199 Mudança Organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza Márcia Zabdiele Moreira1 e Francisco Tarciso Leite2 Resumo Para a implantação de um processo participativo, é necessário criar na organização, um ambiente que favoreça a participação, no qual os próprios funcionários procurem soluções e tomem decisões viáveis para os problemas. Algumas empresas, desde sua formação, demonstram serem mais propícias ao desenvolvimento de uma cultura que valoriza a participação dos colaboradores, já outras têm estruturas mais rígidas priorizando a autoridade e a hierarquia. Este estudo teve o objetivo de verificar a importância da mudança organizacional para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações. Pretendeu-se, também, identificar os principais entraves para a prática da gestão participativa nas organizações e como estas preparam-se para as mudanças, ao implantar projetos que visam a participação dos colaboradores. A principal problemática do estudo foi: a mudança organizacional é imprescindível para o desenvolvimento da participação nas organizações? Realizou-se pesquisa de natureza qualitativa, com a tipologia exploratório-descritiva e bibliográfica. Com o método da observação participante e as técnicas de questionário e entrevista, coletaram-se os dados necessários para a realização do estudo. Realizou-se estudo de caso em uma indústria de bebidas de Fortaleza que implantou três projetos vislumbrando maior participação dos clientes internos. Como resultado, concluiu-se que, sem mudança comportamental dos gestores e conseqüentemente dos colaboradores, bem como de mudança na estrutura organizacional, a participação é apenas teórica, pois na prática, continua a exercitar-se o autoritarismo. Sugere-se que a mudança deve ser contínua para permitir que a participação sempre evolua no ambiente organizacional. Palavras-chave: Gestão participativa, Mudança organizacional, Participação. 1 Graduada em Administração de Empresas. Mestra em Administração de Empresas. Professora da Faculdade Cearense. 2 Doutorado em Ciências Sociais Opção Economia pelo École des Hautes Études en Sciences Sociales, França(1978). Professor pesquisador da Universidade de Fortaleza. MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 200 SUMÁRIO: Introdução. 1 Gestão Participativa e Participação. 2 Mudança Organizacional. Metodologia. 3 A mudança para a participação. 4 Metodologia. 5 Análise dos Resultados – estudo de caso. 6 Considerações Gerais. Introdução Para a implantação de um processo participativo, é necessário criar na organização um ambiente de participação no qual os próprios funcionários procurem soluções viáveis para os problemas da empresa e promovam a mudança organizacional por meio de um novo modelo administrativo. De acordo com Brito (1999) o princípio filosófico da gestão participativa é a descentralização do poder por meio da delegação da autoridade, da articulação e participação de todos que fazem a empresa. Para que se implante uma Gestão Participativa em qualquer organização é preciso acabar com a centralização do poder, com a estrutura estática e verticalista, que exclui o empregado do processo de decisão. Muitos paradigmas mantêm a maioria dos trabalhadores alienados em relação ao controle de seu próprio trabalho e à gestão da organização, pois participar não é natural nos modelos convencionais de administração. No que concerne à estrutura organizacional, é conveniente registrar que certos tipos de estrutura criam obstáculos à participação, ao passo que outras viabilizam tais soluções. Demo (1988) explica que talvez não esteja em nossos hábitos participar. É mais prático receber as coisas dos outros, mesmo porque é um projeto milenar viver à custa dos outros. Na verdade, é uma situação provocada por uma sociedade autoritária e que convive com regimes autoritários a tal ponto que a participação assusta. Existe a tendência histórica para a dominação. É peculiar ao fenômeno do poder que haja um lado minoritário que comande, e outro majoritário que seja comandado. Por tendência histórica, primeiro encontrou-se a dominação e, depois, se conquistada, a participação. Há necessidade, também, da mudança da cultura organizacional, para criar-se um novo ambiente que propicie a confiança entre os diferentes níveis hierárquicos possibilitando a participação dos colaboradores nos processos organizacionais. Essas mudanças são necessárias para iniciar a implantação de uma gestão mais participativa, pois estes cuidados podem ser definitivos quanto ao sucesso ou fracasso dos projetos. Quanto à responsabilidade de se implantar uma gestão participativa, cabe principalmente, ao gestor a implantação do processo participativo criando um ambiente mais propício à participação, no qual os próprios funcionários procurem soluções viáveis para os problemas administrativos e promovam a mudança no ambiente organizacional por meio de um novo modelo administrativo. É necessária uma mudança estrutural para uma parceria nas decisões e uma preparação da empresa para a participação. Por meio da administração participativa, espera-se manter um clima de envolvimento, satisfação e comprometimento, bem como melhorar o desempenho organizacional. Uma empresa que, desde sua formação se estruturou valorizando uma cultura de centralização de poder, hierarquia rígida, pouca ou nenhuma flexibilidade quanto à participação dos colaboradores nos processos de tomada de decisões, deverá passar por mudanças mais intensas se pretender implantar projetos que visem à maior participação dos funcionários. Dessa forma, a problemática do estudo foi: a mudança organizacional é imprescindível para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações? MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 201 Essa pesquisa teve o objetivo de verificar a importância da mudança organizacional para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações. Pretendeu-se também identificar os principais entraves para a prática da gestão participativa nas organizações e verificar como estas se preparam para as mudanças ao implantar-se projetos que visam a participação dos colaboradores. Este estudo apresenta, inicialmente, definições sobre gestão participativa, suas aplicações, conceito de participação, os níveis de participação, suas restrições e limitações. Posteriormente, são apresentados os conceitos de mudança organizacional, os aspectos da mudança e o processo contínuo da mudança. Por fim, são apresentadas as mudanças necessárias para o desenvolvimento da participação, para preparar a organização para a participação e as mudanças essenciais para o sucesso da implementação da participação. 