UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO
“Os Professores, os Alunos e o Sadismo Pedagógico Expresso nas
Comunidades Virtuais do Orkut”
KAREN DE CÁSSIA SILVA
SÃO CARLOS - NOVEMBRO 2010
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS
CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO
“Os Professores, os Alunos e o Sadismo Pedagógico Expresso nas
Comunidades Virtuais do Orkut”
Trabalho de conclusão de curso orientado pelo
Professor Dr. Antônio Álvaro Soares Zuin.
KAREN DE CÁSSIA SILVA
SÃO CARLOS – NOVEMBRO 2010
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO.............................................................................................................3
2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ..................................................................5
3. PERSPECTIVAS TEÓRICAS ......................................................................................7
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO ................................................................................22
5. CONCLUSÕES ...........................................................................................................28
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................30
3
AGRADECIMENTOS
A meu mestre Prof. Dr. Antônio Álvaro Soares Zuin (Toni) pela oportunidade,
pelas orientações e por acreditar em minha capacidade.
Ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e ao Conselho
Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (PIBIC/CNPQ), que
possibilitou o desenvolvimento desta pesquisa.
Aos colegas do Grupo de Estudos e Pesquisa (GEP) “Teoria Crítica e
Educação”.
A Sandra Aymone e Luciano Aymone, estrelas em minha vida.
A Fernanda Tibério e Gabriella Pizzolante, amigas especiais.
A meus queridos pais e familiares por todo o apoio.
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RESUMO
Se a história da humanidade está marcada pela violência presente nas relações entre os
indivíduos, a história da educação não é diferente. O sadismo pedagógico, termo
cunhado pelo historiador Mario Alighiero Manacorda, expressa a violência estabelecida
na relação entre professores e alunos desde os primórdios da história da pedagogia,
acompanhando o processo educativo até os dias atuais. Existem muitas formas de
expressão do alunado quanto a esta tensa relação, sendo que, atualmente, elas podem ser
observadas, por exemplo, nas comunidades virtuais do sítio de relacionamentos Orkut.
A partir da problemática levantada, o objetivo da pesquisa foi o de investigar as
representações aversivas dos alunos com relação a seus mestres - os chamados “tabus”,
de acordo com Theodor W. Adorno. A metodologia empregada referiu-se à análise dos
comentários dos alunos expostos nas comunidades virtuais do Orkut. A investigação de
tais comentários foi feita à luz dos conceitos elaborados por pensadores da Teoria
Crítica, em especial Theodor W. Adorno, e da psicanálise, com destaque para as
contribuições teóricas de Freud. Por meio dos resultados obtidos, pode-se concluir que
alunos encontram no Orkut um canal relevante para a manifestação de suas críticas em
relação a comportamentos sádicos e autoritários de seus professores.
Palavras – chaves: Sadismo Pedagógico, Orkut, Representações,
Indústria Cultural
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1. INTRODUÇÃO
A relação estabelecida entre professores e alunos é constituída tanto por
elementos objetivos quanto subjetivos. Fatores psicológicos são postos em jogo dentro
da sala de aula, na qual são construídas representações aversivas e afetivas dos alunos
em relação a seus mestres, os denominados “tabus”, de acordo com Theodor W.
Adorno.
A exigência da internalizarão da disciplina por parte do alunado demonstrou ser
uma das principais metas educativas na história da pedagogia, embora se tenha utilizado
metodologias capazes de deixar marcas profundas nos alunos, estes foram treinados
historicamente a reprimir suas angústias e medos e, dificilmente, encontram espaços na
sala de aula para expressar seus sentimentos relativos aos professores.
Na atual sociedade, a tecnologia invade progressivamente a vida das pessoas. A
utilização da Internet, por exemplo, é uma realidade que abrange um número cada vez
maior de indivíduos, que encontram, ali, espaços para se expressar. É intrigante
observar, por exemplo, que o sítio de relacionamento Orkut vem sendo utilizado pelo
alunado como um local que possibilita a objetivação de seus pensamentos em relação a
seus professores.
Eis alguns exemplos de comunidades de cunho aversivo no Orkut: “Sempre tem
um professor F. D. P.”, “Meu professor é carrasco”, “Eu odeio o meu professor”, “Eu
quero matar o meu professor”.
Em um primeiro momento leva-se um choque com a quantidade de palavras
ofensivas
relacionadas
ao
tema
“professor” em
tais
comunidades,
embora
historicamente sejam explícitas as constatações das representações aversivas dos alunos
em relação aos seus mestres (ZUIN, 2008).
Por meio de um simples “conectar”,
compartilham-se informações, saberes, sentimentos, desejos, reivindicações, críticas e
denúncias.
A partir de tal constatação, a pergunta que norteia este estudo é: o Orkut poderia
ser considerado um espaço importante para a manifestação de protestos dos alunos em
relação aos seus professores? Desta maneira, a pesquisa objetiva investigar as
representações aversivas dos alunos com relação a seus professores na medida em que
analisa o modo como o sadismo pedagógico pode ser expresso pelos alunos nos
comentários expostos nas comunidades virtuais do Orkut.
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Para contemplar tal objetivo, foram traçadas as seguintes questões específicas:
(a) Qual concepção de professor prevalece entre os membros de tais comunidades?; (b)
Que tipos de representações aversivas e afetivas dos alunos em relação aos seus
professores são hegemônicos nas comunidades virtuais do Orkut?; (c) Como os alunos
reagem no Orkut em relação ao sadismo pedagógico do professor?
Nesse sentido, a investigação da problemática apresentada justifica a elaboração
desta pesquisa, justamente em tempos nos quais as forças produtivas e, especificamente,
o atual desenvolvimento tecnológico, tornam possíveis a expressão imediata, on line,
das idealizações e frustrações dos alunos, que dificilmente encontram espaços nas salas
de aula para que suas posições sejam expressas.
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2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O desenvolvimento da pesquisa foi dividido em duas etapas, sendo que a
primeira caracterizou-se pelo levantamento bibliográfico, juntamente com as resenhas
dos textos selecionados, assim como os encontros semanais com os participantes do
Grupo de Estudos e Pesquisa (GEP) “Teoria Crítica e Educação” na UFSCar.
A segunda etapa promoveu a continuidade das resenhas, tendo em vista o seu
vasto embasamento teórico, a investigação, a análise e a catalogação das comunidades
virtuais do Orkut, como meio de comunicação entre os alunos no contexto da indústria
cultural brasileira. O seguimento aos encontros com os participantes do Grupo de
estudos Teoria Critica e Educação e por fim a elaboração do relatório de monografia.
No levantamento e análise das comunidades virtuais do Orkut fez-se necessário
por parte da pesquisadora, a criação de um falso perfil – elaborado de forma a ser aceita
nas comunidades, no caso, como uma estudante, adolescente, com fotos e descrições
pessoais – visto que o acesso às comunidades é permitido apenas aos membros do Orkut
e para a adesão em algumas comunidades necessita-se da aceitação do membro criador
da comunidade (moderador), havendo controle de quem pode ou não participar. A
transcrição dos depoimentos da comunidade foi realizada de forma integral, sem
correções gramaticais ou alterações, de modo a tornar a análise mais fiel ao objeto de
estudo.
O vasto referencial teórico que compôs esta pesquisa engloba a produção dos
pensadores da chamada Escola de Frankfurt, que tanto contribuíram na discussão da
problemática educacional, com destaque aos textos de Theodor W. Adorno e suas
observações sobre as representações aversivas em relação aos professores, os chamados
“tabus”, tais como: “Tabus a respeito do professor”; “Zur Psychologie des Verhältnisses
von Lehrer und Schüler” (“Sobre a psicologia do relacionamento entre professores e
alunos”), que foi traduzido para o português pelo orientador desta pesquisa, e
“Educação e Emancipação”,
Alicerçou esta pesquisa o livro “História da Educação: da antiguidade aos nossos
dias” do historiador Mario Alighiero Manacorda, um maravilhoso instrumento didático
para o resgate da história da pedagogia. O conceito “Sadismo Pedagógico” que designa
o título desta pesquisa foi justamente atribuído pelo autor a partir de suas constatações
históricas.
