UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO
GRANDE DO SUL
TARCÍSIO SAMBORSKI
SUPERAR A DIFUSÃO: DESAFIO E DILEMA
PARA OS EXTENSIONISTAS RURAIS
IJUÍ (RS)
2007
TARCÍSIO SAMBORSKI
SUPERAR A DIFUSÃO: DESAFIO E DILEMA
PARA OS EXTENSIONISTAS RURAIS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Educação nas Ciências - Mestrado da Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de
Mestre.
Orientador: Prof. Dr. Walter Frantz
IJUÍ (RS)
2007
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências - Mestrado
A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a dissertação intitulada
SUPERAR A DIFUSÃO: DESAFIO E DILEMA
PARA OS EXTENSIONISTAS RURAIS
Elaborada por
TARCÍSIO SAMBORSKI
como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação nas Ciências.
Banca Examinadora
Prof. Dr Walter Frantz (orientador)
Prof. Dr. Otávio Aloiso Maldaner
Profª. Drª. Elza Maria Falkembach
Prof. Dr. José Antonio CostaBeber
Ijuí(RS), 18 de janeiro de 2007.
Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e,
enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi
propriamente dita.
As Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
(Mário Quintana)
AGRADECIMENTOS
À Andréa, ao Tales e ao Theo, pelas ausências, pelas “presenças ausentes ou
incômodas” e a bagunça pela casa.
Aos meus pais, Carlos e Clair, que sempre me deram muita força e ensinamento.
Ao professor Walter Frantz, pela orientação e a liberdade permitida na construção
deste estudo.
A todos os meus colegas da EMATER/RS-ASCAR que colaboraram de forma direta
nas entrevistas ou de forma indireta em conversas sobre o tema.
A todos os agricultores e agricultoras que enfrentam o sol sobre a pele e sobre suas
lavouras, a rudeza de instrumentos que calejam mãos e lesionam articulações e a crueza das
relações econômicas impessoais e injustas, entre tantas outras adversidades, para permitir que
todos aqueles que podem comprar possam sentar à mesa e fazer suas refeições.
RESUMO
O presente trabalho constitui um estudo sobre os serviços de Extensão Rural prestados
no Brasil. O objetivo principal deste estudo é identificar o esforço e a busca de superar o
legado da teoria de difusão de informações no fazer Extensão Rural na empresa
EMATER/RS-ASCAR. Além de analisar como se construiu a visão difusionista inovadora na
Extensão Rural e sua conseqüência para os agricultores, este estudo apresenta algumas
contribuições que podem auxiliar os trabalhadores em Extensão Rural a tornarem sua
atividade mais democrática, no sentido da participação daqueles com quem trabalham, e mais
eficiente nas mudanças provocadas rumo a um desenvolvimento sustentável. Inicialmente, o
texto apresenta como a construção de um sistema elaborado de conhecimento influenciou a
agricultura; depois, mostra a influência da agricultura no surgimento do modo capitalista de
produção e a maneira como passa a articular-se dentro da sociedade industrial. Avançando
sobre a temática, analisa o surgimento dos serviços de Extensão Rural no Brasil, as principais
orientações teóricas que contribuíram na consolidação do difusionismo e o esforço que é
realizado para superar esse modelo na Extensão Rural, através da incorporação de teorias
críticas da educação. Dessa forma, espera-se contribuir com o desempenho dessa atividade na
construção do desenvolvimento rural sustentável.
Palavras-Chave: Extensão Rural, Difusão de inovações, Agricultura, Educação Rural,
ABSTRACT
The present work constitute in a study about services of rural extension carred in Brazil.
The main thing objective of this study is identify the effort and the search of overcome the
legacy of the theory of diffusion of information in make rural extension in the EMATER/RSASCAR company. Besides analyze as the vision innovative was built in the rural extension and
it’s consequence for the farmers, this study to present some contributions that to assist the
workers in rural extension to turn his democratic activity, in the participation of those with that
works and more efficient in the changes provoked heading for a maintainable development. To
get to accomplish those objectives, first we will present as the construction of an elaborated
system of knowledge influenced the agriculture, later to show the influence of the agriculture in
the appearance in the capitalist way of production and the way with that it passes pronouncing
inside of the industrial society. Advancing on the theme, we will analyze the appearance of the
services of rural extension in Brazil, the main theoretical orientations that they contributed in the
consolidation of the diffusion of innovations and the effort that it is accomplished to overcome
that model in the rural extension through the incorporation of critical theories of the education.
However, we hoped to contribute with the acting of that activity in the construction of the
maintainable rural development.
Key words: Rural Extension, Diffusion of innovations , Agriculture, Rural Education.
LISTA DE SIGLAS
ACAR/ MG - Associação de Crédito e Assistência Rural de Minas Gerais
AIA - Associação Internacional Americana
APTA - Associação de Programas em Tecnologias Alternativas do Espírito Santo.
AS - PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa
ASCAR - Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural
BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento
BIRD - Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento
CETAP - Centro de Tecnologias Alternativas Populares no Rio Grande do Sul
DRP - Diagnóstico Rápido Participativo
EMATER/RS - Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão
Rural
EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
EMBRATER - Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural
ESAV - Escola Superior de Agronomia e Veterinária de Viçosa
ETA - Escritório Técnico Brasil-EUA
FAEAB - Federação das Associações de Engenheiros Agrônomos do Brasil
FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação
FASE - Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional
FEAB - Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil
FETAG/RS - Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul
FETRAF – Sul - Federação de Sindicatos de Agricultores Familiares
FPM - Fundo de Participação dos Municípios
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IIAA - Instituto Interamericano para Assuntos da América
IICA - Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola
MPA - Movimento dos Pequenos Agricultores
OEA - Organização dos Estados Americanos
ONGs - Organizações Não Governamentais
PTA - Projeto Tecnologias Alternativas
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO......................................................................................................................... 09
1 CONHECIMENTO, AGRICULTURA E HISTORICIDADE........................................
1.1 O Trabalho como princípio fundante da sociedade.........................................................
1.2 A Mitologia como explicação da realidade....................................................................
1.3 Da Grécia e dos mosteiros para a academia: a construção do pensamento ocidental.......
15
15
20
24
2 A AGRICULTURA NA SOCIEDADE INDUSTRIAL...................................................... 35
3 A EXTENSÃO RURAL NO RIO GRANDE DO SUL....................................................... 46
3.1 O espaço da pesquisa e a metodologia utilizada................................................................ 46
3.2 Origens e institucionalização dos serviços da EMATER/RS-ASCAR............................. 51
4 A EXTENSÃO RURAL E A BUSCA DE NOVOS RUMOS: UMA ABORDAGEM A
PARTIR DA EDUCAÇÃO...................................................................................................... 76
4.1 A Abordagem Histórico-Cultural seria uma contribuição à Extensão Rural
contemporânea? ......................................................................................................................... 88
CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................................
103
REFERÊNCIAS........................................................................................................................ 107
INTRODUÇÃO
“De repente cai o nível e eu me sinto um imbecil... repetindo...
repetindo... repetindo... como num disco riscado o velho texto
batido, o discurso dos amantes mal amados, dos amores mal
vividos e um terror de ser deixada...”
