UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO Anne Akemi Shimbara “Vida Escolar e Formação Continuada de Educadores: uma perspectiva teórica” São Carlos - SP 2011 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO Anne Akemi Shimbara “Vida Escolar e Formação Continuada de Educadores: uma perspectiva teórica” Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para obtenção do Grau de Licenciatura em Pedagogia da Universidade Federal de São Carlos. Orientação: Prof.ª Dra. Maria Cecília Luiz São Carlos - SP 2011 Agradecimentos Agradeço primeiramente a Deus, por estar presente em todos os momentos e me possibilitar chegar até aqui com mais uma importantíssima conquista – única em minha vida. Aos meus pais, pelo amor e dedicação infinitos, por sempre me incentivarem e me permitirem sonhar. A todos da minha família, aos meus amigos e ao meu namorado, pelas palavras de apoio, por estarem sempre comigo e acreditarem no meu potencial. À minha orientadora, por toda paciência, atenção e pelas aprendizagens que me fizeram crescer. A todas as crianças e educadores que eu tive oportunidade de conviver ao longo do curso, pelo despertar da admiração e fluir da inspiração. Resumo Este Trabalho de Conclusão de Curso é fruto de muitos estudos teóricos a respeito do processo de formação dos educadores e sua vida dentro do espaço escolar. Pretendo discutir sobre as diversas perspectivas sobre o tema e buscar refletir acerca dos vários estudos que contribuem para a riqueza do trabalho. Descrevo a respeito do processo de Formação Inicial dos educadores e a necessidade de haver uma continuidade por meio da Formação Continuada. Isso possibilita que os educadores reflitam sobre seu trabalho, construam novos conhecimentos, compartilhem experiências e constituam novas práticas pedagógicas, favorecendo assim o seu desenvolvimento profissional e o processo de ensinoaprendizagem. O educador no espaço escolar também deve compreender e participar da organização e gestão da instituição, para que assim continue aprendendo no cotidiano da escola com os seus colegas de trabalho, contribuindo para o trabalho coletivo e o seu desenvolvimento profissional. O processo de gestão democrática também deve estar presente neste contexto e é fundamental para o melhor desenvolvimento da escola, pois abre espaço para a participação e o trabalho conjunto. Palavras-Chave: Escola; Formação Desenvolvimento Profissional. Continuada de Educadores; Gestão Escolar; Sumário Introdução...................................................................................................................................5 Seção 1 – A Formação Inicial dos educadores: algumas perspectivas teóricas .........................7 1.1. A formação docente: da racionalidade técnica à perspectiva crítico-reflexiva ...............7 1.2. A complexidade da docência...........................................................................................9 1.3. Os saberes docentes .......................................................................................................10 1.4. O início da prática pedagógica (profissionalização)......................................................11 Seção 2 - A relação entre o educador e a escola: cultura organizacional e gestão escolar.......14 2.1. O processo de organização escolar................................................................................14 2.2. A gestão escolar e suas concepções...............................................................................15 2.3. O planejamento escolar .................................................................................................17 2.4. O desenvolvimento profissional do educador ...............................................................19 2. 5. Desafios e mudanças: participação e gestão democrática ............................................22 Seção 3 - Desafios na atuação dos educadores: as contribuições da Formação Continuada para a atuação pedagógica ................................................................................................................25 3.1. As mudanças e a necessidade de um processo contínuo de formação ..........................25 3.2. Da concepção clássica ao desenvolvimento de novas perspectivas ..............................27 Considerações Finais ................................................................................................................33 Referências ...............................................................................................................................34 5 Introdução O presente trabalho é resultado de um aprofundamento teórico do tema acerca do processo de formação dos educadores, bem como a vida escolar destes. A formação inicial é fundamental, porém atualmente é preciso que ela tenha uma continuidade durante o desenvolvimento profissional do educador. A escola é o espaço onde ocorre o processo de ensino-aprendizagem, processo este que deve ser assumido como prioridade da instituição. Nesse contexto, além do educador desenvolver o seu trabalho, ele deve conhecer e participar da gestão e organização escolar, a fim de que possa buscar garantir melhores condições para a aprendizagem dos alunos e para o seu desenvolvimento profissional. Considerando que cada escola tem suas especificidades, é muito importante que o planejamento escolar considere a realidade e estabeleça objetivos em busca das expectativas e necessidades de cada instituição. Assim, o processo de gestão deve possibilitar a participação e o trabalho conjunto em busca de melhorias na aprendizagem dos alunos e no trabalho dos educadores. Na Seção 1, será discutido o processo de formação inicial dos educadores, tendo em vista diferentes perspectivas. O processo de profissionalização também será destacado, bem como a importância da reflexão para a formação e a vida escolar do educador. Tendo como base as ideias de diversos autores, serão apontados os desafios cotidianos, as interações, experiências e saberes construídos pelos professores ao longo de seu trabalho. Na Seção 2, serão evidenciados o espaço escolar e o trabalho dos educadores nesse contexto. O processo de organização dentro da escola será descrito, bem como as diferentes concepções de gestão, destacando a gestão democrática em busca da participação de todos nas decisões a serem tomadas e evidenciando o trabalho coletivo. O planejamento escolar também será ressaltado nesta seção como fonte de organização fundamental para a escola. O desenvolvimento profissional e as mudanças na educação possibilitam um repensar das práticas pedagógicas por meio do processo de reflexão em busca de novas aprendizagens. A Seção 3 tratará especificamente do processo de Formação Continuada como elemento fundamental na vida do educador. A formação inicial docente é muito relevante, porém com as mudanças na sociedade, que acabam influenciando a escola, é necessário que o processo de formação continue sendo desenvolvido ao longo da vida profissional. Este processo “contínuo” tem como objetivo aprofundar alguns conhecimentos, desenvolver novas ideias e repensar as práticas pedagógicas, de forma a melhorar o processo de ensinoaprendizagem. 6 Nas Considerações Finais, haverá uma retomada das ideias das seções, com base em minhas reflexões a respeito do desenvolvimento do trabalho. Dessa forma, esta temática deve estar sempre em construção, assim como a formação dos educadores. 7 Seção 1 – A Formação Inicial dos educadores: algumas perspectivas teóricas A presente seção tem como objetivo analisar o processo de formação inicial dos educadores por meio de uma abordagem teórica. Primeiramente é feito um histórico a respeito das mudanças com relação às perspectivas de formação, que evidenciaram a necessidade e importância de um ensino voltado para a reflexão. Os saberes docentes também são destacados nesse contexto, bem como o início da profissionalização dos educadores e os desafios por eles enfrentados. 