1 Gestão Participativa e Participação Quando se pensa no termo “gestão participativa”, defronta-se com uma dificuldade inicial, relativa ao conceito e significado do que seja a participação. Contudo, a participação geralmente refere-se àquelas situações nas quais os trabalhadores, diretamente ou por intermédio de seus representantes, interferem nos procedimentos administrativos, comerciais ou, embora mais raro, na condução geral da empresa. A prática da gestão participativa pode resultar da iniciativa e de pressões dos trabalhadores, sendo desta forma uma conquista na medida em que amplia a intervenção na questão do poder, da autoridade e do controle sobre o processo produtivo. De outro lado, pode resultar de estratégias gerenciais na busca de contornar os conflitos e atingir maior desenvolvimento dos trabalhadores objetivando ganhos de produtividade. De maneira abrangente, a Gestão Participativa é uma filosofia ou doutrina que valoriza a participação das pessoas no processo de tomar decisões sobre diversos aspectos da administração das organizações. Os desafios considerados superáveis por meio das técnicas de gestão participativa são os de formulação de objetivos, tomada de decisão, resolução de problemas e mudanças organizacionais, os quais não são desafios excludentes, podendo até se combinarem e se complementarem. Na sua aplicação, Mendonça (1987) afirma que a gestão participativa dirige-se às pessoas, seja como indivíduos, seja na qualidade de membros de um grupo. Seus adeptos alegam também que a gerência participativa ocasiona redução de absenteísmo, rotatividade e turnover, via incremento de satisfação. A aplicação de uma gestão participativa apresenta uma série de vantagens tanto para a organização quanto para os trabalhadores, tais como: desenvolvimento expressivo, proporcionando melhores resultados para a organização e para os indivíduos dela, participantes e participação eficaz dos trabalhadores nos objetivos da organização, gerando clima propício ao desenvolvimento qualitativo no trabalho e distribuição equitativa de responsabilidade e dos resultados. Além disso, uma organização que valoriza a participação, também pode proporcionar maior satisfação com a essência dos fatos e não com as suas aparências, elevado grau de integração com a cultura da organização, sólida base para as decisões, aceleração das condições da competitividade da empresa, estímulo das condições da competitividade na organização e sustentação do diálogo e respeito às diferenças individuais. De acordo com Mendonça (1987), a participação está impregnada de uma grande confusão devido à multiplicidade de definições existentes, à diversidade dos enfoques formulados e aos objetivos muito diversos que lhe são atribuídos. E acrescenta que na MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 202 qualidade de um conceito central, a participação é a variável que define e indica o que e como alguém faz numa organização e como esta funciona. Estão subentendidas na enunciação da participação, questões fundamentais relacionadas com a distribuição de poder, de autoridade e de propriedade, bem como de trabalho, mecanismos de coordenação e integração e processo de tomada de decisão, como os componentes e exigências da participação. Quanto à utilização, na qualidade de uma estratégia social, a participação é encarada como um vetor muito importante usado nas organizações. Neste sentido, ela é empregada basicamente como uma tecnologia para formulação de objetivos, tomada de decisão, resolução de problemas e mudanças organizacionais. Por meio do seu emprego, centrado especialmente em técnicas de grupo, alega-se o atingimento de um incremento de produtividade, desempenho e satisfação no trabalho. Neste sentido, a participação é, então, uma abordagem gerencial, amparada na motivação. Existem dois níveis de participação, parcial e plena. Participação parcial: ocorre nas situações em que os trabalhadores podem influenciar as decisões, mas a prerrogativa da decisão final permanece com a administração. O poder e o controle sobre a decisão final continuam com a direção da empresa. Participação plena: plena acontece quando cada membro isolado de um corpo deliberativo tem igual poder de determinar o resultado final da decisão. "Neste tipo de situação, não existem dois lados com poderes desiguais de decisão, mas um grupo de indivíduos com poderes iguais para decidir". As oportunidades criadas, a partir do início de um programa participativo dentro da empresa, podem resultar em brechas na estrutura do poder hierárquico e arbitrário das direções. As posições mais otimistas entendem as experiências participativas de forma extremamente positiva na medida em que são uma possibilidade de intervenção consciente e criativa dos trabalhadores na produção; de romper com a cultura de submissão; de adquirirem conhecimentos que os habilitem para o exercício da democracia em vários níveis. 