(Simon e Garfunkel)
Apesar da perda que o texto escrito causa na letra da música Não vale a pena,
brilhantemente interpretada por Maria Rita, ele tem a capacidade de traduzir o que era
pensado no momento de definição do referencial teórico escolhido para esta dissertação. Para
muitos, certamente, a maneira escolhida para abordar o tema desta escrita é um discurso de
amores mal vividos, de nível rebaixado filosoficamente diante de tantos “neos e pós”
existentes. Mas devo afirmar que, mesmo diante de tantas teorias contemporâneas,
questionando ou buscando superar o marxismo, melhor permanecer fiel ao velho texto batido.
Talvez seja para evitar uma sensação de ser deixado, um subterfúgio para evitar uma
separação, já que esses referenciais são a orientação teórica da minha prática por grande parte
da vida. Isso até pode ser possível. Mas a principal razão, seguindo na metáfora escolhida, é
porque, mesmo depois de tantos percalços, de tantas fofocas, de tanto falarem mal dessa
companhia, ainda acredito nessa relação!
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A inquietação inicial, que serviu de motivo a esta dissertação, era saber como a
Extensão Rural no Rio Grande do Sul está tentando superar a forma difusionista - inovadora
que dominou a intervenção extensionista desde o seu início. O questionamento a essa forma,
digamos, “tradicional” de ação extensionista é feita há anos. Além da crítica, têm surgido
propostas que visam a produzir uma alteração no fazer extensionista em direção a uma
postura mais participativa e dialógica? Quais as dificuldades que essas propostas têm
encontrado nessa mudança? Afora a constatação das dificuldades, é possível colaborar com
novos elementos no campo educacional que sejam úteis nessa árdua construção de uma nova
Extensão Rural?
Para fazer isso, decidi, pelas razões acima expostas, analisar o tema a partir do
paradigma do trabalho, pois entendo que o marxismo ainda representa o melhor referencial
teórico àqueles que buscam superar a alienação dos homens. Fácil seria qualificar esse esforço
como uma atitude militante, como um certo proselitismo político, panfletário. Quem sabe?
Entretanto, em nome da correção na política, do combate ao sectarismo etc. e tal, inaugurouse na década de 1990 e perdura até hoje um oportunismo intelectual que permite a
contemplação dos temas, sua discussão e a elaboração sobre objetos (inclusive por aqueles
que o negam) sem a devida preocupação com os homens e suas mazelas. Em nome da fuga ao
proselitismo, caiu-se numa apatia e num imobilismo que esconde e mantém a perversidade do
sistema capitalista.
A forma como decidi abordar o tema da Extensão Rural foi sendo construída através
de minhas reflexões como Extensionista Rural. Essas reflexões foram feitas a partir de três
referenciais básicos: os pré-conceitos que já possuía pelo empirismo e experiência cotidiana
na atividade; as leituras de temas pertinentes à área e mesmo aquelas que na maioria das vezes
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julgamos que “não têm nada a ver”; e as observações que foram sendo colhidas através de
entrevistas ou de “prosas amenas” com colegas, agricultores e as diversas pessoas que tratam
sobre o assunto, seja direta ou indiretamente.
Esses referenciais somente aqui são separados, porque são atividades de pesquisa e
observação diferentes, mas formam um amálgama cuja separação é difícil ou mesmo
impossível. A bibliografia existente sobre a Extensão Rural é relativamente escassa quando
comparada a outras áreas das Ciências Agrárias.Felizmente foi possível contar com o acervo
da biblioteca central da EMATER/RS-ASCAR e da UNIJUÍ e dos empréstimos de alguns
colegas e professores que permitiram uma boa revisão sobre o assunto, tentando entender o
que era objeto de estudo ou debate dentro desse setor e o que poderia utilizar neste
trabalho..Buscando mais precisão e fundamentos, optei por realizar entrevistas semiestruturadas com alguns colegas, dentre as diversas categorias funcionais dos empregados da
empresa EMATER/RS-ASCAR, material que muito contribuiu nessa dissertação, talvez não
tanto na utilização direta em citações ou referências, mas na alteração de rumos que aconteceu
durante a elaboração final.Contudo, por razões que serão explicadas no capítulo três, acabou
surgindo uma falha em nossa metodologia que foi a ausência de entrevistas com o público
que os profissionais atendem na região.
Essa lacuna é suprida, em parte, graças à experiência que possuo em mais de dez
anos na atividade de Extensão Rural na empresa e um convívio de vários anos com o setor
agrícola e os agricultores da região do estudo, apoiando e assessorando movimentos sociais e
sindicatos de trabalhadores rurais.Claro que minha visão não substitui a enquete direta aos
produtores, mas ao menos garante um conhecimento substancial de suas aspirações e
concepções sobre o assunto.
Resumidamente, foram esses os instrumentos utilizados para construir esta
dissertação, que é um olhar sobre a Extensão Rural. E sendo um olhar, está sujeito a todas as
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limitações de quem o lança, tanto pelo local onde se encontra, pela situação do ambiente em
que vive, como por sua “miopia” e seus desvios de foco, mesmo que o esforço tenha levado a
apertar os olhos e buscar a visão mais acurada possível.
Inicialmente, o texto da dissertação apresenta como os humanos, a partir de sua vida
material, foram construindo outras instâncias de mediação da realidade, em processos de
conhecer e sistematizar suas experiências e que os levou à construção de complexos sistemas
de conhecimento. Partindo da mitologia, primeira forma de explicação do mundo, busca
mostrar como foram construídos os sistemas de conhecimento e a relação e participação que a
agricultura teve nesse processo. Esses sistemas elaborados de conhecimento influenciaram a
agricultura, evidenciando que esse setor não é tão atrasado e resistente à mudança como
pensam, ainda hoje, muitas pessoas. Longe disso, esse setor tem respondido aos papéis que a
divisão social do trabalho tem construído para ele durante a nossa breve história humana, em
especial, a partir do surgimento da urbe.
Ainda no primeiro capítulo, a escrita dissertativa também procura mostrar que muitos
elementos que persistem no imaginário dos agricultores ou nas suas práticas cotidianas nos
dias de hoje não surgiram apenas de processos de aprendizados sobre tentativa e erro ou em
formas comunitárias de partilhamento de significados; e sim são resquícios de metanarrativas
e processos de sistematização de conhecimentos que já foram hegemônicos em outras épocas
e serviram aos humanos na interpretação e compreensão do mundo, mas que ainda hoje
continuam ativos, compondo o saber local de muitas comunidades rurais. Quem que não teve
a oportunidade de presenciar uma benzedura ou ao menos referências a essa prática?
13
O segundo capítulo analisa a influência da agricultura no surgimento do modo
capitalista de produção, apresentando uma tese de Elen Woods, um tanto polêmica, de que o
capitalismo nasceu nos campos melhorados da Inglaterra. A análise enfoca, ainda, a maneira
como o modo de produção capitalista passa a articular-se dentro da sociedade industrial,
desempenhando as macrofunções determinadas pelo sistema industrial, o progresso técnico
como a forma peculiar e massificada de modernização euro-americana que se instalou no
Brasil e as críticas que recebeu e está recebendo.
