A C OM U N I DA D E P O RTU G U ESA
NAS REG I Õ ES D O B IERZO E LAC I AN A
( P ROVÍNCIA D E LÉO N , ESPA N H A)
Carlos Arando Vasserot
Léon - Espanha
O a rtigo que a p resenta mos baseia-se num trabalho de ca mpo que o autor está
rea lizando sobre a povoação imigrante estra ngeira nas zonas do Bierzo e Laciana de
L e ó n 1 . N e stas regi õ e s e n co n tra - s e i n sta l a d a u m a das m a i o re s c o m u n i d a d e s d e
portugueses d e Espa nha.
N este a rtigo vamos descrever o p r o cesso m i gra t ó r i o p o rt u g u ê s 2 em L e ó n ,
especifica ndo as épocas em que principa l m ente s e t e m produzido e descrevendo como
tem sido a vida de seus p rotago nistas a n tes e depois de chegar a Espa n h a . Temos
decidido i ncl u i r nestas páginas citações textuais dos i migrantes comentadas. Espera mos
q u e isto permita trata r com mais profundidade as q uestões a q u i focadas. Estas citações
sã o a p resenta das a n o n i m a m e nte p a ra res p e i t a r a c o n fi d e n c i a l i d a d e das o p i n i õ e s
reveladas.
Eta p a s d e m i gr a ç ã o p o rtuguesa
P o d e m o s d i stingu i r n o c a s o dos p o rtugueses d u a s correntes m i grató rias e m
d i recção a o Bierzo Alto e Lacia na. A pri m e i ra , entre os a nos 65 a 8 5 . os s e u s m e m b ros
encontra ra m tra ba l h o nas empresas mineiras. A segu nda, que aba rca os a nos 8 5 a 9 0 , é
constituída por i m igra ntes que se vão dedica r à construção civi l.
D u ra nte todo o século há uma perma nente atracção de cidadãos portugueses em
d i r e c ç ã o à s c o m a r c a s do B i e rz o . Mas é em 1 9 6 5 q u a n d o c o m e ça a a u m e n t a r
su bstancial mente a entrada dos portugueses em León, volume de entrada q u e crescerá
a um ritmo vertigi noso d u ra n te os a nos segu i ntes até a l cançar o ponto máximo o u
m o mento de maior entrada entre os anos 7 3 a 7 8 . A razão do a u m ento desta corrente
m i gra t ó r i a t e m - s e a t ri b u i d o à s e m p resas m i n e i ra s q u e t i n h a m u m a n e c e ss i d a d e
u rg e n t e d e t ra b a l h a d o re s . T e m - s e d i t o q u e h a v i a u m v a z i o l a b o ra l p o r q u e o s
a u tóctones n ã o queria m trabalhar n u m a actividade tão perigosa e insa l u b re com o é a
mina e os jovens espa n hóis preferiam a ntes emigra r pa ra as gra ndes cidades ou Fra n ça
do q u e dedica re m a esta a ctividade. Pa ra nós esta explicação só é e m pa rte correcta .
É certo q u e nas décadas de sessenta mu itos dos j ovens sa i ra m do Bierzo mas ta m b é m
é u m facto que a maior pa rte d o s o perários d a s em presas m i n e i ras estão constituídas
por espa n hois. o que ocorria é que esta qua ntidade de homens a utóctones não e ra
suficiente para satisfazer as necessidades de trabalhadores que as companhias m i n e i ras
ti nham. Pa ra soluciona r este problema algumas destas em presas começara m a trazer
gente de Portuga l 3 .
Algumas vezes e sobretu do nos pri m e i ros i m i gra ntes (os que vieram nos a nos
sesse nta e primeiros de sete nta) Espa nha não era o primeiro luga r de desti no esco l h i d o.
Estas pessoas ti nham com freq uência i ntenção de ir a outro país europeu, n o rma l m e nte
F ra n ça , e i n c l u s o a l g u n s re s i d i a m n e s t e p a í s d u ra n te u n s a n o s e d e p o i s , p e l a s
ci r c u n s tâ n c i a s q u e s ej a m , d e c i d i ra m v o l t a r a P o rt u ga l e c o m o s e g u n d a o p ç ã o ,
em igraram a o Bierzo. Ocorria com certa freq uência o caso de q u e o s portugueses q u e
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CARLOS ARANDA VASSEROT
n ã o c o n s e g u i a m l e ga l i z a r - s e e m F ra n ç a ou q u e e ra m r e p a t r i a d o s e m i g r a v a m
posteri ormente ao Bierzo. Isto quer d izer que a trajectória dos i m i gra ntes dos anos 6 5 a
70 passava mu itas vezes por uma estadia a nterior em outro país ou em o utra região d e
Espa nha c o m o Astu rias. Isto s u p u n h a que se i nstalavam no Bierzo a uma idade tard i a ,
d e s d e os vi nte e cinco a tri nta e cinco anos. Posteriormente consolidou-se esta corrente
migratória e os i m igra ntes vinham d i reitamente ao Bierzo ou a Laciana a uma idade
i n ferior, isto é, entre os 18 e 2 0 a n os.
Nos a n os 70- 7 7 chegou a gra n d e maioria. Estes i m i gra ntes viera m p ri m e i ro d e
T rá s - o s - M o ntes e d e p o i s ta m b é m d a região d o M i n h o . Era m g e n t e s e m profissão
q u a l i ficada ofi c i a l , provi n d o dum m e i o rura l . Estes i m i gra ntes a c h a ra m tra b a l h o n a
m i n e ração de maneira imed iata. Vi nh a m atraídos pelos a migos e fa m i l i a res com q u e m
v i v i a m os poucos dias que tardavam a a rra njar trabalho.
A i n d a que esta n d o i n d o c u m e n ta d o s , a s e m p r e s a s m i n e i ra s a c e i ta v a m - n o s
igua l m e nte, devido á necessidade considerável d e operários q u e havia naquela época
(anos sete nta).
Houve uma segu nda eta pa d e i m portante entrada d e portugueses e m León q u e
foi n o s a n o s 8 5 a 90. I nsta l a ra m principalmente no norte de Laciana (Vi l l a b l i no), e m bora
ta m b é m foss e m e m m e n o r n ú m e ro p a ra B i e rzo A l t o . Esta s e g u n d a c o r r e n t e d e
i m igrantes portugueses, a d i ferença d a primeira q u e estava fo rmada p o r homens q u e
a c h a ra m o c u p a ç ã o n a s m i n a s . e s t a v a c o n s t i t u í d a p ri n c i pa l m e n te p o r p e õ e s q u e
trabalhava m n a construção 4 Enqua nto q u e o s trabalhad ores q u e ch ega ra m nos anos
sesse nta e setenta para traba l h a r na m i na sempre fora m tratados labora l m e nte em
igualdade de condições q u e os espa n hóis. os portugueses q u e chega ra m depois, nos
a nos 8 5 a 90, fo ra m muitas vezes submetidos a a busos pelas e m p resas construtoras.
