Clientes Manual Nº 2 Curso de Microcrédito Financiado por Parceria com Millennium BCP Produção da e FICHA TÉCNICA Origem Este manual faz parte de uma série de manuais concebidos em 2006 para preparar empresários que trabalham com apoio a Microcrédito. Orientação da colecção Esta colecção é orientada pela UNIAUDAX, e pela FORMEDIA. Liderou os trabalhos Eduardo Cruz UNIAUDAX AUDAX – Empreendedorismo e Empresas Familiares Criado em Julho de 2005 pelos Associados Fundadores INDEG/ISCTE e ICAT/FCUL, o AUDAX teve a sua origem na Pós-graduação Empreendedorismo e Criação de Empresas, actualmente na sua 5ª Edição, e tem como missão estudar e promover o espírito empreendedor e intervir junto de potenciais empreendedores e empresários de organizações de natureza familiar. As principais actividades do Centro abrangem áreas como a investigação, consultoria, eventos, publicações, formação e promoção e acompanhamento de veículos de investimento, como é o caso do fundo de capital de risco FIQ Universitas. http://www.audax.iscte.pt FORMEDIA FORMEDIA – Instituto Europeu de Formação de Empresários e Gestores, é uma empresa de formação de executivos, especializada em e-Learning, especialmente vocacionada para o mundo de língua portuguesa, com os melhores programas internacionais. Tem actividades regulares em Portugal, Angola, Cabo Verde e Moçambique, em regime presencial e a distância, Online, com recurso à Internet e Multimédia. Em 2006 iniciou também actividades no Brasil. Funciona com parceiros de elevada qualidade, oriundos dos diversos continentes. Criada em 1988, a FORMEDIA definiu a sua missão como um centro de desenvolvimento de gestão, que visa implementar o espírito empresarial nos países de língua portuguesa, utilizando de forma inovadora as mais modernas tecnologias. Propriedade e A propriedade e os direitos de autor são cedidos à Fundação Calouste direitos de autor Gulbenkian. Autoria A autoria do manual é de Dr.ª Carmo Leal Índice Objectivos de Aprendizagem ................................................................................. 5 Síntese ...................................................................................................................... 7 Capítulo 1 – Os Clientes e o Mercado ....................................................................... 9 Objectivos de Aprendizagem do Capítulo .............................................................. 9 Cenário ............................................................................................................... 11 Estratégia ............................................................................................................ 13 Atrair o cliente – uma preocupação antiga ....................................................... 13 Defina o seu Mercado ...................................................................................... 15 Que necessidades o seu produto ou serviço vai resolver? ................................. 16 Que pessoas serão os seus principais clientes? ................................................. 17 Recomendações para a Acção.............................................................................. 19 Solução para o Cenário ........................................................................................ 21 Exercícios para Resolver ..................................................................................... 23 Capítulo 2 – Segmentar o Mercado e Definir a Concorrência .................................. 25 Objectivos de Aprendizagem do Capítulo ............................................................ 25 Cenário ............................................................................................................... 27 Estratégia ............................................................................................................ 29 Conhecer a concorrência.................................................................................. 35 Recomendações para a Acção.............................................................................. 37 Solução para o Cenário ........................................................................................ 39 Exercícios para Resolver ..................................................................................... 45 Capítulo 3 – Definir a Área de Atracção do Negócio e Avaliar o Respectivo Potencial ............................................................................................................................... 47 Objectivos de Aprendizagem do Capítulo ............................................................ 47 Cenário ............................................................................................................... 49 Calcule a área de atracção do seu negócio........................................................ 49 Estratégia ............................................................................................................ 51 Como definir a sua zona de atracção? .............................................................. 51 Avalie o potencial da sua Clientela .................................................................. 52 Recomendações para a Acção.............................................................................. 53 Solução para o Cenário ........................................................................................ 55 Exercícios para Resolver ..................................................................................... 57 Capítulo 4 – O Processo de Decisão de Compra em compras de alto e baixo envolvimento e na Aquisição de Serviços ................................................................ 59 Objectivos de Aprendizagem do Capítulo ............................................................ 59 Cenário ............................................................................................................... 61 Conheça como os Clientes decidem a compra dos produtos e serviços............. 61 Estratégia ............................................................................................................ 63 Quem intervém no processo de decisão de compra?......................................... 63 As etapas do processo de decisão de compra.................................................... 64 Tipos de Necessidades ..................................................................................... 65 A diferença entre as compras com alto e baixo nível de envolvimento ............. 67 A diferença entre produtos e serviços .............................................................. 68 O que mais conta no momento da compra? ...................................................... 69 Recomendações para a Acção.............................................................................. 73 Solução para o Cenário ........................................................................................ 75 Exercícios para Resolver ..................................................................................... 79 Capítulo 5 – Diferenciação e Posicionamento .......................................................... 81 Objectivos de Aprendizagem do Capítulo ............................................................ 81 Cenário ............................................................................................................... 83 Porque é importante ser diferente? ................................................................... 83 Estratégia ............................................................................................................ 85 O Posicionamento ........................................................................................... 86 A importância do posicionamento diferenciador .............................................. 87 Recomendações para a Acção.............................................................................. 89 Solução para o Cenário ........................................................................................ 91 Exercícios para Resolver ..................................................................................... 93 Capítulo 6 – O Papel da Fidelização de Clientes no Desenvolvimento do Negócio .. 95 Objectivos de Aprendizagem do Capítulo ............................................................ 95 Nota Introdutória ............................................................................................. 95 Cenário ............................................................................................................... 97 Fidelizar é mais fácil do que atrair novos Clientes ........................................... 97 Estratégia ............................................................................................................ 99 Estratégias para captar Clientes ..................................................................... 101 Estratégias para aumentar a frequência dos Clientes ...................................... 102 Estratégias para aumentar a compra média de cada Cliente ............................ 102 Recomendações para a Acção............................................................................ 105 Solução para o Cenário ...................................................................................... 107 Exercícios para Resolver ................................................................................... 109 BIBLIOGRAFIA .................................................................................................. 111 WEBGRAFIA....................................................................................................... 111 WEBGRAFIA (continuação)................................................................................. 112 Clientes 5 Objectivos de Aprendizagem O presente manual tem como principal objectivo dotar o formando/leitor de conhecimentos práticos que lhe permitam captar e reter Clientes e, assim, rentabilizar o seu negócio, qualquer que seja o produto ou serviço com que trabalha ou se prepara para trabalhar e independentemente da dimensão da sua empresa. Apenas isto! Todos os outros temas se enquadram neste objectivo principal. Cada capítulo do presente manual apoiar-se-á num caso concreto de um negócio, para que o formando/leitor possa identificar e compreender os conceitos, enquadrando-os numa situação específica que, não sendo exactamente igual à sua, terá, certamente, como base os mesmos princípios, técnicas e ferramentas. Pedimos-lhe, pois, que faça um esforço de abstracção para que consiga generalizar, a partir de um exemplo fornecido, para a situação da sua empresa e da respectiva área de actividade. No final da leitura deste manual, os formandos deverão estar aptos a: 1. Reconhecer, no caso prático da empresa apresentada em cada capítulo, as etapas e os aspectos críticos do desenvolvimento de uma política de atracção e captação de clientes para a sua futura empresa; 2. Conhecer e saber identificar as razões pelas quais os clientes são o factor determinante do sucesso de qualquer negócio e definir o respectivo mercado; 3. Identificar a sua concorrência - em sentido abrangente e restrito – conhecendo os critérios adequados e os públicos envolvidos e saber como segmentar o mercado utilizando os critérios mais relevantes, bem como a zona de atracção do negócio; 4. Conhecer e saber como tirar partido do processo de decisão de compra, em compras de maior e menor envolvimento do comprador, Identificando as principais diferenças na aquisição de produtos e de serviços e conseguindo que essas especificidades possam aumentar o negócio; 5. Conhecer a importância e saber como identificar formas de diferenciar a sua oferta da oferta concorrencial, transformando atributos em benefícios para os clientes; 6. Conhecer as vantagens da fidelização de clientes, enquadrando-as num atendimento exemplar (transição para o capítulo “Vendas e Distribuição”). Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 6 2006 Clientes 7 Síntese Os clientes são a razão de ser de qualquer negócio. São também os clientes que, em última análise, decidem do sucesso ou do fracasso de uma excelente ideia que, por vezes, parece ter tudo para dar certo e não dá! Todos os conceitos que enchem as páginas dos manuais de marketing se baseiam nesta ideia simples: procurar saber o que leva o cliente a comprar, aquilo que ele efectivamente deseja, onde o deseja e em que condições (de preço, de serviço, de local…) Ao longo de décadas, generalizou-se a ideia de que qualquer pessoa teria jeito para lidar com clientes. Muitos negócios, particularmente pontos de venda do pequeno comércio, passaram de pais para filhos não conseguindo, muitas vezes, as novas gerações, continuar com sucesso os projectos dos pais. Na verdade, a razão do fracasso de muitos negócios não está no orçamento (in)disponível para grandes acções de comunicação ou na famigerada “crise” mas no facto de que muita gente decide começar com um negócio sem reflectir previamente se tem ou não vocação para lidar com o público, sem conhecer as características do mercado onde vai desenvolver a sua actividade, sem saber quem serão os seus clientes-alvo e, acima de tudo, sem conhecer aquilo que os clientes realmente desejam, isto é, o que os faz comprar. Neste Manual sobre Clientes, procuramos sistematizar as principais orientações para iniciar um negócio, tendo como fio condutor a atracção de clientes que, como todos sabemos - ainda que intuitivamente - também evoluíram e fizeram evoluir os mercados. A verdade é que, de uma forma geral, temos hoje mais liberdade de escolha, somos mais exigentes nas opções que fazemos, mais impacientes, não nos bastando aquilo que antigamente nos satisfazia. Por outro lado, damos agora valor a produtos e serviços que antes não faziam sentido, apreciamos o lazer e tudo o que nos facilite a vida. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 8 Enquanto consumidores que todos somos, estamos mais atentos e espertos, não nos enganamos com propostas que não nos servem e gostamos de ser conhecidos e reconhecidos nas nossas preferências. Compramos na Internet, por telefone, por catálogo e queremos ver as nossa expectativas excedidas qualquer que seja a forma de comprar. Serviço é uma das palavras-chave; mais do que o preço, apreciamos aqueles “pequenos” extras que distinguem um produto ou serviço de outro muito similar. Em face das alterações verificadas com o aumento global da oferta em quase todas as áreas de actividade, a relação empresário -cliente tem também que acompanhar esta maior exigência e, em particular, perceber e respeitar o ponto de vista do cliente. Não se trata, portanto, de o “forçar” a adquirir o que temos para lhe vender, nas condições que previamente estabelecemos, mas sim de lhe propor os produtos e serviços que ele aprecia, nas condições mais favoráveis. A velha máxima “O cliente tem sempre razão” pode já estar gasta, na medida em que, como qualquer pessoa, um cliente pode agir incorrectamente e não saber, à partida, exactamente qual a melhor solução para a sua necessidade. Contudo, o cliente continua a ser o rei e a razão de ser de qualquer negócio. Um cliente mal tratado ou enganado nas suas expectativas é um cliente perdido e uma fonte dinamizadora da sua insatisfação junto dos seus conhecidos e amigos. Se um cliente não adere à sua proposta de negócio, algo está errado mas não é seguramente o cliente. Pode ser a localização inconveniente do ponto de venda, pode ser uma má relação percebida entre a qualidade e o preço proposto, pode ser que os produtos não tenham as características pretendidas ou pode ser simplesmente porque o cliente não se considera bemvindo, respeitado e compreendido. É por isso que o desafio que qualquer empresário tem pela frente, independentemente da área do negócio ou da dimensão do mesmo, é o de se colocar sempre do lado do cliente e de compreender o que o faz comprar. Afinal, você nunca terá uma segunda oportunidade de causar uma primeira boa impressão… Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 9 Capítulo 1 – Os Clientes e o Mercado Objectivos de Aprendizagem do Capítulo No final do presente capítulo, os formandos deverão estar aptos a: Conhecer e saber identificar as razões pelas quais os clientes são o factor determinante do sucesso de qualquer negócio; Reconhecer, no caso prático “Centro de Ocupação de tempos livres para Seniores”, apresentado neste capítulo, as etapas e os aspectos críticos do desenvolvimento de uma política de atracção e captação de clientes para a futura empresa; Conhecer a diferença entre a abordagem tradicional de mercado e a abordagem numa perspectiva de marketing; Saber como definir o mercado-alvo, em função das necessidades que os produtos ou serviços vão resolver; Saber como identificar o tipo de clientes potenciais para o negócio, dentro do mercado. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 10 2006 Clientes 11 Cenário Os clientes são a razão de ser de qualquer negócio Os Clientes são o factor crítico de qualquer negócio. Numa grande ou numa pequena empresa, a vender bens físicos ou serviços, é nos Clientes que começa (e acaba!) a razão de ser de qualquer negócio. Apresentamos-lhe o caso de Amélia Domingues e do seu projecto de trabalhar com gente sénior, que detalharemos mais à frente. Cenário 1 – O centro de ocupação de tempos livres para seniores Amélia Domingues trabalhou mais de vinte anos numa empresa fabril dos arredores de Lisboa até que, em 2006, descobriu uma nova motivação para a sua vida. Tudo começou quando os filhos de Amélia casaram e saíram de casa e ela se viu repentinamente só, num casarão com várias salas grandes e espaçosas mas inevitavelmente vazias Amélia não perdeu muito tempo até perceber que podia utilizar aquele espaço tornando-o rentável e satisfazendo, ao mesmo tempo, um velho sonho: criar um espaço onde pessoas idosas – seniores como ela gosta de dizer! – possam conviver durante o dia, aproveitando o seu tempo com actividades que as façam sentir úteis e válidas. Este espaço vai ter um orientador de actividades – trabalhos manuais, jogos, aulas de cerâmica, passatempos e outras actividades que se justifiquem. A questão agora é saber onde ir buscar os Clientes e que tipo de Clientes … Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 12 2006 Clientes 13 Estratégia Mahatma Gandi disse um dia: “O Cliente é o nosso mais importante valor. Ele não depende de nós, somos nós que dependemos deles, ele não é uma interrupção no nosso trabalho, ele é a sua razão de existir, ele não é alguém exterior ao nosso negócio, é uma parte dele e nós não fazemos qualquer favor em servi-lo mas é ele que nos privilegia com a oportunidade de o servir.” Atrair o cliente – uma preocupação antiga Ainda que de forma muitas vezes inconsciente, desde sempre os comerciantes e os fabricantes de produtos procuraram destacar as características dos seus produtos e serviços junto dos seus Clientes. A lápide na imagem abaixo assinalava um talho em Pompeia há mais de 2.000 anos. O comerciante procurava, desta forma, chamar a atenção dos seus Clientes para a sua casa comercial, destacando os produtos que vendia. Na verdade, a preocupação de atrair Clientes existe desde que existem trocas comerciais. Desde sempre os empresários e comerciantes souberam que era necessário atrair e manter Clientes para poder manter vivo o negócio e pensaram em formas de captar a sua atenção fazendo com que eles comprassem mais. A ideia de que são os Clientes que decidem o futuro de qualquer negócio é, portanto, antiga. O termo “marketing” – actualmente tão utilizado – tem, afinal, as suas raízes em épocas longínquas. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 14 Mas se esta preocupação com o Cliente é tão antiga, o que mudou entretanto? Mudaram as técnicas e as ferramentas que são utilizadas para levar o Cliente a comprar, mudouse a orientação do negócio fazendo do Cliente um fim e não um meio. De uma perspectiva tradicional de ver os negócios e os Clientes, passámos para uma abordagem de mercado absolutamente centrada no Cliente, em que tudo na empresa é pensado em função do que este quer, do que precisa, do que gosta e do que o atrai. De uma forma muito simples, as empresas e organizações têm vindo a perceber que o Cliente compra apenas o que quer e gosta e não é obrigado a fazer nada contrariado nem a visitar um ponto de venda se não vir nisso alguma vantagem para si. Confirme, na Figura 1, as principais diferenças ocorridas nos negócios nas últimas décadas: Figura 1 – Da abordagem tradicional de negócio para uma perspectiva de marketing Como se abordava o mercado tradicionalmente Como se procura fazer actualmente, numa perspectiva de Marketing A importância era dada ao produto e o Cliente tinha que comprar o que as empresas queriam produzir O mais importante é o Cliente. As empresas preocupam-se com as necessidades dos Clientes e produzem o que ele realmente quer comprar Vende-se o que se produz Pesquisa-se o que o Cliente quer e produz-se o que ele quer O negócio era visto numa perspectiva de curto-prazo. O importante era levar o Cliente a comprar no momento Maior preocupação com o médio e longo prazo. Procura-se manter o Cliente para o futuro e não apenas no momento As empresas eram muito voltadas para si próprias. O lucro era o seu principal objectivo A mentalidade está mais virada para o mercado e para a satisfação de necessidades dos Clientes Todos os Clientes eram abordados de igual modo Procura-se segmentar o mercado total e definir a parte que se pretende atingir, elaborando um plano específico para cada segmento Não se estudava o mercado nem as características envolvente do negócio A empresa procura adaptar-se ao meio em que está e produz ou comercializa produtos e serviços que sejam desejados Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 15 Como pode ver-se por esta evolução, a principal característica das empresas actuais é a orientação total para a sua razão de ser – o Cliente. Esta preocupação total com o Cliente como eixo orientador do negócio é independente da dimensão do mesmo. Na verdade é, por vezes, até mais fácil conhecer bem os Clientes em negócios de pequena dimensão. Outro aspecto importante é que a orientação para o Cliente também não é exclusiva de alguns sectores de actividade. Todos os negócios, independentemente da sua natureza, têm em comum esta característica – precisam de Clientes, sejam eles pessoas individuais ou Clientes empresariais. Propomos-lhe que siga alguns passos muito simples que o vão ajudar a conseguir captar mais Clientes e, assim, rentabilizar o negócio que escolheu. Defina o seu Mercado Se está a consultar este manual, muito provavelmente já tem ou estará prestes a ter o seu próprio negócio. O que significa que, por esta altura, a decisão sobre a área de actividade em que vai trabalhar já estará tomada. Pode ser que a decisão de trabalhar com o produto A, com a marca B ou serviço C se deva a uma vocação especial ou a um gosto particular pelo sector, ou pode ser que lhe tenha surgido na vida uma oportunidade irrecusável ou até que esse negócio seja uma espécie de herança de família. Pouco importa! O que é mesmo importante é que o sucesso deste seu projecto depende muito de saber responder a duas questões básicas: Quais são as necessidades que o seu produto ou serviço vai resolver? Que pessoas serão os seus Clientes potenciais? Porque são importantes as respostas a estas perguntas? Porque, como vimos, qualquer negócio deve ser orientado do ponto de vista dos Clientes, do que eles querem, do que precisam, do que gostam, das suas necessidades. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 16 Orientar todos os aspectos de um negócio para os Clientes – desde o tipo de produtos ou serviços a vender, o respectivo preço, o tipo de comunicação a fazer e os sítios onde os produtos podem ser encontrados – é uma espécie de ‘filosofia’ de negócio a que chamamos Marketing e que utiliza determinadas ferramentas e técnicas. Começando por uma questão fundamental para poder orientar os produtos e serviços no sentido das necessidades de quem os vai comprar. Que necessidades o seu produto ou serviço vai resolver? Vamos por partes. Se calhar, a resposta à questão “Que necessidades o seu produto ou serviço vai resolver?” parece-lhe demasiado óbvia. À primeira vista, uma padaria tenderá a satisfazer a necessidade de adquirir pão e bolaria, uma oficina de automóveis servirá para resolver a necessidade de arranjar o carro ou tratar da sua manutenção, da mesma forma que um serviço de babysitting soluciona os problemas dos pais que não têm a quem deixar os filhos. Mas será assim tão simples? E se uma padaria optar por vender vários tipos de pão cozidos em forno de lenha e fabricar bolaria caseira? E se passar também a servir chocolate quente? E se cozer pão várias vezes ao dia para que possa haver mais vezes pão quente? E se optar por um horário de funcionamento mais alargado? E se tiver serviço de encomendas por telefone e serviço de entregas? O essencial do negócio continua, naturalmente, a passar pelo fornecimento de pão mas as necessidades resolvidas são já mais abrangentes. Como mostra a Figura 2, na página seguinte. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 17 Figura 2 – Muito mais do que simplesmente vender pão Serviços “extra” Benefícios para os Clientes Vender pão cozido a lenha e bolos caseiros Comer saudavelmente e comida mais saborosa Vender chocolate quente Poder acompanhar o pão ou o bolo com uma bebida saborosa e reconfortante Cozer pão várias vezes ao dia Ter mais vezes a possibilidade de comprar pão quente Praticar um horário alargado Maior conveniência; mais tempo para poder ir à loja Serviço de encomendas e entregas Poupança de tempo Que pessoas serão os seus principais clientes? O tipo de pessoas que virão a ser seus Clientes depende, naturalmente, da natureza do seu negócio. Contudo, se a padaria se limitar a vender pão “normal” num horário “normal” e com os serviços mínimos de uma loja deste tipo, terá como Clientes as pessoas que se limitam a comprar pão e que não esperam ser surpreendidas com oferta de outros serviços extra. Ou seja, provavelmente as donas de casa sem outra ocupação profissional, para quem o pão é apenas um bem de 1ª necessidade. Por outro lado, a padaria que oferece serviços e produtos mais alargados vai atrair mais Clientes e especialmente outro tipo de Clientes: pessoas que têm horários diferentes, que valorizam a diversidade e alimentação saudável ou pessoas que, não podendo ou não querendo deslocar-se à loja, sabem que podem comprar sem sair de casa. Para conhecer realmente o seu mercado e os clientes a captar, é importante saber responder às seguintes perguntas cujas respostas desenvolveremos ao longo do presente manual (Figura 3): Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 18 Figura 3 – Como conhecer o mercado onde desenvolve a sua actividade 1 – Quem constitui o mercado? Que características têm os clientes potenciais do meu produto e como se podem segmentar? 2 – O que compra? Que produtos/serviços preferem? 3 – Quando compra? Em que circunstâncias compram? 4 – Porque compra? Quais as razões de compra deste produto/serviço? Que necessidades resolvem? 5 – Como compra? Como é decidida a compra deste produto/serviço? 6 – Quem participa na compra? Quais são os intervenientes neste processo de decisão? Existem influenciadores? 7 – Onde se compra? Quais os pontos de venda preferidos pelos clientes? Porquê? Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 19 Recomendações para a Acção Acções Sugestões Como aumentar as hipóteses de o meu negócio ser bem sucedido? Oriente todos os aspectos do negócio – desde o produto ao local de venda – em função do cliente. Como ter a certeza de que o produto/serviço com que trabalho é o certo para o cliente? Raciocine em função das motivações de compra dos clientes e não esqueça que uma compra tem sempre um lado emocional que vai muito para além da 1ª necessidade que o produto satisfaz. Que tipo de clientes o meu negócio pode atrair? Depende muito das características da sua oferta e da forma como o cliente valoriza os extras que lhe oferece. Uma oferta básica, sem qualquer serviço complementar, atrairá apenas pessoas que não estão dispostas a gastar um cêntimo extra. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 20 2006 Clientes 21 Solução para o Cenário Se pretendermos aplicar ao caso concreto do Centro de Ocupação de tempos livres para seniores o raciocínio anterior, devemos interrogar-nos sobre: - Quais são os planos de ocupação para este espaço sénior? Trata-se de um conceito semelhante a um lar de idosos? Trata-se de espaço para convívio e realização de actividades criativas e de entretenimento? Inclui refeições? Está aberto ao fim de semana ou apenas nos dias úteis? Qual é o período de funcionamento? Inclui assistência médica para os utentes? Terá um acordo com a Segurança Social? O público que este espaço poderá captar depende, naturalmente, da caracterização da oferta de serviço e marcará a diferença entre atrair idosos passivos deixados pelos familiares que não podem acompanhá-los ou pessoas seniores que procuram uma ocupação válida e gratificante pessoas que ainda não desistiram de viver. Quem vão ser, então, os Clientes mais prováveis deste espaço sénior? Se o espaço se assemelhar a um vulgar centro de dia de 3ª idade, então ele estará a concorrer com todas as organizações que oferecem esse serviço e atrairá pessoas que reconhecem no serviço apenas uma vantagem de proximidade ou de preço. Se, em contrapartida, a proposta for de entretenimento e aprendizagem com vigilância médica e horário alargado, este negócio terá condições para atrair outro tipo de Clientes com ambições de vivência de novas experiências, ou pessoas cujos familiares reconhecem nesta proposta uma oferta apetecível e motivadora para o pai ou sogra que vive com eles. A questão fundamental em qualquer negócio é saber se o empresário se vai limitar a ter um negócio “normal” ou pretende avançar uns metros mais à frente na linha de partida para não se arriscar a perder a corrida da competitividade. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 22 2006 Clientes 23 Exercícios para Resolver Exercício 1 - Cenas da vida diária – Novas tendências do mercado São 7 e meia da tarde e Joana Sá, uma mãe de família e profissional, já conduz há uma hora na auto-estrada. Está a chegar a casa vinda do trabalho e aproxima-se o período mais difícil do dia – a altura em que toda a gente disputa a sua atenção. Os filhos querem que lhes preste atenção depois de terem estado na escola todo o dia, o marido quer falar-lhe sobre algo importante que surgiu, o telefone toca e até o cão está a ladrar. Se tivesse gato estaria provavelmente a arranharlhe as pernas. Como é que alguém já fatigado como Joana pode conciliar todas estas exigências simultâneas? É altura para encomendar o jantar pelo telefone. Enquanto esta dona de casa passa algum tempo com a família, este oportuno serviço prepara-lhe um jantar apetitoso e traz-lho a casa. Repousada e jantando em casa, ela pode evitar o cansaço de ter de cozinhar ou sair com os miúdos para outra noite de comida rápida. E depois do jantar, Joana pode sentar-se com a família e ver um filme de vídeo trazido a casa pelo serviço móvel de aluguer de filmes de vídeo. O jantar encomendado desta forma custa mais 20% do que uma refeição típica num restaurante; o aluguer do vídeo custa 1/3 mais. Valem a pena? Para Joana, que se descalça e afunda no sofá, certamente parece que sim. Imagine esta cena repetida em centenas de lares todas as noites. Milhares de outros adultos como Joana têm que fazer face a uma lista de tarefas diárias que parece interminável. Tem que levar o carro a arranjar, deixar roupa a limpar na lavandaria, renovar a carta de condução, chamar alguém para reparar a máquina de lavar louça... A lista parece não ter fim. Como e que podem ter um emprego e ainda atender a todas estas exigências? Traduzido e adaptado de Kotler, P. e Armstrong, G. Principles of Marketing, 6ª Ed., Prentice-Hall,1994 Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 24 A partir deste texto e de outras situações suas conhecidas, responda às seguintes questões: a) O que mudou no estilo de vida das pessoas que influencia significativamente o seu modo de consumir e comprar? b) Que novas necessidades surgiram entretanto no mercado devido a esta alteração de estilos de vida? c) Que novos produtos e serviços surgem no mercado para satisfazer estas novas necessidades? Exercício 2 - Necessidades e Clientes Muitas das nossas necessidades não são óbvias nem de simples resolução. Por vezes, não se resolvem com aquisição de bens de primeira necessidade. Imagine o caso de Helena que decidiu deixar o emprego de caixa num supermercado para se lançar num outro projecto: trabalhar numa organização sem finalidades lucrativas destinada à inclusão social de pessoas desamparadas (estrangeiros, desempregados e minorias étnicas e outros desfavorecidos). a) Que necessidades está Helena a resolver com esta decisão na sua vida? b) Que tipos de necessidades serão resolvidas com as acções sociais a que Helena se vai dedicar? Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 25 Capítulo 2 – Segmentar o Mercado e Definir a Concorrência Objectivos de Aprendizagem do Capítulo No final deste capítulo, os formandos deverão estar aptos a: A partir do exemplo concreto da criação de uma empresa de engomadoria, saber operacionalizar os conceitos de segmentação e escolha do segmento-alvo e identificação da concorrência; Saber como segmentar o mercado utilizando os critérios mais adequados, em função da natureza do negócio; Saber como identificar o segmento de mercado a atingir; Identificar e obter informação sobre a concorrência (directa e indirecta); Perceber de que forma o negócio pode ser afectado pela concorrência. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 26 2006 Clientes 27 Cenário Defina a parte do mercado total que pretende atingir Tomemos agora como exemplo o caso de Adelaide e da sua empresa de serviços de engomadoria e tentemos analisar as características do mercado de possíveis compradores destes serviços. Cenário 2 - Engomar é fácil Adelaide Franco sempre quis ter um negócio e ser empresária. Mesmo sem grandes estudos, Adelaide é uma mulher prática e empreendedora e tem a noção de que a realidade actual tem necessidades diferentes das de antigamente. Ela sabe, por exemplo, que as mulheres de hoje têm cada vez menos tempo para as tarefas domésticas, que bem precisam de ajuda e estão dispostas a comprar fora esses serviços. Por isso, ela decidiu criar uma pequena firma de engomadoria, aproveitando aquilo que ela bem sabe fazer. Não precisou de um grande investimento e sabe que agora só precisa de saber quais vão ser os seus Clientes, já que este tipo de serviço não serve a todas as pessoas. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 28 2006 Clientes 29 Estratégia Na maioria dos mercados, é quase impossível satisfazer todos os compradores com um produto ou serviço. Sendo os compradores diferentes, eles têm interesses e desejos diversos, hábitos de compra distintos mas principalmente necessidades e expectativas diferentes relativamente aos produtos e serviços oferecidos. É por estas razões que qualquer negócio tem que (Figura 4): identificar, dentro do seu mercado total, os grupos existentes em função de vários critérios; definir exactamente a ‘fatia’ do mercado que quer captar; seleccionar qual é o aspecto ou característica do negócio que permitirá diferenciá-lo dos seus concorrentes; desenvolver um plano de marketing adaptado ao segmento de mercado que escolheu. Figura 4 – Segmentação escolha do público-alvo 1 Análise de segmentação 2 Escolha do segmento-alvo Escolha do aspecto diferenciador 3 Desenvolvimento 4 um plano de marketing adaptado ao segmento-alvo A primeira etapa designa-se por Segmentação do mercado. Trata-se de definir o mercado em vários segmentos (grupos com características comuns). Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 30 Eis algumas maneiras de o fazer: Tendo por base as características descritivas dos públicos Este critério de segmentação, também designado de segmentação sócio-demográfica, consiste em dividir o mercado em grupos semelhantes segundo critérios de sexo, idade, rendimento, localização geográfica, dimensão da respectiva família, nível de estudos ou segundo a sua ocupação profissional. Naturalmente que nem todos estes aspectos têm igual interesse para todos os negócios. Numa análise de segmentação descritiva, o comportamento dos consumidores é descrito tendo como referência uma ou mais destas variáveis. Por exemplo, no sector do vestuário, o mercado é frequentemente dividido por sexo e faixas etárias. Falamos de roupa feminina, roupa para homens, para jovens ou para crianças. Por outro lado, a oferta de serviços de institutos de beleza ou de cabeleireiros destina-se maioritariamente a mulheres, enquanto o negócio de serviços de lazer é, muitas vezes, concebido em função da ocupação profissional e estatuto social dos destinatários. É assim que alguns clubes de golfe ou cortes de ténis têm como principais clientes profissionais liberais e grandes empresários sócios desses clubes. Assistimos recentemente a um importante desenvolvimento da oferta de produtos e serviços para seniores (como condomínios para pessoas com mais de 65 anos) e para mulheres trabalhadoras com pouco tempo livre – refeições pré-cozinhadas, fastfood, etc… Este método de análise de segmentação que utiliza características distintivas é dos mais utilizados por ser fácil obter informação. Esta informação económica e social está acessível nas fontes oficiais, como o Instituto Nacional de Estatística (INE), e organizações ligadas à Segurança Social e ao poder local. Algumas das alterações verificadas nos últimos anos têm impacto ao nível do comportamento do consumidor e, naturalmente, também ao nível das características descritivas e as respectivas consequências em alguns negócios (Figura 5). Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 31 Figura 5 - Tendências verificadas e sua influência na segmentação descritiva Tendências Redução da taxa de natalidade Influência no comportamento do consumidor Influência nos negócios Menos crianças a nascer significa menos compras em produtos e serviços destinados a bebés e crianças Menor necessidades de creches e jardins-de-infância Menos procura de alimentação e vestuário para criança Aumento da esperança de vida Porque as pessoas morrem cada vez mais tarde, há necessidade de responder às necessidades dos idosos Aumento do número de mulheres a trabalhar Menos tempo livre e menos tempo para tarefas domésticas Produtos semi-fabricados, microondas, creches e colégios com horários alargados, fastfood, serviços de engomadoria, limpezas, entregas ao domicílio, consumo fora de casa Avanço na idade do casamento As pessoas casam cada vez mais tarde e as famílias têm filhos dependentes até mais tarde Repercussão na alimentação, despesas correntes, educação, vestuário… Famílias monoparentais (filhos a viver com apenas um dos pais) A alteração na estrutura das famílias implica redimensionar o número e tipo de compras Valoriza-se o serviço e a relação pessoal com o vendedor Maior tendência para consumir fora de casa (restauração, por exemplo) Aumento global do poder de compra Maior tendência para consumir, especialmente bens que não de 1ª necessidade Maior apetência para consumir Maior frequência nas lojas Aumento global do consumo, sobretudo de bens considerados não essenciais (entretenimento, beleza, lazer...) Compras feitas fora dos grandes centros urbanos Desenvolvimento de novos conceitos de comércio de média dimensão fora das cidades Desenvolvimento de zonas residenciais fora dos centros urbanos Preferem-se os formatos de comércio com um maior nível de serviço (entregas, etc...) Desenvolvem-se serviços de entregas em casa e de cuidados com a saúde Aumento de venda de produtos para idosos, medicamentos, alimentação ligeira, lares, centros de dia, assistência médica Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 32 Figura 5 - Tendências verificadas e sua influência na segmentação descritiva (continuação) Tendências Novos hábitos alimentares Desenvolvimento tecnológico Influência no comportamento do consumidor Maior preocupação com a alimentação saudável Grande apetência por produtos informáticos e novas tecnologias Influência nos negócios Refeições mais ligeiras Apetência por produtos e conceitos estrangeiros Maior apetência por produtos genuínos e naturais Novos hábitos de compra (internet); Aumento de informação concorrencial; Desenvolvimento de produtos e serviços tecnológicos (telemóveis, aparelhagens de som e de imagem, informática...) Dispersão da atenção dos consumidores por diferentes meios; Aumento da procura de computadores, DVD, jogos, iPods… Tendo por base as vantagens procuradas Segundo esta análise de segmentação, a vantagem que o comprador procura numa compra é o factor explicativo que é necessário identificar. Na verdade, duas pessoas podem ter o mesmo perfil descritivo (a mesma idade, o mesmo sexo e até o mesmo nível de rendimento) mas terem valores muito diferentes. Um deles, quando tem que substituir o seu velho televisor escolhe um dos modelos mais baratos porque, para ele, o importante é que se veja bem as imagens enquanto outro pode querer comprar o modelo mais caro da loja porque valoriza o aspecto estético do aparelho e faz questão de ter o último modelo. Por outras palavras, no 1º exemplo o comprador procura a vantagem ‘economia’ enquanto que na 2ª situação, o comprador deu preferência às vantagens ‘duração’ e ‘qualidade’ e ao ‘lado simbólico’ da compra. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 33 O que distingue cada um destes segmentos é a importância atribuída a cada característica do objecto comprado (no caso concreto, preço, qualidade, duração e aparência exterior). Tendo por base as características do comportamento de compra Uma terceira possibilidade de análise de segmentação do mercado refere-se ao comportamento de compra. Chamamos-lhe segmentação comportamental e pode ter em consideração os seguintes aspectos: 1 – O estatuto do utilizador Podemos distinguir entre utilizadores regulares, utilizadores ocasionais e não utilizadores, por exemplo. No caso da compra de uma máquina fotográfica, o comprador tenderá a comportar-se diferentemente se se tratar de um fotógrafo regular e apaixonado por fotografia, situação em que escolherá talvez um dos modelos digitais mais avançados; se for um fotógrafo ocasional que apenas utiliza a máquina nas férias ou em viagem, ele poderá adquirir uma máquina mais simples e económica, enquanto que para uma criança, os pais provavelmente comprarão uma máquina mais barata, eventualmente uma máquina descartável. 