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Para a compreensão do conceito histórico de ressentimento, fundamental para o
entendimento dos conflitos estabelecidos entre alunos e professores, foram analisados
alguns textos do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, tais como: “Genealogia da
Moral”, “Assim falava Zaratustra”, “Crepúsculos dos Ídolos” e “Escritos sobre
Educação”.
Esta pesquisa, por destacar os fatores psicológicos desencadeados no “jogo” que
decorre na relação entre professores e alunos na construção do conhecimento,
necessitou, obrigatoriamente, do estudo dos textos de Freud que abordam a temática
educacional, os processos de formação do supereu e do desenvolvimento de suas bases
psíquicas, tais como: “O Mal Estar na Civilização”, “Psicologia de las Masas y Analisis
del Yo” (“Psicologia das Massas e Análise do Ego” e “Sobre la Psicologia del Colegial”
(“Sobre a Psicologia do Aluno de Ginásio”). Além disso, o texto de sua filha, Anna
Freud, “O Ego e seus mecanismos de defesa”, revelou-se importante ferramenta de
pesquisa, tendo em vista que ela desenvolveu o conceito de identificação com o
agressor.
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3. PERSPECTIVAS TEÓRICAS
Este capítulo se apoia em abordagens teóricas que embasam esta pesquisa,
promovendo a problematização do tema assim como reflexões dos autores acerca da
educação.
3.1 INDÚSTRIA CULTURAL NOS TEMPOS ATUAIS: A INTERNET
A partir da década de 1940, a “cultura de massa” tornou-se um dos temas
centrais para o estudo de alguns pesquisadores do movimento conhecido como Escola
de Frankfurt. Os autores alemães Marx Horkheimer e Theodor W. Adorno, principais
líderes do movimento, publicaram, no ano de 1947, o livro Dialética do Esclarecimento,
no qual conceituaram o termo Indústria Cultural.
Naquela época, primeira metade do século XX, o objeto de estudo dos
estudiosos foi o rádio, o cinema e as revistas ilustradas - a televisão ainda não se
constituía como um meio massivo, apesar de já ser apontada pelos autores como uma
possível potência de atuação sobre os indivíduos.
A indústria cultural é um fenômeno integrado à razão instrumental atuante no
sistema capitalista contemporâneo, onde a singularidade do sujeito é esmagada. Tudo se
resume ao lucro, a uma racionalidade que vê o homem como número, estatística,
“reduzidos a simples material estático, os consumidores são distribuídos nos mapas dos
institutos de pesquisa” (ADORNO, HORKHEIMER, 1985, p. 102).
Os produtos desta indústria possuem caráter controlador e mercantil, uma lógica
que pretende padronizar os indivíduos e gerar lucro para os detentores do capital. O
homem, enquanto trabalhador, é reduzido a ferramenta e, enquanto consumidor cultural,
a número, transformando-se em fonte de objeto fungível e consumismo exacerbado
(ADORNO, HORKHEIMER, 1985).
Não somente os tipos das canções de sucesso, os astros, as novelas
ressurgem ciclicamente como invariantes fixos, mas o conteúdo específico
do espetáculo e ele próprio derivado deles e só varia na aparência.
(ADORNO, HORKHEIMER 1985, p. 103).
A racionalização dos bens culturais implica o planejamento da produção a partir
da padronização, cujo intuito é o de suprir essa demanda e não à obra de arte,
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singularidade do artista. Em decorrência disto, se tem como resultado o processo de (de)
formação dos sujeitos, onde a cultura transformada em produto de consumo apresenta
atrocidades ao homem, alimentando-se da indústria cultural para acomodar, alienar,
dominar e explorar (ADORNO, HORKHEIMER, 1985).
Tal lógica tem como premissa a satisfação do desejo, embora esta promessa
nunca seja realizada, uma vez que é ela quem movimenta o mercado que precisa
produzir cada vez mais, fazendo com que o indivíduo queira ter sempre mais, algo que
resulta em uma constante sensação de insatisfação interna.
Nesse processo de sublimação, verifica-se a presença de uma relação de
tensão entre o desejo e a sociedade, bem como o poder da força pulsional, já
que se observa o esforço do espírito em desviar suas energias dos fins
primários, visando a obtenção de prazeres mediatos no usufruto dos produtos
culturais encetados. (PUCCI; RAMOS-DE-OLIVEIRA; ZUIN, 1999, p. 67).
O conhecimento, o raciocínio e a reflexão transformam-se em mera curiosidade
para o público telespectador, que se interessa muito mais pelo entretenimento
(ADORNO, HORKHEIMER, 1985).
Divertir-se significa estar de acordo. Isso só e possível se isso se isola do
processo social em seu todo, se idiotiza e abandona desde o inicio a
pretensão inescapável de toda obra, mesmo da mais insignificante, de refletir
em sua limitação o todo. Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso,
esquecer o sofrimento ate mesmo onde ele é mostrado. A impotência e a sua
própria base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da
realidade ruim, mas da ultima ideia de resistência que essa realidade ainda
deixa subsistir. A liberação prometida pela diversão e a liberação do
pensamento como negação (ADORNO, HORKHEIMER 1985, p. 119).
No cenário comunicativo contemporâneo, além dos meios tradicionais, outro
grande fenômeno de comunicação vem ganhando espaço: a Internet. Segundo a União
Internacional de Telecomunicações (UIT), 1, 5 bilhões de pessoas utilizam a Internet no
mundo. Entre 2000 e 2008, houve um crescimento de usuários da Web em 290%,
superando qualquer outro meio de comunicação de massa (NETO, 2010).
O Brasil atualmente ocupa o 5º lugar em número de conexões à Internet. Uma
pesquisa realizada em 2007 revelou a venda de 10,5 milhões de computadores contra 10
milhões de televisores (NETO, 2010). Tal fenômeno evidencia a abrangência e o poder
da Internet na contemporaneidade, assim como o seu papel sociocultural.
Dentro do paradigma frankfurtiano a reflexão sobre tal fenômeno significa estar
em concordância com as transformações sociais dos diferentes momentos históricos,
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onde cada situação histórica exigiria do pesquisador teórico crítico uma reformulação
intelectual que acompanhasse as modificações do tempo.
É importante ressaltar que a Internet não possui um caráter tão monopolista
quanto os meios tradicionais de comunicação. Na Web, o indivíduo pode deixar de ser
apenas um receptor, passando a ser agente efetivo no processo comunicativo. As
espécies de diários pessoais proporcionam o debate entre o autor e o leitor, a livre
expressão de ideias; assim ocorre, por exemplo, nos blogs, no Facebook e no próprio
Orkut (NETO, 20010). O MySpace, por exemplo, pode possibilitar que bandas de
música independentes, aquelas que estão fora dos padrões comerciais, possam adquirir
espaço de expressão e a formação de público.
Deste modo, a Internet constitui-se como um meio comunicativo revolucionário,
levando à possibilidade da expressão do “eu” no ambiente midiático. No entanto, “nem
tudo é um mar de rosas”, pois tal forma de expressão muitas vezes se dá de maneira
padronizada, onde os perfis devem se adequar a uma linguagem comportamental
homogeneizada, algo limitante, em que a individualidade tem de obedecer a uma
estrutura estabelecida (NETO, 2010).
O computador, com o passar dos anos, foi perdendo o papel de objeto de
trabalho para ocupar também o posto de lazer. Pessoas têm passado cada vez mais horas
em frente a ele, navegando pela Internet (ZUIN, 2008). É nesta sociedade altamente
tecnologizada que os sujeitos, em número cada vez maior, acabam adquirindo uma
espécie de segunda vida, a virtual.