Depois dos a nos nove nta parou a corrente m i grató ria dos p o rtugueses. N esta
década só tem vindo casos excepcionais para tra ba l h a r nas m i nas. Isto é devido a q u e
n o s anos 80 a 8 8 foi u m tempo de certa pujança, m a s no i nício d o s a n o s 90 o sector
m i n e i ro foi atingido por uma forte crise. Isto l evou a que no começo dos anos 89 já não
houvesse essa necessidade de operá ri os. Melhor só entrava m como e m p regados novos
os fi l h os dos trabal hadores vete ranos. Actualmente vêm poucos i m i gra ntes portugueses
e os que chega m costu mam trabalhar na construção civil.
P ri m e i ro s a n o s em P o rtugal
Os i m i gra ntes p o rtugueses q u e se têm insta l a d o n o B i e rzo proce d e m n a s u a
maior pa rte d e Trás-os-Montes. A grande maioria das pessoas q u e temos e ntrevistad o
provêm de povos pequenos, n ú cleos rurais d e d uzentos vizi nhos q u e e m t o d o caso
n u n ca e x ce d e m os mil h a b itantes. Os pais s ã o agri c u l t o res; tra b a l h a m os d o i s n o
ca mpo, junto aos fi lhos.
É surpreend ente a pouca idade na que os i migra ntes começa m a tra b a l h a r. Já
com sete a n os acompanham o pai a o ca mpo. As fa mílias costu m a m ser n u m e rosas, de
q u atro a seis m e m b ros s . Cremos que a e x p l i cação d o gra n d e ta m a n h o da u n i d a d e
fa m i l i a r se deve a q u e a economia d oméstica m i n i m iza-se com famílias n u m e rosas j á
que os gastos relativa mente pequenos de mantimento destas crianças s ã o ra pidamente
sustidos com seu tra ba l ho, cedo se convertendo, desde esse momento num tra ba l hador
a ctivo q u e contribue para o sustento da sua unidade fa m i l ia r.
A estratégia d e m a x i m iza ç a o d o n ú c l e o fa m i l i a r c o m p re e n d e , q u a n d o n o s
fixa mo s, na e c o n o m i a agrícola d e s u bsistê ncia q u e p re d o m i na n estes povos. C a d a
fa mília t e m o seu próprio terreno onde cultiva m uma gra n d e va riedad e d e cereais e
horta liças. Ta mbém costu mam ter algo de gado. como se vê uma economia d esti nada
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A COMUNIDADE PORTUGUESA NAS REGIÕES DO BIERZO E LAC/ANA (PROVINCIA DE LÉON, ESPANHA)
ao a utoconsumo. Certamente, se sobra a lgo se vende, mas os a limentos que uti l iza a
fa mília para suster-se provem de seu próprio trabalho. U m novo fi l h o permite ao pai
abandonar sua horta para trabalhar tempora l mente d u ra nte períodos d e reco l h i d a , ou
permite m a nter u m o u vários reb a n h o s d e ove l h a s o u ca b ras. Tenha-se e m conta
ademais que o nivel técnico com que rea l izava o trabalho era reduzido; tudo fazia com
a enxada (lembra mos que esta mos fa lando dos anos setenta). Ter m uitos filhos permitia
a u mentar a prod ução.
Quase todos os entrevistados fora m à escola, tendo começado aos sete a n os e
terminado aos onze os quatro anos que constituía entao a I nstrução Obrigató ria d e
Portuga l . Metade a proximada mente não terminou estes estudos e q u ase n e n h u m d e
e les a lca nçou u m gra u su perior. I s s o é d e v i d o a que conti n u a r s u p u n h a em m u i tos
casos transladar-se a cidades ou vilas e sustenta r u m fi l h o fora de casa, o que com os
s a l á ri o s que ti n h a m e n tã o e ra a lgo m u ito d i fí c i l . A a cti v i d a d e e sc o l a r rea l i za - s e
simu ltaneamente 6 com a agrícola e ga nadeira , de modo q u e assistem à s a u las pela
m a n h ã e e m p rega m d e três a c i n co h o ra s p e l a tarde p a ra tra b a l h a r n a h o rta ou
cuidando do gado. A necessidade de deixar term i nadas as tarefas agrícolas convertia o
estudo numa a ctividade secundária.
E m q u a l q u e r c a s o , aos c a t o rze a n os c o m o m á x i m o o s e n tr e v i sta d o s t e m
term i n a d o s e u p e rí o d o d e fo r m a ç ã o e c o n v e rtem-se e m tra b a l h a d ores a te m p o
completo. É então q u e o s pais toma m a decisão d e l hes conseguirem u m a colocação
perma nente. As duas opções fu ndamentais que se l hes a p resenta m são a lavoura e a
construção. A primeira não é mais que u ma conti nuação do que tin h a m esta d o a fazer
até então, com a diferença de que agora trabalham ta mbém pela manhã.
A alternativa , o bter u m posto na construção, su põe real izar u ma jornada diária de
nove h o ras seis d i a s à semana tra b a l h a n d o c o m o a p re n d iz. N o r m a l m e nte a c h a rá
tra b a l h o n o m e s m o povo ou em o u tro p ró x i m o e e m b o ra fosse h a b i t u a l i r fazer
tra b a l hos na vizi nhança , o jovem não mudará da sua a ldeia e continuará vivendo e m
casa de seus pais. Considerava-se que n os primeiros a n os o j ovem estava passa n d o p o r
u m período de a p rend izage m , pelo q u e recebia u m a q u a nti dade s i m b ó l i ca p o r s e u
tra b a l h o . N o rm a l m ente e s t e p e rí o d o d e i n stru ç ã o d u rava u n s t r ê s a n os , e m b o ra
variasse m u ito d u n s casos a o utros. Isto sign i fica q u e aos d ezessete a n o s já p o d i a
ganhar u m salário c o m o tra ba l hador qualificado.
Considera m os os vi nte a n os como o utro m o m e n to decisivo o n d e vão to m a r
decisões que irão repercuti r-se sobre o resto de s u a vida, como s ã o o luga r o n d e s e i rá
i nstalar e o tipo de coloca ção a que se vai dedica r de maneira definitiva.