2 – A fidelização ao produto ou à marca Os Clientes de compras repetidas não têm todos os mesmo nível de lealdade a um produto ou serviço ou à respectiva marca ou até ao ponto de venda. Na realidade, para um mesmo serviço – um corte de cabelo, por exemplo – haverá quem faça questão de ir sempre ao mesmo barbeiro ou cabeleireiro e quem prefira experimentar novos locais. O mesmo se passa relativamente aos novos produtos lançados no mercado. Há consumidores que experimentam tudo o que há de novo, por uma questão de curiosidade e para se manterem a par das novidades e existem outros que apenas muito dificilmente deixarão a sua marca de sempre. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 34 3 – A sensibilidade ao preço ou a promoção de vendas Certos Clientes são muito sensíveis ao preço dos produtos ou serviços e não hesitam em mudar de loja ou de marca se puderem poupar com isso algum dinheiro. Da mesma forma, há Clientes que aproveitam todas as promoções disponíveis na loja, comprando os produtos que se encontram em promoção. Por outro lado, outros consumidores há que dão preferência à comodidade e não estão dispostos a arriscar uma alteração cujos resultados desconhecem. 4 – Tendo por base os estilos de vida dos Clientes (as suas actividades, interesses e opiniões) Este tipo de segmentação assenta no princípio de que compradores muito diferentes em termos de idade, sexo, profissão o rendimento podem, ainda assim, ter interesses parecidos. Assim, o desejo de comprar alguns produtos e serviços pode variar: Ao nível dos valores individuais – uma pessoa para quem a segurança e a estabilidade futura constituam grandes preocupações, procurará mais facilmente fazer seguros de vida para si e seus familiares do que outra pessoa que não esteja tão preocupada com o futuro; Ao nível das actividades e interesses pessoais – um grande apaixonado por futebol ou por um clube em particular, poderá adquirir produtos licenciados por esse clube ou até realizar viagens caras para acompanhar a equipa nas suas deslocações fora, por exemplo, enquanto que alguém que não goste deste desporto poderá considerar uma tal viagem como um desperdício de dinheiro. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 35 Conhecer a concorrência Se os Clientes são o factor de sucesso de qualquer negócio, é importante não perder de vista que eles não têm consigo qualquer contrato de exclusividade e que há muitas outras organizações com propostas semelhantes à sua, procurando conquistar os mesmos Clientes. Por isso, se é muito importante saber quem poderão vir a ser os seus Clientes, não é menos importante identificar quais são as outras organizações que oferecem produtos ou serviços iguais aos seus. A palavra de ordem em qualquer negócio é “Mantenha a concorrência debaixo de olho”. No sentido mais abrangente do termo, designamos por Concorrência O conjunto de organizações que oferecem produtos ou serviços que possam ser alternativos aos de uma organização, satisfazendo as mesmas necessidades. Nesta perspectiva, um refrigerante de fruta ou a garrafa de água que bebemos na esplanada do café concorrem com a cola ou a cerveja que poderíamos ter bebido. Numa visão mais restrita, a concorrência directa refere-se aos produtos ou serviços da mesma categoria dos nossos e que representam, para o Cliente, alternativas lógicas. Assim considerando, a marca de refrigerante de fruta estará a competir, não tanto com a água ou com a cerveja mas com todos os outros refrigerantes de fruta. Do mesmo modo, a Coca-Cola que pediu ontem no restaurante concorre directamente com a Pepsi-Cola que não escolheu. Na verdade, é importante não apenas ter em consideração a concorrência directa (que mais o deve preocupar) mas também a concorrência indirecta que pode servir de alternativa de substituição dos nossos produtos e serviços aos olhos do Cliente. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 36 2006 Clientes 37 Recomendações para a Acção Acções O que devo fazer para Sugestões Não é possível chegar a todos os Clientes possíveis. Utilize atrair o máximo número de os critérios mais adequados ao mercado e actividade em que clientes? trabalha e segmente o seu mercado. O que devo fazer depois de Identifique o(s) segmento(s) com os quais vai querer repartir o mercado em trabalhar e elabore o seu plano de acção orientando-o em segmentos? todos os aspectos para as características desse grupo de Clientes. Que preocupações devo ter com a concorrência? Mantenha a concorrência debaixo de olho. Considere as alternativas mais directas ao seu negócio mas não esqueça todas as outras alternativas que possam satisfazer as mesmas necessidades. Como posso analisar a concorrência? Identifique as diferenças e as semelhanças entre a oferta da concorrência e a sua oferta, considerando os seus pontos fortes e fracos e recolha toda a informação possível sobre a concorrência (preços, horários, Clientes…) porque só conhecendo-a poderá enfrentá-la. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 38 2006 Clientes 39 Solução para o Cenário Voltemos, agora, a Adelaide e à sua engomadoria. Como poderá esta pequena empresária segmentar o seu mercado? Que critérios de segmentação farão mais sentido neste caso? Retomemos os critérios apresentados acima. Análise descritiva De acordo com uma análise descritiva, Adelaide irá procurar as características que definem o público em termos de idade, sexo, rendimento familiar, etc.. Por exemplo, como explicita a Figura 6. Figura 6 – O público –alvo potencial da engomadoria de Adelaide Sexo Idade Rendimento familiar Dimensão da família Ocupação profissional Mulheres Homens 20 – 40 anos Mais de 40 anos Até 1.500 € mensais Mais de 1.500 € mensais 1 a 3 pessoas Mais de 3 pessoas Sem ocupação Domésticas Trabalhadores por conta outrem Ao seleccionar os seus Clientes segundo uma análise descritiva, Adelaide irá certamente pretender como Clientes mulheres de diversas idades, com rendimentos familiares superiores a 1.500€ mensais, com famílias numerosas e que preferencialmente trabalhem fora de casa, já que este perfil maximiza as hipóteses de o cliente procurar e poder pagar este tipo de ajuda doméstica. Será este o perfil das pessoas que mais facilmente se tornarão Clientes de um serviço de engomadoria. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 40 Análise por vantagens procuradas A este nível de segmentação, os potenciais compradores dos serviços de engomadoria poderão valorizar, entre outras possibilidades, as seguintes vantagens: preço baixo; rapidez de serviço; perfeição na execução da tarefa; serviço de recolha e de entregas ao domicílio; flexibilidade de horário de entregas; outros serviços complementares, como costurar uma baínha descosida, um botão em falta ou lavar uma peça com nódoas. Deste modo, a empresa de engomadoria de Adelaide terá de optar por oferecer apenas os serviços mínimos ou complementar a sua oferta com outros serviços que, não sendo essenciais, podem ser diferenciadores, como ter serviço de entregas, possibilidade de serviços urgentes, etc... Análise por comportamento de compra No que se refere à segmentação por comportamento de compra, Adelaide poderá distinguir, entre os seus possíveis Clientes: pessoas que utilizarão os seus serviços apenas ocasionalmente quando, por qualquer motivo pontual, não tiverem disponibilidade para esta tarefa doméstica; clientes regulares que não têm tempo para estas tarefas ou que, simplesmente, preferem comprar fora este serviço e disponibilizar esse tempo para a família e para outras actividades. Por outro lado, Adelaide há-de perceber que alguns Clientes tenderão a continuar a utilizar os seus serviços ao longo do tempo, enquanto outros poderão querer experimentar outras ofertas de serviço ou até contratar alguém que lhes execute esta tarefa (e outras) na sua própria casa. Ao ter que seleccionar um ou mais segmentos, Adelaide ira certamente preferir captar Clientes que utilizem o serviço regularmente, todos os meses, e que se mantenham fiéis. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 41 Análise por estilos de vida Finalmente, ao pretender analisar o mercado segundo os estilos de vida dos compradores deste serviço, Adelaide irá constatar que algumas pessoas têm tendência a contratar estes serviços porque acreditam que o tempo dedicado à família ou ao lazer é mais importante do que o tempo dedicado às tarefas domésticas (em função do seu estilo de vida!). Por outro lado, também há Clientes que apenas compram este serviço porque simplesmente não têm tempo para engomar embora preferissem fazê-lo. E por que motivo é importante que Adelaide Franco conheça todos estes possíveis segmentos de Clientes? Simplesmente porque, ao escolher para seus Clientes preferenciais, pessoas com este perfil: mulheres com família numerosa com ocupação profissional com um nível de rendimentos mensais que lhes permitam comprar este serviço conscientes de que podem dar ao seu tempo uma melhor utilização do que com tarefas domésticas que podem comprar fora, Adelaide maximiza as possibilidades de ter Clientes fiéis e regulares. Para que tal aconteça, a empresa de engomadoria terá que: Seleccionar uma ou mais características diferenciadoras dos seus serviços que os possam distinguir dos da concorrência e, em seguida, Elaborar um plano que lhe permita atrair o segmento de Clientela pretendido. Assim, se esta empresária pretende atrair uma Clientela feminina preferencial que privilegia a flexibilidade de horário de entregas, porque trabalha fora e tem pouco tempo disponível, a oferta destes serviços poderá caracterizar-se da seguinte forma: Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 42 Ao nível do serviço: pela existência de serviços complementares (rapidez, serviços extra, horários extensíveis para recolha e entrega de roupas, etc...). Adelaide pode ainda definir quantidades mínimas mensais; Ao nível do preço: é possível considerar vários escalões de preço em função das quantidades (e que ficarão unitariamente mais baratos quanto maior for a quantidade de peças), ou preços diferenciados em função da rapidez de resposta, (o que permitirá a Adelaide planear melhor o seu trabalho), descontos em função do nível de utilização semestral ou trimestral, por exemplo. Ao nível da comunicação: Adelaide deverá procurar salientar os argumentos de venda que correspondem aos valores mais valorizados pelos Clientes e que vão ao encontro do seu comportamento de compra. Por exemplo, é possível fazer acompanhar as entregas ou a factura mensal de um folheto onde se salientarão as várias modalidades de serviços, preços, horários de entrega, aspectos que devem ser associados ao tempo que a família ganhará. Uma frase do tipo “Para que o seu precioso tempo livre não tenha que ser desperdiçado com quem não é capaz de sorrir e agradecer-lhe! (referência a um rosto de criança que sorri).” Orientar toda a oferta de produtos/serviços, preços e comunicação em função dos desejos e necessidades dos Clientes é o objectivo de um Plano de Marketing. No que se refere à concorrência, a empresa de engomadoria de Adelaide está a concorrer com outras entidades (Figura 7, página seguinte): Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 43 Figura 7 – Concorrência e aspectos a considerar Concorrência directa Outras Semelhanças e diferenças face à oferta de Adelaide empresas ou particulares com a mesma oferta Donas de casa que realizam esta tarefa Empregadas das donas de casa no domicílio Oferta muito semelhante com eventual diferença de preço Concorrência indirecta Semelhanças e diferenças Lavandarias O que saber destas entidades? Condições (tempo, preço, quantidades...) Maior esforço, indisponibilidade para outras tarefas domésticas Possibilidade de acumular outras tarefas domésticas Acumula com serviço de O que saber destas entidades? Preços lavagem Mais caro Serviço menos utilizado para a totalidade da família Cada uma das alternativas à empresa de engomadoria tem naturalmente pontos fortes e fracos que os distinguem ou aproximam desta empresa, o que significa que Adelaide terá que analisar bem a sua concorrência para poder diferenciar positivamente a sua oferta de serviço. As fontes de informação sobre a concorrência variam de caso para caso mas grande parte da informação está disponível no mercado bastando estar atento a ela. Procure informação sobre a sua concorrência: nos Clientes (actuais e antigos) na comunicação social no comércio local na internet nas páginas amarelas nas conversa pessoais nas revistas de especialidade Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 44 2006 Clientes 45 Exercícios para Resolver Exercício 3 - Análise concorrencial Proceda a um diagnóstico de análise da concorrência (directa e indirecta) e respectivas tendências do mercado para os seguintes negócios: a) Venda pessoal de produtos de beleza naturais b) Quiosque de venda jornais c) Criação de páginas de Internet Exercício 4 - Clientes potenciais Como podem ser identificados os potenciais clientes e que critérios de segmentação de mercado poderão ser utilizados? a) Num negócio de angariação de seguros de vida, b) Numa banca de fruta no mercado local? Que clientes se poderão atrair? Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 46 2006 Clientes 47 Capítulo 3 – Definir a Área de Atracção do Negócio e Avaliar o Respectivo Potencial Objectivos de Aprendizagem do Capítulo No final deste capítulo, os formandos deverão estar aptos a: A partir do exemplo de uma loja de desporto radical, concretizar os conceitos de zona de atracção e identificação do potencial de negócio; Saber como definir as zonas de atracção do negócio (primária, secundária e terciária); Conhecer de que forma a zona de atracção pode influenciar o potencial do negócio; Conhecer a saber utilizar as formas de cálculo do potencial de um negócio; Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 48 2006 Clientes 49 Cenário Calcule a área de atracção do seu negócio De acordo com a natureza do seu negócio, a concorrência instalada e a dimensão da sua empresa e da respectiva capacidade produtiva (ou da dimensão do seu ponto de venda), uma empresa tem uma determinada capacidade de atrair Clientes. Vamos, agora, conhecer o caso da loja de desporto radical na zona da Ericeira. Cenário 3 – Uma loja radical Rui e José são surfistas desde pequenos. Para eles, nada se compara ao contacto com o mar, com as ondas, o sol, a natureza. Trabalhar num escritório está totalmente fora de questão para estes dois amigos. Completados os estudos, Rui e José logo pensaram em obter um empréstimo para abrir uma loja de desporto radical. Os seus principais artigos serão pranchas e fatos de surf e bodyboard mas também produtos e roupa para montanhismo e vestuário e calçado desportivo. “Ser radical está na moda” – dizem estes dois amigos. Basta ver a quantidade de novos praticantes e de escolas de surf que nascem nas praias portuguesas. O problema é que o resultado de um negócio é sempre uma incógnita. Qual será o potencial desta pequena loja na zona da Ericeira, um dos locais de excelência para a prática de desportos náuticos? Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 50 2006 Clientes 51 Estratégia O método mais habitual para definir as zonas de atracção do negócio consiste na construção de curvas de distância/tempo relativamente ao ponto de venda ou sede da empresa. Habitualmente definem-se três zonas: a zona primária – junto à loja, oficina ou local da empresa, e que atrai entre 50% a 70% dos Clientes do negócio; a zona secundária – zona intermédia de onde vêm 20% a 30% do total da Clientela; a zona terciária – mais afastada, responsável por 10% a 20% dos Clientes. A zona de atracção de um negócio varia com o tipo de compra; uma boa localização para uma oficina pode não ser o melhor sítio para um restaurante ou para uma tabacaria, onde os Clientes se deslocam habitualmente a pé. Como definir a sua zona de atracção? Uma boa ajuda para o cálculo da zona de atracção do seu negócio é começar por definir as zonas de atracção dos seus concorrentes mais directos, dentro da sua área, região ou localidade. Se o quiser fazer de forma rigorosa, aplique um pequeno inquérito aos seus já clientes ou aos clientes dos seus concorrentes, no caso de não ter ainda iniciado o negócio. Este inquérito deverá colocar os potenciais Clientes perante a questão: “Se abrir um negócio/uma loja com estas características (enumerar as principais características do seu negócio) a x metros da sua casa, com os serviços /produtos A e B, admite vir a ser cliente?”. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 52 Embora seja melhor fazer esta abordagem a partir de um pequeno estudo de mercado, é preferível fazê-lo apenas de forma intuitiva e recorrendo a opiniões de terceiros do que nada fazer, arriscando-se a situações não desejadas. Outro aspecto importante no cálculo da zona de atracção da empresa é ter em conta se se trata de uma zona maioritariamente residencial, onde a maioria das pessoas está ausente durante o dia, ou de uma zona de empregos, onde as pessoas fazem compras à hora do almoço. Avalie o potencial da sua Clientela A partir do momento em que estão identificadas as zonas de atracção, a fase seguinte consiste em determinar o potencial de negócio. Para determinar o potencial de negócio deverá seguir os seguintes passos: 1. identificar e quantificar os potenciais Clientes pertencentes aos segmentos-alvo, de acordo com a sua estratégia (por exemplo, para uma loja de produtos de ballet, serão apenas os respectivos praticantes, enquanto numa loja de vestuário masculino de topo de gama, serão os homens de classe média-alta e alta e numa tabacaria ou supermercado, todos os consumidores são potenciais Clientes); 2. avaliar a despesa média para os produtos da loja, junto do cliente-tipo identificado ( a despesa média de uma tabacaria poderá corresponder ao custo do jornal e do maço de tabaco enquanto que a compra média num restaurante pode rondar 7,5 €; 3. estimar a evolução de vendas na região (por exemplo, é habitual em sectores como o vestuário, os Clientes de classe alta e média-alta deslocarem-se das pequenas cidades, para fazerem as compras nas grandes metrópoles de Lisboa e Porto); 4. estimar a quota que a loja irá obter no 1º ano, e a uma velocidade de cruzeiro (a partir do 3º ano) no Cliente-tipo; 5. avaliar o potencial de vendas de cada zona de atracção, tendo em consideração a quota estimada em cada zona que depende, naturalmente, também da capacidade de atracção de lojas concorrentes, cujas zonas primárias vão intersectar a zona primária e secundária da loja; 6. adicionar o potencial de vendas de cada zona para obter o potencial total. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 53 Recomendações para a Acção Acções Como posso identificar a Sugestões área de atracção do meu Identifique de onde vem a maioria dos seus Clientes. Pergunte, observe a concorrência, fale com as pessoas. negócio? Qual a importância de Conhecendo a área de atracção do seu negócio poderá centrar conhecer a área de esforços junto das pessoas que realmente lhe interessam. atracção? Dirija, por exemplo, a sua comunicação para a sua área de atracção primária pois ela é responsável por grande parte da sua clientela. Como calcular o potencial do negócio? Em qualquer negócio, é aconselhável calcular o potencial do seu negócio, a partir dos seus clientes-tipo e do seu potencial de compras. O que posso fazer quando Mesmo não possuindo toda a informação de que gostaria, é não tenho a informação preferível fazer cálculos aproximados do potencial do seu necessária para estes negócio através da sua intuição do que nada fazer. cálculos? Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 54 2006 Clientes 55 Solução para o Cenário Voltemos à loja de desporto radical. Para calcular o potencial de negócio, João e Rui deitam mãos à calculadora (Figura 8): nº de jovens (14 a 30 anos) nas zonas de atracção: 10.000 nº de jovens com apetência por desportos radicais: 4.000 (40%) compra média por Cliente/ano (equipamento e vestuário): 300 € Figura 8 – Exemplo de cálculo do potencial de negócio para a loja de desporto Zona de atracção Primária Nº total jovens potenciais clientes % de pessoas Nº de Clientes que se tornarão por zona clientes da loja % das compras totais feitas na loja em causa Potencial de vendas por zona (€ ano) 800 80% 640 80% 153.600 Secundária 1.200 30% 360 50% 54.000 Terciária 2.000 10% 200 20% 9.000 TOTAL 4.000 1.200 213.600 Pode ser que você pense que não é fácil realizar estes cálculos porque não tem informação suficiente e segura. No entanto, uma coisa é certa – é melhor ter alguma ideia sobre o potencial do seu negócio (mesmo que aproximado) do que nada saber e ser surpreendido por maus resultados logo no início do negócio. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 56 2006 Clientes 57 Exercícios para Resolver Exercício 5 - Descrever o mercado Descreva o mercado consumidor para livros técnicos procurando responder às seguintes questões: a) Quem constitui este mercado? b) O que compra? c) Quando compra? d) Porque compra? e) Como compra? f) Quem participa na compra? g) Onde se compra? Exercício 6 - Cálculo da zona de atracção Que factores se podem utilizar para calcular a zona de atracção de uma livraria situada num bairro da Baixa de Lisboa? Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 58 2006 Clientes 59 Capítulo 4 – O Processo de Decisão de Compra em compras de alto e baixo envolvimento e na Aquisição de Serviços Objectivos de Aprendizagem do Capítulo No final deste capítulo, os formandos deverão estar aptos a: A partir do exemplo dos serviços de uma babysitter, identificar as principais etapas de um processo de decisão de compra; Conhecer o papel e a influência dos diversos intervenientes no processo de compra; Conhecer os critérios para identificação de compras com um alto e um baixo nível de envolvimento do comprador e respectivo impacto no processo de compra; Identificar as principais diferenças no processo aquisitivo de produtos e de serviços, por forma a poder aproveitar essas diferenças para potenciar o negócio; Contextualizar a importância do factor “preço” num negócio, relativizando o seu impacto face a outras variáveis de negócio. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 60 2006 Clientes 61 Cenário Conheça como os Clientes decidem a compra dos produtos e serviços Uma compra é uma resposta para um ‘problema’ do consumidor, o reconhecimento de uma necessidade e inicia-se quando o cliente percebe uma diferença entre o seu estado actual (com fome) e um estado desejado (saciado). É altura de conhecermos o caso de Teresa e o seu sonho de trabalhar com crianças. Cenário 4 - A babysitter Teresa Antunes acabou há pouco tempo o curso de educadora de infância. Teresa sempre gostou de crianças e está feliz por poder trabalhar numa área de que tanto gosta. Ela está decidida a tomar contra de crianças e, para já, tenciona começar com os filhos das famílias do bairro que não têm normalmente quem lhes fique com as crianças, quer durante o dia, quer por vezes à noite quando querem sair. Mas Teresa sabe que tomar conta de crianças é tarefa de grande responsabilidade e que é preciso compreender como as pessoas tomam esta decisão de compra de serviços. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 62 2006 Clientes 63 Estratégia Quem intervém no processo de decisão de compra? Um aspecto importante a ter em conta do processo de decisão de uma compra é que os indivíduos podem assumir vários papéis neste processo, o que faz com que qualquer empresário tenha que avaliar correctamente a importância de cada pessoa na compra dos produtos ou serviços com que trabalha. Podemos, então, identificar no processo de decisão de compra, os seguintes papéis: Prescritor (também chamado iniciador): trata-se da pessoa que sugere o produto ou serviço e que pode ajudar a recolher informação necessária à decisão (por exemplo, experimentamos um restaurante ou pensamos em comprar uma determinada marca de automóvel por conselho de um familiar ou amigo); Influenciador: pessoa cujos pontos de vista podem influenciar a decisão (frequentemente, este papel é assumido pelos chamados líderes de opinião – pessoas com grande protagonismo público, de quem gostamos e em quem acreditamos). É o caso de algumas campanhas publicitárias que utilizam figuras públicas, como os bancos e companhias de seguros; Decisor: a pessoa que decide o que comprar, quando e onde. Não é obrigatório que seja também o consumidor ou o utilizador do produto. Normalmente este papel é desempenhado pela pessoa que paga (por exemplo, são os pais que decidem a escola de uma criança até determinada idade); Comprador: é a pessoa que efectua a compra, muitas vezes influenciado por outros. No caso dos produtos infantis, da alimentação para animais ou até em compras empresariais, é vulgar o comprador não ser o utilizador. Utilizador ou Consumidor: a pessoa que utiliza ou consome o produto e que pode influenciar compras futuras através da sua opinião (se, por exemplo, a família não gosta da nova marca de queijo que a dona de casa comprou, então é provável que ela não a volte a comprar). Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 64 Saber identificar que papéis são desempenhados no processo de compra de um produto ou serviço e quem os desempenha é um aspecto crítico para qualquer empresário, já que ele terá não apenas que convencer o comprador mas também chegar a todos os outros públicos envolvidos (influenciadores e utilizadores). Veja-se, por exemplo, o caso de produtos para crianças (brinquedos, cereais, etc…) onde a comunicação procura atingir simultaneamente as crianças utilizadoras e os pais, decisores e compradores. As etapas do processo de decisão de compra Existem várias teorias sobre o processo de decisão de compra de um produto ou serviço mas todas coincidem no facto de que um comprador passa por diversas etapas no seu processo de decidir o que e onde comprar. O processo de compra inclui cinco passos principais como mostra a Figura 9. Figura 9 – Etapas do processo de compra 1 Necessidade 2 3 Descrição da Necessidade 4 Procura da solução 5 Compra Comportamento Pós-compra 1ª Etapa: Verificar uma necessidade A sequência de etapas que leva à compra de um bem ou serviço desencadeia-se a partir do momento em que a pessoa verifica uma necessidade. O problema a resolver pode ser grande ou pequeno, simples ou complexo. Quanto mais intensa for a necessidade – a distância entre o estado actual e o estado desejado – e quanto mais esta necessidade perdurar, tanto mais forte será o impulso para o reduzir, através do comportamento de procura. Por exemplo, a força da necessidade de comprar leite porque o stock acabou pode tornar-se um problema mais premente do que comprar um casaco novo. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 65 Tipos de Necessidades As necessidades não são todas iguais. Uma necessidade é, simplesmente, uma exigência da natureza ou da vida social: as necessidades inatas nascem connosco e são inerentes à natureza do indivíduo (fome, sede, descanso). As necessidades adquiridas – culturais ou sociais – dependem da experiência ou das condições que nos rodeiam (preciso de um protector solar porque vou à praia, o sol está muito forte e sei que não devo ficar desprotegido!). Uma necessidade pode ser óbvia (preciso de um novo guarda-chuva porque perdi o outro) ou latente, isto é, ter despertado apenas por conselho de outros ou por força da comunicação publicitária de uma marca. Será o caso da necessidade de comprar o mais recente DVD que o seu filho lhe anda a pedir ou o último perfume muito publicitado no Natal. 