MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO SUL – IFRS CAMPUS BENTO GONÇALVES CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA EM VITICULTURA E ENOLOGIA RELATÓRIO DE ESTÁGIO MIOLO - FORTALEZA DO SEIVAL VINEYARDS MACERAÇÃO CARBÔNICA Trabalho de Conclusão de Curso Superior apresentado ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul - Campus de Bento Gonçalves, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Tecnólogo em Viticultura e Enologia Orientadora: Giselle Ribeiro de Souza Supervisor: Miguel Ângelo de Almeida (Miolo - Fortaleza do Seival Vineyards) Autora: Carolina Pozzebon do Nascimento Bento Gonçalves, abril de 2009. Agradecimentos Aos meus familiares. A minha mãe, pelo apoio e amor incondicional. Ao meu namorado, Marcos Augusto Mattiello, pela força e paciência. Aos meus grandes amigos que fiz durante a faculdade da turma 2005 e 2006, onde dividimos boas taças de felicidades, em especial: Silvana Dallagnol, Raquel Elias, Cristiano Alvorcem, Eduardo Berselli, Lucas Sartori, e, meu querido “velho” colega, Guilherme Menezes. Aos professores do IFRS, em especial, a minha orientadora Giselle Ribeiro de Souza. A Vinícola Miolo - Fortaleza do Seival Vineyards pela oportunidade de estágio e por conceder as informações necessárias para a elaboração deste trabalho. Índice Introdução-------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 1 Maceração carbônica ---------------------------------------------------------------------------------- 5 1.1 Metabolismo anaeróbio das bagas -------------------------------------------------------------- 5 1.2 Absorção e emissão de CO2 ----------------------------------------------------------------------- 5 1.3 Formação de etanol -------------------------------------------------------------------------------- 6 1.4 Degradação parcial do ácido málico------------------------------------------------------------ 7 1.5 Alteração das substâncias nitrogenadas -------------------------------------------------------- 7 1.6 Modificação das paredes celulares -------------------------------------------------------------- 8 1.7 Modificação dos polifenóis para as células da polpa ----------------------------------------- 8 2 Fatores que influenciam o metabolismo anaeróbio --------------------------------------------- 9 2.1 Integridade das bagas ----------------------------------------------------------------------------- 9 2.2 Nível de hipóxia ------------------------------------------------------------------------------------- 9 2.3 Temperatura --------------------------------------------------------------------------------------- 10 2.4 Tempo de maceração ---------------------------------------------------------------------------- 10 3 Desenvolvimento anaeróbio de leveduras e bactérias láticas ------------------------------- 11 4 Condução de vinificação do vinho com maceração carbônica ------------------------------ 12 4.1 Colheita e transporte da uva -------------------------------------------------------------------- 12 4.2 Dispositivos e recipientes de maceração ----------------------------------------------------- 12 4.3 Saturação do depósito com CO2 --------------------------------------------------------------- 13 4.4 Alimentação do depósito de maceração ------------------------------------------------------ 13 4.5 Temperatura --------------------------------------------------------------------------------------- 14 4.6 Adição de levedura ------------------------------------------------------------------------------- 14 4.7 Controle e acompanhamento da maceração carbônica ------------------------------------ 15 4.8 Descuba e prensagem ---------------------------------------------------------------------------- 16 4.9 Fermentação alcóolica e fermentação malolática------------------------------------------- 17 5 Características dos vinhos com maceração carbônica --------------------------------------- 18 6 Considerações finais --------------------------------------------------------------------------------- 21 7 Referências Bibliográficas -------------------------------------------------------------------------- 22 Introdução