REDISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA POPULAÇÃO MINEIRA: A EMERGÊNCIA DOS
PEQUENOS MUNICIPIOS1
Douglas Sathler
Geógrafo, doutorando em Demografia pelo CEDEPLAR/UFMG
Glauco Umbelino
Geógrafo, mestre e doutorando em Demografia pelo CEDEPLAR/UFMG
1 - Introdução
Os dados divulgados pelos últimos Censos indicam que a desconcentração demográfica
ganha notoriedade nas regiões mais dinâmicas do Brasil. O baixo crescimento demográfico das
metrópoles tradicionais e o desenvolvimento de “novas espacialidades” predominantemente
urbanas sinalizam para um maior equilíbrio na distribuição espacial da população.
Entretanto, percebe-se que a desconcentração demográfica apresenta reflexos que,
muitas vezes, extrapolam os limites das cidades médias e das áreas urbanas próximas as
metrópoles. A reorientação dos fluxos migratórios também tem contribuído para o crescimento
dos pequenos municípios inseridos nas regiões mais dinâmicas do país. A diversificação
econômica, com o aumento das atividades não-agrícolas, e a formação de espaços
multifuncionais justificam, em parte, o maior dinamismo verificado nessas pequenas
aglomerações, que ainda apresentam uma série de traços tipicamente rurais. De acordo com
Umbelino e Sathler (2005), “a emergência de “novas espacialidades” predominantemente
urbanas não faz diminuir a importância do nascimento de um novo mundo rural”.
Em estudo recente, Sathler e Miranda (2006) demonstram que os pequenos municípios
inseridos nas microrregiões das cidades médias mais importantes do estado de São Paulo
(SP), merecem destaque no que se refere ao comportamento dos componentes da dinâmica
demográfica. De acordo com os autores, estes conjuntos de pequenos municípios, no total,
tiveram praticamente o dobro da capacidade de atrair migrantes entre 1995-2000 do que as
principais cidades médias de SP (12), quando ponderado pelo tamanho populacional. Em
Minas Gerais, de maneira mais tímida embora cada vez mais significativa, a dispersão
1
Este artigo objetiva complementar os exercícios empíricos realizados no estudo denominado “Desconcentração
Demográfica Mineira: migração, crescimento populacional e Novas Territorialidades” apresentado no IV Encontro
Nacional sobre Migração, realizado no Rio de Janeiro em 2005.
demográfica também conta com a capacidade de retenção e atração populacional dos
pequenos municípios próximos aos principais pólos regionais.
Nesse contexto, o estudo busca investigar o comportamento demográfico recente dos
pequenos municípios mineiros pertencentes às regiões mais dinâmicas do estado. A análise do
crescimento demográfico, do Saldo Migratório e da procedência dos imigrantes nestas
localidades são exercícios fundamentais para o entendimento do processo de dispersão da
população para essas localidades.
2 – Minas dos pequenos notáveis2: a criação de “novas espacialidades” sob a ótica do
Novo Rural
No ano de 2000, os pequenos municípios de MG contavam com um contingente
populacional de 6.744.466, que representa 37,66% da população total do estado.
Considerando os municípios emancipados na década de 1990, verifica-se a existência de 753
municípios em MG com população inferior a 30.000 habitantes, que representa quase 90% do
total de municípios do estado (853). Diante da evidente importância demográfica e territorial,
parece claro a necessidade de estudos que levem em consideração as dinâmicas recentes,
sobretudo, de um conjunto de pequenos notáveis, servindo de suporte para as ações dos
planejadores e gestores de políticas públicas. Cada vez mais, é visível o impacto do aumento
das atividades terciárias nessas localidades que, na perspectiva do chamado “Novo Rural”3,
oferece estímulos importantes para a atração e fixação de pessoas.
Estudos recentes enfatizam a crescente diversificação econômica nas áreas rurais
brasileiras, com a disseminação de novas formas de produção e de sobrevivência que não se
inserem no contexto das atividades agropecuárias. De acordo com Matos et al (2004), “a
crescente urbanização das áreas rurais do país, fato que é observado há tempos nos países
desenvolvidos, imprime um novo significado ao campo”. Os referidos autores também
mencionam que “as indagações sobre as mudanças que vêm ocorrendo nas áreas rurais
brasileiras chegam a impressionar, sobretudo, ao se recordar que há não muito tempo atrás,
vários estudiosos temiam o esvaziamento das áreas rurais, alardeando-o como tendência
inexorável”.
