LEILA MARIA LIMA BOTELHO AS FUNÇÕES POLINOMIAIS NA EDUCAÇÃO BÁSICA Uma proposta Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Matemática para Professores de Ensino Fundamental e Médio, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Especialista. Orientador: Prof. Dr. WANDERLEY MOURA REZENDE Niterói 2005 LEILA MARIA LIMA BOTELHO AS FUNÇÕES POLINOMIAIS NA EDUCAÇÃO BÁSICA: Uma proposta Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Matemática para Professores de Ensino Fundamental e Médio, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Especialista Aprovada em julho de 2005 BANCA EXAMINADORA Profª Dra. Elizabeth Belfort da Silva Moren – Universidade Federal do Rio de Janeiro Profª Dra. Ana Isabel de Azevedo Spinola Dias – Universidade Federal Fluminense Prof. Dr. Wanderley Moura Rezende – Universidade Federal Fluminense Niterói 2005 BOTELHO, Leila Maria 512.942 B748 BOTELHO, Leila Maria As funções polinomiais na educação básica: uma proposta. Por Leila Maria Botelho. Niterói, RJ : [s.n.], 2005. 58p. : il. Monografia de especialização - Universidade Federal Fluminense. Orientador: Prof. Dr. Wanderley Moura Rezende. 1- Função polinomial. 2- Variabilidade. Mapa conceitual. 3Educação básica. 4- Produção intelectual. I- REZENDE, Wanderley Moura, orientador. II- Universidade Federal Fluminense. Instituto de Matemática. Pós-graduação em Matemática, instituição responsável. A André, Lucas, e Julia, com amor. AGRADECIMENTOS Ao Prof. Wanderley Rezende, pela dedicação com que conduziu a orientação desta monografia. À Profª Vera Lucia Hiratsuka, pela leitura do trabalho. À Profª Tania Duarte, pelo auxílio com a língua inglesa. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 7 CAPÍTULO 1 – BREVE HISTÓRICO DO CONCEITO DE FUNÇÃO..................... 9 CAPÍTULO 2 – OS MAPAS ................................................................................. 20 2.1 – O MAPA COMO INSTRUMENTO METODOLÓGICO................................. 20 2.2 – O MAPEAMENTO DOS LIVROS DIDÁTICOS........................................... 22 CAPÍTULO 3 – PROPOSTA DE ATIVIDADES ................................................... 43 3.1 – FUNÇÃO POLINOMIAL DO 1º GRAU ........................................................ 43 3.2 – FUNÇÃO POLINOMIAL DO 2° GRAU ........................................................ 46 CONCLUSÃO ...................................................................................................... 52 OBRAS CITADAS ............................................................................................... 56 OBRAS CONSULTADAS .................................................................................... 58 RESUMO Esta monografia trata do estudo da variabilidade das funções polinomiais do 1° e 2° graus, na educação básica. Historicamente, o conceito de função nasceu da necessidade de cientistas em compreender uma realidade onde tudo varia. Estudar a maneira com que as funções variam, além de conectar o ensino de funções com a realidade e com a origem histórica do conceito, permitiria a preparação do terreno para futuros estudantes de Cálculo. Inicialmente, buscamos nesta pesquisa identificar no ensino das funções afim e quadrática a presença do estudo da variabilidade destas funções. Para isto, foram usados como fonte de observação livros didáticos da 8ª série do ensino fundamental e da 1ª série do ensino médio. Utilizamos o mapa como instrumento metodológico, que em comparação ao seu sentido cartográfico, nos possibilitou seguir os caminhos percorridos pelos livros para o ensino destas funções polinomiais. Numa etapa posterior, foram propostas atividades sobre as funções afim e quadrática, que incluem um estudo elementar sobre taxa de variação e a relação entre a variabilidade destas funções e as progressões aritméticas. Palavras-chave: variabilidade, função polinomial, mapa, educação básica. 8 ABSTRACT This paper addresses the variability of first and second degree polynomial functions in basic education. From a historical point of view, the concept of function derived from scientists’ need to understand reality where everything is variable. An analysis of the manner in which the functions vary lays the groundwork for future calculus students aside from linking the function studies to reality and to the historical origin of the concept. At first, this paper seeks to identify in the teaching of linear and quadratic functions the existence of a study on variability of these functions. For such purpose, 8th grade and 9th grade school books were used as an observation source. The map used as a methodological tool allowed us to apply its cartographic features to analyze the routes taken by these text books for teaching the polynomial functions. At a subsequent stage, this article proposes activities involving linear and quadratic functions, including a brief analysis of the rate of change and the relationship between the variability of these functions and arithmetic sequences. Key-words: variability, polynomial functions, map, basic education. 9 INTRODUÇÃO Esta monografia teve origem no Projeto de Pesquisa intitulado Proposta de emersão das idéias básicas do Cálculo no Ensino Básico de Matemática, de autoria do prof. Wanderley Moura Rezende. Serão abordados neste trabalho aspectos relacionados ao ensino das Funções Polinomiais de 1° e 2° graus. Grande parte das dificuldades encontradas pelos estudantes do ensino superior na disciplina Cálculo é conseqüência da falta de preparação, na educação básica, para o estudo desta matéria (Rezende, 2003). Ao contrário da álgebra, da aritmética e da geometria, presentes no percurso escolar dos alunos desde as séries iniciais até o ensino médio, as idéias do Cálculo são omitidas, abordadas de forma superficial, ou evitadas na educação básica. Segundo o autor acima, o monopólio da representação algébrica do conceito de função é um sinal evidente desta omissão. O conceito de função teve sua origem na tentativa de filósofos e cientistas em explicar, descrever e prever os fenômenos naturais. A realidade que aqueles cientistas buscaram compreender apresenta, de acordo com Caraça (1989), duas características essenciais: fluência e interdependência. Temos então um instrumento matemático (funções) inventado para uma melhor compreensão do real - que tem na fluência/variabilidade uma de suas características principais. Assim, um caminho natural para o estudo das funções seria caracterizá-las conforme a maneira com que variam, estabelecendo-se, desta maneira, uma verdadeira conexão com a realidade e sua origem histórica. Este caminho é seguido no estudo de funções? Ou melhor, na educação básica, é estudado o modo com que as funções variam? 10 Procuraremos nesta monografia responder a estas perguntas para as funções polinomiais do 1º e 2º graus. Deste modo, o objetivo deste trabalho é identificar, no ensino das funções afim e quadrática, a presença de idéias básicas do cálculo, neste caso, o estudo da variabilidade destas funções. Para alcançar tal objetivo, e tendo em vista as perguntas formuladas, buscaremos observar o caminho percorrido por diversos textos didáticos para o ensino das funções polinomiais do 1º e 2º graus. A metodologia utilizada para esta observação será a mesma que, freqüentemente, nos auxilia a percorrer qualquer caminho: a confecção de mapas. Em termos cartográficos, mapa é um instrumento que serve para orientação que mostra apenas o que é relevante para o reconhecimento de um terreno ou para o percurso de um trajeto. O Capítulo 2 será dedicado à construção dos mapas, sendo usados para isto livros didáticos da 8º série do ensino fundamental e da 1ª série do ensino médio. Nosso mapeamento será precedido de uma breve revisão teórica sobre o uso do mapa como instrumento metodológico, tomando-se como referência principal a cartografia simbólica delineada em Santos (2000). No Capítulo 1 faremos um breve histórico do conceito de função, procurando identificar as diversas interpretações/representações que estiveram presentes na criação e no desenvolvimento do conceito. Esta revisão servirá como base para as nossas reflexões sobre o modo como estas interpretações históricas têm participado do ensino das funções afim e quadrática. No Capítulo 3 serão propostas algumas atividades envolvendo a variabilidade das funções afim e quadrática. Em