1.1 Restrições e limitações à participação Demo (1988, p.28) afirma que “muitas propostas participativas acabam sendo expediente para camuflar novas e sutis repressões. Quem acredita em participação, estabelece uma disputa com o poder. Trata-se de reduzir a repressão e não de montar a quimera de um mundo naturalmente participativo.” Em relação à natureza das tarefas, existem, atividades que não requerem soluções participativas. Dessa forma, nem sempre a participação é o melhor caminho para executar tarefas. Existem circunstâncias sob as quais, decisões autoritárias, unilaterais ou a delegação a uma única pessoa faz mais senso. Idealmente, é o problema que determina o veículo, se participação ou não. No plano operacional, questiona-se ainda o próprio conteúdo, extensão e grau de participação implementados neste contexto gerencial. É necessário entender porque somente determinados assuntos e em certa extensão e grau são submetidos à participação. Ou o que faz com que para um assunto específico exista autodeterminação e para outro uma influência condicionada apenas à gerência. A despeito desses limites, no entanto, a participação gerencial abriga também temores quanto a eventuais efeitos de apetite, ou seja, pleitos de mais participação, que a sua prática pode propiciar. A prática da participação pode provocar uma abdicação de algumas ou de todas as prerrogativas da gerência em favor dessa posição. MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 203 2 Mudança organizacional As mudanças que acontecem no interior das organizações resultantes das forças externas e internas são responsáveis pelo desenvolvimento das organizações. A maneira acelerada pela qual essas mudanças vêm sendo ocasionadas torna o ambiente organizacional instável, sujeito a grandes transformações. Tratando da mudança na perspectiva das organizações, deve-se saber como esta mudança acontece para tentar explicar este fenômeno organizacional. As mudanças surgem de diversas formas, com características específicas, e podem ser de natureza ambiental, estrutural, de recursos humanos ou tecnológicos. Para que a mudança aconteça no interior da organização, é preciso que haja necessidade ou desejo, que algum fator determinante impulsione a empresa, alguém dissemine a idéia de mudança. Para Brito (1999, p.38) “a mudança é um fenômeno que ocorre em todos os campos de atividades humanas provocando transformações muitas vezes irreversíveis. Por meio das mudanças, surgem novos valores, novas maneiras de agir e pensar que afetam a sociedade como um todo e, em particular, alguns grupos e organizações.” As mudanças podem resultar de um processo de adaptação para tratar os problemas, ou serem programadas para promover mudanças por meio de estratégias adequadas. As mudanças de adaptação são chamadas de reativas – administração se adapta aos poucos, um passo de cada vez, para tratar dos problemas, a medida que vão surgindo, enquanto que as mudanças planejadas são chamadas de proativas – a organização desenvolve um programa de mudança planejada. A maneira pela qual será implementada a mudança no interior da empresa é o que garantirá o sucesso ou o fracasso do processo. Detectar o problema para procurar a forma adequada de contorná-lo é uma das primeiras etapas do processo de mudança. A mudança a ser implementada na gestão empresarial pode ser de vários tipos, depende do tipo de empresa e de suas necessidade. As mudanças implementadas nas empresas geralmente são intencionais, com intuito de mudar alguma coisa para melhorar o rendimento da empresa ou para superar algum problema existente. As transformações ocorridas no ambiente externo, bem como no ambiente interno das organizações, acontecem num processo contínuo e de maneira acelerada, exigindo uma ação rápida por parte das empresas e de todos envolvidos nesse processo. A mudança para a administração participativa no local de trabalho é inevitável e necessária. É inevitável porque a capacidade de participação está se tornando cada vez mais comum. É necessária porque as questões com as quais deparamos no local de trabalho são demasiadamente complexas e interdependentes para serem resolvidas pela autoridade de algumas pessoas. Demo (1988) afirma que participação é conquista para significar que é um processo, no sentido legítimo do termo: infindável, em constante vir-a-ser, sempre se fazendo. Não existe participação suficiente, nem acabada. Participação que se imagina completa, nisto mesmo começa a regredir. A melhor maneira de vencer a resistência no interior de qualquer organização é introduzir a inovação lentamente, em etapas calculadas, de maneira a causar o mínimo de transtorno. A organização precisa se adaptar às mudanças para continuar progredindo e implantando novas formas de agir. 3 A mudança para a participação O modelo de gestão utilizado pela organização determinará a rapidez da implantação e a intensidade da aplicação da gestão participativa. Uma organização que apresenta um modelo MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 204 de gestão introvertido (conservador) deverá passar por mais mudanças para se adaptar à participação do que uma organização que já pratica uma gestão extrovertida e que se formou mais voltada para a participação. O quadro 1 apresenta, a seguir, as principais características das empresas agrupadas, segundo modelos de gestão: ADMINISTRAÇÃO AUTORITÁRIA Projetada para atuar em ambiente estável. A concepção e a execução do trabalho estão distanciadas. Trabalho especializado, automatizado e rotineiro. Os setores operam de forma independente. ADMINISTRAÇÃO PARTICIPATIVA Flexível e adaptável às mudanças do mercado. Aproximação da concepção e execução dos trabalhos. A especialização visa a empresa como um todo. Os setores operam de forma harmônica e coordenada. Há, entre as pessoas, um nível mínimo ou inexistente de relacionamento. O relacionamento inter-pessoal é condição para o ajuste da empresa às mudanças externas. A