FORMA, FUNÇÃO, ESTRUTURA E PROCESSO: UMA CONTRIBUIÇÃO
MILTONIANA PARA O MÉTODO DA GEOGRAFIA RENOVADA.
Fernando Antonio da Silva 1
[email protected]
Prof. MSc. Reinaldo Sousa2
[email protected]
Vivemos num tempo de mudanças. Em muitos casos a
sucessão alucinante dos eventos não deixa falar de
mudanças apenas, mas de vertigem (Milton Santos).
Resumo
O ensaio ora apresentado tem como objetivo demonstrar como as categorias forma, função,
estrutura e processo se constituem no método eficaz para elucidar de forma dialética a
organização sócio-espacial de um dado lugar, explicitando as perversidades impostas pelo
processo de globalização, mesmo em meio à complexidade, instantaneidade e movimento
característicos do período histórico atual.
Palavras chaves: Geografia – método - categorias - espaço.
Considerações acerca da Geografia e do seu objeto
A definição de um objeto de estudo para a Geografia é tão complexa quanto o próprio
uso do rótulo “Geografia”, incorporado ao vocabulário cotidiano das pessoas apenas no século
passado.
Alguns autores definem a geografia como o estudo da superfície terrestre.
Esta concepção é a mais usual, e ao mesmo tempo a de maior vaguidade.
Pois, a superfície da Terra é o teatro privilegiado (por muito tempo o único)
de toda reflexão científica, o que desautoriza a colocação de seu estudo
como especificidade de uma só disciplina [...] significado etimológico do
termo Geografia – descrição da Terra [...] Esta concepção origina-se das
formulações de Kant. (MORAES, 2007, p.31)
A indefinição do objeto de estudo perpassou toda trajetória da geografia até mesmo
depois de sua institucionalização enquanto ciência. Nesse cenário, o que se verificava era uma
disciplina um tanto insegura, ora querendo abarcar o globo, ora voltando-se para região como
categoria central, ambas às vezes valendo-se da descrição e/ou comparação. Segundo Moraes,
1
Graduando do curso de licenciatura plena em geografia da Universidade Estadual de Alagoas - UNEAL,
Campus V, União dos Palmares - AL.
2
Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe e Professor da Universidade Estadual de Alagoas UNEAL, Campus V.
1
[...] alguns autores definem a Geografia como o estudo das relações entre o
homem e o meio, ou, posto de outra forma, entre a sociedade e a natureza
[...]. Seria, por excelência, uma disciplina de contato entre as ciências
naturais e as humanas, ou sociais. Dentro dessa concepção aparecem, pelo
menos, três visões distintas do objeto: alguns autores vão apreendê-lo como
as influências da natureza sobre o desenvolvimento da humanidade. [...]
outros autores, mantendo a ideia da Geografia como estudo da relação entre
o homem e a natureza, vão definir-lhe o objeto como a ação do homem na
transformação deste meio. (2007, p. 35).
Em meados do século passado algumas mudanças começam ocorrer.
A crise da Geografia Tradicional e o movimento de renovação a ela
associado começam a se manifestar já em meados da década de cinqüenta e
se desenvolvem aceleradamente nos anos posteriores [...]. A partir de 1970, a
Geografia Tradicional está definitivamente enterrada; suas manifestações,
dessa data em diante, vão soar como sobrevivências, resquícios de um
passado já superado. Instala-se, de forma sólida, um tempo de críticas e de
propostas no âmbito dessa disciplina. Os geógrafos vão abrir-se para novas
discussões e buscar caminhos metodológicos até então não trilhados. Esta
crise é benéfica, pois introduz um pensamento crítico, frente ao passado
dessa disciplina e seus horizontes futuros. (MORAES, 2007, p. 103).
Mas que elementos e/ou acontecimentos explicam ou justificam essas mudanças no
seio da Geografia? O que levou tantos geógrafos, já na segunda metade do século XX a se
debruçarem sobre os livros afim de (re)configurarem a Geografia? Para Moraes havia, em
primeiro lugar, “[...] se alterado a base social, que engendrara os fundamentos e as
formulações da Geografia Tradicional” (2007, p.104). Ou seja, o desenvolvimento do modo
de produção capitalista havia, nas palavras do autor, superado seu estágio concorrencial e
entrado no período monopolista.
