Análise da variabilidade espacial dos casos de dengue na capital Rio Branco por meio de técnicas geoestatı́sticas. Isaac Pereira Santos 1 2 Elias Silva de Medeiros 1 Ricardo Alves de Olinda - CCT, UEPB/PB 1 Isaac Dayan Bastos da Siva - CCET, UFAC/AC1 Altemir da Silva Braga 1 Ana Clara Pinheiro Costa da Silva 1 Edimilson Marques de Araújo 1 Resumo: O presente trabalho utiliza as técnicas geoestatı́sticas com o objetivo de identificar a dependência espacial dos casos de dengue nos bairros da capital Rio Branco - AC no ano 2000. A estrutura espacial foi explorada pelo uso do semivariograma e as interpolações por meio de krigagens. Observou-se a existência da dependência espacial através do gráfico de envelope simulado, o ı́ndice de dependência espacial foi verificado utilizando-se a relação entre a variação estruturada e o patamar. Entre as diferentes funções de correlação estudadas, o modelo circular foi o modelo que melhor se ajustou aos dados, tomando-se como critério de seleção o método de Akaike (AIC). As predições espaciais foram calculadas em uma grid de 170 localizações espaciais, em que, as precisões das krigagens ficaram em um patamar aceitável. Por meio dos gráficos de probabilidades condicionais observou-se que a região próxima ao centro é uma área em que o número de casos de dengue ultrapassa o valor médio de casos registrados em toda capital. Palavras-chave: semivariograma, krigagens, simulações. 1 Introdução A geoestatı́stica é uma área da estatı́stica aplicada que caracteriza-se pela modelagem da continuidade espacial de fenômenos naturais. Dados georeferenciados levam em consideração a localização geográfica e a dependência espacial, esta metodologia permite identificar regiões onde a infestação de determinadas doenças epidemiológicas atingem a população com mais intensidade (OLINDA, 2010). Os procedimentos geoestatı́sticos estão fundamentados na Teoria das Variáveis Regionalizadas. Estudos afirmam que, anualmente cerca de 50 a 100 milhões de pessoas no mundo são infectadas pelo vı́rus da dengue. Destas, entre 250 a 500 mil casos evoluem para forma hemorrágica que consequentemente, leva 5% desta parcela à morte. 2 Contato: [email protected] Dessa forma, o presente trabalho objetivou-se a detectar a existência da dependência espacial dos casos de dengue na Capital Rio Branco - AC; identificar regiões de riscos por meio de mapas de krigagem, para que se possa compreender a ocorrência do fenômeno em estudo. 1.1 Metodologia Na teoria das variáveis regionalizadas, Z(si ) pode ser definida como uma variável aleatória que assume diferentes valores Z em função da posição si dentro de uma região de estudo S, e representa pares de coordenadas (x, y). O conjunto de variáveis Z(si ) medidas em toda a região de estudo S pode ser considerada como uma função aleatória Z(si ), uma vez que, são variáveis aleatórias regionalizadas e assume-se que a dependência entre elas é determinada por algum mecanismo probabilı́stico. Segundo Guimarães (2004), o gráfico de γ(h) versus (h) representa o semivariograma, que permite obter a estimativa do valor de semivariância para as diferentes combinações de pares de pontos e assim analisar o grau de dependência espacial da variável estudada e definir os parâmetros necessários para a estimativa de suas caracterı́sticas em locais não amostrados. O semivariograma é definido como: 1 γ(h) = V ar[Z(si ) − Z(si + (h))] 2 (1) A função de semivariância γ(h) é definida como sendo a esperança matemática do quadrado da diferença entre os valores de pontos no espaço, separados por um vetor de distância euclidiana (h), conforme a seguinte Equação: 1 γ(h) = E[Z(si ) − Z(si + h)]2 , 2 e