1.1. A formação docente: da racionalidade técnica à perspectiva crítico-reflexiva Analisando o histórico da formação docente, é possível perceber as mudanças relacionadas aos conceitos do âmbito escolar. Nesse sentido, de acordo com Pérez Gómez (1992), em cada época prevalecem diferentes concepções de escola, ensino, currículo e representações da imagem do professor. Assim, o autor destaca duas diferentes concepções: a do professor enquanto técnico-especialista e a do docente como prático autônomo. O professor como técnico-especialista tem sua profissão voltada à atividade instrumental, “dirigida pra a solução de problemas mediante a aplicação rigorosa de teorias e técnicas científicas” (PÉREZ GÓMEZ, 1992, p. 96). O modelo de racionalidade técnica prevaleceu por muitos anos no contexto escolar. Após um tempo, as atenções voltaram-se para modelos de formação que contribuem para que os professores lidem com situações que não estejam pré-estabelecidas, uma nova realidade que vai além de regras e procedimentos já definidos. “Não há realidades objectivas passíveis de serem conhecidas; as realidades criamse e constroem-se no intercâmbio psicossocial da sala de aula” (PÉREZ GÓMEZ, 1992, p. 110). Assim, tem-se a ideia de que não existem conhecimentos e soluções destinados a cada situação, mas o profissional deve saber como agir em determinados momentos praticando o processo de reflexão. “O profissional competente actua reflectindo na acção, criando uma nova realidade, experimentando, corrigindo e inventando através do diálogo que estabelece com essa mesma realidade” (PÉREZ GÓMEZ, 1992, p. 110). Para tanto, o professor tem que adquirir um conhecimento construído por ele próprio e não por meio de teorias já definidas antes do momento da ação. 8 A prática assume função fundamental neste modelo de formação de professores. Isso faz com que o conhecimento-na-acção, a reflexão-na-acção, a reflexão sobre a acção e sobre a reflexão-na-acção (conceitos desenvolvidos por Schön) dependam “da mobilização de um outro tipo de conhecimento produzido em diálogo com a situação real” (PÉREZ GÓMEZ, 1992, p. 111). Com este modelo reflexivo e artístico, é ressaltada a importância da prática no currículo de professores como um “processo de investigação”, considerando a complexidade do processo educacional e possibilitando a compreensão e reflexão de cada situação. Essas características diferem este modelo de formação docente do de racionalidade técnica. Assim: O pensamento prático do professor não pode ser ensinado, mas pode ser aprendido. Aprende-se fazendo e reflectindo na e sobre a acção. Através da prática é possível apoiar e desenvolver o pensamento prático, graças a uma reflexão conjunta (e recíproca) entre o aluno-mestre e o professor ou o tutor (PÉREZ GÓMEZ, 1992, p. 112 – grifos do autor). Desse modo, de acordo com o mesmo autor, neste modelo reflexivo é necessário destacar a importância do formador neste processo, que deve saber refletir sobre a sua prática, estabelecendo um “diálogo reflexivo” com seus alunos e também se preocupando com a sua própria formação. Ressaltando a importância da reflexão no processo docente, segundo Nóvoa (1992), a formação docente deve ter como base uma tendência crítico-reflexiva, possibilitando maior autonomia no pensamento e a constituição de uma identidade profissional. Desse modo: A formação não se constrói por acumulação (de cursos, conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir a pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência (NÓVOA, 1992, p. 25 – grifos do autor). De acordo com Nóvoa (1992), as práticas de formação contínua de professores que têm uma base coletiva “contribuem para a emancipação profissional e para a consolidação de uma profissão que é autónoma na produção dos seus saberes e dos seus valores” (p. 27). Importa valorizar paradigmas de formação que promovam a preparação de professores reflexivos, que assumam a responsabilidade do seu próprio 9 desenvolvimento profissional e que participem como protagonistas na implementação das políticas educativas (NÓVOA, 1992, p. 27). Assim, é importante que os cursos de formação incentivem o processo de reflexão dos professores com relação às situações cotidianas, para que eles percebam que cada situação é única, portanto não existem “regras” que possam ser estabelecidas antes da prática. 1.2. A complexidade da docência Considerando o professor como fundamental no processo educativo, com base nas ideias de Altet (2001), o docente é um profissional que articula o processo de ensinoaprendizagem, uma vez que ao ensinar cria condições de aprendizagem e interage em sala de aula. Assim, o ensino não se refere somente à transmissão de conteúdos, pois a aprendizagem varia de acordo com as relações estabelecidas, as experiências, interações, ações em diferentes situações e reações dos alunos. Embora o professor planeje e prepare o seu trabalho, não há como prever totalmente o que irá acontecer em sala de aula, visto que cada situação deve ser analisada em seu contexto, levando em conta a interação ocorrente ao longo do processo. “Isto requer uma grande quantidade de tomadas de decisão, uma mobilização dos conhecimentos dentro da ação e, até mesmo, uma modificação de decisões na ação em sala de aula” (ALTET, 2001, p. 27). Nesse contexto, de acordo com Veiga (2010), a docência vai além do papel de ministrar aulas, uma vez que é uma atividade especializada e necessita da formação profissional para que seja exercitada. Ela também está relacionada com as inovações que buscam novas possibilidades de “ensinar, aprender, pesquisar e avaliar”. Segundo a autora, a docência “ganha significado quando é exercida com ética” (VEIGA, 2010, p. 14). Formar professores implica compreender a importância do papel da docência, propiciando uma profundidade científico-pedagógica que os capacite a enfrentar questões fundamentais da escola como instituição social, uma prática social que implica as ideias de formação, reflexão e crítica (VEIGA, 2010, p. 14). Embasada nas ideias de Leitão de Mello, Veiga (2010) discorre a respeito do processo de formação de professores que é algo contínuo, “multifacetado, plural, tem início e nunca tem fim” (p. 15). Também é preciso ressaltar que a formação de professores é uma ação 10 progressiva, que deve considerar o contexto social, relacionar formação pessoal e profissional e ser uma atividade coletiva. Veiga (2010) cita Nóvoa para desenvolver a ideia de identidade profissional. Assim, afirma que “a construção da identidade docente é uma das condições para sua profissionalização e envolve o delineamento da cultura do grupo de pertença profissional, sendo integrada ao contexto sociopolítico” (VEIGA, 2010, p. 17). Dessa maneira, é possível destacar três dimensões com relação à identidade docente: o desenvolvimento pessoal; o desenvolvimento profissional; e o desenvolvimento institucional (NÓVOA apud VEIGA, 2010). De acordo com a autora, os saberes que fazem parte da docência são: os “saberes específicos, os saberes pedagógicos e os saberes construídos nos espaços da experiência”. Assim, “os saberes que dão sustentação à docência exigem uma formação profissional numa perspectiva teórica e prática” (VEIGA, 2010, p. 20). 1.3. Os saberes docentes Segundo Tardif (2002), é preciso considerar os saberes específicos dos professores que são utilizados e produzidos durante o cotidiano do exercício da sua profissão. Para tanto, também é necessário considerar a subjetividade dos docentes. Assim, o professor: [...] é um ator no sentido forte do termo, isto é, um sujeito que assume sua prática a partir dos significados que ele mesmo lhe dá, um sujeito que possui conhecimentos e um saber-fazer provenientes de sua própria atividade e a partir dos quais ele a estrutura e a orienta (TARDIF, 2002, p. 230). No que diz respeito às relações entre teoria e prática, é preciso ir além da visão tradicional que não considera os saberes produzidos pelos professores a partir da prática. Dessa forma, Tardif (2002) propõe uma visão em que o professor é considerado “um sujeito do conhecimento, um ator que desenvolve e possui sempre teorias, conhecimentos e saberes de sua própria ação” (p. 235). O autor destaca a importância do “saber” e “saber-fazer” com relação ao trabalho. Assim, “o trabalho – como toda práxis – exige, por conseguinte, um sujeito do trabalho, isto é, um ator que utiliza, mobiliza e produz os saberes de seu trabalho” (TARDIF, 11 2002, p. 236). O mesmo acontece com o trabalho docente, que é complexo e depende das “próprias decisões e ações desses atores” (p. 237). Essas ideias apresentadas por Tardif (2002) possibilitam pensar o ensino sob uma perspectiva nova. Essa concepção também possibilita uma série de mudanças no que diz respeito à formação de professores. Assim, “reconhecer que os professores de profissão são sujeitos do conhecimento é reconhecer, ao mesmo tempo, que deveriam ter o direito de dizer algo a respeito de sua própria formação profissional [...]” (TARDIF, 2002, p. 240). Uma outra consideração feita por Tardif (2002) propõe que a formação docente tenha como base os conhecimentos próprios da sua profissão. Assim, de acordo com o autor, é preciso que o currículo tenha mais conteúdos relacionados à profissão docente e considere a realidade escolar. Segundo o autor, este é um dos principais desafios no que diz respeito à formação de professores. Tardif (2002) faz algumas considerações a partir de reflexões e pesquisas ligadas à profissão docente em diversos países que visitou. Baseado nessas experiências, o autor ressalta a ideia de que é preciso possibilitar que os professores sejam os próprios “atores” de suas ações, para que assim eles sejam “reconhecidos como sujeitos do conhecimento” (p. 243). Desse modo, é preciso valorizar o trabalho docente e permitir que os professores tenham autonomia em suas ações profissionais. O autor também defende a ideia da união entre os todos os professores (não importa o nível de ensino) para que não haja “lutas de poder” ou “hierarquias simbólicas” entre os próprios docentes. Seremos reconhecidos socialmente como sujeitos do conhecimento e verdadeiros atores sociais quando começarmos a reconhecer-nos uns aos outros como pessoas competentes, pares iguais que podem aprender uns com os outros (TARDIF, 2002, p. 244). 