2ª Etapa: Descrição geral da necessidade A segunda etapa do processo que leva à compra corresponde a uma descrição geral da necessidade e especificação do produto ou serviço pretendido. Se sinto a necessidade de me manter informado, considero a hipótese de comprar algo que satisfaça essa necessidade. O que pode ser? Um livro, um jornal de actualidades, uma revista…? Quero estar informado sobre actualidade política, social, internacional, desportiva? Preciso de ter acesso aos programas televisivos ou prefiro artigos de fundo com entrevistas? 3ª Etapa: Procura de informação sobre a solução Após ter definido exactamente a necessidade e o tipo de produto ou serviço que o poderá satisfazer, o comprador inicia um processo de procura de informação e avaliação sobre a melhor opção de compra. Esta procura de informação pode ser muito pouco detalhada, quase automática no caso da compra de bens de repetição e sem grande importância na vida do comprador, ou ser muito completa no caso de outras compras. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 66 A procura e avaliação da informação pode ainda ser feita internamente (o comprador procura recuperar na própria memória informações sobre diferentes alternativas de um produto ou serviço), ou pode tratar-se de uma pesquisa externa onde o comprador procurará informações no meio ambiente, por exemplo, na comunicação publicitária, através de observação directa ou conselhos de amigos ou vendedores. 4ª Etapa: Compra A decisão de compra marca o culminar da avaliação das alternativas e é feita com base na informação recolhida na fase anterior. Na avaliação, é normal o comprador confrontar o desempenho de cada alternativa em função de um conjunto de critérios que ele considere importantes (alguns até obrigatórios)., economia, conforto, segurança, status, fiabilidade, qualidade, etc… A marca ou produto que reunir melhor avaliação nos critérios considerados mais importantes será a que tem uma maior probabilidade de vir a ser escolhida. 5ª Etapa: Comportamento pós-compra O processo de compra raramente acaba no momento da compra. Na realidade, após a aquisição, o Cliente avalia a compra e experimenta sentimentos de satisfação face à compra que fez (“Fiz bem em consultar este médico especialista porque o tratamento que ele me prescreveu deu muito resultado”), de insatisfação (“Decidi experimentar o novo sabor de iogurte da minha marca habitual e afinal não gostei nada!”) ou simplesmente de dúvida (“Terei feito bem em fazer o seguro do meu automóvel nesta seguradora? E se a assistência em viagem não for boa?”). A fase pós-compra é fundamental na decisão de compra repetida e é por isso que em muitos sectores de actividade, como no sector automóvel, os vendedores dão tanta atenção ao acompanhamento pós-venda. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 67 A diferença entre as compras com alto e baixo nível de envolvimento Como é natural, existem determinadas compras em que o Cliente se envolve muito, pede conselhos e reflecte bastante antes de comprar e outras que se compra de forma quase mecânica. É nas primeiras que é mais fácil identificar todas as etapas do processo de venda. Quando se trata de uma compra de grande relevância, com a qual o comprador se sente envolvido, a procura de informação sobre a melhor alternativa assume um papel importante. Nestes casos, a procura de informação é detalhada, pedem-se conselhos e opiniões especializadas, procura-se informação em órgãos de comunicação social, na internet… Por exemplo, ao decidir comprar um electrodoméstico, um automóvel ou o destino das férias, o processo de decisão de compra inclui uma procura de informação mais detalhada porque o risco é grande e o valor envolvido também é elevado. Em contrapartida, no caso de compras repetidas de produtos onde o risco é quase nulo, as etapas de compra ocorrem de forma quase inconsciente. Se, ao comprar leite, o comprador retira da prateleira do supermercado a sua marca habitual sem pensar muito no assunto, esta aparente ausência de reflexão deve-se, em boa parte, à fidelização a uma marca e à garantia de que essa compra não trará problemas. O maior ou menor envolvimento do comprador prende-se muito com o risco associado à compra. Pode tratar-se de um risco financeiro (em compras de valor elevado onde uma má experiência pode ter consequências importantes), risco psicológico ou emocional (a compra de uma cadeirinha de bebé é importante porque, da sua fiabilidade, depende a segurança da criança) ou até risco temporal (ter que dedicar muito tempo à escolha de um produto ou de uma nova marca). Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 68 A diferença entre produtos e serviços Grande parte das compras que fazemos diariamente refere-se, na verdade, à aquisição de serviços: a viagem de autocarro ou de táxi para o local de trabalho, o almoço no restaurante, a escola dos filhos, a lavandaria onde deixamos o fato para limpar, as actividades de lazer… Os serviços – intangíveis e sem corpo físico – são muitas vezes complementados por objectos que o ajudam a corporizar: por exemplo, ao passar uma noite num hotel, existem muitas coisas tangíveis que enquadram este serviço (as instalações do hotel, a cama, a televisão no quarto, a piscina… complementam e tangibilizam o serviço básico que consiste em disponibilizar uma dormida). Da mesma forma, ao comprar um produto, há muitas vezes um serviço associado. Quando adquirimos uma televisão (que é um bem físico), esperamos que o vendedor a vá entregar a casa, que providencie assistência técnica, que ofereça garantia, etc…( tudo serviços associados à venda de um produto). Quando comparados com os bens físicos, os serviços – onde se inclui o comércio, de uma forma geral – possuem características que muito influenciam a respectiva estratégia de negócio. Que influência têm estas particularidades na venda de serviços? Por serem mais difíceis de avaliar no momento da compra (dado que por vezes só são consumidos depois), os serviços devem ser vendidos com utilização de outros argumentos como garantias, testemunhos de utilizadores satisfeitos e entrega de algo físico que possa ajudar a corporizar o serviço. Por exemplo, a venda de um curso de formação é muitas vezes feita com recurso a brochuras com testemunhos de antigos formandos falando sobre os benefícios de terem feito aquele curso, entrega de livros ou manuais (produtos tangíveis) e concessão de garantias e diplomas que possam diminuir o risco percebido na compra e credibilizar a experiência. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 69 Por serem variáveis – uma vez que são prestados por pessoas que não têm sempre o mesmo desempenho – os serviços devem ter processos definidos para a sua prestação, com definição de etapas, sequência de tarefas e de tempo) que procurem diminuir a variabilidade e garantir ao comprador a ausência de risco. Qualquer serviço tem por trás um processo, uma sequência de etapas muitas vezes invisíveis para o consumidor. O correcto cumprimento desse processo é o que, em última análise, nos leva a considerar termos sido bem servidos, ou seja, vermos realizadas as nossas expectativas. É o que designamos por “qualidade percebida” e que pode ou não ser igual ao serviço esperado (fruto das experiências anteriores, do conselho de conhecidos, da comunicação da empresa, etc...). Por não se poderem armazenar (uma vez que não têm corpo físico), os serviços têm, muitas vezes, preços diferentes em função das épocas e dos ciclos de compra. É vulgar, por exemplo, os hotéis oferecerem estadias mais baratas nas chamadas “épocas baixas” ou os cinemas baixarem o preço das sessões às 2ªs feiras, após o pico de afluência do fim-de-semana. Por serem prestados por pessoas, os serviços têm, muitas vezes, um nível de fidelização superior à dos bens físicos. É comum, por exemplo, fidelizarmos numa loja porque somos bem atendidos pelo empregado e por vezes acontece que mudamos de ponto de venda quando o colaborador se vai embora. É, assim, vulgar que em alguns locais, como institutos de beleza ou stands de automóveis, os funcionários vão rodando de serviço, por forma a evitar que os Clientes se fidelizem na pessoa e não na marca do serviço. O que mais conta no momento da compra? Apesar de ser vulgar dizer-se que o preço é o aspecto mais importante no momento em que se decide entre vários produtos ou serviços disponíveis, entre a marca A e a marca B ou entre a loja X ou a loja Z, o peso do factor “preço” na compra de um produto ou serviço varia muito com a natureza da compra, com o tipo de Cliente e até com o contexto da compra. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 70 Veja por si mesmo. O preço é o aspecto mais decisivo quando escolhe um restaurante? Provavelmente sim, se se tratar de uma refeição rápida no intervalo de horário laboral, talvez menos importante se se tratar de um almoço de fim-de-semana com a família ou de um jantar com clientes que quer impressionar. Afinal, talvez o preço da refeição seja bem pouco importante se estiver a comemorar uma data importante na sua vida! Outro exemplo: o preço que está disposto a pagar por uma garrafa de água comprada num supermercado é naturalmente diferente do valor que pagará pela mesma água numa praia ou num bar nocturno. O que é diferente em cada uma destas situações? O produto? Não, o que muda não é a água mas tudo o que rodeia a compra e consumo deste produto – o serviço, o ambiente, a comodidade. Quer isto dizer que há situações em que estamos dispostos a pagar mais, por mais e melhor serviço. Mas o que é verdade neste exemplo também se aplica a muitas outras compras, desde compras frequentes de bens de grande consumo até compras reflectidas e de grande envolvimento. Vivemos numa época em que grande parte dos produtos que compramos têm, à partida, pouca diferença face a outros da mesma categoria, o que faz com que seja praticamente indiferente escolher um produto da marca A ou da marca B. O mesmo se aplica em relação ao ponto de venda: onde está a diferença em comprar uma mesma marca de televisão na loja A ou na loja B? Se o artigo é o mesmo e se o preço é cada vez mais similar, o que pode fazer a diferença? A resposta é a proximidade, o serviço, o atendimento e todos os serviços que rodeiam a venda e que, afinal, servem para diferenciar o ponto de venda. A questão que se pode colocar é: Pode o atendimento e o serviço prestado na loja ser o suficiente para influenciar o Cliente na escolha do ponto de venda? Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 71 A resposta é um rotundo SIM! Acontece em muitas situações. Se o artigo é o mesmo e se o Cliente tem mais do que uma alternativa, por que não há-de escolher o sítio onde sente que é melhor tratado? A capacidade de diferenciar a oferta de produtos e de serviços é fundamental para a construção da imagem de uma marca. É ela que ajuda o Cliente a decidir-se pela marca do produto ou do ponto de venda, deixando para trás outras propostas semelhantes mas não tão atractivas. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 72 2006 Clientes 73 Recomendações para a Acção Acções Como posso identificar Sugestões Identifique como os Clientes decidem a compra dos um factor de produtos ou serviços com que trabalha e poderá decidir diferenciação para a como diferenciar-se no momento da comparação entre as minha oferta? várias opções de compra. Qual é a importância do envolvimento do cliente O nível de envolvimento do Cliente na compra influencia o modo como este compra e os aspectos que mais valoriza. na compra? É igual vender produtos ou serviços? Serviços e produtos têm características diferentes que influenciam o modo como são comprados e avaliados. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 74 2006 Clientes 75 Solução para o Cenário Mas voltemos a Teresa. Ainda antes de iniciar este negócio, Teresa já tinha uma preocupação: como compram as pessoas este serviço? O que mais pesa no momento de decidir com quem deixar os filhos? Trata-se, naturalmente, de uma decisão com grande envolvimento e com um grande risco associado já que, para os pais, não é indiferente o modo como os filhos são tratados. Neste contexto, a confiança na “marca”, isto é, a marca Teresa Antunes – a empresa que oferece o serviço – é determinante para a decisão de compra. Procuremos, então, refazer o processo de decisão de onde deixar os filhos em caso de ausência dos pais: 1 – Constatação da necessidade Face à situação de ambos os pais trabalharem fora de casa e de as crianças não terem com quem ficar, nem idade para frequentarem o 1º ciclo escolar, é necessário que elas fiquem com alguém durante o período laboral dos pais. 2 – Descrição global da necessidade e especificação do produto/serviço A pessoa ou instituição escolhida deve dar garantias que as crianças serão bem tratadas, que terão espaço e disponibilidade para brincar com as outras crianças, que lhes serão dadas as refeições, que terão um período de descanso, que terão actividades lúdicas e brincadeiras que contribuam para o seu desenvolvimento, que o local onde vão estar seja adequado e seguro e que as pessoas que vão tomar conta das crianças sejam afáveis, simpáticas, fiáveis e competentes. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 76 3 – Procura de informação sobre a solução e avaliação das alternativas Nesta fase, o comprador do serviço de ocupação e guarda da criança tende a considerar várias opções alternativas e recolher o maior número possível de informação sobre elas. Por exemplo, como na Figura 10: Figura 10 - Opções de prestação do serviço de guarda de crianças Opções Ficar com a avó ou com outro familiar Serviços de uma babysitter Vantagens Afectividade Confiança Nível de atenção Flexibilidade de horário Conhecimentos profissionais específicos Proximidade geográfica Convívio com outras crianças Actividades pedagógicas adequadas Maior personalização e atenção (do que no infantário, que tem mais crianças) Preço eventualmente mais baixo do que numa babysitter Mais espaço (local pensado de raiz para esta actividade) Infantário público Desvantagens Ausência de convívio com outras crianças Ausência de actividades pedagógicas Distância geográfica (eventual) Preço Limitado número de crianças pode ser desvantajoso em termos de convívio Menor personalização e atenção Menos flexibilidade de actividades Incerteza face ao educador (rotação) 4 – Decisão e compra A decisão recairá, muito provavelmente, na opção que oferecer um maior número de vantagens, e mais concretamente na opção que satisfizer os benefícios mais valorizados pelo comprador. É assim que, por exemplo, uns pais que atribuam mais importância à componente pedagógica aliada ao entretenimento, poderão preferir um profissional especializado, mesmo que o preço seja mais elevado do que a opção de deixar a criança com a avó. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 77 Para a escolha de uma babysitter ou de outra opção alternativa, é fundamental a credibilidade da marca/pessoa, a divulgação dos seus conhecimentos nesta área, mas também o local e as respectivas condições de segurança e espaço. É importante que o potencial comprador possa ter acesso a todas as condições oferecidas para que possa tomar a sua decisão (horário, actividades, acompanhamento pedagógico, aspectos relacionados com a alimentação…). Relembremos que os serviços são prestados e consumidos por pessoas, pelo que Teresa terá que transmitir uma imagem de marca absolutamente de confiança, uma vez que vai disponibilizar um serviço que apenas será avaliado depois da compra. 5 – Avaliação pós-venda Como em muitos outros serviços, a avaliação não se esgota no acto da compra mas ao longo de um período temporal de prestação do serviço, ou seja, pós-compra. Tratando-se de uma compra de elevado risco emocional e com grande envolvimento do comprador, Teresa terá que, continuadamente, provar que a decisão de comprar os seus serviços foi uma decisão correcta e que os pais da criança não se irão arrepender de terem optado pelos seus serviços de babysitting. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 78 2006 Clientes 79 Exercícios para Resolver Exercício 7 - Processo de Decisão de Compra Analise e caracterize objectiva e sinteticamente o processo de decisão e compra dos seguintes produtos: a) jornal diário b) sapatilhas de corrida c) óculos graduados d) anel de noivado Exercício 8 - Produtos e serviços Através de análise comparativa, identifique as principais diferenças na compra e avaliação póscompra nas seguintes situações: 1) um jantar num restaurante italiano de bairro, com namorada 2) compra de um frigorífico topo de gama Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 80 2006 Clientes 81 Capítulo 5 – Diferenciação e Posicionamento Objectivos de Aprendizagem do Capítulo No final deste capítulo, os formandos deverão estar aptos a: A partir do exemplo prático do caso de João Antunes e dos seus serviços de reparações domésticas, identificar a importância da diferenciação da concorrência no contexto de um negócio; Conhecer e saber utilizar os factores de diferenciação em função do tipo de actividade; Conhecer e saber como criar um Posicionamento no âmbito da gestão de uma marca. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 82 2006 Clientes 83 Cenário Porque é importante ser diferente? Pode ser que você esteja numa área de negócio muito específica e com escassa concorrência directa mas o mais provável é que, em maior ou menor quantidade, outras entidades na sua área de actividade, disponibilizem os mesmos artigos ou serviços do que a sua empresa. Os Clientes têm, na maioria dos mercados, muitas alternativas de escolha: restaurantes, oficinas, lojas de roupas e sapatos, serviços de educação, etc… quase todos os mercados são altamente concorrenciais. Consideremos o exemplo de João Antunes. Cenário 5 - Reparações domésticas João Antunes ficou recentemente desempregado na sequência do fecho da empresa onde trabalhou 20 anos. Ao princípio, João desesperou com a situação mas logo percebeu que, por vezes, um problema tão grande como este é apenas a rampa de lançamento para outras oportunidades profissionais. Assim, João decidiu finalmente rentabilizar o que sempre fez nos seus tempos livres: pequenas reparações domésticas. Afinal, para serviços de electricidade, carpintaria, pinturas, etc… sempre ele tinha tido muito jeito. João Antunes sabe que tem que diferenciar a oferta destes serviços de forma a poder competir com outros profissionais. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 84 2006 Clientes 85 Estratégia João Antunes tem jeito para reparações domésticas e decidiu fazer disso um modo de vida quando o fecho da antiga empresa lhe trocou as voltas à vida. Não é, apesar disso, o único a prestar este tipo de serviços – não está sozinho no mercado. Se o pequeno negócio de João Antunes é apenas mais um entre outros, como pode ele competir com outras organizações porventura maiores do que a sua empresa e com outros meios? A maioria das empresas e dos negócios tem que se “bater” com os concorrentes, na batalha para captar Clientes. A concorrência é benéfica para o Cliente porque lhe oferece mais possibilidades de escolha mas coloca também as empresas perante a necessidade de diferenciarem a sua oferta da oferta de outros concorrentes directos. De acordo com as características do negócio mas, principalmente, em função do ponto de vista e das motivações dos seus Clientes, cada empresa deve procurar encontrar pelo menos uma característica distintiva que possa fazer a diferença no momento de o Cliente escolher, num mercado por vezes saturado com propostas muito semelhantes. Estas características distintivas podem ser de diversos tipos. Por exemplo, podem fundamentarse: na diversidade da oferta de produtos ou serviços; nos serviços pós-venda (entregas em casa, montagem, garantias, assistência técnica); no preço; na complementaridade de produtos e serviços; na atenção e disponibilidade prestadas no ponto de venda; na competência e conhecimento técnico dos vendedores; na proximidade e localização do ponto de venda; na actividade promocional da marca ou do ponto de venda; na prontidão de resposta e disponibilidade imediata do produto; no horário aumentado do ponto de venda; na flexibilização e modalidade de pagamento; … Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 86 Como pode ver, a característica diferenciadora do seu negócio pode basear-se em muitos outros aspectos para além do preço, desde que: 1) Esse aspecto diferenciador tenha importância para o Cliente, isto é, seja um benefício valorizado. Se trabalhar com produtos que não necessitem de assistência técnica, é preferível dispensar esse aspecto e arranjar outra forma de se diferenciar. 2) Essa característica diferenciadora exista efectivamente e não seja apenas um argumento de comunicação sem base real. Não vale a pena anunciar que a sua loja revela fotografias em 30 minutos, se depois não puder cumprir e prestar o serviço no prazo prometido. 3) Esse aspecto seja do conhecimento dos potenciais Clientes, isto é, comunicado a quem possa interessar. Se tem um restaurante com horário alargado que só fecha às 24.00 H, quando os outros estabelecimentos da zona fecham mais cedo, é preciso que divulgue esse benefício para que os potenciais Clientes possam ter esse aspecto em conta quando decidem o sítio onde ir jantar. O Posicionamento Chamamos Posicionamento de um produto ou marca à 1ª ideia que nos vem à mente, sobre esse produto, quando pensamos nele. Trata-se do traço mais forte da imagem da marca, aquela característica que a distingue de outras marcas ou produtos semelhantes. Todas as marcas (de produtos, de lojas, de pessoas, porque não?) têm uma característica diferenciadora (seja ela real ou não), que define o seu posicionamento. Se não for o próprio produtor ou o comerciante a tratar de construir uma forma de a marca se posicionar no mercado, os seus concorrentes tentarão arranjar para essa marca um posicionamento menos desejável. Seguem-se alguns dos traços distintivos associados a marcas muito conhecidas (Figura 11), na página seguinte: Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 87 Figura 11 – Exemplos de posicionamento Marca Principais traços de imagem (que a diferenciam de outras) Omo brancura, marca antiga DHL rapidez, urgência Volvo segurança, fiabilidade IKEA barato, colorido Outras associações da marca Omo lava mais branco! para mudar quando se pretender Bairro Alto bares, diversão nocturna barulho, desacatos… iPod música, irreverência juventude, mobilidade Estes traços diferenciadores podem não ser os mesmos para todas as pessoas mas fazem parte da imagem da marca ou do produto para a maior parte das pessoas. É uma imagem colectiva que, mesmo podendo não ser real, influencia movimentos de (des)aproximação relativamente à marca no momento da compra. A imagem das marcas é construída na nossa mente através do efeito conjugado da comunicação da marca, das nossas próprias experiências com a marca e das experiências de nossos conhecidos e amigos. Tudo o que sabemos, vimos ou nos disseram sobre uma marca (de um produto, de ponto de venda) influencia esta imagem, criando determinados associações, e é por isso que as empresas dedicam um orçamento cada vez maior à comunicação das marcas. A importância do posicionamento diferenciador Qual a importância do posicionamento diferenciador no acto da compra de um produto ou serviço? Toda! A imagem que temos sobre o produto A ou o serviço B, a primeira ideia que nos vem à mente quando estamos perante uma decisão de compra é aquela que influencia decisivamente a marca ou o local da compra que precisamos de fazer. Se, quando penso em almoçar fora com a família ao sábado, nem sequer me lembro do pequeno restaurante Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 88 na esquina da minha rua, ou penso, mas logo me vem à cabeça um sítio abafado com um atendimento muito demorado, então não existem grande possibilidades de esse local ser incluído no conjunto de restaurantes onde considero poder ir. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 89 Recomendações para a Acção Acções Porque é necessário ser Sugestões diferente da concorrência? Face à indiferenciação de muitos produtos e serviços, qualquer negócio tem necessidade de se destacar dos outros, semelhantes, através de uma característica diferenciadora. O que significa posicionar? Chamamos Posicionamento ao principal traço distintivo da imagem de uma marca ou produto que serve para a distinguir, na mente dos públicos, de outras marcas ou produtos da mesma categoria. Que importância tem o Posicionar é atribuir uma posição na mente do público-alvo. posicionamento no É destacar essa diferença no momento da compra momento da compra? aumentando as hipóteses de o produto/serviço ser escolhido. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 90 2006 Clientes 91 Solução para o Cenário João Antunes – o protagonista do caso prático deste capítulo - tenciona apostar na diferenciação dos seus serviços. Se não puder competir através do preço ou da diversidade da oferta, ele vai diferenciar-se através: da rapidez de resposta; da prestação de garantias pelos serviços prestados; de orçamentos gratuitos; da oferta de vales de desconto, a descontar no serviço seguinte; da proximidade e simpatia de atendimento; ou por outros aspectos que o público considere importantes. Por exemplo, estimular a comunicação boca-a-boca oferecendo descontos aos Clientes que aconselhem outros Clientes. A distribuição de autocolantes com o seu nome e número de telefone pode também ser uma ideia. Recordemos que os Clientes compram benefícios e não produtos ou serviços. Na prática, os aspectos com que João Antunes pretende diferenciar-se só resultarão se corresponderem, de facto, a vantagens para os Clientes. Por outras palavras, o que irá atrair o Cliente de João Antunes é o benefício oferecido e a sua capacidade de se diferenciar de outros (Figura 12, página seguinte). Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 92 Figura 12 – Características distintivas e benefícios para os Clientes Características distintivas rapidez de resposta Benefícios para os Clientes menos tempo sem o artigo que está a reparar, ou sem o problema que originou o serviço prestação de garantia pelos serviços prestados orçamentos gratuitos menor percepção de risco, sobretudo aquando da 1ª compra diminui as barreiras para mandar reparar o produto ou situação oferta de vales desconto incentivo para voltar a comprar serviços no mesmo fornecedor; sairá mais barato proximidade e simpatia de atendimento quando o Cliente tem um problema para resolver e está preocupado, a afabilidade do prestador de serviços tem um efeito tranquilizador descontos aos Clientes que aconselhem outros Clientes possibilidade de pagar menos sem esforço adicional Naturalmente que, a estas características, João Antunes terá que adicionar uma outra: eficácia e qualidades dos serviços prestados, uma vez que sem essa qualidade, de nada lhe valerá a simpatia e os vales de desconto. Os benefícios descritos na coluna da direita na tabela acima aumentam a probabilidade de João ter Clientes satisfeitos. Contudo, não é fácil alguém conseguir diferenciar-se através de várias características diferenciadoras em simultâneo. Daí que, não sendo fácil ser bom em muitas coisas ao mesmo tempo, Escolha um eixo diferenciador para o seu negócio Com a consciência de que não se pode ser, ao mesmo tempo, o melhor em qualidade, preço, serviço pós-venda, atenção ao Cliente, etc.... é preciso seleccionar um eixo de diferenciação e apostar tudo para ser o melhor nessa área. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 93 Exercícios para Resolver Exercício 9 - Posicionamento Identifique alguns dos possíveis aspectos diferenciadores que podem fundamentar um posicionamento de marketing para os casos de: a) um negócio de venda pessoal de produtos dietéticos b) uma papelaria de bairro Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 94 2006 Clientes 95 Capítulo 6 – O Papel da Fidelização de Clientes no Desenvolvimento do Negócio Objectivos de Aprendizagem do Capítulo Nota Introdutória Os blocos temáticos anteriores centraram-se fundamentalmente na captação de Clientes. Mas a verdade é que, tanto ou mais importante do que atrair Clientes é a capacidade de os manter, de os fidelizar. O presente capítulo realiza a transição para o capítulo “Vendas e Distribuição” onde será abordado mais detalhadamente o conceito de Fidelização. No final deste capítulo, os formandos deverão estar aptos a: A partir do exemplo prático de um negócio de restauração, identificar a importância da fidelização de clientes e as respectivas estratégias a implementar; Conhecer e saber implementar a fórmula de sucesso na dinamização de qualquer negócio ; Identificar e saber operacionalizar estratégias para aumentar o número de clientes; Identificar e saber operacionalizar estratégias para aumentar a assiduidade dos clientes; Identificar e saber operacionalizar estratégias para aumentar a compra média. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 96 2006 Clientes 97 Cenário Fidelizar é mais fácil do que atrair novos Clientes Face à enorme variedade de escolha em termos de produtos, serviços e locais de venda, os Clientes têm tendência a ser cada vez mais infiéis, a menos que percebam na oferta de uma empresa razões para continuarem fiéis. Satisfazer não basta, é apenas fazer o suficiente. Mais do que apenas satisfazer os Clientes, um empresário tem de ter a preocupação de surpreender os seus Clientes com novos serviços, não facilitando a sua fuga para a concorrência. Conheça o caso de Serafim Sousa e do seu negócio de restauração. Caso Prático nº 6 – A ‘Tasca do Serafim’ Serafim Sousa trabalhou durante 15 anos com empregado de restauração até que finalmente, no início do ano, resolveu abrir o seu próprio restaurante. Nada de especial em termos de dimensão, antes pelo contrário. Trata-se de um espaço pequeno mas com um ambiente caseiro. Como dizem alguns Clientes, parece uma casa de jantar. Junte-se a isto o facto de a cozinheira, a D. Matilde, fazer uns pratos muito caseiros e saborosos, com os melhores ingredientes. Como ela própria gosta de dizer “Quem quiser comida de plástico, vá procurar noutro sítio...” Na ‘Tasca do Serafim’, os Clientes sentem-se em casa, e repetem a dose quando lhes apetece. Na verdade, é muito normal ver-se todos os dias as mesmas pessoas, já que a fidelização é grande, ao contrário do espaço. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 98 2006 Clientes 99 Estratégia O Serafim já escolheu o traço diferenciador da sua oferta – comida genuína, caseira, ambiente para quem gosta de se sentir como na sua casa de jantar… No entanto, como em qualquer outro negócio, Serafim sabe que as suas vendas dependem de ele conseguir atrair novos clientes e conseguir que os seus actuais visitantes gastem mais e visitem mais vezes o seu restaurante. O que pode ele fazer para conseguir tal resultado? Em muitos negócios, sobretudo naqueles onde os produtos são muito indiferenciados, como é o caso de um supermercado ou de uma tabacaria, é muitas vezes o atendimento que faz a diferença e que transforma os Clientes em algo mais do que Clientes: eles passam a ser verdadeiros “clientes apóstolos”, que aconselham o produto ou o ponto de venda onde foram bem tratados. Repare que existem apenas duas situações em que os Clientes tendem a falar sobre um serviço aos seus amigos e conhecidos – quando tiveram um serviço excelente ou, ainda mais, quando tiveram um serviço miserável. Costuma dizer-se que um Cliente satisfeito conta essa experiência a três outros potenciais Clientes mas que um Cliente insatisfeito conta a história a, pelo menos, sete outras pessoas. O efeito desta propagação é perigoso, especialmente se tivermos em conta que, com a vulgarização da Internet, é muito fácil divulgar mensagens. Veja o que pode suceder na Figura 13. Figura 13 – Como se propaga uma má experiência de serviço. EU Família Todos os conhecidos Amigos Colegas Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 100 Convém também ter em conta que muitos Clientes não reclamam. Face a um mau atendimento ou a uma ausência do produto que procuram, eles simplesmente partem em busca da sua concorrência. O que pode fazer para que tal não aconteça e para que o seu negócio possa ter sucesso? Um dos aspectos a não perder de vista é que as vendas de um qualquer negócio – uma loja, por exemplo - têm, naturalmente, como origem os Clientes que são responsáveis pelo volume de vendas da loja. E o negócio só poderá crescer se você conseguir aumentar uma das componentes da seguinte fórmula: Volume de Vendas = Número de Clientes X frequência de compra X compra média Por outras palavras, você só poderá aumentar as vendas do seu negócio se: 1 - Conseguir mais Clientes 2 - Conseguir que os actuais Clientes visitem mais vezes o seu ponto de venda ou 3 - Conseguir que os actuais Clientes comprem mais, de cada vez que o visitam Não existem milagres. A partir desta fórmula, facilmente verificamos que é possível aumentar as vendas através do acréscimo de um dos factores acima referidos, dos dois ou, idealmente, dos três factores. No entanto, duas destas componentes da fórmula de vendas no comércio tendem a ser antagónicas: o aumento da frequência com que o Cliente vai à loja e a compra média, isto é, a quantidade de produtos que adquire de cada vez que visita a loja. Assim, e de acordo com a fase de desenvolvimento em que o negócio se encontra, fará sentido apostar mais em um dos factores e menos nos outros, como se refere em seguida (aspectos que serão mais desenvolvidos no capítulo “Vendas e Distribuição”). Os exemplos que se seguem centram-se em situações referentes a pontos de venda (lojas) mas são extensíveis e aplicáveis a praticamente todos os negócios. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 101 Estratégias para captar Clientes A aposta na captação de Clientes – a 1ª parte da fórmula de vendas – é a estratégia que se impõe no arranque de um negócio ou no caso de a loja apenas ser visitada por uma pequena parte dos Clientes potenciais, o que é normal quando se inicia um negócio. Neste caso, é importante atrair mais Clientes à loja. Para isso é necessário: Dar a conhecer a loja; Dar às pessoas uma razão para visitarem a loja (na verdade, o Cliente perguntará a si próprio porque há-de visitar aquela loja e não outra) As razões para a visita podem ser de natureza diversa. As mais habituais são: 1º - Fortes acções promocionais de alguns produtos relativamente aos quais os consumidores conheçam os preços, no caso de a loja pretender criar uma imagem de preços competitivos. Exemplo: Alguns anos atrás, o proprietário de um talho na região de Lisboa inaugurou a sua loja a um sábado, com uma promoção de frango a 50% do preço habitual. Em resultado, foi necessária a intervenção da polícia para manter a fila no exterior da loja, apesar de cada consumidor apenas poder comprar 1 frango. No final do dia, a maioria da população conhecia a loja, que se conseguiu posicionar imediatamente como uma loja agressiva em preços. 2º - Uma actividade de carácter social fora do normal. Exemplo: fazer um cocktail de abertura, uma festa, um concurso, convidar pessoas conhecidas, etc..., em função da área de actividade do negócio. 3º - Oferta de brindes a quem visitar ou a quem comprar um valor mínimo de X€, durante o período de lançamento. A partir do momento em que o Cliente visita a loja, é crucial que ele não se sinta decepcionado. Para isso, a promessa de comunicação deve corresponder à realidade vivida na loja. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 102 Não prometa o que não pode cumprir (por exemplo, não prometa um vasto sortido de vestuário quando tem uma loja com 15 m2 de área de venda!) Estratégias para aumentar a frequência dos Clientes Se tem uma loja que já é conhecida dos Clientes na área de atracção mas os seus Clientes acabam por visitar mais outras lojas e é lá que comprar a maior parte dos produtos, é importante que desenvolva acções que tenham em vista aumentar a frequência da loja. Esta estratégia é sobretudo interessante para os produtos de compra por impulso – compra não ponderada, decidida na loja – como alguns items de comércio alimentar ou o vestuário, onde a visita à loja constitui uma excelente oportunidade de venda. São as seguintes as principais formas de aumentar a frequência à loja: Destaque os produtos de compra muito repetida (por exemplo, aqueles pães especiais com sabor, no caso de uma loja de comércio alimentar, ou as meias de senhora que estão a preço muito competitivo, numa loja de roupa); Apresente constantemente novidades (é, por exemplo, o factor crítico de sucesso nas designadas “lojas dos 300” onde a atracção do preço baixo é complementada pela variedade do sortido) Mesmo em situações de compra reflectida, como é o caso de aquisição de electrodomésticos ou de produtos informáticos, esta estratégia pode fazer sentido para a venda de consumíveis (tinteiros para impressora, por exemplo) a preços atractivos, por constituir uma oportunidade de contacto para rever Clientes e propor-lhes um motivo para novas compras. Estratégias para aumentar a compra média de cada Cliente A última componente da fórmula de vendas refere-se ao aumento da compra média e tem uma importância determinante no aumento das vendas do estabelecimento. Se a sua loja já é visitada por uma grande parte dos seus Clientes potenciais mas mesmo assim, se dentro de um sortido relativamente largo, eles continuam a comprar apenas os mesmos produtos, a estratégia a seguir será aquela que tenha como resultado aumentar o tamanho do “cabaz”. As principais formas de aumentar a compra média são: Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 103 Propor aos Clientes “pacotes” de produtos que incluam mais do que um item (por exemplo, o menu refeição completa por um preço inferior ao que custaria a soma dos pratos individualmente); Descontos para compras em quantidade – o preço unitário do artigo diminui com a quantidade comprada até um determinado limite que terá de fixar, sob pena de poder vir a ter prejuízo (muito utilizado no comércio de vestuário onde 3 camisas podem ter um preço unitário francamente abaixo de 3 x 1); Promover os produtos com margens mais elevadas, em especial os que têm compra impulsiva (por exemplo, um fantástico ecrã de plasma junto das televisões, numa loja de electrodomésticos); Desenvolver as compras cruzadas, em especial naquelas que tenham afinidade entre si como os livros sobre animais junto com os pacotes de ração para cães e gatos, por exemplo. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 104 2006 Clientes 105 Recomendações para a Acção Acções Como posso fidelizar Dicas clientes? Oferecendo-lhes sempre algo de novo que retenha o seu interesse e atenção, preferencialmente algo que a concorrência não tenha. Como posso aumentar as Surpreenda-os! Exceda as expectativas! As três grandes áreas para o sucesso de um negócio são: minhas vendas? aumentar o número de clientes; aumentar o número de vezes que esses clientes compram; É possível agir sobre todas as áreas da fórmula de sucesso de um estabelecimento? aumentar a quantidade de cada compra. É difícil agir simultaneamente sobre o aumento do número de clientes e o aumento da compra média. Contudo, através de acções de comunicação e dinamismo do ponto de venda, é possível agir sobre a captação e sobre a fidelização de clientes em simultâneo. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 106 2006 Clientes 107 Solução para o Cenário Seguem-se algumas sugestões relativas à “Tasca do Serafim”: 1 – Para atrair mais clientes: ter sempre um prato vegetariano; fazer (e divulgar) promoções pontuais do tipo “semana das sobremesas” ou “semana do queijo”, por exemplo; ofertas pontuais como oferecer o café no final da refeição; divulgação da oferta na montra do restaurante e no comércio local não concorrente; … 2 – Para aumentar a frequência dos clientes: variar as ementas; fazer (e divulgar) pratos especiais muito apreciados regularmente em dias certos. Por exemplo, às 4ª feiras, dia de Cozido à Portuguesa, às 5ªs feiras, o Dia dos Amantes do Peixe, etc…; realizar regularmente pratos temáticos; cartão fidelidade para clientes frequentes com descontos no final de x refeições; preços especiais para grupos (para captar pessoas dos empregos em redor); … 3 – Para aumentar a compra-média dos clientes: apostar em entradas e em sobremesas diversificadas; implementar um programa de oferta do café, em refeições superiores a x Euros; exibir os alimentos em expositores para que os compradores potenciais possam avaliar a qualidade dos mesmos; sugerir digestivos e entradas menos habituais. Quaisquer que sejam as opções do Serafim para aumentar o seu negócio, o sucesso da ‘Tasca do Serafim’ dependerá muito da forma como ele conseguir reter e fidelizar os seus clientes, já que custa muito mais atrair novos clientes do que manter os actuais. Mas isso será assunto para o capítulo “Vendas e Distribuição”. Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 108 2006 Clientes 109 Exercícios para Resolver Exercício 10 – Pense nas características do seu negócio (frequência de compra, compra média, tipo de clientes, forma e dimensão do ponto de venda, envolvimento na compra, influenciadores, etc… Em seguida, identifique o seu principal objectivo em temos de aumento de negócio, sugerindo acções concretas para cada objectivo que fixou, tendo em conta as características específicas do seu negócio. Por exemplo: Objectivo – aumentar a compra média de cada cliente Sugestões: 1) colocar os artigos com maior margem em locais de maior visibilidade 2) … Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 110 2006 Clientes 111 BIBLIOGRAFIA Carmo Leal e Pedro Dionísio, COMO OBTER SUCESSO, Gabinete de Apoio aos Novos Empresários do Comércio, 2005 WEBGRAFIA http://www.ganec.pt/ Gabinete de apoio aos novos Empresários do Comércio Linha Azul 808 500 101 http://www.ine.pt/ Instituto Nacional de Estatística http://www.marktest.pt/ Dados de mercado Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006 Clientes 112 WEBGRAFIA (continuação) http://www.pmelink.pt/pmelink_pu blic/EC/0,1655,3_41102-View_427,00.html Conceitos de marketing e vendas http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3 %A1gina_principal Enciclopédia gratuita (conceitos, exemplos, artigos…) Curso de Microcrédito Fundação Calouste Gulbenkian / Millennium BCP 2006