A d e c i s ã o de s a i r e a viagem
Porquê estes emigra ntes esco l hera m Espa nha e em concreto o Bierzo? o motivo
principal e q uase ú n ico pelo que os emigra ntes contava m, a razão de sair d o seu país,
era a económi ca . Apesa r de que boa pa rte dos períodos de chegada a Espa n h a dos
i m igra ntes coincidiu com o governo de Sa lazar, não temos encontrado refugiados, nem
asilados políticos, nem a i nda pessoas que saíssem por esta rem descontente com a
ditadura. A León a gente só vinha com a espera n ça de mel horar sua vida 7. Tam b é m
temos d e desta c a r q u e n o s p o v o s d e Trás-os-Mo ntes h a v i a faz vi nte a n os m u ita
emigração, sim, mas orientada principalmente a Fra nça e n u m segu ndo gra u a o utros
países como Suissa , Alemanha, Países Baixos ... Em gera l m u ito pouca gente emigrava
para Espa nha 8 . Nos a n os sessenta e primeiros dos setenta foi mu ito frequente que o
emigra nte que procurava fortu na em Fra nça e como não lhe dessem legalização 9 o u
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CARLOS ARANDA VASSEROT
porq ue n ã o estivesse satisfeito com o seu tra b a l h o se d e c i d i sse e m igra r e ir c o m o
segu nda opção a Espa nha. Ta mbém se dava o caso de que jovens que v i n h a m passar
umas fé rias, i r a umas festas ou simp lesmente visitar u m fa m i l i a r decidessem ficar a nte
a oportu nidade de ter um trabalho bem rem u n e rado. Portanto a pesa r de q u e se possa
s u p o r ter h a v i d o u m a c u i d a d osa e l e i çã o por pa rte dos p o rtugueses do l uga r e m
Espa nha para onde i a m em igra r o certo é q u e o s pri m e i ros i migra ntes q u e chegara m a o
Bierzo ou a Laciana fizeram-no u m pouco por casualidade. Nao ti n h a m planejado i r a
León mas sim na maior pa rte dos casos i r a outros países como Fra n ça ou a outras
regi ões espa nholas como Gal iza. De fa cto mu itos fora m a esses sítios e por diversas
ca usas n a o fi ca ra m contentes (consideravam q u e pagavam pouco o u sentiam-se só
sem pessoas d e s e u mesmo p a í s d e origem) o u s i m p l es m e nte p e n s a v a m que a
m i n e ra ç ã o a p re s e n ta v a u m a e x c e l e n t e o p o rtu n i d a d e , a d e o b t e r u m t ra b a l h o
p e r m a n e nte e bem pago. seja q u a l seja a causa con creta d e cada caso, d e ci d i ra m ,
c o m o segu nda opção, prova r fortu na n o B i e rzo, o n d e enco ntra ra m tra ba l hos m u i to
lu crativos - embora perigosos - na mina. Ademais há q u e ter em conta q u e a lgumas
e m p resas m i n e i ras da região q u e necessitava m recruta r gente util izava m ga nchos e
ca pta ra m pessoas, com o q u e ta mbém fo ra m as própias e m p resas m i n e i ra s as q u e
i n i ciara m o fl uxo m igratório. U m a v e z que este começou já segu i u d e m a n e i ra contí n u a ,
a t é q u e a crise m i n e i ra terminou c o m este processo.
o modo mais freque nte que se conhece das possi b i l idades labora i s que oferece o
Bierzo é por meio d u m fa m i l i a r ou um a m igo já fixa do e trabalhando em Espanha q u e
por ca rta ou em uma d e s u a s visitas a s e u povo i n forma e ofe rece a s u a aj uda a os
vizi nhos 10 . Os factores que mais têm em conta à hora de se aventura r nesta m u d a n ça
e ra a a lta rem u n e ração q u e oferecia a mina e a quase completa segu ra nça de obter u m
posto d e trabalho ao chegar.
U m a vez q u e tem d e ci d i d o sa i r fica por esta b e l e c e r o m o d o c o m o rea l i za a
viagem. Tem havido mu ita diversidade na maneira como se tem rea liza d o o trajecto,
dependendo da situação política de cada mome nto e das circunstâncias pessoais de
cada i n d ivíd u o e m questão.
Pa ra rea l iza r o viagem e ra fre q u e nte recorrer a m e d i a d o res d o s quais d isti n
gui mos d o i s tipos b e m d i ferenciados. Aqueles q u e tra ba l havam autonomamente, o rga
n izava m o seu próprio negócio que consistia em reu n i r, cada certo te mpo, u m pequeno
gru po d e jovens q u e levava até ao seu luga r de desti no, enca rrega n d o o tra nsporta d o r
d e cruza r a fro nte i ra por l u ga res n ã o v i g i a d o s q u e e l e já c o n h e c i a . ce rta m e nte, os
jovens que recorri a m a esta pessoa pagava m o serviço. Embora esta opção fosse esco
l h i d a p e l a segura n ça q u e d a va a co m pa n h i a e conse l h o d u m e x p e ri m e n ta d o q u e
conh ecia entre outras coisas a língua e a s i nstituções espa n h olas, ocorria c o m certa
fre q u ê ncia a fra u d e 11 . A segu nda variação consistia em q u e as próprias e m p resas
m i n e i ra s do Bierzo mandavam a seus i ntermediários ('ga nchos' no ca lao local) para que
recrutassem gente.
E l e s i a m p e l o s povos de B ra ga nça i n fo rm a n d o das e x c e p c i o n a i s c o n d i çõ e s
eco n ó m i cas e d e tra b a l h o q u e oferecia a s u a e m p resa e re u n i n d o grupos com q u e
atravessava m a fronte i ra. A d i ferença do "ga n cho" da empresa fre nte a o i nterm e d i á ri o
a u t ó n o m o é q u e o p ri m e i ro o f e re c i a u m trata m e n t o m a i s h o n ra d o e d e m a i o r
segura n ça . Embora exagerasse a s rem u n e rações e a s va ntagens labora i s q u e ofereciam
as empresas como 'Mi nero Siderú rgica d e Ponferrada', enca rregava-se m i nuciosamente
da viage m , não abandonava os i migrantes que estava m a seu ca rgo e se a e m p resa
nao contratava a alguma das pessoas trazi das, pagava - l h e a viagem d e volta . O utra
d i fe r e n ça é q u e e n q u a nto ao a u t ó n o m o pagava m - n o o s p r ó p r i o s i m igra n t e s , a o
recruta d o r pagava m - l h e seu serviço e o s gastos q u e tivesse a e m p resa p a ra q u e
tra bal hava , resultando completa mente grátis a viagem para o s portugueses.