2
Matos et al (2004) já utilizavam a expressão “pequenos notáveis” para se referir aos pequenos municípios
mineiros capazes de reter e atrair pessoas via diversificação econômica.
3
De acordo com Grossi e Silva (2002), o “Novo Rural” brasileiro é constituído basicamente por três grandes
grupos de atividades, a saber: uma agropecuária moderna (baseada em comodities e intimamente ligada às
agroindústrias), um conjunto de atividades não-agrícolas (ligadas a moradia, ao lazer e a várias atividades
industriais e de prestações de serviços) e um conjunto de “novas” atividades agropecuárias localizadas em nichos
especiais de mercado.
2
Atualmente, percebe-se que este fenômeno pode ser comprovado nos países
subdesenvolvidos, embora sem a mesma magnitude que assume nos países de economia
mais dinâmica. O fato é que a pluriatividade no Brasil aparece como importante alternativa de
emprego e renda no campo, uma vez que o desemprego e o subemprego nas atividades
agrícolas consistia, há algumas décadas, como fator decisivo na manutenção das altas taxas
de êxodo rural. Diante disso, deve-se destacar a crescente capacidade das áreas rurais de
reter e atrair trabalhadores, ou seja, de uma forma geral, já não se sobressaem os fatores de
repulsão populacional nas áreas rurais com maior diversificação econômica (SATHLER, 2005).
Diante de uma série de problemas encontrados nos grandes núcleos de aglomeração
populacional, o chamado “Novo Rural” se apresenta como uma alternativa de ocupação e
renda para um grande número de pessoas que sofrem com o desemprego urbano, e mesmo
para aqueles trabalhadores inseridos no mercado formal urbano que se encontram pouco
dispostos a arcarem com os elevados custos de moradia e transporte presentes nas
metrópoles. De acordo com Matos et al (2004),
“as atividades do rural não-agrário também refletem um outro processo que parece não
ter mais volta, o da desconcentração econômico-espacial. São muitos os fatores que
atraem atividades e pessoas para fora dos grandes centros urbanos. Essa alternativa
pode ser realizada, inclusive, sem implicar em grandes distâncias geográficas. Em um
mundo onde as distâncias deixam de representar um atrito econômico irredutível,
investimentos produtivos e a expansão residencial para fora das metrópoles podem ser
algo estratégico”.
O crescente dinamismo das ocupações não-agrícolas ocorre praticamente em todas as
regiões do país. Em Minas Gerais, isso pode ser constatado de forma mais expressiva nas
áreas rurais dos municípios próximos aos maiores pólos do estado (MATOS et al, 2004).
Matos et al (2004) já assinalam a participação da RMBH na criação de “novas
espacialidades” predominantemente rurais no estado. De acordo com os autores, “a influência
dos grandes centros urbanos, particularmente de Belo Horizonte e região metropolitana,
mostra-se decisiva na re-configuração das áreas rurais”.
O surgimento do “Novo Rural” brasileiro já produz impactos significativos que devem ser
incorporados nos estudos dos movimentos migratórios nas regiões mais dinâmicas do país,
assim como no estado de Minas Gerais. Entretanto, algumas restrições metodológicas devem
ser superadas, principalmente no que tange aos conceitos de urbano e rural no país.
Problemas e insuficiências na definição do que seja rural e urbano no Brasil criam
distorções a todo o momento e dificultam a análise das realidades econômicas e sócio3
espaciais. Como se não bastasse a vigência de uma legislação anacrônica (Decreto-lei 311 de
1938), que considera urbana toda sede de município (cidade) e de distrito (vila) sem levar em
conta suas características estruturais e funcionais, a linha de perímetro urbano não representa
a realidade de modo satisfatório, já que os interesses políticos, econômicos e tributários podem
prevalecer no momento da sua demarcação. Sendo assim, percebe-se que os problemas
teóricos e empíricos relacionados às definições de urbano e rural no país parecem não ter
solução a curto prazo. Enquanto isso, os pesquisadores se vêem obrigados a formular e
recorrer a alternativas metodológicas que buscam minimizar as distorções geradas a partir da
legislação vigente (VEIGA, 2002; MATOS et al 2004; SATHLER, 2005).