O termo maceração carbônica designa uma técnica de vinificação sem o esmagamento das uvas onde a baga intacta, em condições de hipóxia, desenvolve um metabolismo anaeróbio para assegurar a energia necessária para suas funções vitais, se traduz na degradação de moléculas de açúcar na produção de etanol (PEYNAUD, 1982). Na época em que as uvas não eram desengaçadas e moidas, raramente se obtinha o esmagamento completo. Contentavam-se, muitas vezes, em apenas colocar as uvas diretamente nos recipientes, sem esmagamento e nem desengace. Em 1872, Pasteur comentou que seria interessante saber qual a diferença de qualidade entre os dois vinhos, um cuja baga permanecesse inteira como acontecia na vindima comum, e outro com a baga perfeitamente esmagada (PEYNAUD, 1982). A vinificação com a uva inteira tem sido nos últimos tempos, tema de estudos profundos. Atualmente, já se tem um melhor conhecimento dos fenômenos da maceração carbônica. Este trabalho tem como objetivo relatar o processo de maceração carbônica através de uma revisão bibliográfica e alguns relatos das tarefas realizadas na empresa Miolo - Fortaleza do Seival Vineyards, onde se empregou essa técnica nos vinhos da variedade Gamay na safra 2009, seguindo o conceito de “Beaujolais Nouveau”. A empresa está localizada no município de Candiota (Campanha Gaúcha), ao Sudeste do Rio Grande do Sul. A Campanha possui paisagem típica do pampa gaúcho, formada por campos situados em coxilhas, é uma região que tradicionalmente esteve ligada à exploração da pecuária, desponta agora também como uma das regiões vitivinícolas brasileira, produtora de vinhos finos. Caracteriza-se por estar em altitudes ao redor dos 300 metros, com uma viticultura localizada em coxilhas de baixa declividade, facilitando a mecanização dos vinhedos. A região apresenta clima temperado sub-úmido, possui verões relativamente quentes e secos em relação ao padrão climático do Rio Grande do Sul, diferenciando-a das demais regiões vitícolas brasileiras (www.sitedovinhobrasileiro.com.br). 4 1 Maceração carbônica 1.1 Metabolismo anaeróbio das bagas Genericamente, designam-se por metabolismo anaeróbio das bagas os fenômenos que se desenvolvem na uva inteira e não desengaçada, quando a vindima é colocada em condições de baixas concentrações de oxigênio (O2), sob a ação de enzimas endógenas. As condições de anaerobiose são freqüentemente obtidas por meio de dióxido de carbono (CO2), o que justifica o nome dado ao método de vinificação correspondente à maceração carbônica (CARDOSO, 2005). O metabolismo anaeróbio das bagas inteiras opera cada vez que a concentração de oxigênio diminui, tanto em atmosfera gasosa como em meio líquido, mas, no meio líquido, a intensidade dos fenômenos é diminuída. As uvas inteiras submergidas no mosto sofrem um metabolismo anaeróbio menos marcado que as mesmas bagas colocadas em atmosfera de dióxido de carbono. A intensidade deste metabolismo também depende da variedade da uva, das condições da safra, da temperatura e do tempo de duração do processo (FLANZY, 2000). O metabolismo anaeróbio das bagas traduz-se em diversas sínteses e degradações, bem como os fenômenos de difusão (CARDOSO, 2005). Verifica-se nomeadamente: -Absorção e emissão de CO2; -Formação de etanol; -Degradação parcial do ácido málico; -Alteração das substâncias nitrogenadas; -Modificação das paredes celulares; -Difusão dos polifenóis para as células da polpa. 1.2 Absorção e emissão de CO2 Durante as primeiras horas que seguem a maceração, há uma absorção de dióxido de carbono pelos tecidos da baga, transformando-os em diferentes substratos. O CO2 quando dissolvido no meio, faz com que haja uma modificação das vias metabólicas no interior da 5 baga, onde o fruto passa de um metabolismo respiratório para um metabolismo fermentativo. O volume de gás carbônico dissoluto na baga depende da temperatura (Tabela 1) com relação ao volume da baga (FLANZY, 2000). Tabela 1: Dissolução do CO2 Temp. (ºC) Dissolução 35 10% 20 30% 15 50% Simultaneamente, o metabolismo da baga libera dióxido de carbono que progressivamente vai equilibrar a quantidade fixada. Com o tanque fechado o equilíbrio se estabelece em 6 horas a 35°C, em 24 horas a 25°C e, em 3 dias a 15°C (FLANZY, 2000). A concentração inicial de dióxido de carbono determina a intensidade dos fenômenos de maceração anaeróbia, onde se exige no máximo 10% de concentração de oxigênio presente no tanque. O que implica em fazer uma remoção prévia do oxigênio com CO2 antes do preenchimento do tanque com as uvas. O desempenho do metabolismo anaeróbio pode variar de 20% a 100%, segundo a concentração de O2 no tanque (CARDOSO, 2005). 