A Internet transforma-se em um espaço para a realização de encontros sociais e
particulares e é com frequência que se ouve a expressão: “a Internet vicia”, isto devido
ao fato de o sujeito ter a sensação de que, se ele não se conectar, será como se não
existisse de fato (ZUIN, 2008). Em tempos eletrônicos existe a consolidação de uma
ontologia paradoxal, em que “uma existência sem a presença eletrônica é um aqui e
agora sem um aí, ou seja, trata-se de uma não existência viva” (TÜRCKE, 2002 p. 64).
Na sociedade da imagem, o indivíduo é estimulado a viver com as novas formas
de percepção estética, assim como o desejo de estar cada vez mais exposto às imagens.
O sistema capitalista de produção encontra-se numa dinâmica que vicia o indivíduo a
consumir as mercadorias, apresentando-se atualmente na forma do vício aos choques
midiáticos (ZUIN, 2008).
Cada vez mais se observa a compulsão paranoica das pessoas em adentrarem
suas caixas de e-mails para verificarem novas mensagens, assim como adolescentes que
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perpassam a madrugada em salas de bate-papo. A possibilidade de se ter uma “segunda
vida” traz vantagens ao indivíduo, que se sente realizado nessa sua vida “inventada”,
sem privações.
Ocorre que o grau de absorção do mundo virtual é tamanho, que ele acaba por
entorpecer o sujeito, e a vida real passa a perder o sentido, a não ter mais graça. Nestes
espaços encontram-se, por exemplo, pessoas que são extremamente comunicativas, mas
que na “vida real” são totalmente reclusas e tímidas. Desta maneira, a realidade virtual
adquire caráter de real e a Internet torna-se cada vez mais representativa dentro do
contexto da indústria cultural contemporânea.
O Orkut, criado em 22 de janeiro de 2004, teve seu nome originado no projetista
chefe da Google, Orkut Büyükkökten, constituindo-se como um espaço virtual de
relacionamento. Neste espaço, o usuário cria um perfil visual, onde faz uma descrição
de sua personalidade, colocando gostos e interesses pessoais a fim de definir quem “ele
é”, e também disponibilizando fotos e vídeos que podem ser compartilhados com
membros associados através de uma lista de amigos.
Além de fazer amigos, o participante pode se aderir a comunidades que unem os
seguidores do Orkut em torno de variadas temáticas, como por exemplo, música, filme,
time de futebol e opiniões relativas aos mais diversos temas. As comunidades podem
revelar muito em relação às características pessoais dos participantes, como seus
interesses, desejos e necessidades, sua busca por vínculos afetivos e identidade.
O site de relacionamento Orkut tem se tornado uma febre no Brasil; são mais de
23 milhões de usuários. Não se sabe ao certo o motivo de seu sucesso, mas ele
realmente domina o ranking dos sites acessados. Jovens, adultos e até mesmo crianças
criam perfis, se comunicam e conversam on-line através do Orkut. Uma pesquisa
realizada pela rede Google em 2010 revela o ranking de usuários do Orkut: Brasil,
40,0%; Índia, 39,2%; Estados Unidos, 2,2%; Japão, 2,1; Paquistão, 1,0; outros países,
5,3% (sítio Google 2010).
Em 2009 o Orkut ganha uma nova versão, com layout reformulado e
apresentando novos atrativos, além dos álbuns de fotos e vídeos, depoimentos e
comunidades, esta nova versão traz o feed de notícias, um agrupamento de recados,
atualizações do perfil e adição de amigos, tudo na página inicial.
Nesse sentido, perceber o Orkut como um fator cultural é estar atento às
transformações sociais, ao contexto da atual revolução microeletrônica, na qual crianças
e adolescentes fazem parte desta rede e estão encontrando espaço neste local para a livre
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expressão de sentimentos e até mesmo reivindicações e ressentimentos. São mais de mil
comunidades com o tema Professor, evidenciando sentimentos dos alunos,
representações afetivas e aversivas em relação à escola e aos professores, algo que torna
o sitio de relacionamento Orkut um campo rico para a investigação educacional.
3.2. SADISMO PEDAGÓGICO: PERPASSANDO A HISTÓRIA DA
PEDAGOGIA
Uma das características mais marcantes da história da humanidade é a utilização
da violência nas relações entre os indivíduos. Em alguns momentos essa violência foi
enaltecida, em outros, dissimulada, assumindo posições diferentes, dependendo da
situação sociocultural de cada época. Na sociedade atual, marcada pelos apelos
sedutores da indústria cultural, a violência assume papel de espetáculo e, muitas vezes, é
vista de forma heroica (ZUIN, 2008).
Na história da pedagogia, o emprego da violência acompanhou a prática
educativa desde os tempos mais remotos. Durante esse processo foram realizadas
inúmeras tentativas de se obter uma metodologia capaz de fazer com que os alunos
admitissem a necessidade da autodisciplina no processo de aprendizagem (ZUIN, 2008,
p.75.), isso foi realizado marcadamente pela sádica severidade, ou seja, por meio do
emprego da punição, seja ela física ou psicológica, exercida pelo preceptor sobre os
alunos.
O termo “Sadismo Pedagógico” foi cunhado e desenvolvido pelo historiador
italiano Mario Alighiero Manacorda na obra História da Educação: da Antiguidade aos
nossos dias (1989), como sendo os atos de violência decorrentes na relação entre
docentes e discentes e que nas suas constatações empíricas é algo que perpassou por
toda a história educativa.
Segundo o autor “o sadismo pedagógico cresce debaixo de qualquer céu!”
(MANACORDA, 1989 P. 119). Na página 91 do livro, por exemplo, após fazer uma citação
de uma fonte empírica sobre educação na Roma clássica, o educador assim se refere ao uso
do conceito “sadismo pedagógico” por ele mesmo criado.
É difícil imaginar que o netinho do bom Ausônio tenha se confortado muito
com estas revelações desanimadoras sobre seu futuro destino de aluno; de
qualquer forma, temos aqui a mais viva descrição do verdadeiro sadismo
pedagógico da escola em Roma, ou melhor, também da escola romana.
Inevitavelmente, a esta sádica severidade correspondem a aversão, o tédio e
a indisciplina dos alunos: são as mesmas coisas de sempre, mas que vale a
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pena conhecer diretamente nos documentos da época ( MANACORDA,
1989, P. 91).
Os primeiros documentos sobre a civilização, e particularmente sobre educação,
que se tem notícia, são provenientes do antigo Egito. Lá, o educador era considerado um
profeta e suas palavras, provérbios: “mostrar-te-ei sua verdadeira beleza: ela (a
profissão de escriba) é a maior de todas as profissões e não existe outra semelhante a ela
neste país” (MANACORDA, 1989 p. 24).
Nos excertos abaixo, Manacorda expressa a educação egípcia, que se pautava no
método mnemônico, no autoritarismo e no sadismo pedagógico, na qual o aluno
indisciplinado deveria receber punições corporais - verba verberibus ou “il verbo a
suon di nerbo” (ensina-se através de punições):
Pune duramente e educa duramente! (p. 15).
Não passes o dia na ociosidade, ou serás surrado. A orelha da criança fica
nas suas costas e ela presta atenção quando é surrada (p. 32).
Disseram-me que abandonaste a escritura e ficas andando à toa. Deixaste a
escritura e transformaste teus pés num par de cavalos... Teu ouvido é surdo e
te tornaste como um asno que precisa ser punido” (p. 32). (MANACORDA,
1989).
É recorrente nos relatos de indisciplina o jovem ser comparado aos animais
rebeldes que precisam do chicote para ser domesticados. “Mas eu farei parar que teus
pés vadiem pelas ruas, quando te surrar com chicote de hipopótamo” (MANACORDA,
1989 p. 33). Juntamente aos castigos aparecem as reclusões: “Quando tinha a tua idade
passava o tempo nos grilhões; foram eles que domaram meu corpo, porque fiquei com
eles três meses” (MANACORDA, 1989 p.33).
Na Grécia antiga, a arte de ensinar não era honrada. De fato, a aversão em
relação a este ofício já despontava na Atenas do quinto século antes de Cristo
(MANACORDA 1989, p. 48). O aluno era educado por um escravo que havia sido
vencido no campo de guerra e que era mantido nessa condição pela imposição física, os
chamados paidagogos, que acompanhavam as crianças à escola e exerciam a função de
mestres, recebendo um salário de miséria para isso. (CAMBI, 1999, p. 84;
MANACORDA 1989, p. 48).
