POLÍTICAS PÚBLICAS DE INCLUSÃO SOCIAL PARA CRIANÇAS SURDAS NO MUNICÍPIO DE SÃO CARLOS – SP. AUTOR: Francisco Martins Lopes Terceiro1 TRADUTOR LIBRAS/LÍNGUA PORTUGUESA: Felipe Fontana2 RESUMO: Este trabalho busca sintetizar uma importante parte do projeto de pesquisa denominado “Educação Infantil para Crianças Surdas: Um Estudo sobre a Formação da Identidade e da Cultura Surda na Cidade de São Carlos”, qual seja, o tópico voltado para a discussão das políticas públicas inclusivas existentes em São Carlos vinculadas com a promoção da cultura e da identidade surda neste município. De maneira geral, partimos do pressuposto de que as escolas bilíngues, importante política pública inclusiva e grande direito conquistado pelo movimento surdo brasileiro, possuem, dentre outras coisas, a função de promover a cultura surda através de uma instrução direcionada e específica para a criança surda, em especial com o ensino da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). No entanto, as mesmas não são suficientes para auxiliar na promoção da identidade surda de modo a resguardar e fortalecer as particularidades de um grupo social específico de nossa sociedade. Dessa forma, acreditamos que há a necessidade de se constituir outros mecanismos e práticas (políticas públicas) capazes de fomentar a cultura surda entre as crianças imersas na educação infantil. Tendo isso como panorama geral, empreendemos um estudo na cidade de São Carlos com a finalidade de também analisar as políticas públicas alternativas às escolas bilíngues que visem o desenvolvimento de crianças surdas. PALAVRAS-CHAVE: Política Pública; Inclusão Surda; Educação Infantil; Cultura Surda; Identidade Surda. 1. INTRODUÇÃO Como podemos promover e fortalecer a Identidade e a Cultura surda durante a infância? Quais os empecilhos para a constituição do orgulho de ser surdo em crianças na faixa etária da educação infantil? Qual o papel da escola bilíngue na formação de uma identidade surda junto às crianças surdas? Quais as políticas públicas necessárias para o fomento da cultura surda? Ou ainda, qual é a função da família e do ambiente familiar, muitas vezes compostos de modo heterogêneo, com 1 Francisco Martins Lopes Terceiro é graduando em Pedagogia pelo Centro Universitário Central Paulista (UNICEP) e desenvolve pesquisas relacionadas com o ensino de crianças surdas, identidade surda, cultura surda, ensino de LIBRAS e educação para pessoas surdas. E-mail: [email protected]. 2 Doutorando em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência |Política da Universidade Federal de São Carlos (PPG-Pol/UFSCar) e mestre em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (PGCUEM). E-mail: [email protected]. 1 surdos e ouvintes, na formação de indivíduos orgulhosos da condição de serem surdos? Essas são as preciosas questões que buscaremos responder com a pesquisa denominada “Educação Infantil para Crianças Surdas: Um Estudo sobre a Formação da Identidade e da Cultura Surda na Cidade de São Carlos”. Contudo, neste trabalho, limitaremos nossas análises à problematização dessas perguntas com a intenção de evidenciar o quão importante é o nosso objeto de pesquisa. É uma colocação óbvia afirmar que a Cultura e a Identidade Surda são intrínsecas à condição de surdez. Contudo, quais os motivos que impedem que ela se fortaleça ao ponto de indivíduos surdos efetivamente se orgulharem de suas especificidades e características e não aderirem a determinados recursos para sanálas ou disfarçá-las, tal como os implantes cocleares? Nesse sentido, ter a Identidade Surda como objeto de pesquisa, observando principalmente o modo como ela se edifica no ambiente escolar, na vida pública (coletiva e em comunidade) e na convivência familiar é de grande importância para nos auxiliar na identificação e no combate dos empecilhos e dos problemas que podem prejudicar a promoção e o desenvolvimento da cultura surda na escola, na sociedade, na família e, inclusive, no interior de cada sujeito surdo. A vida moderna hoje experimentada pela maioria das pessoas exige que os indivíduos, independentemente de suas condições financeiras, físicas, educacionais, raciais, religiosas ou culturais, transitem, desde a infância, entre ambientes diferenciados e distintos do familiar. Aquele tipo de educação infantil ofertada nos limites da casa e do seio da família, se hoje ainda existe, é muito difícil de encontrar ou de ser estimulado. A escola, nesse sentido, assumiu um papel importante na vida das crianças e, dentre outras coisas, exigiu que as mesmas passassem a se desgarrar mais cedo do seio familiar e começassem a conviver com aquilo que é novo e diferente. De modo geral, isso foi positivo porque estimulou, desde a infância, o convívio e a interação entre distintas formas culturais e tradições (como por exemplo, entre pessoas com os princípios religiosos diferentes ou entre sujeitos de diferentes matizes raciais), buscando promover assim, dentre outras coisas, a tolerância entre as especificidades e as diferenças3. 