“UM OLHAR REFLEXIVO SOBRE A PARTICIPAÇÃO DOS AGRICULTORES
FAMILIARES LOCALIZADOS NO MUNICÍPIO DE SANTA ROSA/RS ”
Aportes teórico-metodológicos para o trabalho de Extensão Rural
Comunicação
Flávia Inês Carvajal Pérez
Cristiane Maria Tonetto Godoy
Clayton Hillig
Universidade Federal de Santa Maria
Brasil
Email: [email protected] – Fone: (55) 81395395 (55) 32208075
RESUMO
O presente artigo possui a finalidade de relatar as reuniões e as observações, realizadas com
agricultores familiares de diferentes localidades do município de Santa Rosa/RS. Durante as reuniões
buscou-se a participação conjunta dos técnicos e agricultores para o levantamento da realidade das
localidades, bem como as problemáticas existentes e as possíveis ações a serem realizadas na
região. No primeiro momento, foram apresentados pelos técnicos os dados levantados através de
entrevistas semi-estruturadas realizadas em uma etapa anterior as reuniões, neste momento da
reunião, o que pode ser observado é a passividade dos agricultores perante os técnicos. No segundo
momento, para a redução desta passividade e visando a participação dos agricultores utiliza-se a
ferramenta chamada de “visualização móvel”. Neste momento ocorre o processo de horizontalização
entre técnicos e agricultores, pois os mesmos participam expondo suas opiniões (nas tarjetas),
integrando ainda mais o agricultor no processo, pois ele participa com sua opinião/idéias, não é mais
somente um ouvinte, e sim um agente de mudanças. No terceiro momento são apresentados os
croquis da propriedade, com dados fornecidos pelos agricultores durante as entrevistas realizadas.
Os croquis possuem a finalidade de tornar a reunião mais dinâmica e agradável, além de possibilitar
a interação entre os indivíduos, pois é neste momento que os agricultores e a equipe técnica
dialogam sobre diversos assuntos, não somente relacionados aos problemas da localidade e ou
propriedade. Ao final das reuniões, ocorre a desconstrução da hierarquia entre os atores envolvidos e
a valorização do saber empírico do agricultor, surgindo um “saber” que une os conhecimentos da
equipe técnica e agricultores. A participação dos agricultores no processo é importante para torná-los
sujeitos ativos nos processos dialógicos e na própria organização da comunidade, não somente como
objetos de pesquisas.
Palavras Chaves: Metodologias Participativas, Agricultura Familiar, Reflexão, Vlorização do saber.
1. Introdução
A presente experiência faz parte do projeto intitulado Apoio Técnico Científico no Estudo da
Realidade Rural no Município de Santa Rosa/RS: Diagnóstico Rural por Localidade e Propostas de
Ação para o Desenvolvimento Rural Sustentável, firmado entre a Universidade Federal de Santa
Maria e a Prefeitura do Município de Santa Rosa.
Este projeto surgiu a partir da demanda do Município de Santa Rosa/RS, através da Prefeitura
Municipal, que necessitava de um levantamento de dados sobre a realidade rural do município. Para
isso, foi encaminhada ao Centro de Ciências Rurais da Universidade Federal de Santa Maria uma
carta solicitando o levantamento para realização de um diagnóstico do meio rural que incluía: o perfil
do produtor, o perfil da propriedade rural, discriminação e quantificação dos produtos produzidos nas
unidades de produção, bem como a receita gerada por estas atividades. Foi solicitado, também, o
estudo das potencialidades das propriedades rurais, a realização de levantamento das agroindústrias,
o estudo de caso de produtores do Mercado Público Municipal e o levantamento do passivo
ambiental, da recuperação de nascentes e do florestamento e reflorestamento.
As discussões sobre o trabalho de campo iniciaram com a realização de reuniões técnicas com a
Prefeitura Municipal de Santa Rosa/RS contando com a presença das seguintes entidades: Conselho
Municipal de Agropecuária (COMAP), Cooperativa Tritícola Santa Rosa Ltda. (COTRIROSA),
Cooperativa Mista São Luiz Ltda. (COOPERMIL), escritório municipal da EMATER, representantes da
Prefeitura Municipal e a equipe coordenadora do projeto o Grupo de Pesquisa Extensão Rural
Aplicada (DEAER/UFSM), para interação e formulação da metodologia da pesquisa de campo a ser
realizada, bem como a elaboração dos roteiros de entrevistas e desenho metodológico.