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A COMUNIDADE PORTUGUESA NAS REGIÕES DO BIERZO E LACIANA (PROVINCIA DE LÉON, ESPANHA)
De q u a l q u e r m o d o , sej a q u a l sej a o m o d o como e ntra ra m os e m igrantes e m
E s pa n h a , fize ra m - n o s e m d o c u m e n ta ç ã o e i l ega l m e n t e . ca ra cterística q u e s e r i a
a p roveitada p o r a lguns e m p resários d o Bierzo para nao l hes fazer contrato o u não os
i nscrever na Segu ra n ça Social. Este recruta mento ocorreu sobretu do nos "cha m i ços",
p e q u e n a s e m p resas que m u itas vezes n e m estavam regi sta d a s e que e x p l o rava m
d u rante um breve interva lo de te mpo - uns meses como máximo - u m a meta m uito
a cessível. Ta mbém era mu ito frequente a prática por pa rte das grandes e m presas d o
su bcontrato. Pa ra leva r a ca bo certa exploração a empresa contratava u m i ntermediári o
o q u a l r e c r u ta v a p o r s u a v e z v á r i o s t ra b a l h a d o re s . L e ga l m e n t e e s t a s p e s s o a s
tra balhavam para este pequeno e m p resário c o m o q u a l ·a M i n e ro · o u outrà gra n d e
e m p resa não s e comprometiam c o m eles. Estes a busos fora m d i m u i n d o c o m a chegada
da democracia e o aumento da influência dos sindicatos que reivi n d i ca ra m o mesmo
trata mento la boral a o imigra nte que a o nativo. Uma pa rte minoritá ria dos imigrantes
n ã o regu l a riza ra m a sua s i t u a ç ã o até q u e m u d o u a l e g i s l a ç ã o no a n o 85 c o m a
a provação da chamada "Lei de Estra ngeria" q u e permitia ao emigra nte já insta l a d o em
E s p a n h a e que estivesse d e s e m p e n h a n d o u m t ra b a l h o com c o n t rato o u c o m o
autónomo q u e regu lasse s u a situação solicita n d o a licença d e tra b a l h o e de residência.
Quando chega m a o luga r d e d esti no, os que têm pa rentes ou a m igos nessa aldeia
- a gra n d e maioria - a l ojam-nos e m suas casas 1 2 . Mu itas vezes o tra b a l h o já estava
assegu ra d o para o recém chegado. Normalmente o fa m i l i a r tinha a pa lavra d o um posto
na e m p resa o n d e estava; é evid e nte, se havia chega d o por m e i o d u m recrutad o r o
posto já estava reserva do.
Mas a trajectória do emigra nte português que achou tra ba l h o no Bierzo às vezes
não te rmina aí. Lembremos que o trabalho na m i na é extraord i n a ria mente d u ro 13 e
m uitos i m igrantes d esejam experimenta r sorte em outros sítios.
Alguns voltam a Portuga l e outros vão para o utras cidades d e Espa n h a , co m o
Madri d e Ba rcelona.
S i t u a ç ã o l e g a l d o s i m igrantes
A gente q u e e m igrava fazia-o, como me disso u m e ntrevistado, com "passa porte
d e coe lho", isto é, estava indocumentada na giria loca l - só contava com um b i l h ete de
i d e nti ficaçao ou com certificado d e nasci me nto - e cruzava a fro nte i ra media nte u m
intermediário ou andando d e noite. p e l o monte. A l é m d e q u e havia m u i tos q u i l óm etros
d e fronte i ra que não pod iam i nspeccionar e m toda sua extensão, a polícia espa n h ola
não exercia uma persecução i ntensa.
U ma vez q u e ch egava m a Espa n h a obti n h a m no cons u l a d o d e orense, n u m
p r i m e i ro p e río d o , ou no d e León poste riorme nte o passa p o rte e a céd u l a consu l a r
(docu me nto d e i nscriçã o consul a r).
os e m i gra nt es v i n h a m só com b i l h ete de i d e n t i d a d e e ra ra m e n t e v i n h a m
documentados. Obtinham com mais faci lidade a documentação portuguesa (passaporte)
em Espa nha que em Portuga l.
Embora e m algumas empresas não exigissem documentação especial até vários
anos depois d e sua chegada, havia o utras - a maioria das e m p resas m i neras - q u e sim
exigia m-no e que incluso aj udavam a o imigra nte português nos trâ mites b u rocráticos.
os i m igrantes mais recentes, aq u e l es que viera m nos a nos 8 5 , 8 6 e posteri o r
mente, perman eceram muito tempo i n documenta d os 14 (sem licença de tra ba l h o e de
resi dência) e trabalhando sem contrato escrito.
É i m porta nte destaca r que a ctua l m e nte, a maior pa rte das pessoas de o rigem
portuguesa não estã o nacional izados espa nhóis nem o desej a m . Isto ocorre e m quase
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CARLOS ARANDA VASSEROT
a tota l i dade da pri m e i ra geração e em boa pa rte da segu nda. Agora mesmo a maior
pa rte dos fi lhos d e i migra ntes nao têm a i n d a d ezoito a n os, i d a d e e m q u e têm q u e
escolher e ntre a naciona lidade espanhola ou a portuguesa.
S i t u a ç ã o l a b o r a l d o s i m igrantes
o p ri m e i ro trabalho acha-o em três ou quatro dias como m u ito e às vezes tem-se
pactuado 1 s o posto por mediação dum familiar ou d u m amigo antes de sai r d e Portugal.
Parece q u e o desconhecimento d o idioma não é u m o bstáculo para movi m enta r-se em
Espa nha.
Actualmente os imigra ntes que tra ba l h a m na m i ne ração têm 'Segu ra n ça Social'.
Na construção nem sempre é assim. Na mineração, sobretud o nas grandes e m p resas
como a Minero Siderúrgica de Ponferrada, é obrigatório ter os empregados l egalizados 1 6.
Na construção pelo contrário tem-se caracterizado em muitas ocasiões por proporcionar
trabalho não regu larizado.
É d e d estaca r q u e n a s e m p resas m i n e i ra s a s c o n d ições l a b o ra i s t ê m sido as
mesmas para portugueses e espa n hóis, assim tem sido exigi d o a nível d e contratos.
