ÁREA TEMÁTICA: ST4 Classes, Desigualdades e Políticas Públicas
ORIGENS, DESTINOS E TRAJETÓRIAS DE CLASSE: UMA ANÁLISE DA MOBILIDADE SOCIAL EM 2
GERAÇÕES DE PORTUGUESES
RAMOS, Vasco
Doutorando no ICS-UL
Mestre em Sociologia pelo ISCTE-IUL
[email protected]
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Resumo
Diversos estudos demonstram a manutenção de elevados níveis de desigualdade na sociedade
portuguesa, com a situação da família de origem a influenciar fortemente a trajetória social dos
indivíduos. O objetivo central do estudo é analisar a mobilidade social, a partir da investigação
comparativa das trajetórias de classe social de portugueses nascidos em diferentes gerações. Parte-se
de uma perspetival teórica sobre as classes sociais, que as entende como um conjunto de agentes que
ocupam posições aproximadas, num sistema pluridimensional de desigualdades, e valoriza-se uma
perspetiva sobre o percurso de vida que reconhece a importância central dos constrangimentos
estruturais, mas salientando a necessidade de os analisar longitudinalmente. Usando dados do projeto
"Trajetórias familiares e redes sociais: a trajetória de vida numa perspetival intergeracional"
examinam-se comparativamente trajetórias de classe seguindo o percurso de vida. Utiliza-se uma
metodologia inovadora que recorre à análise sequencial procurando estabelecer uma relação entre
tempo histórico e mobilidade social. Comparam-se trajetórias de classe dos indivíduos em função das
suas origens de classe, visando relacionar mobilidade, geração e género. Conclui-se que a desigual
distribuição de recursos, materiais e escolares, continua a ser fulcral para a compreensão das
trajetórias de classe e de mobilidade social, embora se observem diferenças geracionais consideráveis
nos mecanismos de reprodução das desigualdades. A desigual distribuição das qualificações escolares,
em particular das mães, revela-se decisiva para compreender a mobilidade.
Abstract
Several studies have shown the maintenance of high levels of inequality in the Portuguese society,
with the situation of the family of origin strongly influencing the social trajectory of the individuals.
Taking as a backdrop the significant structural changes that frame Portuguese modernity, the central
objective of the study is to analyze social mobility, using a comparative investigation on the social
class trajectories of Portuguese men and women born in different generations. The starting point is a
theoretical perspective on the social classes. This perspective is combined with an outlook on the life
course that recognizes the central importance of the structural constraints, but points out the necessity
of analyzing those effects longitudinally. Using data from the “Family trajectories and social
networks: the life course in an intergenerational perspective" project, social class trajectories are
examined comparatively, following the life course of each individual. An innovative methodology is
used; it resorts to the sequential analysis of states, trying to establish a relation between historical time
and social mobility. Social class trajectories are compared based on class origins, aiming to
understand the relationship between mobility, gender, and generation. It is concluded that the unequal
distribution of resources, material and educational, remains central to understanding the trajectory of
class and social mobility. There are significant generational differences in the mechanisms through
which social inequality is reproduced. The unequal distribution of school qualifications, in particular
of mothers, is increasingly important to understand mobility.
Palavras-chave:
Classes Sociais; Mobilidade Social; Desigualdades Sociais; Trajectórias de Classe; Análise de
Sequências.
Keywords: Social
Class; Social Mobility: Social Inequality; Class Trajectories; Sequence Analysis
PAP0110
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1. Introdução
Tendo sido um conceito amplamente debatido e aprofundado teoricamente até meados dos anos 80 do século
XX, o conceito de classe social tem perdido a centralidade que teve outrora. A contestação mais vincada à
sua utilidade e vem de longe e tem origens diversas: teorias da sociedade pós-industrial (Nisbet, 1959; Bell,
1973); teorias dos valores pós-materialistas (Inglehart, 1997). Tendo sido rotulado de anacrónico e
ultrapassado pela modernização das sociedades, foi frequentemente substituído pelo conceito de “estrato” na
abordagem da desigualdade social. Essa posição é defendida em especial pelas teorias funcionalistas segundo
as quais, nas sociedades modernas, a noção de mobilidade social resulta dos princípios de igualdade de
oportunidades e da eliminação da reprodução mecânica das antigas ordens sociais e da desigualdade que lhes
era característica.
Autores de raiz (neo)funcionalista têm desenvolvido uma linha argumentativa contra a relevância das classes
sociais sustentada em argumentos de três ordens de razão: económica, cultural e política (Lipset et al.1994;
Pakulski e Waters, 1996; Clark e Lipset, 2001). A terciarização da economia teria contribuído para um
nivelamento das condições de vida nas sociedades contemporâneas, tornando as relações com a esfera
produtiva irrelevantes. Os estilos de vida definidos a partir de padrões identitários e orientados pela
preferência, opinião ou afinidade, teriam substituído a classe social e sua relação com a posição na esfera da
produção como aspeto essencial na diferenciação social. A nível cultural, a democratização do acesso à
cultura e à educação, e o desenvolvimento de uma cultura de massas teria eliminado expressões culturais
vincadamente classistas. A nível político também seria possível observar o fim das classes, patente no
decréscimo da votação de partidos marcadamente classistas como ainda na emergência de novos movimentos
sociais, potenciados pela tecnologia, frequentemente desterritorializados e afastados de reivindicações
redistributivas ou emancipatórias.