O projeto tem como objetivos: o levantamento de dados e Diagnóstico Territorial Rural; o estudo das
propriedades rurais; a análise das cadeias e arranjos produtivos, o estudo de caso do Mercado
Público Municipal e o inventário e análise ambiental do Município, para que a partir destes dados
possam ser implantados projetos de desenvolvimento que sejam coerentes com a realidade local e
ancorada nas demandas das comunidades locais. Ainda proporcionou a inserção das atividades de
ensino pesquisa e extensão da UFSM na problematização regional, através da participação de
professores e acadêmicos nos projetos de desenvolvimento do Município de Santa Rosa/RS;
aplicação de técnicas de diagnóstico territorial rural; aproximação dos estudantes de graduação dos
Cursos de Ciências Agrárias da UFSM (CCR/UFSM) com as técnicas e métodos de trabalho em
Extensão Rural através do desenvolvimento de práticas, que auxiliem na ação pedagógica a ser
desenvolvida pelos professores em sala de aula.
2. A formulação da metodologia da experiência
A primeira etapa do trabalho foi o levantamento de dados a partir de entrevistas semi-estruturadas
para a realização do diagnóstico da realidade rural. Esta etapa foi realizada através das atividades
práticas das disciplinas oferecidas pelo Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural
(DEAER/UFSM) para os cursos de Graduação do Centro de Ciências Rurais/CCR, ou seja, para os
estudantes dos cursos de Agronomia, Engenharia Florestal, Medicina Veterinária e Zootecnia.
Nesta etapa, os estudantes das disciplinas visitaram as propriedades rurais e realizaram as
entrevistas semi-estruturadas com os agricultores e suas famílias. Buscando nestas entrevistas
levantar os dados que permitiam uma identificação da família e de sua trajetória, do sistema produtivo
utilizado, da caracterização ambiental da propriedade, bem como da região estudada e os dados
sócio-econômicos. Também foi perguntado ao agricultor sobre suas principais dificuldades e
perspectivas quanto a sua continuação no meio rural.
Com esses primeiros dados de caracterização das localidades e, principalmente a partir dos dados
referentes aos principais problemas e perspectivas das famílias, parte-se então para a realização das
reuniões com os agricultores.
3. A Reunião com os Agricultores
As reuniões aconteceram nas comunidades rurais, sempre priorizando locais neutros para sua
realização, tais como as associações de moradores ou clubes da comunidade. Em um primeiro
momento foi realizada uma mobilização pela prefeitura municipal convidando os agricultores a
participarem das reuniões que discutiriam sua realidade com a finalidade de buscar alternativas para
seu desenvolvimento. Essa mobilização foi feita através de meios de comunicação, nesse caso
específico o rádio, que é o meio ao qual a maioria dessas famílias tem acesso, bem como através de
comunicados no sindicato dos trabalhadores rurais, das cooperativas, da EMATER, e demais
instituições ligadas a essas comunidades.
Estas reuniões eram coordenadas pela equipe do Grupo de Pesquisas Extensão Rural
Aplicada/UFSM (executora do projeto), priorizando a utilização de técnicas que propiciassem a
participação dos agricultores nas discussões. Os principais objetivos buscados eram: a confirmação
dos dados coletados e tabulados nas visitas, e a identificação dos principais problemas percebidos
pelas comunidades e possíveis alternativas a esses problemas.
Contudo as técnicas participativas exigem grupos pequenos para que possam ser bem
desenvolvidas. Nesse sentido, foram realizadas reuniões em todas as linhas visitadas com uma
média de 20 - 30 agricultores em cada uma. Foram realizadas reuniões com as famílias das
seguintes localidades: Linhas 13 de Maio, Dr. Pedro de Toledo, Mirim, Drº Flores, Boa Vista, Linha 15
de Novembro, Linha Manchinha, Linha Cascata, Linha 7 de Setembro, Linha Capim, Bela União,
Lajeado Reginaldo, Lajeado Assombrado, Lajeado Bonito, Candeia Baixa, Lajeado pessegueiro,
Lajeado Paulino, Rincão dos Souza, Rincão dos Rolins, Rincão dos Rochas, Lajeado Ipê, Lajeado
Grande e Tarumã.