Em segundo lugar, o desenvolvimento do capitalismo havia tornado a
realidade mais complexa. A urbanização atingia graus até então
desconhecidos, apresentando fenômenos novos e complexos, como as
megalópoles. O quadro agrário também se modificara, com a
industrialização e a mecanização da atividade agrícola, em várias partes do
mundo [...]. O lugar já não se explicava em si mesmo; os centros de decisão
das atividades ali desenvolvidas localizavam-se, muitas vezes, a milhares de
kilômetros. O espaço terrestre se globalizara nos fluxos e nas relações
econômicas. Vivia-se o capitalismo das empresas multinacionais, dos
transportes e das comunicações interoceânicas. [...] isto defasou o
instrumental de pesquisa da Geografia, implicando numa crise das técnicas
tradicionais de análise (MORAES, 2007, p. 104/105).
As grandes transformações que se iniciaram, tornaram evidente que emergia um novo
período histórico, caracterizado, sobretudo, pela complexidade, instantaneidade e movimento,
2
tornando a descrição e comparação insuficientes como método. Isso levou a Geografia a uma
mudança de paradigma. As mudanças implementadas deram forma ao que se denominou de
Geografia Renovada. Essa Geografia
[...] não se prende a uma visão tão estanque da divisão das ciências, não
coloca barreiras tão rígidas entre as disciplinas, logo, não possui uma
necessidade tão premente de formular uma definição formal do objeto.
Muito diferente é a situação da Geografia Tradicional, em sua totalidade
apoiada em fundamentos positivistas, os quais pedem, para legitimar a
autoridade de uma ciência, uma definição precisa do objeto. (MORAES,
2007, p. 36).
Havia uma crise de fato da Geografia Tradicional. Assim, o movimento de renovação
estava na busca de “[...] novos caminhos, de nova linguagem, de novas propostas, enfim, de
uma liberdade maior de reflexão e criação. As certezas ruíram, desgastaram-se. E, novamente,
pergunta-se sobre o objeto, o método e o significado da Geografia” (MORAES, 2007, p. 103).
Comungando do fato de que os métodos da geografia positivista se tornaram
insuficientes, grande parte dos geógrafos brasileiros procurou novas formas de análise,
pensando que, desse modo, estavam formulando outra geografia, entretanto, pouco se
afastando dos moldes tradicionais, a exemplo daquela que ficou conhecida como Geografia
Pragmática.
A Geografia Pragmática é uma tentativa de contemporaneizar, em vista
dessa nova função, este campo específico do conhecimento, sem romper seu
conteúdo de classe. Suas propostas visam apenas uma redefinição das formas
de veicular os interesses do capital, daí sua crítica superficial à Geografia
Tradicional. Uma mudança de forma, sem alteração do conteúdo social.
Nessa atualização do discurso burguês a respeito do espaço, que se poderia
chamar de renovação conservadora da Geografia, ocorre a passagem, ao
nível dessa disciplina, do positivismo clássico para o neopositivismo. Trocase o empirismo da observação direta [...] por um empirismo mais abstrato,
dos dados filtrados pela estatística [...]. Do trato direto com o trabalho de
campo, ao estudo filtrado pela parafernália da cibernética. [...] da contagem e
enumeração direta dos elementos da paisagem, para as médias, os índices e
os padrões. Da descrição, apoiada na observação de campo, para as
correlações matemáticas expressas em índices.
(MORAES, 2007, p. 110/111)
Tentando dar respostas mais satisfatórias que esta aos problemas sociais, nasce a
corrente Crítica da Geografia. Esta denominação “[...] advém de uma postura crítica radical,
frente à Geografia existente [...] são autores que se posicionam por uma transformação da
realidade social, pensando o seu saber como uma arma desse processo” (Moraes, 2007, p.
119).
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A grande problemática que se colocava, e se coloca a todo tempo, é como construir
uma matriz teórica e metodológica que permita compreender essa realidade que muda, se
transforma a cada instante?
Preocupado com essa temática, o professor Milton Santos, após redefinir o objeto de
estudo da geografia, desenvolve em Espaço e Método as categorias forma, função estrutura e
processo, como método de análise dessa nova disciplina e do seu objeto.
Um método de análise frente à complexidade do meio técnico-científico-informacional.
O período histórico atual, muito distinto dos que os precederam, tem como
fundamento marcante o tripé técnica, ciência e informação, sendo por isso denominado por
Milton Santos de meio técnico-cientifico-informacional. Técnica esta universalizada
relacionalmente e presente em cada lugar de forma potencial. Vive-se um mundo em que a
ciência é o motor do desenvolvimento, onde o trabalho intelectual ganha importância primária
e as informações em massa se processam vertiginosamente. Porém, como adverte Santos
(2006, p.39), uma informação não face a face, mas mediada, „preparada e servida‟ pelos
atores hegemônicos do sistema.