1.3 Formação de etanol Segundo Ribéreau-Gayon (2003), a aptidão das bagas para a produção de etanol é sempre escassa, varia de 0,44 a 2,29% do volume em álcool, de acordo com a variedade de uva. A velocidade e o limite da formação de etanol dependem da temperatura. Com a temperatura elevada, o máximo de formação se alcança com maior rapidez, porém em menor quantidade. A temperatura é um fator essencial da intensidade do metabolismo anaeróbio. O rendimento da transformação de açúcar em etanol não é fácil de determinar. Admite-se que seja semelhante ao da levedura, pode-se dizer que 18,5 g de açúcar para 1% do volume em etanol. Simultaneamente aparecem diferentes produtos secundários: 1,45 a 2,42 g.L-1 de glicerol, 21 a 46 mg.L-1 de etanal, aproximadamente 300mg.L-1 de ácido succínico, 40 a 60 mg.L-1 de ácido acético. A presença de todos esses compostos parece indicar um mecanismo similar ao da levedura na fermentação alcoólica. Porém a fermentação 6 gliceropirúvica é mais intensa na maceração carbônica, porque o metabolismo anaeróbio das bagas conduz a uma diminuição significativa de ATP e ADP, moléculas responsáveis por transferências de energia nos sistemas biológicos das bagas, quando essa capacidade de gerar energia é limitada, assim como na fermentação alcóolica, a regeneração de energia é feita por essa via metabólica, a fermentação gliceropirúvica. 1.4 Degradação parcial do ácido málico A diminuição do ácido málico é uma das mais importantes transformações que ocorre durante a maceração carbônica. A acidez do mosto e, mais tarde, do vinho, é fortemente diminuída devido a um consumo de aproximadamente 50% do ácido málico. Assim como a formação de etanol, a degradação do ácido málico está diretamente ligada com a temperatura, que regula a velocidade e o limite do fenômeno (BLOUIN et al., 2006). Esta transformação compreende em uma dupla descarboxilação com produção de etanol motivada pela intervenção de duas enzimas, a enzima málica e a álcool desidrogenase, consideradas como marcadores do metabolismo anaeróbio. A enzima málica entra em atividade máxima no terceiro e quarto dia de anaerobiose a 35°C e nesse mesmo período se observa uma inatividade progressiva da álcool desidrogenase, ligada provavelmente a produção de etanol (FLANZY, 2000). Figura 1: Degradação do ácido málico na baga da uva em anaerobiose (Fonte: Ribéreau-Gayon et al., 2006) 7 1.5 Alteração das substâncias nitrogenadas Durante os primeiros dias de maceração carbônica o teor de nitrogênio amoniacal diminui fortemente e o nitrogênio aminoacídico aumenta ligeiramente de 50 a 100 mg.L-1 devido à solubilização de alguns aminoácidos das partes sólidas da uva (RIBÉREAUGAYON et al., 2003). 1.6 Modificação das paredes celulares Com a maceração carbônica o teor de polissacarídeos pécticos e polissacarídeos neutros diminuem. Essa diminuição do teor de polissacarídeos deve-se à modificação sofrida pelas paredes celulares, com a perda da resistência mecânica. Essa perda da resistência mecânica se origina de uma desorganização das paredes celulares, com a hidrólise da pectina e um aumento do álcool metílico (CARDOSO, 2005). 1.7 Modificação dos polifenóis para as células da polpa A polpa, que é incolor na maioria dos casos das uvas tintas, na etapa de maceração carbônica, a parte interna da baga adquire progressivamente coloração tinta, resultante da migração das antocianas para as células da polpa da uva. Pelo mesmo processo, se difundem também os taninos, embora, em menor quantidade que as antocianas, o que indica que a maceração carbônica favorece uma extração das substâncias fenólicas da película em geral, com menor peso relativo para os taninos (CARDOSO, 2005). 