cúpula da empresa detém todo o poder para decidir. As decisões são tomadas de forma participativa. A capacidade de reação lenta e reativa. Capacidade de reação rápida e pró-ativa. Reduzida capacidade de inovação. Grande capacidade de inovação. Quadro 1 - Contraste entre a Administração Autoritária e a Administração Participativa. Fonte: SEBRAE (2008). A mudança tem fatores-chave, tais como, participação de todos os níveis, ser construída sobre forças e valores organizacionais; ser de forma holística; ser planejada a longo prazo e desenvolvida em etapas; com apoio da alta gerência, e que seja contínua. A implantação da administração participativa envolve mudanças em três dimensões da organização: comportamental, estrutural e interfaces. Seus conceitos são apresentados a seguir: Comportamental administrativo e estrutura da mudança: a administração participativa, em primeiro lugar, é a substituição dos estilos tradicionais de administrar pessoas – autoritário, impositivo, indiferente, paternalista – por cooperação mútua, liderança, autonomia e responsabilidade. Informar, envolver, delegar, consultar e perguntar, em vez de mandar, são as palavras-chave da administração participativa no que diz respeito ao comportamento dos administradores. De acordo com Mendonça (1987, p.) “deve-se atentar para o fato de que certas alterações comportamentais havidas no interior de uma organização, muitas delas honesta e sinceramente orientadas para participação, não são compatíveis com estruturas hierárquicas rígidas e piramidais. Em outras palavras, a participação como processo precisa ter seu efetivo desdobramento ao nível da estruturação da organização.” Além dos aspectos comportamentais, a administração participativa também implica o redesenho das estruturas. Cargos, grupos de trabalho e a estrutura como um todo são organizados de modo que a participação dependa, não apenas das atitudes e disposições favoráveis das pessoas, mas também e, principalmente, do sistema de normas e procedimentos. A estrutura deve estimular as pessoas à participação. Nas organizações tradicionais ou não participativas, acontece o inverso: os regulamentos, as carreiras, a divisão do trabalho e o próprio organograma são estruturados de maneira que o poder fique concentrado no topo da pirâmide. Mudança de interface: na organização participativa, a administração é compartilhada em diferentes interfaces e não apenas nas relações com os funcionários. Clientes são MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 205 consultados em determinadas decisões sobre produtos e serviços enquanto fornecedores, distribuidores e o pessoal de assistência técnica participam de projetos de engenharia simultaneamente. A organização procura ser um sistema participativo interno, do ponto de vista comportamental e estrutural, e também aberto para o ambiente externo, recebendo todas as informações que possam ajudar no aprimoramento de sua administração. Elementos essenciais para a participação: McLagan et al. (1997) apresenta nove áreas de grande influência nas quais a mudança para a participação deve focar. Trazendo os princípios de administração participativa para essas nove áreas que se fortalecem mutuamente, pode ser criado um novo contexto, dentro do qual, a estrutura profundamente estabelecida da organização tem uma grande chance de mudar. As nove áreas de mudança de todo o sistema organizacional são apresentadas a seguir. Valores, estrutura e liderança: os valores são as forças de controle profundas e frequentemente invisíveis dentro de uma organização. Mais do que qualquer outro elemento, eles determinam a natureza da administração. Se os valores são autoritários, então são criadas as hierarquias, tira-se o poder das pessoas, formam-se mecanismos rígidos de controle, restringindo o acesso à informação e as pessoas são tratadas como subordinados. Os valores participativos invalidam tais práticas e causam reações diferentes. As estruturas refletem a filosofia da administração. A administração participativa não pode viver em estruturas que foram designadas para apoiar o autoritarismo. A empresa participativa valoriza o investimento de poder, a responsabilidade pessoal, o acesso aberto à informação e um foco no cliente. Esses valores não podem prosperar numa hierarquia autoritária, sob cadeias de comando. A liderança está pronta par inovar, indo além do conhecimento e criando o futuro. Ela também está relacionada com o auxílio às pessoas para se consolidarem no novo território que lhes dá esperança para o futuro. A nova administração requer um novo tipo de liderança que não dependa da superioridade e subordinação que apoiaram a liderança no passado. Processos de administração, informação e relacionamentos: os processos de administração incluem todas as ações importantes que se relacionam com a formulação e implementação de estratégia. Esses processos são elos vitais para a participação, porque são centrais para o sucesso econômico da organização e porque são determinantes poderosos da cultura da organização. Se a estratégia, os planos, orçamentos, objetivos, decisões e retorno se dão em formas autoritárias, então a participação só pode ser teórica. A informação fornece o contexto no qual as pessoas trabalham. Se o acesso à informação é restrito, fragmentado e controlado por autoridades, então esse contexto cria as condições de administração autoritária. O acesso à informação e a capacidade de usá-la para influenciar decisões são os determinantes decisivos do poder. Aquele que tem informação tem poder. Os relacionamentos são os componentes e, provavelmente, os indicadores mais poderosos da nova administração. Na organização autoritária, os comportamentos de relacionamento são hierárquicos e dependentes. Freqüentemente eles também são manipulativos. Na organização participativa, os comportamentos de