Revista Eletrônica Acolhendo a Alfabetização
nos Países de Língua Portuguesa
ISSN: 1980-7686
[email protected]
Universidade de São Paulo
Brasil
Bezerra da SILVA, Vidal
Uma brasilidade recém-começada: "O povo brasileiro" de "Darcy Ribeiro". Reseña de "O Povo
Brasileiro" de RIBEIRO, Darcy
Revista Eletrônica Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua Portuguesa, vol. VII, núm. 13,
2013, pp. 140-147
Universidade de São Paulo
São Paulo, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=87923777009
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Uma brasilidade recém-começada: “O povo
brasileiro” de “Darcy Ribeiro1”
A recently begun Brazilianity: "The Brazilian
People" by Darcy Ribeiro
Une "brasilité" qui vient de démarrer: “O povo
brasileiro” de “Darcy Ribeiro”
Vidal Bezerra da SILVA
“A convenção e o cânone”
Tentar definir um texto literário não nos é
uma tarefa tão simples. Entretanto,
pensamos que o texto posto seja: uma
narrativa pessoal; uma vez que se percebe
o registro da história de uma vida
dedicada ao entendimento do ser
brasileiro; uma narrativa impessoal de
nossa história; uma descrição de nossas
vidas; um pensar múltiplo que nos
transforma.
RESUMO
A presente resenha sobre o livro: “O povo brasileiro” de “Darcy
Ribeiro” procura apresentar o quão importante foi a compilação feita pelo
“Professor Darci Ribeiro” que teve uma carreira dedicada ao estudo,
trabalho de pesquisa e teve uma importante atuação na vida como um
homem público. E, no que tange a compreensão de quem somos e para onde
vamos “O povo brasileiro” apresenta-nos uma gama de possibilidades.
O referido trabalho foi finalizado em seus momentos finais de vida e
as questões da identidade brasileira e identidade com o Brasil ainda não
estão claras e sobre as quais, nós, educadores, deveríamos nos debruçar
1
Esta resenha é fruto de um trabalho desenvolvido em curso de Pós-Graduação, Lato
Sensu, promovido pela SEE do Estado de São Paulo e a UNICAMP – IEL. Atividade
dissertativa da Disciplina Língua Portuguesa 002: Literatura, Leitura e Ensino; Tema 3
– Literatura: espaço de multiplicidade; Tópico 3 – A convenção e o cânone. Agenda 9 da
Semana de 28 /11 a 04/12 de 2011. Proposta: produção de um texto que focasse um cânone
(ou não) sem necessidade de definição literária.
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antes de adentrarmos a uma sala de aula. Assim, reavivarmos essa obra para
termos uma noção de que forma deveríamos tentar atuar em nossas salas de
aulas e em nossas vidas é que vislumbramos ao retomarmos a leitura de “O
Povo Brasileiro”.
Palavras-chave: identidade brasileira, povo brasileiro, própria história,
educadores, salas de aula.
ABSTRACT
This review about the book The Brazilian People by Darcy Ribeiro
attempts to present the importance of the compilation done by Professor
Darcy Ribeiro. Professor Ribeiro’s career was devoted to study and
research, and he had a very important role in life as a public figure. When it
comes to understanding who we are and where we are going, The Brazilian
People presents us with a wide range of possibilities.
This work was completed during the author’s final moments and
questions concerning Brazilian identity and identity with Brazil are not yet
clear and it is these types of questions that we, as educators, should
deliberate on before entering the classroom. By doing so, we revive this
work so that we have a notion of how we should try to act in our classrooms
and in our lives. It is this notion that we discern when we return to reading
The Brazilian People.
Index terms: Brazilian identity, the Brazilian people, personal history,
teachers, classrooms.
RÉSUMÉ
Cet résumé sur le livre: "O povo brasileiro" de "Darcy Ribeiro"
démontre 'importance de la compilation qui a été réalisée par le "Professeur
Darcy Ribeiro". Ce professeur a eu une carrière consacrée à l'étude, à la
recherche et il a eu un rôle important comme homme public.