3 Não é a intenção de fazer aqui uma celebração da escola como ambiente por excelência da tolerância a da interação social. Sabemos hoje que ainda há muitas dificuldades para torná-la um ambiente assim. O bullying, por exemplo, é a manifestação mais clara e atual de como a escola, ao passo que exprime as diferenças sociais, raciais, corporais, econômicas, religiosas, etc., pode ser um ambiente hostil à tolerância; segundo Fante: “Infelizmente estamos vivendo uma época em que a violência se torna cada vez mais presente em todas as instituições escolares. A violência escolar nas últimas décadas adquiriu crescente dimensão em todas as sociedades, o que a torna questão preocupante devido à grande incidência de sua 2 O que auxilia em grande medida a convivência entre crianças com “bagagens culturais, tradições e experiências familiares” diferentes é a linguagem que, por vezes, é adquirida de forma coletiva e compartilhada entre as crianças de uma mesma turma escolar, possibilitando assim, a construção de uma identidade forte entre elas4. Isso é importante de ser destacado porque até o momento falamos de forma genérica e não problematizamos quais as implicações do trânsito entre a escola e o seio familiar no caso de uma criança surda que, dentre outras coisas, não possui o recurso da fala e da audição para interagir, constituir ou se apropriar de características, aptidões e anseios que as cercam. O Brasil avançou muito quanto ao ensino bilíngue. Mesmo não sendo acessível para todos e não tendo uma educação exclusiva para surdos em todos os níveis educacionais5, ou seja, do ensino infantil até o nível superior e de pós-graduação, verificamos que as Escolas Biligues de Educação Infantil existentes hoje buscam estimular, mesmo imersas em muitas dificuldades6, a promoção da identidade e da cultura surda através, principalmente, da alfabetização e do ensino do conteúdo obrigatório em LIBRAS (ou seja, tendo a LIBRAS como a primeira e principal língua). Contudo, as escolas bilíngues, são suficientes para promover nas crianças surdas um orgulho acerca da condição de surdes? Adicionado a isso, também devemos problematizar o fato de que as crianças surdas possuem um convívio familiar e, nesse caso, é interessante indagar se a relação com a família estimula a promoção da identidade e da cultura surda; manifestação em todos os níveis de escolaridade.” (FANTE, 2005, p. 20). Contudo, também não podemos negar que ela é capaz de, dentre muitas coisas positivas e negativas, fomentar a interação e a convivência entre as mais diversas peculiaridades e especificidades culturais, sociais, religiosas e raciais existentes. 4 Como veremos mais detalhadamente adiante, partimos da idéia de que a identidade social ou grupal se faz coletivamente e através da interação entre os indivíduos que, na maioria das vezes, se distinguem por algumas características e se assemelham por outras. A Escola expressa muito esse dilema e, podemos afirmar, inclusive, que no caso da identidade social, boa parte de nossas características, aptidões e anseios são ensinados, partilhadas e apreendidas ainda no ambiente escolar. 5 Depois do quinto ano, na maioria esmagadora das vezes, os alunos surdos são integrados ao ensino regular em turmas com crianças ouvintes. As implicações dessa prática é tema de muitos estudos críticos que observam os malefícios de uma não educação bilíngue “do começo ao afim do ensino formal” (malefícios que vão desde a dificuldade na aprendizagem, até à promoção da identidade surda). Para nós, nesse momento, vale constatar que a proposta de educação inclusiva no Brasil, quando aplicada aos surdos, foi vencedora. Mas não o fez sem comprometer tanto o ensino da pessoa sem audição, quando a promoção e o desenvolvimento de sua identidade e de sua cultura. 6 É possível constatar em diferentes regiões do Brasil determinados relatos que expressam algumas dessas dificuldades. Dentre eles, destaca-se o fato de alunos com diferentes idades e níveis educacionais partilharem uma mesma sala e um mesmo conteúdo programático pela falta de profissionais especializados na educação bilíngue ou pela inexistência de infraestrutura adequada ao ensino da pessoa sem audição. 3 principalmente no caso de ambientes familiares heterogêneos, no qual há a pouca ou a não existência de surdos. De maneira preliminar podemos indagar: qual o peso da família na constituição da identidade de uma pessoa surda? A família estimula o orgulho de ser surdo ou interfere negativamente nessa questão? Seria possivel afirmar que um convívio familiar que não leve em consideração a especificidade da condição de uma criança surda pode fazer com que avanços alcançados no ambiente escolar venham a se regredir? Qual o impacto, então, do trânsito entre a família e a escola percorrido pelas crianças surdas durante a educação infantil? De modo geral, acreditamos que essas palavras resumem o problema de nossa pesquisa. O tema do impacto do deslocamento entre o espaço escolar e o ambiente familiar da criança surda durante a educação infantil é pouco revisitado na literatura voltada à pedagogia surda que nós consultamos. Nesse sentido, a realização desse trabalho busca sanar, em alguma medida, esse triste diagnóstico. Além do mais, ao passo que buscamos compreender os empecilhos inerentes à constituição da identidade e da cultura surda através de uma investigação do ambiente escolar e do espaço familiar de crianças surdas passamos a auxiliar em grande medida no melhor aproveitamento e na efetividade da educação infantil especializada para surdos que é oferecida nas escolas bilíngues de nosso país. As crianças brasileiras conquistaram, principalmente