1.4. O início da prática pedagógica (profissionalização) De acordo com García (1992), os primeiros anos em que o professor inicia a sua profissionalização, representam uma das fases do processo de “aprender a ensinar”. Analisando essa situação, o autor propõe que haja “o planejamento e o desenvolvimento de programas de iniciação à prática profissional” (GARCÍA, 1992, p. 66). Segundo García (1992), embora as fases do processo de formação de professores possam ser distintas com relação ao currículo, é preciso que elas mantenham 12 alguns princípios no que diz respeito à ética, pedagogia e didática. Também deve haver uma relação entre os aspectos curriculares da formação inicial e da formação continuada (formação permanente). Assim, a formação inicial de professores deve ser vista como a etapa inicial de um processo que se desenvolve ao longo do tempo. Em uma pesquisa realizada com professores que iniciaram a sua profissionalização, de acordo com Lima (2010), atualmente o docente necessita estar atento para refletir sobre o seu cotidiano não apenas individualmente, mas também considerando o coletivo. Outro aspecto a ser destacado é a importância do professor estar sempre atualizando seus conhecimentos. Tendo como base as ideias de Tardif e Raymond, Lima (2010) destaca que os saberes dos professores estão interligados às experiências de quando eram alunos. De acordo com os relatos da autora e suas vivências como professora, ela afirma que “não há melhor lugar para aprender a ser professor do que o próprio espaço da sala de aula” (LIMA, 2010, p. 139). Assim, é neste espaço que acontecem as mais diversas experiências e embora não haja sempre acertos, há a possibilidade de repensar determinadas situações. Com base em uma pesquisa, segundo Lima (2010), quando o professor inicia a sua atuação docente, percebe que há uma dicotomia entre os saberes construídos ao longo do curso de formação e os saberes construídos durante a prática cotidiana. Assim, faz-se necessário destacar o período inicial da atuação profissional, no qual os professores ensinam e também aprendem. Lima (2010) cita as ideias de Tardif para explicitar que os professores constroem e relacionam saberes à medida que iniciam a sua atuação profissional, vivenciam experiências e interagem socialmente. De acordo com suas necessidades, os professores mobilizam estes saberes durante seu constante processo de formação. Com base em Tardif (apud LIMA, 2010), com a investigação desses saberes seria possível buscar uma proposta de formação docente baseada na articulação entre os saberes construídos pelos professores e os saberes desenvolvidos pelas universidades. Huberman (apud LIMA, 2010) descreve a respeito das fases pelas quais o professor iniciante passa no início de seu desenvolvimento profissional. Schön, Nóvoa e Pérez-Gómez (apud LIMA, 2010) ressaltam a importância da reflexão ao longo da prática profissional. Dessa forma, o “professor precisa refletir sobre como ensina” e “também sobre seu próprio processo de aprendizagem” (LIMA, 2010, p. 142). Este pensamento remete-se à ideia de “aprendente” (FREIRE apud LIMA, 2010). 13 Considerando os dilemas que podem ser encontrados em sala de aula, é possível perceber que este é um espaço complexo, assim, é preciso saber lidar com situações imprevistas e diferentes possibilidades. Embasado nas ideias de Pais, um dos dilemas citados por Lima (2010) referese ao fato de que, muitas vezes, os professores não sabem identificar o que os alunos já sabem. Para que essa situação seja revertida: [...] é preciso compreender que o saber em construção é o rompimento com o entendimento do saber pronto e acabado e admitir um contexto escolar complexo, dinâmico e plural, composto por sujeitos (professores e alunos) em constante movimento de aproximação dos saberes – daí a importância da mediação didática, que requer a contextualização do processo pedagógico (LIMA, 2010, p. 146). Segundo Lima (2010), a formação continuada é de extrema importância para os professores, por mais que ela acredite que não há um modo certo e “pronto” para lidar com os dilemas vivenciados no cotidiano escolar. Assim, é importante que os dilemas sejam encarados como desafios, que permitem que haja diversas aprendizagens durante a profissão. Desse modo, não existe uma única maneira de resolver os dilemas em sala de aula, por isso é importante que o professor reflita sobre as situações e sobre o seu papel como educador e busque o caminho que achar mais adequado. Concordando com a autora, os dilemas devem ser vistos como desafios a serem enfrentados pelos educadores, em busca de novas aprendizagens. Assim, é preciso destacar a relevância da Formação Continuada neste processo, uma vez que ela contribui em muitos aspectos, inclusive para que haja novos conhecimentos, novas possibilidades e reflexões a respeito do trabalho que está sendo desenvolvido em busca da constante melhoria do processo de ensino-aprendizagem. 14 Seção 2 - A relação entre o educador e a escola: cultura organizacional e gestão escolar A seção 2 descreve a respeito do ambiente de trabalho do educador, ou seja, a escola. Dentro deste espaço, a gestão escolar e o processo de organização são essenciais. Assim, é muito importante que o educador entenda e participe desse contexto. A gestão democrática também é ressaltada neste âmbito, assim como o trabalho coletivo e o processo de planejamento escolar. 2.1. O processo de organização escolar A organização escolar, bem como a gestão, são aspectos muito importantes para compreender os processos que ocorrem dentro do âmbito educacional. Nesse sentido, Libâneo (2008) discorre a respeito da relevância dos professores estudarem estes aspectos e compreenderem o funcionamento das escolas para que assim possam participar da organização da instituição em que trabalham. Segundo Selma Pimenta (apud LIBÂNEO, 2008), é importante que o professor não execute apenas o seu trabalho, mas o compreenda e o analise de forma crítica, tendo consciência da sua função como educador, realizando assim um “trabalho intelectual”. Para tanto, a formação docente deve ter uma perspectiva reflexiva. Assim: [...] a construção da identidade profissional de professor depende em boa parte das formas de organização do trabalho escolar. Em especial, depende de uma boa estrutura de coordenação pedagógica que faça funcionar uma escola de qualidade, propondo e gerindo o projeto pedagógico, articulando o trabalho de vários profissionais, liderando a inovação e favorecendo a constante reflexão na prática e sobre a prática (LIBÂNEO, 2008, p. 40). Dessa forma, além do educador aprender sua profissão no curso de formação, desenvolvê-la no estágio e ter suas próprias experiências, ele também aprende muito no contexto de seu trabalho. Este processo é ao mesmo tempo individual e coletivo, uma vez que o educador deve participar ativamente da organização do trabalho escolar, de forma que ele possa compartilhar conhecimentos com seus colegas e produzir saberes coletivos, aprendendo também a agir coletivamente. 