No terceiro capítulo, o foco de análise é o universo da Extensão Rural. São
resgatados o surgimento e desenvolvimento dos serviços de Extensão Rural no Brasil a partir
da análise da empresa EMATER/RS-ASCAR. Onde foi a primeira experiência, quem foram
os estimuladores e financiadores? Quais as suas principais orientações teóricas? Como se
instalou e consolidou o modo difusionista inovador nos serviços de Extensão Rural? O estudo
aborda a construção de um sistema nacional pujante e sua decadência; as alternativas que os
governos estaduais adotaram e ainda estão adotando para manter em funcionamento a
EMATER/RS-ASCAR após a extinção da EMBRATER, centrando a análise nas tentativas e
esforços que estão sendo feitos para democratizar a ação extensionista dessa empresa.
O quarto e último capítulo constitui um debruçar-se sobre esse esforço de superar a
forma tradicional de Extensão Rural a partir de alguns enfoques educacionais. Nele, mostro a
importância de Paulo Freire na crítica ao extensionismo feito sob uma forma bancária de
educação, a incompreensão que existe de sua obra e a influência da mesma na construção de
métodos participativos. Métodos estes que já estão sendo utilizados há muito tempo no Rio
Grande do Sul e dos quais apresento dois exemplos: O programa PRORENDA e os DRP,
feitos pela EMATER/RS-ASCAR. Para encerrar esse capítulo, serão abordadas algumas
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questões mais relevantes para o período que a Extensão Rural vive. Através da abordagem
histórico-cultural, são apresentadas algumas contribuições para a prática extensionista em
bases democráticas e comprometidas com a transformação da sociedade, buscando contribuir
para o desempenho dessa atividade na construção do desenvolvimento rural sustentável.
1 CONHECIMENTO, AGRICULTURA E HISTORICIDADE
1.1 O Trabalho como princípio fundante da sociedade
Rossi (1992), em seu livro Filosofia e ciência dos modernos, afirma que a imagem
da ciência moderna se apresenta como um dado eterno da cultura, alguma coisa que sempre
existiu ou uma forma do espírito universal (p.53-5). Diante disso, este capítulo procura
resgatar um pouco da história do conhecimento ocidental. Um resgate que tem por intenção
demonstrar que a ciência moderna, como todo conhecimento humano, é uma construção
histórica e dos humanos. Parece carregada de obviedade tal afirmação, mas reafirmar essa
historicidade é salutar para evitar o dogmatismo da ciência e da técnica e ressaltar o aspecto
histórico e de construção humana do conhecimento e também das formas de “fazer
agricultura”. Saliente-se que, como toda compilação, mais ainda devido à dimensão, à
temporalidade e à complexidade do assunto abordado, este trabalho certamente apresenta
várias lacunas e/ou omissões - o que, no meu entendimento, não desmerece nem invalida as
conclusões que serão apresentadas.
Analisando como se deu o desenvolvimento da agricultura, Mazoyer e Roudart
(1998) lembram que a espécie Homo sapiens sapiens é recente, seu surgimento ocorreu entre
cinqüenta mil e vinte mil anos atrás, mas foi a espécie que conseguiu maiores e mais rápidos
avanços técnicos, pois há dez mil anos já pratica agricultura e criação de gado. Mas essa
característica não surgiu espontaneamente com essa espécie. Duas espécies antecessoras, os
Homini Habiles e Hominis ereti, que viveram no período conhecido como paleolítico antigo,
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o mais longo da pré-história (três milhões a duzentos mil anos antes da atualidade), são
considerados os primeiros hominídeos que tiveram uma verdadeira história técnica e cultural,
pois da utilização dos calhaus (lascas de pedras de determinado tamanho) grosseiramente
talhados chegaram aos bifaces especializados; da depredação simples à caça organizada das
grandes presas; do nomadismo à ocupação de grutas e ao estabelecimento de lares. Supõe-se,
por tudo isso, que eles desenvolveram um mínimo de linguagem para a comunicação. Já no
paleolítico médio, os Neandertalenses, povo nômade que já dominava o fogo, aprimorariam
os instrumentos de pedra talhada por percussão. Essa melhoria deu-se graças a uma nova
técnica de preparo de instrumentos cortantes -
desbaste levalloivense -
que amplia
significativamente o poder de corte desses instrumentos e a sua eficiência na realização das
tarefas em que eram utilizados. Também é dessa época a caça organizada em grandes batidas,
levando rebanhos inteiros para armadilhas naturais. A descoberta, pela arqueologia, de
corantes e adornos com dentes de animais dá a entender que eram um povo com preocupações
estéticas, mesmo que não existam indícios de produção artística no período. São dos
Neandertalenses os registros das primeiras sepulturas e sítios funerários, indicando que já
apresentavam preocupações espirituais.
Para os autores supracitados, o Homo sapiens sapiens, desde o primeiro período de
sua história, no paleolítico recente (40.000 a 11.000 anos da atualidade) seria autor de
progressos técnicos que aumentaram enormemente a eficiência de seus instrumentos e
ampliaram a sua valência ecológica, permitindo sua expansão geográfica por grande parte do
globo terrestre. Mudanças anatômicas nessa espécie, como o aumento do volume e
circunvoluções do cérebro - graças a uma dieta alimentar mais rica em proteínas - e o
desenvolvimento da faringe e da linguagem articulada, facilitaram a criação e a permuta
técnica e cultural.
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No período neolítico, o homem já havia passado da fase de caça e coleta para a
agricultura. Tudo graças à melhoria nos instrumentos que passou a utilizar, como as pedras
polidas, a cerâmica de terra cozida e a domesticação de espécies vegetais e animais. Essa é a
primeira revolução agrícola, a revolução neolítica. O Homo sapiens sapiens tornou-se
agricultor. Mazoyer e Roudat (1998), discorrendo sobre a magnitude dessa mudança, afirmam
que:
[...] homem não nasceu agricultor, quando surgiu o homem sapiens sapiens era
caçador-recoletor. Quando começou a praticar a agricultura e a criação de gado, não
encontrou na natureza nenhuma espécie previamente domesticada, mas domesticouas em grande número. Também não dispunha de instrumentos anatômicos adaptados
ao trabalho agrícola, mas fabricou-os de todas as espécies e cada vez mais
poderosos. Enfim, nenhum saber inato ou revelado lhe ditava a arte e o modo de
praticar a agricultura [...] (p.38).
Obviamente que a passagem da fase de caça e coleta para a agricultura não foi algo
simples. Mazoyer e Roudat (1998) apontam, como fatores principais que permitiram o
desenvolvimento dessa nova forma encontrada pelos humanos para buscar o atendimento de
suas necessidades, o crescimento populacional, o aumento do tempo de trabalho na caça e
coleta diante da escassez dos alimentos pela concorrência e a existência de condições técnicas
como as ferramentas e espécies domesticadas. Entretanto, essa mudança técnica econômica
produziu profundas transformações sociais e culturais. A alteração na vida dos humanos a
partir do início da agricultura exigiu o estabelecimento de um conjunto de regras para
preservar o direito de colheita dos campos por quem havia semeado e a preservação do direito
à caça dos animais de criação. Afora o regramento inicial das “propriedades”, os humanos
dessa época tinham de reservar parte dos grãos como sementes e dos animais como
reprodutores, dividir o novo trabalho entre os membros do grupo, criar novas formas de
sucessão familiar, enfim “institucionalizar” um novo modo de vida que permitisse a
manutenção e reprodução do grupo.