Durante as reuniões, contava-se com a participação da equipe da Prefeitura Municipal participante do
projeto, representantes das Cooperativas, Sindicato dos Trabalhadores Rurais e escritório local da
EMATER-RS.
Figura 1. Participação dos agricultores nas reuniões.
4. A Dinâmica Proposta
A dinâmica das reuniões constava de uma breve explanação sobre os dados que haviam sido
coletados nas localidades e em seguida esses dados eram discutidos com os agricultores, afim de
que eles fossem corroborados ou refutados. Seguindo a dinâmica da reunião, os agricultores eram
convidados a agrupar-se para através da ferramenta chamada de “visualização móvel” lançassem as
maiores dificuldades percebidas por eles para o aumento de produção e melhoria das condições de
vida. Esta ferramenta faz parte da metodologia de visualização móvel, tratando-se de uma técnica do
Metaplan que é uma metodologia participativa que foi desenvolvida a partir dos anos 70, por uma
empresa de consultoria alemã, com o intuito de capacitação de executivos de empresas (CORDIOLI,
2001).
A dinâmica proposta foi bem aceita pelos agricultores e eles obtiveram auxílio da equipe presente
quando havia necessidade. Eles receberam canetas e tarjetas onde escreveram o problema que
havia sido identificado pelo grupo menor. As tarjetas de cada grupo eram expostas em um quadro,
figura 2, e os problemas elencados foram discutidos com o grande grupo. A idéia dessa discussão
maior era a tentativa de priorizar os problemas encontrados, bem como encontrar algumas possíveis
alternativas por parte dos agricultores.
Figura 2. Quadro com as tarjetas elaboradas pelos agricultores.
5. Discussões pertinentes sobre a experiência de Santa Rosa/RS
Dentre as dificuldades que foram citadas pelos agricultores, podemos salientar: aquisição de
maquinários; falta de incentivo para a permanência do jovem na agricultura; dificuldade de acesso a
informações para diversificação das produções; falta de infra-estrutura para lazer (quadra de esportes
e salão de festas, etc.); alto custo na produção (insumos); baixo acesso a financiamentos; baixo nível
de lucratividade; desconhecimento referente à comercialização dos seus produtos; reduzido preço de
venda dos produtos; difícil acesso à assistência; estradas ruins para escoamento da produção; entre
outros. Os principais problemas das localidades do município de Santa Rosa/RS serão apresentados
nos quadros 1, 2, 3 e 4.
Quadro 1.: Principais problemas das Localidades: Linhas 13 de maio, Mirim, Dr. Pedro de Toledo,
Bela União, Lajeado Capim, Lajeado Assombrado, Anel Rodoviário, Lajeado Grande e Linha Quinze
de Novembro.
13 DE MAIO, MIRIM E DR
PEDRO DE TOLEDO.
BELA UNIÃO, LAJEADO CAPIM,
LAJEADO ASSOMBRADO, ANEL
RODOVIÁRIO E LAJEADO GRANDE
LINHA QUINZE
NOVEMBRO
Falta
de
agrícola
Falta de crédito a fundo perdido
Assistência Técnica
Alto custo da produção
Más condições de estradas e acessos
Falta de recursos para
moradia
Acesso a capital financeiro
Políticas
agrícolas
definidas
em
âmbitos nacional, estadual e municipal
que garantam segurança e estabilidade
para o agricultor
Falta de incentivo para
as agroindústrias
Baixa lucratividade
produtos agrícolas
Falta de incentivo para negociar
Preços justos
financiamentos
Falta de assistência técnica
Muita burocracia para se iniciar uma
nova atividade
Subsídios para compra
de insumos
Estradas más conservadas
Baixos preços dos produtos agrícolas
Alto preço dos insumos
Falta de incentivo da
permanência do jovem na
agricultura
Falta de acesso a informações e meios
de comunicação
Altos impostos e baixos
preços para a produção
leiteira
maquinário
dos
DE
para
Quadro 2.: Principais problemas das Localidades: Manchinha, Lajeado Bonito, Tarumã e Candeia
Baixa
MANCHINHA
BONITO
E
LAJEADO
TARUMÃ
CANDEIA BAIXA
Melhorias das estradas
Falta de união dos colonos
Melhores preços para os
produtos agrícolas
Melhorias dos acessos às
propriedades e cascalhamento
Falta de união entre os
agricultores e cooperação entre
a comunidade
Falta de assistência técnica
Burocracia
comercialização
coloniais
Melhorar as condições
acesso das Estradas
Falta de políticas públicas e
legislação para o preço dos
insumos e dos produtos
de
para
produtos
Maiores
incentivos
agricultores
aos
e
Mais ajuda ao agricultor
Falta de incentivos para as
atividades agropecuárias
Construção de açudes
Açude
Dificuldades no acesso ao
crédito
Baixa Renda dos agricultores
Fiscalização
liberada
produtos coloniais
Falta de atitude para mudanças
e inovações
Mais renda na propriedade
Má
conservação
dos
transportes coletivos que
atendem o meio rural
Falta de união e cooperação
entre os agricultores
Atitude para mudar inovar
Falta de informação para
os agricultores
dos
Estradas
condições
em
más
Quadro 3.: Principais problemas das Localidades: Linha das Flores, Linha Boa Vista, Lajeado
Pessegueiro, Lajeado Reginaldo, Linha Cascata e Vila Sete de Setembro.