No Brasil, os municípios de pequeno tamanho4 geralmente possuem suas economias
fortemente apoiadas na exploração e utilização de recursos naturais. Com isso, estão
presentes nestas localidades várias características que são inerentes ao mundo rural. Apesar
da presença dos setores secundário e terciário, as relações econômicas e demográficas
proporcionam usos do solo predominantemente não-urbanos (VEIGA, 2002). Sathler (2005),
alude que apenas os pequenos municípios localizados próximos aos grandes centros urbanos,
geralmente possuem suas atividades funcionais muito distantes das características clássicas
creditadas ao meio rural.
Nesse contexto, considera-se aqui como predominantemente rural os municípios
mineiros não metropolitanos5 com população inferior a 30.000 habitantes (pequenos
municípios). Não se pretende, com isso, propor um modelo de adequação territorial que resolva
as insuficiências existentes no Brasil atual. Entretanto, para efeito de análise, deve-se admitir
que tal critério é mais condizente com a realidade econômica e sócio-espacial do que o vigente
no país. Não obstante a existência de modelos de separação de áreas mais robustos e
eficientes, pretende-se apenas realizar uma breve discussão a respeito dos pequenos
municípios pertencentes às microrregiões que guardam o nome dos pólos mineiros.
A escolha dos municípios mineiros que representam os pólos baseou-se na
regionalização proposta por Matos et al (2004) que, para efeito de análise, realiza algumas
pequenas adequações no modelo da Fundação João Pinheiro (1985). Sendo assim,
considerou-se nesse estudo onze pólos mineiros: Divinópolis, Governador Valadares, Juiz de
Fora, Montes Claros, Poços de Caldas, Pouso Alegre, Teófilo Otoni, Varginha, Ipatinga, Patos
de Minas e Uberlândia. Estes municípios apresentam tamanho demográfico e funcional
4
Muitos estudiosos, para efeitos analíticos, não consideram urbanos os habitantes de pequenos municípios, com menos de 20
mil habitantes. Este é um parâmetro freqüente em organizações internacionais e foi proposto em 1995 pelo sociólogo francês
Henri Mendras (ABRAMOVAY, 2000).
5
Nesse estudo, o pequeno município de Santana do Paraíso, pertencente à Região Metropolitana do Vale do Aço (RMVA),
deveria ser excluído da análise. Entretanto, o caráter incipiente do processo de metropolização nessa região, por si só, justifica
a permanência desse município.
4
suficiente para que possam oferecer um leque diversificado de bens e serviços ao espaço
microrregional em que estão inseridos, desempenhando o papel de centros de crescimento
econômico regional.
O próximo tópico apresenta uma série de análises que buscam entender o
comportamento da dinâmica demográfica nos pequenos municípios mineiros, com destaque
para as variáveis diretamente relacionadas com o processo de dispersão demográfica, a
exemplo da Taxa de Crescimento Geométrico (TCG) e de algumas informações
disponibilizadas pelos Censos de 1991 e 2000 sobre os movimentos migratórios
intermunicipais.
3 – Migração e crescimento populacional nos pequenos municípios
As informações disponibilizadas pelo Censo 2000 demonstram que a desconcentração
demográfica continua a redesenhar os padrões migratórios e de crescimento populacional em
vastas áreas do país. A mudança da direção e do sentido dos fluxos migratórios contribuiu de
maneira decisiva para a formação de novos pólos de crescimento demográfico nas
proximidades dos centros mais dinâmicos da rede urbana brasileira. Estas “novas
espacialidades” não apenas são capazes de incorporar um maior volume de imigrantes ao seu
estoque populacional, mas também conseguem reter parte dos fluxos que em décadas
anteriores se dirigiam paras as tradicionais regiões metropolitanas. (Sathler e Miranda, 2006).