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Tudo isso corrobora a ontologia marxiana, que concebe o trabalho como estruturante
do ser social e afirma que o salto ontológico entre as esferas animal e social é operado pelo
trabalho. Nenhuma explicação mística ou dádiva dos deuses seria responsável pelo
surgimento do homem como ser genérico, a não ser a sua própria história. O trabalho é
categoria fundante da sociabilidade e não apenas um simples fator de produção como os
outros. Teixeira (1995), analisando o conceito de trabalho na obra de Marx, identifica que o
processo do trabalho é a condição possibilitadora da mediação do intercâmbio do homem com
a natureza e possui algumas determinidades constitutivas que estão sempre presentes: i) o
dispêndio fisiológico de energia; ii) a mensuração do tempo de trabalho; e, por último, iii) sua
distribuição entre as diferentes esferas da produção material. Essa universalidade abstrata do
trabalho é possível porque, como condição da existência humana, o que lhe dá um caráter
universal, revela uma tendência natural do homem de satisfazer suas necessidades. Porém,
mesmo sendo uma atividade universal, como criadora de valor de uso ela só se realiza no
interior e por meio de uma formação específica de sociedade.
Aprofundando um pouco mais a análise sobre esse conceito, Duarte (2006) apresenta
outras características distintivas do trabalho humano. Em primeiro lugar, ressalta que ele é
uma atividade conscientemente dirigida por uma finalidade previamente estabelecida.
Diferentemente dos animais, o homem já tem na sua imaginação o objeto que deseja
construir. Uma segunda característica é a de que o trabalho é uma relação mediatizada entre o
homem e a natureza, requerendo a utilização de meios de execução, que são um complexo de
coisas que o trabalhador coloca entre si mesmo e o objeto de trabalho. Por fim, o processo de
trabalho dirige-se a um objeto e materializa-se neste, transformando-o num produto social. O
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objeto não é mais aquele que era dado pela natureza, mas algo transformado pela atividade e
vontade humanas.
O ser é produzido e, ao mesmo tempo, é um produto de sua produção. Ao construir e
dominar o uso dos instrumentos, não surgia apenas uma nova tecnologia no processo de
produção. Surgia também um novo homem. Marx (1983) exemplifica isso ao afirmar:
O objeto de arte – tal como qualquer outro produto – cria um público capaz de
compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto, a produção não cria somente um
objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto. Logo, a produção gera o
consumo:1°, fonecendo-lhe a sua matéria,2°,determinando o modo de consumo;3°,
criando no consumidor a necessidade de produtos que começaram por ser simples
objetos (p. 210).
Nessa dialética, todo ato de criação, toda experiência vivida não é apenas um ato,
mas uma complexa relação que não se explica apenas pelas mudanças aparentes (materiais) e
tampouco pelas alterações subjetivas (idéias) que produzem na natureza e no homem, num
processo circular, já que nenhuma sociedade pode parar de produzir e consumir. As
necessidades
humanas
de
alimentar-se,
vestir-se,
abrigar-se
não
cessam
nunca.
Independentemente das diferenças existentes nesses aspectos em cada sociedade, o trabalho é
uma condição eterna para a existência humana.
Vigotsky (2001), discorrendo sobre a formação do pensamento e da linguagem nos
humanos a partir da análise dos experimentos com chimpanzés e crianças, afirma que a
articulação entre linguagem e pensamento é a principal diferença na evolução entre os
hominídeos. Por isso, em nossa espécie, observa-se um desenvolvimento criativo que supera
as necessidades imediatas, gerando instrumentos e representações de ordem estética,
simbólica e memorial. O simples uso dos instrumentos não é, portanto, a diferença entre os
humanos e os animais, porque esses últimos também fabricam e usam instrumentos. A
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principal diferença estaria na capacidade de retenção e reprodução dessa experiência no
tempo, que se dá numa articulação especial entre linguagem e trabalho, possibilitando o
compartilhamento de significados da experiência com os outros. Nas palavras do autor:
A comunicação, estabelecida com base em compreensão racional e na intenção de
transmitir idéias e vivências, exige necessariamente um sistemas de meios cujo
protótipo foi, é e continuará sendo a linguagem humana, que surgiu da necessidade
de comunicação do processo de trabalho (VIGOTSKY, 2001, p.11).
Isso permitiu ao homem desenvolver formas superiores de comunicação, baseadas na
compreensão e comunicação, ultrapassando as formas instintivas que nossa condição animal
possui, caracterizadas pela percepção e pelo afeto, e que se transmitiam em forma de
contágio. Esses sistemas de comunicação permitiram ao homem não apenas se comunicar,
mas também buscar a compreensão de sua existência e da realidade, enfim, a explicação do
funcionamento do mundo.
1.2 A Mitologia como explicação da realidade
A ontologia marxiana, explicitada acima, é uma elaboração teórica recente na nossa
história. A primeira tentativa sistematizada de explicar o mundo no ocidente deu-se através da
mitologia. Hoje, é muito comum encontrarmos referências - não apenas literárias - a esse
período em algumas elaborações sobre Agroecologia e entre aqueles que defendem a teoria do
caos. Assim, nada melhor para apresentar o espírito dessa concepção que os versos de
Hesíodo na Teogonia: “Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também Terra de amplo seio,
de todos sede irresvalável sempre, dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, e Tártaro
nevoento no fundo do chão de amplas vias” (apud TORRANO, 2003, p.111).
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O caos era o estado primordial do mundo, uma matéria difusa, inefável, mas uma
divindade que tinha a capacidade de fecundar. A cosmogonia foi a forma primitiva de
explicação do surgimento do mundo. Fez surgir também o primeiro discurso organizador do
mundo, cristalizado naquilo que Detienne (1988) denomina de palavra mágico-religiosa.
Segundo esse autor, a palavra mágico-religiosa possui diversos aspectos, mas um deles se
destaca: a eficácia. Esse é o aspecto principal da palavra mágica na concepção do autor. É
uma palavra que é potência religiosa; que se distingue de uma ação - pois palavra e ato não se
separam e nem estão submetidos a nenhuma temporalidade. Sendo pronunciada num presente
absoluto, ela é “o que foi, o que é, o que será”. Está sempre em conformidade com a ordem
cósmica, mas é inseparável das condutas e valores simbólicos, só existe enquanto inscrita
nessa ordem. Em nenhum momento, a palavra dos poetas, das musas, do rei de justiça busca a
concordância dos ouvintes, o assentimento do grupo social. Ela é um privilégio de um tipo de
homem excepcional.
Outro aspecto importante do mito poético é a marca da oralidade, que não determina
apenas as características exteriores e formais dos poemas e catálogos. Torrano (2003) vê essa
marca também na própria concepção de linguagem dos poetas e no uso que Hesíodo faz da
linguagem, pois
Nesta comunidade agrícola e pastoril anterior a constituição da polis e à adoção do
alfabeto, o aedo (i.e. o poeta-cantor) representa o máximo poder da tecnologia de
comunicação. Toda a visão de mundo e consciência e sua própria história (sagrada
e/ou exemplar) é, para este grupo social, conservada e transmitida pelo canto do
poeta. É através da audição deste canto que o homem comum podia romper os
restritos limites de suas possibilidades físicas de movimento e visão, transcender
suas fronteiras geográficas e temporais, que de outro modo permaneceriam
infranqueáveis (TORRANO, 2003, p. 16).