O mestre era humilhado pelo guerreiro por não poder fazer uso da sua força
física. Essa depreciação do intelecto foi caracterizada por Adorno (2000, p.162) como
ressentimento do guerreiro, que, por um permanente mecanismo de identificação, acaba
por impregnar o povo como um todo.
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Na Roma antiga segue-se o mesmo perfil educativo, em que o amor e o ódio, as
chicotadas e palmadas mantinham-se vivas na relação desenvolvida entre mestres e
discípulos. A evolução histórica do professor foi de escravo pedagogo e mestre na
própria família ao escravo mestre das crianças de diversas famílias, até se chegar ao
escravo libertus que ensina na escola. “Era vergonhoso ensinar o que era honroso
aprender” (MANACORDA, 1989 p.78).
Por outro lado, a tirania dos mestres deixou marcas profundas na literatura e
história da educação. Os alunos foram treinados historicamente a reprimir suas
angústias e medos resultantes da relação professor-aluno em sala de aula (ZUIN, 2008).
Eis algumas citações de Manacorda (1989) que evidenciam tamanha violência:
Quando criança, Orbílio, o mestre da mão pesada, me ensinava a
toque de chicote. (p. 90).
(...) Os colegas seguram, pelos braços e pelas pernas, a criança a ser
punida, levantada com as costas para cima, enquanto um terceiro,
sob as ordens do mestre, a chicoteia (p.58).
Rogo-te, suplico-te, Lamprisco, pelas Musas não me batas com o
nervo cheio de nós, procura um outro (p.59).
Trabalha jumentinho, como eu trabalhei, e te trará vantagem! (p.
91).
Dá-me logo esse chicote, sem vergonha, agora mesmo verás o que
importa não obedecer às ordens do teu mestre: dele sofrerás o justo
império (p.204)
A disciplina é um bastão de 8 a 9 polegadas, na ponta do qual estão
fixadas 4 ou 5 cordas e cada uma delas terá na ponta três nós...” (p.
234).
As correções ordinárias com o chicote serão feitas no canto mais
escondido e escuro da sala, onde a nudez de quem for corrigido não
possa ser vista pelos outros... (p. 234) (MANACORDA, 1989).
A violência pedagógica fez-se muito presente, tanto a do mestre ou pedagogo
contra o discípulo, como a do discípulo contra pedagogo ou mestre. Casos de
espancamento do mestre pelo discípulo também ocorreriam: “(...) Héracles, a golpes de
cadeira, mata seu mestre de música, Lino, irmão de Orfeu” (MANACORDA, 1989
p.59). Já Baldus, reage às chibatadas e quebra a cabeça do mestre: “Terrível, nunca
provou o que fosse uma chibatada; quebrava os livros, as mesas e as cabeças dos
pedantes” (MANACORDA, 1989 p.206).
A emergência das escolas de massa foi decisiva para a mudança nas relações
entre professores e alunos: uma gradativa substituição das punições físicas pelas
psicológicas. Comênio (1985), em sua obra A Didática Magna, defendeu a extinção dos
castigos físicos e, em seu lugar, as punições psicológicas ganharam destaque. O medo
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de ser humilhado na frente de todos passa a fazer com que o aluno mantenha a
disciplina em sala de aula, afim de não ser vítima do sarcasmo do professor. A
docilidade dos alunos era justificada pela pretensão de um ensino mais eficiente, palavra
de ordem do capitalismo que naquele momento se iniciava e que já se refletia nas
relações materiais de produção e na filosofia. A máxima de controlar o corpo e o
espírito gradativamente se fortalece. (ZUIN, 2008, p. 45).
Comênio (1985) salientava a necessidade da substituição dos castigos físicos por
outros tipos de punição, visando a uma maior eficácia no ensino. O olhar classificador
deveria rotular, determinar identidades, gerar temor e estimular a competição entre os
alunos, uma metodologia que, segundo o educador, seria muito mais eficiente. Já em
1638 o educador defendia:
Se, porém, por vezes, é necessário espevitar e estimular, o efeito pode ser
obtido por meio de outros meios e melhores que as pancadas: às vezes, com
uma palavra mais áspera e com uma repreensão dada em público; outras
vezes, elogiando os outros: “Olha como estão atentos este teu colega e
aquele, e como entendem bem todas as coisas! Porque é que tu és assim tão
preguiçoso?”; outras vezes suscitando o riso: “Então tu não entendes uma
coisa tão fácil? Andas com o espírito a passear?” Podem ainda estabelecer-se
“desafios” ou “sabatinas” semanais, ou ainda mensais, para a quem cabe o
primeiro lugar ou a honra de um elogio (...) desde que se veja que isto não
vai resultar num mero divertimento ou numa brincadeira, e por isso inútil,
mas para que o desejo do elogio e o medo do vitupério e da humilhação
estimulem verdadeiramente à aplicação (COMÊNIO, 1985 p. 403).
A gradual substituição das punições físicas pelas psicológicas trouxe consigo
uma ambiguidade, pois se por um lado a construção simbólica da punição contém um
caráter progressista em relação à física, por outro lado, as marcas psicológicas deixadas
produzem danos devastadores no processo formativo do aluno. Não saber responder a
uma questão feita pelo professor além de causar o medo da humilhação por parte deste e
dos colegas de classe, também se caracteriza pela necessidade de não desapontar o
mestre, permanecendo a imagem idealizada pelo próprio aluno (ZUIN, 2008).
O castigo como festa, ritual, espetáculo, martírio e suplício foi uma prática que
perdurou na história da humanidade por milênios. Com o passar do tempo, as punições
físicas vão perdendo o caráter de espetáculo para ceder lugar a outros mecanismos de
punição, em que a necessidade da presença de um poder presente na consciência dos
sujeitos passa a ser percebida como um método mais eficaz.
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O medo de ser punido é o que vai fazer com que o indivíduo não queira se
desviar das normas. A punição se torna então, a parte mais velada do processo penal,
deixando o campo da percepção diária para adentrar a consciência abstrata do sujeito.
Punir é tratar o corpo para torná-lo dócil e submisso, é a microfísica de poder posta em
jogo pelos aparelhos e instituições sociais (FOUCAULT, 2001).
O “corpo político” vai se constituir como um conjunto de elementos materiais e
de técnicas que servem como armas de reforço, vias de comunicação e pontos de apoio
para as relações de poder que investem os corpos humanos submetendo-os
(FOUCAULT, 2001). Para tanto, seria suficiente a utilização de um poder disciplinar
capaz de garantir a ordem, que por meio da vigilância, treinamento, coerção,
manipulação e docilização dos corpos, pudesse transformar os loucos, as crianças e os
escolares, enquadrando-os e tornando-os aptos a viver em sociedade. Segundo Foucault
(2001) “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser
transformado e aperfeiçoado”.
Dentro desta lógica a escola francesa do século XVIII tinha o objetivo de se
tornar:
(...) uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de
hierarquizar, de recompensar. J. B. de La Salle imaginava uma
classe onde a distribuição espacial pudesse realizar ao mesmo
tempo toda uma série de distinções: segundo o nível de avanço dos
alunos, segundo o valor de cada um, segundo seu temperamento
melhor ou pior, segundo sua maior ou menor aplicação, segundo
sua limpeza, e segundo a fortuna dos pais. Então, a sala de aula
formaria um grande quadro único, com entradas múltiplas, sob o
olhar cuidadosamente classificador do professor. (FOUCAULT,
2001, p. 126).
Nesse sentido, o sistema capitalista de produção, designa à escola o papel de
produtora de um indivíduo que tenha comportamento sistemático, organizado, submisso
e mecânico, na qual a subserviência, a disciplina, a docilidade e a pontualidade
pudessem constituir os elementos fundamentais da formação humana, voltada ao
trabalho fabril. Sendo assim, a disciplina, método de controle corporal e psicológico,
visa a atingir também a “alma” dos alunos.