O processo de globalização, que segundo Souza (2008, p.36) difere da
internacionalização, que ganhou corpo a partir do fim da segunda guerra mundial, gerou
grandes metamorfoses no espaço enquanto totalidade, com implicações diretas nos lugares
que passam a ser reflexos do mundo, impedindo que espaços distantes fiquem isolados e
causando um hibridismo cultural nunca antes presenciado na história humana.
Esse mesmo processo permite articular as diversas partes que compõe a totalidade,
alargando contextos e encurtando distâncias, pois as tecnologias de ponta geram novas
possibilidades de fluidez, base de expansão e de intercâmbio.
Contudo, a globalização não é conhecida por todos, sendo, sobretudo, um processo
paradoxal e fragmentador, pois, ao tempo em que cria novas possibilidades é uma fábrica de
perversidades como afirma Santos:
A mundialização que se vê é perversa [...]. Concentração e centralização da
economia e do poder político, cultura de massa, cientifização da burocracia,
centralização agravada das decisões e da informação, tudo isso forma a base
de um acirramento das desigualdades entre países e entre classes sociais,
assim como da opressão e desintegração do indivíduo (SANTOS, 1997,
p.17).
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As possibilidades trazidas pelo processo de globalização, como a de tudo conhecer
num curto lapso de tempo, têm se apresentado apenas como fabulações para a grande maioria
das pessoas, pois as contradições no tocante à distribuição do capital se acentuam e as
perversidades impostas podem ser vistas em todos os lugares (SANTOS, 2006, p. 41). Mas,
Retomando a questão da técnica, é necessário compreender a particularidade atual que, aliada
a ciência, se faz a principal responsável pelas rápidas e grandes mudanças presenciadas a
partir do segundo pós-guerra.
Em Espaço e Método Santos assinala que no decorrer da história as diversas
sociedades se utilizaram de diferentes técnicas para intervenção no ambiente físico, com o
intuito de suprir as necessidades de sobrevivência, pois, o ritmo da “primeira natureza”, que
na realidade já não era primeira, não atendia o ritmo humano, o que desenvolve
paulatinamente um avanço, que na realidade não era contínuo (SANTOS, 1985, p.37). Tal
avanço nas técnicas objetivando maior utilização da natureza, resultou na complexidade de
algumas sociedades que se revela, sobretudo, na forma de organização e distribuição do
trabalho.
Como afirmou Rousseau “o que o distingue do animal é, em primeiro lugar, a
liberdade; por ela o homem quer e não quer; deseja e teme. Depois, a faculdade de
aperfeiçoar-se e também de retrogradar” (1999, p.16). Assim depreende-se que o avanço no
conjunto das técnicas (re)define o andar da sociedade, posto que, gera novas possibilidades
até então desconhecidas.
Entretanto, o conjunto de técnicas utilizadas em períodos anteriores não era o mesmo
em todos os lugares, ou seja, se na Europa dominava-se as técnicas de navegação, aqui na
América os índios não imaginavam a existência de um objeto muito pesado mas que flutuava
sobre as águas.
É importante ressaltar que a expansão do sistema capitalista resultou na grande difusão
das técnicas, que agora possui características singulares. Para Santos “essa técnica, cuja
realização se tornou relativamente independente, é chamada pesquisa” (1985, p.27). Essa
“técnica de fazer técnica” é o grande “pincel que desenha” o espaço geográfico
contemporâneo, pois,
Por meio das comunicações, o período afeta a humanidade inteira e todas as
áreas da terra. Espaços que escapam temporariamente às forças são raros
nesta fase da história. As novas técnicas, principalmente aquelas para
processar e explorar inovações, trazem, como nunca antes, a possibilidade de
dissociação geográfica de atividades (SANTOS, 1985, p. 28).
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A técnica universalizou as relações, universalizou gostos de consumo, universalizou
culturas e tantas outras coisas mais (SANTOS, 1997, p.14). Mais que isso o que se presencia,
principalmente nas metrópoles, é a “sucessão alucinante dos eventos”, (para usar uma
expressão Miltoniana), o ápice da concentração do capital e a busca frenética e constante do
mesmo, convivendo naturalmente lado a lado com a miséria, o que poder-se-ia chamar de
doença desse período histórico. A noção de solidariedade dá lugar a injustiças, perversidades.