8 2 Fatores que influenciam o metabolismo anaeróbio 2.1 Integridade das bagas Somente as bagas inteiras são sedes do metabolismo anaeróbio, por isso a intensidade do fenômeno depende diretamente da proporção das bagas inteiras e, inversamente, das bagas esmagadas. Além disso, ao aumentar a proporção das uvas esmagadas, aumenta também o volume de mosto gota no tanque, no qual estão mergulhadas uvas inteiras em maior ou menor quantidade. Essas bagas inteiras imersas no líquido realizam, também, o metabolismo anaeróbio, mas, numa intensidade muito reduzida em comparação com as que se encontram fora da fase líquida. Por tudo isso, deve-se assegurar ao máximo a integridade das uvas, como única forma de assegurar um metabolismo anaeróbio eficaz (CARDOSO, 2005). 2.2 Nível de hipóxia Teoricamente, uma fermentação alcoólica produz aproximadamente 50hL de gás carbônico para 1 hL de mosto com 200 g.L-1 de açúcar. Pode-se utilizar certo volume de mosto no fundo do tanque de maceração carbônica a fim de evitar ainda mais o aplastamento da uva, e também, para acelerar o arranque da fermentação aumentando o nível de hipóxia pelas leveduras. Como a saturação do meio em CO2 acelera o processo de maceração carbônica, tendo em conta a capacidade de absorção deste gás pela uva. Convém manter o aporte desse gás exógeno até o desprendimento endógeno de dióxido de carbono pelas bagas emergidas e pelo mosto em fermentação no fundo do tanque. Pode-se controlar o nível de hipóxia mediante um simples teste da chama de vela. Em ausência de oxigênio a chama apaga (FLANZY, 2000). Se ocorrer uma ausência desta “capa protetora” na superfície do tanque, pode se desenvolver uma proliferação de Acetobacter nas uvas que se encontram na parte superior do tanque. Convém, então, ficar atento a fermentações com baixas temperaturas e com o lento arranque de fermentação do mosto (FLANZY, 2000). 9 2.3 Temperatura Para ter uma eficácia plena, o metabolismo anaeróbio deve ocorrer em uma temperatura relativamente elevada, entre 30 e 35°C. Com esses valores, a degradação do ácido málico, a formação de etanol e a difusão dos polifenóis da película para a polpa se encontram mais favoráveis (CARDOSO, 2005). Não se pode superar uma temperatura da ordem de 35°C. A partir desta temperatura, o metabolismo encontra-se afetado. Pode-se considerar que uma maceração durante 6 a 8 dias a uma temperatura de 30 a 32 °C constitui uma boa solução caso a temperatura não seja suficientemente elevada, pode-se compensar o tempo. Por exemplo, 10 dias a 25°C, em 15 dias a 15°C. Mas, nem sempre o resultado é satisfatório, pois uma temperatura insuficiente é um fator limitante. Em caso de regiões frias, se aconselha esquentar a vindima ou o mosto que fica no fundo do tanque, mas nem sempre se obtém homogeneidade, pois, a vindima se encontra inteira (RIBÉREAU-GAYON et al., 2006). 2.4 Tempo de maceração A duração da maceração depende de diversos fatores já citados anteriormente, particularmente da ação da temperatura ser conjugada com a do tempo. Considera-se geralmente, o tempo de maceração de 1 a 2 semanas, em função da característica do vinho pretendido. O momento da descuba pode ser fixado pela ausência de desprendimento de gás carbônico, pela densidade do mosto que se encontra no fundo do tanque (entre 1000 g.cm3 e 1010 g.cm3), pela sua cor, por degustação ou por um aumento significativo da acidez volátil (BLOUIN et al., 2006). 10 3 Desenvolvimento anaeróbio de leveduras e bactérias láticas Na primeira etapa de maceração carbônica, os mostos, geralmente, são muito fermentescíveis. Esse aumento deve-se ao fato das modificações das substâncias nitrogenadas e da difusão dos constituintes da pruína (ácido oléico e oleanólico) que favorecem o ambiente, pois são ativadores de fermentação, levando a um acréscimo das células de levedura. Esse crescimento favorável dos microorganismos também se dá ao aporte contínuo de mosto procedente das bagas aplastadas no fundo do tanque (CARDOSO, 2005). Durante a segunda etapa de fermentação, as leveduras e bactérias láticas encontram no mosto prensa um meio rico em açúcares e nitrogênio assimilável. As doses empregadas de anidrido sulfuroso são baixas ou quase nulas, favorece o crescimento microbiano explicando a rapidez das fermentações em anaerobiose e, tem como conseqüência, a estabilidade biológica precoce dos vinhos. Por outro lado, a concorrência no meio de leveduras e bactérias pode ser intensa e necessita de uma boa supervisão da acidez volátil (FLANZY, 2000). Uma regra essencial para esse tipo de vinificação é evitar a sobreposição das fermentações alcoólica e malolática. Às vezes é preferível sulfitar a vindima fresca, mesmo que a homogeneização não seja perfeita (RIBÉREAU-GAYON et al., 2003). 