III SEMINÁRIO EM PROL DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Desafios Educacionais
IDENTIDADE SURDA: UMA PERCEPÇÃO EM MICHEL DE CERTEAU
CABRAL, Ana Cristina Bochnia1
SILVEIRA, Joicemara Severo2
PIN, Aline Keryn3
GT9: Inclusão: Cultura e Identidade
RESUMO
Este estudo é resultado de uma pesquisa, em que foi estimulada a reflexão
acerca da temática cultural do cotidiano, tendo como obra principal “A invenção
do cotidiano” do autor Michel de Certeau, uma das obras que contribuiu com as
discussões. Para o desenvolvimento da sociedade é necessário o
estabelecimento de relações entre as pessoas, desta forma a oralidade tornase indispensável, pois, sem a oralidade não existe comunicação em uma
comunidade. As trocas de experiências na sociedade são permeadas por estas
relações em todos os espaços sociais e até mesmo no meio midiático, logo o
trabalho objetiva analisar o desenvolvimento da pessoa surda que não faz uso
da linguagem oral, mas da comunicação por meio da língua de sinais que tem
como modalidade o visual-espacial, com uma gramática própria e diferente da
língua portuguesa na modalidade oral-auditiva. O visual é a forma que os
Surdos adquirem as experiências de mundo, portanto privá-los de tais
experiências os tornariam segregados dos contextos de relações sociais. Para
analisar este contexto foi realizada uma breve descrição da história cultural da
pessoa surda, para posteriormente abordar os elementos presentes nessa
cultura com os conceitos trabalhados por Certeau (1996) em relação à cultura
oral, o qual se referenciou como base da discussão sobre a linguagem de
sinais utilizada pela comunidade surda. Outro aspecto a ser abordado sãos os
artefatos culturais desenvolvidos pelo povo e comunidade surda, apresentados
por Strobel (2009), que se torna de grande valia para o desenvolvimento desse
trabalho. Assim, foi desenvolvida uma pesquisa bibliográfica proposta a refletir
sobre obras referentes à questão da linguagem, cultura surda e que discutam
a cultura popular constituída por meio da oralidade.
1
Mestranda em Ciências Sociais (Unioeste); Graduada em Ciências Sociais Licenciatura e Bacharel (Unioeste),
bolsista do “Projeto de apoio dos Laboratórios Multiusuários da Unioeste – Fase I”. Membro do Grupo de Pesquisa:
Educação, Cultura e Cidadania; Membro do Programa Institucional de Ações Relativo às Pessoas com Necessidades
Especiais (PEE/ Campus Toledo).
2
Especialista em Libras (Facinter); Especialista em Educação (Faculdade Dom Bosco); Agente Universitário
(Unioeste/Campus Toledo). Membro do Grupo de Pesquisa: Educação, Cultura e Cidadania; Membro do Programa
Institucional de Ações Relativo às Pessoas com Necessidades Especiais (PEE/ Campus Toledo). Membro do Grupo de
Pesquisa: Educação, Cultura e Cidadania.
3
Mestre em Educação (Unioeste), Graduada em Pedagogia (Unioeste); Servidor Público Federal (UFFS)”. Membro do
Grupo de Pesquisa: Educação, Cultura e Cidadania; Membro do Programa Institucional de Ações Relativo às Pessoas
com Necessidades Especiais (PEE/ Campus Toledo)
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Palavras-chave: Surdo; identidade; cotidiano.
INTRODUÇÃO
Este estudo apresenta uma reflexão acerca do cotidiano discutido na
obra “A invenção do cotidiano” do autor Michel de Certeau (1996). As
discussões presentes estarão baseadas no capítulo “Uma ciência prática do
singular” da referida obra. Tem o objetivo de relacionar a cultura e identidade
do sujeito surdo na perspectiva do cotidiano em relação à comunicação por
meio da oralidade, que no texto do autor é trabalhada como sendo
indispensável para o desenvolvimento social, contudo o surdo não se utiliza da
oralidade para sua comunicação e sim, do visual, pois comunica-se através da
língua de sinais, que possui gramática própria, desta forma o surdo não estará
incluso nesta sociedade oralista que o autor apresenta.