LINHA DAS FLORES E LINHA
BOA VISTA
LAJEADO PESSEGUEIRO E
LAJEADO REGINALDO
LINHA CASCATA E VILA
SETE DE SETEMBRO
Falta de incentivo do governo
Falta de garantia nos preços
dos produtos agropecuários
Baixo preço dos produtos
agrícolas
Dificuldade de obter lucros
Falta de assistência técnica
Exploração
cooperativas
de
cooperativados
de
os
Má qualidade no ensino para o
meio rural
Desvalorização
agricultores
Falta
de
incentivo
para
continuidade dos jovens nas
atividades agropecuárias
Dependência do agricultor de
insumos industriais
Falta preço mínimo para os
produtos agrícolas
Altos preços dos insumos
Falta de incentivo para os
jovens
continuarem
nas
atividades agropecuárias
Alto custo de produção em
função dos preços dos
insumos
Baixa produtividade
Falta
de
eficiência
da
Prefeitura
Municipal
para
garantia de preços mínimos
Estradas
condições
Dificuldades para a liberação
de
produtos
naturais
(fiscalização)
Falta de condições para
continuidade dos estudos
no meio rural
Falta
de
canais
comercialização
para
produtos agropecuários
Problemas de saúde
dificultam o trabalho
que
em
pelas
seus
dos
más
Quadro 4.: Principais problemas das Localidades: Rincão do Rocha, Rincão dos Rolim, Rincão dos
Souza e Lajeado Paulino
RINCÃO DO ROCHA, RINCÃO DOS ROLIM, RINCÃO DOS SOUZA E LAJEADO PAULINO
Falta de incentivo do governo
Dificuldade de obter lucros
Falta de canais de comercialização para os produtos agropecuários
Falta de incentivo para continuidade dos jovens nas atividades agropecuárias
Altos preços dos insumos
Baixa produtividade
Falta de recursos e financiamentos para reformas nas moradias
Baixo lucro da atividade agropecuária
Melhorias nas estradas
Sistema de saúde precário
Falta de construções e reformas no meio rural
Falta de união dos agricultores
Falta de lazer
Dificuldade para conseguir a aposentadoria
Má conservação da rodovia e dos meios de transporte coletivos
Falta de conservação da parada de ônibus
Falta de respeito com a natureza por parte de visitantes
As dificuldades levantadas durante as reuniões vinham de encontro com as que haviam sido
colocadas nas entrevistas e da mesma forma com alguns problemas que foram elencados pelos
estudantes quando discutiam as realidades em que foram realizar as entrevistas. Contudo, surgiram
novos problemas apontados pelos agricultores, que não haviam surgido quando da oportunidade das
entrevistas como, por exemplo, a questão do clima. De onde podemos afirmar que essas reuniões
efetivamente colaboraram para a elaboração do diagnóstico das realidades rurais. Diante dessas
dificuldades apontadas foram apontados os problemas que atingiam a todos os agricultores da
comunidade, através também de discussão na grande plenária, onde se obteve a priorização dos
problemas levantados.
Após a realização das reuniões os agricultores foram convidados a visualizar as suas propriedades,
através de desenhos realizados pelos próprios alunos que juntos com o proprietário tiveram a
oportunidade de percorrer a propriedade conforme figura 3.
Figura 03. Identificação das propriedades através dos croquis.