N ã o o b sta n t e , t e m o s de a s s i n a l a r os s egu i n tes fe i tos. u m a q u a n ti d a d e d e s p ro
porcionadam ente baixa d e portugueses desempenham o posto d e vigi l a n tes, com o
q u a l pensamos q u e a carre i ra labora l dos i m igra ntes está mais l i m i ta d a . Existe u m a
p e rce n t a ge m d e s m e s u ra d a m e nte a l ta d e a c i d e ntes e m o rtos n a m i n a e n tre o s
estra n ge i ros (portugueses e ca b overd i a n os), possive l m e nte p o rq u e rea l i z a m tare fa s
mais perigosas e pesadas. Apesa r d e pertencerem quase todos a algum s i n d i cato, estão
sub representados n el es; é excepcional achar um português que ocupe um posto d e
i m portâ n cia neste tipo d e i nstitu ição. Todos estes feitos leva m-nos a conclu i r q u e desde
u m ponto d e vista forma l , não há discri m i nação, já q u e não existe d i ferença e ntre seus
contratos e os da maioria espa nhola. Mas pa rece ser q u e no relacionamento d i á ri o sim
existem d i fe renças.
Matri m ó n i o e reagru p a m e nt o fa m i l i a r.
A migração é mascu l i na no sentido de q u e os homens sa i e m de casa a u m a i d a d e
e ntre os d ezoito e os vi nte e dois anos. Acham tra ba l h o e casa m-se, normal m e nte c o m
uma m u l h e r d o m e s m o luga r o u d u m luga r vizinho. A s m u l h e res d e v e m esperar e m
Portuga l alguns a n o s (dois d e média) até que s e u marido consiga u m tra b a l h o estável,
e c o n o m ize e ache uma casa . Poste r i o r m e nte v ê m a Espa n h a como dona de casa
(do méstica), sem e ntra r no mercado la bora l . É bastante excepcional q u e as m u l heres
rea lizem tra ba l hos remu nera d os (igua lmente que as espa nholas) e a ú n ica saída la boral
que tê m é o serviço doméstico fora d e casa que muito poucas rea liza m .
S e g u n d o o C o n s u l a d o P o r t u g u ê s d e L e ó n , a q u a rta p a rte d o s e m i gra n t e s
portugueses t ê m forma do matrimón i os mistos. Esta proporção é alta e i n d i ca o grau d e
integração da comunidade portuguêsa. Estas fa mílias normalme nte n ã o pensam voltar
a Portugal quando o marido se reforme ou os fi l hos e ncontrem trabal ho. Pensa m fica r
perma nenteme nte em Espa nha. Prova de isso é q u e são estas fa mílias as q u e compram
ou fazem casas e m Espa nha.
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A COMUNIDADE PORTUGUESA NAS REGIÕES DO BIERZO E LAC/ANA (PROVINC/A DE LÉON, ESPANHA)
R e l a ções com P o rtuga l
Enquanto ao tema da ide ntidade cultura l , embora digam sentir-se satis feitos e
contentes com a cultura espa nhola, sentem-se fortem e nte i d entificados com sua regia o
d e orige m . Apesa r de terem estado m a i s a n os em Espa nha e d e terem m u itas mais
a m izades no nosso país, sentem nosta lgia por Portuga l , como o demonstra as viagens
q u e rea l izam ao seu país, que costu mam ser numerosas e i rregu la res. Em férias: Nata l ,
Semana Sa nta e Verao; e em fi ns d e semana, p o r exemplo u m a vez cada três m êses.
Ta mbém mantêm os laços com Portuga l media nte correio, i m p re nsa e as Associações.
Estas últimas cum prem u m pa pel fu nda mental a o ma nter as tra d i ções, conservar a
língua, etc.
A maioria dos entrevistados têm planejado voltar à sua a l d eia 1 7 , mas este desej o
é poste rgado p e l a necessidade de obter a baixa ou a reforma e pela necessidade d e
t e r e m os fi l h os a p r e n d i d o a l g u m a p rofissã o o u o fí c i o . P rova d e s e u d e s ej o d e se
i nsta la re m em Portuga l é que a maior pa rte d e eles constroem uma casa na sua aldeia.
enqua nto q u e vivem n o Bierzo e m casas a l ugadas.
A primeira ge ração fa la português e m casa e em luga res públicos. Compreendem
b e m o caste l h a n o , mas às vezes fa l a m - n o m e d i a n a mente. As m u l he res co m u n i ca m
melhor e m espa nhol que o s homens, o que significa e m m i n ha opinião q u e elas trata m
mais com espa nhóis que os homens. A segu nda geração só pratica a língua caste l h a n a ,
embora conheçam o português.
1 23
CARLOS ARANDA VASSEROT
B I E R ZO
o Bierzo e Laciana em Leon
A província d e Leon em Espanha
1 24
A COMUNIDADE PORTUGUESA NAS REGIÕES DO BIERZO E LAC/ANA (PROVINCIA DE LÉON, ESPANHA)
N O TAS
León é uma província situada ao noroeste de Espa nha. A grande maioria de cidadãos estra ngeiros desta
província residem no Bíerzo e Laciana. Embora no passado nestas regiões dominasse a agricultura e a
ga nadería, actualmente estas duas comarcas dependem da mineração do carvão.
As duas maiores com u n i dades de estra ngei ros e m León são: a portuguesa com 3 . 0 6 6 m e m bros e a
ca boverdíana com 8 7 9 pessoas (ínformaçao procedente do censo de Estra ngeiros da Dírecçao Geral d e
Mígraçoes, Espa nha, ano 1 995). Algo mais da metade (5 7%) d o s estra ngei ros residentes e m L e ó n s ã o
portugueses e um 1 6% s a o caboverdíanos. j untos compõem uns 7 2 % da população i migrante estra ngeira.
As outras nacionalidades são pouco relevantes desde u m ponto de vista estatístico.
"A empresa começou a trazer portugueses no 6 6 - 6 7 e a fricanos no ano 69- 70. A empresa tinha u m
português, q u e tinha trabalhado aqui, q u e i a a Portuga l recolhê-los, e traziam-nos sem documentação."
A sociedade que o entrevistado alude é a 'Minero Siderúrgica de Ponferrada', a maior companhia privada
productora de carvão de Espa nha. Sabemos que esta prática de " i m portação" d e operá rios foi u m a
actividade realizada p o r todo t i p o d a s empresas do carvão no Bierzo e Laciana. Também ca be assi nalar
q u e ta nto a com u n idade portuguêsa como ca boverd iana têm a sua origem nesta " i m p o rtação" de
im igrantes. Não é o trabalhador estrangeiro o que decide por si só vir ao Bíerzo, senão que uma pessoa
chega até ele com o objectivo de convencê-lo. Isto quer dizer que o início deste processo m igratório não
está no país de origem senão no de destino. Ta mbém é de d izer que primeiro atraíra m portugueses e
pouco depois caboverdíanos, mas sempre o país ao que acudiram para "trazer" operários foi Portugal . Para
os portuguêses recorreram a Trás-os-Montes e para os caboverdíanos à com u n idade i migrante de Lisboa.