Será realizada uma breve descrição da história cultural da pessoa surda,
para posteriormente abordar os elementos presentes nessa cultura com os
conceitos estudados por Certeau (1996) em relação à cultura oral, o qual se
referencia para analisar a discussão sobre a linguagem de sinais utilizada pela
comunidade surda. Em outro aspecto destacam-se os artefatos culturais
desenvolvidos pelo povo e comunidade surda, apresentados por Strobel
(2009), que se torna de grande valia para o desenvolvimento desse trabalho.
OBJETIVO GERAL E ESPECÍFICO
Tem como objetivo geral relacionar a cultura e identidade do sujeito
surdo na perspectiva do cotidiano em relação à comunicação por meio da
oralidade.
METODOLOGIA DESENVOLVIMENTO
O trabalho foi desenvolvido por meio de pesquisas bibliográficas e
levantamento de dados onde se verificou a necessidade de elaborar esta
pesquisa para que se tenha consciência da realidade em que o surdo é
inserido.
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HISTÓRIA DO SUJEITO SURDO
A história da educação dos surdos no Brasil é iniciada com a vinda de
Dom Pedro II para o país, que convidou o professor francês Ernersto Hüet, que
utilizava o método de sinais para ensinar crianças surdas. Hüet foi designado a
ensinar os filhos surdos de famílias abastardas aqui no Brasil.
Em 26 de setembro de 1857, Ernersto Hüet funda o atual Instituto
Nacional de Educação de surdos, INES, no Rio de Janeiro. Os ensinamentos
que o professor trouxe para o Brasil foram os primeiros contatos com a língua
de sinais Francesa, oportunizando assim, o desenvolvimento do povo surdo
brasileiro. A partir de tal marco, com a aquisição da língua de sinais os surdos
vêm conquistando seu espaço perante a sociedade.
Houve um período muito conturbado para a educação dos surdos, que
ocorreu após o Congresso de Milão, em 1880 realizado em Milão, na Itália,
com o objetivo de discutir a importância de três diferentes métodos, a língua de
sinais, o oralista e a mista (língua de sinais e oral/comunicação total). Como
resposta destas discussões a língua de sinais foi proibida, esta determinação
durou mais de cem anos, contudo a língua de sinais permaneceu viva na
mente dos povos surdos que mesmo com a proibição utilizavam-se da Libras,
de forma escondida, para trocar informações em suas rodas de conversa.
Na década de 1970, chega ao Brasil a Comunicação Total, um pequeno
avanço para o povo surdo. Na década seguinte, por meio de pesquisas
realizadas por Lucinda Ferreira Brito sobre a língua Brasileira de Sinais
(LIBRAS) começa a ganhar força no país a partir da proposta do bilinguismo,
que considera a língua de sinais como língua materna ao sujeito surdo e como
segunda língua o português em sua forma escrita.
A língua de sinais mesmo sendo considerada natural ao surdo ainda é
considerada por algumas pessoas como simples gestos simbólicos ou medida
alternativa para comunicação entre surdos que não conseguiram desenvolver a
fala. Entretanto, hoje de acordo com a Lei 10.436 de 24 de Abril de 2002 a
língua de sinais recebe seu reconhecimento sendo oficializada como segunda
língua no Brasil.
Para Fernandes (2002) o bilinguismo é uma possibilidade de integrar o
surdo ao meio sociocultural, a que surdos e ouvintes naturalmente pertencem.
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Para a autora, educar com o bilinguismo é garantir ao individuo processos
naturais de desenvolvimento por meio da língua.
É preciso compreender que a conquista do bilinguismo ou língua de
sinais significou um grande avanço no processo educacional da pessoa surda.
Nós vivemos em uma sociedade onde a língua oral impera e qualquer outra
forma de comunicação é considerada inferior e impossível de ser comparada
com as línguas orais. O detrimento da língua de sinais em relação à língua oral
pode causar um retrocesso neste processo.