11 4 Condução de vinificação do vinho com maceração carbônica 4.1 Colheita e transporte da uva De acordo com Flanzy (2000), a integridade das bagas deve ser mantida para se obter o máximo do benefício da maceração carbônica. As lesões no fruto facilitam as atividades das leveduras e não favorecem a ação do sistema enzimático da baga. Nesse caso, alteram a característica buscada no vinho. Como a exigência de bagas intactas é elevada, a alternativa de colheita e transporte da uva se reduz a utilização de colheita manual e transportes em caixas. A colheita da uva Gamay na empresa Fortaleza do Seival Vineyards teve início no dia 3 de fevereiro de 2009, e a duração total da colheita para a variedade Gamay, nessa safra, foi de aproximadamente 15 dias, num total de 70.000 kg, com teor alcoólico provável de 12,012,5% vol. A colheita manual foi feita de maneira cuidadosa para evitar possíveis esmagamentos. Foram eliminados no vinhedo os cachos botritizados e com estado de maturação inferior ao desejado pela empresa. Toda vindima foi transportada em caixas plásticas, perfuradas, de 20 kg de uva. Logo após a colheita, as caixas foram transportadas diretamente à cantina, onde se deu início a primeira etapa da maceração carbônica. 4.2 Dispositivos e recipientes de maceração A abertura superior do tanque deve ser suficientemente ampla para facilitar o enchimento. A altura do tanque deve ser reduzida para evitar o esmagamento excessivo das camadas inferiores de uva e o fundo deve ser inclinado para facilitar a descuba no fim do período de maceração carbônica (CARDOSO, 2005). Na vinícola, foram utilizados tanques de aço inoxidável de capacidade de 10.000 kg com fundo inclinado e abertura superior ampla. 12 4.3 Saturação do depósito com CO2 Deve-se preencher o volume do tanque com CO2 antes da entrada da uva para reduzir ao mínimo possível o teor de O2. Depois do preenchimento do tanque, deve-se adicionar novamente CO2 e mantê-lo até 48h. Pode-se fazer o “teste da vela” para controle de saturação de dióxido de carbono, no fim dessas 48h, não é mais necessário à adição de CO2 exógeno, devido ao gás que se desprende da fermentação alcoólica, que é ativa no fundo do tanque (www.itvmidipyrenees.com). 4.4 Alimentação do depósito de maceração A melhor forma de alimentação do tanque é aquela que, minimiza os choques de altura e de queda da uva. No caso da Vinícola Fortaleza do Seival, o preenchimento do tanque foi feito manualmente, descarregando no recipiente, uma caixa por vez, delicadamente. Nesse momento, o tanque já se encontrava saturado com dióxido de carbono. Figura 2: Alimentação manual do tanque (Fonte: Carolina Pozzebon do Nascimento) 13 Quando já havia 500 kg de uva no recipiente, foi feita uma pulverização com 4L de solução de SO2 a 5%. Após, continuou-se o enchimento do tanque. Com isso, formou-se uma pirâmide na parte superior do mesmo (ângulo de Talude). Esse ângulo foi desmanchado cuidadosamente, para podermos colocar um pouco mais de quantidade de uva. Quando o tanque estava cheio, foi pulverizado mais 1L de SO2 da mesma solução sobre as uvas que ficaram na parte superior, totalizando 5L de solução de SO2 a 5%, para cada tanque de 10.000L. 4.5 Temperatura Segundo Cardoso (2005), a faixa de temperatura mais favorável para a maceração carbônica é de 30-32°C. Como nem sempre as uvas chegam à cantina a essa temperatura, é necessário recorrer a meios de aquecimento como, por exemplo, a circulação de água quente nas paredes internas do tanque. No entanto, esse sistema não é eficiente, dada à heterogeneidade