O horário é um fator muito importante no controle escolar; ele estabelece
censura, obriga a ocupações determinadas, regula os ciclos de competição e próprio
funcionamento fisiológico. Existe hora para ir ao banheiro, mesmo que a criança
necessite ir antes. Impõe-se aos corpos tarefas repetitivas e cronometradas em que o
18
silêncio deve reinar e só ser interrompido por sinos, palmas, gestos ou pelo olhar do
mestre. O olhar hierárquico, a sanção normalizadora e o exame são os instrumentos de
adestramento mais eficientes, que qualifica, classifica e pune os alunos.
A penalidade é estabelecida como forma de repressão dos comportamentos
inadequados, onde a escola estabelece micropenalidades:
(...) micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas),
da atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de ser
(grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência) do corpo
(atitudes ‘incorretas’, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade
(imodéstia, indecência) (FOUCAULT, 2001 p. 159).
O mestre pune os indisciplinados com puxões de orelhas, tapas, humilhações,
castigos “morais”, através de atos autoritários e sádicos. Todos esses mecanismos de
poder, estabelecidos na relação educacional, acabam por gerar no aluno inúmeras
angústias, prevalecendo uma espécie de pedagogia do medo.
Em todo o processo de subordinação, a reflexão sobre o sentimento de frustração
dos alunos, leva à compreensão do processo de idealização e à formação de
representações aversivas destes para com seus mestres, os denominados “tabus” de
acordo com Adorno. O aluno, obrigado a aceitar sua classificação estereotipada, é
destacado sadicamente na sala de aula pelo professor; isso lhe causa mal-estar ligado à
impossibilidade de várias alternativas de identidades, que são impedidas de se
manifestar ao se chocar com o rótulo. (ZUIN, 2008, p. 47).
Tal análise permite a constatação de que o processo de ensino-aprendizagem não
está apenas caracterizado por aspectos objetivos, relativos aos conteúdos das disciplinas,
mas também por elementos subjetivos que fundamentam a relação entre docentes e
discentes. Mas existe uma grande ambiguidade neste processo, onde os mestres
provavelmente se sentem incomodados com a sua posição: educar e ao mesmo tempo
punir - embora essa exigência tenha surgido da própria sociedade (ZUIN, 2008, p. 43).
Adorno (1986) no texto “Educação após Auschwitz”, afirma que Freud tinha
muito mais razão do que supunha quando defendia que “a civilização produz a
anticivilização e a reforça progressivamente” (ZUIN 1999, p.43). Este raciocínio suscita
uma reflexão crucial: o modo como somos educados. No ambiente escolar toda a
contradição nos procedimentos educativos passa despercebida.
Uma pedagogia que sufoca o sujeito seria de fato uma boa educação? Adestrar,
enquadrar, rotular, humilhar, reprimir e “docilizar” está muito longe de ser o caminho
19
que leve a uma educação autônoma, emancipada e qualitativa. Por trás de tamanha
repressão encontram-se sequelas, sentimentos de ressentimento que marcam a vida do
educando para sempre.
3. 3. REPRESENTAÇÕES: ALUNOS & MESTRES
Para Theodor W. Adorno, os tabus constituem-se como sendo as:
[...] representações inconscientes ou pré-conscientes dos eventuais
candidatos ao magistério, mas também de outros, principalmente das
próprias crianças, que vinculam esta profissão como que a uma interdição
psíquica que a submete a dificuldades raramente esclarecidas (ADORNO,
1995 p. 98).
Os tabus representam “pré-conceitos” psicológicos e sociais que associam
determinadas características à imagem do professor. Segundo Adorno, “por trás da
imagem negativa do professor se antevê a imagem daquele que aplica castigos...”
(PUCCI; RAMOS-DE-OLIVEIRA; ZUIN, 2000 p. 165). Tal imagem foi historicamente
construída, em que o mestre, detentor do poder e fisicamente mais forte, agride o mais
fraco. Embora esta prática não faça mais parte da ação educativa, ela perdura na
“memória histórica” do alunado.
Segundo Freud (1999), “tabu” é um termo difícil de se traduzir, pois ele traz em
si um sentido de inabordável. Suas restrições se impõem por sua própria conta, não se
baseando em nenhuma ordem maior. O termo representa algo proibido, misterioso.
A imagem estereotipada do professor está permeada por máculas, ressentimentos
e aversões dos alunos construídos neste caldo cultural autoritário e sádico.
Tradicionalmente, a palavra do mestre sempre deve ser a última, não pelo fato de ele
possuir maior conhecimento, mas sim por representar o poder, por ser incontestável.
Nesse sentido, Adorno (2000:166) ressalta que “Qualquer professor consciente,
universitário ou não, reconhecerá que, amparado pela cátedra, pode utilizar-se da
palavra para argumentar por mais tempo e sem que o possam contestar”. Ao relembrar
as palavras de Max Scheler, quando este disse que “havia obtido efeitos pedagógicos
pelo fato de que nunca tratara seus alunos de maneira pedagógica”, Adorno (200, 164)
revela a dificuldade que é para o professor “sair do pedestal” e perceber em sua prática a
relação de ambivalência – amor e ódio – à qual está submetido.
O mais contraditório é notar que a mesma sociedade que exige do professor uma
postura autoritária, oferecendo a ele o poder de castigar seus alunos, o julga quando este
20
o faz. As expectativas sobre ele são muitas, pois espera-se que ele seja um modelo ideal
para as crianças e que tenha uma vida regrada e exemplar, ao mesmo tempo em que o
mestre não pode ser simpático demais, pois sua figura imediatamente será difamada
(ADORNO, 2000). Tais constatações verificam os grandes desafios e paradoxos nos
quais a profissão docente se insere.
Outro motivo gerador de desprezo pela profissão docente é o fato de o professor
estar inserido no mundo infantil; como ele deve se adaptar ao mundo da criança acaba
não sendo considerado totalmente adulto. Deste modo, “A infantilidade do professor
manifesta no fato de que confunde o microcosmo da escola com a própria realidade. É
um mundo relativamente isolado da sociedade de adultos...” (PUCCI; RAMOS-DEOLIVEIRA; ZUIN, 2000 p. 169).
Todos os preconceitos em relação ao professor podem expressar tal
ambivalência, onde observa-se que, ao mesmo tempo em que ele deve estar inserido no
mundo infantil, não pode deixar de pertencer ao mundo adulto. A sua meta é a de
preparar as crianças para entrar na vida adulta. O jogo estabelecido entre professores e
alunos faz com que estes se tornem injustos uns com os outros, pois, na maioria das
vezes, os professores exigem que os alunos comportem-se como adultos, enquanto que
os alunos exaltam professores que, por exemplo, jogam bola e bebem com eles.
Na relação pedagógica, assim como no complexo de Édipo, a criança idealiza
uma imagem com a qual espera poder identificar-se. Porém, isto, novamente, mostra-se
impossível. Nesse sentido, Adorno ressalta:
O professor não é o homem perfeito que, as crianças, mesmo que de
maneira confusa, esperam, mas alguém que, dentre todas as
possibilidades e tipos profissionais, escolheu uma profissão e nela
inevitavelmente se encontrou como especialista (ADORNO, 2000 p.
171).
Deste modo, o autor considera essencial que o professor não se esqueça de que é
um ser humano como todos os outros e que é suscetível a erros e falhas:
Provavelmente seja mais convincente um professor que diga ‘tem
razão. Sou injusto, sou alguém como vocês. Algumas coisas me
agradam e outras me desagradam’ do que outro que se mantenha
ideologicamente na defesa da justiça, mas que logo, sem poder evitar,
cometa a injustiça que havia reprimido (p. 171).
