1/7 QUANTIFICAÇÃO DA INCERTEZA ASSOCIADA À DETERMINAÇÃO DO TEOR DE CINZA EM VINHOS ATRAVÉS DA ABORDAGEM DIFERENCIAL Maria de Jesus Tavares 1, Ricardo J. N. Bettencourt da Silva 2 1 – Unidade de Análise Química de Lisboa – Laboratório Vitivinícola, Instituto da Vinha e do Vinho, Quinta de Manteigas, Catujal, 2685-284 Unhos [[email protected]] 2 – Laboratório de Resíduos de Pesticidas, Direcção-Geral de Protecção das Culturas, Quinta do Marquês, 2780-155 Oeiras [[email protected]] 1. Resumo O vinho é um produto de origem agrícola que em Portugal assume importância económica e cultural. Em 2004 a produção de vinho foi de 7,34 milhões de hectolitros tendo as exportações atingido um volume de 3,23 milhões de hectolitros, o que corresponde a um valor de 549,73 milhões de Euros [1]. A comercialização dos vinhos é regulada através da caracterização química e organoléptica destes produtos com vista a proteger a saúde do consumidor e os interesses económicos de todos os intervenientes na cadeia de comercialização dos vinhos, desde o produtor ao consumidor. O teor de cinza nos vinhos é um dos parâmetros da caracterização química destes produtos que permite indiciar práticas fraudulentas como o aguamento, a aguardentação e a adição de substâncias minerais (ex: cloretos e/ou sulfatos) com vista a dissimular outro tipo de fraudes. Entende-se como cinza do vinho, o conjunto dos produtos de incineração do resíduo da evaporação do vinho, conduzida de modo a obter a totalidade dos catiões (excluindo o amónio) sob a forma de carbonatos e outros sais minerais anidros [2]. Nesta operação a fracção livre dos ácidos orgânicos volatiliza-se e a fracção salificada é transformada em carbonatos (sobretudo K2CO3). A cinza também reúne os ácidos minerais fortes totalmente salificados do vinho. Desta forma, as cinzas dos vinhos apresentam reacção alcalina [3]. A Lei Portuguesa [4] estabelece limites para o teor de cinza nos vinhos. O teor de cinza nos vinhos tintos deve ser maior ou igual a 1,8 g/l e nos vinhos brancos e rosados maior ou igual a 1,6 g/l. Em ambos os casos está definida na legislação uma tolerância de 10 % associada a estes limites. A obtenção das cinzas também constitui um passo intermédio do doseamento da alcalinidade das mesmas, que constitui um indicador da constituição ácida dos vinhos e que deve obedecer a valores tecnicamente aceitáveis. Este trabalho consiste na quantificação da incerteza associada à determinação do teor de cinza em vinhos [2]. A avaliação da qualidade desta determinação foi realizada recorrendo à Abordagem Diferencial [5,6] com vista a permitir a quantificação da contribuição das diversas etapas analíticas para a qualidade do ensaio. Este estudo permitiu concluir que a combinação das incertezas associadas à evaporação, calcinação e incineração da amostra constituem cerca de 90 % da incerteza da medição, e que a incerteza associada a este ensaio, próximo dos limites legais, tem uma dimensão (entre 8,3 % e 8,8 %) concordante com a tolerância definida na legislação para a comparação com os limites legais. Palavras-Chave: Incerteza, Vinho, Cinza, Abordagem diferencial 2/7 2. Descrição do método analítico O método analítico consiste na medição de uma toma de ensaio de 20 ml, com pipeta volumétrica, e evaporação, calcinação e incineração da toma a 525 ± 25 ºC. A matéria orgânica da amostra é completamente eliminada a esta temperatura. O resíduo de incineração é pesado a massa constante, e fornece o teor de cinzas da amostra de vinho. O teor da amostra é estimado através da Equação 1: P − P0 C = 1 VToma × 1000 × f (1) Em que C, P0, P1, VToma e f representam respectivamente o teor de cinza na amostra (g/l), a massa da cápsula (g), a massa da cápsula com resíduo (g), a toma de ensaio (ml) e o factor de incineração. 