Quand il s'agit de comprendre qui nous sommes et où nous allons "O
povo brasileiro" nous présente un éventail de possibilités.
Ce travail a été complété dans les derniers moments de sa vie et des
questions sur l´identité brésilienne et identité avec le Brésil ne sont pas
encore claires. Nous, en tant qu´enseignantes devons faire attention avant
d´entrer dans une salle de cours.
Ceci peut nous aider à renouveler ce travail pour avoir une idée
comment on doit travailler dans nos salles de cours et aussi dans notre vie.
C´est ça que nous envisageons au moment de reprendre la lecture de "O
povo brasileiro".
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Mots-clés: identité brésilienne; peuple brésilien; histoire personnelle;
enseignants; salles de cours.
INTRODUÇÃO
Vivemos em um contexto político-social o qual nos leva a produzir
inúmeras reflexões sobre o quão importante é pensar a nação brasileira e de
que forma é o povo que a constitui. Nosso país tem “deixado de ser
coadjuvante para constituir-se como ator principal em várias ações pelos
quadrantes do planeta”; mas os nascidos no território nacional se entendem,
se identificam como nação? Quais seriam nossas marcas deixadas pelo
mundo e em nosso próprio território que nos ajudam a pensar e agir de
forma diferente de outros povos?
“O Povo Brasileiro”
Compreender quem somos e o que somos e qual será a importância
de nosso país, talvez seja uma tarefa dura. Todavia, quando começamos a
nos engendrar por nossa história de quinhentos anos de existência como a
Terra de Santa Cruz/ Brasil, percebemos que tal traço possa ser percebido
muito recentemente. Dessa maneira consideramos que o discernimento
mínimo de nossas origens seja fundamental para todos nós que vicejamos a
consolidação de um país sólido e como um referencial para o respeito a todo
o ser humano.
Algumas razões e ensejos os quais nos permitem apresentar ideias
para a leitura do livro, “O povo brasileiro” de “Darcy Ribeiro”, é fato de
que a partir desta possamos abrir caminhos para o entendimento de nossas
raízes e a necessidade premente da formação de tal brasilidade que nos
ajuda a compreender, entre outras coisas os motivos pelos quais uma parcela
das crianças vai para a escola, todavia a escola não responde às necessidades
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de acolhimento e o porquê desses brasileiros ficarem perdidos nas paredes
escolares que não dizem nada, por exemplo.
Esse livro poderia ser a obra de cabeceira de todo brasileiro e de toda
brasileira para que ele pudesse corroborar na construção de histórias
pessoais e coletivas; pois no decorrer dos relatos há a possibilidade de
entendermos não só que há o retrato de uma vida de pesquisa, mas há o
contar histórias. Dito de outro modo, do nosso ponto de vista, o autor
conseguiu traduzir e registrar o sentimento de brasilidade, ainda carecendo
de ser. A obra, devido seu estilo narrativo e envolvente, deixa o leitor com
vontade de se sentir brasileiro e ajudar a ser parte uma nação diferente e
acolhedora.
Também podemos registrar que, em vários momentos, o autor
deixou marcas textuais iniciais com uma contribuição decisiva para que, ao
começarmos a ler o livro, quiséssemos dar uma continuidade, pois é
possível degustar cada palavra com vontade de querer mais. Da mesma
forma, este texto parece penetrar na alma do leitor. Aquele que não conhece,
minimamente, sua própria história de vida passa a querer descobri-la ou
tentar desvendá-la.
O que tenham os brasileiros de singular em relação aos
portugueses decorre das qualidades diferenciadoras oriundas de
suas matrizes indígenas e africanas; da proporção particular em
que elas se congregam no Brasil; das condições ambientais que
enfrentaram aqui e ainda, da natureza dos objetos de produção
que as engajou e reuniu (RIBEIRO, 2002, p. 20).
