PROFT em Revista
ISBN 978-85-65097-00-0
Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2011
Vol. 2, Nº 1 Junho de 2012
A POLÍTICA DE DARCY RIBEIRO E FERNANDO
HENRIQUE CARDOSO: ESTUDO DA TRADUÇÃO
PARA O INGLÊS DE TERMOS E EXPRESSÕES
RECORRENTES NAS OBRAS DESSES DOIS
TEÓRICOS BRASILEIROS
RESUMO
Talita Serpa
Bacharel em Ciências Sociais pela
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
e Bacharel em Letras-Tradução pela
Universidade Estadual Paulista
(IBILCE/UNESP)
Mestranda pelo
Programa de Estudos Linguísticos da
Universidade Estadual Paulista
(IBILCE/UNESP)
Docente dos Cursos de Letras, Pedagogia,
Secretariado Executivo e Turismo da União das
Faculdades dos Grandes Lagos (UNILAGO)
Este artigo analisa as traduções de termos simples, expressões fixas e
semifixas presentes em três obras originalmente em português escritas
respectivamente pelo cientista político Fernando Henrique Cardoso (e
Enzo Faletto) e pelo antropólogo Darcy Ribeiro, e vertidas para a língua
inglesa por Marjorie Urquidi, Betty Meggers e Gregory Rabassa. Para
tanto, fundamentamo-nos nos Estudos da Tradução Baseados em
Corpus (Baker, 1995, 1996, 2000; Camargo, 2007), na Linguística de
Corpus (Berber Sardinha, 2004) e, em parte, na Terminologia (Barros,
2004). Notamos que termos e expressões empregados nos textos fonte
não apresentam univocidade dentro da língua de especialidade
referente às Ciências Sociais brasileiras. Os termos traduzidos para o
inglês também refletem variação devido às opções adotadas pelos
tradutores ao procurarem adequar os conceitos dos dois teóricos para as
possibilidades da Língua Meta
Palavras-Chave: Estudos da Tradução Baseados em Corpus; Linguística
de Corpus, Terminologia; Antropologia; Ciência Política
ABSTRACT
This paper analyses the translation of simple terms, fixed and semifixed
expressions in three works originally in Portuguese, written
respectively by the political scientist Fernando Henrique Cardoso (and
Enzo Faletto) and by the anthropologist Darcy Ribeiro, and translated
into English by Marjorie Urquidi, Betty Meggers and Gregory Rabassa
Our research project draws on Corpus-Based Translation Studies
(Baker, 1995, 1996, 2000; Camargo, 2007), Corpus Linguistics (Berber
Sardinha, 2004) and on some concepts of Terminology (Barros, 2004).
Results show that terms and expressions used in the source texts have
no univocity within the specialized language related to the Brazilian
Social Sciences. The terms translated into English also reflect variation
due to the options chosen by the translators as they seek to adapt the
concepts of two theoretical possibilities for the Target language
Talita Serpa
Contato:
[email protected]
Keywords: Corpus-Based Translation Studies, Corpus Linguistic;
Terminology; Anthropology; Political Science
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A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
desses Dois Teóricos Brasileiros
INTRODUÇÃO
É inegável a contribuição de cientistas brasileiros nas mais diversas áreas da pesquisa
acadêmica. Esse fato pode ser constatado pelo crescente número de publicações e pelo aumento
de obras de autores nacionais especializados em diferentes campos, como no das Ciências
Sociais.
As distintas formas de organização dos seres humanos em sociedade são um fator de
relevante interesse para os cientistas sociais. Esta vertente científica teve suas origens na
Filosofia Greco-Latina, principalmente em escritos de Aristóteles acerca das relações entre o
social e o natural. Contudo, somente no século XIX, a preocupação com organizar de modo
coerente todos os questionamentos e ideias sobre os temas sociais possibilitou o
reconhecimento de uma proposta teórico-metodológica autônoma, principalmente após a
publicação de trabalhos como os de Auguste Comte, Émile Durkeim, Karl Marx e Max Weber.
As Ciências Sociais, então, expandiram-se e ramificaram-se em várias áreas como a
Antropologia, a Ciência Política, a Economia e a Sociologia, entre outras.
No âmbito dos estudos voltados às questões de ordem governamental, a Ciência Política
apresentou-se como um núcleo investigativo relacionado à formação dos Estados e dos governos, assim como da conduta política e das relações de autoridade e poder entre os membros de
distintas hierarquias.
Quanto às pesquisas voltadas aos fatores culturais, a Antropologia destacou-se como
importante vertente, a qual se dedicou a explorar teorias sobre a origem e a diferenciação entre
homens e sociedades.
No Brasil, pesquisas direcionadas a esses objetos de análise tiveram início com a criação
dos cursos de graduação e pós-graduação em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo
(USP) e na Escola de Sociologia e Política (ESP), na década de 30. Com a formação das primeiras turmas, antropólogos e sociólogos brasileiros passaram a atuar no campo acadêmico e político do país, como é o caso de Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro.
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Dessa forma, sabemos que, por meio de diferentes abordagens teóricas, estes dois autores buscaram, em suas carreiras como educadores e políticos, consolidar a análise dos fatores de
desenvolvimento sociocultural da sociedade brasileira, sendo necessário salientar também que
ocuparam posições de liderança na organização do governo nacional em períodos concomitantes, considerando que Ribeiro foi Ministro da Educação (1962), Chefe da Casa Civil (1964) e Senador da República (1991/1997); e Cardoso atuou como Ministro das Relações Exteriores
(1992), Ministro da Fazenda (1993/1994) e presidente do país por duas vezes (1995 a 2002). Neste sentido, partilharam de um contexto investigativo semelhante, o que permitiu que recorressem a um mesmo conjunto léxico para descrever os elementos da cultura e, principalmente, da
política do país. Sendo assim, tornou-se inevitável o reuso da terminologia socioeconômica e
cultural, a qual, por sua vez, apresentou elevado grau de variação durante o processo tradutório para a língua inglesa.
No entanto, ainda são inexistentes investigações sobre o processo tradutório de textos
antropológicos e políticos na direção português  inglês, evidenciando a necessidade de
observar a natureza deste tipo de língua de especialidade, assim como da tradução da
terminologia presente em obras das Ciências Sociais Brasileiras.
Por tal razão, em nossa pesquisa, valemo-nos dos preceitos dos Estudos da Tradução
Baseados em Corpus (BAKER, 1995, 1996, 2000; CAMARGO, 2005) e da Linguística de Corpus
(BERBER SARDINHA, 2004), a fim de verificar as escolhas lexicais realizadas por Urquidi,
Meggers e Rabassa na tradução de termos e expressões contidos nas obras: Dependência e
desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica (1970), O processo civilizatório:
etapas da evolução social (1968) e O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil (1995), e de
investigar as tendências linguísticas apresentadas por estes tradutores no que concerne aos
fatores que descrevem a sociedade brasileira, enfatizando as relações de significado que se
estabelecem entre as teorias das obras, por meio do léxico, e as dissociações de conceitos
ocorrentes no ato tradutório.
Com isso, pretendemos fornecer subsídios para o desenvolvimento de glossários
bilíngues de Antropologia e Ciência Política, assim como para a conscientização dos tradutores
acerca da possível variação lexical dentro da linguagem de uma área de especialidade e do
papel do tradutor como agente produtor de sentidos em diferentes culturas.
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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Estudos da Tradução Baseados em Corpus e a Linguística de Corpus
As teorias de Baker (1993, 1995, 1996) para os Estudos da Tradução Baseados em Corpus
surgem como uma nova abordagem para as pesquisas em tradução, assumindo posição de
liderança na área. Para essa pesquisadora:
textos traduzidos registram eventos comunicativos genuínos e como tais
não são nem inferiores nem superiores aos outros eventos
comunicativos em qualquer língua. Entretanto, eles são diferentes, e a
natureza dessa diferença precisa ser explorada e registrada.1 (BAKER,
1993, p. 234).
Baker (1995) apresenta sua concepção de corpus na qual explicita a preferência pela
análise por meio de computador:
Corpus é um conjunto de textos naturais (em oposição a
exemplos/sentenças), organizados em formato eletrônico, passíveis de
serem analisados, preferencialmente, em forma automática ou semiautomática (em vez de manualmente).2 (BAKER, 1995, p.226).
De acordo com Berber-Sardinha (2003), a autora pode ser considerada:
[...] a maior divulgadora do uso de corpora no entendimento do produto
e dos processos envolvidos em tradução [e] vê o corpus eletrônico como
um instrumento revolucionário, que permite enxergar aspectos da
linguagem do texto traduzido, em particular, de modo muito mais rico e
abrangente do que por outros meios [...] e seu trabalho teve papel
decisivo na implantação de um programa de pesquisa fundado na
exploração de corpora que deu vazão a um novo paradigma no âmbito
dos estudos da tradução. (BERBER SARDINHA, 2003, p.1).
Sendo assim, o consenso no uso de corpora para a análise da tradução contribui para o
desenvolvimento da disciplina como uma área autônoma. Autores como Tymoczko (1998)
corroboram o emprego de corpora para a prática e estudo da tradução. A autora destaca como
principais vantagens: a) a integração de abordagens linguísticas e de estudos culturais à
tradução; b) a obtenção de resultados teóricos e práticos; c) o potencial de se investigar as
particularidades de fenômenos específicos da linguagem; d) a flexibilidade e adaptabilidade
dos corpora.
1
Translated texts record genuine communicative events and as such are neither inferior nor superior toother
communicative events in any language. They are however different, and the nature of this differenceneeds to be
explored and recorded.
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A Linguística de Corpus caracteriza-se por seu caráter transdisciplinar e pela
possibilidade de análise de grandes quantidades de informações. Fundamenta-se em bases
empiristas, considerando a linguagem como um sistema probabilístico. Para Berber-Sardinha
(2004):
[...] a visão da linguagem como sistema probabilístico pressupõe que,
embora muitos traços lingüísticos sejam possíveis teoricamente, não
ocorrem com a mesma frequência. (BERBER-SARDINHA, 2004, p. 30).
A frequência de ocorrência dados vocábulos e expressões apresenta certa regularidade,
o que permite que seja mapeada de acordo com o contexto de uso. Dessa forma, no âmbito da
tradução, é possível delinear, por meio da análise de corpora, quais os traços mais recorrentes
no processo tradutório de uma língua à outra. Berber-Sardinha (2004, p. 31) também destaca
que a linguagem é padronizada e não um conjunto de escolhas aleatórias de indivíduos
isolados.