15 Assim, Libâneo (2008) destaca a importância da organização escolar no processo de formação de professores e discorre: O desenvolvimento profissional e a conquista da identidade profissional dependem de uma união entre os pedagogos especialistas e os professores, assumindo juntos a gestão do cotidiano da escola, articulando num todo o projeto pedagógico, o sistema de gestão, o processo de ensino e aprendizagem, a avaliação. Fazendo assim, ter-se-á uma organização preocupada com a formação continuada, como a discussão conjunta dos problemas da escola, discussão que é de natureza organizacional, mas principalmente pedagógica e didática (p. 41). A cultura organizacional (que será ressaltada posteriormente) também se faz muito importante neste processo, pois constitui a identidade de cada escola e diferencia uma instituição da outra, evidenciando assim a importância da participação e do trabalho conjunto. Dentro desse contexto, outro aspecto muito importante e que está interligado à organização é o processo de gestão escolar, que será tratado especificamente a seguir. 2.2. A gestão escolar e suas concepções Com relação à gestão escolar, Oyafuso e Maia (2004) afirmam que ela referese a: [...] um conjunto de ações que não se bastam na administração das rotinas. Trata-se de planejar, promover a integração e a articulação entre os atores e entre os projetos e programas, de promover experiências, de avaliar e de interferir tendo em vista o aperfeiçoamento de todo o processo. Trata-se de construir conhecimento sobre a instituição escolar num movimento que se renova na busca da construção de identidade. Implica na ação coletiva e intencional dos atores escolares visando promover mudanças e tendo como ponto de partida as prioridades definidas no plano escolar (OYAFUSO; MAIA, 2004, p. 25-26). Segundo Libâneo (2009, p. 325), “as concepções de gestão escolar refletem diferentes posições políticas e pareceres acerca do papel das pessoas na sociedade”. Dessa forma, o autor discorre a respeito de diferentes concepções de gestão escolar: a concepção técnico-científica (ou científico-racional) propõe uma direção centralizada, há ênfase na estrutura organizacional, a escola funciona racionalmente em busca de eficácia e eficiência. Já na concepção sociocrítica, o processo de tomada de decisões ocorre coletivamente, a organização escolar é vista como uma construção social, o que possibilita a participação de 16 professores, alunos, responsáveis e comunidade escolar. Além dessas duas, alguns estudos sobre organização e gestão escolar, ampliaram o leque com relação aos estilos de gestão, o que resultou em quatro concepções: a técnico-científica (já denominada anteriormente) e as outras três que correspondem à concepção antes definida como sociocrítica: autogestionária, interpretativa e democrático-participativa. Libâneo (2009) destaca a última que: [...] baseia-se na relação orgânica entre a direção e a participação dos membros da equipe. Acentua a importância da busca de objetivos comuns assumidos por todos. Defende uma forma coletiva de tomada de decisões. Entretanto, uma vez tomadas as decisões coletivamente, advoga que cada membro da equipe assuma sua parte no trabalho, admitindo a coordenação e a avaliação sistemática da operacionalização das deliberações (LIBÂNEO, 2009, p. 325). A concepção democrático-participativa enfatiza as relações humanas e o trabalho coletivo. As decisões tomadas devem ser colocadas em prática, contribuindo assim para o processo de “ensino/aprendizagem”. Assim, a “gestão democrática, por um lado, é atividade coletiva que implica a participação e objetivos comuns; por outro, depende também de capacidades e responsabilidades individuais e de uma ação coordenada e controlada” (LIBÂNEO, 2009, p. 326). O autor também ressalta algumas ações em busca de uma gestão baseada na perspectiva democrático-participativa. Para tanto, destaca o trabalho coletivo, que “possibilita encarar as mudanças necessárias, rompe com as práticas individualistas” (LIBÂNEO, 2009, p. 383) e contribui para a melhoria da aprendizagem dos alunos. Também é importante a construção de uma comunidade democrática de aprendizagem na qual há a participação ativa dos envolvidos no processo escolar nas decisões relacionadas “com os conteúdos, com os processos de ensino, com as atividades escolares de variada natureza, com a avaliação” (p. 386). Esse caráter de diálogo e de compartilhamento de significados entre as pessoas da comunidade escolar possibilita à escola como um todo adquirir experiência, acumular recursos cognitivos e operacionais, construir competências coletivas (LIBÂNEO, 2009, p. 387). A promoção de ações de desenvolvimento profissional também se faz necessária em busca de uma gestão democrático-participativa. Ela diz respeito aos processos de formação continuada, que podem ocorrer “durante” ou “fora da jornada de trabalho” (p. 388). 17 A formação continuada é a garantia do desenvolvimento profissional permanente. Ela se faz por meio do estudo, da reflexão, da discussão e da confrontação das experiências dos professores. É responsabilidade da instituição, mas também do próprio professor. O desenvolvimento pessoal requer que o professor tome para si a responsabilidade com a própria formação, no contexto da instituição escolar (LIBÂNEO, 2009, p. 389). Dentre as ações citadas, Libâneo (2009) ressalta a importância da busca pelo ensino e pela aprendizagem efetiva dos alunos nesse contexto. Assim, “serão inúteis as práticas democráticas de gestão, a descentralização, a avaliação institucional externa, a participação dos pais, etc., se os alunos não aprimorarem sua aprendizagem, se não aprenderem mais e melhor” (p. 395). Desse modo, é importante refletir sobre como a organização escolar pode contribuir para a aprendizagem dos alunos. 2.3. O planejamento escolar Com base nas ideias de Libâneo (2008), o planejamento escolar é de essencial importância para a instituição, pois é por meio deste que são traçados objetivos, metas, “possibilidades, procedimentos e recursos a serem empregados, tempo de execução e formas de avaliação” (p. 149). O planejamento não é somente individual, uma vez que deve haver uma elaboração coletiva dos planos e uma discussão na qual as pessoas possam opinar. O planejamento é um processo contínuo de conhecimento e análise da realidade escolar em suas condições concretas, de busca de alternativas para a solução de problemas e de tomada de decisões, possibilitando a revisão dos planos e projetos, a correção no rumo das ações (LIBÂNEO, 2008, p. 150). Oyafuso e Maia (2004) também ressaltam a importância do planejamento para as instituições escolares. O Plano Escolar possibilita o planejamento de ações em busca dos objetivos da escola. Assim, existem várias maneiras de elaborá-lo, no entanto, é importante que se considere a realidade da escola e se busque o desenvolvimento dos alunos. Dessa forma, “a integração, o trabalho em equipe e diálogo constante” (p. 34) são fatores relevantes para o desenvolvimento da política da escola e elaboração do Plano Escolar. O Plano Escolar é um dos instrumentos que permite aos educadores desenvolver de forma competente a proposta educacional de sua escola, a 18 Política da Escola. Deve ser um instrumento simples, mas concreto, flexível e adequado à situação de cada escola (OYAFUSO; MAIA, 2004, p. 24). Assim, o Plano Escolar permite que haja o acompanhamento do que foi planejado, possibilitando assim uma análise do que já foi feito, sempre buscando melhorar as ações futuras e evitando ações improvisadas. Embora a elaboração do Plano possa ser considerada uma atividade complexa, ela se faz essencial para a organização da instituição escolar. O trabalho coletivo deve ser destacado como fundamental no processo de planejamento, uma vez que é importante que todos os envolvidos na comunidade escolar participem e contribuam para a elaboração do Plano Escolar. Ressaltando essa ideia, segundo Oyafuso e Maia (2004), “as experiências têm provado que, ao discutir o plano com o conjunto da comunidade escolar, inicia-se o processo de construção coletiva da identidade da Escola” (p. 81). O Projeto Pedagógico também compõe o Plano Escolar e é definido como “eixo central” deste, uma vez que “tem como objetivo principal o desenvolvimento dos alunos e o do processo de aprendizagem” (OYAFUSO; MAIA, 2004, p. 94). De acordo com Libâneo (2008), o projeto pode ter muitas denominações, que podem se referir ao mesmo objeto ou a um contexto mais abrangente. Assim, cada educador e/ou escritor utiliza a expressão que considera ser a mais adequada à representação do termo. Como se denomina esse projeto? Projeto educativo, projeto pedagógico, projeto político-pedagógico, projeto pedagógico-curricular, projeto curricular, plano de escola? Não há uma denominação que tenha unanimidade entre os educadores. A rigor, o que importa é o processo de ação-reflexão-ação que se instaura na escola envolvendo todos os seus integrantes. Todavia, há quem considere o projeto educativo mais amplo que o projeto pedagógico, este incluindo naquele. Outros entendem que projeto pedagógico é a mesma coisa que projeto curricular, alguns colocam o projeto curricular antes do pedagógico e há os que preferem chamar tudo de plano da escola (LIBÂNEO, 2008, p. 161-162). O projeto pedagógico-curricular (expressão utilizada por Libâneo, 2008) faz parte do planejamento escolar. Ele é um “documento que detalha objetivos, diretrizes e ações do processo educativo a ser desenvolvido na escola, expressando a síntese das exigências sociais e legais do sistema de ensino e os propósitos e expectativas da comunidade escolar” (LIBÂNEO, 2008, p. 151). O projeto representa a cultura da escola e a recriação desta, em busca dos desejos da escola e transformação da realidade. 