Levando-se em consideração que a oralidade continua sendo foco dos
equipamentos sociais que atendem os surdos a preocupação central da
comunidade ouvinte é o desenvolvimento da percepção auditiva, o uso do
aparelho auditivo e o treino da fala, sendo assim, a língua de sinais é por vezes
não valorizada e o sujeito surdo acaba sendo segregado da sociedade por não
conseguir manter uma comunicação oral, o que acaba por mascarar o
preconceito e padronização social, torna-se aceito o que está dentro dos
padrões ditos “normais”. Wrigley (1996, p.71, apud QUADROS, 2007, p.24)
destaca esta ideia no momento em que revela o pensamento do grupo
dominante sobre os oprimidos:
(...) surdos são pessoas que ouvem com ouvidos defeituosos.
Se pudéssemos consertar os ouvidos, eles estariam ouvindo.
Esta lógica comum na verdade é comum, mas não
necessariamente lógica. Os negros são pessoas brancas que
possuem pele escura. Se pudéssemos consertar a pele, eles
seriam brancos. As mulheres são homens com genitária
errada...; e por aí vai. Essas transposições cruas revelam um
tecido social de práticas pelas quais nós sabemos quais
identidades são tanto disponíveis quanto aceitáveis.
Perante a aceitação do bilinguismo torna-se essencial transcender estas
identidades aceitáveis, pois a língua de sinais possibilita a pessoa surda o
desenvolvimento pleno como sujeito, principalmente, quando adquirida nos
primeiros anos de vida, logo o Estado deve garantir essa possibilidade
permitindo ao surdo o acesso à comunicação, respeitando sua língua natural, e
respeitando-se a diferença.
Através da criação de instituições as pessoas com necessidades
especiais foram ao longo do tempo incluídas no sistema educacional regular e
no mercado de trabalho, mas tal processo foi árduo e lento, tendo como
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consequência inúmeras mortes. Assim, o as conquistas educacionais e sociais
da pessoa surda passaram por inúmeras etapas.
Outra questão que está muito presente na identidade surda pode ser
apresentada pelas diferenças entre surdos e ouvinte, a mais relevante é a
questão linguística, com a utilização da língua de sinais que estrutura-se em
sua modalidade visual-espacial. Sendo construída com uma gramática própria
e diferenciada da língua portuguesa.
É necessário saber que, da mesma forma que os ouvintes, os surdos
não vivem isolados e incomunicáveis, o que os diferem é sua forma de agir que
absorve experiências visuais a forma que agem se difere da forma dos
ouvintes.
Strobel (2009) aponta que o nascimento de uma pessoa surda, na
comunidade ouvinte é percebido como uma catástrofe, pois os ouvintes estão
acostumados com um padrão, ou seja, crianças que ouvem e que se comunica
com a sociedade por meio da fala (oral).
Os surdos não diferenciam seus pares pelo grau de sua surdez, o mais
importante é que participe de um grupo que utilize a língua de sinais e esteja
integrada a cultura surda.
Desta forma, Strobel (2009) apresenta a cultura surda como sendo o
jeito da pessoa surda perceber e entender o mundo utilizando-se de
percepções visuais e por meio dessa percepção modificá-lo a fim de torná-lo
mais acessível. Assim, mesmo com a proibição da utilização da língua de
sinais, imposta no Congresso de Milão em 1880, os surdos não deixaram que
esta se extinguisse.
[...] o processo de transmissão cultural de surdos ocorre com
muitos sujeitos surdos somente na idade mais avançada, já
adultos, por que a maioria deles tem famílias ouvintes, ou
porque, pela imposição ouvinista, nem frequentam as escolas de
surdos e ficam sem contato por muito tempo com a comunidade
surda (STROBEL, 2009, p. 29).
A história dos surdos no Brasil possui muitas tradições e conquistas em
suas organizações, advindas da necessidade de constituir um espaço para
reunirem-se na busca de resistência contra a prática do oralismo . Através dos
encontros em tais organizações os surdos perceberam a importância da
transmissão cultural, esportiva, política, religiosa do povo surdo.