a partir da Constituição de 1988, uma gama significativa de direitos. A questão fica ainda mais complexa quando falamos de crianças surdas e, de maneira geral, de portadores de deficiências físicas. No caso das crianças que vivem com a surdez, as mesmas alcançaram em 22 de Dezembro de 2005, o direito a uma educação bilíngue – Decreto Federal nº 5626 – (PEREIRA; VIEIERA, 2009, p. 65). Esse direito assegurado na lei precisa ser protegido e, mais do que isso, precisa ser efetivamente garantido na realidade que envolve a Educação e a Pedagogia no Brasil. Preocupados com essa questão, acreditamos que nosso trabalho auxiliará no entendimento das amarras que dificultam a experiência plena desse direito da pessoa surda brasileira; principalmente no momento em que analisarmos e/ou tentarmos inferir políticas públicas alternativas às escolas bilíngues. Ao passo que realizamos nossa pesquisa e identificamos os motivos pelos qual não há a promoção plena da educação e, consequentemente, da cultura e da identidade surda nos ambientes familiares nas escolas por nós analisadas, também poderemos realizar sugestões para sanar esses problemas (mesmo que estas sejam direcionadas apenas às famílias e as escolas por nós investigadas). O que não devemos negar é que mesmo um estudo de caso, caracterizado como um retrato 4 específico da realidade social ou um fato particular da mesma, pode nos auxiliar no entendimento de situações oriundas de condições próximas àquelas que futuramente exporemos em nosso trabalho com nossos resultados de investigação. Reside nessa dimensão de nossa pesquisa um retorno social para com as instituições e as famílias com as quais trabalharemos. Além disso, a comunidade surda em nosso país vem sofrendo com frequentes e diferenciadas formas de preconceito e discriminação. Por vezes, ao invés do enfretamento diário, social e da luta política, uma significativa parcela da comunidade surda está preferindo adotar recursos que eliminam ou disfarçam a surdez; negando, dessa forma, a própria condição ou característica que os define como pertencentes a uma comunidade e a um agrupamento social específico de nossa sociedade. O implante coclear, por exemplo, representa uma dessas realidades. Sem entrar no mérito dos malefícios, dos problemas e dos riscos desse procedimento altamente invasivo, acreditamos que ao passo que ele é popularizado entre os membros da comunidade surda, a mesma tende a se enfraquecer, assim como a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) tende a se tornar, justamente como o latim, uma língua morta e com função social reduzida ou inexistente. De acordo com nossa visão, um dos principais problemas que causam esse triste diagnóstico da situação e da questão surda no Brasil vincula-se com a impossibilidade de se construir, desde a infância e dos primeiros anos da educação formal, uma identidade e uma cultura surda efetivamente forte no Brasil. Nessa direção, uma importante justificativa para a nossa pesquisa é a de que ela pode se colocar a serviço das necessidades de se contrariar essa lamentável realidade experimentada pelas pessoas sem audição que hoje vivem no Brasil7. Para nós, é extremamente importante investigar, tanto no ambiente escolar, quanto no seio familiar, como na sociedade, as relações estabelecidas entre as crianças surdas na idade da educação infantil para, dessa forma, compreender quais os elementos que estimulam ou dificultam a promoção e a constituição uma identidade e de uma cultura surda plena em nosso país. Nessa direção, os pontos abaixo listados parecem transpor para a realidade dos pesquisadores interessados nesse tema uma 7 Essas manifestações de preconceito e discriminação podem ser entendidas com mais clareza através do conceito denominado de Audismo. Segundo Franciele Cantarelli Martins e Madalena Klein o “Audismo é um termo utilizado para apresentar aspectos negativos, barreiras, marcas históricas; a falta de comunicação, a falta de convívio na sociedade, a visão da superioridade e inferioridade, identidades que se enfrentam, entre outras coisas. É como se os surdos fossem rotulados por coisas negativas” (MARTINS; KLEIN, 2014, p.1). 5 gama significativa de objetivos capazes de orientar uma investigação profunda dessa questão. 1. Apresentar e analisar o ambiente escolar de crianças surdas, assim como compreender as relações que elas estabelecem no seio familiar (realizaremos isso através de pesquisas de campo: observação participante em salas de aula bilíngues na educação infantil e aplicação de questionários para os pais ou responsáveis ouvintes que tenham como filhos crianças surdas); 2. Evidenciar e compreender quais os elementos, nesses dois ambientes, que promovem ou impossibilitam a constituição efetiva da identidade e da cultura surda desde a educação infantil; 3. Entender qual a importância da Língua Brasileira de Sinais no processo de interiorização do orgulho de ser surdo por parte das crianças do ensino infantil (faremos isso levando em consideração tanto à sala de aula quando o seio familiar); 4. Compreender a situação das políticas públicas inclusivas existentes em São Carlos para aprofundar as discussões sobre os avanços e os limites da promoção da cultura surda nesta cidade, possibilitando assim, a inferência de algumas medidas capazes de auxiliar na construção de uma