Nas últimas décadas, é notória a participação, sobretudo no estado de SP, de um
conjunto de pequenos municípios no processo de desconcentração demográfica. Em Minas
Gerais, a participação destes pequenos notáveis ocorre de maneira mais tímida do foi
investigado por Sathler e Miranda (2006) para o estado vizinho. Neste tópico, busca-se analisar
uma série de variáveis disponibilizadas pelos últimos Censos. A construção de mapas e
tabelas permite um melhor entendimento da participação dos pequenos municípios de MG,
tidos como áreas predominantemente rurais, na evolução do processo de dispersão
demográfica no estado.
As Figuras 1, 2 e 36 permitem observar o comportamento das TCG nos municípios
mineiros que tinham população inferior a 30.000 habitantes em 2000. Vários destes municípios,
tidos como predominantemente rurais, apresentaram expressivas modificações no sinal das
TCG entre as décadas analisadas. Entre 1970-1980, embora 265 dos pequenos municípios
tenham apresentado TCG positivas, verifica-se que a maior parte destes apresentou
6
Diante da complexidade do processo de compatibilização das bases cartográficas e de dados, não foram levados em conta os
pequenos municípios que surgiram na década de 1990 nas Figuras 1, 2 e 3, reduzindo para 620 o número de municípios
analisados.
5
crescimento negativo (355). Já entre 1980-1991, esta situação se inverte, já que dos 620
pequenos municípios estudados, 65,16 % destes (404) tiveram TCG positivas. Neste período,
com exceção dos municípios analisados que estão nas proximidades de Teófilo Otoni,
Governador Valadares e, em menor medida, de Ipatinga, percebe-se uma concentração
significativa de pequenos municípios com TCG positivas nas proximidades dos denominados
pólos mineiros.
Entre 1991 e 2000, mesmo com os dados relativamente confundidos pelo efeito da
multiplicação de municípios emancipados nesta década, parece clara a existência de um
padrão na distribuição espacial dos pequenos municípios mineiros, uma vez que, de uma
maneira geral, existe uma maior quantidade de municípios predominantemente rurais situados
na porção setentrional de MG com TCG negativa. Por outro lado, os pequenos municípios do
Sul do estado apresentam, em sua maioria, TCG positivas, sobretudo nas proximidades de
Varginha, Pouso Alegre e Poços de Caldas.
6
7
A Tabela 5 contém informações referentes à evolução do crescimento populacional
nesses pequenos municípios a partir da década de 1970. Por razões de ordem metodológica,
os conjuntos de municípios foram separados em dois segmentos (Grupos 1 e 2), de acordo
com o padrão de evolução do crescimento demográfico. Os conjuntos de pequenos municípios
do Grupo 1 apresentaram um padrão similar na evolução das TCG ao longo das décadas. Já
os conjuntos de municípios pertencentes ao Grupo 2 exibem padrões de crescimento
demográfico diferenciado dos demais, por motivos que, provavelmente, estão associados às
suas dinâmicas regionais.
A partir da visualização da Tabela 5 nota-se que, no Total do Grupo 1, as áreas
predominantemente rurais no período de 1970-1980 apresentaram TCG negativa (-0,66% a.a.).
É por demais sabido que nessa época, o acelerado crescimento dos grandes centros urbanos
do país, assim como aconteceu na RMBH, era alimentado em grande parte pelos expressivos
contingentes populacionais que partiam do campo (êxodo rural).
Tabela 1 - TCG da população total dos conjuntos de
municípios pequenos (<30.000 habitantes) pertencentes às
microrregiões dos municípios pólos
Período
Total
1970-1980 1980-1991 1991-2000
0,05
0,85
0,67
Grupo 1
Governador Valadares
Juiz de Fora
Ipatinga
Patos de Minas
Divinópolis
Varginha
Pouso Alegre
Total (Grupo 1)
-2,83
-0,64
0,08
-0,70
0,05
0,97
0,51
-0,66
-0,73
0,23
0,53
-0,02
1,42
1,23
1,53
0,51
-0,14
0,65
0,91
1,18
1,86
1,16
1,74
1,12
Grupo 2
Teófilo Otoni
Montes Claros
Poços de Caldas
Uberlândia
-1,65
-0,48
0,79
0,08
0,43
1,55
1,64
2,13
-0,68
0,46
0,55
-0,72
Fonte: Censos Demográficos de 1970, 1980, 1991 e 2000.