3. Quantificação da incerteza da medição – Abordagem diferencial A incerteza foi quantificada através da abordagem diferencial [5, 6] que consiste na divisão do método analítico em fontes de incerteza simples e fontes de incerteza complexas. As fontes de incerteza simples são aquelas quantificáveis com base em modelos bem conhecidos, como as associadas às gravimetrias e volumetrias. As fontes de incerteza complexas são aquelas cuja dimensão é desconhecida, a priori, por não possuírem modelos descritivos. Considerando o método analítico estudado as fontes de incerteza complexas são as associadas às evaporação, calcinação e incineração. 3.1. Identificação das fontes de incerteza A Figura 1 representa as fontes de incerteza associadas ao ensaio. As fontes de incerteza simples são as associadas às etapas gravimétricas e volumétricas, que afectam os parâmetros P0, P1 e VToma da Equação 1. Tendo em conta que o resíduo da amostra é pesado por diferença, a incerteza associada a esta operação resulta da combinação da incerteza associada à linearidade da resposta da balança, estimada na sequência da calibração externa da balança, com a incerteza associada à repetibilidade da pesagem. Tendo em conta que o laboratório efectua a pesagem da cinza até massa constante, considerando como critério de massa constante 0,5 mg, pode considerar-se uma fonte adicional de incerteza que considera possíveis desvios na quantidade de cinza medida função do facto do processo de calcinação não ter terminado. Esta fonte de incerteza afecta o parâmetro P1. A incerteza associada à medição da toma de ensaio resulta da combinação das incertezas associada à calibração da pipeta, repetibilidade da manipulação do material volumétrico e a diferenças entre temperatura da toma de vinho medida e a temperatura de referência da calibração do material volumétrico (20 ºC). As fontes de incerteza complexas são as que afectam a qualidade das etapas de transferência de massa do ensaio, nomeadamente a evaporação, calcinação e incineração. Estas fontes de incerteza afectam o parâmetro f da Equação 1. O parâmetro f é fixado no valor 1 tendo em conta que o método analítico é empírico (i.e., a medição é rastreada ao método) e não é espectável que o laboratório, devido a erros de interpretação do protocolo de ensaio ou de gestão do material e equipamentos (ex: temperatura da mufla) introduza um erro sistemático significativo nas medições. No entanto, entende-se que as etapas de evaporação e sobretudo de calcinação e incineração estão sujeitas a variações função da manipulação do operador. 3/7 Figura 1: Identificação das fontes de incerteza associadas ao doseamento de cinza em vinhos segundo o Regulamento CEE 2676/90 [2]. 3.2. Quantificação das fontes de incertezas simples 3.2.1. Incerteza associada à pesagem do resíduo, P1-P0 A incerteza padrão, u ( P1 − P0 ) , associada à diferença (P1-P0) é calculada através da Equação 2: ( Bal . u ( P1 − P0 ) = 2 u Calib . ) 2 ( Bal . + 2 u Re p. ) + (u ) 2 2 mc (2) Bal . Bal . em que u Calib . , u Re p . e u mc representam, respectivamente, as incertezas associadas à linearidade da resposta da balança [7], à repetibilidade da balança [7] e ao critério de massa constante Bal . Bal . considerado na pesagem. As incertezas u Calib . e u Re p . surgem duas vezes na Equação 2 visto que elas ocorrem de forma independente nas pesagens P1 e P0. Bal . A incerteza padrão u Calib . é estimada por excesso considerando o “Erro máximo admissível da balança” (EMA = 0,5 mg) usado na avaliação do certificado da calibração externa da balança. Considerando uma distribuição rectangular associada à medida da incerteza associada à Bal . linearidade da resposta da balança (EMA), considera-se que a incerteza padrão u Calib . possui um valor de 0,29 mg ( 0,5 mg / 3 ) [7]. Bal . A incerteza associada à precisão da pesagem, u Re p . , foi estimada a partir do desvio padrão de 69 pesagens de uma massa de 100 g utilizada na verificação semanal do desempenho da balança Bal . (sensivelmente 6 meses). Tendo em conta que o desvio padrão destas pesagens é 0,08 mg, u Re p. é igual a 0,08 mg. Observa-se que a repetibilidade absoluta da balança é constante entre 30 e Bal . 