2. De volta ao conceito de classe social
Apesar dos importantes contributos que estes desenvolvimentos teóricos têm trazido à sociologia, existem
linhas de argumentação que continuam a defender a centralidade do conceito de classe social para a análise
das sociedades contemporâneas. Atkinson (2010) repara que algumas conceções de classe social utilizadas
são inadequadas, superficiais ou contraditórias e que, ao não encontrarem indícios fortes de uma mobilização
de classe, encontram aí um argumento que julgam suficientemente forte para darem as classes sociais como
moribundas. Paradoxalmente utilizam um argumento marxista: buscam a correspondência entre uma classe
em si (latente, formada na esfera económica) e uma classe para si (mobilizada e possuidora de uma
consciência política). Uma outra crítica que Atkinson (2010) aponta é que a obra de muitos dos teóricos da
modernidade (Beck, Giddens, Baumann) é essencialmente teórica, carecendo as suas hipóteses de cuidadosa
investigação empírica.
A denominada “viragem cultural” (Crompton, 2003) colocou uma ênfase exacerbada na relevância da
dimensão cultural da hereditariedade social, fundindo a hierarquia cultural com a desigualdade económica,
quase fazendo espelho de um anterior determinismo económico das teorias da reprodução social. Mesmo
quando o conceito de classe social é utilizado, as análises tomam com frequência um pendor culturalista
exacerbado, que tende a esvaziar a dimensão económica do conceito. A perceção da existência de outras
formas de diferenciação social não implica o desaparecimento das anteriores e o processo de
individualização não implica a morte da classe social mas antes alterações à forma como se manifesta
(Savage, 2000: xiii).
A abordagem de Bourdieu (1984, 1997) à temática das classes sociais e da mobilidade social constituiu um
importante desenvolvimento teórico-metodológico. Este autor privilegia a análise da trajectória social,
conceito que liga a posição atual na estrutura social com a origem social (familiar) e que caracteriza as
disposições e práticas assimiladas através da socialização, das condições originárias de existência e também
do percurso percorrido. Compreender as trajetórias sociais implica desenvolver um enfoque específico sobre
a evolução histórica do posicionamento dos indivíduos, dando atenção à posição que ocupam no espaço
social (em termos hierárquicos e de recursos disponíveis) e à sua origem social, pela importância que o
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domínio familiar desempenha tanto na transmissão de recursos como na formação de disposições,
expectativas, ambições, etc. (Montagner, 2007).
A conceção da estrutura social bourdiana rompe com a ideia de uma estrutura unidimensional e incorpora
três dimensões: a estrutura dos capitais em presença, o volume dos capitais e a sua evolução ao longo do
tempo. A conjugação destes elementos permite captar tanto os deslocamentos laterais como os horizontais,
na estrutura social. Esta forma de abordagem à estrutura social é um contributo importante para a
compreensão da mobilidade / recomposição da estrutura de classes, pois articula as transformações da
estrutura social, as pressões que são exercidas sobre os indivíduos e as suas respostas estratégicas, o peso
relativo dos seus recursos nos diferentes domínios da vida, não descurando a importância do enquadramento
institucional providenciado pelo Estado, pelo sistema de ensino, pelo sistema legislativo, entre outros
(Grácio, 1997).
A explicação da estrutura e funcionamento da sociedade implica o reconhecimento do papel do capital na sua
forma plural. Os dois eixos fundamentais de transmissão da desigualdade por via familiar são o eixo material
e o eixo cultural (Crompton, 2008). A transmissão do capital económico é mais linear e está
institucionalizada pelo direito hereditário e outros mecanismos legais. A transmissão por via cultural é mais
difusa e complexa, sendo a dimensão temporal variável determinante, na medida em que está
intrinsecamente relacionada com a socialização (Bourdieu, 1997). Na transmissão do capital cultural, a
transmissão do capital escolar é apenas a dimensão mais facilmente contabilizável. Sendo um recurso
relativamente escasso, de transmissão sinuosa, e crescentemente necessário à ocupação das posições
dominantes na sociedade, a transmissão deste capital marca fortemente as estratégias de reprodução e
conversão do capital.
3. De volta ao conceito de classe social
Os temas da estratificação, estrutura de classes e mobilidade social na sociedade portuguesa são temas que
vêm interessando a Sociologia portuguesa desde o seu início. Em particular nos anos 1980 e 1990, a análise
de classes sociais e mobilidade/recomposição da estrutura de classes conheceu uma elevada vitalidade e
produtividade tanto teórica como empírica com o contributo de autores procedentes de diversas escolas.
Autores procedentes do ISCTE desenvolveram uma tipologia de classes (designada por ACM) que tem sido
um instrumento popular na análise das classes sociais em Portugal na última vintena de anos, dispondo já de
considerável acumulação cognitiva e empírica em vários projetos de investigação (Machado et al., 2003). A
tipologia desenvolvida por estes autores procura conjugar uma perspetiva de inspiração (neo)marxista, a de
Wright, na medida em que valoriza a posse de propriedade, acrescida dos recursos organizacionais e das
qualificações profissionais, com uma perspetiva culturalista, a de Bourdieu, que valoriza a posse, volume e
composição dos capitais. Para estes autores é essencial a utilização do grupo doméstico de origem como
unidade de análise da classe e mobilidade social, reconhecendo-se assim o papel do mesmo nas trajetórias de
vida e nos modos de pensar e agir dos indivíduos. Em termos de resultados empíricos, num estudo
representativo da população portuguesa Machado e Costa (1998) observaram a existência de fluxos de
mobilidade e de reprodução consideráveis, bem como a existência de trajetórias sociais muito heterogéneas e
diferenciadas em termos de género.
