O HUMOR COMO ESTRATÉGIA DE NEGOCIAÇÃO NAS INTERAÇÕES ENTRE PROFESSOR E ALUNOS EM UMA AULA DE LÍNGUA INGLESA KARIN RANGEL TERRA (PUC-RIO) Introdução A comunicação na interação face a face ocorre por meio lingüístico, mas não é este o seu único foco, já que o encontro social (Goffman, [1964] 2002) é o seu cenário, influenciando-a diretamente. As interações encontradas no contexto educacional, mais especificamente na sala de aula, foco deste estudo, são também entendidas desta mesma forma. Ao observar essas interações em uma sala de aula de língua inglesa de um curso de idiomas da cidade de São Gonçalo-RJ, pude perceber que, nesta turma, especialmente, os alunos e eu, como professora, freqüentemente nos encontrávamos em brincadeiras e situações engraçadas durante a aula. Surgiu, então, um interesse de minha parte por investigar minha prática pedagógica a fim de entender o motivo de tantas situações deste tipo nestas aulas. O humor, presente nesta aula de língua inglesa, vem sendo considerado em vários estudos como uma estratégia de envolvimento conversacional (Gumperz, op. cit.; Norrick, 1994; Clift, 1999; Boxer, 2002; Spitalnik, 2004) dos participantes na atividade de fala, fundamental para que haja compreensão lingüística. Contudo, elas acabam por mostrar as relações de poder existentes no contexto aula (Boxer, 2002), e, por vezes, podem provocar mal-entendidos quando as pistas conversacionais (Gumperz, op. cit.) que apontam o enquadre (Goffman, 1979) brincadeira não são devidamente compreendidas pelos interlocutores (Norrick, op. cit.). Baseando-me nos construtos da Sociolingüística Interacional (Schiffrin, 1994; Pereira, 2002; Ribeiro e Garcez, 2002; Spitalnik, op. cit.) objetivo, portanto, entender como as interações ocorrem em sala de aula mediadas pelo humor, observando quais são os enquadres (Goffman, [1979] 2002; Tannen & Wallat, 1987), footings (Goffman, op. cit.) e pistas de contextualização (Gumperz, op. cit.) utilizados pelos participantes na aula selecionada. Procuro, também, analisar como o humor é utilizado como uma estratégia de negociação e como uma ferramenta de indiretividade nos dados selecionados e, principalmente, perceber questões que são negociadas nesta aula específica. Percebo a importância deste estudo de forma que ele pode trazer entendimento a alunos e professores acerca do que ocorre em sala de aula quando eles usam o humor. Além disso, através do entendimento, professores e alunos podem passar a fazer do humor uma prática a seu favor a fim de facilitar o envolvimento e a participação de todos na aula. Aspectos teóricos importantes O presente trabalho objetiva analisar as interações em uma sala de aula de língua inglesa. Para tanto, tomo a Sociolingüística Inte2 racional (Schiffrin, op. cit.; Pereira, op. cit.; Ribeiro e Garcez, op. cit.; Spitalnik, op. cit.) como base para entender e analisar os dados coletados. Esta abordagem focaliza o estudo do uso da língua na interação social (Ribeiro e Garcez, op. cit.), mais especificamente nas interações entre participantes de pequenos grupos de comunidades específicas, de acordo com Pereira (Op. cit. p. 8). Ela ressalta a natureza dialógica da comunicação humana e o importante papel tanto do falante como do ouvinte para a construção do significado e para a compreensão da interação. Para compreender o que acontece na interação, faz-se necessário o uso de alguns conceitos importantes. Primeiramente, apresento o que são e qual o papel das pistas de contextualização (Gumperz, op. cit.) e da inferência conversacional (Id. ibid.). Em Gumperz ([1982] Op. cit., p. 152) encontramos que as pistas de contextualização são traços presentes nas mensagens que devem ser sinalizados pelo falante e interpretados pelo ouvinte a fim de que a atividade realizada seja devidamente compreendida e o conteúdo semântico devidamente interpretado, evitando mal-entendidos. Desta forma, os participantes de uma conversa contam com inferências sobre o contexto, objetivos interativos e relações interpessoais para produzir enquadres em que podem interpretar o que está ocorrendo em uma dada situação (Pereira, op. cit., p. 12 apud Gumperz, op. cit.). Este é um