Nega-se o direito de cidadania e esquece-se de que
O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos,
apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. Viver, tornar-se um
cidadão do mundo, é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de
cada qual um portador de prerrogativas sociais. Direito a um teto, à comida,
à educação, à saúde, à proteção contra o frio, a chuva, as intempéries; direito
ao trabalho, à justiça, à liberdade e a uma existência digna. (SANTOS, 2007,
p. 19).
No lugar de um cidadão a nova realidade do mundo forma um consumidor. Tratado e
visto como máquina vale apenas o quanto e o que consome, sobretudo nas grandes cidades ou
nas metrópoles. Ali
[...] Os cimentos se dissolvem e mínguam as solidariedades ancestrais. Ali
onde o dinheiro se torna a medida de tudo, a economização da vida social
impõe uma competitividade e um selvagismo crescente. As causas dos males
aparecem como se fossem a sua solução, círculo vicioso que escancara as
portas das favelas para a cultura de massas, com o seu cortejo de
despersonalização, e a substituição dos projetos pessoais saídos da cultura,
isto é, de dentro do indivíduo, por outros projetos elaborados de fora deste
mesmo indivíduo, projetos decididos a conquistar todo mundo pela força da
propaganda. (SANTOS, 2007, p. 29).
Compreender o lugar, nesse contexto, supõe reconhecer que este se tornou ao mesmo
tempo, e estranhamente, singular pelas influências do contexto, e mundializado na medida em
que é receptáculo das possibilidades trazidas pela globalização. Nesse sentido a noção de
lugar-mundo e mundo-lugar, deve perpassar a todo tempo o entendimento do espaço
contemporâneo.
Em meio a toda essa complexidade novas e grandes problemáticas se colocam à
Geografia, e a análise descritiva que vê o território como simples palco das ações humanas é,
no mínimo, insuficiente, posto que esta ciência tem a enorme e difícil tarefa de compreender
os processos de desigualdade que se acentuam nesse período da globalização, tarefa alcançada
6
apenas com o rigor metodológico necessário, pois, as questões que caracterizam o espaço
atual não podem ser desconsideradas no fazer cientifico sério.
Portanto, a definição de um método capaz de dar conta da análise geográfica nesse
contexto precisa considerar, sobretudo, a atualidade e o movimento. Do contrário será
insuficiente ou correrá o risco de ficar desatualizado antes mesmo de sua aplicabilidade.
Objeto e método
Para Santos (1997, p.26) “O espaço deve ser considerado como um conjunto
indissociável de que participam, de um lado, certo arranjo de objetos geográficos, objetos
naturais e objetos sociais, e, de outro, a vida que os preenche e os anima, ou seja, a sociedade
em movimento”. O espaço seria então um conjunto indissociável e contraditório de objetos e
ações. Assim, o espaço possui arranjos visíveis que imprescindivelmente se relacionam entre
si com e por meio da sociedade em movimento.
Nesse sentido, os objetos e arranjos de objetos são construídos, (re)construídos e
(des)construídos para atender a dinâmica social, produtiva e espacial de um dado período
passível de contextualização. É a partir desse entendimento que se pode definir as categorias
filosóficas – forma, função, estrutura e processo – como método de análise da Geografia.
Para Milton Santos (1985, P. 50/51) a forma é o aspecto visível de uma determinada
coisa. São os objetos e arranjos de objetos que compõe o espaço, isto é, casas, condomínios,
parques, escolas avenidas e etc., tudo gerado historicamente, organizando o presente e
projetando o futuro.
A função é a atividade desempenhada pela forma. Ela dá sentido a forma visto que um
objeto no espaço não subsiste desprovido de tarefa e, por outro lado, a tarefa não pode ser
desempenhada sem a forma, daí a relação direta entre as duas.
Um terceiro aspecto da análise é a estrutura. Santos assinala que “estrutura implica a
inter-relação de todas as partes de um todo; o modo de organização ou construção” (1985,
p.50). É o aspecto “invisível” construído pela inter-relação das diversas funções
desempenhadas pelas/nas formas. Por isso para compreendê-la é preciso sempre considerar a
dinâmica social de cada período.