relacionamento são interdependentes. Competências, controles e pagamento. As competências são, vale recordar, os recursos pessoais que ajudam a fazer um sistema de administração funcionar. As organizações autoritárias focalizam as competências das pessoas que têm autoridade. As pessoas que estão no controle precisam ser capazes de planejar, organizar, controlar, motivar e lidar com a alienação entre empregados que frequentemente resulta de dependência, sigilo e falta de responsabilidade. MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 206 Independente da forma de administração, toda organização precisa de controles. Os controles podem ser internos ou externos, impostos ou gerados por si mesmos. Os mecanismos de controle são importantes alavancas para o autoritarismo ou para a participação. O modo como eles são desenvolvidos e executados cria uma força poderosa que impulsiona a organização para uma ou outra forma de administração. O pagamento é um sinal tangível sobre o que é importante numa organização. É uma mensagem excepcionalmente poderosa sobre a administração porque é muito pessoal: as pessoas vêem seu pagamento com um retorno de seu valor individual e quanto é valorizado no trabalho. 4 Metodologia Realizou-se pesquisa de natureza qualitativa com a tipologia exploratório-descritiva. Iniciou-se o estudo com pesquisa bibliográfica e com o método da observação participante. Realizou-se estudo de caso numa indústria de bebidas em Fortaleza. Coletaram-se os dados necessários para a realização do estudo por meio da técnica da entrevista e do questionário. A indústria de bebidas de Fortaleza implantou três projetos que vislumbravam maior participação dos clientes internos. A pesquisa bibliográfica foi realizada em livros, revistas acadêmicas, com técnica da internet e sites especializados para busca de material sobre definição de gestão participativa, suas principais características, os níveis de participação, suas restrições e limitações, assim como os procedimentos para sua implantação, bem como sobre mudança organizacional, mudança contínua e como preparar a organização para uma gestão participativa. O método de coleta de dados utilizado foi a observação participante natural, denominado por Gil (1999) de técnica, explicando que “a observação participante, ou participação ativa, consiste na integração real do conhecimento na vida da comunidade, do grupo ou de uma situação determinada. Neste caso, o observador assume, pelo menos até certo ponto, o papel de um membro do grupo. E complementa que observação participante é natural quando o observador pertence à mesma comunidade ou grupo que investiga. Para a realização da observação participante, realizou-se estudo de caso em uma franquia Coca-Cola cuja sede localiza-se em Fortaleza e tem filiais em Natal, Teresina e Bahia. A empresa implantou em 2003 três projetos para proporcionar maior participação dos colaboradores por meio de sugestões, críticas e reclamações. Um projeto com total confidencialidade, outro com premiações para as melhores ideias dos funcionários, e o terceiro com o fim de proporcionar maior aproximação entre a diretoria e os colaboradores. A observação participante ocorreu durante um período de dez meses, de setembro de 2002 a julho de 2003, em que a pesquisadora teve a oportunidade de atuar como estagiária do departamento de Recursos Humanos da indústria de bebidas e teve como atribuições acompanhar a implantação e desenvolvimento dos projetos que visavam maior participação dos colaboradores. O contato direto da pesquisadora com a origem dos projetos, sua implantação e desenvolvimento bem como, com as reações dos funcionários à implementação dos projetos, possibilitaram-na ter uma visão abrangente sobre todas as etapas envolvidas no processo e, além disso, ter uma melhor percepção sobre o papel da mudança organizacional para o sucesso ou fracasso dos projetos de participação dos colaboradores. Para análise dos dados, confrontou-se a teoria sobre mudança organizacional e implantação de gestão participativa com as informações coletadas pela observação participante. Para verificar a importância da mudança organizacional para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações foi utilizado o modelo teórico proposto por MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 207 McLagan et al. (1997) que apresenta nove áreas de grande influência nas quais a mudança para a participação deve focar. Os noves elementos essenciais para a participação são: valores, estrutura, liderança, processo de administração, informação, relacionamentos, competências, controles e pagamento. Após a identificação do modelo de gestão do empreendimento, analisaram-se as mudanças pelas quais a empresa passou para implantar os projetos de participação e assim avaliou-se que importância as mudanças tiveram para o sucesso ou fracasso dos projetos. Analisaram-se comparativamente as práticas gerenciais da indústria de bebidas quanto à implementação dos projetos de participação dos colaboradores com o modelo teórico. Buscou-se identificar na implantação dos projetos, cada um dos nove elementos essenciais para a participação para avaliar se a organização se preparou para a implantação destes, pois isto poderia ser fundamental para o sucesso dos projetos. Seriam analisadas no estudo, as três dimensões da mudança organizacional para a implantação da administração participativa: comportamental, estrutural e interfaces. Contudo, a empresa objeto de estudo não implantou projetos para proporcionar a participação dos clientes externos, não sendo possível, portanto analisar dimensão relacionada à interface. Dessa forma, analisou-se apenas o lado comportamental e estrutural da participação. 