Assim, o autor em questão julga que para os povos que não conheciam a escrita, o
poder, a força da palavra transmitida pelo aedo não se dava apenas pelo seu caráter divino, já
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que o canto das Musas nascia da Memória, mas também dos versos hexâmetros, forma
absoluta de expressão literária nesse período. Somente mais tarde a poesia lírica e a prosa
surgiriam para contrapor-se ao canto mítico. Este era o som, a forma e a métrica da palavra
divina.
A poesia foi a “res pública” durante um grande período da existência humana. Nas
cerimônias em que os cantos eram entoados, a palavra tinha poder de relembrar o passado e
predizer o futuro. Essa força era de tal proporção que o nome e a coisa nomeada tinham uma
relação direta e não de mera representação. O nome presentificava o nomeado. E essa
presença divina restaurava a vida, curava doentes e organizava a vida dos ouvintes. Um bom
exemplo dessas cerimônias era a comemoração do ano novo babilônico, na qual o canto
apresentava a ordem do mundo, garantindo sua renovação no ano que se iniciava. A ordem
surgida do Caos era reinstalada pela força dos cantos e apresentada aos homens como o
conhecimento possível do mundo (TORRANO, 2003).
Caimi (2005) afirma que a mitologia possibilita o conhecimento. Mas o permite
numa lógica de ambigüidade. Nessa lógica - que é constituinte do mito -, os contrários se
compõem, são contíguos. Somente pelo conhecimento da ordem que instaura, é possível o
conhecimento. O mito não precisa de nenhuma referência que lhe dê veracidade, ele sempre é.
É um discurso dito por um mestre para um receptor que só recebe, um receptor passivo. Só
restava aos homens seguir os desígnios e vontades divinas no seu cotidiano, sob pena de não
conseguirem mais viver em conformidade com essa ordem.
O sistema mítico servia para organizar e ordenar o mundo. Enquanto buscava
garantir seu alimento, o homem criava uma série de sistemas agrários, todos evoluídos dos
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sistemas de florestas abatidas e queimadas (forma pioneira de exploração das terras). Os
principais sistemas pós florestais foram conceituados por Mazoyer e Rudart (1998) como
cultura atrelada ligeira e sistemas hidráulicos dos Vales. Uma série de instrumentos era
utilizada pelos agricultores no cultivo do solo, além de outro conjunto de regramentos no uso
das terras comuns, principalmente campos de pastagens e florestas. Mas a evolução técnica se
dava dentro e determinada pelo ordenamento mítico. A agricultura que se fazia nesse período
realizava vários rituais buscando obter as bênçãos e os agrados dos deuses, mesclando técnica
e mito. São exemplos conhecidos a adoração a Deméter/Ceres, sendo que a cada início de
semeadura as mulheres presenteavam a Deusa com leite, mel e o sacrifício de uma porca; bem
como o culto a Dionísio/Baco na produção vitivinícola. Os homens podiam lutar contra as
dificuldades da natureza, criando técnicas para superação das mesmas, mas a maneira
predominante de explicá-las e compreendê-las era dada pelos mitos.
Mas as coisas começam a mudar. O próprio Hesíodo, no poema Teogonia, canta que
“Quando Deméter gera Riqueza com o herói Jazão, ela o faz sobre uma terra três vezes
lavrada na gorda região de Creta” (TORRANO, p. 2003, p. 161), indicando que não apenas as
características naturais de fertilidade do solo - uma dádiva divina -, mas uma forma
contemporânea de cultivo, nesse caso expressa pela tripla lavradura, são responsáveis pela
produção da Riqueza. Em seu outro poema, Os Trabalhos e os Dias, a vida agrícola é exaltada
na sua plenitude, sendo apresentada como o fundamento da civilização.
Analisando a conceituação de homem e trabalho em Homero e Hesíodo, Shigunov
Neto e Nagel (2005) afirmam que o primeiro ainda concebe o homem como um sujeito que
pensa miticamente, vendo os êxitos humanos como favores dos deuses. O homem é um
guerreiro defensor da família e da terra, sepultura coletiva onde todos devem ser enterrados,
24
mas livre da fatalidade do trabalho. Já em Hesíodo o homem é um agricultor, um ser
individual, que começa a ser compreendido em sua plenitude como distinto dos deuses, e que
tem no trabalho uma forma de prover a sobrevivência material, forma esta que é defendida e
exaltada como virtuosa e digna pelo poeta.
1.3 Da Grécia e dos mosteiros para a academia: a construção do pensamento ocidental
Aos poucos, os homens que viviam de acordo com a vontade e desejo dos deuses,
através da tradução dos escolhidos, num sistema fechado, totalitário, aparentemente fadado à
eternidade, começam a romper com essa visão de mundo. É pouco crível, para não dizer
incrível, que um sistema dessa magnitude fosse superado e suplantado pela ação humana.
Mas foi na atividade guerreira, nas assembléias dos guerreiros que surgiu a palavra
diálogo, que veio a superar o canto das Musas. É possível afirmar que esse foi o início da
dessacralização da palavra. A palavra mágico-religiosa passa a dar lugar a um discurso
baseado não mais na alethéia1, mas na doxa2. A palavra diálogo é fruto da atividade guerreira,
especialmente do processo de distribuição do butim, quando os guerreiros, em assembléia,
tinham direitos a isegoria (direito de falar) e isonomia. Caimi (2005) assevera que essa era
uma palavra que complementava a ação, inscrita num determinado tempo e provida de
autonomia própria. Não mais era solitária e unilateral, mas pertencente a um grupo social. A
partir daí, quando ela se torna mundana, os homens começam a inquietar-se com a força da
palavra. Essa inquietação parte em duas direções. Uma dedica-se ao problema da potência da
palavra sobre a realidade, ao passo que a outra se refere à potência da palavra sobre o outro.
1
Alethéia: verdade, realidade. Palavra composta pelo prefixo negativo a- e pelo substantivo léthe
(esquecimento). É o não esquecido, não perdido, não oculto; é o lembrado, encontrado, visto visível, manifesto
aos olhos do corpo e do espírito.
2
Doxa: Opinião, crença, reputação (isto é, boa ou má opinião sobre alguém), suposição, conjetura.
25
Como já indicava Hesíodo, a agricultura começa a ter uma importância fundamental,
pois a especialização da sociedade guerreira retira da atividade agrícola parte da população,
obrigando que outros produzam a comida necessária aos não agricultores. Entretanto, devido
à baixa produtividade do trabalho agrícola, uma pessoa tinha dificuldades de produzir
alimento suficiente para si e/ou sua família. Quando tinha de prover de alimentos a outras
pessoas fora do grupo familiar, os problemas aumentavam. Os excedentes eram poucos ou
quase não existiam. Como garantir alimento suficiente para a população? Para resolver essa
questão, surgiram a colonização, a escravatura e a pilhagem. Dessa forma, usavam-se os
guerreiros para garantir o abastecimento alimentar dos cidadãos.
A partir da análise da Grécia antiga é possível ter uma melhor compreensão desse
processo. Cortella (2003) distingue quatro fases da Grécia antiga: a pré-homérica, a homérica,
a arcaica e a clássica. Nas duas primeiras, ocorreu o processo de diferenciação dos núcleos
familiares (genos), concentrando terras nas mãos de uns poucos, o que proporcionou o
surgimento da aristocracia. Já no período arcaico (VIII até VI a C.), o processo de
consolidação das cidades-estados, o aumento do domínio, a ampliação do comércio e da
escravidão, garantiram à aristocracia tempo livre para dedicar-se a questionamentos. Os mitos
ainda tinham sua força, mas já não bastava saber de onde vinha o mundo, como ele foi criado.