algumas destas atividades, será incluído um estudo elementar da taxa de variação. Em outras, buscaremos explorar a conexão existente entre aquelas funções polinomiais e as progressões aritméticas, baseado em teoremas de caracterização apresentados em Lima (2001). CAPÍTULO 1 - BREVE HISTÓRICO DO CONCEITO DE FUNÇÃO O conceito de função, presente nos mais diversos ramos da ciência, teve sua origem na busca de filósofos e cientistas em explicar a realidade e encontrar métodos de investigação que permitissem estudar e prever os fenômenos naturais. Segundo Caraça (1989), esta realidade apresenta duas características fundamentais: a interdependência, que faz com que todas as coisas estejam relacionadas umas com as outras e a fluência, que faz com que tudo no mundo esteja em permanente mudança. Este mundo fluente já havia sido percebido pelo filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, que viveu na Grécia por volta do século V a.C.. Na filosofia de Heráclito, a realidade era fundamentada no devir, que faz com que todas as coisas mudem constantemente. Caraça definiu ainda dois tipos de Leis Naturais: as leis qualitativas, que dizem respeito à variação de qualidade de um objeto e as leis quantitativas, que se referem às variações de quantidade. De acordo com o autor acima, o conceito de função surgiu como instrumento adequado para estudar as variações quantitativas presentes nos fenômenos naturais, tendo sido construído com duas ferramentas principais: interdependência e variabilidade. Como estudar variações de quantidade num mundo constituído de partes que dependem umas das outras e que mudam a cada instante? Veremos a seguir que este conceito levou muito tempo para ser aperfeiçoado e que, apesar de ter sido explicitado apenas a partir do século XVIII, em algumas idéias anteriores já aparece de forma implícita. Na Grécia Clássica, durante o período que antecede o surgimento da filosofia, as explicações para os fenômenos naturais eram baseadas sobretudo em mitos. Esta maneira de ver a natureza começou a mudar a partir da fundação da primeira escola filosófica grega por Tales de Mileto, por volta de 600 a.C., 12 escola a que Heráclito pertencia. A partir daí, os filósofos procuraram dar explicações mais racionais para os eventos que ocorriam no mundo que os cercava. Desse modo, uma pedra ao ser largada cai, não por ser esta a vontade dos deuses, mas porque possuem uma qualidade chamada peso, que atrai os corpos para o centro da terra. Fenômenos como este, segundo Platão (427-347 a.C.), deveriam ser estudados pela matemática. Tendo incorporado as idéias de Heráclito sobre o devir, Platão acreditava que conhecimento obtido apenas através da física não era muito útil, pois as coisas materiais mudam com o tempo; as leis matemáticas, estas imutáveis, são a essência da realidade (Kline, 1990). O estudo das mudanças físicas, principalmente do movimento, foi iniciado na Grécia por Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão. A física de Aristóteles era qualitativa e este tipo de abordagem influenciaria a evolução da ciência ainda por muito tempo. Veremos adiante que o conceito de função nasceu a partir do momento em que os cientistas passaram a descrever o movimento de forma quantitativa. Para estabelecer o conceito de função - como relação entre grandezas que variam - foi necessária a definição do conceito de variável, o que se deu, inicialmente, a partir da simbolização da álgebra. O uso de símbolos ingressou na matemática através de duas vias principais: pela álgebra desenvolvida na Grécia por Diofanto e pela álgebra hindu. Além de introduzir a utilização de símbolos para representar incógnitas, potências e operações, Diofanto, considerado o criador da álgebra, foi pioneiro na resolução de equações indeterminadas. Os matemáticos hindus, sobretudo a partir do século 2 d.C., desenvolveram uma álgebra mais simbólica do que a de Diofanto, avançando também na resolução de equações indeterminadas. A partir da Idade Média, período iniciado pela queda do Império Romano no ocidente em 476, a Igreja Católica expandiu aos poucos o seu domínio. Neste tempo e durante os cinco séculos seguintes, praticamente nenhuma atividade científica teve lugar na Europa. A busca pelo conhecimento obedecia aos limites impostos pela doutrina cristã, o que impossibilitou qualquer avanço da ciência. Esta situação começou a mudar por volta de 1100, quando os europeus entraram em contato com os povos do oriente, através de viagens comerciais e das Cruzadas. Os principais pensadores da Grécia foram traduzidos nesta época, 13 principalmente do árabe para o latim, e suas idéias foram disseminadas. Várias Universidades foram criadas, como a de Bolonha, em 1088, e as de Paris, Oxford, Cambridge, Salermo, por volta de 1200. O pensamento aristotélico foi adotado como modelo para a filosofia/ciência na Idade Média, também conhecida como filosofia escolástica. Este modelo foi questionado por padres como Roger Bacon (1214-1294) e Guilherme de Ockham (1300-1349), que criticaram fortemente as idéias de Aristóteles e defenderam que as verdades científicas deveriam necessariamente ser obtidas através da experiência. Na Universidade de Paris, o Bispo Nicolau de Oresme (1323–1382), ao estudar o movimento uniformemente diforme (movimento com aceleração constante), representou num gráfico a velocidade variando com o tempo da seguinte maneira: marcou instantes de tempo ao longo de uma linha horizontal que ele chamou de longitudes e representou as velocidades em cada tempo por linhas verticais, perpendiculares às longitudes, que ele denominou latitudes: Esta representação é duplamente significativa: por um lado mostra duas grandezas relacionadas entre si, variando ao mesmo tempo, e por outro lado ilustra esta variação através de um gráfico. O conceito de função se apresenta implicitamente através da variabilidade e da interdependência entre as grandezas. Faltavam algumas ferramentas que seriam fornecidas por matemáticos dos quatro séculos seguintes. Os escolásticos deixaram para o século XV explicações acerca dos fenômenos naturais baseadas na doutrina cristã e na física qualitativa de Aristóteles. Neste início do período Renascentista, surgiram na Europa novas traduções em latim das obras gregas, e foi nesta época que os europeus 14 entraram em contato com o pensamento de Platão. Segundo Kline (1990), os cientistas da época absorveram a filosofia platônica e combinaram estes pensamentos com os da Igreja: Deus criou e governa todas as coisas através da matemática. Esta nova filosofia influenciou grandes cientistas, como o astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), que adotou a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico (1473-1543) e enunciou leis matemáticas que descreviam o movimento dos planetas. A terceira Lei de Kepler afirma que os quadrados dos períodos orbitais dos planetas são proporcionais aos cubos dos semi-eixos maiores das órbitas. Esta lei descreve de forma quantitativa um fenômeno físico e expressa matematicamente a relação entre as duas grandezas envolvidas. Podemos observar também a diferença entre esta e a 1ª Lei de Kepler, esta qualitativa: os planetas descrevem em torno do sol uma elipse da qual o sol ocupa um dos focos. Apesar de Kepler ter dado os primeiros passos na direção de uma física quantitativa, o rompimento definitivo com a maneira aristotélica de explicar os fenômenos naturais veio através de Galileu Galilei (1564-1642), considerado o fundador da ciência moderna. Galileu, italiano nascido em Pisa, apesar de ser um homem religioso, chamou a atenção das autoridades da Igreja ao questionar publicamente dois grandes pilares da filosofia cristã: o homem como centro do universo e a física de Aristóteles como modelo para a ciência. Galileu adotou e ensinou a teoria heliocêntrica nas Universidades de Pisa e de Pádua e, nesta época, seus experimentos mostraram que o peso de um corpo não exerce influência na velocidade da queda livre, contrariando Aristóteles, que dizia que corpos mais pesados caem com velocidade maior. Estas novidades, que não eram bem vindas, levaram Galileu à prisão, período em que escreveu As duas novas ciências. Nesta obra sobre dinâmica e resistência dos materiais, entre outros resultados, enunciou a lei da queda dos corpos no vácuo: o espaço percorrido por um corpo em queda livre é diretamente proporcional ao quadrado do tempo levado para percorrer este espaço. Esta lei, assim como a 3ª Lei de Kepler, traz em seu enunciado claramente o conceito de função. Ambos os cientistas iniciaram uma nova era para a ciência, que, a partir deles, passou a ser fundamentada na experimentação e no uso da matemática. 