5 Análise dos resultados – estudo de caso 5.1 A empresa A empresa objeto de estudo surgiu em 1998 da união de empresários visionários que resolveram unir forças projetando uma companhia moderna e comprometida com o futuro. A empresa conta com 4 unidades fabris localizadas nos municípios de Maracanaú, Simões Filho (BA), Vitória da Conquista(BA) e Teresina (PI), contando ainda com 7 unidades de distribuição localizadas nos municípios de Crato, Natal, llhéus, Feira de Santana, Barreiras, Porto Seguro e Mossoró. Com um faturamento médio anual em torno dos US$ 500 milhões empregando 2600 funcionários, a empresa já é a segunda maior produtora de Coca-Cola do Brasil, atrás apenas da Pananco/Spal, pertencente a um Grupo Mexicano, que atua em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A franquia de bebidas possui também uma Administração Central onde se concentram todas as operações de planejamento e controle do negócio. Da administração central são emanadas políticas, diretrizes e procedimentos que orientam a execução das operações nas diversas unidades. Tudo isso apoiado por uma rede de comunicação, via satélite, que integra sistemas informatizados, correio eletrônico e centrais telefônicas. A Administração Central está localizada no Município de Fortaleza no Estado do Ceará. 5.2 Projetos para Participação dos Colaboradores São apresentados a seguir, três projetos que foram implantadas na empresa objeto de estudo, que tiveram o intuito de proporcionar maior participação dos colaboradores por meio de diferentes canais de exposição de idéias, críticas, reclamações e sugestões. 5.2.1 Fale com o Presidente/ Fale com o RH Este projeto foi idealizado pelo Gerente de Recursos Humanos da empresa objeto de estudo, a partir de uma reportagem da Revista Exame - As 100 Melhores Empresas para se Trabalhar. Várias empresas apresentadas na revista dispunham de algum meio de MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 208 comunicação para proporcionar maior participação dos colaboradores por meio de um canal em que estes pudessem expressar suas idéias, sugestões, críticas e reclamações. Este projeto teve como objetivo proporcionar maior integração entre os colaboradores de todos os níveis hierárquicos com o Departamento de Recursos Humanos e com a Presidência. Além disso, a empresa buscava preparar-se, com este e outros projetos sociais, para a avaliação dos pesquisadores da revista supramencionada e conseguir classificar-se em 2004 entre as cem melhores empresas nacionais para se trabalhar. Para a implantação do projeto, foram adquiridos envelopes pré-selados junto às agências dos Correios, e posteriormente enviados a uma tipografia para alguns serem endereçados à Presidência da organização e outros ao Departamento de Recursos Humanos. Ambos seriam direcionados ao escritório central da empresa, sendo que um continha os dizeres - Fale com o Presidente e o outro - Fale com o RH. Por meio desse canal de comunicação, os colaboradores poderiam expor com total confidencialidade, suas idéias, darem sugestões sobre novas formas de agir, de executar tarefas, bem como exporem suas insatisfações e apresentarem críticas à organização ou aos seus gestores. O anonimato era fundamental para oferecer total espontaneidade e sinceridade nas mensagens dos colaboradores. Foram instaladas em cada unidade da empresa, tanto nos escritórios, como nas fábricas, caixas de madeira projetadas especificamente para a viabilização desse projeto, em que seriam disponibilizados os dois tipos de envelopes. O funcionário interessado em expressar suas idéias à Presidência ou Gerência de RH, deveria dirigir-se à caixa em que se localizavam os envelopes, escolher o seu destinatário, escrever sua mensagem em sigilo e depositar gratuitamente seu envelope em qualquer agência dos Correios. A divulgação do projeto ocorreu por meio de intranet e do jornal da empresa, sendo de competência da Analista de Comunicação Interna elaborar texto explicativo de forma a enfatizar a importância e os objetivos deste. A intranet atenderia a todos os funcionários que trabalham nos escritórios da empresa e o jornal interno, abrangeria os funcionários que não utilizam computadores na execução de suas atividades, como os vendedores. Na primeira semana após a divulgação do projeto, as cartas começaram a chegar no escritório central e serem encaminhadas para seus destinatários. Entretanto, esperava-se maior participação dos colaboradores, como ocorria em algumas empresas citadas na revista e fora mostrado pelos seus respectivos gerentes de Recursos Humanos. Houve um pouco de dificuldade quanto a responder aos funcionários sobre suas ideias, pois algumas mensagens eram bem específicas e não seria apropriado divulgar para toda a empresa o seu conteúdo. Não houve muito retorno quanto à aplicação das sugestões, ou críticas dos colaboradores, além destes não conseguirem identificar mudanças ocorridas na organização com a implantação do projeto. Dessa forma, o projeto não conquistou a confiança dos colaboradores que temiam serem descobertos caso escrevessem alguma mensagem de cunho negativo e consequentemente serem punidos. O resultado disso foi que com dois meses de implantação do projeto, poucas correspondências foram recebidas, demonstrando pouca adesão e credibilidade dos colaboradores. Nas fábricas, os funcionários do Departamento de Recursos Humanos perceberam que os envelopes estavam sendo utilizados por alguns colaboradores como rascunho, para fazerem anotações de telefone, endereços, rabiscos, desenhos. E mesmo repondo os envelopes na caixa do projeto, estes acabavam logo, mas não chegavam ao seu destino. Isto começou a representar um custo para a empresa, mas sem atender os objetivos para o qual fora criado. MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 209 Com a demissão do Gerente de Recursos Humanos, idealizador do projeto, este foi desativado, não sendo mais comprados novos envelopes para reposição e sendo desinstaladas as caixas do projeto. A empresa não implantou adequadamente as mudanças necessárias para a participação dos colaboradores, levando esse projeto ao fracasso. 