Por vias se plasmaram historicamente diversos modos rústicos
de ser dos brasileiros, que permitiam distingui-los, hoje, como
sertanejos do Nordeste, caboclos da Amazônia, crioulos do
litoral, caipiras do Sudeste e Centro do país, gaúchos das
campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros,
nipo-brasileiros etc. Todos eles muito mais marcados pelo que
têm de comum como brasileiros, do que pelas diferenças
devidas a adaptações regionais ou funcionais, ou de
miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria
a uma ou outra parcela da população. (RIBEIRO, 2002, p. 21)
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Mais que um livro com o objetivo de construir um perfil
antropológico sobre o Brasil há a presença de vários personagens com os
quais somos capazes nos identificar, pois é possível ir além de uma leitura
superficial uma vez que o personagem da história é você mesmo. O formato
narrativo-descritivo-argumentativo,
o
gênero
antropológico,
não
proporciona dificuldades textuais e nos transforma em personagens de uma
obra que pode nos servir como espelho para cuidarmos de nós mesmos.
Nosso pensamento viaja pelo passado e vislumbra o futuro; nossas atitudes
diante da vida de brasileiros que somos pode começar a ganhar alguma
significação. Em “O povo brasileiro”, reiteramos que o personagem- eu,
você- destaca a nossa importância para a vida em ebulição do nosso país e
indica condições de mudar o rumo de nossa história.
Darcy Ribeiro descreve e narra de forma envolvente – por mais
paradoxal que seja – a presença forte de algumas mazelas do processo
civilizatório no Brasil. Entretanto, essas marcas descritivas da realidade não
nos desanimam no processo de leitura do precioso material, pois se
constituem condições do nosso empoderamento. Tais fatos nos permitem
enxergar alternativas para o nosso comportamento diante da vida que se
desenvolve.
... Os dois portos da baía de Pernambuco começaram a ser as
bocas de entrada da mão de obra que iria, daí por diante,
edificar quanto se edificou, produzir quanto se produziu no
Brasil, que eram os negros africanos. (RIBEIRO, 2002, p. 96)
A escravidão indígena predominou ao longo de todo o primeiro
século. (RIBEIRO, 2002, p.98)
A ocupação do nosso continente se deu de forma que fossemos
extrativistas e não fossemos agentes pensadores e construtores de nossa
própria história. Uma vez mais registramos que o livro ora posto,
igualmente, deixa marcas textuais de breves histórias de vidas de alguns
brasileiros que contribuíram para a constituição de quem somos.
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O melhor testemunho daqueles tempos se deve ao frei Vicente
do Salvador, natural da Bahia. Foi o primeiro intelectual
assumido como inteligência do povo nascente, capaz de olhar
nosso mundo e os mundos dos outros com os olhos nossos...
(RIBEIRO, 2002, p.136).
O livro nos contagia a cada instante e há nos traços linguísticos
narrativos do testemunho da vida pessoal do autor. A exposição deste
apresenta argumentos que nos permitem rever trajetórias, repensar.
Um parente meu guardou a carta de um capataz que calculava
bem as vantagens relativas de usar negros cativos ou negros
importados, optando francamente por estes últimos como os
mais rentáveis. (RIBEIRO, 2002, p.163).
A nossa reflexão, quando personagem de uma história pouco
conhecida, ganha vida própria a cada página transpassada e a ânsia de
mudarmos nossa postura fica mais forte; pois ao assumirmos o papel de
personagem multifacetado, nós sentimos a necessidade de entendermos a
nós mesmos no processo histórico que estamos vivendo.