15 A álgebra, que desde Diofanto e dos árabes não tinha feito quase nenhum progresso, avançou no século XVI principalmente através da obra do matemático francês François Viète (1540-1603). Na obra In Artem Analyticam Isagoge, Viète chamou sua álgebra simbólica de logistica speciosa em oposição à logistica numerosa, e esta distinção, segundo Kline (1990), traçou uma linha divisória entre a álgebra e a aritmética. Nesta obra, além de utilizar a álgebra na solução de problemas de construções geométricas, Viète introduziu uma convenção: “usou uma vogal, para representar uma quantidade suposta desconhecida ou indeterminada e uma consoante para representar uma grandeza ou números supostos conhecidos ou dados” (Boyer, 1991). René Descartes (1596-1650), mais tarde, usou as primeiras letras do alfabeto para quantidades conhecidas e as últimas letras para as desconhecidas, como fazemos até hoje (Kline, 1990). Descartes escreveu sua única obra matemática, La Géométrie, como um apêndice do Discours de la méthode, publicado em 1637, onde expõe suas idéias científicas e filosóficas. Em La Géometrie, Descartes, assim como Viète, utilizou a álgebra como ferramenta para a resolução de problemas geométricos. As grandes inovações foram a associação de curvas a equações algébricas e o uso de um sistema de coordenadas para relacionar as variáveis envolvidas naquelas equações, procedimentos que deram origem ao que chamamos hoje de geometria analítica. Pierre de Fermat (1601-1665), que contribuiu para o desenvolvimento da teoria dos números, da teoria das equações, da geometria analítica e do cálculo, segundo Kline (1990), estava familiarizado com o trabalho de Viète com relação ao uso da álgebra para resolver problemas geométricos. No seu estudo de curvas, Fermat utilizou um sistema de coordenadas e relacionou as duas variáveis que apareciam no final de uma equação a partir do seguinte princípio: “Sempre que numa equação final encontram-se duas quantidades incógnitas, temos um lugar, a extremidade de uma delas descrevendo uma linha reta ou curva” (Boyer, 1991). A relação entre as incógnitas é estabelecida através de um lugar geométrico, isto é, o que conhecemos hoje como expressão algébrica de uma função, tanto para Fermat como para Descartes, era uma curva. Segundo Kline (1990), a definição mais explícita de função do século XVII foi dada por James Gregory em 1667, que definiu função como “uma quantidade 16 obtida de outras quantidades pela sucessão de operações algébricas ou por qualquer outra operação imaginável”. Para Gregory, esta outra operação imaginável era a passagem ao limite, que só seria completamente esclarecida posteriormente. O estudo de curvas, devido à sua aplicabilidade à ciência, era fundamental para os matemáticos do século XVII. O estudo das diversas variáveis associadas a uma curva (por exemplo, a tangente num ponto, a área sob a curva, o comprimento e a velocidade de um ponto ao longo de uma curva) os levou a estabelecer relações entre estas variáveis. Grandes matemáticos deste tempo como Boaventura Cavalieri, Gilles Roberval, John Wallis e Isaac Barrow estudaram a variação destas grandezas associadas a curvas. Em particular, Fermat, Barrow, James Gregory, Evangelista Torricelli chegaram a perceber que o problema da determinação da tangente era inverso ao do cálculo da área sob a curva, mas não viram a generalidade ou a importância deste resultado. De qualquer modo, estes matemáticos prepararam o terreno para que Newton e Leibniz estabelecessem os fundamentos do Cálculo. A primeira contribuição de Isaac Newton (1642-1727) para o desenvolvimento do conceito de função, e que esteve presente na sua construção do Cálculo, foi seu trabalho com séries infinitas. Segundo Boyer (1991), Newton descobriu algo muito mais importante do que o Teorema Binomial, ao verificar que a análise através de séries infinitas possuía tanta consistência quanto a álgebra aplicada a quantidades finitas. As séries infinitas não seriam mais consideradas instrumentos de aproximação, mas uma outra maneira de escrever as funções que representavam. A primeira publicação, em 1687, envolvendo suas idéias sobre o Cálculo foi Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Apesar de não ser uma obra estritamente matemática, segundo Kline (1990), o que Newton desenvolveu no Cálculo foi em grade parte motivado pelo seu interesse nos problemas de física tratados neste livro. Em três obras escritas anteriormente e que seriam publicadas apenas no século XVIII, Newton já havia iniciado o desenvolvimento do cálculo: Análise através de Equações com um Número Infinito de Termos, escrita em 1669, O Método de Fluxões e Séries Infinitas, escrita em 1671, e Quadratura de Curvas, em 1676. Na primeira obra, Newton mostrou que a área sob uma curva 17 poderia ser determinada pelo processo inverso do cálculo da taxa de variação. Apesar de a validade deste resultado ter sido observada anteriormente, Newton foi o primeiro que percebeu sua generalidade. O Método dos Fluxões foi aplicado a variáveis (fluentes) para o cálculo da taxa de variação (fluxos). O que chamamos hoje de expressão algébrica de uma função era para Newton a relação entre os fluentes. Apesar de a primeira publicação do Cálculo de G. H. Leibniz (1646-1716) ter sido feita em 1684, ele vinha redigindo informalmente, desde 1673, notas que continham suas idéias. Uma de suas primeiras notas mostravam uma forma de relacionar somas e diferenças entre termos de uma seqüência, que foram a base para o estabelecimento de seu Calculus Summatorius ou Calculus Integralis e o Calculus Differentiallis, expressões criadas por Leibniz. Ao longo de suas obras, criou notações, como um S longo ∫ para integral, e estabeleceu fórmulas para derivadas e integrais de diversas funções. Leibniz introduziu o uso das palavras “constante”, “variável” e “parâmetro”. Conforme já observamos, os principais objetos de estudo no século XVII eram as curvas e seus conceitos associados. As variáveis associadas a uma curva eram geométricas, e, em 1673, Leibniz utilizou pela primeira vez a palavra “função” para indicar quantidades que variavam ao longo de uma curva, por exemplo, a tangente. Segundo Kliner (1989), este interesse em curvas fez também com que os matemáticos voltassem sua atenção para os símbolos que apareciam nas fórmulas e equações, independente das curvas originais que estas equações representavam. Johann Bernoulli (1667-1748) experimentou várias notações como X , ξ e finalmente φx para uma função de x. Em 1718, Bernoulli definiu função da seguinte maneira: “Chamamos aqui Função de uma grandeza variável, uma quantidade composta de qualquer maneira desta grandeza variável e de constantes” (Rüthing, 1984). Para Bernoulli, cada função poderia ser representada por uma única expressão analítica, podendo-se observar na definição acima o conceito de função como combinação de símbolos algébricos. Esta “expressão analítica” aparece na definição de função dada por Leonhard Euler (1707-1783) em seu clássico Introductio in Analysin Infinitorum, de 1748, primeira obra em que o 18 conceito de função desempenha um papel central. Após definir o significado de quantidade constante e quantidade variável, Euler enunciou, em 1748: “uma função de uma quantidade variável é uma expressão analítica composta de alguma maneira desta quantidade variável e números ou quantidades constantes” (ibid.). Euler não definiu “expressão analítica”, mas, segundo Boyer (1991), tinha em mente funções algébricas e as funções transcendentes elementares (exponenciais, logarítmicas e trigonométricas). Este termo não aparece na definição de função que Euler deu em 1755: “se x denota uma quantidade variável, então todas as quantidades que dependem de x ou são determinadas por ele são chamadas suas funções” (Rüthing, 1984). Euler é responsável pela introdução, em 1734, da notação f(x) para designar uma função que depende da variável x. Em 1797, Joseph-Louis Lagrange (1736-1813) definiu função: Chamamos função de uma ou várias