5.2.2 Suas Idéias, Nossas Soluções Este projeto foi implantado de forma a estimular os funcionários, principalmente quanto a darem sugestões diversas sobre novas formas de executarem as atividades de seus setores ou em outros departamentos, ou até mesmo maneiras de melhorar os produtos oferecidos pela empresa e forma de atendimento. Os gestores estimulavam a adesão dos colaboradores por meio de premiações em dinheiro, sendo esta uma porcentagem do salário. Além disso, por meio de divulgação no jornal interno, o funcionário era parabenizado pela sua iniciativa e dava uma entrevista sobre a sua ideia e tinha a sua foto e sugestão divulgada para todos, sendo para ele um motivo de orgulho e motivação. Neste projeto, as ideias selecionadas eram realmente implantadas por isso, a divulgação no jornal interno. Outros colaboradores poderiam ser estimulados a dar a mesma contribuição, ou com essa atitude, poderiam buscar no seu cotidiano, novas formas de agir e de desempenhar suas atividades e a partir disso, surgirem novas ideias. Dessa forma, os funcionários se sentem parte importante da empresa e percebem que podem dar muita contribuição para o crescimento organizacional. 5.2.3 Café com a Diretoria Este projeto buscou maior integração dos colaboradores do escritório central com a Diretoria Administrativa. O projeto limitou-se ao escritório central em Fortaleza, pois a empresa possui várias filiais em outros estados nordestinos e assim, o Diretor Financeiro teria uma amostra do clima organizacional com o contato com os colaboradores que trabalham na matriz. O escritório central da empresa é composto pelos Departamentos de Recursos Humanos, Jurídico, Administrativo, Controladoria, Suprimentos, Financeiro, Orçamento e Informática. Todos os colaboradores de cada unidade teriam um dia reservado para tomar café da manhã com o Diretor Administrativo e com outros colaboradores de outros departamentos e assim, falarem sobre o andamento de seus trabalhos, apresentarem críticas e sugestões. Um total de cento e seis funcionários seria dividido em quatro grupos para que uma vez por semana, o Diretor Administrativo tomasse café da manhã, nas dependências da empresa, com um dos grupos de colaboradores e conversassem sobre diversos assuntos. Dessa forma, a Diretoria teria mais proximidade com os problemas que os colaboradores enfrentam no dia-a-dia. Nos encontros, os colaboradores questionavam ao Diretor a possibilidade de mudança no horário de trabalho, solicitavam aumento no valor do vale refeição, argumentavam sobre suas reinvidicações, comentavam sobre o desempenho da empresa comparado a outras franquias do mesmo ramo de atividade. Era um momento para expressar as insatisfações e contribuir de alguma forma para o desenvolvimento da organização. Como a empresa utilizava um modelo de gestão conservador e autocrático, os colaboradores não se sentiam livres para expressar frente ao Diretor as suas angústias e insatisfações, pois temiam perder o emprego. Após o encontro com o primeiro grupo, os outros funcionários ficaram curiosos para saber o que tinha sido conversado, se houve muitas cobranças, se o Diretor havia sido simpático ou não. MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 210 Esse projeto foi extinto um mês após sua implantação devido à dificuldade de conciliar os horários do Diretor com o projeto. Além disso, não houve muita participação ativa dos colaboradores que apesar de frequentarem os encontros, não se sentiam à vontade para expor, com sinceridade os seus sentimentos, pois não acreditavam que pudessem haver melhorias. 6 Considerações finais Todos os projetos implantados na empresa durante o período estudado tiveram como objetivo proporcionar maior participação dos colaboradores. Contudo, possibilitaram apenas uma participação parcial, pois os funcionários não tiveram a possibilidade de contribuir com seus conhecimentos e experiências para a tomada de decisões. A participação permitiu apenas estimular os colaboradores a darem ideias, sugestões, críticas e fazerem reclamações. São apresentados, a seguir, três quadros com os resultados de cada projeto implantado na indústria de bebidas, comparando-se as áreas essenciais com as mudanças organizacionais para a participação. Áreas essenciais Valores Fale com o Presidente / Fale com o RH O projeto não proporcionou mudança de valores, os quais continuaram autoritários. Contudo, as pessoas passaram a ter abertura para expressarem seus pensamentos de forma sigilosa. Estruturas Manutenção da hierarquia autoritária, sob cadeias de comando. Liderança Manutenção da liderança relacionada à superioridade e subordinação. Processos de A estratégia, os planos, objetivos e decisões se deram de forma autoritária. As idéias e Administração sugestões seriam ouvidas, mas não necessariamente aplicadas. Informação Acesso restrito à informação. Não houve divulgação ou mesmo resposta às sugestões dos colaboradores. Relacionamentos Foi necessário mostrar que as informações seriam sigilosas para haver participação dos colaboradores. Mesmo assim, as pessoas temeram serem descobertas e não aderiram muito. Competências Os colaboradores continuaram com conhecimento restrito sobre os negócios e os superiores continuaram no controle. Controles Mesmo os superiores não tendo controle sobre a autoria das mensagens, os colaboradores continuaram temendo ser descobertos. Pagamento Não havia nenhum tipo de pagamento para estimular a participação dos colaboradores. Quadro 2 – Mudanças ocorridas com a implantação do projeto Fale com o Presidente / Fale com o RH. Fonte: Pesquisa de Campo. Áreas essenciais Valores Café com a Diretoria O projeto não proporcionou mudança de valores, os