100 g. Desta forma o valor estimado de u Re p . é aplicável às medições P1 e P0. A incerteza u mc é estimada considerando uma distribuição rectangular uniforme associada a possíveis desvios (0,5 mg) na medição de P1 considerando que o processo de incineração não foi concluído. Desta forma, u mc possui um valor de 0,29 mg ( 0,5 mg / 3 ). De acordo com a Equação 2 a incerteza padrão absoluta u ( P1 − P0 ) é 0,51 mg (Equação 3). 4/7 u ( P1 − P0 ) = 2(0,29) + 2(0,08) + (0,29) = 0,51 mg 2 2 2 (3) 3.2.2. Incerteza associada à toma de amostra, VToma A incerteza padrão, uVToma , associada à toma de amostra foi calculada através da Equação 4: uVToma = (u ) + (u ) + (u 2 Vol . Calib . Vol . 2 Re p . ) Vol . 2 Temp . (4) Vol . Vol . Vol . em que u Calib . , u Re p . e u Temp . representam, respectivamente, as incertezas associadas à calibração da pipeta, à repetibilidade da manipulação da pipeta e ao facto da temperatura do vinho não ser controlada (i.e., poder diferir dos 20 ºC considerados na calibração da pipeta)[7]. Vol . Vol . Quantificou-se a combinação das incertezas padrão u Calib . e u Re p . (Equação 5), através do desvio padrão do volume de 12 tomas de água realizadas por diversos operadores utilizando 10 pipetas de 20 ml com as mesmas características. O desvio padrão associado às volumetrias é 0,0253 ml (Equação 5). (u ) + (u ) 2 Vol . Calib . Vol . 2 Re p . = 0,0253 ml (5) Vol . A incerteza padrão uTemp . foi estimada considerando uma variação da temperatura do vinho, com uma distribuição rectangular uniforme, dentro do intervalo 20 ± 3 ºC (Equação 6): Vol . uTemp . = ( 20 × 3 × 2,1 × 10 −4 3 ) = 0,00728 ml (6) Em que a constante 2,1×10-4 ºC-1 representa o coeficiente de expansão volúmica da água a 20 ºC. Desta forma, a incerteza padrão uVToma é calculada pela Equação 7: uVToma = (0,0253)2 + (0,00728)2 = 0,0236 ml (7) 3.3. Quantificação das fontes de incertezas complexas A incerteza associada ao desempenho das etapas analíticas complexas foi calculada por diferença entre a precisão intermédia estimada do método e a combinação da incerteza associadas às etapas analíticas simples que afectam a precisão estimada do ensaio. A precisão intermédia do método foi estimada através de um estudo que incluiu a análise de 31 amostras com teores de cinza que abrangem toda a gama analítica. Tendo em conta as características do produto “vinho” e a sua tecnologia de fabrico, o parâmetro cinzas apresenta uma gama de doseamento estreita (entre 1 e 3 g/l ). Concluiu-se deste estudo que a precisão intermédia do método é quantificada por um desvio padrão de 0,09916 g/l. 3.3.1. Combinação das fontes de incerteza simples que afectam a precisão do método A Figura 2 representa um diagrama causa/ efeito onde estão identificadas as fontes de incerteza que afectam a precisão estimada do método. Apenas algumas das fontes de incerteza simples afectam a precisão estimada do método. 