quantidades toda expressão para cálculo na qual estas quantidades entram de uma maneira qualquer, envolvidas ou não com outras quantidades que consideramos como sendo dadas e valores invariáveis, enquanto as quantidades da função podem assumir todos os valores possíveis. ... Designaremos em geral pela letra f ou F, colocada antes da variável, toda função desta variável, isto é, toda quantidade que depende desta variável e que varia com ela segundo uma lei dada (ibid.). Podemos observar tanto na definição de Lagrange como na de Euler (1755) a presença da idéia de função como relação entre quantidades variáveis. Augustin-Louis Cauchy (1789-1857) em seu Cours D’Analyse, obra publicada em 1821, definiu os conceitos de função contínua, diferenciável e integrável a partir da noção de limite. Segundo Silva (1999), Cauchy foi o principal responsável pela transformação do cálculo diferencial e integral de variáveis (de Newton e Leibniz) no cálculo diferencial e integral de funções, como temos hoje. Sua definição de função não é muito diferente das enunciadas anteriormente. Os matemáticos do século XVIII exploraram o uso de séries trigonométricas relacionadas aos fenômenos astronômicos devido à sua periodicidade. Estas séries foram estudadas por Joseph Fourier (1768-1830) em sua Teoria Analítica do Calor, publicada pela primeira vez em 1822, o que provocou uma revisão no 19 conceito de função. O principal resultado matemático de Fourier nesta obra, de acordo com Kliner (1989), é o seguinte: Toda função f(x) definida no intervalo (- l , l ), pode ser representada neste intervalo por uma série de senos e cosenos : f ( x) = ∞ a0 nπ x nπ x + ∑ an cos + bn sen , onde an e bn são dados por 2 n =1 l l an = 1 l ∫ l −l f (t )cos nπ t dt l e bn = 1 l ∫ l −l f (t ) sen nπ t dt l Este resultado não era totalmente correto, e matemáticos como Gustav Lejeune Dirichlet (1804-1859), nos anos seguintes, iriam fornecer condições para que uma função pudesse ser representada como uma série de Fourier num dado intervalo. Na fórmula acima, Fourier representou uma função com outra fórmula algébrica, contrariando o pensamento vigente até então de que as funções possuíam uma única expressão analítica. A definição de função dada por Dirichlet é a seguinte: Suponhamos que a e b são dois valores dados e x é a quantidade variável que assume, gradualmente, todos os valores localizados entre a e b. Se para cada x corresponde um único y, de modo que, enquanto x percorre o intervalo de a até b, y = f(x) varia gradualmente da mesma forma, então y é chamada função contínua de x para este intervalo. Além disso, não é absolutamente necessário que y dependa de x no intervalo inteiro de acordo com a mesma lei; sem dúvida, não é necessário pensar somente em relações que possam ser expressas através de operações matemáticas (Rüthing, 1984). Dirichlet foi o primeiro a estabelecer o conceito de função como uma relação arbitrária entre as variáveis, independente de fórmulas algébricas. Para mostrar a natureza arbitrária desta relação, definiu a função: c, se x é racional f(x) = d, se x é irracional Foi o primeiro exemplo de uma função que não era representada por uma fórmula – combinação de símbolos matemáticos. O matemático inglês George Stokes (1819-1903), acompanhando o entendimento de Dirichlet, percebeu a 20 importância de “pensar em funções independentes de todas as idéias de expressão algébrica” (Silva, 1999). A interpretação do conceito de função como transformação, onde cada elemento x é transformado no elemento f(x), foi dada por George Boole (18151864): Qualquer expressão algébrica envolvendo o símbolo x é chamada uma função de x e pode ser representada sob a forma geral abreviada f(x). ... Nestes mesmos princípios de notação, se em alguma função transformarmos x em 1, o resultado será expresso pela forma f(1); se na mesma função transformarmos x em 0, o resultado será expresso pela forma f(0) (Rüthing, 1984). Richard Dedekind (1831-1916) utilizou a idéia de aplicação para definir o conceito de função: Em uma aplicação de um sistema S uma lei é entendida, de acordo com a qual cada elemento s de S está associado a um determinado objeto que é chamado a imagem de s e denotada por φ(s); dizemos também que φ(s) corresponde ao elemento s, que φ(s) é originada ou gerada pela aplicação φ, que s é transformado em φ(s) pela aplicação φ (ibid.). Na definição de função dada por G.H. Hardy (1877-1947) foram enumeradas três características que devem ser satisfeitas por uma função determinada pela relação entre duas quantidades variáveis x e y: (1) y é sempre determinado por um valor de x; (2) para cada valor de x para o qual y é dado, corresponde um e somente um valor de y; (3) a relação entre x e y expressa através de uma fórmula analítica, na qual o valor de y que corresponde a um dado valor de x pode ser calculado por substituição direta de x. (Silva, 1999) Uma tradução da definição de Hardy para a linguagem da teoria dos conjuntos foi dada por Bourbaki em 1939: Sejam E e F dois conjuntos distintos ou não. Uma relação entre uma variável x de E e uma variável y de F é dita uma relação funcional em y, ou relação funcional de E em F, se, para qualquer x∈E existe um único y∈F, e apenas um, que está na relação dada com x. Damos o nome de função à operação que associa a todo elemento x∈E o elemento y∈F que se encontra na relação dada com x; dizemos que y é o valor da função para o elemento x, e que a função é determinada pela relação funcional considerada. Duas relações funcionais equivalentes determinam a mesma função (Rüthing, 1984). 21 Podemos verificar através deste breve histórico que o conceito de função passou por diversas mudanças e que sua construção foi bastante lenta. Identificamos também algumas representações na evolução do conceito de função através de sua história: função como relação entre quantidades variáveis, como expressão analítica, como relação entre conjuntos e como transformação. A idéia central do conceito de função, presente tanto no nascimento da física quantitativa quanto em nosso cotidiano, é a de relação entre quantidades variáveis. Não pensamos em fórmulas matemáticas ou em subconjuntos de um produto cartesiano quando compramos um produto. O que fazemos é relacionar a quantidade comprada com o preço a ser pago através do conhecimento que temos sobre a maneira com que estas grandezas, quantidade e preço, variam. O estudo da maneira como ocorre a variação das grandezas, por ter participado de forma decisiva na construção de um método para a ciência e na própria evolução da matemática devem estar presentes de alguma maneira no ensino de funções. Procuraremos identificar esta presença no próximo capítulo, paras as funções polinomiais do 1° e 2° graus. CAPÍTULO 2 – OS MAPAS Neste capítulo, construiremos mapas para que possamos observar como ocorre o ensino das funções polinomiais do 1° e 2° graus na educação básica. Segundo Lévy (1993), construir esquemas que abstraiam e integrem o sentido de um texto ou, de forma mais geral, de uma configuração informacional complexa é tarefa difícil. Afirma ainda o autor que as representações do tipo cartográfico ganham cada vez mais importância, justamente para resolver este problema de construção de esquemas. A utilização do mapa como instrumento metodológico, em comparação ao seu sentido cartográfico, foi feita originalmente pelo sociólogo Boaventura Santos, que desenvolveu uma “concepção do direito enquanto mapa cognitivo dos espaços de ordem e desordem em que nos movemos quotidianamente” (Santos, 2000). Ao comparar a realidade jurídica com mapas, criou uma metodologia de análise que chamou de cartografia simbólica ou sociologia cartográfica. Esta abordagem foi utilizada por Rezende (2003a), onde o autor construiu mapas históricos e conceituais do Cálculo e mapas das dificuldades de aprendizagem de natureza epistemológica do ensino de Cálculo. Usaremos também neste trabalho esta idéia de mapa para observar como o tema “Funções Polinomiais” é ensinado na educação básica. Antes, porém, faremos uma breve revisão teórica sobre tema. 2.1 - O MAPA COMO INSTRUMENTO METODOLÓGICO Em cartografia, mapa é a representação de algum espaço geográfico numa superfície plana. Embora a palavra mapeamento signifique ato ou efeito de delinear espaço geográfico, de forma estática, como princípio metodológico de pesquisa