No já mencionado estudo de Cabral (1998), o autor desenvolve uma análise inspirada em Goldthorpe e
observa a existência de fluxos de mobilidade intergeracional absoluta elevados, expectáveis face às
transformações sociopolíticas que marcaram a sociedade portuguesa. Segundo o autor, os nascidos entre o
final da década de 1940 e início da década de 1950 serão aqueles que terão tido maior probabilidade de
mobilidade social, beneficiando da modernização técnico-profissional da sociedade portuguesa a partir do
final da década de 1960 e da abertura política que se lhe seguiu. Essa mobilidade é geralmente ascendente,
embora se observem fortes sinais de reprodução junto ao topo (com reconversão de capital económico em
capital escolar), como também na base do esquema de classes. O volume de mobilidade intrageracional é
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também relativamente elevado e de sentido predominantemente ascendente, sendo os fatores mais
determinantes para tal a modernização tecnológica, bem como a abertura do sistema escolar.
O estudo da estrutura de classes sociais em Portugal realizado por Estanque e Mendes (1998), partindo de
uma perspetiva marxista, orientada pelo trabalho de Wright (1997) e pela tipologia W dos lugares de classe.
Salientando a importância das variáveis históricas e contextuais, nomeadamente a transição para a
democracia, a entrada na UE e uma rápida modernização económica, os autores consideram que existe uma
fragmentação e precarização da força de trabalho que se estende do sector industrial para o sector dos
serviços. A expansão do sector público e administrativo justifica que as camadas “médias” da população,
quadros técnicos e qualificados, se encontrem essencialmente no sector estatal. A pequena dimensão média
das empresas privadas, sua escassa modernização tecnológica e recurso a um modelo industrial de trabalho
intensivo, justifica o pouco peso dos quadros no sector privado.
Sendo o mercado de trabalho português dos mais feminizados da Europa, os autores notam que nas
categorias profissionais operárias existe menor feminização que em outras sociedades consideradas
desenvolvidas. Já nas posições mais qualificadas da estrutura de estratificação existe uma maior abertura ao
emprego feminino. O maior sucesso das mulheres na educação, ainda sem uma correspondência na ocupação
de cargos de chefia, terá impactos na recomposição da estrutura de classes portuguesa e será resultado de
uma lógica patriarcal que tende a encaminhar os filhos para o trabalho em idades mais precoces, reservando
a possibilidade de continuar os estudos para as mulheres.
Estes trabalhos relevam o impacto das alterações estruturais que a sociedade portuguesa sofreu na sua
(re)composição em termos de classes sociais. Essas alterações incluem: a evolução demográfica, marcada
pelo envelhecimento da população; o aumento da escolarização; a crescente urbanização e litorização da
população; a terciarização da atividade económica; o incremento do trabalho feminino; e transformações no
domínio da vida familiar. Como Estanque e Mendes (1999) salientam, esta é uma das áreas mais
problemáticas na análise da mobilidade social, uma vez que parte do que poderia ser considerado um fluxo
“ascendente” será certamente parte da mudança da própria estrutura social, com o esvaziamento de certos
grupos profissionais e frações de classe e o rápido crescimento de outros, sobretudo aqueles que necessitam
de qualificações escolares mais elevadas.
4.
Desenho da Pesquisa
4.1.
Dados
A pesquisa que realizámos visa analisar, em primeiro lugar, se existem diferenças nas trajetórias de classe de
portugueses nascidos em dois tempos históricos diferentes. Em segundo lugar, pretende saber em que medida
a origem de classe tem impacto sobre as trajetórias de classe social dos indivíduos. Em terceiro lugar,
pretendíamos saber se o impacto da classe social de origem nas trajetórias de classe de indivíduos é diferente
em diferentes contextos temporais. Por fim, visávamos aferir qual a importância do género, enquanto eixo
fundamental de diferenciação social, no impacto da origem da classe na trajetória de classe dos indivíduos.
Os dados que analisámos referem-se a uma amostra representativa de 1054 indivíduos, do sexo masculino e
feminino, pertencentes a duas coortes diferentes (nascidos entre 1950 e 1955; e entre 1970 e 1975)i. A coorte
que incorpora inquiridos nascidos entre 1950 e 1955 é aquela que viveu as enormes transformações sociais e
políticas que se seguiram à Revolução de 25 de Abril de 1974, tendo atingido a maioridade apenas
recentemente aquando desse acontecimento. A coorte mais jovem, englobando nascidos entre 1970 e 1975,
representa a população que cresceu já num país com regime democrático e entrou na vida adulta já após a
entrada de Portugal na União Europeia.
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4.2. Metodologia
A análise aproxima-se daquilo a que se convencionou denominar de “estudo longitudinal” pois analisa a
evolução ao longo do percurso de vida de uma característica particular dos mesmos indivíduos (Babbie,
1989), neste caso a classe social. No entanto, ao contrário dos estudos longitudinais, tradicionalmente
observacionais, neste caso trata-se de uma retrospetiva sobre a vida. Levámos em consideração o indicador
socioprofissional de classe desenvolvido por Almeida, Costa e Machado (ACM) (Costa et al. 2000;
Machado et al., 2003). O indicador socioprofissional de classe dos indivíduos é construído a partir das
variáveis “situação na profissão” e “profissão”. A articulação destes indicadores resulta, em termos
individuais, numa tipologia de classes sociais constituída por sete categorias: empresários, dirigentes e
profissionais liberais (EDL); profissionais técnicos e de enquadramento (PTE); trabalhadores independentes
(TI); agricultores independentes (AI); empregados executantes (EE); operários (OI); e assalariados agrícolas
(AA). Foi mantida a referência a situações em que não é possível construir um indicador individual de classe,
por não existir integração no mercado de trabalho que consideramos analiticamente relevantes.