Os Estudos da Tradução Baseados em Corpus e a Terminologia
O tradutor que procura trabalhar com uma área de especialidade inevitavelmente utilizará em seu trabalho termos específicos e a linguagem adequada ao campo escolhido. Adota
dicionários e glossários especializados com o objetivo de produzir um texto final adequado aos
padrões e à tipologia da área de especialidade. Nesse momento, Tradução e Terminologia se
entrecruzam favorecendo a prática tradutória.
Embora se dediquem a objetivos distintos, a Tradução e a Terminologia complementamse em se tratando da tradução técnica e especializada. Tal fato é destacado por Aubert (1996) ao
observar que:
[...] se, na sua epistemologia e no seu objetivo de estudos, a Terminologia e a Tradução abarcam e se conduzem por caminhos distintos, no fazer tradutório e no fazer terminológico esses mesmos caminhos se cruzam e se entrecruzam. Com efeito, como afirma Galinski (1985), translators are probably the largest identifiable individual user group for terminologies...Ou seja, os tradutores profissionais apresentam-se como um dos
principais grupus de usuários finais da pesquisa terminológica (glossários, dicionários técnicos, bases de dados terminológicos, etc). (AUBERT,
1996, p.13-14).
2
Corpus mean[s]any collection of running texts (as opposed to examples/sentences), held in electronic form and analysable auto matically or
semi-automatically (rather than manually).
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Cabré, teórica iniciadora da Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT), acrescenta
que:
Nenhum especialista minimamente informado em Linguística Aplicada
põe em questão, hoje em dia, que entre a Tradução especializada e a
terminologia existe uma relação evidente e inevitável, mas, sem dúvida,
se estudou muito pouco sobre as características e motivações dessa relação e menos ainda se estabeleceram seus limites.3 (CABRÉ, 1999, p.177).
A autora (1999) assegura, ainda, que a Tradução necessita da Terminologia para expressar o conhecimento especializado com adequação. O estudo terminológico é uma atividade que
procura compilar e apresentar os termos de um dado campo a fim de que seu uso torne-se parte
do comportamento comum aos seus especialistas. Com a tecnologia e com o desenvolvimento
das relações de comércio entre os países do mundo todo, a tradução técnica e especializada vem
sendo cada vez mais requisitada e o tradutor necessita estar apto a desempenhar sua tarefa com
rapidez, eficiência e perfeição.
Sobre a colaboração entre a Tradução e os estudos terminológicos na elaboração de glossários e dicionários, Barros comenta que:
A cooperação entre tradutores e terminólogos, ou mais particularmente
o trabalho dos tradutores como terminólogos, pode ser testemunhado
por inúmeras obras terminográficas bilíngues ou multilingues, elaboradas em épocas diferentes, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Atualmente, a importância da participação dos tradutores na elaboração desse
tipo de obra é incontestável. Com efeito, diversos bancos de dados especializados de alcance mundial têm no tradutor um grande colaborador.
(BARROS, 2004, p.72).
Notamos que a Terminologia tende a fornecer o material necessário à atividade tradutória, de modo que os profissionais da área passam a contar com o acesso rápido aos termos
apropriados dos mais diversos campos de produção técnico-científica. Com o advento da informática e da globalização, as novas teorias desenvolvidas no mundo são reconhecidas e divulgadas de modo quase concomitante via língua inglesa. Isso ocorre, principalmente porque
“a língua inglesa configura-se como o latim (para alguns o sabir) das relações internacionais
contemporâneas” (AUBERT, 1996, p.17).
3
Ningún especialista mínimamente informado em linguística aplicada pone hoy dia em cuestión que entre la traducción especializ ada y la
terminología existe una relación evidente e inevitable, pero sin embargo se ha estudiado muy poco las características y motivaciones de está
relación y menos aún se han establecido sus límites.
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De modo geral, a produção cultural e as atividades sociais e comerciais de outras nações
são conhecidas pelo povo brasileiro por meio da língua inglesa. A direção tradutória de textos e
sistemas comunicativos foi por muito tempo do inglês para o português. No entanto, com o
aumento das interações humanas em virtude da internet e das trocas comerciais internacionais,
houve um crescimento da divulgação de pesquisas brasileiras, assim como de valores e costumes nacionais, promovendo uma grande demanda de materiais a serem traduzidos na direção
português  inglês. Em decorrência o tradutor muitas vezes atua como terminólogo “ao criar
neologismos ou mesmo paráfrases do termo para dar conta das equivalências semânticas”
(KRIEGER e FINATTO, 2004, p.72).
Contudo, vimos que a interação entre Estudos da Tradução e Terminologia apresenta
algumas especificidades. Para Aubert (1996):
Os estudos terminológicos e os estudos da Tradução constituem disciplinas autônomas entre si. A terminologia, enquanto campo de investigação, entretém relações estreitas com a lexicologia, a lexicografia e a
semântica, embora não se confunda com estas nem constitua simplesmente uma subárea das mesmas, e seu estatuto de área de aplicação da
linguística e/ou da sociolinguística parece inquestionável. A tradutologia, por sua vez, tem por objetivo a análise de um fenômeno complexo,
ao mesmo tempo linguístico, sociocultural, histórico, estético, político e
individual. (AUBERT, 1996, p.13).
As pesquisas voltadas à Tradução, como apontado por Munday (2001), dedicam-se à
observação e descrição do fenômeno da tradução, além da análise da tipologia textual e dos padrões adequados à Cultura Alvo para que o Texto Meta (TM) seja aceito dentro de uma determinada comunidade ou sociedade. No âmbito da Terminologia, Andrade (2001) destaca que os
estudos terminológicos ocupam-se “do termo, ou seja, da palavra especializada, dos conceitos
inerentes às diversas matérias especializadas” (ANDRADE, 2001, p.192).
Nesta pesquisa, a Terminologia assume importante papel para os Estudos da Tradução,
pois fornece a base teórica para a identificação dos termos das Ciências Sociais que nos propusemos a analisar. Serão observados termos especializados entendidos como a “designação, por
meio de uma unidade linguística, de um conceito definido em uma língua de especialidade”
(ISO 1087, 1990, p.5, apud BARROS, 2004, p.40).
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No que concerne à lista de termos e expressões levantados, a definição de léxico na obra
de Boutin-Quesnel (1985) é a mais adequada para designar o tipo de estudo apresentado. Em
seu trabalho o autor considera o léxico como um “repertório que registra termos acompanhados
de seus equivalentes em uma ou mais língua, e que não apresenta definições” (BOUTINQUESNEL et. al., 1985, p.30).
Quanto às expressões fixas, adotaremos a definição de Baker (1992), para quem se
tratam de expressões consagradas, referentes a determinado tipo de texto, e que permitem
pouca ou nenhuma variação. No caso das expressões semifixas, Camargo (2005) aponta que
estas apresentam maior variações e carregam consigo todo um contexto, podendo ser
consideradas especificas de uma determinada língua de especialidade.
Desta forma, tendo por base a abordagem teórico-metodológica dos Estudos da Tradução Baseados em Corpus (BAKER, 1996, 2004) e em procedimentos da Linguística de Corpus
(BERBER SARDINHA, 2004) e da Terminologia (BARROS, 2004), passamos a procurar por possíveis padrões recorrentes e por preferências adotadas pelos tradutores das subáreas e Ciência
Política e Antropologia, evidenciando a existência de características semelhantes e divergentes
na modalidade da Tradução de obras de caráter social.
No entanto, é importante ressaltar que, embora os pressupostos da Terminologia que
norteiam a busca de traduções adequadas às distintas áreas de especialidade sejam os da padronização, a ideia de variação terminológica precisa ser levada em consideração quando tratamos especialmente de texto como os das Ciências Sociais.
Faulstich (2002) insere-se em um grupo de pesquisadores os quais seguem os princípios
da Socioterminologia. Esta área de análise possibilita avaliar a variação do uso dos termos em
diferentes contextos, considerando a não estabilidade da língua.
Na perspectiva da autora, é importante que a investigação terminológica considere que
“os termos, no meio linguístico e social, são entidades passíveis de variação e mudança e que as
comunicações entre membros da sociedade são capazes de gerar conceitos interacionais para
um mesmo termo ou de gerar termos diferentes para um mesmo conceito” (2002, p.70).
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De acordo com Esteves, em seu trabalho Um estudo sobre a equivalência conceitual entre
termos do português do Brasil e do inglês: aspectos lexicais e semânticos (2010), a fundamentação teórica proposta por Faulstich para o reconhecimento da variação terminológica delimita a definição de termo e o entendimento de sua movimentação dentro do sistema.
Nesse contexto, os termos são descritos como:
(i) Signos que encontram sua funcionalidade nas linguagens de especialidade de acordo com a dinâmica das línguas;
(ii) Entidades variantes por que fazem parte de situações comunicativas distintas;
(iii) Itens do léxico especializado que passam por evoluções, por isso
devem ser analisados no plano sincrônico e no plano diacrônico das
línguas. (FAULSTICH, 2002, p.75).
Verificamos que, sob a ótica da pesquisadora, a funcionalidade de um termo está inserida na conjuntura das distintas áreas de especialidade. Notamos, também, que essa proposta
adequa-se aos objetivos de nossa investigação, ou seja, avaliar as possíveis diferenças entre a
composição dos termos e conceitos de Ciência Política e Antropologia na Língua Fonte (LF) e na
Língua Meta (LM). As análises de Faulstich (2002; 2004) e de Esteves (2010) corroboram as ideias de que os termos assumem funções específicas “de acordo com o contexto de uso”; e de que,
em condições similares de uso, “serão considerados variantes um do outro” (FAULSTICH,
2002, p.75).
No âmbito da Tradução, esses fatores nos permitem correlacionar possíveis mudanças
de perspectiva analítica de um idioma para outro, por meio da identificação das alternâncias de
funções que as variantes sofrem dentro das sociedades. Para Faulstich (2002, p.76), os termos
estão intimamente relacionados à colocação que exercem dentro de um sistema social, sendo
seu desempenho parte de uma entidade de natureza pragmática, a qual condiciona os possíveis
“mecanismos de variação”.
Consideramos, por conseguinte, que uma visão fundamentada na possibilidade de interação entre os termos e expressões servir-nos-á para contextualizarmos os problemas que enfocamos na análise dos dados, assim como para verificarmos a relação que há entre Terminologia
e Tradução e as influências que dada relação estabelece para possíveis alterações de conceitos e
de ambientações de uma linguagem de especialidade focada na Cultura Brasileira.
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Terminologia e Tradução em Ciências Sociais
No que concerne à linguagem dos estudos político-culturais projetados por Fernando
Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro, é importante conhecer os padrões próprios da natureza da
produção teórica dos autores a fim de elaborar novos textos antropológicos e políticos, assim
como de traduzir suas proposições e questionamentos, levando ao conhecimento do mundo o
papel que estes autores atribuem às nações latino-americanas.