construto essencial para entendermos como a professora e os alunos perceberam de que forma poderiam interpretar as interações analisadas. Já a inferência conversacional é este processo de interpre3 tação situado ou estabelecido no contexto, a partir do qual os falantes em uma dada conversação avaliam as intenções dos participantes e a partir do qual fundamentam suas respostas (Cf. Pereira, op. cit., p. 12). O enquadre, segundo Ribeiro e Garcez (op. cit., p. 107), situa a metamensagem contida em todo o enunciado, sinalizando o que dizemos ou fazemos, ou como interpretamos o que é dito e feito. Para Goffman (op. cit.), em qualquer interação face a face, os interagentes constantemente propõem ou mantém enquadres, que organizam o discurso e os orientam quanto à interação. Goffman (Ibidem, p.10 apud Ribeiro e Hoyle, 2002, p. 36) descreve enquadres como sendo princípios de organização que governam eventos – ao menos os sociais – e nosso envolvimento subjetivo neles. Este construto é importante para entendermos como os alunos e a professora perceberam de que forma poderiam interpretar a interação, ou seja, através de que enquadre. Finalmente, footing (Goffman, op. cit.) é o conceito que caracteriza a relação entre os interactantes, sendo descrito como o alinhamento, a postura, a posição, a projeção do eu de um participante na sua relação com o outro, consigo próprio e com o discurso em construção (Cf. Ribeiro & Garcez, op. cit., p. 107). São as mudanças de footing que dão dinamismo às interações em sala de aula, pois os alunos e a professora se realinham constantemente, mudando os enquadres. Um footing importante encontrado nos dados desta pesquisa é o de negociação, que será visto na análise dos dados. 4 Metodologia da pesquisa O contexto da pesquisa realizada para este trabalho é um curso de idiomas de médio porte, situado em São Gonçalo, cidade da região metropolitana do estado do Rio de Janeiro. Investiguei aulas de língua inglesa em uma turma de nível básico a intermediário, da qual sou professora, formada por sete alunos. Esta turma estudava somente aos sábados, tendo uma carga horária de duas horas por encontro, das 10 às 12h, enquanto outras turmas têm esse horário dividido em duas vezes na semana. Neste curso, o professor deve trabalhar uma lição por hora de aula, ou seja, no sábado são dadas duas lições. Nesta aula específica, a professora teve que finalizar a lição da aula anterior (lição 11) antes de iniciar as atividades determinadas para aquele dia. Após ter finalizado a lição 11, foi dada a lição 12 e na segunda parte da aula foi dada uma avaliação oral e escrita, já previamente programada. A sala de aula é organizada da seguinte forma: a professora fica sentada à frente, tendo um CD player ao lado e um quadro branco do outro e à sua frente os alunos ficam sentados em forma de semicírculo. Desta forma, todos podem se observar sem que haja qualquer obstáculo. Há um aparelho de ar condicionado na sala, que acaba por provocar conflitos constantes, pois os alunos sentem mais calor que as alunas, fazendo com que sempre haja negociações acerca da temperatura do ambiente. 5 Dos sete alunos que formam a turma, três são mulheres bem jovens e quatro são homens. Desses homens, um é ainda adolescente, o Lauro, e os demais são adultos, sendo que o Mauro é o mais velho da turma. Os alunos parecem ter um relacionamento muito bom entre si, e os que têm maior facilidade em aprender sempre cooperam com os que possuem maior dificuldade. No geral, todos os alunos são responsáveis quanto aos estudos, o que não faz com que eles levem a aula tão a sério; sempre há uma brincadeira para descontrair a turma, seja por parte dos alunos ou da professora. O Marcos e a Denise parecem ter uma parceria formada, pois eles sentam sempre próximos e gostam de realizar atividades juntos, além de cooperarem com os demais colegas, que em vários momentos pedem ajuda a eles. Os demais não aparentam ter uma preferência tão clara ao realizar as tarefas propostas na aula. A pesquisa é qualitativa e, como já citado anteriormente, toma a Sociolingüística Interacional como lente para a análise dos dados selecionados, que são dados ainda parciais de uma pesquisa maior e mais profunda que pretendo desenvolver no curso de mestrado. Foram gravadas oito horas de aula, das quais somente a primeira é utilizada aqui, em fitas de áudio. Foram tomadas, também, algumas notas de campo que me ajudaram a reconstruir o ambiente da sala na aula selecionada, que é a primeira das quatro que foram gravadas. 