Reconhecendo que o grupo doméstico de origem é uma instância central na mobilização e transmissão de
recursos, materiais e outros, o mesmo será tomado como unidade de análise da classe e da mobilidade social,
sendo esta igualmente operacionalizada com base nos indicadores socioprofissionais do grupo doméstico de
origem, segundo a proposta ACM. Neste caso, o procedimento tem a vantagem de não estabelecer uma
hierarquia de género na determinação da classe do grupo doméstico de origem, sendo utilizado um critério
que valoriza o tipo de capital dominante ou a conjugação de capitais entre os progenitores (Machado et al,
2003).
Para além do indicador de classe, a análise das trajetórias de classe será complementada recorrendo a uma
outra dimensão de diferenciação social, essencial para a compreensão das sociedades contemporâneas, o
capital escolar. O indicador socioeducacional permite captar um outro tipo de recursos que, pela sua
distribuição desigual, são passíveis de produzir efeitos específicos tanto nas representações, disposições e
sistemas classificatórios dos indivíduos como também nas suas práticas e estratégias (Costa, 1999).
4.3. Principais Hipóteses
Sucintamente elencamos algumas das hipóteses de trabalho subjacentes a esta análise. A primeira hipótese
estabelece que a classe social de origem mantém a sua influência na trajetória de classe dos indivíduos,
muito embora seja expectável que os processos de reconversão de capital, nomeadamente de capital
económico em capital cultural, mais especificamente escolar, produzam efeitos na forma como essa
influência se expressa.
A segunda hipótese será a da existência de padrões de mobilidade social diferenciados em cada geração. A
perspetiva intergeracional pretende perceber se houve alterações no nível de mobilidade social nas últimas
décadas, permitindo comparar o crescimento e vivência em períodos históricos diferenciados no percurso de
vida dos indivíduos. No nosso quadro teórico, é expectável que se encontrem diferenças entre as trajetórias
dos indivíduos de diferentes gerações. Será necessário estabelecer uma relação entre o tempo histórico e a
mobilidade social, em cada uma das gerações. A estratégia implica portanto a combinação de uma
abordagem macro social (ao colocar as trajetórias de vida num contexto social e geracional) com uma
abordagem micro (centrada nos percursos individuais), que nos permitirá observar o desenvolvimento de
trajetos diversificados.
Uma terceira hipótese acrescenta um eixo adicional que analisa a construção de diferentes trajetos de
mobilidade social ao longo da vida de homens e mulheres. O género será uma variável-chave para interpretar
a mobilidade social numa perspetiva geracional. É admissível que a entrada massiva das mulheres no
mercado de trabalho, a partir dos anos 60/70, bem como o aumento da escolarização, entre outros
fenómenos, tenham produzido alterações significativas na mobilidade social das mulheres.
8 de 17
5.
Resultados
5.1.
Tipos de Trajetórias
A trajetória de classe social é analisada tomando por referência o indicador socioprofissional de classe, ao
nível do indivíduo. A trajetória de classe social é observada empiricamente, acompanhando o percurso
socioprofissional dos indivíduos em cada ano da sua vida, entre os 18 e os 35 anos de idade.
Com base na posição de classe dos indivíduos, construímos uma matriz de distâncias entre as trajetórias de
classe, usando o optimal matching (Abbott e Tsay, 2000). Posteriormente, os dados foram agregados
utilizando através da análise de clusters (método de Ward).
0.8
0.6
0.4
0.0
0.2
0.4
0.6
Freq. (weighted n=80.55)
1.0
Traj. Domésticas
(7,4%)
2
0.2
0.8
Traj. EDL/TI/AI/AA
1
(17%)
0.0
Freq. (weighted n=197.94)
1.0
Figura 1 - Tipos de Trajetórias de Classe
a19 a20 a21 a22 a23 a24 a25 a26 a27 a28 a29 a30 a31 a32 a33 a34 a35 a36
a19 a20 a21 a22 a23 a24 a25 a26 a27 a28 a29 a30 a31 a32 a33 a34 a35 a36
Traj. PTE (15,2%)
Traj (31,2%)
0.8
0.6
0.4
Freq. (weighted n=447.75)
0.0
0.2
0.8
0.6
0.4
0.2
0.0
Freq. (weighted n=112.5)
1.0
4
1.0
3
a19 a20 a21 a22 a23 a24 a25 a26 a27 a28 a29 a30 a31 a32 a33 a34 a35 a36
a19 a20 a21 a22 a23 a24 a25 a26 a27 a28 a29 a30 a31 a32 a33 a34 a35 a36
Traj. EE (29,2%)
5
AA
1.0
AI
0.8
EE
Em estágio
0.6
OI
PTE
0.4
S/prof. - desemp.à procura
S/prof. - doméstico(a)
S/prof. - estudante
0.2
Freq. (weighted n=280.5)
EDL
S/prof. - invalidez
0.0
S/prof. - outros
S/prof. - reforma
a19 a20 a21 a22 a23 a24 a25 a26 a27 a28 a29 a30 a31 a32 a33 a34 a35 a36
S/prof. - serviço militar
TI
Fonte: Trajetórias Familiares e Redes Sociais, 2010
A figura 1 indica a proporção dos indivíduos que, em cada ano da sua vida entre os 18 e os 35 anos de idade,
ocupava cada uma das categorias do indicador socioprofissional de classe acrescida das condições de
doméstica, desemprego, à procura do primeiro emprego, estudante, militar, na reforma, invalidez, etc..