educação surda/bilíngue comprometida com a identidade do sujeito surdo (faremos essa atividade através de algumas entrevistas com os responsáveis pela educação bilíngue em São Carlos – como, por exemplo, o Secretário Municipal de Educação – e com a análise das políticas públicas existentes na cidade que buscam alcançar a população surda do município e região). Além de possibilitar a difusão, mobilização e conscientização acerca da importância da temática estudada no campo geral da Educação, da Pedagogia e no campo específico da Educação para Surdos, nossa pesquisa, em especial a busca pela realização de nossos objetivos, pode fomentar na comunidade surda um intenso debate acerca da formação da cultura e da identidade de pessoas surdas desde a primeira infância. Tema este que, na bibliografia por nós consultada, não se coloca 6 com grande proeminência. Adicionado a isso, nossas atividades também envolvem alguns compromissos sociais, dos quais podemos destacar com maior clareza, a busca pela efetivação do ensino bilíngue no Brasil como um importante recurso para a promoção da integração, da cultura, da identidade, da dignidade, do respeito e, sobretudo, dos direitos sociais e políticos das pessoas surdas. 2. QUADRO DE REFERENCIAL TEÓRICO Nesse trabalho e em nossa pesquisa, utilizaremos dois conceitos de modo central e recorrente, quais sejam: o de Identidade Social e o de Cultura. De maneira geral, os autores que buscam definir aquilo que é Identidade Social revelam que tal conceito singulariza um sentimento de pertencimento dos indivíduos para com um dado agrupamento social. Em sua forma mais usual, tal noção vincula-se com um estado de união e simpatia entre os indivíduos de uma mesma comunidade. Nessa direção, um dos importantes fatores que colaboram para a necessidade de se constituir uma Identidade Social é a possibilidade de se fortalecer ainda mais os vínculos entre os indivíduos de uma mesma comunidade e as suas praticas e tradições. Entretanto, alguns autores sinalizam que há neste fortalecimento um contundente perigo, pois, ao passo que esse sentimento de pertencimento se fortalece, estes sujeitos tendem a segregar alguns grupos e diferenciá-los entre pertencentes a uma mesma cultura e não pertencentes a ela. De modo prático, a constituição e a assimilação da Identidade Social se dão através do convívio social, da língua, da educação (familiar e institucional), da mídia, da tradição, dos costumes, das particularidades culturais e dos processos políticos, históricos e econômicos. Dessa forma, notamos que a perpetuação de uma dada identidade articula-se a várias instituições e fatores. Assim, podemos concluir que a Identidade Social e o conteúdo que ela resguarda e transmite são delicados, precisos, específicos, suscetíveis a distorções, simplificações e interpretações variadas entre os indivíduos e até mesmo entre os estudiosos e pesquisadores que buscam apreender uma dada concepção de Identidade Social. Nesse difícil processo de constituição, perpetuação e resignificação da Identidade Social, alguns teóricos destacam a Memória Social como uma questão de extrema importância; afinal, é através dela que as representações e interpretações do passado e do presente de determinados grupos e comunidades são perpetuadas, transmitidas e informadas. Uma boa síntese destes parágrafos iniciais sobre a Identidade Social é dada por Michael Pollak com a seguinte afirmação: 7 Aqui o sentimento de identidade está sendo tomado no seu sentido mais superficial, mas que nos basta no momento, que é o sentido da imagem de si, para si e para os outros [grupo social ou comunidade]. Isto é, a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, para acreditar na sua própria representação, mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros. Nessa construção da identidade - e aí recorro à literatura da psicologia social, e, em parte, da psicanálise - há três elementos essenciais. Há a unidade física, ou seja, o sentimento de ter fronteiras físicas, no caso do corpo da pessoa, ou fronteiras de pertencimento ao grupo, no caso de um coletivo; há a continuidade dentro do tempo, no sentido físico da palavra, mas também no sentido moral e psicológico; finalmente, há o sentimento de coerência, ou seja, de que os diferentes elementos que formam um indivíduo são efetivamente unificados (POLLAK, 1992, p. 2 -3). Outro importante conceito que se vincula com a Identidade Social é o de Cultura. A definição que damos a ela é pautada pela síntese feita por Edward Burnett Tylor. Foi ele que escreveu a primeira definição etnológica da cultura, em contraposição a idéia de transmissão biológica de caracteres e especificidades de um indivíduo para outro, ou de um grupo para outro. De modo geral, ele afirma que cultura é um complexo arranjo aonde se aloca os costumes, práticas, tradições, regras, pressupostos morais, crenças, hábitos, conhecimentos, representações artísticas e sociais de uma dada coletividade ou sociedade. De acordo com o autor, notamos: Tomando em seu amplo sentido etnográfico [cultura] é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade (apud LARAIA, 2006, p. 25). É possível, ao passo que pensamos nos conceitos de Identidade Social e Cultura tal como estão definidos aqui, aplicar à comunidade surda essas noções para o seu entendimento? Acreditamos que