quais continuaram autoritários. Contudo, a Diretoria buscava estabelecer uma relação de confiança entre os colaboradores, acolhendo-os com um café e assim tentando aproximação por meio de uma conversa informal. Estruturas Manutenção da hierarquia autoritária, sob cadeias de comando. Liderança Manutenção da liderança relacionada à superioridade e subordinação. Processos de A estratégia, os planos, objetivos e decisões se deram de forma autoritária. As idéias e Administração sugestões seriam ouvidas, mas não necessariamente aplicadas. Informação O projeto tinha como objetivo colher informações dos colaboradores ao invés de informá-los sobre o desempenho da empresa. Relacionamentos O contato direto dos colaboradores com o Diretor Administrativo inibiu a participação dos funcionários que insistiam quanto a presença a esses encontros ser voluntária, pois sentiam-se intimidados pelo superior hierárquico. Competências Os colaboradores continuaram com conhecimento restrito sobre os negócios e os MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 211 superiores continuaram no controle. O projeto buscava maior controle sobre o desempenho dos funcionários. Não havia nenhum tipo de pagamento para estimular a participação dos colaboradores. Contudo, os colaboradores tomavam café bem especial preparado por um buffet com a Diretoria. Quadro 3 – Mudanças ocorridas com a implantação do projeto Café com a Diretoria. Fonte: Pesquisa de Campo. Controles Pagamento Áreas essenciais Valores Suas idéias, Nossas Soluções O projeto não proporcionou mudança de valores, os quais continuaram autoritários. Contudo, as pessoas eram estimuladas a expressarem suas idéias por meio de premiações em dinheiro. Estruturas Manutenção da hierarquia autoritária, sob cadeias de comando. Liderança Manutenção da liderança relacionada à superioridade e subordinação. Processos de A estratégia, os planos, objetivos e decisões se deram de forma autoritária. As idéias e Administração sugestões seriam ouvidas, mas não necessariamente aplicadas. Informação Divulgação das idéias premiadas e dos colaboradores que participaram por meio de suas sugestões. Relacionamentos Reconhecimento das idéias por parte da empresa e superior hierárquico estimulavam a participação. Competências Os colaboradores continuaram com conhecimento restrito sobre os negócios e os superiores continuaram no controle. Controles As idéias eram colaboradores, mas a Diretoria tinha o controle para decidir se iriam utilizá-las ou não. Pagamento Os colaboradores que contribuíram com as melhores idéias receberam prêmios em dinheiro, sendo este proporcional ao salário. Quadro 4 – Mudanças ocorridas com a implantação do projeto Suas Idéias, Nossas Soluções. Fonte: Pesquisa de Campo. É possível visualizar nos quadros 2, 3 e 4 que não houve integração entre as áreas essenciais e as mudanças ocorridas na organização. É fundamental a mudança do autoritarismo para a administração participativa, pois este afeta e transforma muitos comportamentos e premissas. Focalizar todos os nove elementos organizacionais de grande influência pode produzir mudança organizacional que vai ter repercussões, em todos os aspectos das interações e da vida da instituição. Enquanto qualquer uma dessas nove áreas continuar autoritária, permanece um posto avançado a partir do qual o velho sistema pode atacar e depreciar o novo. Isso pode acontecer quando os sistemas de pagamento não mudam, quando as estruturas continuam rigidamente hierárquicas, quando os processos de administração continuam exclusivos e autoritários e quando os líderes se comportam como faziam no passado, ao mesmo tempo em que pedem aos colaboradores na organização, que se comportem de novas maneiras. É necessário dar atenção especial à mudança, para permitir que as organizações alcancem os níveis planejados de participação e para que os efeitos da participação sobrevivam à excitação inicial. Em alguns casos, os esforços de mudança podem deixar as organizações em estado pior do que estavam antes, pois geram desconfiança nos colaboradores que veem nos projetos de participação, mais uma forma de controle que não tem a intenção de reduzir a distância entre os níveis hierárquicos da organização. O compromisso com a nova administração não é uma questão de procurar e escolher os itens no conjunto das técnicas transformacionais que se quer mudar. Isso significa um compromisso com a transformação, ou seja, com a participação. Dessa forma, pode-se presumir que sem mudança comportamental dos gestores e consequentemente dos colaboradores, bem como de mudança na estrutura organizacional, a participação é apenas teórica, pois na prática, continua a se exercitar o autoritarismo. MOREIRA, Márcia Zabdiele Moreira; LEITE, Francisco Tarciso. Mudança organizacional como fator determinante para o desenvolvimento dos níveis de participação nas organizações: estudo de caso numa indústria de bebidas de Fortaleza. Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010. 212 Referências BRITO, Linelsa Varela. Mudança organizacional e gestão participativa na Secretaria de Educação Básica do Estado do Ceara. Dissertação defendida na Universidade de Fortaleza. Fortaleza 1999. DEMO, Pedro. Participação é conquista: noções de política social participativa. São Paulo: Cortez, 1988. Gestão Participativa. Disponível In: http://www.sebrae.com.br/br/ parasuaempresa/ planejee organize_1022.asp. Acesso em 13.06.04. LEITE, Francisco Tarciso. Por uma teoria da gestão participativa: novo paradigma de administração para o século XXI. Fortaleza: Universidade de Fortaleza, 2000. Gestão Participativa. Disponível em: <www.sebrae.com.br/br/parasuaempresa/planejee organize_1022.asp. Acesso em 13.06.04. 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Faculdades Cearenses em Revista, Fortaleza, v.2, n.2, p. 199-212, jan./jun. 2010.