Além da explicação da origem, começava a indagação sobre o funcionamento desse mundo,
como é a realidade (já com fins instrumentais) e do que ela é composta? Enfim, surgia uma
série de questões que os mitos já não eram suficientes para explicar. Essas foram as
preocupações dos primeiros filósofos como Tales de Mileto e os Pitagóricos. A palavra
começava a ser usada como potência sobre a realidade.
26
Nessa época, os sistemas de produção agrícola mais comuns eram os sistemas de
cultura atrelada ligeira e os sistemas hidráulicos. O primeiro pode ser caracterizado como um
sistema de produção de cereais baseado numa área de cultivo (ager) e outra de pastoreio e
coleta de produtos (saltus) trabalhados através do uso de instrumentos manuais – foices, pás,
enxadas - e instrumentos rudimentares de tração para preparo do solo e transporte. O arado
utilizado nesse período tinha uma capacidade de aração reduzida, impedindo um eficiente
controle de ervas daninhas, obrigando o uso de enxadas ou pás para melhorar o preparo do
solo. A fertilização do ager era feita através da transferência direta de matéria orgânica do
saltus para a parcela que seria cultivada. Esse material era coletado em forma de restos
vegetais ou através das dejeções animais, pois os animais que pastejavam no saltus durante o
dia, pernoitavam nas parcelas cultivadas à noite para fertilizar.
Já o sistema hidráulico, que aproveitava o movimento das cheias dos rios, permitiu o
desenvolvimento de um sistema de produção complexo, no qual o aproveitamento da água
para irrigação e a fertilização de aluvião garantiram altos níveis de produção agrícola. Nesse
sistema, os instrumentos utilizados já incorporavam os incipientes avanços do conhecimento,
como se pode concluir a partir do uso do parafuso de Arquimedes, instrumento que
possibilitava a elevação de água entre os canais.
Porém, como citado anteriormente, também surgia a preocupação quanto à potência
da palavra sobre o outro. A forma de administração política da polis através da democracia
direta não só proporcionava condições para esses pensamentos, como era a razão de os
mesmos existirem. Os aristocratas, como viviam da exploração da terra pelos escravos,
podiam dedicar mais tempo aos estudos, aprimorando a participação nos debates das
assembléias. Já os comerciantes, cuja riqueza provinha do comércio, atividade que dependia
27
de maior dedicação, não podiam ter a mesma capacidade de intervenção, perdendo então
espaço na luta que travavam com os aristocratas pelo poder. Para resolver essa questão,
contrataram pensadores estrangeiros para ensiná-los. Esses pensadores, tratados de forma
pejorativa pela aristocracia, ficaram conhecidos como sofistas e realizaram o contraponto às
teorias aristocráticas. A contribuição dos sofistas para o pensamento contemporâneo teve um
reconhecimento tardio. As contribuições mais importantes desse período deram-se através da
obra de Platão e Aristóteles, pensadores que alicerçaram as bases do pensamento moderno.
Platão resgatou o pensamento socrático e, de acordo com Cortella (2003), suas idéias
de permanência e fluxo, mutabilidade das coisas e imutabilidade das verdades, criam um
arcabouço teórico que estabelece uma nova cosmogonia. Para Platão, Deus moldou com a
matéria bruta do caos o universo, o cosmos. E Deus fez o cosmos de acordo com modelos
abstratos, idéias que eram essências ou as verdades de tudo. As idéias são anteriores à
existência de nosso mundo, não pertencem a ele e, por isso, não são materiais. Não sendo
materiais, não se transformam, são eternas e imutáveis. Partindo dessa explicação sobre a
criação do mundo, o filósofo buscou a explicação do funcionamento do mesmo, como ele se
organiza e funciona.
Essa explicação deu-se a partir da existência de dois mundos: o mundo sensível (da
materialidade das coisas) e o mundo inteligível das verdades, das idéias (um mundo imaterial,
eterno e perfeito). O mundo sensível é onde vivemos; já o mundo das idéias não tem lugar,
dado sua imaterialidade. O mundo sensível seria uma cópia imperfeita do mundo das idéias. O
ser humano vive nos dois mundos. O corpo no mundo sensível, a alma no mundo inteligível.
Quanto mais conseguirmos utilizar a razão como condutora da charrete puxada pelos cavalos
Desejo e Vontade para perto dos deuses, mais puros seremos. O corpo é a morada da alma que
28
exige sua purificação. E a alma já conhece as verdades, somente as perdeu ao ganhar a
corporeidade. Então, a verdade precisa ser reconhecida. Aprender é recordar, conhecer é
descobrir, numa teoria da reminiscência.
Aristóteles foi discípulo de Platão por dezenove anos e tenta superar o mestre,
criticando o dualismo (mundo sensível e mundo inteligível) de sua obra. Para ele, a realidade
que existe é a substância individual representada pelo indivíduo material concreto, que por
sua vez é composto de matéria e forma. Ao trazer o mundo inteligível para junto do mundo
sensível, Aristóteles passa a valorizar a experiência, a observação como passo importante para
o conhecimento. Não enxergamos mais as sombras da caverna de Platão, pois o intelecto
humano pode, através da abstração, separar a matéria da forma ao buscar o conhecimento
numa natureza composta por indivíduos (unidade indissociável da matéria e da forma).
Boorstin (2003) analisa que se o atrativo de Platão tinha sido o encanto com o ideal,
o duradouro, o imutável, o interesse pela vasta e enciclopédica obra de Aristóteles se dava
pelo conjunto de conhecimentos a partir da acumulação de fatos da experiência humana e do
mundo com uma explicação das causas, o que tornava a natureza um reino de objetivos
expostos.
Esses dois autores foram, indubitavelmente, os pensadores que maior influência
exerceram sobre a constituição do pensamento antigo da humanidade. No período helenista,
marcado por forte ecletismo entre as escolas do período, a presença desses pensadores foi
significativa. Mas graças a esse ecletismo, muitas obras puderam ser preservadas e permitiram
que o pensamento moderno pudesse conhecê-las. Entretanto, foi pela incorporação da
29
filosofia grega ao cristianismo que o pensamento platônico e, posteriormente, o aristotélico
ganharam o mundo.
Santo Agostinho foi o filósofo medieval mais importante e selou a união da filosofia
grega com o cristianismo, pela reunião da obra de Platão com a tradição cristã. Concebia a
teologia como a verdadeira ciência, seguindo o princípio comum no período: crer para
conhecer. Não era nos sentidos, na razão, mas na fé que estava a verdade. E a mente humana
só podia conhecer porque continha a luz divina que a presidia e permitia a revelação da
verdade. Com a dissolução do império romano, a fragmentação do mundo europeu e a
ortodoxia religiosa no Império Bizantino, o pensamento de Santo Agostinho exerceria
influência por vários séculos.
Com as invasões árabes, contribuições em vários campos do conhecimento são
trazidas do Oriente para o Ocidente. Junto com esses conhecimentos, vem o pensamento de
Aristóteles, que seria posteriormente assimilado pelo cristianismo através de São Tomás de
Aquino, não sem forte reação – e proibição -, dos seguidores de Santo Agostinho. Era uma
nova forma que o Cristianismo encontrava para manter a supremacia da fé sobre a razão,
tentando integrar a filosofia e a teologia num sistema lógico coerente e unificado.