É interessante perceber como a técnica aplicada facilitou a participação dos agricultores para o
levantamento dos seus problemas. No trabalho em grupos menores, pode-se verificar uma efetiva
participação desses nas discussões com o intuito de eleger o principal problema percebido por eles.
Da mesma maneira durante a organização dos agricultores de volta a plenária todos os grupos
tiveram um momento para falar sobre o problema que haviam identificado na tarjeta, sendo que todos
os grupos efetivamente realizaram essa breve explanação.
Na identificação das propriedades através da visualização nos croquis os agricultores se sentiam
motivados a se expressarem através da fala, identificando e reconhecendo a propriedade, além de
relembrarem o caminho percorrido com os alunos que foram realizar a entrevista na propriedade e
alguns apontavam algum esquecimento realizado pelos mesmos.
Uma dificuldade encontrada durante a execução da chuva de idéias foi o fato de alguns agricultores
não saberem, ou ainda sentirem receio em escrever, para isso foi solicitada à ajuda de integrantes da
equipe o que sanou essa dificuldade. Também é relevante ressaltar a dificuldade em encontrar
bibliografias que fizessem uma sistematização das práticas para serem utilizadas nesses trabalhos.
6. Análise Crítica da Experiência
6.1. Revisão Bibliográfica
De acordo com Armando et al. (1998), o desenvolvimento rural ficou simplificado a indicadores
econômicos de um conjunto social, sem considerar outros fatores. Os métodos e as tecnologias são
aplicados de forma única para todo o meio rural, sem considerar as especificidades, conhecimentos,
e diversidades existentes em cada localidade ou em cada agricultor.
Segundo Caporal (1999) é importante observar que as abordagens e métodos participativos
representam uma oportunidade para construir melhores vínculos entre os vários atores e melhorar o
conhecimento mútuo. Entende também, que mesmo que se reconheça a existência de um grande
número de abordagens e métodos participativos, a aplicação de ferramentas usadas no DRP podem
apresentar-se como interessantes estratégias metodológicas para a ação extensionista na
perspectiva do desenvolvimento sustentável.
As diversas experiências dos métodos fez com que uma nova agenda fosse repensada. Criou-se um
novo conceito, chamado de Diagnóstico Rural Participativo (DRP), que busca a investigação e o
desenvolvimento do meio rural através de um processo de aprendizagem entre técnicos e
agricultores e estes últimos participem do processo de forma ativa e como os principais atores do
processo.
O Diagnóstico Rural Participativo (DRP) é um conjunto de técnicas e ferramentas que permite que as
comunidades façam o seu próprio diagnóstico e a partir daí comecem a autogerenciar o seu
planejamento e desenvolvimento. Desta maneira, os participantes poderão compartilhar experiências
e analisar os seus conhecimentos, a fim de melhorar as suas habilidades de planejamento e ação.
Embora originariamente tenham sido concebidas para zonas rurais, muitas das técnicas do DRP
podem ser utilizadas igualmente em comunidades urbanas. (Verdejo, 2006, p. 6)
Buarque (2002), que utiliza a palavra rápida, no lugar do termo rural, interpreta o Diagnóstico Rápido
Participativo como sendo um, entre as “diversas variantes do diagnóstico participativo”. Não se trata
“propriamente de uma técnica, mas um processo de apreensão da visão da sociedade sobre a
realidade, com base em um conjunto de ferramentas, constituindo uma forma simplificada de
planejamento local. O DRP procura estimular a capacidade crítica e analítica dos atores sociais e da
comunidade em torno da reflexão sobre a realidade, e a sua vivência como cidadão”.
Para Gonsalves et al. (2006),
Investigación y Desarrollo Participativo (I&DP) I&DP: un conjunto de conceptos, prácticas, normas y
actitudes que permiten a las personas mejorar su conocimiento sobre agricultura y manejo sostenible
de recursos naturales. Su meta fundamental es buscar una participación amplia y significativa de los
grupos de usuarios en el proceso de investigar y buscar mejoras para situaciones locales,
necesidades y oportunidades. (Gonsalves et al., 2006).
Neste sentido, os DRP’s segundo Petersen & Romano (1999), são parte integrante de uma
abordagem de trabalho que visa o desenvolvimento local. Esse processo não inicia e nem acaba com
a sua aplicação, mas procura proporcionar uma comunicação dialógica entre agricultores e técnicos e
entre os próprios agricultores. Busca estabelecer um ambiente de discussão e análise dos problemas
das comunidades, em que seja possível a diferentes grupos, expressarem suas percepções sobre as
dificuldades e problemas. Assim criam a condição de abrir o caminho para uma participação
comprometida no planejamento e execução do plano de trabalho e para o enfrentamento dos
problemas coletivamente identificados.