Já na década de 1980, cinco conjuntos de municípios inseridos no Grupo 1 já
apresentavam crescimento demográfico positivo, sinalizando o arrefecimento dos movimentos
migratórios do tipo rural-urbano. Percebe-se que o crescimento total do Grupo 1 também já era
positivo (0,51% a.a.). Deve-se salientar que nesse período as taxas de crescimento das
metrópoles nacionais estavam em torno de 1,99% a.a., contra 3,8% a.a. da década anterior
(BAENINGER, 2004).
8
Entre 1991-2000, nota-se que do conjunto de municípios do Grupo 1, apenas
Governador Valadares apresentou taxa de crescimento negativa, porém com menor
intensidade do que tinha sido registrado nas décadas anteriores. O crescimento de 1,12% a.a.
do total desses conjuntos de municípios pertencentes ao Grupo 1 chega a surpreender, diante
das grandes perdas populacionais observadas pelas áreas predominantemente rurais do
estado
há
não
muito
tempo
atrás.
Em
2000,
esses
pequenos
municípios
são
consideravelmente representativos em relação ao total de habitantes das microrregiões a que
pertencem, pois possuem cerca de 31% desse estoque populacional.
Considerando-se que na década de 90 os níveis de fecundidade correntes no
estado, de uma forma geral, são incapazes de sustentar expressivos incrementos
populacionais, pode-se inferir que nas áreas predominantemente rurais (representadas pelos
pequenos municípios) das microrregiões pólos pertencentes ao Grupo 1, a taxa de crescimento
de 1,12% a.a. observada entre 1991-2000 indica a vigência de saldos migratórios positivos em
algumas localidades, principalmente nas que apresentaram TCG acima desse valor (como nas
áreas predominantemente rurais da microrregião de Divinópolis, 1,86% a.a., e Pouso Alegre,
1,74% a.a.). Pode-se afirmar com segurança que, o crescimento populacional positivo
observado indica que esses conjuntos de municípios já não experimentam grandes perdas
populacionais entre 1991-2000. De fato, como pode ser observado na Tabela 2, apenas os
conjuntos de pequenos municípios das microrregiões de Patos de Minas e Ipatinga, dentre
todos os integrantes do Grupo 1, apresentaram Saldos Migratórios ligeiramente negativos entre
1995 e 2000.
Ademais, cabem algumas breves considerações sobre os conjuntos de pequenos
municípios do Grupo 2. As áreas predominantemente rurais das microrregiões de Montes
Claros e Poços de Caldas apresentaram TCG positiva entre 1991-2000. Entretanto, o que
justifica a permanência destes conjuntos de pequenos municípios no Grupo 2, é que apesar do
aumento da TCG entre 1970-1980 e 1980-1991, estas regiões exibiram tendência de queda da
TCG entre as duas últimas décadas analisadas, o que poderia gerar efeitos não desejáveis
com a expressiva perda de poder analítico das taxas globais de crescimento geométrico dos
conjuntos de municípios do Grupo 1 entre 1970-2000.
As áreas predominantemente rurais da microrregião de Teófilo Otoni apresentaram
TCG negativa entre 1991-2000, sinalizando para a baixa intensidade com que o fenômeno de
diversificação econômica atua nessa região, diante da incapacidade desses municípios na
criação de recursos que permitam a manutenção e a fixação de pessoas. Já o caso dos
pequenos municípios da microrregião de Uberlândia, provavelmente, não pode ser explicado
sob essa perspectiva, uma vez que os fatores atrativos do município sede, e também de outros
9
centros regionais próximos (como Uberaba), exercem importante influência na dinâmica dos
movimentos migratórios dessa região.
A Tabela 2 apresenta o número de imigrantes, emigrantes e o saldo migratório (SM)
para os conjuntos de pequenos municípios pertencentes às microrregiões dos pólos mineiros.
Nesse trabalho, considerou-se como migrantes as pessoas maiores de 5 anos que em 1986 e
1995 não moravam no município de residência atual, respectivamente, em 1991 e 2000 (data
fixa) (CARVALHO E RIGOTTI, 1998, p. 339).