6 Análise dos dados Os dados a seguir serão agrupados da seguinte forma: primeiro apresentarei dois trechos da aula onde ocorreram mal-entendidos e o humor foi gerado a partir dessas situações a fim de solucioná-las. Posteriormente, analisarei uma situação de negociação mais explícita que aconteceu em forma de brincadeira, com o intuito de definir se o termostato do ar condicionado deveria ser alterado ou não. 1 – “quando for assim aponta pra mesa” – Quem assume quando a professora sai de cena? Neste momento da aula, os alunos estavam divididos em grupos para realizar uma atividade, da lição 12, de perguntas e respostas, proposta pelo material didático utilizado pelo curso. Nessa atividade, chamada de triangle conversation, o aluno A pede para o aluno B fazer uma pergunta para o aluno C, que deverá responder para que o aluno B reporte essa resposta para o aluno A. Tudo isso deveria ser feito na língua inglesa. É importante ressaltar que as perguntas são estipuladas pelo livro, limitando a liberdade dos alunos em escolher o quê querem perguntar. Este grupo analisado era formado por Mauro, Denise, Lauro e Marcos. 7 Duração: 18 segundos 01 Mauro: 02 03 04 05 06 07 08 Karin: Denise: Mauro: Marcos: lauro, <ask your friend when he went last to church.> = he? ((apontando para denise)) she = não, she she... quando for assim aponta pra mesa...((indicando a mesa de cada aluno do grupo)) ((risos)) não, porque ele fez assim... ((mostrando que Mauro olhou para ele querendo perguntar para Denise)) Percebemos que a atividade está situada em um enquadre maior, chamado de enquadre aula, e mais especificamente, em um enquadre de realização de tarefa de grupo. Com isso, o alinhamento é tal que a professora deixa de ser o foco, na sua posição usual frente à turma, e passa a circular pelos grupos a fim de monitorar a atividade que está sendo realizada. Enquanto isso, os próprios alunos passam a ter alinhamentos como se fossem a professora, coordenando a atividade e corrigindo outros colegas. Na linha 01, Mauro se engana ao pedir para Lauro fazer uma pergunta para Denise; ele usa o pronome he no lugar de she. Como exemplo de alinhamentos, temos a linha 03 onde Denise corrige Mauro como se estivesse no papel da professora e, principalmente nas linhas 05 e 07, onde Marcos toma a frente da atividade, e, usando um tom de brincadeira, diz a Mauro o que ele deve fazer para resolver o mal-entendido criado pelo seu erro. Mesmo sem ter sido selecionado para participar, Marcos se coloca na interação e, Lauro, que realmente teria o turno, acabou não participando da cena. 8 Neste trecho, podemos também perceber a presença das pistas de contextualização em vários momentos. Por exemplo, o olhar de Mauro causa um mal-entendido, apresentado por Marcos na linha 07. Quando Mauro se dirige a Denise para fazer a pergunta estabelecida, ele dirige seu olhar para Marcos, o que, juntamente com o mau uso do pronome, confunde os interlocutores, dado que o olhar é um instrumento de ratificação do outro. Faz parte dos esquemas de conhecimento de todos que, em geral, ao olharmos para alguém estamos nos dirigindo a essa pessoa, e não, a outra, como ocorreu. É provável que, mesmo Mauro não estando enganado em relação ao uso do pronome, o mal-entendido permanecesse, devido ao seu olhar mal direcionado. Na linha 02, a professora recupera rapidamente sua posição central, tentando fazer com que Mauro perceba e corrija seu erro ao repetir o pronome he e apontar para Denise, mostrando que a referência pronominal não estava correta. A instrução de Marcos na linha 05 é engraçada e exagerada, mas de certa forma tenta minimizar a chance de Mauro cometer o mesmo engano novamente; ao apontar para a mesa, mesmo que ele erre o pronome, todos entenderão a quem ele estará se referindo. Esse comentário muda o