A estrutura espacial de um dado lugar é o resultado da interação de várias estruturas
que subsistem indissociavelmente, como nos lembra Santos:
A estrutura espacial é algo assim: uma combinação localizada de uma
estrutura demográfica específica, de uma estrutura de produção específica,
7
de uma estrutura de renda específica, de uma estrutura de consumo
específica, de uma estrutura de classes específica e de um arranjo específico
de técnicas produtivas e organizativas utilizadas por aquelas estruturas e que
definem as relações entre os recursos presentes (SANTOS, 1985, P. 17).
Para apreensão da realidade a geografia não pode se interessar mais pela forma das
coisas do que pela sua formação. Por isso, outro fator inerente ao estudo do espaço é o
processo. Este seria o constante devir social que constrói, (re)constrói e (des)constrói as
formas ao longo da história. O processo é dinâmico, ou seja, processa e é processado,
modifica e é modificado, é ao mesmo tempo resultado e condição da história.
Desse modo, o estudo do processo se faz necessário na medida em que se busca
entender a gestação das formas, o que impreterivelmente facilitará a compreensão das funções
por elas exercidas. Nesse sentido a história se constitui numa ferramenta intimamente
relacionada, a qual é preciso recorrer constantemente.
À primeira vista o geógrafo pode ser induzido a estudar pura e simplesmente a forma.
Porém, não se pode a separar concreta e conceitualmente das demais categorias sob pena de
não se compreender a contento os diversos aspectos que compõe o espaço. Como nos afirma
Santos:
Para se compreender o espaço social em qualquer tempo, é fundamental
tomar em conjunto a forma, a função e a estrutura, como se tratasse de um
conceito único. Não se pode analisar o espaço através de um só desses
conceitos, ou mesmo de uma combinação de dois deles. Se examinarmos
apenas a forma e a estrutura, eliminando a função, perderemos a história da
totalidade espacial, simplesmente porque a função não se repete duas vezes.
Separando estrutura e função, o passado e o presente são suprimidos, com o
que a idéia de transformação nos escapa e as instituições se tornam
incapazes de projetar-se no futuro. Examinar forma e função, sem a
estrutura, deixa-nos a braços com uma sociedade inteiramente estática,
destituída de qualquer impulso dominante. Como a estrutura dita a função,
seria absurdo tentar uma análise sem esse elemento. (SANTOS, 1985, p.56).
Assim, forma, função, estrutura e processo, este último sinônimo de tempo, quando
consideradas em conjunto impedem a compreensão superficial e descritiva dos fenômenos
que todo cientista deve evitar. Portanto, esse método constitui uma base forte que auxilia o
geógrafo na leitura e interpretação da realidade.
Considerações finais
Este ensaio evidenciou a aplicabilidade concreta e conceitual das categorias
Miltonianas: forma, função, estrutura e processo, enquanto método de análise para
compreensão da organização sócio-espacial, revelando as contradições do processo de
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globalização, quando consideradas indissociavelmente. Para tanto, foi necessário recorrer aos
principais processos que nortearam a renovação da geografia para melhor compreender os
fundamentos dessa nova realidade presenciada aproximadamente em meados do século
passado, visto que, analisar as características desse período histórico é condição essencial para
a (re)definição de um método que não fuja à atualidade e sobreviva ao movimento. Como
afirmou Milton Santos “o estudo da totalidade conduz a uma escolha de categorias analíticas
que devem refletir o movimento real da totalidade” (2007, p. 199).
Portanto, a contribuição Miltoniana, para o método da geografia renovada, impede que
o geógrafo faça uma geografia tradicional coberta com falsa capa de criticidade, porém nunca
ultrapassando os limites da descrição que em pleno século XXI, frente à complexidade gerada
em virtude da instantaneidade e movimento do meio técnico-científico-informacional, não
satisfaz aos anseios da ciência geográfica.
REFERÊNCIAS
MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia: Pequena História Crítica. São Paulo:
Annablume, 2007.
SANTOS, Milton. Economia Espacial: Críticas e alternativas. São Paulo: Edusp, 2007.
SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1985.
SANTOS, Milton. O Espaço do Cidadão. São Paulo: Edusp, 2007.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. Quinta edição. São Paulo:
HUCITEC, 1997.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência.
Universal. 13ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.
SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (organizadora). A Metrópole e o Futuro. Refletindo
sobre Campinas. Campinas: Edições TERRITORIAL, 2008.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade
entre os Homens e Discurso Sobre as Ciências e as Artes. São Paulo, Nova Cultural Ltda,
1999.
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O período histórico atual, notoriamente distinto dos que