19 De acordo com Libâneo (2008, p. 151): O projeto, portanto, orienta a prática de produzir uma realidade: conhece-se a realidade presente, reflete-se sobre ela e traçam-se as coordenadas para a construção de uma nova realidade, propondo-se as formas mais adequadas de atender necessidades sociais e individuais dos alunos. O projeto pedagógico é inconcluso, uma vez que deve ser sempre reformulado de acordo com o que já foi feito, verificando se o que foi previsto precisa ser alterado ou se é necessário acrescentar alguma coisa. Basicamente, para a elaboração do projeto é preciso contextualizar e caracterizar a instituição escolar, estabelecer os objetivos e as propostas de trabalho e elaborar um modo de avaliação do projeto. Riscal (2009) também escreve a respeito do Projeto Político Pedagógico. De acordo com a autora, a elaboração do projeto deve ser feita coletivamente, levando em consideração a realidade escolar e suas expectativas para o futuro, identificando os possíveis problemas presentes e as alternativas para buscar solucioná-los. Dessa forma, não existe um “modelo” para todas as escolas, entretanto a elaboração do projeto político pedagógico deve partir de alguns pressupostos. O Projeto Político Pedagógico deve explicitar os objetivos, representar as intenções, sonhos e expectativas dos envolvidos no processo educacional e possibilitar que haja a participação de todos. Nesse sentido, a elaboração do Projeto Político Pedagógico deve ser norteada pelo conceito de gestão democrática e ter como foco o processo de construção coletiva. A autonomia é muito importante neste processo e é um dos aspectos essenciais para que haja a realização da democracia, uma vez que a participação permite que as pessoas expressem as suas opiniões e respeitem as dos demais. É possível perceber que os autores citados (respectivamente Oyafuso; Maia, 2004; Libâneo, 2008; e Riscal, 2009) ressaltam a importância do trabalho coletivo no processo de organização escolar. Assim, o trabalho conjunto e a participação se fazem fundamentais na busca pela gestão democrática. 2.4. O desenvolvimento profissional do educador Além da importância da gestão escolar no trabalho do educador, não se pode perder de vista o processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, é importante que a 20 organização escolar contribua para o desenvolvimento profissional dos educadores e a aprendizagem dos alunos. Considerando a teoria de McDiarmid (apud MIZUKAMI et al., 2002), os professores necessitam aprender com as situações vivenciadas, os conhecimentos e as experiências compartilhadas. McDiarmid (apud MIZUKAMI et al., 2002) descreve que os conteúdos estão no centro dos assuntos que dizem respeito às políticas públicas de educação. Assim, pode-se dizer que a relação entre o professor e os alunos é mediada com base nos conteúdos. Dessa maneira, os professores necessitam assumir uma postura crítica nesse processo de mediação, uma vez que “as formas pelas quais os estudantes entram em contato e interagem com o currículo são tão vitais quanto o próprio conteúdo” (MIZUKAMI et al., 2002, p. 73). Assim, torna-se essencial que os cursos de formação docente levem em conta que além de compreender os conteúdos, os professores devem saber de que forma ensiná-los aos alunos. Para que haja o desenvolvimento profissional dos professores, é preciso que existam oportunidades para isso no cotidiano escolar, de forma que os docentes possam de fato aproveitar as oportunidades em busca de novas aprendizagens profissionais. Estas devem contribuir para a análise e melhoria das práticas pedagógicas. Desse modo: [...] Tendo oportunidade – dentro da rotina organizacional de seu trabalho diário – para refletir sobre as implicações que a reforma coloca para seu ensino, os professores pouco a pouco, provavelmente, serão capazes de identificar em que e como eles necessitam mudar, e aprender muito melhor o que necessitam mudar (MCDIARMID apud MIZUKAMI et al., 2002, p. 74). McDiarmid (apud MIZUKAMI et al., 2002) também desenvolve a ideia de que o professor deve compreender o mesmo conteúdo escolar de variadas maneiras, para que assim, ao interagir em sala de aula, decida como ensiná-los aos alunos, de forma que eles compreendam, reflitam a respeito das novas ideias e atribuam significados pessoais. Assim, é esperado que os próprios alunos desenvolvam as suas ideias e elaborem questões em busca de uma maior compreensão acerca do assunto. Dentro desse contexto, os professores precisam de tempo para se dedicar a aprender mais sobre a sua área de atuação, saber e refletir sobre como ensinar determinados conteúdos, conhecer e entender a organização da escola, saber se relacionar com os responsáveis pelos alunos e a comunidade escolar e repensar diversas questões. 21 Assim: A escola, enquanto local de trabalho, assume importância considerável na promoção do desenvolvimento profissional de seus participantes. Nesses termos, esse desenvolvimento, incorporado pelos próprios participantes, reverte em benefícios para a escola e para o processo de ensinoaprendizagem nela desenvolvido (MIZUKAMI et al., 2002, p. 80). De acordo com Libâneo (2009), o desenvolvimento profissional diz respeito “ao aprimoramento profissional do pessoal docente, técnico e administrativo no próprio contexto de trabalho” (p. 375). Assim, é na escola que os profissionais podem repensar as suas práticas, de forma que haja uma reconstrução em busca de transformações. Nóvoa (apud LIBÂNEO, 2009) ressalta a ideia de que o desenvolvimento profissional deve estar relacionado com o desenvolvimento pessoal e com o desenvolvimento organizacional. Assim, “as ações de desenvolvimento profissional” devem estar vinculadas às “práticas de gestão e da cultura organizacional” (LIBÂNEO, 2009, p. 375-376). Nesse contexto, cabe definir a ideia de cultura organizacional, que de acordo com Libâneo (2009, p. 320), diz respeito ao “conjunto de fatores sociais, culturais e psicológicos que influenciam os modos de agir da organização como um todo e o comportamento das pessoas em particular”. Dessa forma, a escola pode contribuir para o desenvolvimento docente, por ser um ambiente de aprendizagem em que há trocas de ideias entre os profissionais e a organização, possibilitando a constituição da cultura escolar. Assim, os educadores também podem contribuir, quando necessário, para as mudanças na escola em busca da melhoria do processo de ensino-aprendizagem. Fátima Abdalla (apud LIBÂNEO, 2009) estabelece, em um estudo feito a respeito do assunto, quatro fatores que interferem nas relações entre trabalho docente e organização escolar. São eles: “a gestão, o projeto político-pedagógico, a organização e articulação do currículo e o investimento no desenvolvimento profissional dos professores” (p. 376). Assim, é importante ressaltar o fato de que a cultura organizacional pode influenciar o desenvolvimento docente, assim como os professores podem contribuir para construção da cultura dentro do espaço escolar. Cabe, nesse sentido, destacar o papel da direção e da coordenação pedagógica da escola relativo ao apoio e à sustentação desses espaços de reflexão, de investigação e de tomada de decisões, a fim de instaurar uma cultura de colaboração, como ingrediente da gestão participativa (LIBÂNEO, 2009, p. 377). 22 2. 