enquadre de realização da tarefa em grupo para um enquadre de brincadeira, que podemos concluir que foi entendido por todos os participantes, já que eles respondem de forma positiva com risos. Nesse caso, o uso do humor para corrigir o colega minimiza o efeito do reparo, porque este é feito como se fosse uma 9 brincadeira. É a elocução de um aluno, dirigida a um outro aluno, que muda o enquadre para a brincadeira. Percebemos uma negociação em relação a como a pergunta deveria ser feita, qual deveria ser a referência pronominal correta e quem, Marcos ou Denise, teria o poder de tomar a frente da atividade e corrigir o erro de Mauro. Isso demonstra a parceria que estes alunos parecem formar durante as aulas, em qualquer atividade realizada. Querendo ajudar o colega, eles disputam o alinhamento de quem detém o poder para tomar o lugar da professora, quando esta não está posicionada no centro da atividade, mesmo que esteja presente, como neste caso. No final do trecho, na linha 07, Marcos tenta salvar sua face, no caso de Mauro não interpretar a sua elocução como sendo parte do enquadre de brincadeira. Ele se justifica por ter corrigido o colega, como se estivesse tentando garantir que Mauro entendesse a sua boa intenção; se não entendesse como brincadeira, entenderia como se ele estivesse simplesmente tentando ajudar. 2 – “você sabe onde é o banheiro?” – Quem detém o conhecimento na sala de aula? Este trecho foi retirado da mesma atividade que o anterior, mas neste momento a professora estava monitorando a performance do outro grupo, formado por Laura, Roberto e Vânia. 10 Duração: 58 segundos 01 02 03 04 05 06 Laura: Roberto: Laura: Vânia: Karin: 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 Vânia: Karin: Roberto: Laura: Karin: Roberto: Karin: Vânia: vânia, can you explain what you do at home?... at work = at home? ih:: at work… yes, <I can to explain: what: I do at work.> ah…((os alunos e a professora ficaram olhando para ela como se estivessem esperando o restante da resposta)) yes, eu vou explicar o quê?... ((sorri, sem jeito)) o que que foi? ((sorri)) = quando se faz uma pergunta dessa, tá se pedindo pra explicar, né? é igual aquilo... [[você trabalha em quê? [[você trabalha em quê? ... não. é aquilo, onde é o banheiro? não, você sabe onde é o banheiro? sei. ((risos)) e aí? ((risos)) e daí... você sabe onde é o banheiro? sei... né? ↑ah, i work at the store with my brother. with my two brothers. Encontramos, aqui, os alunos interagindo no mesmo enquadre voltado para a realização da atividade em grupo, até que a professora interrompe a atividade para corrigir a aluna Vânia, nas linhas 14 e 15, fazendo uso do humor. Com essa interrupção, os participantes passam a perceber a interação, não só como uma simples atividade da aula, mas como uma brincadeira, sinalizando uma mudança no enquadre existente anteriormente. No início da microcena, Laura faz a pergunta de forma errada, trocando a palavra ‘work’ por ‘home’. Da mesma forma que no tre11 cho analisado anteriormente, na ausência da professora como figura central, um outro aluno, Roberto, na linha 02, se coloca em sua posição e corrige a aluna dizendo qual deveria ser a forma correta. Na continuação, a aluna Vânia responde a pergunta de forma incorreta, o que faz com que a professora retome o seu footing, na linha 05, e tente fazer com que a aluna perceba seu erro e se corrija. Como isso não ocorreu, a professora é mais explícita quanto ao que ela espera como resposta nas linhas 09 e 10. Assim, vemos a estrutura de participação básica de uma aula mais tradicional, que é a iniciaçãoresposta-avaliação, demonstrando que o poder do conhecimento do que é ou não correto não está sendo negociado, mas pertence à professora. Outros alunos, Laura e Roberto, tentaram, mas não conseguiram ajudar a sua colega, como podemos perceber nas linhas 11 e 12. Podemos perceber que os alunos têm certa liberdade para negociar esse espaço de liderança, ou pelo menos de dividir esse espaço com a professora em alguns momentos, mas quando ela avalia que esse papel não está sendo bem desempenhado pelo aluno que assumiu esse alinhamento, ela ‘toma de volta o seu lugar’. Mais