significa a compreensão da estrutura e dos 23 entes nela inseridos, a organização e a representação ou mapa dos dados em um contexto, de forma dinâmica (Biembengut, 2003). Comparando os mapas e o direito (conjunto de leis, normas, costumes e instituições jurídicas), Santos (2000) afirma que “as relações existentes entre as diferentes juridicidades e a realidade social são muito semelhantes às que existem entre os mapas e a realidade espacial”. Segundo o sociólogo, para desempenhar adequadamente suas funções, um mapa não pode coincidir exatamente com a realidade. Jorge Luís Borges (apud Santos, 2000) conta a história de um imperador que encomendou uma mapa exato do seu império, fiel até o mínimo detalhe. Os melhores cartógrafos da época produziram então um mapa de exatidão insuperável, pois coincidia ponto a ponto com o império. Contudo, verificaram que o mapa não era muito prático, pois era do tamanho do império. Um mapa para ser útil tem que, inevitavelmente, distorcer a realidade. Segundo Santos (2000), esta distorção da realidade se faz segundo três mecanismos principais: a escala, a projeção e a simbolização. A escala, primeiro mecanismo de representação/distorção da realidade, é a relação entre a distância no mapa e a correspondente distância no terreno. O mapa de Borges, cópia exata e fiel da realidade na escala de 1 para 1, onde nenhum detalhe foi esquecido, mostrou-se inútil. A escala é um “esquecimento coerente” (Racine et al., 1983), e, na confecção de um mapa, a decisão sobre quais aspectos serão omitidos e quais serão destacados é um fator essencial para orientação através da realidade representada e sua compreensão. A escolha da escala depende do uso que terá o mapa, do nível de detalhamento desejado e dos objetivos de quem o elabora. O segundo mecanismo de distorção da realidade utilizado na confecção de um mapa é a projeção, que, no contexto geográfico, transforma as superfícies curvas da terra na superfície plana de um mapa. Esta transformação não pode ocorrer sem que as formas, distâncias e outros atributos da realidade geográfica sejam deformados. Os vários tipos de projeção não distorcem a realidade aleatoriamente; cada tipo de projeção cria um campo de representação no qual os graus e as formas de distorção têm lugar segundo regras conhecidas e precisas (Santos, 2000). A construção de um mapa pressupõe a existência de um projeto em curso; “tudo é relevante ou deixa de sê-lo tendo em vista o projeto que se persegue” (Machado, 2004). Assim, podemos assegurar que não existe neutralidade e ingenuidade na atitude de 24 mapear (Rezende, 2003a). Como na escala, a decisão sobre o tipo e o grau de deformação é baseada no uso a que o mapa se destina e na intenção do cartógrafo. A simbolização é o terceiro mecanismo da representação cartográfica utilizado na produção de mapas e se refere aos símbolos gráficos usados para assinalar no mapa os elementos e as características do espaço representado. É comum encontrarmos num mapa geográfico as regiões polares na cor branca; as cidades representadas por círculos grandes ou pequenos, de acordo com a sua população, as fronteiras demarcadas por linhas escuras e rios mostrados através de linhas azuis. Os símbolos utilizados num mapa são, em geral, identificados através de legendas, que criam uma correspondência entre os símbolos gráficos presentes no mapa e as diferentes características do espaço geográfico que está sendo representado. 2.2 - O MAPEAMENTO DOS LIVROS DIDÁTICOS Escolhemos o livro didático como objeto de observação devido à facilidade de acesso e ao fato de este instrumento apresentar, em geral, um bom universo das alternativas didáticas utilizadas pelo professor em sala de aula. Inicialmente, foi realizada consulta verbal junto a professores da educação básica para identificar os textos adotados atualmente nas escolas ou utilizados por estes docentes como fonte de consulta. Dentre os livros citados pelos professores, foram selecionados 4 livros do ensino fundamental (8ª série) e 6 livros do ensino médio (1ª série). Foram escolhidos livros de 8ª série que, no tópico “funções”, identificam as funções polinomiais. Não foram usados livros de outros segmentos do ensino fundamental, pois a introdução do conceito de função é feita, em geral, a partir da 8ª série e o estudo sistemático das funções polinomiais, a partir da 1ª série do ensino médio. Os textos didáticos utilizados para a confecção dos mapas estão listados no final deste trabalho. Para cada livro do ensino médio, foram construídos dois mapas, um para cada função polinomial (a do 1º e a do 2º grau). Devido à forma simplificada como estas funções são abordadas na 8ª série, alguns mapas neste nível de ensino englobam ambas as funções polinomiais. O título de cada mapa fará referência à função polinomial abordada (1G ou 2G) e ao autor (ou um dos autores) do livro mapeado. Por exemplo: 1G - Dante Em cada mapa, os tópicos usados para o ensino das funções serão representados no interior de retângulos coloridos, que serão interligados a outros através de linhas ou setas. Não se pode compreender 25 verdadeiramente o significado das informações levantadas sem procurar expressar como os diversos entes se interagem (Biembengut, 2003). Uma parte do mapa com o título citado no parágrafo anterior acima foi reproduzida a seguir: TABELA DE VALORES TAXA DE VARIAÇÃO GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO DEFINIÇÃO As setas nos mapas indicam o caminho utilizado pelo autor para desenvolver os tópicos ou introduzir algum conceito. No mapa acima, vemos que a confecção da “TABELA DE VALORES” e a definição da “TAXA DE VARIAÇÃO” foram feitas a partir da “DEFINIÇÃO” da função. Podemos verificar também que o “GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO” foi construído através da tabela de valores. Para se construir o gráfico de uma função utilizamos outros conceitos como o de eixos coordenados, par ordenado e a própria “DEFINIÇÃO” da função afim. No entanto, a escolha da escala está associada à nossa intenção de mapear, isto é, à projeção escolhida. Vale lembrar que nosso objetivo ao elaborar mapas baseados nos textos didáticos era observar, sobretudo, como o estudo da variabilidade das funções polinomiais do 1º e do 2º graus foi desenvolvido em cada um deles. Isto é, o que se pretende aqui é verificar, mais especificamente, se a função foi caracterizada a partir do seu comportamento variacional, como ocorreu historicamente. Assim, ao definir a escala, optamos por representar no mapa apenas os caminhos relevantes para a sua compreensão, tendo em vista a projeção desejada. Podemos ainda observar que num mapa sobre função afim, com uma escala maior, o retângulo “DEFINIÇÃO”, por exemplo, poderia estar relacionado com todos os outros através de setas, o que dificultaria a visualização de como o tema é abordado no livro e não nos permitiria alcançar o nosso objetivo com a ação de mapear. É certo que tudo pode ser relacionado a quase tudo, mas decidir 26 o que verdadeiramente importa é, cada vez mais, a grande questão (Machado, 2004). As cores foram utilizadas nos mapas com a intenção de diferenciar o tipo de abordagem que é utilizada em cada tópico. Utilizamos as mesmas cores em todos os mapas, conforme a legenda abaixo: ÁLGEBRA GEOMETRIA CÁLCULO Através desta simbologia, podemos observar no mapa mostrado, por exemplo, que a “DEFINIÇÃO” de função afim é feita do ponto de vista algébrico; isto é, a definição de função afim é feita através de sua conhecida fórmula algébrica f(x) = ax + b. Em seguida mostraremos os mapas sobre o ensino das funções afim e quadrática, que foram construídos tendo como base os livros didáticos escolhidos. 