sim. Em fato, isso já vem sendo feito pela literatura surda consultada por nós. A definição de Povo Surdo dada por Karin Lilian Strobel, exposta em sua dissertação de mestrado publicada em 2006, mostra exatamente isso. Nessa definição percebemos a autora fazendo uso do conceito de cultura de modo bem próximo do exposto aqui até o momento. Com as palavras da autora, notamos: Povo surdo: conjunto de sujeitos surdos que não habitam o mesmo local, mas que estão ligados por uma origem, tais como a cultura surda, usam a língua de sinais, têm costumes e interesses 8 semelhantes, histórias e tradições comuns e qualquer outro laço compartilhado (STROBEL, 2006, p. 6). Como nós já salientamos inicialmente, um dos elementos de fundamental importância para a promoção da cultura surda é a Língua de Sinais; no caso do Brasil, a LIBRAS. Em qualquer processo de formação identitária e cultural, a língua é um elemento central. No caso das pessoas surdas, isso se fortalece ainda mais porque, com a ausência da audição, esse é o recurso alternativo existente para se comunicar. A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é, então, a primeira língua dos surdos, não a portuguesa. Segundo Tanya Felipe, notamos: Sendo uma língua um patrimônio sociolinguístico que define uma identidade, ela é uma multitude de crenças verbo-ideológicas e sociais interligadas, constituída de enunciados e vozes. Essa consciência é o contato social consigo mesmo, é uma experiência histórica e social que não são em si mesmas entidades diferentes (FELIPE, 2012, p. 3). Ou ainda, como informa Karin Strobel: As representações sociais, de modo geral, analisam a forma discursiva da linguagem na qual se estimulam as identidades imaginárias, isto é, sendo concebidos como seres ouvintes, em uma dimensão histórica, no contexto agradável e aceitável para a sociedade (STROBEL, 2007, p. 20). Por mais que alguns autores ponderem a questão de que não se deve estabelecer uma disputa ou concorrência entre a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa8, é de fundamental importância que a o ensino da nossa língua de sinais seja estimulado e aprimorado desde a primeira infância até a idade adulta dos indivíduos surdos. Nesse sentido, é relevante que o indivíduo surdo esteja sempre em contato com a sua comunidade. A socialização entre as pessoas de um mesmo grupo é um dos principais fatores que auxiliam na constituição e promoção de suas identidades e de sua cultura. Dessa forma, a escola e a família deveriam funcionar como grandes espaços de socialização para surdo, principalmente paras as crianças sem audição, afinal, as mesmas na infância possuem, quase que na maioria dos 8 Como é o caso, por exemplo, das já citadas estudiosas Maria Cristina da Cunha Pereira e Maria Inês da Silva Vieira. De acordo com as intelectuais, notamos que: “As duas línguas não competem [LIBRAS e Língua Portuguesa], não se ameaçam, possuem o mesmo status. A língua de sinais, como primeira língua do surdo, é sua língua de identificação, de instrução e de comunicação e a língua portuguesa, na modalidade escrita, como segunda língua, é a possibilidade do surdo ter acesso à informação, conhecimento e cultura tanto da comunidade surda como da majoritária ouvinte” (PEREIRA; VIEIRA, 2009, p. 67). 9 casos, estes espaços como obrigatório e exclusivos para a construção e a promoção das relações sociais. É justamente este o dilema que estamos tentando compreender: como uma criança surda pertencente à educação infantil consegue constituir em seu interior uma identidade surda, uma cultura surda e um orgulho de ser surdo tendo como espaços quase que exclusivos de convivência e de interação a escola e o seio familiar? No caso de crianças que nascem de pais surdos verificamos que o processo de construção da identidade surda é mais natural. O problema se agrava quando os pais são ouvintes e não possuem em seus âmagos todos os caracteres, as predisposições e as representações inerentes à comunidade surda. É importante ressaltar que essa questão, tão cara a nossa pesquisa, já foi anunciada em um texto de 2009 de Maria Cristina da Cunha Pereira e de Maria Inês da Silva Vieira. Segundo as pesquisadoras, verificamos que: As crianças surdas que têm pais surdos, usuários da língua de sinais, aprendem geralmente a língua de sinais na interação com os pais de forma semelhante e na mesma época em que as crianças ouvintes adquirem a língua majoritária. Além da língua de sinais, as crianças surdas de pais surdos adquirem com a família aspectos da cultura surda e se identificam com a comunidade surda. Quando chegam à escola, estas crianças já contam com uma língua, com base na qual poderão aprender a língua majoritária, na modalidade escrita. A maior parte das crianças surdas, no entanto, têm pais ouvintes, que não sabem a língua de sinais e usam a língua majoritária na modalidade oral para interagir com os filhos surdos. Devido à perda auditiva, as crianças surdas conseguem adquirir apenas fragmentos da fala dos pais. Consequentemente, embora cheguem à escola com alguma linguagem, adquirida na interação com os pais ouvintes, não apresentam nenhuma língua constituída (PEREIRA; VIEIRA, 2009, p. 64). No caso de crianças com pais codas9 (children of deaf adults), o processo de construção da Identidade e da Cultura Surda também se liga fortemente