Dessa forma, o enfoque participativo irá abarcar um conjunto amplo de fases e atividades, estes
conjuntos de atividades incluem:
•
Avaliação e Diagnóstico: nesta fase será realizada uma análise da situação, avaliação das
necessidades e oportunidades, diagnóstico do problema e a documentação e caracterização
da realidade.
•
Experimentações com as opções da tecnologia: o desenvolvimento de tecnologias e a
condução dessas tecnologias.
•
Inovação Local: os mecanismos de institualização político-social, facilitação da negociação
com perspectivas múltiplas e manejo dos conflitos, mobilização e ações nas comunidades,
desenvolvimento das capacidades locais e o fortalecimento das alianças.
•
Difusão: desenvolver conhecimentos e mecanismos de extensão, promoção de redes de
informação e de trabalho com laços horizontais.
•
Manejo do enfoque e diagnóstico participativo: desenvolvimento de projetos, mobilização de
recursos, entre outros.
Para Verdejo (2006), o diagnóstico/enfoque participativo conta com diferentes níveis de participação
dos agricultores ou beneficiários, podendo ser representada na forma de degraus de escada. O autor
dividiu os níveis de participação da seguinte forma:
1.
Começando com o degrau mais baixo teremos a categoria denominada passividade, aqui é o
projeto que fixa os objetivos e decidem as atividades, a informação necessária é gerada sem
consultar os beneficiários.
2.
Uns degraus acima têm o nível denominado de fonte de informação, a equipe responsável
pela pesquisa pergunta ao beneficiário, mas este não tem o poder de decisão sobre os tipos
de perguntas e nem nas atividades.
3.
Este nível denomina-se consulta, leva-se em consideração a opinião do beneficiário,
integrando estas opiniões no enfoque da pesquisa, mas não terão poder de decisão.
4.
A participação à base de incentivos materiais propõe a participação em troca de algo, a
possibilidade de decisão é limitada para os beneficiários.
5.
Participação funcional, o beneficiário se divide em grupos que perseguem objetivos fixados
anteriormente pelo projeto. Na fase de execução participa da tomada de decisões e se torna
independente no transcurso do projeto.
6.
Na participação interativa o beneficiário é incluído desde a fase de análise e definição do
projeto, participando de todo o planejamento e execução.
7.
No último degrau do nível de participação proposto pelo autor temos a chamada auto-ajuda,
onde os beneficiários tomam a iniciativa e agem independentemente.
Então dentro destes níveis de participação que será construído muitos dos projetos que envolvem o
enfoque participativo. Esta construção metodológica dependerá dos agentes, comunidades e do
contexto para que se possa determinar o nível de participação e quais as ferramentas serão utilizadas
no processo.
6.2. Análise da Experiência Relatada
De acordo com Habermas (1989), o que importa no processo dialético de conhecimento é a crítica e
o conhecimento crítico para uma prática que possa alterar e transformar a realidade anterior. Para
isso, é necessária uma leitura e visão holística do mundo, para que assim possamos nos perceber
como sujeitos da história e transformadores da realidade.
Quando os professores retornam com os dados coletados para serem expostos aos agricultores nas
reuniões, o que pode ser observado é a passividade dos agricultores neste momento, perante os
professores que apresentam os dados com “fortes” aparatos tecnológicos onde os mesmos muitas
vezes desconhecem sua existência e funcionamento (notebook, retroprojetor). Além da chegada da
equipe técnica composta por profissionais, professores, alunos de pós e de graduação, juntamente
com algum membro da prefeitura ou COMAP, com os carros e ônibus logotipados, indicando que na
comunidade está presente a prefeitura e UFSM.
Geralmente os agricultores estão sentados, passivos, são apenas meros expectadores e ouvintes,
não existe neste momento participação por parte dos agricultores. Existe uma hierarquia nesta hora,
1
os professores como os representantes do saber , pois esta idéia encontra-se intrínseca, afinal os
professores representam uma entidade conhecida pela educação formal, que seria a Universidade
Federal de Santa Maria, e isto inibe a participação efetiva dos agricultores.