27 1G - Machado DOMÍNIO E IMAGEM TABELA DE VALORES DEFINIÇÃO GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO RAIZ DA FUNÇÃO SINAIS DA FUNÇÃO INEQUAÇÕES E SISTEMAS DE INEQUAÇÕES FUNÇÃO CRESCENTE E FUNÇÃO DECRESCENTE EQUAÇÃO DO 1° GRAU 28 1G - Iezzi DEFINIÇÃO CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO DOMÍNIO E IMAGEM TABELA DE VALORES ZERO DA FUNÇÃO SINAL DA FUNÇÃO GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO (RETA) INEQUAÇÕES SISTEMAS DE EQUAÇÕES EQUAÇÃO DO 1° GRAU SEMELHANÇA DE TRIÂNGULOS 29 1G - Dante POSIÇÃO RELATIVA ENTRE DUAS RETAS TABELA DE VALORES FUNÇÃO LINEAR GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO DEFINIÇÃO TAXA DE VARIAÇÃO ESTUDO DO SINAL CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO PROPORCIONALIDADE ZERO DA FUNÇÃO EQUAÇÃO DO 1° GRAU INEQUAÇÕES 30 1G - Paiva TABELA DE VALORES DEFINIÇÃO GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO EQUAÇÃO DO 1° GRAU RAIZ DA FUNÇÃO ESTUDO DO SINAL CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO INEQUAÇÕES 31 1G - Bianchini TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO DEFINIÇÃO CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO ESTUDO DO SINAL INEQUAÇÕES ZERO DA FUNÇÃO 32 1G - Smole POSIÇÃO RELATIVA ENTRE DUAS RETAS SEMELHANÇA DE TRIÂNGULOS TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO (RETA) EQUAÇÃO DO 1° GRAU RAIZ DA FUNÇÃO ESTUDO DO SINAL DEFINIÇÃO VARIAÇÃO DA FUNÇÃO CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO DA FUNÇÃO INEQUAÇÕES 33 1G - Andrini LEI DE FORMAÇÃO DO TIPO f(x) = ax + b TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO (RETA) 34 1G-Bigode DEFINIÇÃO INCLINAÇÃO DA RETA CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO (RETA) INTERSECÇÕES COM OS EIXOS RAIZ DA EQUAÇÃO ax + b = 0 35 1G e 2G - França DEFINIÇÃO TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO FUNÇÕES DO TIPO y = ax + b RETA FUNÇÕES DO TIPO y = ax² + bx + c PARÁBOLA 36 1G e 2G - Imenes DEFINIÇÃO POLINÔMIO DO 1° GRAU DEFINIÇÃO POLINÔMIO DO 2° GRAU TABELA DE VALORES TABELA DE VALORES GRÁFICO RETA GRÁFICO PARÁBOLA 37 2G - Andrini LEI DE FORMAÇÃO DO TIPO f(x) = ax² + bx + c TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO PARÁBOLA CONCAVIDADE EIXO DE SIMETRIA VÉRTICE 38 2G - Bigode DEFINIÇÃO TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO CONCAVIDADE COORENADAS DO VÉRTICE INTERSECÇÕES COM OS EIXOS EIXO DE SIMETRIA RAÍZES DA EQUAÇÃO DO 2° GRAU 39 2G - Machado DOMÍNIO TABELA DE VALORES IMAGEM VALOR MÁXIMO E VALOR MINIMO DEFINIÇÃO VÉRTICE GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO PONTO DE MÁXIMO E PONTO DE MÍNIMO CONCAVIDADE RAÍZES E SINAIS DA FUNÇÃO EQUAÇÃO DO 2° GRAU INEQUAÇÕES CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO 40 2G - Iezzi PONTOS DE MÁXIMO E MÍNIMO EQUAÇÃO DO 2° GRAU FORMA CANÔNICA f (x) = a [ ( x + 2a b ) 2 - ∆ 4a 2 VÉRTICE ] DEFINIÇÃO f(x)=ax²+bx+c VALORES DE MÁXIMO E MÍNIMO EIXO DE SIMETRIA TABELA DE VALORES IMAGEM DA FUNÇÃO GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO CONCAVIDADE INEQUAÇÕES DO 2° GRAU SINAL DA FUNÇÃO ZEROS DA FUNÇÃO 41 2G - Dante EIXO DE SIMETRIA INCLINAÇÃO DA RETA TANGENTE TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO DEFINIÇÃO ABERTURA DA PARÁBOLA CONCAVIDADE TAXA DE VARIAÇÃO COORDENADAS DO VÉRTICE EQUAÇÃO DO 2° GRAU SINAL DA FUNÇÃO IMAGEM DA FUNÇÃO VALORES MÁXIMO E MÍNIMO INEQUAÇÕES 42 2G - Paiva TABELA DE VALORES GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO EIXO DE SIMETRIA DEFINIÇÃO CONCAVIDADE SINAL DA FUNÇÃO QUADRÁTICA SINAL DA FUNÇÃO AFIM VALORES E PONTOS DE MÁXIMO E MÍNIMO VÉRTICE EQUAÇÃO DO 2° GRAU INEQUAÇÕES 43 2G - Bianchini TABELA DE VALORES DEFINIÇÃO IMAGEM GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO EIXO DE SIMETRIA VÉRTICE CONCAVIDADE INEQUAÇÕES EQUAÇÃO DO 2º GRAU ESTUDO DO SINAL RAÍZES DA FUNÇÃO VALORES MÁXIMO E MÍNIMO 44 2G - Smole CRESCIMENTO E DECRESCIMENTO EIXO DE SIMETRIA GRÁFICO NO PLANO CARTESIANO TABELA DE VALORES DEFINIÇÃO VÉRTICE CONCAVIDADE VALOR MÁXIMO E VALOR MÍNIMO IMAGEM DA FUNÇÃO INEQUAÇÕES ESTUDO DO SINAL RESOLUÇÃO DE EQUAÇÕES DO 2° GRAU RAÍZES DA FUNÇÃO CAPÍTULO 3 – PROPOSTA DE ATIVIDADES Como pudemos observar nos mapas do capítulo anterior, o ensino das funções polinomiais de 1º e 2º graus é feito quase na sua totalidade de forma algébrica. Dadas as definições, são desenvolvidos o estudo de gráficos, crescimento, zeros, inequações e outros tópicos associados à fórmula algébrica que definiu a função. O estudo da variabilidade das funções é praticamente ignorado pelos textos, salvo raras menções à taxa de variação. Na prática, não existem realmente vantagens em saber apenas se uma função (relação entre grandezas variáveis) é crescente ou decrescente. Todos sabem que o salário mínimo é função crescente do tempo. No entanto, esta informação não é satisfatória, pois o que nos interessa na verdade é a variação (crescimento) que terá este salário. A familiarização com a variação de grandezas, por meio da análise de seu comportamento, com a identificação de padrões e regularidades, é fundamental para que o aluno inicie processos de generalização (Cândido, 2000). Proporemos a seguir algumas atividades que possam ser apresentadas ao aluno do ensino médio, paralelamente ao estudo algébrico das funções e que enfatizam a variabilidade de cada uma das funções polinomiais do 1° e 2° graus. Incluímos nestas atividades algumas relacionadas com a física. Como o estudo do movimento participou de maneira efetiva da construção do conceito de função, é natural que este estudo participe de alguma forma no ensino de funções. 46 3.1 – FUNÇÃO POLINOMIAL DO 1º GRAU O estudo da função afim é feito em geral baseado na seguinte definição: “Uma função f de é chamada função afim se existem dois → números reais a e b tais que f(x) = ax + b, para todo x ∈ R. ” Dentre as diversas características da função afim que são normalmente estudadas a partir da definição acima, pode-se incluir a taxa de variação média de f no intervalo [x1 ; x2], dada por f(x 2 ) - f(x1 ) . x 2 - x1 ATIVIDADE 1: Consideremos a função afim definida por f(x) = 3x + 2. Podemos construir uma tabela relacionando f(x) para alguns valores de x, por exemplo: x 0 3 7 12 f(x) 2 11 23 38 Calculando a taxa de variação média em alguns intervalos, temos: INTERVALO Entre 0 e 7 TAXA DE VARIAÇÃO f(x 2 ) - f(x1 ) x 2 - x1 Entre 3 e 7 f(x 2 ) - f(x 1 ) x 2 - x1 Entre 0 e 12 f(x 2 ) - f(x1 ) x 2 - x1 = = = f(7 ) - f(0) 7-0 f(7) - f(3 ) 7-3 7 = f(12) - f(0) 12 - 0 23 - 2 = =3 23 - 11 = 4 38 - 2 12 =3 =3 O cálculo da taxa de variação média desta função em outros intervalos, e o cálculo desta taxa para outras funções afins levarão o aluno a generalizar que a taxa de variação média de uma função da forma f(x) = ax + b é constante e igual ao coeficiente a. Um cálculo simples constata que este fato é válido para qualquer função afim, pois para estas temos, em qualquer intervalo [x1 ; x2]: 47 f(x 2 ) - f(x1 ) x 2 - x1 ax 2 +b - ax1 - b = x 2 - x1 = a(x 2 - x1 ) x 2 - x1 = a . ATIVIDADE 2: Uma loja de doces está fazendo uma promoção na venda de balas de acordo com a tabela progressiva abaixo, válida para compra de até 500 unidades. Quanto pagarei por 400 balas? Número de balas Preço a pagar (em reais) 10 20 30 40 50 ........ 400 2,40 4,60 6,80 9,00 11,20 ........ P Esta tabela apresenta uma regularidade característica da função afim: enquanto o número de balas está variando de “10 em 10”, o preço varia de “2,20 em 2,20”, isto é, a acréscimos iguais no número de balas, correspondem acréscimos iguais no preço a pagar. Assim, neste problema, podemos relacionar os valores de x (número de balas) com os respectivos f(x) (preço) através de uma função polinomial do 1° grau, que possui taxa de variação média constante. Esta taxa pode ser calculada, por exemplo, no intervalo [20,50]: taxa de variação = f(50)- f(20) 11,20 - 4,60 6,60 = = = 0,22 50 - 20 30 30 Como a tabela progressiva é válida para comprar até 500 balas, a taxa de variação, por exemplo, no intervalo [40,400] também vale 0,22. Daí, se P é o preço a pagar por 400 balas, temos: 0,22 = f(400)- f(40) P - 9,00 = 400 - 40 360 A última igualdade acima nos leva imediatamente a P = 88,20. Podemos observar que a determinação da taxa de variação da função foi suficiente para a resolução do problema. O tipo de regularidade presente na tabela do exemplo anterior faz com que o conceito de Progressão Aritmética (P.A.) possa ser introduzido para o estudo da 48 variabilidade das funções afins. Uma função monótona f de → que transforma progressões aritméticas em progressões aritméticas é uma função afim. ATIVIDADE 3: A tabela abaixo mostra a variação de posição de um trem que passava no quilômetro 40 de uma ferrovia quando o movimento começou a ser observado (t = 0). Depois de quanto tempo após o início da viagem, o trem passou pelo quilômetro 120 da ferrovia? Tempo (em horas) 0 1 2 3 4 Espaço (em quilômetros) 40 70 100 130 160 Estamos buscando uma função que relacione os tempos com os espaços. Os dados da tabela nos mostram que a P.A. (0, 1, 2, 3, 4) está sendo transformada pela função na P.A. (40, 70, 100, 130, 160). Sendo este fato característico da função afim, a função f procurada possui taxa de variação constante, dada, por exemplo, no intervalo [1;3] por: f(3)- f(1) 130km- 70km km = = 30 . 