com a convivência familiar, contudo, ao passo que estas crianças surdas passam a maior parte de suas infâncias no ambiente escolar, podemos afirmar que as escolas são um importante espaço para o fortalecimento dessa dimensão de suas vidas, qual seja: sua cultura e sua identidade. Mas, será que ele é continuado ou estimulado no ambiente 9 Coda (children of deaf adults) é a denominação dada para as pessoas que convivem e interagem efetivamente, seja no seio familiar como em outros círculos sociais, com surdos: “A experiência de nascer, viver e crescer em meio a uma família de pais surdos faz com que a percepção das representações culturais, sociais, políticas e linguísticas sejam atravessadas por substratos filosóficos, éticos e estéticos marcados por tensões em zonas fronteiriças de contato. O universo surdo e o ouvinte marcam as fronteiras dos codas” (QUADROS; MASSUTTI, 2007, p. 246). 10 familiar ou em outros espaços, como, por exemplo, nas Associações de Surdos existentes em suas cidades? De modo pertinente, podemos afirmar que essa questão sintetiza um de nossos problemas de pesquisa. Por mais que haja um intenso debate na bibliografia especializada sobre a efetividade, os limites e as dificuldades encontradas nas Escolas Bilíngues quando ao fomento de uma educação de qualidade para crianças sem audição, acreditamos que a escola bilíngue implica, minimamente, na introdução das bases e das representações que envolvem o mundo e o povo surdo. Nesse sentido, o bilinguismo10 na escola pode auxiliar no processo de apropriação da cultura surda por parte das crianças sem audição. Segundo Gladis Perlin e Karin Lilian Strobel, notamos: A realidade desta educação bilíngue é muito divergente. Em alguns espaços escolares segue a teoria tradicional com trabalhos de correção da fala, do português como primeira língua. Outros espaços do bilinguismo usam práticas linguísticas simultâneas, isto é português sinalizado. Outros bilíngues colocam o sujeito surdo num primeiro momento em contato com sujeitos surdos para a aquisição da identidade e da língua de sinais em primeiro lugar. Importante mesmo, ainda que a presença de poucos professores surdos capacitados nestas escolas bilíngues, os quais partem para uma pedagogia mais ao nível dos surdos (PERLIN; STROBEL, 2009, p. 22). Outro conceito que nos ajudará bastante em nossa pesquisa é o de Políticas Públicas. De modo geral, políticas públicas são ações do poder público que visam atingir, influenciar e modificar a vida de cidadãos em geral ou de grupos específicos da sociedade. Ou ainda, podemos considerar como políticas públicas atividades do governo que intentam para a reorganização ou para a solução de momentos e situações disfuncionais existentes na sociedade que, por sua vez, precisam ser orientadas, reguladas e resolvidas. No caso do Brasil, o Estado Brasileiro desenvolve – tanto nas escalas federais e estaduais, quanto municipais – uma série de ações voltadas aos anseios e necessidades de sociedade. Tais atividades podem ser dirigidas e realizadas somente pelo Estado Brasileiro; mas, em alguns casos, verificamos a promoção conjunto dessas ações através da articulação entre Estado Brasileiro, ONGs e Iniciativa Privada. Comumente, as políticas públicas, e principalmente a efetivação das mesmas, dependem de quatro fatores: 1) vínculo com o poder público; 2) a 10 Segundo Maria Cristina da Cunha Pereira e Maria Inês da Silva Vieira o bilinguismo pode ser entendido da seguinte maneira: “Se o bilinguismo é definido como o uso de duas ou mais línguas, é possivel afirmar que a maioria das pessoas surdas que usa a língua de sinais e a língua majoritária pode ser considerada bilíngue” (PEREIRA; VIEIRA, 2009, p 62). 11 constatação de um problema ou disfunção social, político e econômico; 3) A definição de um objetivo a ser alcançado com vistas a superação do problema; 4) e a edificação dos meios pelos quais se sanará o problema – como a política pública será desencadeada. Um importante elemento no entendimento daquilo que é uma política publica vincula-se com a questão das demandas. E elas são três. Demandas recorrentes: ações necessárias para resolver problemas remanescentes (mal resolvidos) ou situações problemáticas constantes na sociedade. Demandas reprimidas: atividades necessárias para sanar problemas gerados por um estado de coisas ou por não decisão. E, por fim, Demandas novas: são necessárias ações para sanar descompassos gerados pelo surgimento de novos atores políticos e novas demandas sociais (esse tipo de demanda, segundo nossa visão, é a mais próxima para entendermos a necessidade de políticas públicas específicas para a promoção da cultura e da identidade do povo surdo no Brasil). Além disso, também verificamos a existência de uma modalidade de distinta de política pública: as políticas públicas inclusivas que, por sua vez, se alinham em muito com a especificidade do tema de nossa pesquisa. Por política pública inclusiva entendemos as ações do Estado e do Poder Público que são embasadas na diversidade humana como um valor primordial e inquestionável com fins de combater a desigualdade econômica e social, garantindo assim, os direitos políticos, sociais e humanos para as pessoas com ou sem deficiência desde a infância até a vida adulta. De maneira geral, acreditamos que conseguimos apresentar nesse tópico do projeto alguns dos referenciais teóricos e conceituais que nos ajudarão na realização de nossa pesquisa. A seguir, evidenciaremos os métodos e os materiais necessários para a realização dos trabalhos que desenvolveremos futuramente. 