Adorno(1986) em Sobre a Psicologia do Relacionamento entre Professores e
Alunos, critica a postura de alguns autores que apontam o professor de maneira
21
caricaturada. Para estes autores, o professor seria uma espécie de indivíduo perverso que
se tornou docente justamente para poder exercer sua maldade contra as crianças. Contra
tal ideia, Adorno considera que “O conhecimento dos fatores externos é a condição
fundamental para a compreensão correta das relações ou do próprio relacionamento do
professor para com seus alunos” (ADORNO 1986 p.. 03).
As escolas são frequentadas por crianças e adolescentes que ainda não
encontraram a maturidade, eles não se unem conscientemente a um objetivo comum e
suas pulsões originais agem livremente, assim como sua capacidade de fazer juízos de
valor. Porém, a psique da criança vê no professor um ponto focal para todas as suas
projeções. Inicialmente todas veneram o mestre até que algo de novo ocorre: o professor
exige e a crença do aluno é abalada, havendo uma confrontação psíquica e hesitação por
parte deste. Para os alunos ele é um professor antes de ser um indivíduo e, sendo assim,
o professor se torna o mediador de algo abstrato, obrigatório, onde não se sabe nada de
sua origem, apenas que ele impõe e exige tarefas.
Tais fenômenos para Adorno expressam os pressupostos das relações entre
professor e alunos e implicam os fenômenos psicológicos. O professor vai entrar em
contato com essa coletividade não homogeneizada a fim de fornecer-lhe um padrão e
sua tendência é avaliar os alunos de maneira injusta e unilateral. Já o lado emotivo da
criança se torna muito mais forte e encontra dificuldades em reconhecer o lado humano
do professor, temendo e desconfiando de suas ações (ADORNO, 1986).
No professor recrudesce o desejo de rotular e consequências drásticas por tal ato
serão desenvolvidas nos alunos. O rótulo representa uma agressão contra o eu da
criança, que, por sua vez, cria uma aversão contra a dinâmica pedagógica da rotina
educativa. Surgem sentimentos de medo no alunado e se fortalece a resistência ao poder
do professor.
Primeiramente nasce por parte do aluno o ódio, algo que é instintivo, e que será
transformado em resistência; depois prevalecem outras derivações, tal como a inveja, o
rancor e o impulso para uma espécie de jogo de cena.
É nesse ponto que são
desenvolvidos o juízo de valor da criança em relação ao professor, inicialmente
questionando se o professor é bom ou não. “O professor é superior em idade,
maturidade e conhecimento em relação ao indivíduo considerado inferior, o aluno”
(ADORNO, 1986 p. 07). Começa a crescer no professor o desejo pelo poder, que é
objetivado através de sua soberba e arrogância.
22
O juízo de valor depreciativo se torna consciente naquele que é julgado e o aluno
passa a ser incapaz de ver o mestre como humano. É neste momento que se formam os
grupinhos dentro da sala de aula, onde a meta será atacar o professor e aniquilá-lo
psicologicamente. Adorno apresenta as formas de representações desenvolvidas na
relação entre professor e alunos, mas ressalta que este tipo discorrido não é a única,
muito pelo contrário, na maioria das vezes elas se tornam mais amigáveis.
Os alunos não tardam a perceber, via de regra, que a imagem projetada de seus
professores geralmente não corresponde àquilo que eles são na realidade.
Como se sabe, toda pressão estimula uma contrapressão e o aluno se torna
desperto para a resistência...Num primeiro momento, o ódio se faz presente
em sua forma mais primitiva, ou seja, na resistência simples e imediata
diante das influências externas e sobejamente mais fortes. Depois
prevalecem outras de suas derivações, tais como a inveja, o rancor e,
principalmente, o impulso para a representação, para um jogo de cena
(ADORNO, 1986, p. 23).
A psicanalista Ana Freud (1986) ao analisar os mecanismos da psique infantil,
cunhou um conceito que explica as características do processo “sadomasoquista” na
relação desenvolvida dentro da relação de ensino-aprendizagem, o chamado processo de
identificação com o agressor.
Uma criança introjeta uma certa característica de um objeto causador de
ansiedade e, assim, assimila uma experiência de ansiedade que acabou de ser
sofrida. Neste caso, o mecanismo de identificação ou introjeção combina-se
com um segundo e importante mecanismo. Ao personificar o agressor, ao
assumir os seus atributos ou imitar a sua agressão, a criança transforma-se de
pessoa ameaçada na pessoa que ameaça (p. 1986).
Em relação aos alunos, o processo de identificação com o professor/agressor
redireciona o processo de idealização, em que o aluno sonha em um dia poder ocupar o
posto do professor. Tal meta ocupa o posto de ideal de ego do aluno, em substituição ao
herói que fora anteriormente idealizado. Para Adorno (2001) o conceito de identificação
com o agressor não pode se resumir apenas a uma característica da personalidade de
algum indivíduo, mas deve ser utilizado para a compreensão do modo como este
indivíduo se identifica com um “cosmo social agressor”.
O autor considera essencial que o professor tenha consciência de tais fatores, que
ele não se esqueça de que é um ser humano como todos os outros e que, portanto, erra.
Segundo Adorno:
Provavelmente seja mais convincente um professor que diga ‘tem razão. Sou
injusto, sou alguém como vocês. Algumas coisas me agradam e outras me
desagradam’ do que outro que se mantenha ideologicamente na defesa da
23
justiça, mas que logo, sem poder evitar, cometa a injustiça que havia reprimido
(p. 171).
Uma atitude dessas exigiria a tomada de consciência do professor acerca dos
tabus existentes na prática de ensinar. Assim como Freud, Adorno alerta para a
importância de uma postura ética na educação, ou seja, aquela que não nega a antinomia
existente no oficio de ensinar, para, a partir daí, haver uma maior compreensão e
evolução para a conquista de uma pedagogia mais justa e humanitária.
Infelizmente, a instituição escolar se consolidou no decorrer dos séculos, como
um espaço estrategicamente deformador, resultando em um processo semiformativo,
que ao invés de proporcionar ao educandos uma formação integral, simplesmente anula
suas potencialidades. Os alunos são reprimidos, sufocados, mutilados e humilhados,
seja por meio de uma violência mais ou menos explícita, mas, de qualquer forma, ela
nunca deixou de existir.
É através da racionalidade instrumental do sistema capitalista que os processos
(de)formativos se consolidam, submetendo os educandos à tutelagem. Dentro da
perspectiva frunkfurtiana, a educação é vista como um campo vulnerável frente à
dominação social na qual está inserida. Segundo Zuin, (1999, p.43), “A crítica de
Adorno evidencia que enquanto não se modificarem as condições objetivas, haverá
sempre uma lacuna entre as pretensões educacionais formativas e as realizações
objetivas”.
24
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Este capítulo tem como meta a apresentação dos dados relativos aos tabus acerca
do professor, coletados nas comunidades virtuais do sítio de relacionamento Orkut, sua
análise e discussão dos resultados.
4.1 O ORKUT: RESSENTIMENTO DO ALUNO
A repressão, por parte do alunado, de suas angústias e medos, possibilita
condições para que o ódio prolifere (ADORNO, 1971). O trajeto da relação estabelecida
entre alunos e mestres no decorrer da história se manteve permeado por conflitos e atos
violentos. O sadismo vivenciado pelos alunos no processo formativo fez com que se
gerasse ressentimentos e desejos de vingança.
Tais desejos não encontram espaço para ser expressados em sala de aula, mas
eles precisam ser objetivados de alguma maneira. Em tempos de Internet, o alunado
pode encontrar um canal de expressão contra as repressões e humilhações sofridas no
jogo pedagógico, este veículo de manifestação é o sítio de relacionamentos Orkut. Ali
são encontradas mais de mil comunidades com o tema Professor e uma quantidade
gigantesca de palavras ofensivas dirigidas aos mestres. É por meio do Orkut que ocorre
uma espécie de catarse regressiva, em que os alunos podem expor suas desilusões ao
modelo de idealização que tinham do professor (ZUIN, 2008).