O primeiro tipo representa cerca de 17% dos casos. É um conjunto diversificado que agrupa, no final do
período considerado, diversas categorias de proprietários (empresários, dirigentes e liberais, trabalhadores
independentes ou agricultores independentes) e os assalariados agrícolas. No segundo tipo de trajectória, que
compreende 7,4% dos indivíduos, encontramos as mulheres domésticas. Na terceira trajectória (15,2% dos
casos) encontram-se os indivíduos que se tornaram profissionais técnicos e de enquadramento, transitando
para essa condição após longo período de escolarização, em geral não precedido por inserção no mercado de
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trabalho. As duas últimas trajetórias são marcadas por uma considerável estabilidade durante o período de
tempo considerado. O quarto grupo, o mais numeroso com 31,2% dos indivíduos, agrupa os operários
industriais. A quinta trajetória, que aglomera 29,2% dos casos, representa o grosso dos empregados
executantes. Embora a maioria já tenha essa posição à partida, cerca de 15% dos indivíduos nesta trajectória
estudaram até aos 19/20 anos.
5.2. Trajectórias de género e trajectória de geração
Como mostra a figura 2, as trajetórias de classe social diferem em função da geração e do género.
Começando pela dimensão geracional, na geração de 1950-1955, que entra na vida adulta e no mercado de
trabalho numa época em que o trabalho na agricultura está já em fortíssimo declínio, a trajectória do
operariado é a mais numerosa (34%), seguida da trajectória dos empregados executantes (26,4%). A
trajectória mais heterogénea em termos de composição, que aglomera proprietários, independentes e
assalariados agrícolas, aglomera perto de 1 em cada 5 inquiridos. A trajectória das domésticas ainda tem um
peso significativo (10,8%) suplantando inclusive o peso da trajectória dos profissionais técnicos e de
enquadramento (9,1%).
Comparando a geração de inquiridos nascidos entre 1950-1955 com a geração de 1970-1975, há um declínio
do peso relativo da trajectória que engrossa o operariado, agora substituída, em termos de importância, pela
trajectória dos empregados executantes (31,9%). O peso combinado do operariado e trabalho executante é
exatamente o mesmo (70,4%) nas duas gerações em análise. A trajectória dos profissionais técnicos e de
enquadramento é também significativamente mais numerosa (20,9%). Declinam, em termos de importância
na distribuição, as trajetórias dos EDL/TI/AI (14,6%) e sobretudo a trajectória do trabalho doméstico (4,1%).
Figura 2 - Tipos de trajetória de classe segundo a geração e o género
100%
90%
18,9%
26,4%
31,9%
36,0%
80%
70%
60%
34,0%
45,9%
28,5%
21,5%
50%
40%
9,1%
15,1%
30%
20,9%
15,1%
10,8%
12,3%
20%
10%
4,1%
19,7%
20,1%
14,6%
15,1%
0%
Ger. 1950-1955
Ger. 1970-1975
Tr. EDL/TI/AI
Tr. Doméstica
Homens
Tr. PTE
Tr.OI
Mulheres
Tr. EE
Fonte: Trajetórias Familiares e Redes Sociais, 2010
Este conjunto de alterações é em parte consequência da evolução da estrutura da economia portuguesa. A
partir dos anos 60 a estrutura económica vai atravessar um período de modernização. Para além do
desenvolvimento dos serviços, surgem vários polos de industrialização, que se irão desenvolver e disseminar
ainda em meados dos anos 70, aumentando substancialmente a oferta de postos de trabalho na indústria.
Simultaneamente ocorre um maciço êxodo rural com destino às zonas urbanas em torno de Lisboa e do Porto
ou ao estrangeiro. Esse contexto aplica-se à geração nascida em 1950-1955. A geração de 1970-1975 entra
no mercado de trabalho já em meados dos anos 90 do século XX, época de plena terciarização da economia,
com uma grande expansão do sector dos serviços, em que o acesso ao ensino superior e profissões técnicas e
qualificadas se começa a generalizar (Barreto, 1996; Machado et al.2003).
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A expansão da participação feminina no mercado de trabalho formal é outro facto que marca
significativamente o contexto histórico em que estas duas coortes chegam ao mercado de trabalho. Falamos
aqui, naturalmente, de trabalho assalariado, pois as mulheres sempre estiveram no trabalho agrícola, para
além de realizarem as tarefas domésticas. O aumento do número de mulheres ativas tem um forte impulso na
década de 1960, o que já se reflete na geração de nascidos entre 1950 e 1955. Essa expansão do
assalariamento feminino é alimentada inicialmente por mulheres jovens e solteiras que ocupam os lugares
vagos por homens que partiam para a Guerra Colonial ou que emigravam (Aboim, 2011). Se até esse tempo
tanto o casamento como, particularmente, o nascimento de filhos eram acontecimentos que retiravam as
mulheres do mercado de trabalho, sendo o retorno raro e difícil, a partir da década de 1960 as mulheres mais
frequentemente permanecem a trabalhar e assim desenvolvem carreiras longas no mercado de trabalho.
A forma como o mercado de trabalho se vai feminizar mostra-nos que tal não pode ser interpretado com
mero efeito mecânico (Cabral, 1998). Na comparação entre as duas gerações, a muito considerável
diminuição do número de mulheres que se tornam domésticas vai dar lugar a trajetórias de inserção
profissional e de qualificação escolar. As trajetórias femininas diferem substancialmente das trajetórias
masculinas e contribuem para uma composição sexual do mercado de trabalho muito diferenciada em termos
de género, como havia sido observado por Mendes e Estanque (1998).