A terminologia das Ciências Sociais segue algumas características da linguagem dos textos científicos, definidas por Pavel & Nolet (2002, p.124) como sendo um “sistema de comunicação oral ou escrita usado por uma comunidade de especialistas de uma área particular do conhecimento”.
Ao abordar a questão dos textos científicos e técnicos, Barros (2004), sugere que:
O conjunto não finito dos discursos orais e escritos produzidos por uma
área do saber ou do fazer humano constitui um universo de discurso,
marcado por uma norma discursiva própria, ou seja, por características
comuns e constantes em diversos níveis: léxico-semântico, narrativo e
discursivo. [...] A principal característica desse tipo de texto encontra-se,
no entanto, em nível lexical, uma vez que veicula unidades lexicais com
conteúdos específicos do domínio em questão. (BARROS, 2004, p.44).
É importante notar que, de maneira geral, a linguagem científica apresenta certa adequação a determinadas características de uso, como por exemplo, a universalidade e a internacionalidade, aplicadas às normas terminológicas; a precisão, em virtude da necessidade de transmissão de informações claras; a coerência, por um lado, na tendência por uma formação regular de
seus elementos lexicais e, por outro, na elaboração de uma sintaxe concisa, formulada para veicular dados específicos; e, por fim, a formalidade e a funcionalidade, que representam a frequente
recorrência a elementos estruturais como tabelas, gráficos, e cujo estilo costuma ser complexo
quanto à terminologia e sóbrio quanto à forma (GARRIDO, 2001).
Notamos, no entanto, que no âmbito das Ciências Sociais, a composição do campo de
especialidade não segue todas estas especificações, visto que os próprios objetos de análise
apresentam-se em constante evolução. De acordo com Winick, em seu Dictionary of Anthropology (1961), antropólogos, sociólogos e cientistas sociais são chamados, ao longo de suas pesquiPROFT em Revista
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sas, a criar termos especiais. Muitos desses termos não podem ser definidos com absoluta precisão e são usados com base em um tácito consenso sobre seus significados. Este acordo depende
mais de uma noção compartilhada das conotações de um termo em particular do que do claro
veredicto sobre a denotação da palavra em si.
Ainda de acordo com o autor, muitos termos levam as características de sua formulação
histórica para o discurso presente. Para os teóricos, o significado de um conceito é influenciado
pelas circunstâncias em que este foi colocado em uso por um pesquisador em particular, ou é
revestido com os vestígios das teorias precedentes.
Os distintos significados atribuídos aos conceitos de Ciências Sociais por diferentes pesquisadores geralmente refletem diferenças fundamentais no método de abordagem nos estudos
da sociedade, da relação homem/comunidade e das mudanças culturais. Entretanto, é importante observar que, embora existam tais diferenças de perspectiva analítica, antropólogos, sociólogos e demais cientistas sociais tendem a manter a unidade consensual dentro da área de
especialidade.
Pathak afirma, em sua obra Sociological Concepts and Terminology (1998) que a formulação
terminológica no campo das Ciências Sociais possui determinados aspectos condicionantes que
o diferem das demais áreas de especialidade. São eles: (1) o fato de que nesta área diversos termos podem designar um mesmo conceito; (2) um mesmo termo pode designar diferentes conceitos; (3) diferentes estudiosos associam conceitos distintos a um único termo; (4) os conceitos
são geralmente expressos por palavras de uso cotidiano; e (5) em Ciências Sociais os termos não
são formulados em linguagem simbólica. A estes fatores podemos ainda acrescentar que a Terminologia neste campo de investigação apresenta variação na sua forma de abordagem, sofrendo alterações de significado e uso de acordo com a leitura realizada pelos teóricos envolvidos.
Barros (2004) acrescenta que cada povo recorta a realidade objetiva de maneira distinta e
que as debilitações conceituais das representações sociais são designadas por unidades lexicais
que, consideradas como signos de domínios específicos da atividade da comunidade sociocultural, podem ser afirmadas como unidades terminológicas. A teórica debruça-se sobre a questão antropológica da descrição do sistema cultural de um povo e afirma haver a necessidade da
construção de um conjunto terminológico específico para essa área. Verifica-se, portanto, que
cada cientista social delimita seu campo de estudo e procura conhecer as nomeações dos seus
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objetos de análise. Dessa forma, podemos dizer que nas Ciências Sociais, além de uma terminologia científica própria à constituição de conceitos acadêmicos, existe também a necessidade de
se considerar a nomenclatura dos elementos sociais investigados. Temos, por conseguinte, que
as subáreas das Ciências Sociais apresentam um vocabulário especializado com a criação de
conceitos teóricos que assumem características próprias dentro da obra de cada cientista social.
Contudo, a maioria dos estudiosos dedica-se a fenômenos socioculturais específicos e, com isso,
os fatos e elementos da sociedade sob pesquisa tornam-se parte da Terminologia daquele autor.
No caso das pesquisas realizadas no Brasil podemos considerar esses fatores como brasileirismos, os quais, de acordo com Coelho (2003), podem ser compreendidos como índices linguísticos da identidade do povo brasileiro.
Para Faulstich (2004) algumas destas entidades linguístico-culturais assumem um quadro conceitual que é mais de natureza terminológica do que de linguagem comum, compondo
os chamados brasileirismos terminológicos. Admite-se, com isso, que estas unidades lexicais constituem um caráter funcional em contextos científicos específicos. A teórica define os brasileirismos terminológicos como “palavras, locuções e outra estrutura sintagmática criada e formada no
Brasil, que tenha significado autônomo e esteja encerrado num conceito de especialidade, que
possibilite reconhecer a área a que pertence” (FAULSTICH, 2004).
Devemos ainda nos ater à mencionada produção dos chamados neologismos terminológicos nas Ciências Sociais, principalmente quando tratamos de características intrínsecas a um
povo específico, como no caso de nossa pesquisa, a cultura e o povo brasileiro. Segundo Boulanger (1989), os neologismos terminológicos são desenvolvidos sob condições sociais e culturais
determinadas institucionalmente dentro das áreas de especialidade de que fazem parte. O autor
apresenta determinadas condutas a serem seguidas para a criação neológica, dessa forma, os
termos podem: 1) denominar um conceito estável, previamente delimitado de forma clara; 2)
ser concisos e breves; 3) ser construídos de acordo com as regras do próprio sistema linguístico;
4) constituir base de séries de palavras derivadas; e 5) adaptar-se ao sistema fonológico e ortográfico da língua.
Por sua vez, Cabré (1993) propõe, ainda, as seguintes condições para os neologismos terminológicos: 1) ser fruto de uma efetiva necessidade denominativa; 2) não apresentar conotações
negativas nem provocar associações inconvenientes; e 3) pertencer a um registro formal de especialidade.
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De acordo com Alves (1999, p.75), as criações neológicas nos campos de especialidade
são motivadas, pois correspondem a uma necessidade ditada pelo desenvolvimento das ciências e das técnicas. A elaboração desses elementos deve, portanto, obedecer a algumas normas,
como a conformidade com as regras de formação morfológica e a possibilidade de derivação de
novos elementos. Assim sendo, os neologismos terminológicos apontam um caráter relativamente
estável da língua.
Assim, é importante que o processo tradutório de tal repertório terminológico, segundo
o Guia para Tradução de textos de Ciências Sociais (2006), elaborado por Michael Henry Heim &
Andrzej W. Tymowski, pesquisadores do American Council of Learned Societies, siga alguns
direcionamentos, visto que os textos das áreas antropológica, sociológica, etc. são distintos dos
demais textos científicos por não poderem ser generalizados e estarem submetidos a contextos
sociais, políticos e culturais distintos, de acordo com o país e as tradições e costumes que o
constituem.
Embora afirmem que essa submissão a fatores sociais específicos de determinadas culturas gere inconsistência terminológica, não deixam de observar que:
Um termo-chave que ocorre mais de uma vez pode ser traduzido pela
mesma palavra sempre, mas o tradutor precisa primeiramente determinar se o significado é de fato o mesmo. Se não for, o tradutor pode escolher outra palavra, mas a decisão deve ser consciente. Para estabelecer
consistência à tradução, o editor pode sugerir que os tradutores elaborem um glossário de termos-chave quando trabalham com um texto específico.4 (HEIM & TYMOWSKI, 2006, p.10).
Os cientistas sociais, ao introduzirem novos conceitos, geralmente atuam para que as palavras ou expressões empregadas sejam aceitas pela comunidade científica e se universalizem
dentro desse público, passando a constituir termos. Bons exemplos disso são a ninguendade
(1995) de Darcy Ribeiro e a carnavalização (1997) de Roberto DaMatta. Os conceitos que transmitem são, em geral, culturalmente determinados, mas a opção por termos técnicos é um aspecto
dessas ciências e, por isso, os tradutores precisam estar atentos no momento de vertê-los para as
LMs.
4
[…] a key term that occurs more than once should be translated by the same word each time, but the translator must first dete rmine whether
the meaning is in fact the same. If it is not, the translator may choose another word, but the decision must be a conscious o ne. To foster
consistency, the editor can suggest that translators create a personal glossary of key terms as they work through a text.
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Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2011
A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
desses Dois Teóricos Brasileiros
Embora não seja possível generalizar, os dois principais procedimentos utilizados pela
maioria dos tradutores, de acordo com Heim & Tymowski, são: (1) empréstimo da língua original; e (2) tradução literal para o termo. Ambos causam um estranhamento inicial no leitor alvo,
pois ou estão em língua estrangeira ou forçam a forma original da LM a uma forma que não lhe
é natural. No entanto, frequentemente, as línguas se adaptam e absorvem os “estrangeirismos”
e “literalidades”.
É importante para o tradutor que se depare com um texto científico a ser traduzido estar
familiarizado com esse tipo de redação e também com os termos mais adequados a cada subárea das Ciências Sociais. Essa é uma das condições apontadas pelos autores do Guia, por facilitar que os textos sejam publicados de acordo com padrões internacionais. Tanto os tradutores e
pesquisadores da área quanto os estudantes de Tradução estariam diretamente beneficiados
com os resultados de trabalhos voltados para esses propósitos.
MATERIAL E MÉTODO
Para esta investigação, foram compilados os seguintes corpora: 1) um subcorpus
principal paralelo de Ciência Política, constituído pela obra: Dependência e desenvolvimento na
América Latina: ensaio de interpretação sociológica, de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto,
cuja primeira edição data de 1970, originalmente escrita em português (total de itens: 47.040) e
da respectiva tradução para o inglês, realizada por Marjory Mattingly Urquidi, sob o título
Dependency and Development in Latin America publicado em 1978 (total de itens: 58.737); 2) um
subcorpus principal paralelo de Antropologia, contituido pelas obras: O processo civilizatório, de
autoria de Darcy Ribeiro, publicada originalmente em português no ano de 1968 (total de itens:
63.159), e a respectiva tradução para o inglês, realizada por Betty J. Meggers sob o título The
Civilizational Process, publicada em 1968 (total de itens: 53.464); e O povo brasileiro: a formação e o
sentido do Brasil, de autoria de Darcy Ribeiro, publicada originalmente em português, no ano de
1995 (total de itens: 115.474), e a respectiva tradução para o inglês, realizada por Gregory
Rabassa, sob o título The Brazilian People: formation and meaning of Brazil, publicada em 2000
(total de itens: 139.858).