Não devem ser contabilizados como migrantes os movimentos de indivíduos que não
estabelecem residência permanente no local de destino, uma vez que o conceito de migração
refere-se às mudanças de residência entre unidades espaciais bem definidas. Os limites
territoriais a serem transpostos devem ser especificados e, após o recorte temporal ser
definido, só serão consideradas as mudanças de residências nesse período. O “Saldo
Migratório” (“SM”) aqui utilizado, pode ser entendido como o resultado da diferença entre
imigrantes e emigrantes (data fixa), considerando-se os efeitos indiretos do fluxo (CARVALHO
e RIGOTTI, 1998, p. 341).
Entretanto, o saldo migratório calculado não está em plena conformidade com a
conceituação teórica, pois desconsidera os migrantes com menos de cinco anos de idade na
data do recenseamento (efeito direto e indireto) e, também, não contabiliza o efeito da
migração internacional. Apesar disso, deve-se admitir que o “saldo migratório” ainda pode ser
considerado uma importante ferramenta de investigação.
Tabela 2 - Número de imigrantes, emigrantes (data fixa) e "saldo migratório" (SM) para os conjuntos
de pequenos municípios pertencentes as microrregiões dos pólos mineiros em 1986-91 e 1995-2000.
Microrregião
Teófilo Otoni
Governador Valadares
Juiz de Fora
Ipatinga
Patos de Minas
Divinópolis
Montes Claros
Poços de Caldas
Varginha
Pouso Alegre
Uberlândia
Total
Imigrantes
1986-1991
Emigrantes
1986-1991
3.765
13.526
13.577
8.302
7.277
5.553
5.904
8.976
10.060
11.144
7.791
95.875
SM
1986-1991
14.986
18.550
9.244
6.311
8.136
3.636
17.285
8.780
8.787
6.879
9.032
111.626
-11.221
-5.024
4.333
1.991
-859
1.917
-11.381
196
1.273
4.265
-1.241
-15.751
Imigrantes
1995-2000
5.569
10.318
11.821
8.170
9.441
9.316
9.870
12.456
10.234
14.814
9.266
111.275
Emigrantes
1995-2000
11.202
16.383
9.771
8.653
11.460
4.158
14.850
6.758
6.726
7.354
5.356
102.671
SM
1995-2000
-5.633
-6.065
2.050
-483
-2.019
5.158
-4.980
5.698
3.508
7.460
3.910
8.604
Fonte: Censos Demográficos de 1991 e 2000.
O que mais chama a atenção é a notável modificação do sinal que acompanha os SM
entre 1986-1991 (-15.751) e 1995-2000 (8.604). No segundo período analisado, percebe-se
10
que o número de imigrantes passou a superar o de emigrantes nessas áreas
predominantemente rurais, mesmo constatado que cinco das onze áreas selecionadas ainda
possuíam SM negativo. Dos conjuntos de pequenos municípios que ainda apresentavam SM
francamente negativos entre 1995-2000, deve-se destacar aqueles que estão inseridos em
microrregiões economicamente mais deprimidas, como as de Teófilo Otoni (-5.633) e
Governador Valadares (-6.065).
As Tabelas 7 e 8 permitem estudar a procedência dos imigrantes dos conjuntos de
pequenos municípios pertencentes às microrregiões que guardam os nomes dos pólos
mineiros. Como reflexo da desconcentração demográfica no estado, verifica-se que a
proporção total de imigrantes procedentes da RMBH para as áreas predominantemente rurais
em estudo aumentou entre 1985-1991 (4,8%) e 1995-2000 (5,9%). As proporções de
imigrantes oriundos da sede e do resto das microrregiões em que estas áreas estão inseridas
apresentaram variações pouco expressivas. Já o valor proporcional de imigrantes procedentes
do restante de MG reduziu de maneira significativa (de 45,8% para 31,5%), enquanto que a
proporção dos imigrantes de outros estados apresentou grande aumento entre os períodos em
questão (de 29% para 42,3%).
Tabela 3 - Procedência dos imigrantes dos pequenos municípios integrantes da microrregião pólo (data-fixa) 19861991.
Microrregião
Sede da Micro.
Resto da Micro.