adiante, encontramos um mal entendido na fala da aluna Vânia, que responde um pedido de explicação como se fosse uma yes/no question. A professora, então tenta elicitar de alguém a idéia correta, mas como ninguém dá a resposta esperada, ela faz uso do humor para dar um exemplo de uma outra sentença, semelhante àquela. A ênfase dada à palavra ‘banheiro’ e o tom de voz com que a professora produziu a elocução foram pistas para que os alunos per12 cebessem que aquela era uma mudança no enquadre. Neste caso, é a elocução da professora dirigida aos alunos que muda o enquadre para a brincadeira. O tom humorístico é utilizado aqui, também, para minimizar a situação de desconforto na qual a aluna se encontrava por não saber a resposta correta, demonstrada pelo seu sorriso sem jeito. Com os risos dos alunos, a professora percebe que o enquadre de brincadeira que ela selecionou foi entendido e aceito por todos. Além disso, o que importava era que os alunos compreendessem o que a professora estava tentando explicar, e na linha 16 o Roberto demonstra ter entendido ao perceber que a resposta esperada ainda estava por ser dada. Para se certificar da compreensão de todos, a professora repete, na linha 17, a frase que ela havia citado anteriormente, até que a Vânia na linha seguinte responde como era esperado, confirmando que a explicação em forma de brincadeira tinha surtido o efeito desejado. 3 – “ah tá, teacher, desculpa” – Quem decide o que fazer na sala de aula? Este último fragmento de análise também aconteceu na mesma atividade, quando eu estava de volta ao primeiro grupo para monitorar como eles estavam se desenvolvendo. Como já citei anteriormente, este grupo era formado pelos alunos Marcos, Lauro, Mauro e Denise. Neste dia eu estava bastante afônica. Quando cheguei à sala, o ar condicionado estava em sua potência mínima, e, como estava um 13 dia frio, resolvi não mexer nele. Mas, como acontece em todas as aulas, surgiu uma situação muito comum nessa turma, que é a constante reclamação dos alunos, com calor e das alunas, com frio. Para entendermos melhor o trecho, devo citar que em momentos anteriores aos fragmentos selecionados, houve uma discussão dos alunos sobre a seguinte frase apresentada no livro: “Everyday life brings you one day closer to going home.”, relacionada à morte. Duração: 40 segundos 01 Lauro: 02 Marcos: 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 14 Lauro: Marcos: Karin: Denise: Marcos: Karin: Marcos: Denise: Marcos: Lauro: Karin: Marcos: Denise: marcos, = one minute, esse ar condicionado tá ligado no ar no va quente assim? ((risos)) tá o maior calor, tá um ar quente aqui, não tá um bafo aqui? ( ) ... ((risos)) ((aponto para a minha garganta para lembrá-lo de que estou doente)) marcos, = ah tá, teacher, desculpa, não não tinha = não, tá tudo bem = [no, no, question] [tranqüilo, tranqüi]lo, esqueci, aí. = não, não é por causa disso não. [já tava assim] [daqui a pouco] morre aí, ó, como é que é o negócio? aqui, ((risos)) = você vai pro paraíso. ((risos)) = aí, então, pois é ((risos)) eh... marcos, pode aumentar, é sério, não é por causa disso não. já tava assim, não fui eu que diminuí não. = não, tá tranqüilo. ((risos)) tá bom, vai... depois vocês aumentam. Neste momento transcrito, Marcos interrompe a atividade que estava sendo realizada, com o intuito de pedir, mesmo que indiretamente, que o ar condicionado tivesse sua potência aumentada. Os alunos demonstram entender que quem tem o poder de decisão na sala de aula é o professor, pois toda vez que eles discutem sobre a temperatura da sala, recorrem a mim para obter a palavra final. Nas linhas 02 e 04, Marcos reclama que está calor, fazendo, indiretamente, um pedido para que eu permitisse que a potência do ar condicionado fosse aumentada. Porém, ao sinalizá-lo que minha garganta estava debilitada naquele dia, ele se desculpa e pede que eu deixe como estava, mesmo que ele não estivesse satisfeito. Tento explicálo, nas linhas 08 e 11, que aquela temperatura da sala não havia sido uma decisão minha, mas ele persiste em deixar a situação como estava. Denise, na linha 09, logo assume a direção da discussão para que a opinião dela