De maneira semelhante às mudanças no pensamento durante a Idade Média, as
alterações na agricultura se faziam notar. Organizada em núcleos para enfrentar as constantes
invasões, recebendo proteção através do pagamento das corvéias, os agricultores em regime
de servidão iniciam o uso da Charrua - arado que faz um revolvimento mais profundo do solo
-, adotam o sistema trienal de cultivo e o uso dos eqüinos no sistema de atrelagem em colar na
30
tração e transporte em consonância com as alterações institucionais do feudalismo3. Isso
permitiu um novo sistema de produção que trouxe ótimos índices de produtividade e a
constituição de excedentes alimentares para viabilizar o fornecimento para os núcleos
urbanos.
A centralidade do pensamento medieval não estava muito ligada às atividades
práticas, pois predominava a preocupação com a elevação do espírito e a busca do prazer e
tranqüilidade da alma, restando pouco espaço para questões mais práticas, como a agricultura.
Entretanto, dois exemplos evidenciam a marca desse pensamento na agricultura. O
primeiro foi a forma peculiar de lidar com as pragas nas culturas. Ferry (1994) resgata uma
prática comum no período medieval, relatando casos ocorridos em 1545 e 1587 em que os
agricultores franceses pediam às autoridades eclesiásticas que excomungassem as pragas que
atacavam suas videiras, o que gerava a instauração de um processo contra os insetos. Sobre o
expediente de processar os animais, o advogado Gaspard Bally, comentado pelo autor
supracitado, escreve:
não se deve menosprezar a eficácia das monitórias [ou seja, neste caso, as
repreensões com que a autoridade eclesiástica fulmina os animais], tendo em vista
que se trata de uma coisa sumamente importante que traz consigo o mais perigoso
gládio de que se serve nossa Santa Mãe Igreja, que é a excomunhão, a qual corta
com igual proficiência tanto a madeira seca quanto a verde, não poupando os vivos
nem os mortos; ela não atinge somente as criaturas dotadas de razão, mas alcança
também os irracionais, como os animais (BALLY, apud FERRY, 1994, p. 11).
Outra demonstração da influência do pensamento medieval sobre os processos
agrícolas da época é dada pela concepção de nutrição vegetal de Aristóteles. Romeiro (1998,
p. 47-8) lembra que ao fazer referência sobre a propagação das vantagens da carpideira
3
Sobre isso existe uma grande polêmica se foi um, vários e quais foram os fatores que permitiram as mudanças
agrícolas no período. Essa discussão pode ser acompanhada em Romeiro (1998).
31
mecânica inventada por Jhetro Trull, Duhamel du Monceau, na França em 1753, acrescentava
que além do controle das ervas daninhas, o equipamento podia revolver o solo intensamente,
o que melhoraria a nutrição das plantas, já que, segundo Aristóteles, estas se nutriam de partes
ínfimas de solo. Assim, quanto mais pulverizado o solo, melhor a nutrição das plantas. Essa
concepção perdurou até o século XIX, quando Liebig demonstrou que a nutrição vegetal se dá
pela absorção de certos elementos minerais e não de partículas de solo.
Mas apesar de todo o esforço dos escolásticos, a decadência do mundo feudal e a
consolidação do mercantilismo, a urbanização crescente e o humanismo renascentista, iniciase a consolidação do pensamento moderno quando a idéia de verdade como revelação divina
passa a dar lugar à idéia de descoberta. Analisando a crise da tradição e o surgimento do
pensamento moderno, Marcondes (2004, p. 139-75) afirma que, como Lutero pôs em dúvida a
autoridade eclesiástica ao mostrar a corrupção dos papas e o desvirtuamento da Igreja, a
apresentação da teoria heliocêntrica por Copérnico - pela qual Giordano Bruno foi queimado
em 1600 e Galileu Galilei condenado logo após, mostrou as falsidades teóricas, gerando falta
de confiança no saber tradicional. Além do Sol, o homem também passa a ter centralidade no
humanismo renascentista, adequando os princípios de livre iniciativa de que o mercantilismo
necessitava.
Tudo isso fez surgir um conjunto de reflexões e tentativas de retomar a confiança na
tradição. É contra essa “esterilidade e futilidade” da tradição no conhecimento que Francis
Bacon ergue-se e, de acordo com Oliveira (2002, p. 61-84), estabelece críticas sobre três
frentes: os objetivos do conhecimento, as formas de se alcançá-lo e a postura frente a ele. A
forma contemplativa da filosofia, sua ligação com a teologia e a ausência de uma tentativa de
compreensão que representasse um domínio da natureza eram as razões da estagnação do
32
conhecimento; já os métodos baseados em princípios, na demonstração e na retórica, com
desconsideração dos métodos experimentais, só levavam a uma atitude frente ao
conhecimento, o recurso da autoridade como argumento e “conseqüentemente todo processo
científico se tornou uma sucessão de professores e alunos e não de inventores e aprimoradores
de invenção” (BACON apud OLIVEIRA, 2002, p.70).
Se Bacon defendeu uma ciência aplicada, a serviço da ampliação do domínio do
homem sobre a natureza, Descartes buscou resgatar a confiança no conhecimento. Partindo da
idéia de que a racionalidade pertence à natureza humana e de que o homem tem dentro de si a
possibilidade do conhecimento - apenas deturpada pelos erros da tradição, Descartes
estabeleceu o argumento do cogito como seu ponto arquimediano e construiu um novo
sistema filosófico. Refutando o ceticismo através do “eu pensante” e estabelecendo um
método para chegar às verdades, sua obra é considerada a fundadora da filosofia moderna.
Inaugurava-se uma nova fase da história humana, na qual a consolidação da razão
instrumental proporcionaria a base técnica para a expansão do modo de produção capitalista.
Essas mudanças, de acordo com Marques (1988, p. 52), “[...] levarão à idade moderna da era
industrial e do capitalismo, da explosão demográfica e da luta de classes, da razão abstrata e
da aplicação da ciência ao processo produtivo para o mercado sem limites, da precipitação da
história no afã de consumir para produzir”.
As conseqüências e as críticas a essa razão instrumental já são amplamente
conhecidas e não serão abordadas aqui. Interessa nesse momento reforçar que após a ascensão
da burguesia e a consolidação do capitalismo no planeta, buscou-se uma naturalização desse
modo de vida, como se o homem fosse um ser egoísta e concorrencial por natureza. E essa
33
ideologia esforçou-se por “naturalizar” vários aspectos da vida moderna. Lessa (2000, p. 15972), comentando a obra de Luckás, lembra que este afirmava que a elevação do modo burguês
de ser a uma essência universal do ser humano termina colocando um limite insuperável para
a história, porque não haveria como superar essa “natureza humana”. Para superar esse
impasse, lembra que a essência dos homens é o conjunto de suas relações sociais, o que insere
essa essência nas dimensões do processo histórico, pois se forem alteradas as relações sociais,
altera-se a essência humana. Dessa maneira, a alteração do modo capitalista converte-se numa
possibilidade ontológica, que não necessariamente significa sua realização prática imediata ou
sua inevitabilidade, mas que rejeita a possibilidade de fim da história.