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Também utilizamos dois corpora de referência para a extração de palavras-chave. Em
português, utilizamos o corpus Lácio-Ref, composto de textos em português brasileiro, escritos
respeitando a norma culta. Para a extração de palavras-chave em inglês, empregamos como
corpus de referência o British National Corpus (BNC Sampler), composto por textos originalmente
escritos em inglês.
Quanto aos procedimentos adotados para o tratamento do corpus de estudo, as obras
escolhidas foram escaneadas, limpas e salvas em Word. Em seguida, os livros foram salvos
como texto sem formatação (txt), a fim de serem processados pelo programa WordSmith Tools,
criado por Scott (1999).
No tocante às ferramentas disponibilizadas pelo programa, utilizamos nesta pesquisa a
WordList, a KeyWords e a Concord, assim como os respectivos aplicativos (colocados e clusters).
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
O levantamento dos termos e expressões de Ciência Política e Antropologia nas obras
dos subcorpora de estudo em LF e em LM foi realizado por meio da seleção dos vocábulos mais
representativos de base substantival e adjetival com fundamento no critério de maior
chavicidade.5
Análise da frequência e das palavras-chave nas três obras do corpus de estudo
Para a análise do subcorpus principal de Ciência Política foram utilizadas as listas de
frequência de palavras extraídas com o auxílio da ferramenta WordList. Apresentamos as
Tabelas 1 e 2 com as dez palavras mais frequentes nos textos fonte (TFs) e nos TMs.
1. Setores (304)
2. Grupos (281)
3.
Desenvolvimento
(272)
4. Sistema (271)
7. Países (153)
5. Mercado (193) 8. Estado (141)
6.
Economia 9. Poder (136)
(179)
10. Social (129)
5
Compreendemos por chavicidade a relação estatística entre a ocorrência de dada palavra em um corpus de estudo e a importância que assume
para o léxico de uma área de especialidade.
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A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
desses Dois Teóricos Brasileiros
TABELA 1: Lista das dez palavras mais frequentes no subcorpus de Ciência Política em
português
1. Groups (295)
2. Development (261)
3. Sectors (254)
4. Social (254)
7. State (197)
5. System (226)
8. Market (194)
6.
Economy 9. Countries (164)
(207)
10. Power (158)
TABELA 2: Lista das dez palavras mais frequentes no subcorpus de Ciência Política em
inglês
As dez palavras mais frequentes apresentadas na Tabela 1 encontraram equivalentes na
Tabela 2: “setores”  sectors; “grupos”  groups; “desenvolvimento”  development; “sistema”
 system; “mercado”  market; “economia”  economy; “países”  countries; “estado”  state;
“poder”  power; e “social”  social. Dessa forma, foi possível notar que vocábulos de maior
ocorrência, como por exemplo, “grupos” (281), “sistema” (271), e “social” (129) fazem parte da
linguagem geral das Ciências Sociais.
Com o auxílio da ferramenta KeyWords, foram geradas as listas de palavras-chave do
subcorpus do TF, tomando para contraste o corpus de referência Lácio-Ref. Após este
levantamento, foram também observadas as palavras-chave a partir do TM, tendo como corpus
de referência o BNC Sampler. Abaixo, apresentamos as Tabelas 3 e 4 com as respectivas dez
palavras-chave de maior índice:
1. Setores
2. Grupos
3. Desenvolvimento
4. Sistemas
5. Economia
6. Enclave
7. Exportador
8. Industrialização
9. Dominação
10. Política
TABELA 3: Lista das dez palavras-chave a partir do subcorpus de Ciência Política em
português
1. Sectors
2. Economic
3. Groups
4. Political
5. Economy
6. Export
7. Industrialization
8. Enclave
9. Development
10. Domination
TABELA 4: Lista das dez palavras-chave a partir do subcorpus de Ciência Política em inglês
Entre as dez palavras-chave dos corpora do TF e do TM, nove coincidem como possíveis
correspondentes. Podemos citar, por exemplo: “desenvolvimento”  development; “economia”
 economy; “enclave”  enclave; “industrialização”  industrialization; e “dominação” 
domination.
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Para dar suporte à seleção de tais dados, realizou-se uma consulta a um corpus de apoio
formado por dicionários das subáreas das Ciências Sociais, a saber: Antropologia, Ciência
Política, Economia e Sociologia para abonar a inclusão ou exclusão de termos e expressões em
nossas análises. A observação da frequência dos itens lexicais da obra de Cardoso (Tabela 1) e
de sua tradução (Tabela 2) permite reconhecer quais os principais assuntos abordados pelo
autor, que trata dos processos de dependência político-econômica dos países latino-americanos,
considerando que a pesquisa foi desenvolvida com objetivo de traçar um panorama geral para
promoção de políticas públicas pela antiga CEPAL (Comissão Econômica para América Latina
e Caribe). Por conseguinte, uma vez presentes na lista de palavras mais frequentes e mais
representativas do subcorpus, os termos foram mantidos na análise da subárea de Ciência
Política.
As alterações no número de vezes que os termos são utilizados entre o TF e o TM
revelam as mudanças de cunho linguístico e lexical nas escolhas da tradutora, muito embora
não possamos restringir nossas análises a esse único elemento. As questões de âmbito
sociocultural e governamental que permeiam a constituição do comportamento de Urquidi
também podem ser avaliadas por meio do número de ocorrências de palavras. Podemos fazer
tal análise se avaliarmos, por exemplo, as alterações das utilizações do termo “economia” e de
sua tradução economy. A diferença é de 28 ocorrências a mais na LM, o que pode demonstrar
uma reordenação da linguagem teórica por parte da tradutora. No caso do adjetivo “social”,
este ocorre 125 vezes a mais no TM, revelando que a tradutora pode ter explicitado de maneira
mais enfática as relações humanas que se estabelecem entre os atores político-culturais das
comunidades em análise.
Da mesma forma, realizamos investigações semelhantes para o subcorpus de Antropologia. Abaixo apresentamos as Tabelas de 5 a 8 com as dez palavras mais frequentes e as dez
palavras-chave dos TFs e dos TMs.
1. Índios (452)
2. Social (352)
3. Trabalho (315)
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4. População (286)
5. Sistema (282)
6. Terra (247)
7. Processo (245)
8. Sociedade (243)
9. Produção (226)
10. Revolução (207)
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A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
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TABELA 5: Lista das dez palavras mais frequentes no subcorpus de Antropologia em
português
1. People (497)
2. Indians (473)
3. Social (445)
4. Population (316)
5. Land (313)
6. Cultural (289)
7. System (288)
8. Society (249)
9. Order (247)
10. Process (228)
TABELA 6: Lista das dez palavras mais frequentes no subcorpus de Antropologia em inglês
1. Índios
2. Povos
3. Sociedades
4. Terras
5. Escravos
6. Civilização
7. População
8. Negros
9. Missões
10. Mercantis
TABELA 7: Lista das dez palavras-chave a partir do subcorpus de Antropologia em
português
1. Labor
2. Mercantile
3. Slaves
4. Peoples
5. Civilization
6. Plantation
7. Blacks
8. Revolution
9. Society
10. Indigenous
TABELA 8: Lista das dez palavras-chave a partir do subcorpus de Antropologia em inglês
Das palavras presentes na Tabela 5, sete encontraram equivalentes na Tabela 6: “índios”
 indians; “social”  social; “população”  population; “sistema”  system; “terra”  land;
“processo”  process; e “sociedade”  society. As outras três palavras que não constaram entre
as dez primeiras (“trabalho”  work/labor; “produção”  production; apareceram entre as cem
palavras mais frequentes na lista de palavras do subcorpus do TM.
Notamos que as listas de palavras-chave destacaram a representatividade dos três pares
de obras (Dependência e Desenvolvimento na América Latina/ O processo civilizatório/ O povo brasileiro) uma vez que apresentam as palavras de maior chavicidade em contraste com um corpus
de referência de mais de um milhão de palavras. Esses índices de chavicidade apontam um uso
frequente de palavras que poderiam ser consideradas fortes candidatos a termos nas subáreas
de Ciência Política e de Antropologia. Ao cruzarmos as listas dos respectivos TFs, observamos
que os termos gerais das Ciências Sociais, como por exemplo, “sociedade”  society, são comum nas três obras que compõem os corpora paralelos de nossa pesquisa. Outras palavras de
âmbito sociológico coocorrentes são: “estado”  state; “burguesia”  bourgeoisie; e “oligarquia”
 oligarchy. Dessa maneira, o processo de análise dos termos mais frequentes das obras revela
algumas recorrências no uso de termos simples, o que evidencia que tanto Cardoso quanto Ribeiro desenvolveram estudos cujas teorias fundamentam-se em objetos semelhantes, como a
produção industrial interna, a acumulação de capital e a geração de mão-de-obra no Brasil.
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Análise da tradução de termos simples, expressões fixas e semifixas mais frequentes nos pares de obras do corpus de estudo
As palavras-chave selecionadas a partir dos subcorpora principais dos TFs foram comparadas às palavras-chave extraídas a partir dos respectivos TMs. A investigação dos termos
mais frequentes permitiu constatar que, em grande parte, as palavras-chave dos subcorpora
principais em LM coincidiam com as palavras-chave de LF em ambas as obras.
Com base nesses dados, apresentamos, abaixo, as Tabelas 9 e 10 com os dez primeiros
candidatos a termos simples mais frequentes nos TFs e as respectivas traduções, extraídos dos
subcorpora paralelos de cada par de obras das subáreas de Ciência Política e de Antropologia.
TF
1.
Seto-
6.
Gru-
7.
res
2.
1. Sectors
2. Groups
3. Development
4. Systems
5. Economy
cravos
pos
Civilização
3.
5.
Es-
Desenvolvimento
4.
Sociedades
5. Terras
8.
Po-
TM
6. Enclave
7. Exporter
8. Industrialization
9. Domination
10. Policy
pulação
9.
Do
minação
10.
Política
TABELA 9: Dez candidatos a termos simples mais frequentes de Ciência Política e respectivas
traduções no TM
1.
2.
3.
4.
5.
Índios
Povos
Sociedades
Terras
Escravos
TF
6.
7.
8.
9.
10.