pode ser estimado por: 1 γ̂(h) = 2 Pn (2) − Z(si + h)]2 , n(h) i=1 [Z(si ) (3) em que n(h) é o número de pares de valores medidos Z(si ), Z(si + h), separados por um vetor (h). De acordo com Guimarães (2004), o efeito pepita (τ 2 ) corresponde a cota do ponto onde o semivariograma corta o eixo das ordenadas, o alcance (φ) corresponde ao conceito de dependência espacial, marcando-se a distância a partir da qual as amostras tornam-se independentes, o patamar (σ 2 + τ 2 ) corresponde ao ponto onde toda semivariância da amostra é de influência aleatória, correspondendo-se a variância total obtida pela estatı́stica clássica. Quando o efeito pepita (τ 2 ) for aproximadamente igual ao patamar (σ 2 + τ 2 ), denomina-se efeito pepita puro demonstrando-se que a amostra não recebe influência espacial (TRANGMAR et al., 1985). Adicionalmente, é útil incluir no modelo, alguma flexibilidade na forma geral da função de correlação. A seguir pode-se observar algumas das principais funções de correlação do semivariograma utilizadas na geoestatı́stica: Função de correlação gaussiana 2 #% h 1 − exp −3 φ $ 2 ρ(h) = τ + σ 2 " 0 ≤ h ≤ π, (4) em que π é a distância máxima na qual o semivariograma é definido e neste modelo o patamar σ 2 + τ 2 é atingido apenas assintoticamente, o parâmetro φ é determinado visualmente como a distância após a qual o semivariograma se estabiliza. Função de correlação Esférica τ 2 + σ 2 3 h − 1 h 3 se 0 ≤ h ≤ φ 2 φ 2 φ ρ(h) = 2 τ + σ2 se h>φ (5) Função de correlação Circular ( ρ(h) = 2 π √ sen−1 h + 1 − h2 ρ(h) = 1 (6) , h>1 Função de correlação Matérn 22−ν ρ (h; φ, ν) = Γ (ν) ν h h Kν , h > 0, φ φ (7) em que Kν (·) é a função Bessel modificada de terceiro grau de ordem ν > 0 e Γ (·) é a função Gamma. O primeiro desses parâmetros (φ) está relacionado ao alcance das correlações, sendo que maiores valores indicam dependências espaciais de maior alcance. O segundo parâmetro (ν) está relacionado à suavidade do processo, de forma que, quanto maior ν, maior será a suavidade. Cambardella et al. (1994), propuseram os seguintes intervalos para avaliar a % da semivariância do Efeito Pepita: ≤ 25% - forte dependência espacial; entre 25% e 75% - moderada dependência espacial e ≥ 75% - fraca dependência espacial, denominado de IDE (Índice de Dependência Espacial) e pode ser determinado de acordo com a seguinte expressão: IDE = τ2 100 σ2 + τ 2 (8) Isaaks e Srivastava (1989), afirmam que, a krigagem pode fornecer a estimativa para um local especı́fico. As formas mais utilizadas de Krigagem lineares são: Simples, Ordinária, Universal e Intrı́nseca. A Krigagem Simples é a mais comum das estimações usadas na geoestatı́stica. A Krigagem Ordinária, que é a variação mais utilizada da Krigagem simples, descrita por Trangmar et al. (1985), como o valor interpolado Ẑ(s0 ) de uma variável regionalizada Z, num local s0 pode ser determinada por: n X Ẑ(s0 ) = wi Z(si ), (9) i=1 em que n é o número de amostras de Z(si ) envolvidas na estimativa de Ẑ(s0 ), e wi são os pesos associados a cada valor medido em Z(si ). 1.2 Resultados e Discussão Na Figura 1 observa-se que o gráfico do canto superior esquerdo representa os dados nos quartis dos casos de dengue, os sı́mbolos ” + ”, ”∆”, ”o”, ” × ”, nesta ordem, indicam os quartis amostral, a existência de conglomerados das categorias condizem com a ideia de que existe padrão espacial. O gráfico do canto inferior direito da Figura 1 , mostra as densidades amostrais dos dados, observa-se que há uma leve tendência na distribuição dos dados. A existência de dependência espacial pode ser verificada por meio do diagnóstico gráfico utilizando-se envelopes simulados e variogramas empı́ricos (Figura 2), neste trabalho foram utilizadas 1.000 simulações. Para que haja dependência espacial, deve haver ao menos um ponto do variograma fora do envelope simulado (DIGGLE e RIBEIRO Jr., 2007). Observa-se por meio da Tabela 1, as estimativas de máxima verossimilhança para os parâmetros dos modelos univariados ajustados aos casos de dengue, considerando-se a média como polinômio de primeira ordem sobre as cordenadas (x,y) para a matriz delineamento X. Tabela 1: Estimativas de máxima verossimilhança dos parâmetros associados ao modelo para os casos de dengue na capital Rio Branco, assumindo-se a média como um polinômio de primeira ordem sobre as coordenadas (x, y). função de correlação β̂0 β̂1 β̂2 τ̂ 2 σ̂ 2 φ̂ AIC matérn kappa = 0,5 216,7672 0,0002 0,0001 0,0000 4,4626 331,6175 1223 matérn kappa = 1,0 202,7193 0,0002 0,0001 0,0000 4,5121 235,0652 1207 esférico 238,4437 0,0002 0,0001 0,0000 4,4517 903,3479 1206 gaussiano 212,1824 0,0002 0,0001 0,0000 4,5885 455,4676 1206 circular 228,3057 0,0002 0,0001 0,0000 4,4784 831,5660 1205 Figura 1: Gráficos descritivos do padrão espacial dos casos de dengue na capital Rio Branco no ano 2000. Figura 2: envelopes simulados e variogramas empı́ricos. Na Figura 3 encontram-se os semivariogramas ajustados conforme o método de máxima verossimilhança para uma distância máxima de 2.000 metros, pode-se, observar que todas as caracterı́sticas estudadas nos procedimentos aqui descritos, apresentam estruturas espaciais bem definidas. Isto significa que as estimativas com o modelo selecionado, trará otimização nas estimativas. Para verificar o ı́ndice de dependência espacial IDE, foi utilizado a relação entre a variação estruturada e o patamar σ 2 +τ 2 e observou-se que o IDE = 0, esse resultado implica que há uma forte dependência espacial entre as caracterı́sticas dos casos de dengue na Capital Rio Branco. Figura 3: Semivariogramas ajustados (esquerda) e probabilidades condicionais(direita). Por meio do gráfico de probabilidades condicionais (Figura 3), observa-se que há uma grande área em que os casos de dengue é menor que 200 (valor médio dos casos de dengue na capital Rio Branco), no entanto, observa-se que a região central apresenta uma alta probabilidade de que o número de casos ultrapassem a média de casos registrados. 1.3 Conclusões O modelo que melhor se ajustou aos dados foi o modelo circular. Observou-se que houve uma forte dependência espacial. A precisão da krigagem ficou em um patamar aceitável o que implica em boas informações sobre a região em estudo. Observa-se através do gráfico de predição espacial que na região do centro da Capital Rio Branco o número de casos de dengue ultrapassam o valor médio de casos registrados. Referências [1] CAMBARDELLA, C. A., MOORMAN, T. B., NOVAK, J. M., PARKIN, T. B., KARLEN, D. L., TURCO, R. F., KONOPKA, A. E. Field-scale variability of soil properties in Central Iowa soils. Soil Sci. Soc. Am. J., v.58, p.1501-1511, 1994. [2] DIGGLE, P.J.; RIBEIRO Jr., P.J. Model-Based geostatistics. New York: Springer, 230p. 2007. [3] GUIMARÃES, E. CARVALHO.; Geoestatı́stica Básica e Aplicada, Universidade Federal de Uberlândia Faculdade de Matemática, Núcleo de Estudos Estatı́sticos e Biométricos, MG, 33p. 2004. [4] ISAAKS, E.H.; SRIVASTAVA, R.M. An Introduction to Applied Geostatistics. New York: Oxford University Press, 561p. 1989. [5] OLINDA, R. A. SCALON, J. D. Métodos de Monte Carlos para processos pontuais marcados. Revista Brasileira de Biometria, São Paulo, v.28, n.1, p.39-56, 2010. [6] TRANGMAR, B. B., YOST, R. S., UEHARA, G. Application of geostatistics to spatial studies of soil properties. Advances in Agronomy, v. 38, p.45-94, 1985.