da massa a aquecer. Outra possibilidade é vindimar na parte da tarde, na hora de mais calor, mas lembrando-se sempre que o próprio metabolismo anaeróbio e a fermentação do mosto gota provocam o aumento da temperatura necessária (www.vignevinsudouest.com). Não foi feito nenhum tipo de aquecimento da vindima na empresa, porque se usássemos uma faixa de temperatura mais alta, influenciaria na extração dos compostos fenólicos e também, teríamos perda aromática. Portanto, a média da temperatura inicial dos tanques com maceração carbônica foi de 25°C, finalizando com aproximadamente 30°C. Essa decisão foi devido ao tipo do produto pretendido: um vinho tinto leve, jovem e aromático. 4.6 Adição de levedura Como este tipo de prática enológica beneficia o desenvolvimento das leveduras, em função das modificações das substâncias nitrogenadas e da difusão dos constituintes da pruína 14 (RIBÉREAU-GAYON et al., 2003), a inoculação das leveduras selecionadas foi feito no momento em que o tanque ainda não se encontrava cheio, para não haver tempo de as leveduras autóctones se desenvolverem e começarem uma fermentação espontânea, já que o ambiente é favorável. Estas leveduras causam um aumento da acidez volátil ou aparecimento de alguns compostos aromáticos indesejáveis. Foi eleita a levedura comercial seca ativa do tipo Saccharomyces cerevisiae de nome comercial MAURIVIN B por suas características: geralmente produz acidez volátil inferior a 0,30 g.L-1, tem a capacidade de consumir até 56% de L-ácido málico e, produzem baixos níveis de aroma e sabor durante a fermentação, segundo dados do fabricante (www.maurivinyeast.com). A reidratação da levedura foi feita em água a 37°C, foi usada a dose de 20 mg.L-1, logo foram aclimatadas e adicionadas ao mosto, seguindo as recomendações do fabricante. Após a reidratação da levedura, foi feita a inoculação da mesma com uma remontagem na parte inferior do tanque por cinco minutos, onde já se encontrava um pouco de mosto. Essa foi a única remontagem feita durante todo o período de maceração. No período da remontagem, jamais retornamos o mosto por cima do tanque, pois favorece a desestruturação dos cachos, o que não é o objetivo do processo. Portanto, foi utilizada as duas válvulas que se encontram na parte inferior do tanque. 4.7 Controle e acompanhamento da maceração carbônica O controle e acompanhamento da maceração carbônica se fizeram através da coleta de amostra do mosto gota com a determinação da densidade, acidez volátil e análise sensorial, sendo essas, analisadas no laboratório duas vezes ao dia. Além da coleta do mosto gota, foi feito um exame visual dos cachos para acompanhar a evolução da descoloração das películas das bagas, que migram para a polpa, nesse caso, a retirada da amostra foi feita com o auxilio de um pescador. O período de maceração em anaerobiose durou entre 5 e 8 dias, variando de acordo com cada tanque, esse período foi suficiente para alcançar o perfil polifenólico do vinho, que se define nessa fase. Como se trata de um vinho leve, o foco não foi a extração dos compostos fenólicos. 15 A acidez volátil não ultrapassou em nenhum dos tanques 0,30 g.L-1 em ácido acético, o que foi positivo. Se esse valor ultrapassasse, seria necessário adicionar rapidamente SO2 como uma prática preventiva, para não ter um teor muito alto de acidez volátil posteriormente, lembrando que essa adição deveria ser feita somente na parte inferior do tanque, onde se encontra o líquido, através de uma remontagem em sistema fechado por cinco minutos, junto ao dosador de SO2. 