Civilização
População
Negros
Missões
Mercantis
1.
2.
3.
4.
5.
Indians
Peoples
Societies
Lands
Slaves
TM
6.
7.
8.
9.
10.
Civilization
Population
Blacks/Nigers
Missions
Mercantile
TABELA 10: Dez candidatos a termos simples mais frequentes de Antropologia e respectivas
traduções no TM
A partir das palavras-chave levantadas em língua portuguesa (Tabelas 3 e 7), realizamos
a observação das linhas de concordância, dos agrupamentos lexicais (clusters) e dos colocados
(collocates) por meio da ferramenta Concord. Abaixo, apresentamos nas Tabelas 11 e 12, cinco
dos candidatos a termos mais frequentes em ambas os TOs e as expressões por eles formadas
(“sociedade/s”, “povo/s”, “trabalho/s”, “economia/s e “social/is”):
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SOCIEDADE/S
Sociedade/s Industrial/is – Sociedade/s Industrializada/s de Massa – Sociedade/s
Subdesenvolvida/s – Sociedade Civil – Sociedade Capitalista – Sociedade de Massa –
Sociedade/s Periférica/s – Sociedade/s Desenvolvida/s
POVO/S
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------TRABALHO/S
Trabalho Livre – Divisão Social do Trabalho
ECONOMIA
Economia Agrícola – Economia de Enclave – Economia Industrial – Economia Exportadora de Enclave – Economia de Subsistência - Economia Escravocrata – Economia Exportadora – Economias Periféricas – Economia Algodoeira – Economia Liberal – Economia Industrial-periférica – Economias Agro-exportadoras – Economia Dependente – Economia
Política – Economia Agropecuária – Economia Urbano-industrial
SOCIAL/IS
Divisão Social do Trabalho – Grupo Social – Estrutura Social – Pressão Social – Estratificação Social – Exclusão Social – Distributivismo Social – Ordem Social – Diferenciação Social
– Relações Sociais de Produção – Movimentos Sociais
TABELA 11: Expressões fixas e semifixas extraídas do subcorpus de Ciência Política
SOCIEDADE/S
Sociedade Parasitária – Sociedade Nascente – Sociedade Brasileira – Sociedades Tribais –
Sociedades Tribais Autônomas – Sociedade Cabocla – Sociedade Colonial – Sociedade
Agrária – Sociedade Rural – Sociedade Sertaneja – Sociedade Solidária – Sociedade
Subalterna – Sociedade Democrática – Sociedade Multiétnica – Sociedade Igualitária –
Sociedades Nacionais
POVO/S
Povo Brasileiro – Povo-massa – Povos Indenes – Povos Indígenas – Povo Novo – Povo
Livre – Povos Tribais – Povos Transplantados – Povos Testemunhos – Povo Mestiço –
Povo-nação – Povos Morenos – Povo Prístino – Povos Pastoris – Povos Conscritos – Povo
Mameluco – Povos Agrícolas – Povos Pagãos – Povos Germinais – Povos Avassalados
TRABALHO/S
Força de Trabalho – Regime de Trabalho – Condições de Trabalho – Relação de Trabalho
– Sistema de Trabalho – Mercado de Trabalho
ECONOMIA
Economia de Pesca – Economia Agrícola – Economia Granjeira – Economia Mercantil –
Economia Escravista – Economia Pastoril – Economia Mista – Economia Cafeeira – Economia Familiar – Economia de Subsistência – Economia Agrária - Economia Livreempresarial – Economias Periféricas –Economias Capitalistas – Economias Rurais- artesanais – Economias Coletivistas – Economias Não-monetárias – Economias Monetárias –
Economia Colonial – Economia de Subsistência – Economia Extrativista – Economia Rural
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– Economia Açucareira – Economia Agroindustrial
SOCIAL/IS
Ordem Social – Papel Social – Responsabilidades Sociais – Convívio Social – Reformador
Social – Consciência Social – Preconceito Social – Vida Social – Função Social – Estratos
Sociais – Classes Sociais – Estratificação Social – Miopia Social – Antagonismos Sociais –
Ascensão Social – Revolução Social – Democracia Social – Convivência Social
TABELA 12: Expressões fixas e semifixas extraídas do subcorpus de Antropologia
Verificamos que algumas das expressões fixas e semifixas estão presentes nos subcorpora de ambas as subáreas, revelando, novamente o desenvolvimento da teoria proposta pelos
autores e a interrelação entre as hipóteses apresentadas nas teorias política e antropológica.
Abaixo apresentamos a Tabela 13 com as expressões coocorrentes em ambas as obras e as respectivas traduções:
Expressões Fixas e Semifixas Coocorrentes nas obras
do corpus de estudo em LF
Acumulação de Capitais
Tradução de Urquidi
Tradução de Meggers e Rabassa
Capital Accumulation
Accumulation of Capital
Capitalismo Mercantil
Commercial Capitalism
Mercantile Capitalism
Classe/s Social/is
Social Class/es
Social Class/es
Crescimento Econômico
Economic Growth
Economic Growth
Crescimento Econômico
Economic Growth
Economic Growth
Divisão Social do Trabalho
Social Division of Labor
Division of Labor
Economia Agrária
Agrarian Economy
Agricultural Economy
Agrarian Economy
Economia Capitalista
Capitalist Economy
Capitalist Economy
Economia de Subsistência
Subsistence Economy
Subsistence Economy
Economia Cafeeira
Coffee Economy
Coffee Economy
Força de Trabalho
Grupo/s Social/is
Labor Force
Social Group/s
Work Force
Social Group/s
Grupo/s Dominante/s
Dominant Group/s
Grupo/s Privado/s
Grupo/s Empresarial/is
Industrialização
Substitutiva de Importação
Private Group/s
Entrepreneurial Group/s
Import-Substitution
Industrialization
Massa/s Assalariada/s
Massa/s Rural/is
Wage-Earning Mass/es
Rural Mass/es
Dominant Group/s
Dominating Group/s
Former/s
Private Group/s
Entrepreneurial Group/s
Industrialization which later
would expand and replace
imports
Substitutive Industrialization
in the Place of Imports
Salaried Mass/es
Worker/s from the Villages
Rural Mass/es
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A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
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External Market
Mode of Production
Form of Production
Peripheral Country/ies
External Market
Method/s of Production
Productive Process
Public Power
Produção Industrial
Productive Process
Public Power
Political Power
Industrial Production
Relação/ões Social/is
Social Relation/s
Senhor/es da Terra
Rural Patriciate
Social Relation/s
Social Relationship/s
Landowner/s
Setor Terciário
Tertiary Sector
Third Sector
Sistema/s Produtivo/s
Production System/s
Productive System/s
Financial System/s
Expressão Não Traduzida
Productive System/s
Mercado Externo
Modo/s de Produção
País/es Periférico/s
Processo Produtivo
Poder Público
Sistema/s Financeiro/s
Sistema Colonial
Peripheral Country/ies
Industrial Production
Financial System/s
Colonial System
TABELA 13: Expressões Fixas e Semifixas Coocorrentes em Ciência Política e Antropologia
que apresentam algumas variações nas opções de tradução nos corpora dos TMs
Os dados mostram que trinta expressões ocorrem com maior frequência nos dois subcorpus de Ciências Sociais. Com base na Tabela acima, podemos observar que a maior parte das
expressões coocorrentes nos TFs apresenta as mesmas opções de tradução nos respectivos TMs.
Por outro lado, na tradução das expressões como “setor terciário”, “grupos dominantes”, “sistema produtivo”, “economia agrária” e “industrialização substitutiva de importações”, Urquidi
optou pelas seguintes traduções: tertiary sector, dominant groups, production system/productive system, agrarian economy e import-substitution industrialization, ao passo que Meggers e Rabassa optaram por: third sector, dominant groups/dominating groups/formers, productive system, agrarian economy/agricultural economy e industrialization which later would expand and replace imports/ substitutive industrialization in the place of imports.
É interessante notar que as variações representam mais que simples alternâncias lexicais. Os comportamentos tradutórios de Urquidi, Meggers e Rabassa refletem as relações teóricas contidas nas obras de Cardoso e de Ribeiro, respectivamente, visto que os tradutores depreendem os significados contidos nas expressões e reconstroem a proposta analítica de interpretação do “povo brasileiro”. Podemos apontar, por exemplo, que na expressão “relações de trabalhos”, os tradutores variam entre os termos work e labor no contexto de uso do termo “trabalho”,
o qual tem grande amplitude dentro das Ciências Sociais e apresenta cinco sentidos principais,
em LM, os quais evidenciam as diferentes fases de sua evolução.
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Inicialmente, correspondia apenas às ideias de labor, ou seja, esforço físico. Contudo,
durante a segunda metade do século XIX, o termo passou a ser usado como figura de
linguagem, personificando um ato, em expressões como direito do trabalho, produto do
trabalho, valor do trabalho, sempre mantendo a correspondência com os padrões da sociedade
capitalista e mercantil. Esta personificação subjacente deu, então, lugar à noção de entidade
coletiva, como um organismo que congrega trabalhadores e operários, em matéria de defesa de
interesses e reivindicações políticas. Neste sentido, labor indica a classe trabalhadora atuando
conscientemente na política. A conceituação de labor ganhou ainda uma quarta acepção quando
a Câmara dos Comuns da Grã-Bretanha decidiu intitular-se Partido Trabalhista (Labor Party)
noção esta consolidada quando o partido adotou um programa socialista. Por fim, quando o
termo foi exportado, adquiriu um quinto significado, relacionado a doutrina ou programas
partidários, assim como às organizações sindicais e trabalhistas, que se difundiram e se
alteraram de acordo com a formação sócio-política de cada país.
No que se refere à definição de work no The Dictionary of Anthropology (1997), verificamos
uma pequena alteração de sentido, de modo que este termo representa a condição prévia para a
vida humana, a criação de cultura material que separa a natureza do homem e do animal. Neste
contexto, work é um termo que remete à formação da cultura, visto que não existem valores e
crenças sem o desenvolvimento material e não há desenvolvimento material sem trabalho. A
dimensão do conceito de work para a Antropologia, por conseguinte, mostra que as sociedades
vêm reconstruindo seu ambiente em virtude de seu poder criativo com base no “trabalho” e
que este tipo de atividade pode ser realizada mesmo em sociedades não-capitalistas, ao
contrário do termo labor, conforme exposto. Assim sendo, ao variarem as escolhas lexicais para
a tradução da terminologia sociocultural, os tradutores precisam considerar as mudanças de
leitura interpretativa dos termos e expressões dentro da Antropologia, para que não incorram
em inadequações teórico-terminológicas.