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Diante de tal contexto de influência sobre a identidade surda torna-se
essencial diferenciar o termo povo surdo de comunidade surda. Segundo
Strobel (2009) povo surdo conceitua-se como sujeitos surdos que compartilham
os costumes, histórias, tradições em comuns e pertencentes às mesmas
peculiaridades culturais, ou seja, que constroem sua concepção de mundo
através do artefato cultural visual (STROBEL, 2009, p. 37).
Enquanto que
uma comunidade surda é um grupo de pessoas que vivem num
determinado local, partilham os objetivos comum dos seus
membros, e que por diversos meios trabalham o sentido de
alcançarem estes objetivos. Uma comunidade surda por incluir
pessoas que não elas próprias surdas, mas que apoiam
ativamente os objetivos da comunidade e trabalham em conjunto
com as pessoas Surdas para os alcançar (PADDEM;
HUMPHRIES apud STROBEL, 2009, p. 33).
Uns dos aspectos relevantes que contribuem para a construção da
identidade do sujeito surdo e que constituem a questão do cotidiano cultural
são apresentados pela autora como artefatos culturais, sendo:
Artefato Cultural – experiência visual: a pessoa surda na ausência de
audição e do som percebe o mundo com os olhos e as coisas que estão ao seu
redor. As experiências visuais abrangem as “expressões faciais e corporais, as
atitudes dos seres vivos e de objetos em diversas circunstâncias” (STROBEL,
2009, p. 41).
Artefato Cultural – linguístico: aspecto fundamental de sua cultura. Sendo a
língua de sinais uma das principais marcas da identidade do povo surdo, esta
língua é expressa por meio da modalidade espacial-visual.
Artefato Cultural – familiar: questões familiares, tais como: pais ouvintes e
filho surdo em que a descoberta de ter um filho surdo para essas famílias é
algo impactante, ocorre assim uma falta de comunicação entre os pais e a
criança surda, havendo um atraso em seu desenvolvimento, pois não são
oportunizados
estímulos linguísticos. Outro quadro de estrutura familiar
configura-se em pais surdos e filho surdo. O descobrimento da surdez é algo
alegre, pois o comportamento dos pais condiz com o dos filhos, sendo que a
comunicação é tranquila e o desenvolvimento da criança é melhor, havendo
estímulos para que esta comece a se expressar na língua de sinais.
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Artefato Cultural – literatura surda: são formas diferenciadas como poesia,
piadas, contos, romances, fábulas, lendas etc. de apresentar as diversas
experiências pessoais do povo surdo, expõem nelas suas dificuldades, vitórias,
alegrias, sendo uma forma de valorizar suas identidades. Às vezes a literatura
surda possui sentido para a comunidade e povo surdo e o mesmo não é
entendido aos ouvintes, ao ser transmitidos da língua de sinais para o
português, pois em seu contexto social possuem entrelinhas próprias das
experiências visuais.
Artefato cultural – vida social e esportiva: são definidos por acontecimentos
como: casamentos entre os surdos, festas, atividades das associações surdas,
eventos esportivos.
Artefato Cultural – artes visuais: expressar suas emoções, sua história e
identidade por meio de criações artísticas. Surdos que fazem desenhos,
pinturas, esculturas. Outros surdos que manifestam sua cultura por meio do
teatro, com dramatizações, poesias e narrativas em Libras.
Artefato Cultural – política: um dos espaços culturais mais utilizados pelos
surdos são as associações de surdos, que inicialmente tinham por objetivo
somente apoio e ajuda. Com o passar do tempo e as conquistas os surdos
passaram a utilizar tais associações para realizarem reuniões e assembleias
objetivando compartilhar seus interesses e lutar por seus direitos. Temos hoje a
Federação Nacional de Educação de Surdos (FENEIS) a Confederação
Brasileira de Desportos dos Surdos (CBDS), a Federação Mundial dos Surdos
(WDF) e o Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES).
Artefato Cultural – materiais: alguns objetos que os surdos utilizam, como por
exemplo: Telephone Device for the Deaf (TDD), e a internet muito utilizada
pelos surdos hoje em dia para se comunicarem e transmitirem sua cultura.