5/7 A incerteza associada à calibração da balança não afecta a precisão do ensaio visto que foi usada a mesma balança em todos os ensaios. Esta fonte de incerteza tem como objectivo estimar o impacto de desvios sistemáticos da resposta da balança na qualidade da medição. Por sua vez, a incerteza associada ao critério de massa constante não é considerada uma fonte de incerteza que afecte a precisão do método, com o objectivo de evitar que seja subestimada a incerteza associada às etapas de transferência de massa, contudo o critério de massa constante é considerado quando da quantificação da incerteza associada às amostras. Figura 2: Identificação das fontes de incerteza que afectam a precisão intermédia do método analítico. A incerteza, u C Inc . , resultante da combinação da incerteza associada às etapas analíticas simples que afectam a precisão estimada do método é calculada através da Equação 8. u C Inc . Bal . u Re p. = C × 2 P1 − P0 =C× 2 uVToma + VToma 2 (1,28 × 10 ) + (1,392 × 10 ) −8 (P1 − P0 ) 2 2 0,00008 0,0236 = C × 2 + = P1 − P0 20 (8) −6 2 Considerando um teor de cinza, C, igual a 2,52 g/l que corresponde a uma massa de resíduo de 0,0504 g (Equação 1), a incerteza u C Inc . é igual a 0,00639 g/l. 3.3.2. Quantificação das fontes de incerteza complexas Tendo em conta o valor estimado da precisão intermédia, considera-se que um conjunto de ensaios replicados realizados, em condições de precisão intermédia, sobre uma amostra de vinho com um teor de cinza igual a 2,52 g/l produz resultados associados a um desvio padrão de 0,09916 g/l. Desta forma é possível avaliar se a incerteza associada à combinação das fontes de incerteza complexas é relevante recorrendo à comparação deste desvio padrão com u C Inc . através de um teste de Fisher para um nível de confiança de 95%. 6/7 Neste caso, calcula-se o quociente, Fexp: 2 Fexp . 2 0,09916 0,09916 = = = 240 uC 0 , 00639 Inc (9) Considerando que Fexp. é superior ao valor tabelado FTab.(30,20;95%)=2,04, conclui-se que o desvio padrão estimado experimentalmente através de ensaios realizados em condições de precisão intermédia é significativamente superior a u C Inc . e, portanto, a incerteza associada à combinação das fontes de incerteza complexas é relevante. Desta forma, estima-se a incerteza padrão, u f , associada ao parâmetro f recorrendo à lei de propagação de incertezas (Equação 10): 2 2 0,09916 u C Inc . = = − f 2,52 2,52 uf 2 (10) 2 0,09916 0,00639 = − = 0,03927 2,52 2,52 Assumido que f é aproximadamente igual a 1, u f é igual a 0,03927. 3.4. Combinação das incertezas Considerando todas as fontes de incerteza simples e complexas estimadas, a incerteza associada a uma amostra desconhecida é calculada pela Equação 11. 2 2 2 u( P − P ) uV u uC = C × 1 0 + Toma + f = P −P 1 0 VToma f 2 2 2 0, 00051 0, 0236 0, 03927 =C× + + = 1 P1 − P0 20 (11) 2 0, 00051 =C× + 0, 001543 P1 − P0 Considerado a Equação 1 que relaciona C com P1-P0 [ (P1 − P0 ) = C 50 ] e Equação 11 converte-se na Equação 12. u C = 0,00065 + 0,001543 × C 2 (12) Desta forma, para um teor de cinza no vinho de 2,52 g/l, uC é igual a 0,1022 g/l. Considerando que um factor de cobertura igual a 2 produz uma incerteza expandida, UC, com um nível de confiança aproximadamente igual a 95 %: UC, = 0,20 g/l o que corresponde a uma incerteza expandida relativa de 7,9 %. 7/7 4. Conclusão A incerteza expandida estimada é concordante com a tolerância definida na legislação para o teor de cinza nos vinhos. Cerca de 90 % da incerteza associada ao ensaio deve-se ao desempenho das etapas de transferências de massa (i.e., combinação das evaporação, calcinação e incineração) 5. Bibliografia [1] – Anuário – Vinhos e aguardentes de Portugal – Instituto da vinha e do Vinho, 2005 [2] – Regulamento (CEE) Nº 2676/90 da Comissão de 17 de Setembro de 1990. [3] - A.S. Curvelo-Garcia, Controlo de Qualidade dos Vinhos (Lisboa, 1988) [4] – Portaria 344/94 de 31 de Maio de 1994. [5] - R. J. N. Bettencourt da Silva, M. J. Lino, J. R. Santos, M. F. G. F. C. Camões, Analyst, 125 (2000) 1459. [6] - R. J. N. Bettencourt da Silva, H. Figueiredo, J. R. Santos, M. F. G. F. C. Camões, Anal. Chim. Acta, 477 (2003) 169. [7] – Eurachem, CITAC, Quantifying Uncertainty in Analytical Measurement, 2nd Ed., 2000 (www.eurachem.ul.pt).