Por ú ltimo assinalar que esta "tráfico de i migração clandestina" era completamente ilega l , já que traziam
os trabalhadores indocumentados.
4
"Na rea lidade o que passa é que os espanhóis não queriam este tipo de trabalho porq ue é u m traba l h o
d e dez h o r a s , d u ro e mal pago. os espa nhóis não acudiam e necessitava-se u rgente m e nte pessoa l
qualificado. A maior parte da construção que tem sido levantada está sendo rea lizada pelos portugueses.
Quando vim havia mu ito poucas casas no povo. Agora isto é enorme e temo-lo feito nós".
É ce rto q u e tem h a v i d o e a i n d a h oj e e x i ste u m a q u a n t i d a d e d e s p ro p o rc i o n a d a m e n te a l ta d e
trabalhadores n a construção d e naciona lidade portuguesa. Isto quer d izer q u e volta a ocorrer o feito tão
frequente de que não existe uma autêntica com petência em mu itos sectores laborais entre o im igrante e
o autóctone já que o estra ngeiro trabalha naqueles sectores que os espanhóis evitam.
"Eramos sete i rmãos. Tínha mos uma horta. Todos trabalhávamos, mãe e írmas ta mbém. Tudo servia para
o consumo e às vezes não chegava".
Fixemo-nos no n ú mero de fi lhos que tinha esta fa mília: sete. Então era m u ito fre q uente as fa mílias
numerosas. E todos trabal havam no ca mpo. A agricultura. à diferença da m ineração ou da construção,
introduz u m elemento de igualdade laboral ao permitir que as m u l heres trabalhem fora de casa . Também
temos de destacar que o principal destino da produção agrícola era o autoconsumo e "às vezes não
chegava". A d u reza deste tipo de vida será o principa l incentivo para em igrar.
6
"Desde os seis ou sete anos começei a trabalhar no campo. Fiz até à quarta classe, a I nstrução Obrigatória.
Trabal hava ao mesmo tempo que ia à escola. Levantava-me às seis, sacava as ovelhas e às nove estava
na escola e voltava às q uatro. Depois ia ao cam po, a traba lhar na horta. Estudava pela noite, quando podia".
É evidente que com u m horário tao intenso. que dificilmente suportaria u m adu lto, uma proporção a lta de
rapazes e raparigas deixavam de estudar.
"Saí da aldeia porque éramos uma fa mília m uito grande para estar todos em casa. E vim ao Bierzo porq u e
e r a o n d e tinha m a i s am igos".
A razão pela que os jovens marchavam dos povos era m u ito simples: as hortas dos país nao podiam
manter as famílias de seus fil hos.
8
"Emigrou muita gente do povo, mas a Espanha marcharam poucos. Foram sobretudo a França e a Alemanha".
Apesar da cerca nia fisica destos povos com Espanha, a maior pa rte de seus emigrantes esco lheram outros
países como l uga r de destino, princi pa lmente França. Isto ocorreu provave l mente porqu e Espa nha era
considerada como u m país menos rico, pelo menos com pa rando-o com o resto de Eu ropa.
9
"Queria ir a França e em igrei clandestinamente. Trabalho havia m uito, mas não me deram a documen
tação. Estive seis mêses espera ndo, e como não ma davam decidi sair. Eu tinha u m cunhado e m Tremor
que me d isse por carta que tinha traba lho aqui. Desde França fu i a Tremor só, indocumentado (só levava
comigo o Bilhete de Identidade Português)".
1 25
CARLOS ARANDA VASSEROT
Neste caso, vemos como a p r i m e i ra opção de em igra r foi a F ra n ça , e que como não consegu i u a
documentação, decid i u i r-se a Espa n h a . O bserve-se como esta pessoa viaja clandesti n a m e nte sem
problemas por França e Espa nha e que permanece gra ndes i nterva los sem documentação.
10
"Eu tinha em Torre dei Bierzo o meu irmão, que levava onze a nos a l i . Escreveu-me um dia e d isse-me q u e
a l i havia traba lho, casa para viver e que se ga nhava m a i s . Eu vim imediatamente".
uma vez consti t u í d a a com u n i d a d e d e i m igrantes, esta atrai a m e m b ros d e seu pais d e orige m ,
normalmente a fa miliares, d e modo q u e constituiu u m a rede de informação que atra i u di recta mente a
pessoas de origem portuguesa. A partir a proximada mente do ano 7 5 , já não fazia fa lta ás empresas
mineiras mandar os seus i ntermediários. Os portugueses seguiam vindo porque já se sabia que existia no
Bierzo uma possibilidade de achar trabalho bem remu nerado.
11
Por exemplo, u m de nossos entrevistados contou que tinha utilizado este serviço j u nto com outros três
companheiros da sua aldeia para ir a França e que uma vez que passa ram a fronteira e chega ra m à Galiza
deixou-os num bar com a promessa de que ia a recolher a outro em igra nte para o levar com eles e não
voltou. Deixou-os a bandonados num pais estra ngeiro, sem documentação e sem conhecer a língua.
12
"Eu chegei a Torre dei Bierzo e alojei-me em casa de meu irmão. Ta rdei q u i nze dias em achar trabalho de
ajudante m ineiro, de vagonista".
A solidariedade entre fa miliares e vizinhos é fu ndamental à hora de ser informado e de receber ajuda nos
primeiros dias, até que acha trabalho e recebe o primeiro salá rio.
13
"Eu não quero passa r-me toda a vida na mina. Eu não sei qua nto tem po estarei aqui, se u m ano, dois,
cinco ou dez, mas q u ero i r em bora da m i na porq ue trabalhar a q u i é m u ito a rriscado. M i n h a m u l her
ta mbém q u e r i r porque gosta m u ito sua terra . Eu trabalharia na construção, onde acharia traba l h o
fá c i l m e n t e " . A q u i t e m o s a u m m i n e i ro p o r t u g u ê s q u e p a rece c o n h e c e r e m p r o fu n d i d a d e a s
consequências que para s u a saúde t e m traba lhar na m i n a e que está pensando em ir-se embora. o q u e
ocorre é q u e , como temos repetido m a i s de u m a vez, um homem que leve bastante tempo na m i n a está
tão doente que nao pode trabalhar em outro sitio.