5. Desafios e mudanças: participação e gestão democrática De acordo com Libâneo (2008), atualmente o ensino tem passado por diversas mudanças, que acabam influenciando a identidade do professor e a gestão escolar, que também são afetados por essas transformações. Dessa forma, o autor ressalta que “as escolas precisam organizar-se para promover a mudança, mas respeitando os significados, os valores, as atitudes e as práticas das pessoas” (p. 38). Este processo deve ser visto de maneira positiva, como uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e profissional. Para que isso ocorra, é preciso que haja uma articulação entre a prática e a reflexão, uma vez que elas devem caminhar juntas, pois estão entrelaçadas. Na visão de Lück (2000), a sociedade está passando por diversas mudanças e atualmente a escola se encontra no centro das atenções e espera-se que ela atenda às demandas sociais de diferentes ordens. Assim: [...] A educação, no contexto escolar, se complexifica e exige esforços redobrados e maior organização do trabalho educacional, assim como participação da comunidade na realização desse empreendimento, a fim de que possa ser efetiva, já que não basta ao estabelecimento de ensino apenas preparar o aluno para níveis mais elevados de escolaridade, uma vez que o que ele precisa é de aprender para compreender a vida, a si mesmo e a sociedade, como condições para ações competentes na prática da cidadania. E o ambiente escolar como um todo deve oferecer-lhe esta experiência (LÜCK, 2000, p. 12). Dessa forma, segundo a autora, a sociedade passa a exigir uma escola que demonstre sua competência e começa a contribuir com esse processo e decidir sobre o mesmo, o que faz com que existam parcerias “entre organizações não-governamentais e empresas, com a escola, assim como o bom funcionamento de Associações de Pais e Mestres” (LÜCK, 2000, p. 12). Essa alteração na concepção de educação e da relação “escola/sociedade” faz com que haja um novo enfoque na organização escolar. Isso possibilita que a gestão esteja associada à participação e a um processo em equipe. Ainda de acordo com Lück (2000), a participação de todos os envolvidos no processo escolar é de extrema importância para a gestão democrática, bem como a elaboração e execução do plano de desenvolvimento da escola. Também é preciso que a proposta educacional esteja articulada com as necessidades sociais da realidade escolar. 23 No que diz respeito à democracia, segundo Ferreira (2000), é preciso que todas as pessoas tenham igualdade de oportunidades e possibilidades de desenvolvimento humano, que ocorrem “através de atos inovadores, de novas idéias, de novas formas sociais que despertam novas necessidades e abrem novas possibilidades de ação” (p. 170). Isso só pode ser concretizado por meio da gestão democrática, que abre espaço para a participação das pessoas e rompe com a ideia do autoritarismo. A participação surge da necessidade do ser humano trabalhar, se organizar conjuntamente dentro das instituições, se associar para analisar e tomar decisões. Assim, de acordo com a autora, ocorre a participação, que é sempre política “e que, associada à formação de qualidade, vai possibilitar o exercício da cidadania” (p. 170). Ferreira (2000) associa a ideia de participação com a educação para a emancipação. Neste processo, é o próprio sujeito que deve ter consciência dos acontecimentos e se emancipar, porém o papel do educador se faz relevante nessa situação, uma vez que ele pode apoiar e motivar, contribuindo assim para que o próprio indivíduo se emancipe. “O desafio mais importante – e aí aparece o papel da educação – está em arregimentar todas as forças no sentido de preservar e cultivar a emancipação contra os riscos de manipulação” (FERREIRA, 2000, p. 171). Embasada em Apple e Beane, Ferreira (2000) destaca a importância de um currículo voltado para os valores, a solidariedade e a ética. A autora também aponta o diálogo como algo essencial neste processo. A ideia de conhecimento-emancipação (SANTOS apud FERREIRA, 2000) prevê uma ética que não seja individualista, mas que tenha como base a solidariedade e que contribua para que as pessoas se sintam parte de um coletivo (sociedade) e façam parte de uma responsabilidade conjunta. O conhecimento-emancipação também supõe a participação política, que tem como princípio a democracia. Com isso, “[...] a participação é um processo de democratização emancipatória na conquista incessante de espaços novos e de formas novas de cidadania individual e coletiva” (FERREIRA, 2000, p. 173). A emancipação humana se conquista na solidariedade e na participação que o conhecimento emancipação é capaz de construir. O conhecimentoemancipação é assim um processo incessante de criação de sujeitos capazes de reciprocidade, capazes de diálogo, de participação consciente. Urge reforçar e reconstruir incessantemente a gestão democrática da educação, em todo o amplo espaço público e educacional, comprometida com a formação de homens e mulheres competentes e capazes de construir, através da participação, sua autonomia, como seres humanos, realizados e felizes (FERREIRA, 2000, p. 173). 24 Assim, além de destacar a relevância dos professores participarem do processo de gestão e organização escolar, é importante pensar e refletir de que modo as instituições escolares podem promover uma gestão que seja realmente democrática e possibilite a participação de todos. Também é preciso que no processo de ensino-aprendizagem, haja a preocupação com a autonomia dos alunos, que devem saber expressar as suas opiniões, analisar as situações de forma crítica e refletir sobre as mesmas. 25 Seção 3 - Desafios na atuação dos educadores: as contribuições da Formação Continuada para a atuação pedagógica Esta seção tem como objetivo discutir as contribuições da Formação Continuada para a vida escolar e profissionalização do educador, tendo em vista que a formação é um processo constante. É preciso considerar as mudanças ocorrentes na sociedade, especificamente na educação e a necessidade do educador em acompanhar essas transformações, refletir sobre as mesmas e construir novos saberes. 3.1. As mudanças e a necessidade de um processo contínuo de formação Atualmente á possível perceber que existem muitos desafios que devem ser enfrentados pelas escolas em busca da aprendizagem efetiva dos alunos. Dessa forma, segundo Mizukami et al. (2002), os educadores necessitam estar preparados para lidar com uma realidade que se modifica a cada dia e exige deles uma postura frente às transformações no âmbito escolar. Segundo Mizukami et al. (2002), a escola está se tornando mais complexa, o que faz com que a profissão docente não se restrinja ao “domínio dos conteúdos” e à “técnica” utilizada para a transmissão destes. Atualmente, é preciso que o professor lide com um “conhecimento em construção” (p. 12) e com a mudança constante. Desse modo, além de conhecer os conteúdos, o docente também deve aprender por meio de ações e atitudes. Muitas vezes, no dia-a-dia escolar, o professor se depara com situações nas quais ele não sabe como agir. Com isso, é importante que o educador esteja preparado para refletir sobre a realidade e elaborar novas maneiras de agir. Começa então a surgir a ideia da formação como um continuum, na qual o professor também constrói conhecimentos de acordo com as situações vivenciadas em seu cotidiano. Com isso, segundo Imbernón (apud MIZUKAMI et al., 2002) um dos momentos pelos quais os docentes adquirem e constroem conhecimento é o processo de “formação permanente”. Assim, ao mesmo tempo em que se atribui grande força às experiências do professor acumuladas ao longo de sua vida – que, em geral, constituem inspiração (ou anti-inspiração), na maioria das vezes inconsciente, à sua configuração como um profissional ao longo da carreira – ,entende-se que 26 essa configuração deva ser acompanhada pelo que o presente trabalho entende como processo de formação continuada (MIZUKAMI et al., 2002, p. 16). Com isso, a reflexão é muito importante neste processo, uma vez que contribui para interligar a formação inicial, a formação continuada e as situações vivenciadas pelos professores ao longo de sua profissão. Nesse sentido, de acordo com Mizukami et al. (2002, p. 18), o professor “deve buscar o equilíbrio entre a reflexão e a rotina, entre o ato e o pensamento, não se entregando a modismos, mas decidindo conscientemente o caminho a seguir como professor que constrói sua própria prática de forma reflexiva”. É certo que não se pode substituir a formação inicial pela formação continuada, pois as duas fazem parte de um processo constante que deve estar articulado. Dessa forma, é preciso considerar a