Do mesmo modo, encontramos termos simples de maior chavicidade na obra Dependência e desenvolvimento na América Latina, de Cardoso (e Falleto), que também aparecem nas obras
O processo civilizatório e O povo brasileiro, de Ribeiro. Com isso, verificamos se as escolhas lexicais de Urquidi poderiam fornecer diferentes opções de tradução para os termos e expressões
de Antropologia em relação às estratégias utilizadas por Meggers e Rabassa no processo tradutório das Ciências Sociais. Apresentamos abaixo a Tabela 14 com os termos simples coocorrentes de maior chavicidade nas três obras e suas respectivas traduções.
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Termos Simples Coocorrentes no par de obras em
LF
Banqueiro/s
Tradução de Urquidi
Tradução de Meggers e Rabassa
Banker/s
Campesinato
Capitalismo
Caudilho/s
Peasants
Peasant Farmer
Capitalism
Caudillo/s
Stoker/s
Banker/s
Peasantry
Comércio
Commerce
Estamento/s
State/s
Fazenda/s
Feitoria/s
Ranch/es
Hacienda/s
Termo não Traduzido
Metrópole/s
Metropolis/es
Periferia
Periphery/ies
Salário/s
Wage/s
Salary/ies
Seigniory
Senhorio/s
Senhor/es
Sindicalização
Sindicato/s
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Patriciate
Slaveholder/s
Seigniorial Planter/s
Labor Unions
Trade Union/s
Labor Union/s
Capitalism
Leader/s
Military Chieftain/s
Political Leader/s
Commerce
Trade
Business
Order/s
Group/s of Agents
Plantation/s
Establishment/s
Trade Post/s
Metropolis/es
Motherland/s
Mother Country/ies
Homeland/s
Periphery/ies
Outlaw/s
Wage/s
Salary/ies
Ruler/s
Master/s
Landlord/s
Feudal Lord/s
Chief/s
Landowner/s
Owner/s
Lord/s
Mastery
Domain/s
Master/s
Syndicate Movement/s
Syndicate/s
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TABELA 14: Termos Simples de maior chavicidade coocorrentes nas obras do corpus de TFs
e variações nas traduções no corpus de TMs
Neste âmbito, podemos observar, por exemplo, o termo “feitorias”, mencionado tanto
na obra do cientista político quanto na do antropólogo. Tratavam-se de entrepostos europeus
estabelecidos em territórios estrangeiros com o objetivo de realizar trocas comerciais, geralmente escravistas. Podiam ser compreendidos como simples casas ou como um conjunto de equipamentos e estruturas militares ou de acolhimento e manutenção de embarcações. Também representavam grandes armazéns e edifícios que abrigavam instituições administrativas, judiciais
e diplomáticas. Funcionavam, ainda, como armazéns, mercados, alfândegas, áreas de defesa e
pontos de apoio à exploração ultramarina. Dentro da história nacional, as “feitorias escravistas”, assim como as “feitorias exportadoras”, apresentavam estruturas corporativas, visando a
proteção dos interesses de comerciantes e o desenvolvimento da economia e da política colonial
para o lucro da metrópole. Eram governadas por um “feitor”, encarregado de reger o comércio,
arbitrar as contendas entre os mercadores e servir aos interesses da nação que representava. As
“feitorias” pertencentes ao governo português, além de superintender as relações entre marinheiros, mercadores e portugueses, centralizavam a cobrança de impostos e taxas de navegação.
Cabem, ainda, na conceituação das expressões formadas com o termo “feitoria”, o
sentido de um ponto de contato com mercados tradicionais e estabelecimentos, em rotas e
circuitos comerciais consolidados, e de centralização e monopólio do comércio colonial. Os
núcleos mercadológicos permitiam, também, o comércio de manufaturados de luxo, armas e
tecidos em troca de matérias-primas, como sal, produtos agrícolas e especiarias. As vendas
coloniais favoreciam o trânsito de ouro, escravos, madeira, etc. para os países europeus e o
envio de azeite e cobre para a América Latina.
Em LM, a opção dos tradutores, establishment, contém apenas o significado de instituição
ou estabelecimento voltado ao comércio durante o processo colonial. Observamos que este
sentido contém somente uma das concepções apresentadas para as expressões formadas com
base na ideia de “feitoria”.
Outra possível escolha tradutória a ser observada é a concepção de trading post, a qual,
de acordo com o Oxford English Dictionary (1961), tem a acepção de pequena área longínqua,
usada como centro de compras e vendas de mercadorias, principalmente na colônia americana.
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Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2011
A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
desses Dois Teóricos Brasileiros
Tal leitura vem sendo utilizada em contextos semelhantes aos de “feitoria” para as sociedades
dominadas pelas nações europeias mesmo antes de o Brasil ter sido descoberto. Sendo assim, a
atividade de desenvolver e construir entrepostos é anterior à própria ideia de áreas de trocas de
escravos para os antropólogos brasileiros, o que nos faz pensar que, talvez, a tradução por slave
trading post seja a mais aproximada dos conceitos e das práticas que envolviam as “feitorias
escravistas” no Brasil.
Assim, na tradução das obras em análise, notamos que as escolhas de Urquidi, Meggers
e Rabassa representam um comportamento inovador que se daria não apenas no ambiente da
tradução, mas também em situações de adequação e análise de fatores sociais que são
desconhecidos às comunidades de chegada.
Análise da tradução de termos simples, expressões fixas e semifixas empregados em cada TF
em relação a seu uso na subárea de Ciência Política e Antropologia
Por sua vez, termos simples, expressões fixas e semifixas aparecem na obra de Cardoso,
os quais são comuns à subárea de Antropologia, mas que não foram encontrados nas obras de
Ribeiro. Dessa forma, a Tabela 15, abaixo, mostra conceitos empregados em Ciência Política e as
respectivas traduções, os quais não foram utilizados por Ribeiro nas teorias do corpus de
estudo.
Termos Simples relevantes às Ciências
Sociais ocorrentes na obra de Cardoso em
LF
Agnosticismo
Traduções de Urquidi
Aprismo
Aprismo
Bipartidarismo
Continual Struggle
Cardenismo
Cardenismo
Coloradismo
Colorado[figures]
Gaetanismo
Head of the left wing of the Liberal party
Goulartismo
Case of Goulart
Populismo
Populism
Porfiriato
Porfiriato System
Porfiriato State
Drive
Pujança
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Agnosticism
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Talita Serpa
TABELA 15: Opções de Tradução de Termos Simples importantes às Ciências Sociais ocorrentes na obra de Ciência Política
No caso dos termos encontrados na obra de Cardoso, observamos que, por exemplo, no
âmbito do conceito de “populismo”, este se aplica, de acordo como Dicionário de Ciências Sociais
(1996), aos movimentos políticos de diversas épocas e em várias regiões. Esses movimentos
tiveram características sumamente diferentes das registradas pelos movimentos e regimes
políticos latino-americanos aos quais o termo foi também aplicado.
Existem muitas discussões acerca dos atributos que distinguem o “populismo” de outras
formas de regimes ou movimentos políticos. Embora exista um acordo generalizado para
considerar como tal alguns casos, como o período de “getulismo” no Brasil e o de “peronismo”
na Argentina, há dúvidas a respeito de outros casos menos nítidos como os governos da
Democracia Cristã no Chile e os da Ação Democrática na Venezuela, nos quais, apesar de
existirem algumas características de “populismo”, não ocorreram rupturas notórias com o
quadro jurídico-constitucional preexistente, ou o caso do regime militar peruano, em que o
componente pessoal de liderança ficava diluído no contexto de um papel altamente
institucionalizado das Forças Armadas no exercício do governo.
Em LM, o The Blackwell Dictionary of Twentieth Century Social Thought (1993) apresenta o
populism como conjunto de movimentos sociais com alta capacidade de obter apoio popular,
mas sem os traços típicos do “socialismo” europeu. O que têm em comum é:

A presença de uma massa socialmente mobilizada com pouca ou nenhuma organização autônoma de classe;

Uma liderança predominantemente oriunda de setores da classe alta ou média;

Um tipo carismático de ligação entre líderes e adeptos.
No contexto da Cultura Meta, por conseguinte, observamos que as alterações
demográficas resultantes da rápida expansão urbana são colocadas em evidência, associando-se
à mentalidade das elites e fazendo com que esse tipo de expressão política se tornasse
altamente provável em países no estágio de desenvolvimento usualmente encontrado na
América Latina.
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A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
desses Dois Teóricos Brasileiros
Nas obras de Ribeiro também ocorrem termos e expressões importantes às Ciências Sociais e que não ocorrem na teoria de Cardoso, abordada no corpus paralelo de Ciência Política.
Abaixo, apresentamos a Tabela 16 com os principais exemplos desses termos:
Termos Simples relevantes às Ciências
Sociais ocorrentes na obra de Ribeiro em
LF
Bóia-Fria
Tirania
Tribalidade
Tropicalidade
Unipartidarismo
Urbanidade
Usineiro
Usura
Vassalagem
Xenofobia
Traduções de Meggers e Rabassa
Migrant Worker
Boia-Fria
Cold Leftover
Migrant Field-Worker
Tiranny
Tribalism
Tribal State
Tropicality
Single Party System
Urbanity
Sugar-Factory Owner
Usury
Servitude
Xenophobia
TABELA 16: Opções de Tradução de Termos Simples importantes às Ciências Sociais ocorrentes na obra de Antropologia
No tocante aos brasileirismos trabalhados pela Antropologia de Darcy Ribeiro, podemos
citar o contexto de uso do termo “boia-fria”. Nesse exemplo, verificamos que o termo originouse segundo o Dicionário de Ciências Sociais (1986), das condições em que as refeições são feitas
por grupos de trabalhadores assim denominados. Como nos locais de trabalho não existem
instalações para aquecer a comida, os operários almoçam-na de cócoras, à sombra de um
arbusto, ou mesmo sob o sol. A dieta básica é o arroz, comido puro ou acompanhado por algum
legume ou feijão. É interessante notar que, além deste nome, tem-se também “clandestino”,
“volante”, “safrista”, “eventuais”, “diaristas” e “temporários”.
Por conseguinte, “boia-fria” é apenas uma das denominações usadas para designar o
trabalhador rural braçal, residente na cidade ou na sua periferia, que se desloca para o campo
na época da colheita, e recebe por dia ou por tarefa. Geralmente não possui nenhum vínculo de
natureza trabalhista com o empregador, consequentemente não se beneficia da legislação
trabalhista, nem de assistência da medicina pública.
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Esses trabalhadores têm jornadas diárias de 10 a 12 horas, com uma hora para almoço e
cinco minutos para o lanche, e com direito a descanso remunerado aos domingos. Some-se a
esse número de horas diárias de trabalho o período de espera de condução mais o tempo gasto
em transporte, chegando a alcançar 18 horas por dia fora de casa.