Comparando as duas gerações, articulando género e geração (figura 3), as diferenças mais assinaláveis têm
que ver com o peso relativo da trajectória de maior qualificação escolar. De facto, na geração nascida entre
1950-1955 apenas 8,5% das mulheres seguiam esse trajeto, valor que se cifra em 21,2% na geração nascida
entre 1970-1975. Também cresce o número de mulheres que seguem uma trajectória de emprego executante
(de 33% passa para 38,8%), sendo esta a trajectória de classe mais comum entre as mulheres,
independentemente da geração.
A trajectória do operariado industrial continua a ser maioritária entre os homens na geração nascida entre
1970-1975 (41,7%) apesar do decréscimo face à primeira geração (50%). A diminuição da importância da
trajectória operária é menos sensível comparando mulheres das duas gerações (20,3% face a 22,9%).
Figura 3 - Tipos de trajetória de classe segundo a geração e o género
100%
90%
17,0%
20,9%
33,0%
80%
38,8%
70%
60%
50,0%
22,9%
41,7%
20,3%
50%
40%
30%
8,5%
9,9%
18,3%
20,4%
17,3%
17,0%
Mulheres
Homens
21,2%
20%
10%
6,7%
23,1%
13,0%
0%
Homens
Geração 1950-1955
Tr. EDL/TI/AI
Tr. Doméstica
Mulheres
Geração 1970-1975
Tr. PTE
Tr.OI
Tr. EE
Fonte: Trajetórias Familiares e Redes Sociais, 2010
Estes resultados parecem corroborar, pelo menos parcialmente, os de Machado e Costa (1998) que
identificaram dois canais de promoção/reprodução social com protagonistas diferentes: uma via mais
fechada, empresarial ou dirigente, tendencialmente menos qualificada e mais masculinizada; e uma via mais
aberta, assente na qualificação técnica ou especializada, progressivamente mais feminina.
O indicador socioprofissional familiar de classe (Almeida, Costa e Machado (1988) e Costa (1999), (Tabela
1), revelam diferenças geracionais, embora em ambas as gerações os inquiridos provenham maioritariamente
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de famílias de origem operária (respectivamente 29,6% e 29,8%). Observa-se um decréscimo acentuado do
peso dos assalariados agrícolas (de 12,8% passa para 3,6%) que é compensado pelo duplicar do peso da
pluriatividade e, em menor grau, pelo aumento da importância relativa dos empregados executantes. Os
empresários, dirigentes e profissionais liberais praticamente duplicam o seu peso na origem de classe dos
inquiridos da geração nascida entre 1970-1975 face à nascida entre 1950-1955 (12% e 6,2%).
Tabela 1 - Classe Social do Grupo Doméstico de Origem
Empresários, dirigentes e profissionais liberais (EDL)
Profissionais técnicos e de enquadramento (PTE)
Trabalhadores independentes (Ti)
Trabalhadores independentes pluriactivos (TIpl)
Agricultores Independentes (AI)
Agricultores Independentes pluriactivos (AIpl)
Empregados executantes (EE)
Operários (OI)
Assalariados agrícolas (AA)
Assalariados executantes pluriactivos (AEpl)
χ2 (9) =93,818; p < 0,001
Geração 1950-1955
(n=518)
6,2%
4%
7,8%
5,4%
16,6%
2,8%
7,8%
29,6%
12,8%
7%
Geração 1970-1975
(n=536)
12%
11,1%
8,2%
3,8%
6,5%
1,1%
9,6%
29,8%
3,6%
14,1%
Fonte: Trajetórias Familiares e Redes Sociais, 2010
O crescimento da origem de classe profissionais técnicos e de enquadramento é, em termos proporcionais,
muito significativo, representando esta categoria 11,1% da origem de classe dos nascidos entre 1970-1975,
quando para os nascidos entre 1950-1955 contabilizava apenas 4%. De salientar ainda a redução do peso dos
agricultores independentes, que somavam apenas 6,5% das origens de classe dos nascidos entre 1970 e 1975,
face aos 16,6% entre os que nasceram no período que vai de 1950 a 1955.
Não substituindo, nem suplantando as desigualdades de classe, os capitais escolares são um indicador
relevante para a compreensão dos processos de mobilidade social contemporâneos. São-no pela importância
crescente que as qualificações têm no mercado de trabalho e como, desse modo, influenciam a inserção
profissional dos progenitores. Mas são-no também pela forma como a sua presença no grupo doméstico é
passível de ser tanto um recurso mobilizável, por exemplo no apoio às tarefas escolares, como de fornecer
incentivo e valorização ao desempenho escolar.
Olhando para os dados é evidente que, independentemente da geração e do género dos progenitores, os
recursos escolares disponíveis nos agregados de origem são extremamente baixos. A esmagadora maioria
dos pais dos nascidos tanto na geração de 1950-1955 como na geração de 1970-1975 tem, no máximo, o 1º
ciclo do ensino básico, existindo um número considerável que não possui sequer qualquer escolaridade
formal, valor particularmente elevado entre as mães dos inquiridos nascidos na geração de 1950-1955
(46,5%).