2.467
18,2
429
3,2
374
2,8
7.324
53,9
2.983
22,0
13.577
100
Ipatinga
2.776
33,4
5,7
3.342
40,3
967
11,6
8.302
100
824
10,7
8,9
*
474
Patos de Minas
743
*
451
5,8
4.855
62,8
1.598
20,7
7.728
100
Divinópolis
580
10,4
261
4,7
1.323
23,8
2.814
50,7
575
10,4
5.553
100
Montes Claros
1.690
28,6
405
6,9
446
7,6
2.536
43,0
827
14,0
5.904
100
Poços de Caldas
1.247
13,9
206
2,3
62
0,7
3.080
34,3
4.381
48,8
8.976
100
570
5,7
20,2
*
114
1,1
4.822
47,9
2.519
25,0
10.060
100
Pouso Alegre
Total
%
Pessoas
%
Pessoas
%
Total
Juiz de Fora
Uberlândia
Pessoas
Outros Estados
2.602
Varginha
%
Resto de MG
Governador Valadares
626
%
RMBH
Pessoas
*
16,6
*
19,2
Teófilo Otoni
Pessoas
Pessoas
%
*
241
6,4
1.940
51,5
958
25,4
3.765
100
*
930
6,9
7.275
53,8
2.719
20,1
13.526
100
591
5,3
2.035
*
159
1,4
3.336
29,9
7.058
63,3
11.144
100
1.351
17,3
311
4,0
8
0,1
2.772
35,6
3.349
43,0
7.791
100
15.324
15,9
4.390
4,6
4.582
4,8
44.096
45,8
27.934
29,0
96.326
100
Fonte: Censo Demográfico 1991.
* - Não existe município englobado na categoria Resto da micro.
11
Tabela 4 - Procedência dos imigrantes dos pequenos municípios integrantes da microrregião pólo (data-fixa) 19952000.
Microrregião
Sede da Micro.
Resto da Micro.
1.050
Governador Valadares
2.369
Juiz de Fora
2.792
23,6
145
1,2
299
2,5
2.575
21,8
Ipatinga
2.616
32,0
5,7
2.878
35,2
9,7
10,4
*
463
917
853
*
614
6,5
4.480
47,5
Divinópolis
1.364
14,6
579
6,2
2.208
23,7
3.766
Montes Claros
1.916
19,4
482
4,9
688
7,0
Poços de Caldas
1.250
10,0
417
3,3
134
1,1
Varginha
1.106
10,8
6,6
1.714
*
16,7
*
273
979
138
1.645
17,8
317
3,4
18.004
16,2
4.507
4,1
Uberlândia
Total
%
Pessoas
Resto de MG
Teófilo Otoni
Pouso Alegre
%
RMBH
Pessoas
*
18,9
*
23,0
Patos de Minas
Pessoas
%
Pessoas
%
Outros Estados
Pessoas
%
Total
Pessoas
%
*
508
9,1
1.898
34,1
2.113
37,9
5.569
100
*
1.247
12,1
4.072
39,5
2.630
25,5
10.318
100
6.010
50,8
11.821
100
1.360
16,6
8.170
100
3.430
36,3
9.441
100
40,4
1.399
15,0
9.316
100
4.301
43,6
2.483
25,2
9.870
100
2.557
20,5
8.098
65,0
12.456
100
2,7
3.619
35,4
3.522
34,4
10.234
100
0,9
2.277
15,4
11.420
77,1
14.814
100
46
0,5
2.599
28,0
4.659
50,3
9.266
100
6.618
5,9
35.022
31,5
47.124
42,3
111.275
100
Fonte: Censo Demográfico 2000.
* - Não existe município englobado na categoria Resto da micro.
As áreas predominantemente rurais que compõem as microrregiões de Montes Claros,
Teófilo Otoni e Governador Valadares tiveram valores mais elevados na proporção de
imigrantes da RMBH se comparados às demais áreas em estudo nos períodos analisados,
exceto no caso dos pequenos municípios de Divinópolis, devido ao pequeno distanciamento
geográfico em relação à metrópole mineira.
Já os conjuntos de pequenos municípios da porção meridional do estado, possuem alta
proporção de imigrantes procedentes de outras UFs, com destaque para os imigrantes
paulistas dos municípios predominantemente rurais de Poços de Caldas e Pouso Alegre, assim
como os imigrantes oriundos do Rio de Janeiro em Juiz de Fora.