14
"Os novos em igra ntes, os ma is recentes (chamados 'temporeros') são i l ega is, já que a nova legislação
d i ficu lta m uito regularizar a situação dos recentes. E gente que não se relaciona. Traba lham desde as
nove até as oito da noite".
Segu ndo este informante, os trabalhadores que estão empregados na construção estão i legais e não têm
podido regu la rizar sua situação com a 'Lei de Estra ngeria', bem porque não tenham pod ido demonstrar
que têm estado trabalhando e residi ndo em Espanha antes do ano 8 6 , ou bem porque chega ram depois.
Relacionava m-se pouco com a gente e desejavam passar desapercebidos porque tinham medo de ser
deportados. Actua l m e nte não padecem este pe rigo porque q u a l q u e r pessoa m e m b ro dum país da
Comun idade Económica Europeia pode viajar a outro país da C.E.E. sem nenhum trâmite especial.
15
"Eu cruzei a fronteira de carro e chegei a Montealegre. Já tinha assegurado o trabalho, tardei só u m dia ou
dois em começa r a trabalhar".
o mais freque nte é que o i m igrante ch egasse ao Bierzo sem ter assegurado u m tra b a l h o e m u m a
empresa concreta porque naquela época (anos setenta, sobretudo) havia t a l demanda de operários q u e o
emprego se obtinha imediatamente.
16
"Logica mente, ao principio todos esta mos indocume ntados q u a n d o chegamos. Mas na m i n e ra ção, à
diferença da construção, sempre te lega l izam. Antes de 85 lega lizou-se muita gente, mas depois, com a
'Lei de Estrangeria', foi m uito mais d ificil".
E de destacar como o informante afirma que q uase todos os portugueses que vinham a León estava m
indocumentados. Ta mbém é i m portante a afirmação de que com as empresas m i neiras consegu ia-se
s e m p re a d o c u m e n ta ção e n q u a nto que com a lgumas construtoras tra b a l h a n d o i l ega l m e n te. Esta
a fi rmação h á que a matiza r p o r q u e existiram a lg u n s " c h a m iços" que nao regu l a r i z a r a m os s e u s
empregados, mas em gera l , e r a certo: as empresas m i n e i ras permitiam e m u itas vezes aj udavam a
conseguir a cédula consu lar e o passaporte nos primeiros anos e a licença de residência e de trabalho
poste riormente, e n q u a nto q u e houve e m p resas d e construção que m a ntiveram a s e u s pregados
estra ngei ros indocumentados.
17
"Tenho aqui casa , mas penso voltar ali quando me reformar. Ai esta m m i nhas raizes, meus a migos e isso
empurra -me m u ito. Já o tenho decidido com a mulher e já o tenho d ito aos fi lhos".
Em bora seja freq uente que os i migra ntes portuguêses que se têm instalado no Bierzo-Laciana d esejem
volta r à sua a ldeia q uando se reformarem ou os deem de baixa. a segunda geração prefere ficar e m
Espanha porque s e sentem m a i s espa nhóis.
1 26
A COMUNIDADE PORTUGUESA NAS REGIÕES DO 8/ERZO E LACIANA (PROVINCIA DE LÉON, ESPANHA)
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RES U M O
Em León a cha-se u m a d a s p rincipa is comun idades de portugueses instaladas e m Espa n h a .
Este colectivo t e m chegado e m dois períodos. Principalmente d e s d e 1 96 5 a 1 98 5 pa ra tra ba l h a r na
m i n e ração d o carvão e e m menor medida desde 1 9 85 até 1 9 90 p a ra tra b a l h a r na construção civil.
o futuro e m igra nte se d e d i cava na s u a i n fâ n c i a a o s l a b o res d o campo. N o r m a l m e n t e
tra b a l hava d e agricultor a t é q u e d e c i d i a em igrar, e m bora te n h a mos conhecido a l g u n s casos d e
jovens q u e tra ba l havam c o m o a pre nd izes na construção.
O m otivo p r i n c i p a l p a ra e m igra r a o B i e rzo foi o e co n ó m i co . Para rea l i z a r a v i a g e m e ra
freque nte utilizar os serviços de mediadores, dos q u a is havia duas classes: os q u e tra b a l havam por
sua conta e os q u e eram ma ndados pelas e m p resas m i n e i ras. Os e m igrantes real izava m a viagem
sem documentação. Obti n h a m o passa porte norma l m e nte e m Espa n h a , no consu lado d e León o u
de O rense.
o matri m ó n i o costuma ce le bra r-se entre jovens d a mesma n a c i o n a l i d a d e . N o r m a l m e nte
rea l iza-se q u a n d o ele já tem e m igra d o e é ha bitual que a esposa d eva esperar e m seu povo dois
a n os como m í n i m o até q u e o marido consiga o suficie nte d i n h e i ro para i re m j u ntos para León.
Com res pe ito à sua situaçã o labora l , os i m igra ntes q u e tra b a l h a m na m i na - q u e são a
m a i o ria - têm contrato labora l , enqua nto q u e a q ueles q u e tra b a l h a m na constru ção é fre q u e nte
que não o te n h a m . Apesa r d e que form a l m e nte (a nível d e contratos) nao exista d iscri m i nação na
m i n a , cre m os q u e n o convívio d i á rio sim a há.
Os i m igra ntes sentem u m a gra n d e saudade por Portuga l e sentem-se m a i s i d e ntificados
com seu país d e orige m q u e com Espa n h a . Embora desej e m volta r a o seu país, a necessidade de
obter uma pensão a d e q u a d a e d e que seus fi l h os achem uma colocação, i m pe d e os pais de
retornar à sua te rra .
1 27
CARLOS ARANDA VASSEROT
S U M MARY
O n e of the m a i n Po rtuguese com u n ities living i n Spa i n is l ocated i n León. T h i s collective
a rrived i n León i n two stages:
from 1 965 to 1 9 8 5 to work m a i n ly i n coa i m i nes, w h i l e a m i n o r gro u p did it from 1 98 5 to
1 990 to work i n the construction.
The futu re em igra nt used to work d u ring his childhood on the fa rm. H e normally worked as
a fa r m e r b e fore h e d e c i d e d to e m igrate, though we have m e t s o m e youths t h a t worked a s
b u i l d e r's mates.
The reason to e m igrate to El Bierzo was m a i n ly an eco n o m ical one. l n arder to be a b l e to
m a ke the trip they used to have a med iator's service of which there were two d i ffe rent kinds:
those ru n n i ng their own business a n d those working fo r the m i n i ng e nterprises. The e m igra nts
used to travei without a ny personal acreditation. They normally obta i ned their passports either at
the Consu late of León or Orense both i n Spa in.