Tais artefatos são apresentados pela autora como forma integrante da
identidade surda, pois dependendo da maneira com que o sujeito constrói suas
relações estas vão de encontro com suas reflexões e influenciando em seu
comportamento o que gera diferentes identidades, desde a identidade surda
até surdos que não aceitam sua especificidade e querem assumir uma
identidade ouvinte perante a comunidade ouvinte por acharem que desta forma
estarão sendo aceitos socialmente.
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A identidade e a cultura das pessoas surdas são complexas, já que seus
membros freqüentemente vivem num ambiente bilíngüe e multicultural. Por um
lado, as pessoas surdas fazem parte de um grupo visual, de uma comunidade
surda que pode se estender além da esfera nacional, no nível mundial. É uma
comunidade que atravessa fronteiras. Por outro lado, eles fazem parte de uma
sociedade nacional, com uma língua de sinais própria e com culturas
partilhadas com pessoas ouvintes de seu país. (QUADROS, 2006, p.111)
COTIDIANO PARA MICHEL DE CERTEAU
Há muitos estudos sobre as tradições orais onde os atos do cotidiano
são representados pela criatividade. Constituem a cultura popular, negada pela
sociedade acadêmica. Certeau (1996) apresenta que a cultura popular
supracitada é embasada pela oralidade, operatividade e pelo ordinário, sendo
abordado neste trabalho somente a questão da oralidade, que se torna
referência para analisar a discussão sobre a linguagem de sinais utilizada pela
comunidade surda.
Segundo o autor a oralidade ou cultura oral ocorre por meio das relações
sociais, que contribuirá para o desenvolvimento da criança em contato com a
linguagem oral. O desenvolvimento da fala propiciará uma memória cultural, a
qual “permite enriquecer pouco a pouco as estratégias de interrogação do
sentido cujas expectativas são afinadas e corrigidas pela decifragem de um
texto” (CERTEAU, 1996, p. 336). Desta forma, sem a oralidade não existe
comunicação em uma comunidade, mesmo que se faça uso de uma linguagem
escrita, torna-se essencial o processo da fala para que as mensagens sejam
entendidas pelos seus comunicantes e estes adquirem a cultura oral de acordo
com o lugar em que ocupa na sociedade, sendo estimulada pelo uso ou desuso
da linguagem.
Torna-se habitual atribuir a situação de fracasso escolar e baixo
rendimento dos alunos a sua falta de motivação, problemas cognitivos ou
déficit de atenção, no entanto, o fracasso escolar pode estar escondido em
mensagens não entendidas no momento em que ocorre o processo de ensino
e aprendizagem, pois nem tudo que é dito pelo professor pode ser captado
pelo aluno, da mesma forma, que a mensagem é emitida. Sendo que o
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desenvolvimento da comunicação pode não ser completado de maneira que
influencia na aquisição de novos conhecimentos, ou seja, “o fracasso escolar,
as dificuldades da “formação permanente” destinada aos adultos têm a ver com
o desconhecimento das situações de interlocução, com a crença errônea na
transparência significante dos enunciados, fora do processo de enunciação”
(CERTEAU, 1996, p.338 [grifo do autor]).
IDENTIDADE SURDA: UMA QUESTÃO EM MICHEL DE CERTEAU
Certeau (1996) apresenta no capítulo “uma ciência prática do singular”
de sua obra que a cultura popular é multiplicada por conta de tradições orais,
operações da criatividade e dos atos que acontecem na vida cotidiana.
O autor relata a importância da oralidade no processo de comunicação a
partir do momento em que a criança começa a relacionar-se com o mundo por
meio da aquisição do reconhecimento das falas do emissor e receptor. Com o
desenvolvimento desse processo esta mesma criança aprenderá a ler “na
expectativa e na antecipação do sentido, uma e outras nutridas e codificadas
pela informação oral da qual já disporá” (CERTEAU, 1996, p. 336).
Abordando a condição do o sujeito surdo nascido em uma família de
pais ouvintes, que não fazem uso e não conhecem a língua de sinais, sem uma
estratégia para estimular a criança a comunicar-se terá um atraso na
comunicação, identificação e interpretação do texto.