O Brasil alcança, desse modo, uma extraordinária vida urbana,
inaugurando, provavelmente um novo modo de ser das
metrópoles. Dentro delas geram-se pressões tremendas, porque
a população deixada ao abandono mantém sua cultura arcaica,
mas muito integrada e criativa. Dificulta, porém, uma
verdadeira modernização, porque nenhum governo se ocupa
efetivamente da educação popular e da sanidade. (RIBEIRO,
2002, p.200)
Enxergamos uma vez mais que os registros feitos por “Darcy
Ribeiro”, em “O povo brasileiro”, têm a possibilidade da tarefa
messiânica, pois poderíamos acreditar que o mesmo tem condições de
revolver as nossas vidas, não deixando o desânimo, tão presente em alguns
momentos de nossa história; de perdurar e, então, encontremos
inventividade para burlar as adversidades: tais apontamentos colaboram
para com a nossa ampliação de ideias sobre as transformações que têm
ocorrido no mundo nos últimos tempos.
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... Nós que sempre fomos criativos nas artes populares e de
tudo que estivesse ao alcance do povo-massa, nos vemos hoje
mais ameaçados do que nunca de perder essa criatividade em
benefício de uma universalização de qualidade duvidosa.
(RIBEIRO, 2002, p. 263)
Haveria e há inúmeros relatos os quais gostaríamos de deixar
registrados sobre essa obra, todavia nossa meta é aguçar a curiosidade para
que cada novo leitor construa um pensar sobre ela e tenha a oportunidade de
se reconhecer personagem. Essa breve apresentação não poderia deixar de
expor um pensamento do autor que nos consente dizer ser uma pequena
caracterização de quem somos, com uma grande condição de ampliação de
descrições, narrações e opiniões:
O Brasil foi regido primeiro como uma feitoria escravista,
exoticamente tropical, habitada por índios nativos e negros
importados. Depois, como consulado, em que o povo
sublusitamos, mestiçado de sangues afros e índios, vivia o
destino de um proletariado externo dentro de uma possessão
estrangeira. Os interesses e as aspirações do seu povo jamais
foram levados em conta, porque só se tinha atenção e zelo no
atendimento dos requisitos de prosperidade da feitoria
exportadora. O que se estimulava era o aliciamento de mais
índios trazidos dos matos ou a importação de mais negros
trazidos da África, para aumentar a força de trabalho, que era a
fonte de produção dos lucros da metrópole. Nunca houve aqui
um conceito de povo, englobando todos os trabalhadores e
atribuindo-lhes direitos. Nem mesmo o direito elementar de
trabalhar para nutrir-se, vestir-se e morar. (RIBEIRO, 2002,
p.447)
Portanto, “O povo brasileiro” de “Darcy Ribeiro” é um livro
essencial para que a nossa história de vida seja repensada e essa viagem de
brasilidade- recém-começada, a ser definida- possa ser difundida, não
somente pelos jogos de futebol, pelo carnaval e alguns folguedos populares
internacionalizados, mas, pela nossa presença atuante no cenário mundial
como formadores de opinião e seres pensantes de um mundo onde as
diferentes culturas sejam repensadas de forma agregadora de valores
humanos solidários e acolhedores.
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Referência bibliográfica
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. A formação e o Sentido do Brasil. –
1 ª ed. 1995 – 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
O AUTOR
Vidal Bezerra da SILVA
REDEFOR – Pós-Graduação Lato Sensu – Língua Portuguesa pela
UNICAMP – IEL, desde 2011.
Contato: [email protected] – Sítio: <http://www.ciachc.net>
Texto recebido em dezembro de 2011.
Texto aprovado para publicação em janeiro de 2012.
Como citar este texto:
SILVA, V. B. Uma brasilidade recém-começada: “O povo brasileiro” de
“Darcy Ribeiro. Revista Acolhendo a alfabetização nos países de língua
portuguesa, Brasil, São Paulo, volume 1, nº. 13, pp. 140 – 147, Set. 2012.
Disponível em: <http://www.acoalfaplp.net>.
Sede da Edição: Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – Av. da Universidade, 308 - Bloco A, sala 111 – São Paulo – SP
– Brasil – CEP 05508-040. Grupo de pesquisa: Acolhendo Alunos em situação de exclusão social e escolar: o papel da instituição
escolar.
Setembro de 2012 – Fevereiro de 2013 – Ano VII – Nº. 013
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"O povo brasileiro" de "Darcy Ribeiro".