Para a realização desta pesquisa foram selecionadas comunidades virtuais do
sitio de relacionamento Orkut cujos membros despendem horas da sua semana versando
sobre as máculas originadas dos tabus estabelecidas na relação professor/aluno. Estas
possuem um perfil descritivo e abrem espaços para as discussões por meio de tópicos –
espaço de discussão criado por qualquer membro da comunidade - e enquetes - espaço
para votações criado por um usuário e aberto à votação para todos os membros
interessados.
No Orkut nos deparamos com uma rica fonte para a realização de pesquisas
relativas aos sentimentos dos alunos em relação aos seus mestres. Ao digitar a palavra
“professor” no local reservado à busca, surgem mais de mil comunidades, algumas
exaltando de maneira positiva os professores, outras rotulando negativamente seus
25
mestres. Vale ressaltar, que a maioria das comunidades encontradas apresenta aspectos
aversivos dos alunos em relação aos professores.
A seguir, serão listados exemplos de comunidades com cunho aversivo em
relação aos professores nas comunidades virtuais do Orkut e, logo após, algumas
reflexões referentes a estas. Os exemplos foram transcritos das comunidades de forma
integral, ou seja, sem alterações ou correções textuais.
1.
SEMPRE TEM UM PROFESSOR FDP: “Quem não concorda?
É incrível, mas toda escola, cursinho, faculdade, enfim toda sala de aula SEMPRE tem
um professor FDP! Aquele professor que se acha o maioral, o bonzão, que sempre ferra
na prova , aquele que te marca desde o começo do ano, que não deixa colar, que não
deixa você dizer um “oi” pro amigo ao lado...Dica: Pessoal, sempre haverá pelo menos
um professor chato, mas hoje já existem maneiras diferentes de estudar.... à Distância!”
2.
MEU PROFESSOR É CARRASCO: “ Pra alunos que têm professores
carrascos, que nem nas férias dão folga. Tirar nota alta com eles nem pensar...e axam q
não há nota ruim que não possa piorar!!! PS: “achar” realmente se escreve com CH, mas
pelo menos aqui posso escrever d alq jeito, CARRASCO … hehe”
3.
EU ODEIO PROFESSOR CARRASCO: “Esta comunidade é
dedicada aos que odeiam aqueles professores chatos, fedidos e mal vestidos e que
sempre no final do período vivem reprovando alguns alunos!”
4.
TENHO/TIVE PROFESSOR CARRASCO: “Você já reparou como
existem professores que adoram ferrar os alunos e parecem sentir prazer nisso?
Pois eh, fazem até aquela cara de felicidade quando percebem que os alunos estão
ferrados e corre correndo atrás do prejuízo...Tirar nota alta com eles nem pensar...Tem
aqueles que nunca deram nota 10!Entrem e deixem seus comentários.”
5.
EU QUERO MATAR MEU PROFESSOR: “ Essa e a 1ª comunidade
pra quem odeia os seus professores... Se você não aguenta mais a cara de bunda dos
seus professores: Que j ate deram um 0; Que não sabem explicar a matéria; Que são sem
educação e tudo mais. Essa é a sua comu!”
6.
EU TENHO UM PROFESSOR IDIOTA: “ Essa comu é pra quem tem
um professor muito idiota burro trouxa racista e eticetera...”
7.
ODEIO PROFESSOR IDIOTA: “Essa comunidade é uma homenagem
para aqueles professores que não sabem ensinar, que tem conhecimento na matéria mas
em questão de ensinamento eles tem nota Zero!!!!!!!”
26
8.
PROFESSOR CHATO NUNCA FALTA: “você fica esperando pelo
menos um dia na vida ficar livre deles, mas todos os dias eles vem para encher o saco
dos alunos. Seja bem vindo”
9.
EU ODEIO PROFESSOR FRUSTRADO: “Se você odeia aqueles
professores que: Descontam todas suas frustrações cotidianas em sala de aula. Adoram
tirar ponto por coisas ABSURDAS. Fazem questão de ferrar quando podem ajudar. “
10.
NINGUÉM MERECE PROFESSOR CHATO: “Sabe aquele tipo de
professor que chega na sala pegando no seu pé, que gosta de ferrar todo mundo, que
passa muito dever e, ainda por cima, é feio? Esta comunidade foi feita para você!!”
11.
MEU PROFESSOR COMPROU DIPLOMA: “Se vc desconfia ki seu
professor usou táticas não muito nobres para lecionar, entre!”
12.
JÁ FIZ CARICATURA DE PROFESSOR: “Aki so entra pessoas ke
jah fizeram caricaturas d professores! Sempre tem um coringa ke vc odeia... e acaba
odiando a matéia tb... resumindo: ele ferra tua vida (tua nota neah)!”
13.
MEU PROFESSOR ME ENCHE: “Se você tem um professor que
parece que te marca, que não larga do seu pé, basta acontecer qualquer coisa de
diferente que pra ele você é o principal suspeito... Ele adora te trocar de lugar? Ele
nunca te da uma chance de explicar o que ocorreu, ou de se defender?? Conte suas
histórias e/ou fale dele aqui, porque aqui é o seu lugar.”
14.
MEU PROFESSOR É UM SACANA: “Se o seu professor é daqueles
que não toleram nem uma conversinha; deixa você se matando para fazer um trabalho e
no dia falta; te reprova por 3 décimos; finge que dá aula; cobra provas estupidamente
chatas e difíceis... Então você está no lugar certo. Aqui nós iremos falar mal de Miltons,
Valérias, fulanos e fulanas, todos professores e todos com o mesmo defeito... são
péssimos!
15.
NÃO GOSTO DO MEU PROFESSOR: “Essa comu é feita para
aqueles alunos que quando veem seus professores vindo pelo corredor pra dar aula vc
quase tem um infarto, logo aquele q vc mais odeia!!!”
16.
TOMARA QUE O PROFESSOR FALTE: “Se vc chega na sala de
aula sem vontade de aturar akele profº(a) chato(a) e fica lá sentado na sua carteira
rezando para que ele falte ou fique doente, esse é o seu lugar, entrem!!!”
17.
EU ODEIO PROFESSOR CUZÃO: “Essa comunidade é pra quem
tem ou conhece algum professor cuzão que gosta de fuder com os alunos !!! Para esses
professores eu soh tenhu uma coisa a dizer : "VÃO TOMA NO CÚ !!!"”
27
18.
EU TENHO UM PROFESSOR CHATO: “Se vc tem como professor
aquele tipo de pessoa que simplesmente “atrasa” sua vida; Que acha q vc só tem a
matéria dele pra estudar, por isso passa milhões de trabalhos pra entregar em uma
semana, passa estudos dirigidos de 5 páginas e exige q ele seja entregue manuscrito, só
pra você ficar com calo no dedo de tanto escrever. Se você ainda nem chegou no meio
do semestre e já não aguenta nem olhar mais pra cara dele, mas infelizmente sabe q vai
ter q aguentá-lo até o fim, e com a cara boa ainda!! Se ele é mto grosso, não consegue
responder gentilmente às perguntas que os alunos fazem. É aquele professor q sempre
tenta ser engraçado, e solta piadinhas infames e ridículas durante a aula, e enquanto
algumas pessoas riem (talvez pra ver se aumentam a nota...rssss...) você simplesmente
abaixa a cabeça(como um ato de reprovação) e pensa : "Meu Deus, o q eu estou fazendo
aqui!? Ohando para esse idiota?!” Se você fica fica triste quando se aproxima o dia da
aula dele! Bem vindo. Essa é SUA comunidade!”
19.
A CULPA É DO(A) PROFESSOR(A): “Meu, a gente estuda, a gente
tenta, mas não adianta quando o(a) professor(a) fala baixo, tem uma letra garranchuda,
reclama por besteira, não tira dúvidas, não explica bem o assunto, pensa que não temos
vida social e que devemos passar 18 horas por dia estudando e ter 6 horas para comer e
dormir...Perái, né? Palhaçada! O vulgo tbém é gente, pow! Depois eu tiro abaixo de 7 e
a culpa é minha??? Ahhhh, vai... A culpa é do(a0 professor(a).
20.