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Tabela 2 - Escolaridade do Grupo Doméstico de Origem
Sem escolaridade
1º Ciclo do ensino básico
2º E 3º ciclo do ensino básico
Ensino Secundário
Ensino Superior
Número médio de anos de escolaridade
Desvio-padrão
Ger. 1950-1955
Ger. 1970-1975
Pai
Mãe
Pai
Mãe
(n=494) (n=499) (n=516) (n=526)
33,6%
46,5%
10,3%
12,5%
58,5%
48,7%
67,4%
67,7%
2,2%
1,2%
3,9%
3,4%
3,8%
3,0%
14,1%
10,6%
1,8%
0,6%
4,3%
5,7%
2,8
2,1
4,9
4,6
3,0
2,6
3,7
3,7
Fonte: Trajetórias Familiares e Redes Sociais, 2010
Os progenitores dos nascidos entre 1970 e 1975 têm, na sua grande maioria, o 1º ciclo do ensino básico, o
que correspondia à escolaridade obrigatória à época, correspondendo esse grau a apenas 4 anos de
escolaridade. Embora em comparação com os pais dos nascidos na geração de 1950-1955 se observe a
existência de mais indivíduos com famílias de origem com maiores recursos qualificacionais, ao nível do
ensino secundário ou superior, estes não representam mais que 18,4% no caso dos pais e 16,3% no caso das
mães. Observa-se ainda a existência de maior volume de capital escolar nos pais do que nas mães. Estamos
pois perante duas gerações marcadas por uma aguda escassez de qualificações escolares e também por uma
enorme desigualdade na sua distribuição.
5.3.
Importância da Origem Social na Trajetória de Classe
No sentido de perceber a natureza da relação entre a origem social e a trajetória de classe realizámos um
conjunto de regressões logísticas entre a classe social do grupo doméstico de origem e a trajectória de classe
entre os 18 e os 35 anos de idade. Foram incluídas nos modelos de regressão outras variáveis independentes
que, pelo exposto anteriormente, podem contribuir para uma melhor compreensão da mobilidade social
(coorte/geração, género, indicador socioeducacional de cada um dos progenitores).ii Os resultados são
apresentados na tabela 3, com recurso a odds ratio e significâncias associadas, para além da explicação
global do modelo.
É relativamente à trajectória dos operários industriais que o modelo explicativo se revela mais eficiente
(Nagelkerke = 0,293). Olhando para os efeitos significativos constatamos que esta é uma trajectória
essencialmente masculina, marcada por uma forte reprodução da origem social e para a qual contribui o
baixo capital escolar de ambos os pais, muito em particular o das mães.
O modelo também revela boas potencialidades explicativas relativamente à trajectória dos profissionais e
técnicos de enquadramento (Nagelkerke = 0,286). Neste caso, os efeitos significativos sugerem que mais que
mera reprodução da condição de origem, esta trajectória é influenciada positivamente por qualificações
acima da média de ambos os pais. Naturalmente que os efeitos da abertura do acesso ao ensino superior se
fazem sentir e por isso é uma trajectória mais característica da geração de 1970-1975. Mas confirma-se,
como já anteriormente havia sido sugerido, ser esta uma trajectória que os descendentes de operários, de
independentes ou assalariados executantes em pluriatividade têm baixas probabilidades de seguir, em
comparação com outras categorias sociais.
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Tabela 3 - Preditores das trajetórias de classe
Regressão logísitca (odds ratios)
Capital escolar pai (anos
escolaridade)
Capital escolar mãe (anos
escolaridade)
Género Masculino a
Geração 1950-1955 b
Classe Origem - EDL c
Classe Origem – PTE c
Classe Origem – TI c
Classe Origem – Tl (pluriactivos) c
Classe Origem – AI c
Classe Origem – Al (pluriactivos) c
Classe Origem – OI c
Classe Origem – AA c
Classe Origem – AE (pluriactivos) c
Traj OI
Traj. PTE
Traj Doméstica
Traj EE
0,908*
1,136**
1,085
0,964
Traj EDL /
TI
0,983
0,815***
1,136**
0,826*
1,082*
0,973
4,259***
0,772
-
1,388
0,818
0,718
0,689
0,423*
2,185
0,636
0,501
2,360**
0,72
1,575
0,621*
0,741
0,525
1,56
0,164*
0,39
0,804
0,383**
0,255**
1,798*
1,396
0,506
1,238
1,704
2,386
3,233
0,816
3,807*
1,758
0,422**
*
0,918
0,692
0,588
0,877
0,952
0,716
0,426
0,634
0,775
1,264
1,125
2,164
1,754
1,606
1,048
2,420*
2,655
1,207
1,839
0,676
0,114
0,072
0,047
0.293
0,286
Nagelkerke
a
A categoria de referência para comparação é “Feminino”;
b
A categoria de referência para comparação é “Geração 1970-1975”;
c
A categoria de referência para comparação é “EE”
*p <0,05; **p < 0,01; ***p < 0,001
Em relação à trajetória das domésticas, o modelo tem um Nagelkerke de 0,114. Esta é uma trajetória
sobretudo de mulheres descendentes de famílias em que havia assalariamento na agricultura, mais provável
na geração de 1950-1955 do que na geração posterior. É importante notar que também neste caso a baixa
escolaridade das mães contribuiu significativamente para que as filhas sigam esta trajetória.
O modelo explicativo revela-se menos eficaz, relativamente às restantes trajetórias. Ainda assim, é possível
dizer que trajetória dos empregados executantes (Nagelkerke = 0,072) é essencialmente feminina e é também
influenciada (positivamente) pela escolaridade das mães. Por fim, relativamente à trajetória dos EDL/TI/AI
(Nagelkerke = 0,047), o único efeito significativo diz respeito aos descendentes de agricultores
independentes, que têm maior probabilidade de seguir esta trajetória do que qualquer outro grupo. Em
relação a esta trajetória, o menor potencial explicativo do modelo será, entre outros fatores, resultante da sua
própria heterogeneidade.
6. Notas conclusivas
Observou-se a existência de padrões de mobilidade social diferenciados em cada geração, muito embora se
encontrem semelhanças nas trajetórias identificadas, em termos da sequência de lugares de classe
sucessivamente ocupados. As diferenças são patentes nas mudanças da importância relativa de cada tipo de
trajetória, tanto em termos de geração como em função do género.
