem 41 anos, é licenciada em matemática. Licenciatura esta, concluída em 1999 pela Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT. Trabalha na educação há 23 anos, todos eles dedicados à prática com a disciplina de Matemática. O passo seguinte foi a coleta de relatórios avaliativos elaborados por essas professoras sobre a construção do conhecimento matemático de seus alunos, de 3° ciclo, compondo o que denominamos de análise documental. Neste caso, a análise documental incidirá sobre o Registro de Desenvolvimento do Educando, que é o documento utilizado pela escola 1 para a formalização e divulgação do processo avaliativo vivenciado por alunos e professores. Ressaltamos que este é o nome indicado pelo sistema organizado em ciclos de MT, e tem por característica registrar descritivamente o que se identifica como processo avaliativo. Os relatórios coletados são correspondentes a 3ª fase do 3° ciclo. Mediante estes fatos, os relatórios avaliativos elaborados pelos professores se tornam um importante documento a ser analisado como indicador que possibilita respostas à pergunta idealizada para a pesquisa. De acordo com Darsie (1996) 3620 O uso de registros sob a forma de relatórios de avaliação torna-se eficiente como uma metodologia de investigação empírica no contexto da sala de aula. As informações registradas pelo professor fornecem indicativos para análise da sua prática e ao mesmo tempo, significam produto de uma reflexão sobre a aprendizagem e o ensino... Para exercer esse papel, o educador deve estar atento ao fato de que o educando é um sujeito como ele, um ser pensante possuidor de capacidades de avanço e crescimento e por isso um sujeito com capacidade de aprendizagem, conduta inteligente, criatividade, avaliação e julgamento. O passo seguinte foi a aplicação dos dois últimos questionários (Q3 e Q4), elaborado com 07 (sete) questões abertas, cada um. Sendo Q3 para investigar a concepção de avaliação e Q4 para registrar a concepção de conhecimento matemático. Com este passo somado aos dados dos relatórios tivemos os nossos primeiros resultados discutidos a seguir. Entrecruzando os dados Para este texto apresentamos a análise das dificuldades e de sua relação com as concepções de avaliação e de conhecimento matemático de uma das professoras, a professora A. Para esta análise evidenciaremos apenas um dos relatórios elaborados por essa professora, ou seja, relatório de um aluno que cursou a 3ª fase do 3° ciclo. Selecionamos esta professora, porque do grupo pesquisado, ela é a única que trabalhou ininterruptamente com a disciplina de Matemática. E o relatório foi selecionado aleatoriamente dentre os 25 elaborados por ela. Nossa intenção é discutir os dados do relatório, entrecruzando com as respostas dadas a cada questão, tanto do Q3 quanto do Q4. Desta forma, destacaremos trechos de um dos relatórios, identificado como AR1. A elaboração desse relatório, nesta escola, acontece semestralmente, como primeiro destaque tem: 1° Semestre: O aluno não demonstrou progresso na sua aprendizagem, devido às dificuldades frente aos conteúdos e atividade propostas no semestre. Demonstrou dificuldades no desenvolvimento de habilidades e capacidade na busca de soluções criativas e inteligentes para resolver problemas sugeridos. Também encontramos informações muito parecidas no trecho escrito referenciando o processo avaliativo desse aluno no 2º semestre, conforme destaque: Foi um aluno que progrediu de forma lenta, devido a grande dificuldade que apresenta frente aos conceitos e conteúdos matemáticos desenvolvidos durante o semestre. Esse progredir de forma lenta parece indicar o desenvolvimento da aprendizagem, mesmo que mínimo, no entanto não se sabe em que momento, em que conteúdo, qual a atividade que desencadeou esse aprendizado. Assim, neste fragmento, se percebe uma dificuldade de compreensão da professora quanto ao desenvolvimento do processo cognitivo, pois não está explicitado as habilidades e 3621 capacidades de que está falando. Assim como não aponta de que ordem são os problemas sugeridos nem tampouco as soluções criativas e inteligentes a que se refere. Porém ao responder a questão nº 1 do Q3 - O que é avaliação da aprendizagem? A professora A, diz que a avaliação da aprendizagem “É uma ação educativa, de caráter investigativo, diagnóstico, processual e contínuo da aprendizagem do aluno onde o professor redimensiona sua prática pedagógica”. Com essa resposta a professora A demonstra uma certa maturidade teórica com uma postura muito próxima de uma concepção crítico-reflexiva que dá mobilidade às ações avaliativas deixando a mostra que teoricamente escolheu seu caminho, mas no processo de escrita do relatório isso não fica expresso. Mediante esta resposta, podemos