3 -1 2h h Estamos procurando o instante t correspondente ao espaço 120 km, isto é, buscamos o valor de t tal que f(t) = 120. Como conhecemos a taxa de variação média em qualquer intervalo de tempo, e sabendo que f(1) = 70, temos: 30 = f(t)- f(1) 120 - 70 50 = = t -1 t -1 t -1 • Da equação acima, concluímos que t = 2 horas e 40 minutos (8/3 h). Em qualquer movimento, a taxa de variação média no intervalo [t1; t2] é chamada Velocidade Média neste intervalo. Este tipo de movimento, onde o corpo percorre espaços iguais em intervalos de tempo iguais, é chamado de Movimento Uniforme. Sua função horária é uma função afim s(t) = vt + s0 , onde v é a velocidade média (constante ) do movimento e s0 é a posição do móvel no instante t = 0. Para o problema resolvido acima, no intervalo [0 ; 4], a velocidade é 49 de 30 km/h e a posição no instante t = 0 vale 40 km. Assim, a função horária deste movimento é s(t) = 30t + 40. 3.2 – FUNÇÃO POLINOMIAL DO 2° GRAU O estudo da função polinomial do 2° grau (ou função quadrática) é feito baseado na seguinte definição: “Uma função f de é chamada função quadrática se existem → números reais a, b e c, com a ≠ 0, tais que f(x) = ax² + bx + c, para todo x ∈ R. ” Uma atividade inicial para o estudo da variação da função quadrática pode ser o cálculo de taxas de variação média para casos particulares desta função. ATIVIDADE 4: Consideremos a função f(x) = x². Podemos construir uma tabela para alguns valores desta função: x 0 1 2 3 4 5 6 f(x) 0 1 4 9 16 25 36 Podemos escolher dois intervalos diferentes e calcular a taxa de variação da função para cada um deles: INTERVALO TAXA DE VARIAÇÃO MÉDIA Entre 0 e 2 f(2) - f(0) 4 - 0 = =2 2-0 2 Entre 2 e 6 f(6) - f(2) 36 - 4 = =8 6-2 4 A função f(x) = x² assim como a função f(x) = x são crescentes, por exemplo, no intervalo [1;5]. Isto pode deixar no aluno a falsa impressão de que ambas as funções possuem exatamente o mesmo comportamento variacional 50 neste intervalo. Os valores obtidos na tabela acima mostram que a taxa de variação média da função quadrática, ao contrário do que acontece com a função afim, muda de acordo com o intervalo considerado. ATIVIDADE 5: Seja a função f(x) = x² + 3x. Vamos calcular a taxa de variação média desta função em alguns intervalos da forma [x1 ; x2]. Consideremos inicialmente [x1 ; x2] = [1 ; 2]. A taxa de variação média neste intervalo é f(2)- f(1) 10 - 4 = =6. 2 -1 1 Tomaremos a seguir vários intervalos com x1 = 1, de modo que o outro extremo do intervalo esteja cada vez mais próximo de 1. [x 1 ; x2] TAXA DE VARIAÇÃO MÉDIA [1 ; 1,4] f(1,4)- f(1) 6,16 - 4 = = 1,4 -1 0,4 5,4 [1 ; 1,2] f(1,2)- f(1) 5,04 - 4 = = 1,2 -1 0,2 5,2 [1 ; 1,1] f(1,1)- f(1) 4,51- 4 = = 1,1-1 0,1 5,1 Aproximando x2 mais ainda de 1 ...... [1 ; 1,005] f(1,005)- f(1) 4,025025 - 4 = = 1,005 -1 0,005 5,005 Observando a tabela acima, é fácil perceber que a taxa de variação média está se aproximando do número 5 à medida que tomamos x2 cada vez mais próximo de 1 . De modo geral, a taxa de variação média da função f(x) = ax² + bx + c no intervalo [x1 ; x2] é dada por: 51 f(x2 )- f(x1 ) ax22 + bx2 + c -ax12 -bx1 - c = = a (x2 + x1 ) + b = a (2x1 + (x2 - x1 )) + b. x2 - x1 x2 - x1 Assim, a taxa de variação média de função quadrática vale 2ax1 + b + a (x 2 - x1 ). Esta última expressão significa que, à medida que x1 e x2 vão se tornando cada vez mais próximos, a taxa de variação média em [x1 ; x2] vai se aproximando de 2ax1 + b. Este fato foi verificado para a função f(x) = x² + 3x, onde a taxa de variação se aproximava de 2ax1 + b = 5, para intervalos da forma [1 ; x2], com a diferença (x2 –1) se aproximando de zero. Podemos observar ainda que, como a taxa de variação média é sempre calculada num intervalo, x1 será sempre diferente de x2 , e por mais próximos que estes números estejam, a taxa de variação média nunca assumirá o valor 5. No entanto, este valor pode ser calculado através da expressão 2ax1 + b, que fica perfeitamente determinada dada uma função quadrática ax² + bx + c e um número real arbitrário x1. Este número 2ax1 + b é chamado de “taxa de variação da função quadrática ax² + bx + c no ponto x1” . Esta taxa também é chamada de “taxa de variação instantânea” ou, em problemas da física, de “velocidade instantânea”, calculada em um instante de tempo. No movimento uniforme, como a velocidade é a mesma em todo movimento, a velocidade média em qualquer intervalo de tempo coincide com a velocidade em cada instante t. ATIVIDADE 6: Na observação de um movimento uniformemente variado (com aceleração constante), foi construída uma tabela que mostra como varia a posição de um móvel com o tempo. Tempo (em horas) 0 1 2 3 4 5 t Espaço (em quilômetros) 40 50 70 100 140 190 f(t) 52 A função quadrática serve como modelo para a descrição do Movimento Uniformemente Variado. A função que relaciona a posição de um móvel com o tempo neste tipo de movimento é dada por: (I) a = aceleração constante do movimento a 2 s(t) = t + v 0 t + s0 , onde v 0 = velocidade no instante t = 0 2 s = posição do móvel no instante t = 0 0 Já vimos que a taxa de variação instantânea (ou, neste caso, velocidade instantânea) de uma função quadrática f(x) = ax² + bx + c, no ponto x0 é dada por 2ax0 + b, para qualquer x0 real. Isto significa que, num movimento uniformemente variado, a velocidade instantânea no ponto t é dada pela função afim (II) a = é aceleração constante do movimento v(t) = a t + v 0 , onde v 0 = velocidade no instante t = 0 As funções (I) e (II) são chamadas Funções Horárias do Movimento Uniformemente Variado. Na tabela mostrada no início desta atividade, existe algum tipo de regularidade que pode indicar que a função que relaciona o espaço com o tempo é uma função quadrática? ATIVIDADE 7: Um ônibus de 48 lugares foi alugado para uma excursão. O preço por passageiro é de R$30,00 reais acrescido de uma taxa de 1 real por lugar vazio no ônibus. Nosso problema é determinar qual o número de passageiros maximiza a rentabilidade para o dono do ônibus. Podemos, inicialmente, construir uma tabela de valores que relacione algumas variáveis presentes no problema. Lugares vazios 0 Lugares ocupados Preço por passageiro (em reais) 48 30 Rentabilidade (em reais) 1.440 1 47 31 1.457 2 46 32 1.472 3 45 33 1.485 4 44 34 1.496 53 Vamos buscar a relação existente entre o número de lugares vagos e a rentabilidade do dono do ônibus. Na atividade 2 relacionamos a variação das funções afins com as de Progressões Aritméticas. Podemos perceber na tabela acima que a P.A. (0, 1, 2, 3, 4) está sendo transformada na seqüência (1.440, 1.457, 1.472, 1.485, 1496) que não é uma P.A. no sentido usual. No entanto, se considerarmos as diferenças entre dois termos consecutivos, a partir do segundo, veremos que estas diferenças formam uma P.A. de razão –2, como mostra a tabela a seguir: Lugares vazios Rentabilidade (em reais) 0 1.440 1 1.457 2 1.472 3 1.485 4 1.496 Diferenças 1457-1440 = 17 1472-1457 = 15 1485-1472 = 13 1496-1485 = 11 Estas seqüências cujas diferenças entre dois termos consecutivos, a partir do segundo, formam uma P. A. são chamadas de Progressões Aritméticas de Segunda Ordem. E, sob certas condições, uma função que transforma progressões aritméticas em progressões aritméticas de 2ª ordem é uma função quadrática. Como numa função da forma f(x) = ax² + bx + c, temos f(0) = c, no problema acima, c = 1.440. Tomando-se outros dois valores da função: f(1) = 1.457 e f(2) = 1.472 , o sistema abaixo nos dá os valores de a = -1 e b = 18. a + b + 1440 = 1457 4a + 2b + 1440 = 1472 a + b = 17 4a + 2b = 32 Assim, a função que relaciona o número de lugares vagos no ônibus com a rentabilidade é dada por f(x) = - x² + 18x + 1440. Esta função assume seu valor máximo em x = 9. Logo, a rentabilidade é máxima se o ônibus tiver 9 lugares vagos, isto é, se 39 passageiros comparecerem para a excursão. Finalmente, podemos observar que na Atividade 6, a P.A. (0, 1, 2, 3, 4, 5) é levada pela função f na P.A. de segunda ordem (40, 50, 70, 100, 140, 190). Isto 54 nos levaria a concluir que uma função quadrática serve de modelo