4.8 Descuba e prensagem A escolha do momento da descuba se dá ao estilo de vinho buscado: maceração mais curta para vinhos leves e de consumo rápido e maceração longa para vinhos de guarda (CARDOSO, 2005). De acordo com Ribéreau-Gayon (2003), deve-se levar em conta a evolução da densidade, temperatura, evolução da cor e estrutura tânica, aroma e sabor do mosto e o estado de desestruturação celular da baga e a cor da polpa. A descuba e prensagem devem ser feitas de maneira cuidadosa, com emprego de prensas pneumáticas ou verticais, que não afetem a estrutura dos tecidos. Como há cachos inteiros a prensagem é mais demorada e o mosto prensa, nesse caso, é mais rico e desejável que o mosto gota. Deve-se manter uma relação prensa/gota o mais alto possível, e mesclá-los (gota e prensa) logo após a extração dos mesmos, para que juntos continuem a fermentação alcoólica e, após seu término, inicie a fermentação malolática. A única contra-indicação em fermentá-los juntos, seria de uma atividade bacteriana no mosto gota, com risco do aumento da acidez volátil, nesse caso, deve-se fermentar o mosto gota separadamente. Na Fortaleza do Seival, a descuba foi feita quando o mosto que se encontra no fundo do tanque atingiu densidade igual ou inferior a 1000 g.cm3. Como essa técnica requer uvas inteiras e não desengaçadas, o transporte entre o tanque e a prensa foi feito de uma maneira que minimize a fragmentação das massas. Utilizou-se uma prensa vertical hidráulica, com capacidade de 480L, da marca ENOVENETA, por ser pequena, é de fácil locomoção. 16 A prensa foi colocada em baixo do tanque, não necessitando do auxilio de bombas para o transporte tanque/prensa, fator que poderia influenciar na qualidade gustativa, contribuindo para um acréscimo de amargor, aromas herbáceos e de adstringência. Figura 3: Prensa Hidráulica (Fonte: www.enoveneta.it) O uso dessa prensa permitiu uma qualidade maior dos vinhos prensas, já que nesse caso o vinho prensa é o mais desejado. Se usássemos a prensa pneumática, o transporte seria uma problemática, basicamente porque é feita uma prensagem direta, ou seja, prensagem com a presença do engaço. Para isso seria necessário o emprego de bombas, fator que diminuiria a qualidade gustativa, com aumento de taninos verdes do engaço e da semente, além do acréscimo da turbidez. 4.9 Fermentação alcóolica e fermentação malolática Após a descuba e prensagem, o mosto gota e mosto prensa foram misturados logo em seguida para dar início à fermentação alcoólica. A fim de preservar aromas já extraídos da maceração e aqueles que iriam se formar durante a fermentação alcoólica, a fermentação foi feita em temperaturas entre 18-20 °C, a duração variou de 5 a 7 dias conforme cada tanque. 17 No fim da fermentação alcóolica, quando o vinho se encontrava com o açúcar residual inferior a 2,5 g.L-1 a fermentação malolática iniciou facilmente e foi completada em poucos dias. Após seu término, foi feita uma correção de SO2 e transportado até a sede da empresa que se situa em Bento Gonçalves, onde foi feito uma padronização, seguido de estabilização tartárica, filtração a terra, ajustes para o engarrafamento e filtração por membrana absoluta 0.65 micras, engarrafamento e por fim, sua comercialização. 18 5 Características dos vinhos com maceração carbônica Caracterizado por sua riqueza aromática e harmonia gustativa, os vinho de maceração carbônica podem proporcionar vinhos de guarda ou vinhos jovens, segundo a riqueza de polifenóis da uva e a natureza desses, sendo essas determinadas pela primeira etapa de fermentação-maceração (FLANZY, 2000). De maneira geral, esses vinhos possuem densidade, acidez fixa e taxa de compostos fenólicos inferiores comparados ao de uma vinificação clássica. Já a acidez volátil apresenta valores superiores comparado com a vinificação tradicional e também o acetato de isoamila (aroma de banana) e o benzaldeído (aroma de amêndoa) aparece em maior concentração, contribuindo para sua riqueza aromática (CARDOSO, 2005). Do ponto de vista organoléptico, o vinho elaborado na empresa, de acordo com a equipe de enólogos, apresentou as seguintes características, expostas no Quadro 1 e Tabelas 2. Quadro 1: Características sensoriais do vinho de maceração carbônica Visual: Límpido e de coloração vermelho violáceo de média intensidade. Olfativo: Aromas de caráter frutado, como framboesa, goiaba, amora e leve toque de banana. Gustativo: Médio corpo, suavidade em boca e retrogosto persistente. Tabela 2: Características físico-químicas do vinho no momento do engarrafamento Densidade: 0,9957 g.cm3 Extrato seco: 31,0g.L-1 Álcool: 12,39 % (Volume em Etanol) Extrato seco reduzido: 27,5 g.L-1 Acidez Total: 5,77 g.L-1 em ácido tartárico Relação álcool/extrato seco: 3,6 Acidez volátil: 