Para que esta passividade se reduza e para que os agricultores possam participar mais ativamente
do processo, realizam-se na etapa seguinte métodos que visam proporcionar uma maior participação.
Nesta etapa posterior a apresentação dos dados, o Grupo de Pesquisa realiza uma dinâmica que irá
possibilitar e facilitar que o processo se torne horizontal. Esta dinâmica escolhida é a “visualização
móvel”, ela possibilita uma maior aproximação entre professores e agricultores, tornando o diálogo
mais próximo e a participação mais ativa.
Para assegurar e estimular a participação, um maior envolvimento e comprometimento dos indivíduos
foram desenvolvidos processos ajustados a cada realidade. Procura-se fornecer técnicas e
instrumentos que facilitam o processo de debate e de intercâmbio de experiências, com o intuito de
aumentar a capacitação, a organização e a responsabilidade dos envolvidos. O objetivo, com isso, é
tornar mais transparente e democrático os processos de reflexão, decisão, planejamento e avaliação
[...] A ênfase desse processo recai em mobilizar a energia criativa da equipe, escolhendo técnicas
apropriadas, fazendo perguntas relevantes, facilitando o intercâmbio horizontal, provocando
discussões, conclusões, decisões e fundamentalmente ações (Cordioli, 2008)
É neste momento que os agricultores participam expondo suas opiniões (nas tarjetas), possibilitando
um maior contato com as outras pessoas que se encontram nas reuniões, integrando ainda mais o
agricultor no processo, pois ele participará com sua opinião/idéias, não é mais somente ouvir, e sim
ser o agente de mudanças.
Segundo Gomes (s.d), a visualização é um dos principais instrumentos que o processo participativo
deve ter. Pois os seres humanos possuem cinco sentidos, que são utilizados como canais de
percepção. Entretanto, o mais comum e utilizado no processo de comunicação em grupos é a
audição. A atenção e a concentração podem ser aumentadas quando fazemos o uso da comunicação
visual, ou seja, associamos a audição o recurso da visão. Dessa forma, aumenta-se com maior
eficiência a memória, tornando o trabalho mais eficiente, além de tornar a reunião/evento mais
agradável, dinâmico e eficiente.
Os croquis utilizados possuem a finalidade de tornar a reunião mais dinâmica e agradável, além de
possibilitar a interação entre os indivíduos, pois é neste momento que os agricultores e a equipe
técnica dialogam sobre diversos assuntos, não somente relacionados aos problemas da localidade e
ou propriedade. A equipe técnica compartilha da mesma idéia do autor Chambers (p. 105, 1989), que
no seu texto aborda que quem detém o conhecimento? fala sobre os dois tipos de saberes (cientifico
e popular) onde ambos complementam-se e juntos poderão alcançar avanços que nenhum deles
poderia alcançar sozinho. Já que as demandas levantadas pelos agricultores serão posteriormente
encaminhadas para o COMAP e Prefeitura.
A participação dos agricultores no processo é importante para torná-los sujeitos ativos nos processos
dialógicos e na própria organização da comunidade, não somente como objetos de pesquisas. No
final das reuniões ocorre à descentralização e a desconstrução da hierarquia entre professores e
agricultores ocorrendo uma valorização do saber empírico do agricultor, surgindo um “saber” que une
os conhecimentos da equipe técnica e agricultores. Conforme Chambers (1989), os profissionais
vindos de fora, os portadores do saber científico, descem dos seus pedestais escutam e aprendem
com os agricultores, ocorrendo uma horizontalização.
A experiência vivenciada através deste projeto possibilita um olhar diferenciado sobre as diversas
metodologias e enfoques que podem ser utilizados para o levantamento do diagnóstico da realidade
rural das localidades. Fundamentando principalmente a experiência em um enfoque participativo e
1
A palavra “saber” refere-se a todo o sistema de conhecimento, incluindo conceitos, crenças e percepções, a
reserva de conhecimentos e os processos como foram adquiridos, aumentados, arquivados e transmitidos.
(ROBERT CHAMBERS, 1989).
construtivo, promovendo assim, a interação entre os diversos saberes e experiências entre técnicos e
agricultores familiares. Cabe salientar, que cada localidade terá a sua particularidade e desta forma
as metodologias utilizadas deverão se adequar à realidade de cada região.
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um olhar reflexivo sobre a participação dos agricultores