dizer que a professora demonstra uma concepção afinada com o que se busca no cenário educacional, mas a elaboração do relatório ainda não consegue demonstrar isso na prática. Levando isso para as concepções de conhecimento matemático, coletadas no Q4 – em que tivemos como primeira questão: Como você define a Matemática? E como 2ª questão: Que importância você atribui ao ensino de Matemática? As quais a professora respondeu respectivamente que a Matemática “É uma ciência que faz parte da história da humanidade, onde o ser humano desenvolve capacidades no fazer matemático sem participar de uma instituição formal (como a escola). A matemática foi construída a partir de necessidades impostas ao homem pelas situações do cotidiano. Hoje a matemática possui um caráter científico pela formalidade na sua sistematização”. E para a importância do ensino da matemática, a resposta foi: “A aprendizagem da matemática é fundamental, porque é fruto da atividade humana e faz parte de uma sociedade avançada e tecnológica. O conhecimento matemático é necessário diante de uma sociedade democrática para o pleno exercício da cidadania”. Mas o relatório em análise não apresenta nenhuma dessas características, não se percebe essa matemática descrita pela professora. Mas não podemos esquecer que a resposta dada pela professora para as três questões, tanto com referência a avaliação quanto à matemática nos leva a interpretar que a prática para quem pensa assim é uma prática investigativa em que se procura o afastamento de certezas, de julgamentos. E para que isso ocorra é necessário que não se tenha um processo avaliativo que não apenas constate e sentencie, mas que busque uma mediação nessa interação professor/aluno/conhecimento. Passamos a destacar mais um fragmento do AR1, deste mesmo aluno, onde aparece a identificação da disciplina em que o processo avaliativo está sendo descrito: Expressou-se com dificuldade por meio da linguagem matemática, não conseguiu ler, interpretar e utilizar 3622 representações matemáticas. Não procurou o auxílio da professora e colegas na seleção e interpretação das informações relativas aos problemas e atividades, não esclarecendo e dirimindo suas dúvidas. Não demonstrou curiosidade pelo gosto de aprender. Foi um aluno que não desenvolveu hábitos de trabalho e persistência para realizar tarefas, produzindo com dificuldade as soluções das atividades. Ressalvamos aqui que este aluno está no último ano do 3º ciclo, ou seja, 3ª fase, mais precisamente, o último ano do Ensino Fundamental. Assim, podemos dizer que a primeira parte desse relato é tão formal quanto os conteúdos desse segmento, pois não conseguir ler, interpretar e utilizar representações matemáticas é muito amplo, quase como se este aluno não tivesse feito nada por nove anos passados na escola, isso se ele foi sucessivamente aprovado. Não aparece a ação da professora, só fica muito claro os erros, falhas do aluno. Desta forma, evidenciamos mais um fragmento do 2º semestre que parece uma repetição do anterior: Apresentou deficiência nos conceitos e dificuldade em expressar-se por meio da linguagem matemática, principalmente em interpretar os enunciados dos exercícios. Procurou selecionar informações referentes aos problemas e atividades apresentados, porém apresentou dificuldades na formulação de hipóteses e na seleção de estratégias de resolução, não conseguindo resolvê-los, nem mesmo nas avaliações escritas. Onde estava a professora A, quando esse aluno começou a apresentar todos esses problemas, isso só fica evidenciado no registro terminal. Isso nos leva diretamente a questão 3 do Q3 - Para que você avalia seu aluno? Na qual a professora respondeu: “Para poder analisar como está o processo ensino-aprendizagem do aluno, onde estão suas maiores dificuldades para poder redimensionar minha prática pedagógica, reorganizando se necessário a metodologia de trabalho. O objetivo é obter resultados positivos, maior qualidade na educação”. Se o objetivo é obter resultados positivos, em que momento aparece a intervenção feita pela professora, pois em se tratando de um trecho destacado do 2º semestre, já está sendo decidida a vida escolar desse aluno, isso não aparece no registro, assim como não aparece concretamente nos resultados, tendo em vista as enormes dificuldades relatadas sobre o aluno. Levando-se em conta que estamos analisando o mesmo relatório, destacamos no segundo semestre outro ponto muito semelhante ao primeiro já descrito, que é o seguinte: Demonstrou esforço e interesse, realizando as atividades solicitadas com compromisso, quando presente na sala, porém com grande lentidão e muita dificuldade. Não buscou o auxílio efetivo da professora para sanar dúvidas surgidas durante a execução das