Ainda é preciso lembrar que o transporte oferecido a esse grupo é feito em caminhões
apinhados, e a separação entre os sexos é estabelecida por uma corda. Além dos “boias-frias”,
viajam também nos caminhões, o motorista e um fiscal, pessoa de confiança do empregador e
responsável pelo bom andamento do trabalho, segurança e regimentação. Quando as distâncias
a serem percorridas diariamente são muito grandes, os “boias-frias” são alojados no próprio
local de trabalho, que pode oferecer pouco ou nenhum tipo de abrigo. No caso de não haver
acomodações, os próprios trabalhadores são responsáveis pela construção de barracos ou então
optam por dormir ao relento.
Compreendemos que as condições de vida dos “boias-frias” são de extrema pobreza.
Moram, em sua maioria, em casebres de maneira ou papelão com piso de terra batida, tiram
água de poço e vivem sem sistema de esgoto.
Em geral, o nível de escolaridade é muito baixo ou nenhum. Apresentam altas taxas de
mortalidade infantil, elevado índice de verminose e subnutrição. Nos períodos em que não há
colheita, os “boias-frias”, quando encontram emprego na cidade, trabalham como auxiliares de
pedreiro, catadores de papel, guardas noturnos; e as mulheres como domésticas e lavadeiras.
Devido à perda de sua identidade como homem do campo, o “boia-fria” caracteriza-se,
segundo Mello (1975), pela “sua disponibilidade para qualquer tipo de trabalho”, e pela “sua
permanente instabilidade de emprego”.
O aparecimento desse tipo de proletariado rural é atribuído à substituição das lavouras
que demandam um grande número de trabalhadores e maior volume de trabalho – de café, por
exemplo – por outras de maior rentabilidade comercial, como a da soja e a da cana, que, por não
necessitarem de trabalho permanente, causam o desaparecimento do colonato e da economia de
subsistência. Além disso, a crescente mecanização da agricultura, a expansão da pecuária e a
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absorção da pequena propriedade familiar pela propriedade latifundiária agravaram a situação.
Cada vez mais a população rural é expulsa do campo e migra para as cidades, as quais, por sua
vez, não possuem capacidade para absorção dos excedentes de mão-de-obra, causando a
constituição de um trabalhador rural volante, que é reabsorvido como força de trabalho barata e
mais vantajosa para os empregadores.
A crença geral é a de que os “volantes” sejam um fenômeno tipicamente brasileiro,
surgido por volta de 1963, visto que foi nesta época que começaram a tornar-se visíveis nas
grandes cidades. No entanto, suas origens encontram-se nas transformações sofridas pela
estrutura econômica brasileira por volta de 1930.
Por fim, o Dicionário de Ciências Sociais (1986) ainda salienta que em 1945 já se utilizava o
trabalho de “safristas” nos canaviais de Piracicaba, São Paulo. E recuando ainda mais no tempo,
encontram-se, em 1938, referências a esse tipo de trabalhador contratado para colher cana,
algodão e cítricos no interior paulista. Contudo, há mais de cinquenta anos, nas zonas da mata
pernambucanas,
existiam
trabalhadores
assalariados
avulsos,
também
chamados
de
“corumbas”.
Dessa maneira, notamos que o termo “boia-fria” engloba um conjunto de concepções
que perpassa a simples relação com a má alimentação e o trabalho braçal nas lavouras do país.
Trata-se de um grupo social específico, com características de pobreza e submissão que lhe são
próprias. Ao traduzir o termo por migrant worker, o tradutor inicia a proposta de reconstrução
de sentido para o conceito em LM. Migrant worker traz consigo diferentes significados e
conotações oficiais, de acordo com a região em que é aplicado. A definição, no contexto dos
Estados Unidos, é ampla, incluindo qualquer pessoa que trabalha fora de seu local de origem. O
termo também pode ser usado para descrever alguém que migra para outros países com o
objetivo de encontrar trabalho, como por exemplo: empregos temporários. A United Nations
Convention on the Protection of the Rights of All Migrant Workers and Members of Their
Families define migrant worker como uma pessoa que exerce qualquer tipo de atividade
remunerada em uma nação que não é a sua. O tradutor, nesse sentido, busca realizar uma
alternância de sentidos, com referência em seu comportamento cultural e linguístico da LF, para
compor semelhantes relações conceituais e contextuais na sociedade de chegada.
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Também observamos que, no âmbito das relações econômicas, políticas, coloniais e
culturais, Cardoso mostrou predominância de expressões fixas e semifixas, assim como de
terminologia recorrente aos cientistas sociais, como, por exemplo, nas seguintes expressões
fixas e semifixas em Dependência e desenvolvimento na América Latina:
Expressões fixas e semifixas relevantes
à área de Ciências Sociais ocorrentes
na obra de Cardoso em LF
Traduções de Urquidi
Contenda Eleitoral
Electoral Process
Decisões de Poupança
Saving Decisions
Empresas Paraestatais
State-controlled Enterprises
Endividamento Fiscal
Indebtedness
Influxos do Mercado
Market Influence
Influxos Inflacionários
Spurt of Inflation
Instrumento de Crédito
Instrument of Bank-credit Allocation
Inversionistas Estrangeiros
Foreign Investor/s
Latifúndio Improdutivo
Low-productive Latifundium
Mecanismo Cambial
Exchange
Política Saneamento Monetário
Orthodox Monetary Policy
Retenção Cambial
Exchange Control
Tarifa/s Alfandegária/s
Tariff/s
Transferência de Rendas
Transfer of Income
Valor-Ouro da Moeda
Gold Value of Currency
TABELA 17: Opções de Tradução de Expressões Fixas e Semifixas importantes à área das Ciências Sociais e ocorrentes na obra Dependência e desenvolvimento na América Latina
Notamos que, no que diz respeito à concepção dos “latifúndios improdutivos”, esta remete primeiramente ao conceitos de “latifúndio”(latifundium), o qual está relacionado à ideia de
grandes propriedades rurais, cujas dimensões territoriais assumem proporções superiores à
área média dos imóveis rurais existentes em uma região ou país. O termo originou-se na Antiguidade Clássica, quando grandes extensões de terra pertencentes ao Estado (ager publicus) foram entregues ao domínio das classes ricas ou expropriadas por estas dos pequenos cultivadores.
Na era moderna, o conceito de “latifúndio” (latifundium) volta-se mais especificamente
para a representação da ideia de grandes imóveis existentes em países menos desenvolvidos.
No caso dos países desenvolvidos, o termo perde o uso com o passar dos anos e com o aumento
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da densidade demográfica, a qual, associada a fatores de ordem política e econômica, levou à
fragmentação territorial e, em consequência, à predominância da pequena propriedade de exploração familiar.
No Brasil, por sua vez, os imóveis rurais considerados “latifúndios” atingem proporções
muito vastas, que superam as existentes em qualquer outro continente. É neste contexto que a
expressão “latifúndio improdutivo” parece ser utilizada com maior frequência para designar
propriedades territoriais cujo campo utilizado não passa de 5% de seu total. De acordo com o
Dicionário de Ciências Sociais (1986), existe, por conseguinte, uma baixa produtividade das grandes extensões de terra para a agricultura e pecuária, o que conduziu a população, assim como
os governantes, a um processo de Reforma Agrária.
Dessa forma, ao traduzir a expressão por low-productive latifundium, os tradutores trazem à baila, no contexto da LM, a proposição de que os “latifúndios” do território brasileiro
tendem a apresentar um papel regressivo no processo produtivo do país.
No âmbito da cultura brasileira, Ribeiro utiliza com frequência o recurso dos neologismos
para o desenvolvimento de conceitos novos. Apresentamos, abaixo, a Tabela 18 com exemplos
de expressões fixas e semifixas usadas pelo teórico em suas obras:
Expressões fixas e semifixas relevantes à
subárea de Antropologia ocorrentes na
obra de Ribeiro em LF
Traduções de Gregory Rabassa
Agregados Transitórios
Temporary Workers
Alacridade Folgazã
Relaxed Cherfulness
Azeres da Preia
Hazards of the Capture
Braceiros Estacionais
Seasonal Workers
Lavoura de Coivaras
Gathering Firewoods
Povos Testemunhos
Peoples who have watched the intrusions without losing their former cultural integritude altogether
Reduções Missioneiras
Missionary Reductions
Regime de Parceria
System of Sharecrooping
Tribalidade Indiferenciada
Indifferentiated Tribal State
Tribos Indígenas Indenes de Contato
Indigenous Tribes Free of Contagion
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TABELA 18: Opções de Tradução de Expressões Fixas e Semifixas importantes à subárea da
Antropologia e ocorrentes na obra O povo brasileiro
Como observamos no tocante aos termos, também entre as expressões, as traduções
realizadas por Rabassa mostram-se adequadas em relação ao uso da LM. Contudo, as criações
conceituais de Darcy Ribeiro revelaram-se mais frequentes entre as expressões, o que pode
repercutir em sua baixa frequência de uso por outros autores, como podemos verificar no caso
de “alacridade folgazã”, a qual representa a jovialidade brincalhona e divertida encontrada
entre os brasileiros, principalmente no que se refere às festas e folguedos regionais.
No caso da expressão ocorrente nos TMs como possível correspondente em LM: relaxed
cheerfullness, averiguamos que sua utilização estende-se para outros contextos, visto ter uma
dimensão de sentido mais extensa, a qual se enquadra a qualquer situação em que os
indivíduos estejam divertindo-se.
Autores e tradutores agem como distintos atores sociais em ambientes humanos
diferenciados por questões políticas e culturais que lhes são próprias, produzindo, com isso,
textos com funções socioculturais independentes. No processo tradutório, o agente humano
lida com elementos que podem interferir na interpretação e na concepção de conceitos entre os
núcleos de antropólogos e pode gerar novas teorias e redefinições terminológicas. Ao nomear
fenômenos culturais, o tradutor constitui-se, em parte, como um cientista social capaz de
depreender da sociedade em que está inserido e da sociedade a qual observa, os valores
necessários à elaboração de um conjunto léxico de especialidade adequado àqueles dois
contextos.
Análise da tradução termos simples, expressões fixas e semifixas ocorrentes nas obras Dependência e Desenvolvimento na América Latina, O processo civilizatório e O povo brasileiro
em relação a sua ocorrência na Web
Com base nos resultados apresentados acima, verificamos se os termos e expressões
também seriam empregados em textos disponibilizados na Web. A fim de ilustrar o uso de alguns desses termos, montamos a Tabela 19, com termos dos TFs do corpus de estudo e suas
respectivas traduções e apresentamos também o número de ocorrências na rede.