importância da formação inicial no processo “total” de formação, embora ela seja apenas um início de um processo que deve ser contínuo. De acordo com Libâneo (2008), é preciso considerar que a educação acontece em diversos lugares, portanto a escola não pode ser um espaço restrito à transmissão de informação sobre as matérias e os conteúdos dos livros didáticos. Ela deve ir além e buscar unir a cultura experenciada na sociedade com a cultura formal. Com isso, o professor tem o papel essencial de contribuir para que os alunos atribuam significados próprios “às mensagens e informações recebidas das mídias, multimídias e formas diversas de intervenção educativa urbana” (p. 52). Assim, os alunos poderão analisar as informações recebidas de uma maneira crítica, compreendendo os significados da cultura e da ciência. Desse modo, é preciso que a escola: [...] proporcione não só o domínio de linguagens para a busca da informação, mas também para a criação da informação. Ou seja, a escola precisa articular sua capacidade de receber e interpretar informação, com a de produzi-la, considerando-se o aluno sujeito do seu próprio conhecimento (LIBÂNEO, 2008, p. 53). Assim, Libâneo (2008) ressalta que a formação docente deve contribuir para a construção de novos conhecimentos. Nesse sentido, a formação inicial é de suma importância para o professor, pois permite além do conhecimento, a identificação com a profissão. Porém, é na formação continuada que a identidade do educador se consolida por meio do contexto do seu trabalho, “visando ao aperfeiçoamento profissional teórico e prático” e “ao desenvolvimento de uma cultura geral mais ampla, para além do exercício profissional” (p. 27 227). A formação permanente também contribui para a reflexão e a mudança nas práticas docentes, uma vez que é preciso buscar soluções para as possíveis dificuldades da profissão. Assim, segundo o autor: A formação continuada é uma maneira diferente de ver a capacitação profissional de professores. Ela visa ao desenvolvimento pessoal e profissional mediante práticas de envolvimento dos professores na organização da escola, na organização e articulação do currículo, nas atividades de assistência pedagógico-didática junto com a coordenação pedagógica, nas reuniões pedagógicas, nos conselhos de classe etc (LIBÂNEO, 2008, p. 78). De acordo com o autor, o processo de formação continuada pode ocorrer dentro ou fora da jornada de trabalho. Muitas vezes, as situações mais conhecidas são as que ocorrem fora da jornada de trabalho, uma vez que dizem respeito a “congressos, cursos, encontros, palestras, oficinas” (p. 229). Porém, existem algumas ações que contribuem para o desenvolvimento profissional e muitas vezes não são vistas como parte integrante de uma formação continuada. Assim, Libâneo (2008) explicita as atividades que ocorrem dentro da jornada de trabalho, permitindo que ampliemos a nossa compreensão sobre o assunto. São elas: [...] ajuda a professores iniciantes, participação no projeto pedagógico da escola, entrevistas e reuniões de orientação pedagógico-didática, grupos de estudo, seminários, reuniões de trabalho para discutir a prática com colegas, pesquisas, minicursos de atualização, estudos de caso, conselhos de classe, programas de educação a distância, etc [...] (p. 229). As reuniões de Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) também contribuem para a formação continuada dos educadores, portanto devem ser vistas como elemento fundamental dentro do processo escolar. Nesse contexto, Libâneo (2008) descreve que na nova concepção de formação é importante que os professores sejam pesquisadores, analisem e reflitam sobre as suas práticas, buscando novos meios de ensinar, tendo consciência das suas dificuldades e podendo desenvolver um trabalho coletivo com seus colegas de profissão. 3.2. Da concepção clássica ao desenvolvimento de novas perspectivas 28 No que diz respeito à formação continuada docente, segundo Demailly (apud COSTA, 2004), existem quatro categorias. São elas: a forma universitária, a forma escolar, a forma contratual e a interativo-reflexiva. A autora destaca o último modelo, que possibilita “o prazer da construção autônoma, trazendo respostas aos problemas vivenciados, aborda a prática de maneira global e permite a criação de novos saberes para a profissão” (COSTA, 2004, p. 68). Nóvoa (apud COSTA, 2004) divide os modelos em duas categorias: estruturantes e construtivistas. Os modelos estruturantes têm como base a racionalidade técnica e científica. Já os modelos construtivistas abrangem o processo de reflexão considerando as práticas docentes. De acordo com Costa (2004), estes modelos podem proporcionar aprendizagens significativas, ocasionando transformações que são relevantes dentro do espaço escolar. De acordo com Costa (2004), as concepções citadas por Demailly e Nóvoa (apud COSTA, 2004) devem ser analisadas como modelos teóricos, uma vez que os próprios autores compreendem que, durante a prática docente, os modelos não estão sozinhos e para analisá-los, é preciso considerar o contexto de cada situação. Assim, é relevante que os educadores conheçam e compreendam essas perspectivas e saibam que elas variam na prática, podendo se misturar e criar novas concepções. Diante disso, é muito importante que não se perca de vista o foco da formação continuada. Segundo Candau (1996), a formação continuada é um processo muito relevante que necessita ser analisado de forma crítica. No que diz respeito à concepção definida como “clássica”, geralmente os professores que já desempenham sua profissão retornam às Universidades para participar de cursos de níveis variados ou congressos e simpósios. Nessa tendência, as Universidades são locais privilegiados por serem consideradas como espaços do conhecimento. Essa visão, muitas vezes, deixa de considerar as “escolas de primeiro e segundo graus, onde se supõe ser possível adquirir o avanço científico e profissional” (p. 141). A autora cita algumas modalidades que podem ser consideradas dentro da perspectiva considerada como “clássica” e faz alguns questionamentos que nos convidam a refletir sobre essa tendência de formação continuada, que pode fazer com que haja uma dicotomia entre teoria e prática. Desse modo, foram surgindo outras concepções que podem não estar sozinhas durante a prática, podendo variar de acordo com o contexto e até mesmo se misturar. 29 Atualmente, há o desenvolvimento de novas tendências de formação continuada, em busca de uma concepção que leve em conta o processo de reflexão. Essa perspectiva considera as relações estabelecidas dentro do espaço escolar, visando à reconstrução da identidade docente. Candau (1996) sintetiza três aspectos que devem ser levados em consideração no que diz respeito à formação continuada docente: a escola como “locus da formação continuada” (p. 143); a “valorização do saber docente” (p. 145) e o “ciclo de vida dos professores” (p. 147). Primeiramente, é preciso considerar “as diferentes etapas do desenvolvimento profissional”. Desse modo, as propostas de formação não devem promover ações padronizadas e sim levar em conta os diferentes aspectos dos professores. Ver a escola como locus da formação é muito importante, uma vez que é no cotidiano escolar que os professores aprendem, adquirem experiências e “aprimoram” sua formação. Porém, para que isso aconteça de fato, é preciso que haja um processo de reflexão a respeito da prática pedagógica e um trabalho conjunto por parte dos educadores. A prática também deve permitir que os possíveis problemas da escola sejam identificados, de forma a buscar soluções. Nesse sentido, Nóvoa (apud CANDAU, 1996) discorre: A formação continuada deve estar articulada com o desempenho profissional dos professores, tomando as escolas como lugares de referência. Trata-se de um objetivo que só adquire credibilidade se os programas de formação se estruturarem em torno de problemas e de projetos de ação e não em torno de conteúdos acadêmicos (p. 144). Assim, foram feitas experiências no sentido de buscar articular o processo de formação com o próprio espaço em que o trabalho acontece, ou seja, a escola. Atualmente esse aspecto ainda é muito refletido no que diz respeito às pesquisas e estudos sobre formação continuada docente. Baseado nas ideias de Tardif, Lessard e Lahaye (apud CANDAU, 1996), a valorização do saber docente também deve ser destacada nesse contexto, uma vez que as experiências dos professores devem ser reconhecidas e valorizadas no ambiente educativo, pois esses conhecimentos construídos por meio das vivências cotidianas e essas experiências formam a cultura docente em ação (CANDAU, 1996). Assim, segundo a autora, é importante que as propostas de formação continuada considerem esses saberes construídos pelos professores. 