AI PROFESSOR, VAI SE FUDER VAI: “Se vc tem um professor ou
uma professora chato(a) pra caralho e vc não gosta dele(a) e tem uma vontade imensa
de mandar ele(a) se fuder essa comu é perfeita pra você!”
21.
LARGA DO MEU PÉ PROFESSOR (A): “Essa comunidade foi feita
para você que se sente meio ou completamente perseguido, vigiado pelo professor(a)
principalmente na hora da prova quando ele(a) da aquela voltinha na sala e para logo do
seu lado como se você fosse colar ou fazer alguma coisa de errado. Ninguém merece
não é mesmo? Participe da comunidade!”
22.
JÁ QUIS MATAR MEU PROFESSOR!:“Porra cara!Quem pelo amor
de Deus já num teve vontade de matar um professor?Eu já sei que isso já te passou pela
cabeça! Mas nem tudo na vida é como a gente quer. Quais os motivos que te fariam
matar um professor? Talvez esses te façam recordar:Te mandar para a diretoria por
causa de uma simples conversa em sala de aula; Te deixar em recuperação em
recuperação por causa de décimos; Não te deixar entrar na sala por causa de atrasos
tando no inicio da aula como na volta do intervalo; Soltar
indiretas
por
algum
28
comportamento seu; Te suspender por uma simples brincadeira...Essas daí são alguns de
milhões de motivos que já te fizeram pensar em homicídio!”
Até a data da conclusão deste trabalho, as comunidades com o tema “professor”
no Orkut já ultrapassam mil. Ali se agregam milhares de jovens, principalmente
adolescentes, do Brasil. Os exemplos apontados acima - de cunho aversivo em relação
aos professores - são evidências que apontam o Orkut como um veículo de expressão
dos alunos da atual sociedade brasileira, merecendo destaque e investigação científica.
É, portanto, no Orkut, que alunos encontram meios para demonstrar suas
críticas, revoltas, denúncias, fúria e desprezo por seus professores. Encontramos nos
comentários das comunidades centenas de milhares de alunos ressentidos, revoltados,
indignados com a postura sádica e autoritária de muitos professores.
O ressentimento é um ato não revidado, ou seja, o indivíduo impele uma
agressão de caráter físico e/ou psicológico contra outro, sem que este possa revidar.
Segundo Nietzsche, em sua obra Genealogia da Moral, o ressentido: vive de prudência e
de consciência (NIETZSCHE, 2000 p. 38), ou seja, ele articula o presente em vista de
um revide adiado, algo que caracteriza o ressentido como sujeito passivo, sendo que o
seu passado determinará, de certa maneira, o seu futuro.
Assim sendo, o ressentimento tem seu lado passivo, mas também seu lado
reativo, em que se cria ao ressentido novos valores. Independentemente de mudanças
concretas em ordens hierárquicas, ele elabora uma imagem sobre o agressor, que passa a
ser representado pelo imago da agressão (NIETZSCHE, 2000). Ao mesmo tempo que
aguarda o momento certo para revidar, o caráter ativo do ressentimento gera uma
inversão de valores entre agressor e agredido que enaltece o agredido e rebaixa o
agressor, mecanismo que Nietzsche caracterizou como uma “vingança imaginária”.
Mesmo internalizado, tal ressentimento é um sentimento presente nas relações
escolares, no dia a dia da sala de aula, do jogo de cena estabelecido entre alunos e
mestres e como tal deve ser compreendido e direcionado para o beneficio do processo
educativo.
Nesse sentido, é através do mundo virtual, que o ressentido/aluno pode sentir-se
vingado, no momento em que critica o seu agressor/professor. É por meio dos
comentários expostos nas comunidades que os alunos podem queixar-se e praticar
denúncias em relação aos seus professores, rotulados como “chatos”, “hipócritas”
“carrascos” e “malas”. Professores estes que humilham seus alunos na frente de todos,
29
através de ofensas e gritos, das lições de moral dadas a todo momento, da recusa em
ensinar, das cobranças, da falta de compreensão e do ódio demonstrado na sua prática,
através de olhares, falas e gestos.
Por meio da concretização do desejo de vingança, derivado do ressentimento,
que se iguala de certa maneira, mesmo somente no mundo virtual, as diferenças de
poder que existem no mundo real, o ressentido ganha forças, geradas como uma
compulsão que contrapõe-se à ordem vigente e à moral que o rodeia.
30
5. CONCLUSÕES
A presença dos sentimentos aversivos por parte dos alunos em relação aos seus
professores é algo que pode ser constatado em todo o decorrer da história da educação.
Com o passar do tempo e através das transformações socioculturais, o sadismo
pedagógico praticado pelo professor foi adquirindo novos formatos e se diluindo em
práticas aparentemente sadias. Da mesma forma que chicotes, varas, beliscões, gritos,
humilhações e sarcasmo, o sadismo pedagógico deixa marcas profundas na consciência
do sujeito.
Tais tabus constituem o jogo pedagógico que é praticado no ambiente da sala de
aula, em que o medo se mostra presente. As consequências de toda essa relação violenta
são drásticas para o processo formativo dos educandos, pois o prazer, algo tão
necessário para o ensino de qualidade, se afasta do processo de ensino e aprendizagem.
Em tempos de revolução microeletrônica, a Internet desponta como um veículo
aliado aos alunos. É em seus domínios que eles podem expressar-se livremente,
exercendo a crítica a todos os atos sádicos e autoritários vivenciados em sala de aula. As
comunidades virtuais do sítio de relacionamentos Orkut transformaram-se em um canal
que possibilita denúncias e reivindicação por parte do alunado, mas com a segurança de
não sofrer retaliações por parte do professor.
Apesar do momento histórico pedagógico em que reina a hegemonia da
violência simbólica, os alunos conseguem obter mecanismos para vingar seus
ressentimentos. As mensagens contidas nas comunidades estão imbuídas de protestos,
de queixas em relação ao sarcasmo e autoritarismo dos professores. Estes, parecem
preferir a posição no pedestal, cumprindo a sua ambígua tarefa social, sem se permitir
errar, duvidar, ter incertezas, reprimindo, desta forma, o seu lado afetuoso.
São dezenas as comunidades que se dedicam à zombaria e à fúria por parte dos
alunos para com os seus professores. Ali, podem se vingar - ressentimentos estes que
não encontram outros meios de expressão. Ao "agredir" o mestre, o aluno se sente bem,
como se pudesse se vingar de toda a humilhação e opressão que crê ter sofrido em sala
de aula.Sendo assim, é no Orkut que a vingança do aluno pode ser concretizada, embora
nas reclamações se oculte o desejo de aproximação com o professor/agressor,
demonstrando a força da ambivalência desses sentimentos de identificação. Se o
professor é relevante no processo de formação de identidade do aluno, que procura
superá-lo, o próprio professor necessita deixar de ser o centro das atenções e perceber
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que, ao ensinar, uma parte de si morre para que possa renascer através da atuação do
aluno.
Apesar de toda a violência estabelecida na sociedade, desde os tempos mais
remotos, muitas mudanças e transformações no sentido de superá-las podem ocorrer.
Todas as pulsões podem ser canalizadas para processos construtivos, ao invés de
destrutivos. O amor e o ódio resultantes da ambiguidade de tal relação pode
transformar-se no Eros, construindo o conhecimento e o próprio Eu, tornando-se
mediador entre o mundo sensível e o inteligível.
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6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Schüler”. In: Gesammelte Schriften, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1986.
(traduzido para o português pelo orientador Antônio Álvaro Soares Zuin).
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Ramos de Oliveira. In: ZUIN, ANTONIO, PUCCI, Bruno & RAMOS-DE-OLIVEIRA,
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Tradução de Guido Antonio de Almeida, Rio de janeiro: Zahar Editores, 1986.
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ironia e o sarcasmo pedagógico. Campinas, SP : Autores Associados, 2008. –
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Comunidades do Orkut mais acessadas:
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2. http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=972173
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6. http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=57614190
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Conselhos escolares na perspectiva da ação comunicativa de