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A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
desses Dois Teóricos Brasileiros
Termos Simples
Coocorrentes nas
obras de FHC e
Ribeiro
Frequência de
ocorrência dos
Termos Simples
nos TMs
Termos Simples
em português, na
Frequência de
ocorrência dos
Termos Simples em
inglês, na Web
Web
Campesinato
97.700
Peasants
Peasant Farmer
Caudilho
144.000
Dirigismo
Estatismo
Fazenda
Periferia
Salário
Senhor
94.600.000
325.000
458.000
56.900.000
18.600.000
31.300.000
63.000.000
2.030.000
Caudillo
4.570.000
896.000.000
Military Leader
3.800.000
Political Leader
3.250.000
Commerce
867.000.000
Trade
1.940.000.000
Business
7.710.000.000
Direction
859.000.000
Management
2.550.000.000
Planning
1.150.000.000
Statism
1.290.000
State
3.790.000.000
Ranch
290.000.000
Hacienda
180.000.000
Plantation
91.500.000
Periphery
16.8000.000
Outlaw
52.900.000
Wage
103.000.000
Salary
345.000.000
Patriciate
93.500
Slaveholder
318.000
Seigniorial Planter
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237.000
Peasantry
Leader
Comércio
13.700.000
Não há ocorrências
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Talita Serpa
TABELA 19: Termos Simples ocorrentes nos TFs e respectivas traduções nos TMs com o
número de frequência na Web
Entre os exemplos, notamos que, em sua maioria, as traduções mostram-se adequadas
em relação ao uso da língua geral, adaptando atores e lugares sociais tipicamente brasileiros
a elementos da cultura alvo. Ao buscar a frequência destes termos simples e expressões fixas
e semifixas na Web em português e em inglês, observamos que de maneira geral, os correspondentes foram escolhidos pelos respectivos tradutores representados nos nossos subcorpora, de modo a procurar construir conceitos referentes à sociedade brasileira, adequando-se
ao uso de países de língua inglesa e permitindo a antropólogos e cientistas políticos estrangeiros conhecer traços e teorias de autores nacionais.
Amostra de glossário bilíngue português ↔ inglês com base na palavra-chave “grupo”
Dessa forma, o arcabouço teórico-metodológico possibilitou-nos a elaboração de dois glossários bilíngues português ↔ inglês de termos simples e de expressões fixas e semifixas a partir
dos corpora de estudo. Apresentamos a seguir a microestrutura e amostra do glossário, as quais
partem da palavra-chave “grupo/s” devido a sua importância e frequência dentro das obras
dos subcorpora principais em português:
Termo ou
expressão em
português
(subcorpus
principal na
Língua
Fonte)
Termo ou expressão
em inglês (subcorpus
principal na Língua
Meta)
Contexto de uso no
subcorpus principal de
TF de Ciência Política
Contexto de uso no
subcorpus principal de
TFs de Antropologia
+
Contexto de uso no
subcorpus principal de
TM de Ciência Política
+
Contexto de uso no
subcorpus principal de
TM de Antropologia
GRUPO/S
DOMINANTE/S
DOMINANT
GROUP/S
Desde então, as classes
médias começaram a
propiciar reformas na
ordem política, atitude
que permitia a eclosão
das divergências entre
os grupos dominantes.
(...) a independência para
si mesma que continua
regendo o Brasil por oitenta anos mais. No curso dessas décadas, enfrenta e vence todos os
levantes populares, matando seus líderes ou os
anistiando e incorporando sem ressentimento ao
grupo dominante.
DOMINATING
GROUP/S
FORMER/S
Subsequently,
the
middle class began to
make political reforms
that
reconciled
the
divergent interests of
PROFT em Revista
(…) independence so
well for itself that it
continued to rule Brazil
for eighty more years. In
the course of those
decades it confronted
and
conquered
all
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the dominant groups.
popular
uprisings,
killing the leaders or
giving them amnesty
and incorporating them
into the dominating
group
without
resentment
Uma vez instituídos, os
Estados tendem a uma
regulamentação cada vez
mais restritiva das atividades sociais em termos
de preservação dos interesses dos grupos dominantes.
Once in existence, such
states tend toward increasing regimentation
of social activities in the
effort to perpetuate the
interests of the dominant
groups.
O primeiro, encarnando
a figura étnica do grupo
dominante, impõe sua
língua, seus costumes,
suas instituições e crenças a todos os povos incorporados na órbilta de
dominação estatal, desatrelando-os de suas próprias tradições para integrá-los na nova sociedade (...)
The former imposed the
language, customs, institutions, and beliefs of the
dominant ethnic group
on all those peoples incorporated within the
orbit of state domination,
destroying their former
traditions in order to integrate them into the
state society (…)
GRUPO/S
EMPRESARIAL/IS
PROFT em Revista
ENTREPRENEURIA
L GROUP/S
Que
fundamentos
estruturais
possibilitaram tal tipo de
orientação
em
uma
"situação de poder" na
Devolvia, inclusive, o
imposto de renda de
grandes grupos empresariais do sul do país
que prometessem aplicáAnais do Simpósio Profissão Tradutor 2011
Talita Serpa
qual, como vimos, a lo na Amazônia.
aliança política básica
abrangia setores tão
distintos — alguns deles
de caráter "tradicional"
—
como
grupos
latifundiários,
setores
populares
urbanos,
classes médias e grupos
empresariais
da
indústria, das finanças e
do comércio?
GRUPO/S
PRIVADO
/S
PRIVATE GROUP/S
How could this type of
orientation occur in a
power situation where
the
basic
political
alliance embraced such
diverse sectors—some of
them very traditional—
as land-holding groups,
urban popular sector,
middle
classes,
and
entrepreneurial groups
of
industry
and
commerce?
It even returned income
taxes of large entrepreneurial groups from the
south who promised to
apply them in the Amazon region.
A oposição poderá estar
baseada
ainda
em
grupos privados nãocomprometidos com o
setor
monopolista
estrangeiro,
que,
idealmente, poderiam
tratar de refazer a
aliança "para baixo",
para, desse modo, lograr
melhores condições de
negociação política com
os
grupos
agora
dominantes.
Só uma dedicação extrema ao espírito de livre
empresa e uma preferência de caráter ideológico
pela gerência privada de
bens explica a doação de
parcelas astronômicas de
recursos públicos, nessas
condições, a grupos privados.
The opposition would
also be based on private
groups not involved with
the foreign monopolistic
sector, who ideally would
try to remake the
"downward" alliance in
order to improve their
position for political
negotiation with the new
dominant group.
PROFT em Revista
Only extreme dedication
to the free-enterprise
spirit and an overriding
ideological
preference
for the private management of goods can explain the allocation to
private groups of astronomical amounts of public resources under such
ambiguous conditions.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pudemos verificar que as ferramentas do sofware WordSmith Tools facilitam a investigação de grandes quantidade de dados, obtidos por processamento computacional com maior rapidez e precisão que manualmente. As linhas de concordância esclarecem dúvidas e fornecem o
cotexto dos termos e expressões levantados, permitindo-nos observar a organização das palavras dentro dos sintagmas. Dessa forma, nas subáreas de Ciência Política e de Antropologia,
notamos que a maioria dos termos e expressões levantados se inter-relacionam, gerando sentidos específicos de acordo com os contextos sócio-políticos e culturais da sociedade brasileira.
Alguns termos e expressões levantados nos corpora principais, respectivamente
utilizados
pelos
tradutores
em
questão,
apresentam
possibilidades
de
diferentes
correspondências em inglês, como por exemplo: “senhorio” que apresentou onze
correspondentes: seigniory, ruler, master, landlord, feudal lord, chief, landowner, owner, lord, mastery
e domain. A escolha dos tradutores por variar o uso de diferentes escolhas lexicais representa a
tentativa de mostrar ao público alvo a versatilidade da sociedade brasileira e latino americana.
Com relação às aproximações observadas entre os subcorpora principais e os corpora
comparáveis em língua portuguesa e inglesa, pudemos notar que a maioria dos termos e
expressões levantados nos TFs encontra equivalência nos TMs e também está presente nos
corpora comparáveis como, por exemplo em “alienação” alienation, “comunidade” 
comunity e em “violência”  violence. No entanto, a relação que se estabelece na tradução dos
brasileirismos terminológicos não apresenta uma correspondência direta na tradução para LM. O
que ocorre é um processo de intensa variação nas escolhas lexicais dos tradutores, como por
exemplo em: “senhores”, termo que, na América Latina, apresenta relações com a dominação
humana, com relações de interesse e com as relações de patriarcalismo e apadrinhamento, o
qual é traduzido por patriciate, slaveholders, seignorial planters e masters.
Também verificamos que boa parte dos termos e expressões analisados não constar em
dicionários especializados. Dessa forma, a busca por correspondentes traz dificuldade para o
tradutor que poderá encontrar estratégias para expressar a sociedade brasileira para a cultura
de chegada. Neste sentido, evidencia-se a validade de glossários de termos simples e expressões
fixas e semifixas mais frequentes nas duas subáreas das Ciências Sociais, como a amostra que
foi proposta no presente trabalho.
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Por fim, salientamos que o tradutor, ao trabalhar obras e textos de antropólogos e cientistas
políticos precisa estar consciente do impacto de suas escolhas lexicais na teoria e na formação
de um comportamento científico dos leitores da cultura de chegada. A variação terminológica,
nesse contexto, atua não somente dentro do plano linguístico, mas perpassa as relações
conceituais e age no plano do sentido e da formação do arcabouço teminológico e teórico dos
cientistas sociais. Por tal razão, não basta ao tradutor fazer uma opção lexical adequada, as
relações sociais implícitas terão influência no contexto extralinguístico, causando alterações de
conduta e de leitura teórica e movimentando positiva ou negativamente a produção intelectual
da Antropologia.
Acreditamos que este estudo comparativo, bem como os glossários formulados, possa oferecer
uma contribuição para os Estudos da Tradução Baseados em Corpus e para a Linguística de
Corpus. Esperamos também que esta investigação forneça subsídios a professores,
pesquisadores, tradutores, alunos de tradução, bem como profissionais da área de Antropologia
da Civilização, Antropologia Cultura, Antropologia Social e Ciência Política e Ciências Sociais
Como citar:
SERPA, T. . A POLÍTICA DE DARCY RIBEIRO E FERNANDO HENRIQUE CARDOSO:
ESTUDO DA TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE TERMOS E EXPRESSÕES RECORRENTES
NAS OBRAS DESSES DOIS TEÓRICOS BRASILEIROS. PROFT em Revista: Anais do Simpósio
Profissão Tradutor 2011, v. 2, n. 2, p.40-82. jun. 2012.
PROFT em Revista
Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2011
A Política de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso: Estudo da Tradução para o Inglês de Termos e Expressões Recorrentes nas Obras
desses Dois Teóricos Brasileiros
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