atividades, mesmo quando solicitados ou questionados pela mesma. Não participou ativamente dos debates e dos questionamentos apresentados durante a explanação dos conteúdos. Aqui se 3623 expressa fortemente os vínculos à avaliação do tipo tradicional, em que tudo se resumo ao fazer/não fazer, ter/não ter e assim sucessivamente. O fragmento deixa implícitos os préconceitos construídos no universo escolar para com “as faltas/deficiências”, está clara a falta de curiosidade, o não procurar a ajuda da professora, a não participação em debates, porém não há sinalização de que tipo de atividade está sendo desenvolvida para que essa curiosidade seja aguçada, que esta participação se efetive. Assim, este tipo de relatório não está muito diferente daquilo que se praticou por tanto tempo ao quantificar o saber dos mesmos, pois olhando estas informações podemos dar notas para este aluno, mas não podemos dizer em que ponto do seu aprendizado ele está. Caminhando sob essa perspectiva de análise destacamos do Q3, a questão 2 - O que você avalia em seu aluno? e a questão 6 - Quais os instrumentos mais comuns que utiliza para avaliar seus alunos? Para a primeira, a professora deu a seguinte resposta: “Avalio: como o aluno pensa e age frente aos conteúdos matemáticos, como ele constrói e reconstrói conceitos, como ele cria estratégias de resolução dos problemas ou atividades apresentadas”. E para a segunda a resposta foi esta: “São: avaliações escritas, observação diária através das atividades e tarefas apresentadas, trabalhos em grupo, aulas expositivas e dialogadas, aulas de campo, jogos, oficinas de trabalho, auto avaliação, projetos interdisciplinares”. Nos dados dispostos no fragmento destacado acima, esse pensamento não se concretiza, ou seja não se percebe o ato investigativo da professora para saber como pensa ou age o aluno em busca do saber, como também não há, em nenhum trecho desse relato indicações que possibilitem ao leitor identificar quando houve as avaliações escritas, os jogos, a auto-avaliação, que são os instrumentos que a professora diz utilizar, isso considerando que este relatório deve ser lido por quem quiser tomar conhecimento da situação do aluno, isso inclui a família do mesmo. Neste ponto destacaremos do Q4 a questão de nº 6: De que forma seu aluno se apropria do conhecimento matemático? Para a qual a professora respondeu: “Problematizando, pensando, construindo. O aluno é ator de sua aprendizagem. O aluno precisa entender o porquê dos conceitos matemáticos, como foram construídos, por em prática os conceitos”. Para entender essa relação com os conceitos, esse aluno deve ser trabalhado em ambientes que estimulem a interação com os outros, o resgate e a aplicação do saber que ele traz consigo, e tudo isso está em estreita sintonia com o trajeto metodológico escolhido pela professora para esse trabalho e isto não esta explicitado no documento em questão. 3624 Tomando por base a produção escrita do AR1, apontamos outro fragmento: Tem um bom relacionamento interpessoal, apresentando valores e atitudes vivenciais de grupo positivos, sendo cooperativo e solidário. Não demonstrou-se responsável e preocupado com seu desenvolvimento intelectual para o crescimento e fortalecimento do seu saber matemático associado com o dia-a-dia. Lançando um olhar para o 2º semestre temos: Teve um bom relacionamento interpessoal, respeitando os colegas e professora, demonstrando atitudes de respeito e coleguismo. Desenvolveu o espírito de coletividade e de cooperação. Percebemos que em certos momentos o processo de escrita é repetido, quando na verdade as descobertas são únicas, individuais, ou seja a descoberta de hoje dificilmente será a de amanhã. Nesta parte do relato temos a entrada de conteúdos atitudinais mas com esta elaboração textual isto não está evidenciado, pois não há indicação do tipo de trabalho desenvolvido, nenhum tipo de intervenção. Mediante as questões 4 - Quando avalia o seu aluno?, 5 - Qual é a maior dificuldade que você encontra no momento de avaliar? e 7 - De que forma registra o resultado de suas avaliações? do Q3, para o quando a resposta foi: “A avaliação é feita no dia-a-dia, no cotidiano da sala de aula com o estabelecimento de critérios avaliativo”; para a maior dificuldade sentida foi: “Avaliar não é tarefa simples e rápida. Podemos cometer injustiças. A maior dificuldade é o estabelecimento de critérios justos e satisfatórios e no acompanhamento real do processo ensino/aprendizagem de cada aluno para fazer os registros diários. Acho a avaliação o maior desafio do professor; e em relação ao registro de resultados foi: “Utilizo o caderno de campo para registros das atividades diárias, uma ficha de controle das atividades realizadas em sala e extra-classe (com os símbolos + quando fez e – quando não fez); anoto no caderno de campo os resultados das avaliações escritas, procuro destacar os conteúdos onde os alunos tiveram dificuldades. Procuro registrar e analisar como o aluno constrói mentalmente a resolução dos problemas e atividades. Todos estes registros resultarão num relatório descritivo individual no final de cada bimestre e apresentado aos pais ou responsáveis”. Podemos dizer que o discurso da professora A é muito bom, mas não está presente no relatório elaborado por ela, que continua sendo o acerto de contas no final, em que todas as culpas recairão sobre o aluno. Estas são questões que retratam uma grande dificuldade para a prática desta professora, principalmente se atentarmos para a última resposta dada em que o caderno de campo, assim como o relatório, que é o documento que estamos analisando. E conforme fomos analisando não percebemos nenhuma sinalização que demonstrassem esses usos, assim como não percebemos o estabelecimento de critérios para esses processos avaliativos. 3625 Já o Q4 que trata das concepções de conhecimento matemático em suas questões de números: 3 - Que recursos didáticos utiliza para trabalhar os conteúdos matemáticos?; 4 - Em sua opinião, qual a melhor maneira para se aprender matemática? E 5 - Qual é a maior dificuldade que você encontra ao trabalhar os conteúdos matemáticos? Para os recursos didáticos, esta é a resposta: “Uso o livro didático, jogos/atividades lúdicas, desafios matemáticos, aulas de campo, pesquisas, problematização dos conteúdos (para introdução de conteúdos/conceitos), trabalhos em grupo, oficinas para confecção de material didático e concreto, uso de calculadoras, músicas e projetos inter ou multidisciplinares”; Em relação a melhor maneira para se aprender, ela disse: “Partindo da problematização dos conteúdos, utilizando problemas relacionados ao cotidiano do aluno. Usar material concreto, manusear o material na reconstrução dos conceitos. Pensar, significar, entender porque resolvemos problemas ou situações desta ou daquela forma. Soltar a imaginação, criar e recriar, filosofar, pensar matematicamente. Errar e acertar. O erro é importante na aprendizagem e construção do conhecimento; e sua maior dificuldade para trabalhar os conteúdos matemáticos é: “(...) fazer o aluno pensar, entender o porquê dos conceitos, chegar a conclusões, construir estratégias de resolução de problemas. A leitura, a falta de concentração, entender o que está sendo proposto” Neste grupo de questões, nada do que está presente nas respostas da professora se percebe em sua prática, claro que estamos nos referindo ao que está presente no texto do relatório em questão, pois é o que está sendo levado em consideração neste momento. Por isso nos referimos desta forma, a professora se coloca muito bem na escolha dos recursos didáticos, a melhor maneira para que a aprendizagem aconteça, também é muito bem clara para a professora. O AR1 teve como fechamento para o 1º semestre: Diante do exposto, sinalizo que o aluno precisará freqüentar as aulas de apoio pedagógico, bem com adquirir o hábito de estudo em casa e realizar as tarefas solicitadas, preocupando-se com sua aprendizagem. Assim como encerramento do ano letivo a sentença: Diante do exposto, sinalizo que o aluno não possui capacidade de freqüentar o Ensino Médio, devendo o mesmo ficar retido na 3ª fase do III Ciclo, onde deverá participar de aulas de apoio pedagógico no decorrer do ano letivo e criar o hábito de estudo extra-classe. Sentenças estas que contrariam algumas de suas respostas, pois parte de sua resposta para o que é a avaliação da aprendizagem ela aponta que é “onde o professor redimensiona sua prática pedagógica”. E durante a exposição de fatos descritos no AR1 e as respostas dadas muitas ficaram só no campo discursivo não chegando de fato a aparecer na prática. 3626 Considerações Finais A pré-análise feita no relatório selecionado leva a interpretação inicial de que ele é do modelo tradicional, pouco elucidativo. Pois, não é descritivo, atem-se a registros generalizantes, não explicita o conceito trabalhado e as dificuldades do aluno, forte ênfase nas atitudes e comportamentos, não descreve os aspectos cognitivos, não oferece informações claras aos pais e futuros professores, das reais dificuldades do aluno. Diante disso, analisamos que as concepções da professora A, tanto as de avaliação quanto as de conhecimento matemático estão mantendo pouca ou nenhuma relação com o registro nos relatórios. Exatamente por isso, é que devemos lançar mão de uma entrevista semi-estruturada que será utilizada para buscar a confirmação ou não dessas dificuldades expressas nos relatórios. 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