Conforme Strobel (2009) em uma pesquisa realizada com sujeitos
surdos pertencentes a famílias em que todos os membros são ouvintes,
apresenta a carência de diálogo, ou seja, essa criança surda terá dificuldades
para aprender o português escrito.
Muitas discussões estão envoltas na questão de aprendizagem da
criança surda que deve acontecer por meio do bilinguismo, que como exposto
acima, consiste na aprendizagem da Libras como primeira língua (L1) e a
língua portuguesa na modalidade escrita como segunda língua (L2). As
crianças surdas desta forma precisam ter contato com surdos adultos para que
assim possam desenvolver seu processo de ensino e aprendizagem e
estabelecer comunicação com o mundo que o cerca.
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Este contato “criança surda X adultos surdos”, através de uma
língua em comum, que é a língua de sinais, é que
proporcionará o acesso à linguagem e, desta forma, estará
também assegurando a identidade e a cultura surda, que são
transmitidas naturalmente à criança surda em contato com a
comunidade surda. (Strobel, 2009, p.43)
Em um quadro em que pais ouvintes demoram a diagnosticar seus filhos
como surdos e posteriormente não possibilitam contato com a comunidade
surda seu desenvolvimento linguístico será tardio, o que tornará a aquisição da
língua portuguesa posteriormente mais complicada e demorada, pois sendo a
língua de sinais a primeira comunicação da pessoa surda torna-se necessário
que como tal seja estimulada desde suas primeiras vivências, para somente
após a aquisição de sua língua materna o comunicante possa estabelecer
relação com o comunicador e aprender uma segunda língua.
Da maneira que a oralidade é posta, como algo primordial na sociedade,
não possibilitando espaço para outras formas de comunicação e entendimento,
por exemplo, as mídias e as telecomunicações utilizam-se por demasiado de
som para transmitir informações e atrair a percepção do receptor; essas
informações vinculadas a oralidade não são acessíveis aos sujeitos surdos.
Para que as transmissões televisivas sejam acessíveis aos surdos, se faz
necessário a legenda ou o intérprete de Libras presente nas mesmas. Sem
esses aparatos necessários a comunicação da pessoa surda, gera-se a
segregação social.
RESULTADOS
A partir dos fatos analisados podemos perceber a difícil trajetória da
educação especial para os Surdos no Brasil. Compreendemos que uma
concepção de normalidade de desenvolvimento instituída na sociedade
brasileira, negou aos surdos e outras pessoas com necessidades especiais não
somente a vida em sociedade, mas também possibilidade de desenvolvimento
das suas capacidades.
Entendemos que os indivíduos com necessidades especiais ainda
sofrem com a discriminação e preconceito. Que os direitos de igualdade, de
oportunidades e participação, garantidos pela Declaração dos Direitos
Humanos e reiterados pela nossa constituição são muitas vezes esquecidos.
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As pessoas surdas enfrentam inúmeros entraves para participar da
educação escolar e isso decorre da forma como se estruturam as propostas
educacionais das escolas e do Estado. O que fica claro é que precisamos
enfrentar o desafio de lidar com diversidade, e assim evitar preconceitos que
surgem de um pensamento pautado em um padrão de normalidade de
desenvolvimento. Portanto, chega-se a conclusão da necessidade urgente da
valorização dessa sociedade e as adequações necessárias, proporcionando
interação e comunicação entre os dois universos e contribuindo para que a
cultura ouvintista não seja forma de sufocamento das representações visuais
dos sujeitos surdos.
REFERÊNCIAS
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano, vol. 2, Petrópolis: Vozes,
1996.
STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. 2 ed.
Florianópolis: Ed. Da UFSC, 2009.
GOLDFELD, Marcia. A Criança Surda: Linguagem e Cognição numa
Perspectiva Sociointeracionista. São Paulo: Plexus, 2002.
FERNANDES, Eulália. Surdez e Bilinguismo. Porto Alegre: Editora Mediação.
2002
QUADROS, Ronice Muller (org). Estudos Surdos I. Petrópolis, Rio de Janeiro:
Arara Azul, 2006.
_________, Ronice Muller (org). Estudos Surdos II. Petrópolis, Rio de Janeiro:
Arara Azul, 2007.
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