3. MATERIAIS E MÉTODOS Proporemos aqui uma metodologia mista capaz de nos auxiliar no desenvolvimento de nossa pesquisa. Nesta perspectiva, podemos afirmar que a análise bibliográfica, com a qual pretendemos encontrar interpretações e leituras de importantes autores sobre nosso tema, será um dos recursos utilizados por nós para a efetivação deste trabalho. Dessa forma, recorremos a uma série de materiais específicos, tais como: livros, revistas, artigos e Legislação (Estatuto da Criança e do Adolescente e da Pessoa com Deficiência, por exemplo). Como lembra Luiz Amado 12 Cervo e Pedro Alcino Bervian: “A pesquisa bibliográfica tem como objetivo encontrar respostas aos problemas formulados.” (CERVO; BERVIAN, 2006, p. 88). Para a concretização de nossa pesquisa, também realizaremos observações em salas de aula, exclusivamente em turmas com crianças surdas de Educação Infantil em Escolas Bilíngues de São Carlos – SP. As escolas com as quais trabalharemos serão Escola Bilíngue CEMEI Ida Vinciguerra ou a Escola Bilíngue EMEB Dalila Gall. A observação participante, que muitas vezes também é designada por trabalho de campo, caracteriza-se pela inserção do observador no grupo observado. A observação participante é um método muito importante e difundido nas Ciências Sociais, em especial na Antropologia. O pensador que primeiramente se destacou em enfatizar a idéia de observação participante é Bronislaw Malinowski, pertencente à Escola Britânica de Antropologia (denominada de estruturalfuncionalista). Este pensador, assim como muitos outros intelectuais da escola a qual ele pertence, enfatizava que pesquisa “in loco” é de fundamental relevância para se construir um conhecimento mais objetivo e mais profundo do grupo estudado11. Bronislaw Malinowski também nos informa que saber olhar, ouvir, descrever, interagir e compreender uma determinada situação requer um esforço mental muito grande. Manter um olhar relativizador e sem preconceitos em relação àquilo que se apresenta como novo, demanda um exercício de extrema exterioridade. Principalmente quando o pesquisador está inserido no meio social que vai estudar, pois as suas experiências muitas vezes podem atravessar ou interferir no exercício de relativização, já que o fato de pertencer a determinado grupo faz dele um “conhecedor” que possui respostas prontas para explicar questões existentes em determinado ambiente. Fazer trabalho de campo não é apenas estar presente diante de uma situação referente ao seu objeto de pesquisa, mas sim manter o espírito atento, curioso, perspicaz, questionador e preparado para abordar a realidade que se deseja compreender de maneira profícua. 11 Nas palavras de Malinowski: “É nossa tarefa estudar o homem e devemos, portanto, estudar tudo aquilo que mais intimamente lhe diz respeito, ou seja, o domínio que a vida exerce sobre ele. Cada cultura possui seus próprios valores; as pessoas têm suas próprias ambições, seguem a seus próprios impulsos, desejam diferentes formas felicidade. Em cada cultura encontramos instituições diferentes, nas quais o homem busca seu próprio interesse vital; costumes diferentes através dos quais ele satisfaz às aspirações; diferentes códigos de lei e moralidade que premiam suas virtudes ou punem seus defeitos. Estudar as instituições, costumes e códigos, ou estudar o comportamento e mentalidade do homem, sem atingir os desejos e sentimentos subjetivos pelos quais ele vive, e sem o intuito de compreender o que é, para ele, a essência de sua felicidade, é, em minha opinião, perder a maior recompensa que se possa esperar do estudo do homem.” (MALINOWSKI, 1978, p. 34). 13 Com a intenção de aprofundar o conhecimento obtido em sala de aula com nossa observação participante e complexificar ainda mais nossas análises, realizaremos algumas entrevistas com os pais ou responsáveis ouvintes de crianças surdas. O questionário será semiestruturado (ou seja, com um roteiro previamente elaborado), possibilitando assim, que os pais falem com mais tranquilidade, exponham melhor suas opiniões e, consequentemente, nos contemple com mais informações. Levando em consideração as palavras de Eduardo José Manzini, notamos: que a entrevista semiestruturada está focalizada em um assunto sobre o qual confeccionamos um roteiro com perguntas principais, complementadas por outras questões inerentes às circunstâncias momentâneas à entrevista. Para o autor, esse tipo de entrevista pode fazer emergir informações de forma mais livre e as respostas não estão condicionadas a uma padronização de alternativas. Um ponto semelhante, para ambos os autores, se refere à necessidade de perguntas básicas e principais para atingir o objetivo da pesquisa. Dessa forma é possível um planejamento da coleta de informações por meio da elaboração de um roteiro com perguntas que atinjam os objetivos pretendidos. O roteiro serviria, então, além de coletar as informações básicas, como um meio para o pesquisador se organizar para o processo de interação com o informante. (MANZINI, 2014, p. 2). O número de entrevistas que pretendemos realizar estará entre o intervalo de 10 