0, 17 g.L-1em ácido acético Índice 420: 0,212 So2 Total: 0,071 g.L-1 Índice 520: 0,340 So2 livre: 0,020g.L-1 Índice 620: 0,071 pH: 3,58 Turbidez: 20,15 NTU( Unidade Nefelométrica de Turbidez) Açúcar residual: 4,49 g.L-1 O2: 0,85mg.L-1 19 As análises descritas na Tabela 1 foram realizadas no laboratório da Vinícola Miolo com sede em Bento Gonçalves. O álcool final do vinho responde ao álcool provável da uva no momento da colheita que apresentava um teor de 12,0 a 12,5%vol. Ideal para um vinho jovem que não requer estrutura polifenólica, esse teor contribuiu para o equilíbrio sensorial buscado pela empresa. O açúcar residual foi corrigido para 4,49 g.L-1, essa quantidade foi fixada pela equipe de enólogos e está diretamente relacionada a harmonia gustativa do vinho, onde essa quantidade de açúcar residual se obteve através de uma correção. Tratando-se de vinho de maceração carbônica, onde a acidez volátil pode chegar até 0,6 g.L-1 em ácido acético, nesse vinho, a concentração final foi 0,17g.L-1, como indica a Tabela 1. Esse resultado é satisfatório, mostrando que o controle de qualidade foi eficiente e o emprego da técnica, bem executado. 6 Considerações finais A maceração carbônica tem sido essencialmente utilizada para a elaboração de vinhos tintos jovens ou de guarda e roses. O fato de esses vinhos atingirem precocemente a estabilidade microbiológica, aliado às suas características organolépticas, faz com que esses vinhos possam ser comercializados num período curto (CARDOSO, 2005). Podem-se obter vinhos tintos e roses com maceração a temperatura mais baixa, sendo esses, de consumo rápido. No caso de macerações mais longas com temperaturas mais altas, vinhos destinados ao envelhecimento, também, podem entrar em cortes com vinhos de vinificação tradicionais para reforçar o aroma e proporcionar melhor harmonia gustativa (CARDOSO, 2005). As empresas, hoje em dia, correm para a obtenção de um vinho que responda a um mercado preciso e determinado. A característica desse vinho dependeu de um conjunto de fatores, no qual a qualidade da uva foi um elemento clássico. Esse potencial qualitativo já proveniente do vinhedo, foi otimizado ao máximo pela técnica empregada, e respondeu a um objetivo comercial fixado de lançar um vinho jovem, leve e frutado, que se identifique com o clima tropical brasileiro, portanto, um vinho tinto que deve ser bebido gelado. A temperatura ideal para seu consumo é de 10 a 12 °C. O resultado desse trabalho, o Gamay 2009 da Vinícola Miolo, já se encontra nas prateleiras do mercado. A comercialização do produto começou no início do mês de abril que, segundo Adriano Miolo, diretor-superintendente da Vinícola Miolo, a empresa decidiu investir no Gamay por tratar-se de um vinho com características muito especiais e que não é tão conhecido no Brasil. 21 7 Referências Bibliográficas BLOUIN, Jacques et al. Conocimento y Elaboracion del Vino, 4ª Ed. Madrid: Mundi Prensa, 2006. CARDOSO, António D. et al. Tecnologia dos Vinhos Tintos, 1ª Ed. Coimbra: Direção Geral de Agricultura da Beira Litoral, 2005. FLANZY, Claude et al. Enología: Fundamentos Científicos y Tecnológicos. Madrid: Mundi-Prensa, 2000. PEYNAUD, Émile. Conhecer e Trabalhar o Vinho. 1ª Ed. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1982. RIBÉREAU-GAYON, P.; Dubourdieu, D.; Donèche, B.; Lonvaud, A. Handbook of Enology: The microbiology of wine and vinifications. 2ª Ed. vol.1 England: John Wiley & Sons LTD, 2006. RIBÉREAU-GAYON, Pascal et al. Tratado de Enología : Microbiologia Del Vino, Vinificaciones. 1ª Ed. Vol. 1: Buenos Aires: Hemisfério Sur, 2003. Disponível em:<http://www.vignevin-sudouest.com/publications/fiches-pratiques/macerationcarbonique.php>. Acesso dia 19 mar. de 2009. Disponível em: < http://www.maurivinyeast.com/media/21.pdf >. Acesso dia 19 de mar. de 2009. Disponível em: < http://www.enoveneta.it/Produits/pressurage/pressurage >. Acesso dia 03 de abr. de 2009. 22 Disponível em: <http://www.miolo.com.br/site/PT/content/noticias/noticia.php>. Acesso dia 05 de abr. de 2009. Disponível em: <http://www.sitedovinhobrasileiro.com.br/mostra_a_vinicola.php?num=181>. Acesso dia 29 de abr. de 2009. 23