30 O terceiro aspecto fundamental nesse processo diz respeito ao ciclo de vida dos professores. Nesse sentido, Candau (1996) cita alguns estudos de Huberman que contribuíram para se pensar esse aspecto dentro da formação docente. Desse modo, o autor define algumas etapas que ocorrem ao longo da “carreira” dos professores: a entrada na carreira, etapa de ‘sobrevivência e descoberta’; a fase de estabilização, momento de identificação profissional e segurança; a fase de diversificação, momento de questionamento, de experimentação, de buscas plurais; o momento de serenidade e distância afetiva e/ou de conservadorismo e lamentações e, finalmente, atinge-se um momento de desinvestimento, de recuo e interiorização, característica do final da carreira profissional (CANDAU, 1996, p. 149). Este é um processo complexo e que deve ser considerado pelas propostas de formação continuada, visto que elas devem levar em conta as necessidades do educador de acordo com cada período de sua profissão. Dessa forma, é preciso que os cursos não sejam padronizados e “permitam aos professores explorar e trabalhar os diferentes momentos de seu desenvolvimento profissional de acordo com suas necessidades específicas” (CANDAU, 1996, p. 149). Essas novas perspectivas de formação continuada permitiram novos olhares e reflexões, possibilitando o desenvolvimento de novas pesquisas e novos processos de formação. Nesse sentido, retomando alguns aspectos, é preciso valorizar a escola como espaço de desenvolvimento profissional dos professores, identificar e valorizar os saberes por eles construídos ao longo do cotidiano escolar, considerar e respeitar as etapas da profissão docente. Isso deve ser feito de maneira reflexiva, possibilitando que os próprios professores compreendam e contribuam para esse processo. Silva e Araújo (2005) citam as diversas novas tendências de formação continuada que têm como base a perspectiva crítico-reflexiva, o que permite “adotar um conceito de formação que consiste em construir conhecimentos e teorias sobre a prática docente, a partir da reflexão crítica” (p. 2). Dessa forma, os autores fizeram um estudo com o objetivo de identificar e explicitar o processo de reflexão nas obras de Paulo Freire. Desta forma, este estudo teve como objetivo recuperar nas obras de Freire o conceito de reflexão e compreender qual a contribuição desse conceito para a formação continuada de professores, visando a partir de então, resgatar o aporte fundamental que o mesmo trouxe para a constituição desse olhar reflexivo do docente sobre a sua prática (SILVA; ARAÚJO, 2005, p. 3). 31 Com base na teoria de Freire, os autores especificam que a reflexão aparece no “pensar para o fazer” e no “pensar sobre o fazer” (p. 4). Assim, segundo Freire (apud SILVA; ARAÚJO, 2005), a reflexão nasce da curiosidade, que aos poucos se transforma em crítica. Nesse contexto, o autor desenvolve duas categorias: a crítica e a formação permanente. Desta forma, não basta refletir sobre a prática pedagógica docente, é preciso refletir criticamente e de modo permanente. Este processo precisa estar apoiado em uma análise emancipatório-política, para que os professores em formação possam visualizar as operações de reflexão no seu contexto sóciopolítico-econômico-cultural mais amplo (SILVA; ARAÚJO, 2005, p. 5). Na visão de Freire (apud SILVA; ARAÚJO, 2005), o processo de formação continuada deve estar interligado à formação inicial, possibilitar um pensamento críticoreflexivo, considerar as experiências docentes, incentivar a autonomia e o trabalho conjunto. Também é importante considerar a escola como ambiente formativo do professor, onde o conhecimento é construído. Nesta direção, é preciso defender um processo de formação de professores em que as escolas sejam concebidas como uma instituição essencial para o desenvolvimento de uma democracia crítica e também para a defesa dos professores como intelectuais que combinam a reflexão e a prática, a serviço da educação dos estudantes para que sejam cidadãos reflexivos e ativos (GIROUX apud SILVA; ARAÚJO, 2005, p. 6). Chaluh (2010) narra uma experiência de Formação Continuada e descreve a respeito da importância da existência de “grupos de formação de professores”. Segundo a autora, estes possibilitam o compartilhamento de experiências e diferentes concepções e a socialização da prática pedagógica. O trabalho coletivo também contribui para este processo, uma vez que a constituição de grupos permite que haja reflexões do que se pode fazer conjuntamente e contribui para que os educadores não tenham a sensação de estarem isolados. Pensar na constituição de grupos de formação de professores também possibilita abandonar a sensação de “nos sentirmos sozinhos na escola”, o grupo de formação aparece como uma possibilidade para pensar e refletir acerca do que, ao “estar juntos”, podemos fazer (CHALUH, 2010, p. 87). Segundo Davini (apud CHALUH, 2010), os professores podem investigar a sua própria prática educativa, aprendendo a partir das experiências e construindo 32 conhecimento. A autora também chama atenção para a importância das decisões serem tomadas conjuntamente em um grupo. Chaluh (2010) cita diversos autores para que possamos refletir a respeito da importância de se considerar as experiências vividas pelos professores e relacioná-las com os saberes teóricos nos cursos de formação continuada. Assim, Chaluh (2010) considera “fundamental que os encontros de professores, tanto nas escolas como nos cursos, promovam a linguagem, o diálogo e a interlocução” (p. 91). Para tanto, é preciso criar um ambiente propício para que os professores se sintam à vontade para falar em público sobre as suas experiências, compartilhando assim suas dificuldades e percebendo que há situações semelhantes e que os seus colegas de trabalho podem ajudá-lo. Assim, considerando todas as teorias desenvolvidas pelos autores, é notória a importância do processo de Formação Continuada para a vida dos educadores. Desse modo, a formação docente deve ser vista como um processo “contínuo”, que precisa ser desenvolvido ao longo do tempo, em busca de melhorias para a sua formação, aprendizagem dos alunos e contribuição para a escola. Esse processo deve ser feito por meio da reflexão e atividade conjunta, o que favorece o aprendizado e o desenvolvimento profissional dos educadores. 33 Considerações Finais Ao longo do trabalho, apresentei algumas concepções de diferentes autores para desenvolver a ideia de formação inicial de educadores. Assim, acredito que a tendência crítico-reflexiva possibilite que os educadores analisem suas práticas, desenvolvendo novas ideias e construindo novos conhecimentos. Desse modo, é importante um trabalho conjunto no qual os profissionais possam dialogar com seus colegas de trabalho, discutindo experiências e refletindo sobre seu cotidiano. É nesse contexto que a Formação Continuada deve estar presente, contribuindo assim para que os educadores que já estão inseridos nas escolas possam conhecer diferentes ideias, construir novos conhecimentos, repensando as suas práticas de forma reflexiva e crítica. Assim, eles devem ter consciência do seu papel e responsabilidade e buscar que seus alunos adquiram autonomia para que possam expressar suas opiniões e serem sujeitos críticos na sociedade. Também é muito relevante que os educadores conheçam a gestão e organização da escola em que trabalham, de forma que possam compreender, participar e contribuir para a melhoria da escola, do seu trabalho e da aprendizagem dos alunos. Por fim, em meio a tantas reflexões, acredito que o processo de Formação Continuada contribua muito para a vida profissional do educador, visto que ele precisa estar atualizado em relação às mudanças e enfrentar os desafios postos no cotidiano escolar. Uma formação “contínua” possibilita que os educadores ampliem os olhares a respeito das atividades do dia-a-dia, em busca de novas descobertas, novas aprendizagens, novas expectativas, novos sonhos. Isso refletirá na aprendizagem dos alunos e na melhoria da escola. Esta é uma discussão que, assim como o processo de formação dos educadores, deve ser prolongada e estar sempre em evidência. 34 Referências ALTET, Marguerite. 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