para o movimento uniformemente variado descrito naquela atividade. CONCLUSÃO Na revisão histórica do Capítulo 1, pudemos observar que na criação e desenvolvimento do conceito representações. Centraremos de função estiveram nossas atenções presentes apenas diversas em duas delas, importantes para o alcance dos objetivos propostos neste trabalho. Na primeira, função é uma relação entre grandezas variáveis. Nesta representação do conceito, de caráter dinâmico, o conhecimento sobre a maneira com que estas grandezas variam levou a um gráfico relacionando duas grandezas (Oresme), à expressão matemática que estabelece a relação entre as grandezas (Galileu, por exemplo) e ao conceito de derivada (Newton). Na segunda representação, função é uma relação entre elementos de conjuntos estabelecida por uma fórmula. Esta interpretação, ao lado da idéia de função como subconjunto especial de um produto cartesiano, se constitui numa representação estática do conceito de função. Ambas as representações do conceito de função, por sua importância no desenvolvimento histórico do conceito e na própria evolução da ciência deveriam estar presentes no ensino de funções. No entanto, tendo como referência os mapas construídos no Capítulo 2, o que observamos foi uma grande predominância, quase um monopólio, da representação algébrica do conceito de função. O mapeamento realizado mostrou uma ausência quase total, nos textos didáticos, de tópicos que analisem o comportamento destas funções sob o ponto de vista da variabilidade. Qual o motivo desta omissão? Qual a dificuldade em se tratar, no ensino médio, de assuntos como “variabilidade” ou “taxa de variação”? Não é objetivo deste trabalho responder a estas perguntas; no entanto não podemos perder de vista um motivo pelo qual o assunto “funções” está inserido 56 nos programas da educação básica: a resolução de problemas. E nestes problemas, aparecem grandezas, que por sua vez, variam. Saber como estas grandezas variam, realmente não interessa? Qual seria a importância deste estudo? Para os futuros estudantes de Cálculo na educação superior, já foram apontadas razões que justifiquem uma abordagem das funções sob ponto de vista da variabilidade: E para os outros alunos do ensino médio, aqueles que provavelmente jamais estudarão derivadas e integrais? Os problemas do cotidiano ou das ciências que podem ser resolvidos matematicamente em geral não trazem fórmulas em seus enunciados. Trazem sim “quantidades variáveis” como tempo, lucro, temperatura, peso, população, demanda, preço ou qualquer outra grandeza. Não existem grandes vantagens em saber apenas que “o preço da gasolina vai subir” ou que “as taxas de juros no varejo caíram”. O exercício da cidadania, cada vez mais complexo nos dias de hoje, envolve também o conhecimento sobre como e o quanto variam as grandezas presentes em problemas que nos são apresentados em nossa vida cotidiana. Não estamos aqui tratando de problemas, freqüentes nos livros do ensino médio, como “O custo de produção numa fábrica é dado pela função c(p) = -p² + 300.........”. Este tipo de problema, também importante para o exercício de técnicas algébricas essenciais ao estudo de funções (cálculo de raízes, coordenadas do vértice e outras), é característico de uma abordagem do conceito de função quadrática que parte desde o princípio da fórmula f(x) = ax² + bx + c. E se o problema não tiver uma fórmula ou um gráfico? De quais ferramentas dispõe o aluno para modelar o problema e decidir qual função pode ser utilizada no processo de modelagem? As funções polinomiais estudadas no ensino médio possuem características variacionais, que deveriam ser mostradas aos alunos. A comparação entre estas características e o modo com que as grandezas variam num determinado problema podem informar se alguma destas funções é adequada para sua resolução. 57 O fato de os textos não abordarem o estudo da variabilidade das funções polinomiais, conforme constatado no mapeamento realizado, certamente não é impedimento para que os professores da educação básica o façam. Recente documento da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, que contém orientações para o desenvolvimento do currículo nas unidades escolares da Rede Pública Estadual (SEE-RJ, 2004), figuram orientações para os professores como “introduzir a idéia de taxa de variação” e “fazer a ligação da progressão aritmética com a função afim” para o estudo da função polinomial do 1° grau, na 1ª série do ensino médio. Em algum momento, estes tópicos deverão ser abordados em sala de aula. Poderíamos ainda, a título de reflexão, perguntar se nós, docentes do ensino médio, trazemos estes conhecimentos consolidados em nossa bagagem didática para que possamos transmiti-los aos alunos de forma segura. As atividades propostas no capítulo anterior, ainda que incompletas e longe de esgotar o assunto, mostram como a variabilidade das funções afim e quadrática podem ser tratadas no ensino médio, paralelamente ao estudo algébrico destas funções. Os conceitos de velocidade média e instantânea propiciam uma ótima oportunidade de estabelecer a relação interdisciplinar da Matemática com a Física, assim como ocorreu historicamente. O estudo, mesmo que intuitivo, da taxa de variação instantânea, além de enriquecer o estudo das funções contribuiria, segundo Rezende (2003), para a construção do campo semântico do conceito de derivada, ainda no ensino médio. A construção deste campo ainda pode ser feita através do estabelecimento da relação entre a taxa de variação e o coeficiente angular da reta tangente num ponto. Apesar de não incluída nas atividades propostas, acreditamos que esta abordagem pode ser incluída no ensino médio. Na verdade, não temos certeza de que esta e as outras propostas “funcionarão” na educação básica. No entanto, existe uma maneira de descobrir: através da prática em sala de aula e da proposição de atividades deste tipo aos alunos. O uso das progressões aritméticas para estudar a variabilidade das funções afins e das progressões aritméticas de 2° ordem para a função quadrática, foi baseado em resultados apresentados em Lima (2001), onde também podem ser encontradas as suas demonstrações. 58 A idéia de progressão aritmética pode ser dada ao aluno ainda no ensino fundamental, e o seu estudo mais sistemático no ensino médio pode incluir a correlação desta seqüência com a variabilidade da função afim. As progressões aritméticas de 2ª ordem podem ser vistas quando do estudo da P.A. No estudo de funções, seria oportuno mostrar que a propriedade de transformar progressões aritméticas em progressões aritméticas de 2ª ordem é característica da função quadrática. O importante é que mostremos aos estudantes que as funções afim e quadrática possuem características que vão além das fórmulas f(x) = ax + b e f(x) = ax² + bx + c e que podem ser utilizadas na resolução de problemas, sobretudo quando tais expressões algébricas não estão disponíveis. Procuramos nesta monografia verificar que os livros didáticos da educação básica em geral não proporcionam um estudo sobre a variação das funções polinomiais do 1° e 2° graus. Buscamos também justificar a importância deste estudo e, através da proposição de atividades sobre a maneira como variam estas funções, sinalizamos como esta abordagem pode ser feita. Desse modo, esperamos com este trabalho ter contribuído para uma reflexão sobre a necessidade de inserção no ensino médio de atividades sobre a variabilidade das funções afins e quadráticas. Esta inclusão, até nos textos didáticos, pode não estar muito distante, já que propostas de órgãos governamentais já indicam este estudo como integrante do currículo do ensino médio. OBRAS CITADAS BIEMBENGUT, M. S. Mapeamento como princípio metodológico para a pesquisa educacional. In: Linguagem, Conhecimento, Ação: ensaios de epistemologia e didática. Coleção Ensaios Transversais, v. 23. São Paulo: Escrituras Editora, 2003. p. 289-312. BOYER, C. História da Matemática. 2a edição. São Paulo: Edgard Blücher, 1991. CANDIDO, S. L. Uma experiência sobre o ensino e a aprendizagem de funções. Educação Matemática em Revista, São Paulo, v.7, n. 8, p. 47-56, jun. 2000. CARAÇA, B. de J. Conceitos Fundamentais da Matemática. 9a edição. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1989. KLINE, M. 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