Na geração de nascidos entre 1970 e 1975, observa-se uma redução substancial da trajetória do trabalho
doméstico feminino e uma diminuição do acesso a trajetórias no operariado. A trajetória operária é
suplantada, enquanto a mais frequente, pela do emprego executante. O crescimento do trabalho executante é
alimentado sobretudo pelas mulheres. Mas, apesar da mutação da sua importância relativa, as trajetórias
correspondentes a profissões com acesso a menos recursos materiais e destituídas de recursos de autoridade
continuam a representar mais de dois terços do total.
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Na última geração verificou-se também um crescimento substantivo das trajetórias que dão acesso a posições
mais qualificadas. Embora o seu crescimento possa ser relacionado com alterações estruturais no próprio
sistema de ensino superior, também neste caso são as mulheres que protagonizam as diferenças mais
significativas. De facto, na geração de nascidos entre 1970 e 1975, as mulheres suplantam os homens no
acesso à trajetória mais qualificante, ainda que a diferença seja marginal. Já a trajetória de empresários,
dirigentes e independentes mantém-se dominada pelos homens. O seu decréscimo da primeira para a segunda
geração parece ser resultante da heterogeneidade deste grupo, uma vez que também incluí os proprietários e
trabalhadores agrícolas, frações que se foram rapidamente esvaziando. A compreensão exata desta trajetória
implicará uma análise mais detalhada.
Sendo certo que a inserção profissional, ponto de acesso ao indicador socioprofissional de classe social, é
determinante para as trajetórias, parece evidente que o mecanismo de reprodução das desigualdades opera a
montante da mesma. Salientam-se diversas observações no que diz respeito ao efeito da classe social de
origem nas trajetórias. Em ambas as gerações, predominam grupos domésticos com escassos recursos
materiais, essencialmente com origem no operariado e em situações de assalariamento em pluriativade. O
número de famílias de origem que dependem do trabalho independente é relativamente baixo e é
praticamente idêntico nas duas gerações. Na geração nascida em meados dos anos 70 existe um maior
número de grupos domésticos com raiz no empresariado e em famílias de quadros. Apesar de existirem mais
famílias de origem de quadros as qualificações escolares são extremamente baixas em ambas as gerações.
São também desigualmente distribuídas em termos de género, com privilégio para os homens.
A desigual distribuição de recursos, materiais e escolares, é essencial para a compreensão das trajetórias de
classe e da mobilidade social, muito embora se observem diferenças geracionais consideráveis nos
mecanismos de reprodução das desigualdades. No caso dos descendentes de famílias de quadros, a norma é a
reprodução da classe social, através de trajetórias de qualificação. Mas em relação aos oriundos de famílias
de empresários e dirigentes a situação é diversa. Se na primeira geração analisada tendiam a reproduzir essa
condição na trajetória de classe, na segunda geração os dados mostram o predomínio do acesso a posições
mais qualificadas. Este facto pode ser indiciador de que o acesso a profissões qualificadas se foi tornando
mais importante para manutenção e exercício de posições de autoridade.
Entre os oriundos em grupos sociais com menores recursos, também se observam fluxos de mobilidade pela
via da qualificação. Tal ocorre essencialmente entre aqueles que provêm de famílias onde predomina o
trabalho executante, em casos onde existe alguma acumulação de capital cultural. Pelo contrário, é entre os
descendentes de operários que, com maior probabilidade, se observam trajetórias que conduzem à
reprodução da situação dos pais, sobretudo no caso dos homens.
Este conjunto de resultados, em particular a diferença observada no acesso à trajetória de maior qualificação
e acesso ao emprego técnico, confirmam que a uma igualdade teórica no acesso não corresponde,
maquinalmente, uma “igualdade de oportunidades”. As profissões mais qualificadas, que sempre gozaram de
prestígio social, passaram a fazer parte das aspirações e anseios de mobilidade dos progenitores e dos seus
investimentos, materiais e outros, na educação dos filhos, sobretudo a partir do momento em que se tornaram
relativamente mais acessíveis por via da expansão do ensino superior. Mas a verdade é que as substanciais
diferenças no ponto de partida, em termos de classe social, tanto em termos de recursos materiais como
educacionais, continuam a ser decisivas para explicar as trajetórias de classe. Um dos resultados substantivos
mais relevantes desta investigação diz respeito à importância das qualificações escolares das mães nas
trajetórias dos descendentes, que têm maior impacto que o nível qualificacional dos pais. Em comparação
com o nível médio, quanto mais baixas as qualificações das mães mais verosímil a possibilidade dos
descendentes seguirem trajetórias no operariado ou serem domésticas. Se é verdade que os investimentos
pedagógicos dos ascendentes serão diferenciados em função do habitus de classe social (Lahire, 2004), as
diferenças na valorização das esferas do trabalho e da escola, manifestas em saídas precoces da escola para
ingressar no mercado de trabalho, corresponderão também a necessidades objetivas.
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i
O inquérito de âmbito nacional foi realizado em 2010 para o Projeto "Trajetórias familiares e redes sociais: a trajetória de vida numa
perspetiva intergeracional".
ii
No caso da trajetória das domésticas, o procedimento apenas incluí as mulheres. No modelo explicativo da trajectória dos
profissionais e técnicos de enquadramento não foi considerada a origem de classe em famílias de assalariados agrícolas, pois na
distribuição não existe nenhum caso em que descendentes de assalariados agrícolas tenham seguido trajetórias de profissionais
técnicos e de enquadramento.
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ÁREA TEMÁTICA: ST4 Classes, Desigualdades e Políticas