4 – Considerações Finais
A redução das grandes perdas líquidas da população mineira que ocorreram na
maior parte do século XX, principalmente para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e
Espírito Santo constitui-se como uma importante evidência que sinaliza para uma Minas Gerais
de um novo tempo.
Apesar do processo de desconcentração demográfica no estado ter se desenvolvido
com a predominância dos movimentos migratórios do tipo urbano-urbano, percebe-se que a
participação das áreas predominantemente rurais mais dinâmicas vem ganhando notoriedade
nos últimos anos.
A desconcentração demográfica no estado é um processo que parece não ter mais
volta. Matos et al (2004), ao refletirem sobre a possibilidade de uma nova polarização no
estado, declaram que na RMBH “nada indica que os contingentes de mão-de-obra
“excedentes” dos setores formais voltem a reingressar efetivamente em atividades
12
reestruturadas em um novo ciclo de crescimento econômico”. São muitos os fatores que
atraem as pessoas para fora da metrópole em direção aos pólos mineiros e as áreas rurais
mais dinâmicas do estado.
Ao final dizer, estudos posteriores utilizando fontes de dados mais recentes poderão
demonstrar com clareza a dimensão do impacto da migração de retorno no crescimento das
áreas predominantemente rurais para as últimas décadas. Também é valido investigar, de
maneira profunda, um conjunto de variáveis socioeconômicas que demonstrem até que ponto
os efeitos do aumento da diversificação das atividades econômicas e do incremento das
aposentadorias rurais, nessas localidades, contribuíram para o comportamento verificado das
variáveis demográficas.
5 – Referências Bibliográficas
ABRAMOVAY, Ricardo. Funções e Medidas da Ruralidade no Desenvolvimento
Contemporâneo.
Rio de
Janeiro:
IPEA, n.702, jul. 203. Disponível em:
<www.ipea.gov.br/pub/td/td_2000/td0702.pdf>. Acesso em: 12. out. 2004.
BAENINGER, Rosana. Interiorização da migração em São Paulo: Novas Territorialidades e
Novos Desafios Teóricos. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS, 14,
2004. Caxambu. Anais... Belo Horizonte: ABEP, 2004.
CARVALHO, José e RIGOTTI, José. Os dados censitários sobre migrações internas: algumas
sugestões para análise. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS, 11,
1998. Caxambu. Anais... Belo Horizonte: ABEP, 1998.
FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Estrutura espacial do estado de Minas Gerais. Belo
Horizonte (relatório de pesquisa), 1988.
GROSSI, M; SILVA, G. O novo rural: Uma abordagem ilustrada. Londrina: Instituto
Agronômico do Paraná, 2002.
MATOS, Ralfo; SATHLER, Douglas; UMBELINO Glauco. Urbano influente e rural não agrícola
em Minas Gerais. In: Seminário sobre a Economia Mineira, 11, 2004. Anais... Diamantina.
RIGOTTI, Irineu; VASCONCELLOS, Idamila. As migrações na Região Metropolitana de Belo
Horizonte no limiar do século XXI. In: MENDONÇA, Jupira; GODINHO. Maria (Orgs.).
População, Espaço e Gestão na Metrópole: Novas Configurações, Velhas Desigualdades.
Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2003.
SATHLER, Douglas. O rural e o urbano no Brasil. Caderno de Geografia, Belo Horizonte,
v.15, n.25, dez. 2005.
13
SATHER, Douglas; MIRANDA, Vitor. Desconcentração demográfica paulista: novas
glomerações metropolitanas, cidades médias e a emergência dos pequenos municípios. In:
ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS, XV, 2006. Anais... Caxambu:
2006.
UMBELINO, Glauco; SATHLER, Douglas. Desconcentração Demográfica Mineira: migração,
crescimento populacional e Novas Territorialidades. In: ENCONTRO NACIONAL SOBRE
MIGRAÇÕES, IV, 2005. Anais... Rio de Janeiro: 2005.
VEIGA, José Eli. Cidades Imaginárias: O Brasil é menos urbano do que se calcula.
Campinas: Editora Autores Associados, 2002.
14
Download

REDISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA POPULAÇÃO MINEIRA: A