fosse aceita, mas sua participação não surte muito efeito na interação entre mim e o Marcos, que já estava em curso. A fala de Marcos em todo o fragmento, mas principalmente na linhas 12 e 13, seguida da fale de Denise, mostra que os alunos também têm a liberdade de se dirigir à professora em forma de brincadeira; isso não é definido só pela professora, como ocorre geralmente, tendo sido até citado por Boxer (2002) no capítulo que ela dedica às interações no contexto educacional. Na linha 16, Lauro, ao perceber uma pausa anterior, pressupõe que a discussão acabou e tenta retomar o enquadre voltado para a atividade em grupo, mas é interrompido pela professora na linha seguinte, que ainda não considera o 15 assunto encerrado. Na verdade, o assunto é definido pela aluna Denise, que finaliza a discussão na linha 20 com o intuito de deixar a temperatura daquele jeito, que era como ela estava satisfeita. Isso mostra que essa aluna está sempre se alinhando dessa forma, na tentativa de decidir, definir, sugerir e corrigir os colegas, funções inicialmente pressupostas como sendo da professora. Neste fragmento há, novamente, a demonstração da parceria entre Denise e Marcos, quando um completa o que o outro diz, como nas linhas 09-10 e 12-13-14-15, por exemplo. Mesmo discordando quanto ao que fazer com o ar condicionado, eles continuam agindo em conjunto na comunicação. Este trecho de transcrição é muito interessante, pois apresenta os alunos brincando com a professora, enquanto esta tenta negociar e se justificar perante eles, contradizendo o que vemos, normalmente, em pesquisas relativas às interações em sala de aula, que vêem o professor como autoridade absoluta. Vemos aqui uma quebra desta relação assimétrica. Considerações finais Um dos objetivos desta pesquisa era observar e entender como as interações de humor acontecem na sala de aula de língua inglesa, com o auxílio dos conceitos de enquadre, footing e pistas de contextualização. Vimos que esse tipo de interação é caracterizado pela mudança de algum enquadre existente anteriormente, para o enqua16 dre de brincadeira, sendo esta mudança sinalizada por pistas de contextualização, como o tom de voz do falante, por exemplo. Também, pretendia-se observar o humor sendo usado com uma forma de negociação de relações e sentidos na interação na sala de aula. Percebemos que a brincadeira coversacional é usada como um instrumento de mitigação de algo negativo, como uma correção, por exemplo. Um outro objetivo, também, era perceber como o humor funcionava como estratégia de indiretividade, fato que foi visto ao se fazer um pedido a alguém que possui uma posição de mais poder que o falante, neste caso o professor. Finalmente, gostaríamos de investigar que questões poderiam ser negociadas em sala de aula através do humor, e vimos que podem ser: quem tem poder quando o professor se afasta da sua posição central, quem possui o poder de decisão na sala de aula, quem tem o direito de brincar com quem e como as relações de poder são construídas e desconstruídas através do humor. Percebemos que as mudanças de enquadre são realmente sinalizadas por pistas de contextualização, que são fundamentais para a interpretação adequada do que está acontecendo em determinada interação. O riso tem uma grande importância nessas situações, pois sinaliza ao falante que sua elocução foi entendida como esperado, ou seja, como brincadeira. Uma questão interessante que me saltou aos olhos durante as análises foi que, mesmo quando o professor tenta se afastar da posição de maior destaque, naturalmente atribuída a ele, essa posição é ocupada por algum outro participante da interação. Ou seja, esse tipo 17 de interação em sala de aula mostra que algum tipo de líder, ou de monitor do que acontece nesse ambiente é necessário. Algumas vezes, como pôde ser observado nos dados, há uma negociação entre os alunos que se destacam nessa posição ‘liberada’ pelo professor. Ainda, por vezes, parece haver mais de um aluno ocupando essa posição, o que, incrivelmente, não gera conflito. O que me chamou muito a atenção nos resultados foi que o humor foi utilizado tanto entre alunos, na relação