a 15 pais ou responsáveis ouvintes. Tais entrevistas serão acompanhas de intérpretes por conta da condição de surdo do pesquisador (os pais e responsáveis ouvintes, na maioria das vezes, não são, infelizmente, proficientes em LIBRAS). O auxilio de intérpretes e tradutores também será requisitado no momento em que formos sistematizar os dados e as informações coletadas. Em relação aos materiais utilizados nessa fase de nosso estudo, salientamos o uso de um gravador quando autorizado pelos informantes de nosso estudo. Além disso, para termos um panorama mais completo acerca da questão da promoção da identidade e da cultura surda em São Carlos, recorreremos à realização de entrevistas semiestruturadas com os responsáveis públicos pelas políticas públicas inclusivas voltadas para as pessoas surdas existentes no município. De maneira geral, acreditamos que nossas investigações serão basicamente voltadas a entrevistas com funcionários e com responsáveis pela Secretaria da Educação e Cultura de São Carlos. As atividades aqui propostas vinculadas ao desenvolvimento de nossa pesquisa evidenciam a intenção de realizar uma pesquisa pautada em uma metodologia qualitativa e mista. Assim, a análise bibliográfica, a observação 14 participante em sala de aula e a realização de entrevistas nos auxiliarão no entendimento e na superação das dificuldades que envolvem a construção da cultura e da identidade surda nas escolas durante a educação infantil. Nossa amostra, por se tratar de um número reduzido de pessoas, pode ser considerada como não probabilística. Nesse método de pesquisa as escolhas dos elementos de análise não necessitam de uma base estatística, mas das causas ocorridas, por critérios pessoais adquiridos através das experiências vivenciadas no ato profissional. Além disso, a amostra não probabilística, também chamada por amostra de conveniências, pressupõe procedimentos de seleção informal, facilitando assim, em muita a pesquisa (CARVALHO, 2001). Essa pesquisa também pode ser considerada como um estudo de caso a partir do momento que circunscrevemos nossas análises à realidade específica de algumas escolas do interior de São Paulo (cidade de São Carlos) e algumas famílias residentes nesta mesma região. De modo geral, podemos afirmar que estudo de caso é a principal unidade básica de uma pesquisa que trata o objeto em sua devida especialidade (LAVADO, 2001). 4. RESULTADOS PRELIMINARES Como se verificou até o momento, esta pesquisa encontra-se em andamento. Em termos de desafios, ratificamos desde já a dificuldades de construir um referencial teórico acerca do conceito de políticas públicas sociais e/ou inclusivas capazes de orientar nossas análises acerca das políticas públicas municipais preocupadas com a promoção da Identidade Surda em São Carlos. Em termos de resultados da pesquisa, até o momento verificamos a existência de algumas políticas públicas para crianças surdas e, inclusive, pessoas surdas; sobrecarregando dessa forma, as associações e as organizações surdas existentes no município com atividades que necessariamente deveriam ser de responsabilidade do Estado (seja do Governo Estadual, seja do Governo Municipal). De modo geral, a política pública amplamente difundida no município é a da Escola Bilíngue (o que é, de fato, um grande avanço). Contudo, a promoção da Identidade e da Cultura Surda é feita para além dos muros da escola. Nesse sentido, espaços culturais para crianças surdas, escolas profissionais de aprimoramento de Libras para pais, familiares e amigos de pessoas surdas e, principalmente, ações incisivas de conscientização voltadas para os responsáveis por crianças surdas deveriam ser desenvolvidas amplamente em São Carlos. 5. REFERÊNCIAS 15 CARVALHO, S.M, Castro. Projeto de pesquisa. São Paulo: Lemos Editorial, AAC, 2001. CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. FANTE, Cléo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz.2.ed. Campinas: Verus Editora, 2005. FELIPE, Tanya. Bilinguismo e Educação Bilíngue: questões teóricas e práticas pedagógicas. Libras em Contexto, 2012. Disponível em: < http://www.librasemcontexto.org/producao/Bilinguismo_e_Educacao_Bilingue_questoe s_teoricas_e_praticas_INES-2012.pdf >. Acesso em: 10 mar. 2014. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 19 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. LAVADO, El, Castro. Projeto de pesquisa. São Paulo: AAC, 2001. MALONOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. In: Introdução: Tema, método e objetivo desta pesquisa. Tradução por Anton P. Carr e Lígia Aparecida Cardieri Mendonça, Eunice Ribeiro Durhan. 2.ed. São Paulo: Abril S.A. Cultural, 1978, p. 17-34, MALONOWSKI, Bronislaw. MANZINI, Eduardo José. Entrevista semiestruturada: análise de objetivos e de roteiros. Disponível em: <http://www.sepq.org.br/IIsipeq/anais/pdf/gt3/04.pdf>. Acesso em: 09 mar. 2014. MARTINS, Franciele Cantarelli; KLEIN, Madalena. Audismo e deaf gain: experiências surdas e as possibilidades de reconhecimento das diferenças. Disponível em: < http://seminario.medicalizacao.org.br/trabalhos/10.pdf>. Acesso em: 09 mar. 2014. PEREIRA, Maria Cristina da Cunha; VIEIRA, Maria Inês da Silva. Bilinguismo e Educação de Surdos. Revista Intercâmbio, v.XIX, p. 62-67. São Paulo: 2009, LAEL/PUC-SP. 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