Ma rriage is normally celebrated a mong young people of the sarne nationality. lt is not u ntil
h e has a l ready e m igrated that the wedding occu rs a n d it is not u n usual that the bride has to wait
for at least two years u ntil h e r husband has got enough money to ta ke h is w i fe with him back to
León.
Referring to their working situation, the e m igra nts working i n the m i n i ng i n d u stry, w h o a re
the majority, have got a contract, w h i l e those working at the b u i l d i n g sites have not got o n e .
T h o u g h there is n o d iscri m i nation i n contracts, we bel i eve it exists i n person a l treatment.
The em igra nts m iss Portuga l terri bly a n d they feel much more identified with their country
of origin than with Spain. Although they wish to go back to their own cou ntry the need to obta i n a
good pension a n d to get their children a job, a re strong enough reasons for them not to retu rn.
S O M MA I R E
À Leó n , o n peut trouver u n e des comu nes principaux d e Portuga ises i nsta ! l és e n Espagne. Ce
col lectif est a rrivé dans deux éta pes: princi palement d e 1 9 6 5 à 1 9 8 5 pour trava i l l e r des m i nes d u
charbon, e t à u n e m o i n d re échelle d e 1 9 8 5 à 1 990 pour trava iller dans le bâtiment.
Le futu r é m igra nt s'occu pé des labours de la cha m pagne pendant son e n fa nce. Normalment
ii trava i l lait com m e agricu lte u r jusqu'a ce q u ' i l était décidé d ' é m igrer, b i e n q u e naus ayons connu
q u e l q u e cas de j e u nes q u i trava i l l a ient com me manoe uvres dans I e bâtime nt.
Le motif principal p ou r é m igrer a u El Bierzo éta it économique. Pou r effectue r le voyage éta it
frécuent l'util isation d ' i nterm é d i a i res q u i éta ient d e deux sortes d i ffé rentes: ceux qui trava i l l a ient
q u a nt à eux, et ceux qui éta ient envoyés par les i n d u stries m i n i é res. Les é m igra nts fa isa ient l e
voyage s a n s papiers. Normalement, ils obtenaient l e u r passports en Espagne dans l e consulat d e
L e ó n o u d ' O rense.
Le ma rriage se cé l é b re entre des j e u nes d e la même nationa l i té. 1 1 a lieu fré q u e m m e n t
q u a n d ii d éjà é m igré, et i i e s t h a b ituei q u e l 'épouse d o i v e atten d re à son vil lage pendant d e u x
a n nées si encare, j u s q u 'à c e q u e I e ma ri obtienne d e l ' a rgent suffisa nt p o u r a l i e r ense m b l e à León.
Quant à l e u r situati o n d u trava i ! , les émigra nts qui trava illent dans les m i nes -qui sont la
m aj o rité- ont d u contrait d e trava i ! , pendant que ceux qui trava i l l e n t dans l e bàtiment ne lónt pas
normalement. Bien que formellement (au niveau des contra its) i i n 'y a i t pas d e d iscri m i nation dans
la mine, o n croit q u ' i l y a d e la d iscri m i nation dans l'entregent.
Les é m igra nts ont la nosta lgie du Portuga l et ils s'indentifient plus à l e u r pays d 'origi n e q u 'à
I ' Es p a g n e . B i e n q u ' i l s d é s i r e n t rentrer chez e u x , le beso i n d ' o bte n i r u n e p e n s i ó n de retra ite
a p p r o p r i é e et d e que leur e n fa nts tro u v e n t u n trava i ! , e m p ê c h e que les p a re nts p u issent
retourner chez eux.
1 28
A COMUNIDADE PORTUGUESA NAS REGIÕES DO BIERZO E LAC/ANA (PROVINC/A DE LÉON, ESPANHA)
G lO S S Á R I O
Ass o c i a ç õ e s d e I m ig r a n te s : N a p r o v í n c i a d e L e ó n e x i s t e m a l g u m a s Ass o c i a ç õ e s d e
portugueses o u ca boverd ianos q u e realizam actividades culturais (conservação e tra nsm issão d e
língua, por exemplo) e q u e exercera m u m p a p e l mediador n o passad o na regu la rização d e i l ega is,
aj u d a n d o às autoridades espa n holas.
Aj u d a nte m i n e i ro: Tra b a l h a d o r m i n e i ro não especializado. N o rm a l mente e n ca rrega d o d e
aj u d a r a o picador, a pessoa q u e a rra nca o ca rvã o. É a categoria p e l a q u e começa a tra b a l h a r
norma l m e nte e a p i o r rem u nerada.
C h a m i ç o : E m p re s a m i n e i ra q u e h a b i t u a l m e n te não está com a s l i c e n ç a s l e ga i s d e
exploração. Norma l m ente são e m p resas m u ito pequenas, com poucos e m p regados e u m a d u ração
d e expl oração re d u z i d a , d e u ns pou cos m eses o u poucas s e m a nas. Ca racteriza m-se p o rta nto,
desde o ponto d e vista do tra b a l hador. pela insegurança. O tra b a l h o é rea l izado numas cond i ções
m u ito d u ras. Em a l g u n s casos o s a l á r i o é m e n o r o u não h á con trato d e tra ba l h o . Costu m a m
esco l h e r como e m p regados ha bitua l mente a portugueses e ca boverd i a n os. Actu a l m e nte este tipo
d e e m p resa q u ase d esa pareceu.
L e i d e Estra nge r i a : Lei O rgá n i ca 7/ 1 9 8 5 , d e 1 d e j u l h o , s o b re D i re itos e L i b e r d a d e s d os
Estra ngei ros. corre nte me nte chamada 'Lei de Estra ngeria'.
M i ne ro Si de rúrgica d e Ponferra d a (M.S.P. ou ·a M i nero'): Segu nda e m p resa p rod u ctora de
carvão e m Espa nha e a primeira de carácter privado. Tem passa do recente m ente por u ma q u e b ra
e tem u m a forte d iv i d a . se não fechou a i n d a foi p e l a s su bvenções gove rna m e n ta i s q u e t e m
recebido. N e l a tra b a l h a m mais de 2 . 5 0 0 pessoas e de ela d e p e n d e t o d a a coma rca d e Lacia na.
Vigila nte: Obreiro d o i nterior da m i n a . Tem a seu ca rgo u m a ra mpa (beta d e carvão que
com u n ica com a ga leria principal). É a pessoa q u e se enca rrega d e fixa r e m e d i r o tra b a l h o fe ito por
cada tra ba l h a d o r.
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