professor-aluno, quanto, também, na relação aluno-professor. Este fato demonstra que não houve restrições da estrutura de participação tradicional da sala de aula, nem das relações de poder comumente estabelecidas, já que os alunos e a professora encontram espaço para brincar sem restrições de quem fala o quê com quem. Esse fato deve ocorrer porque todos entenderam os enquadres de brincadeira devidamente, o que não ocasionou problema algum quanto à brincadeira em si e sua interpretação com nenhum participante da atividade de fala analisada. Espero que este trabalho seja apenas o início de uma pesquisa mais rica e profunda, que gere um maior entendimento deste tema, que é parte do cotidiano escolar. Que este estudo possa, não só gerar melhores relacionamentos em sala de aula através do uso do humor, mas que possa trazer entendimento das situações mesmo que negativas, para que os participantes possam compreender os malentendidos ou fazer um melhor uso das estratégias de comunicação. Pretendo, ainda, aplicar esta prática reflexiva ao meu cotidiano profissional. 18 Referências Bibliográficas BOXER, D. Introduction. Applying Sociolinguistics. Amsterdam/ Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2002. Cap. 1, p. 1-20. ______. Face-to-face in the education domain. Applying Sociolinguistics. Amsterdam/ Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2002. Cap. 4, p. 89-124. CLIFT, R. Irony in coversation. Language in society. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. v.28, n. 4, p. 523-53. GOFFMAN, E. ([1964] 2002). A situação negligenciada. In: B. T. Ribeiro & P. M. Garcez (Orgs). Sociolingüística Interacional. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002. Cap. 1, p.13-20. GOFFMAN, E. ([1979] 2002). Footing. In: B. T. Ribeiro & P. M. Garcez (Orgs). Sociolingüística Interacional. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002. Cap. 5, p. 107-48. GUMPERZ, J. ([1982] 2002). Convenções de contextualização. In: B. T. Ribeiro & P. M. Garcez (Orgs). Sociolingüística Interacional. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002. Cap. 6, p. 149-82. NORRICK, N. R. Involvement and joking in conversation. Journal of Pragmatics, Elsevier Science, 1994. n. 22, p. 409-30. PEREIRA, M. G. D. Introdução. Palavra. Rio de Janeiro: Trarepa. 2002. n.8, p.7-25. RIBEIRO, B. T. & HOYLE, S. M. Frame analysis. Rio de Janeiro: Trarepa. 2002. n.8, p.36-53. (Palavra). RIBEIRO, B. T. & GARCEZ, P. M. Apresentação à nova edição. In: B. T. Ribeiro & P. M. Garcez (Orgs). Sociolingüística Interacional. 2. ed,. São Paulo: Edições Loyola, 2002. p. 7-11. SCHIFFRIN, D. Interactional Sociolinguistics. In: ______. Approaches to discourse. Cambridge: Blackwell, 1994. p. 97-136. 19 SPITALNIK, M. Conflitos em sala de aula: relações construídas entre professor e alunos em um curso universitário. Tese (Doutorado em Letras) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004. 215f. Apêndice Conveções de Transcrição ... Pausa não medida (0.5) Pausa em décimos de segundo, medida relativamente ao ritmo prosódico do segmento no qual se encontra inserida (2.3) Pausa medida . Entonação descendente ou final de elocução ? Entonação ascendente , Entonação de continuidade Parada súbita = Elocuções contíguas, enunciadas sem pausa entre elas (engatamento) Ênfase sublinhado MAIÙSCULA Fala em voz alta ou muita ênfase ºpalavraº Fala em voz baixa >palavra< Fala mais rápida <palavra> Fala mais lenta : ou :: Alongamentos [ ] Colchete abrindo e fechando o ponto da sobreposição, com marcação nos segmentos sobrepostos – sobreposições localizadas Colchetes duplos no início do turno simultâneo [[ (quando dois falantes iniciam o mesmo turno juntos) ( ) Fala não compreendida (palavra) Fala duvidosa (( )) Comentário do analista, descrição de atividade não verbal “palavra” Fala relatada ↑ Subida de entonação 20 ↓ Descida de entonação Silabação (letra a letra) ---eh, ah, hum, pausa preenchida, hesitação ou sinais de atenção ahã, humhum Convenções baseadas nos estudos de Análise da Conversação (Atkinson e Heritage, 1984), Gago (2002), incorporando símbolos sugeridos Schiffrin (1987), Tannen (1989), no âmbito da Análise do Discurso. 21