Essa reflexão parece-me ser das mais importantes. A agricultura que a modernidade
construiu também é vista dessa forma naturalizada. Cada vez mais busca-se uma padronização
no mundo inteiro, através de avanços nas técnicas de controle da natureza. Produzir e
consumir são ações que ficam cada vez mais parecidas em qualquer parte do mundo. Não é só
a Coca-Cola que é igual, o milho ficou mais parecido, o feijão, o arroz e junto com eles a base
alimentar acaba tornando-se semelhante. Mesmas marcas, mesmos sabores, mesmos odores.
Agricultura a serviço da reprodução e movimento das grandes máquinas industriais e não
mais a serviço de alimentar a vida. Será que necessariamente tem de ser assim?
Estudar como a humanidade viveu, tentou entender o mundo e constituiu grandes
civilizações antes do capitalismo é importante para demonstrar que a sociedade capitalista não
é a única via de desenvolvimento, já que não foi a forma como “caminhou” a humanidade na
maior parte de seu tempo de existência.
34
Ao finalizar este capítulo, quero chamar a atenção para o fato de que o pensamento e
a ciência são produtos da atividade humana, em processos de negociação e explicitação de
verdades que vão suplantando outras, mas muitas dessas verdades permanecem vivas em
determinados grupos. Não seria ridículo na Antigüidade um agricultor acreditar que as
mulheres durante o seu ciclo menstrual ficassem impedidas de adentrar em suas plantações, o
que levaria ao adoecimento de suas plantas. Essa era a verdade da época, cantada pelos
poetas. Fica difícil explicar que ainda hoje muitos agricultores ainda mantenham vivo esse
mito, mas é comum encontrarmos agricultores que ainda pensem assim. Outra prática comum
é o benzimento, que lembra muito as monitórias. Nas décadas de 1970 e 1980 houve grandes
surtos de lagartas desfolhadoras na cultura da soja no Rio Grande do Sul e não faltaram
benzedores, inclusive muitas autoridades eclesiásticas, que se revezavam nas lavouras,
benzendo três cantos e deixando um em aberto para que as lagartas pudessem deixar a
plantação. Portanto, conhecer, ainda que sucintamente, a história do pensamento ocidental e
sua influência na formação do conhecimento local dos agricultores e agricultoras evita o
simplismo exagerado de que todo o conhecimento popular é elaborado em forma de tentativa
e erro dos indivíduos na constituição de suas vidas.
2 A AGRICULTURA NA SOCIEDADE INDUSTRIAL
O capítulo anterior mostra que a prática da agricultura acompanha os homens desde o
nascimento da sociedade, numa relação de constituinte e constituída. Salienta, em especial, a
influência que os paradigmas do conhecimento exerciam sobre a atividade. Neste capítulo,
abordarei as relações macroeconômicas que a agricultura passa a estabelecer na sociedade
industrial, ressaltando a importância do setor para a nossa vida e o processo de modernização
que a agricultura sofreu. Quando se fala sobre modernização da agricultura, somos levados a
pensar, quase sempre, no processo conhecido como Revolução Verde. Entretanto, desde as
mudanças nos sistemas de produção realizadas durante o período feudal, como o sistema
trienal e novos instrumentos de cultivo, ocorre um processo de intensificação da produção
agrícola. Mais tarde, com o surgimento do sistema de rotação de culturas Norfolk, da máquina
de vapor e dos adubos sintéticos, essa intensificação acentuar-se-ia. As descobertas científicas
da Idade Moderna produziram grandes mudanças. Justus von Liebig superou Julius Hensel4 e
solidificou com seus estudos dos compostos químicos as bases da quimificação da agricultura.
Mendel forneceu condições para seleções genéticas mais aprimoradas. A tração animal passou
a ceder lugar à máquina, num processo crescente de mecanização das atividades. Como não
era necessário fertilizar com dejetos animais, tampouco os animais precisavam puxar o arado
ou carroças, a carne passa a ceder lugar para o aço. Mas não se restringiam ao aspecto
tecnológico as mudanças que a época moderna reservava para o setor agrícola.
Corazza e Martinelli Jr. (2005) reiteram que a agricultura na Antigüidade tinha como
regra geral a produção de bens, pois a busca de riqueza estava subordinada à finalidade de
4
Julius Hensel polemizou na época com Liebig porque defendia o uso de pós de rocha ao invés de compostos
químicos sintéticos na fertilização. Foi processado e seu livro Pães de Pedra chegou a ser censurado.
36
atender as necessidades humanas e não constituía um fim em si mesma. Na Idade Média, a
agricultura é a atividade principal que dá sustento ao feudo, mantido com o trabalho servil. O
excedente produtivo, obtido nos sistemas agrícolas mais intensivos no período feudal,
permitia sustentar um número maior de pessoas nas cidades. O aumento da população nas
cidades, a ampliação da participação do capital comercial na economia e o desenvolvimento
das manufaturas e corporações urbanas iam alterando a forma tradicional de ocupação de
espaço e de organização das sociedades. Porém, a despeito de todas as mudanças, a
agricultura ainda mantinha seu status de atividade principal.
Os fisiocratas franceses dividiam a sociedade da época em três classes: a classe
produtora, composta pelos trabalhadores do campo; a classe proprietária, na qual se
enquadravam a Coroa, a aristocracia rural, a nova burguesia proprietária de terras e o clero; e
a classe estéril, que era composta por trabalhadores urbanos, comerciantes e artesãos. Essas
três classes tinham suas funções: a primeira garantia os “produtos de nossas terras”; a segunda
vivia da renda fundiária, dos impostos e do dízimo, enquanto a terceira vivia da mão–de–obra
e do lucro do comércio, pois para os fisiocratas o produto líquido era o motor da economia. E
esse produto originava-se na atividade agrícola, sendo que o fator principal que o explicava
era a fertilidade da terra. Mas apesar de professarem isso, não era só a fertilidade da terra que
eles consideravam. Indicavam a agricultura que se realizava no norte da França (baseada em
grandes propriedades) como aquela que gerava excedente, sendo um modelo a ser seguido e
apoiado pelo Estado. A agricultura do sul do país, composta de pequenas propriedades, não
era considerada um bom modelo. Mesmo que não admitidas explicitamente, além da
fertilidade, as novas formas de organizar a produção agrícola seriam as responsáveis pela
geração do excedente, o que levou Marx a afirmar que a essência burguesa da teoria fisiocrata
ainda estava encoberta por uma máscara feudal “a fisiocracia supera seu caráter feudal ao
37
declarar que a indústria (a agricultura) como sua essência; mas comporta-se negativamente
perante o mundo da indústria, reconhece o sistema feudal, ao declarar que a agricultura é a
única indústria” (MARX, 1985, p. 5).
Wood (2000), versando sobre as origens do capitalismo, numa tese polêmica, nega
que o capitalismo tenha surgido nas cidades pela facilidade de comércio e troca e suas classes
típicas (burguesia), que numa expansão espontânea do comércio, auxiliadas pela ética
protestante, acabariam desenvolvendo o capitalismo. Esse desenvolvimento apresentar-se-ia
como uma ligação natural entre cidade, capitalismo e comércio urbano. O capitalismo é a
decorrência automática de práticas tão antigas como a troca e o escambo e conseqüência da
natureza humana, de uma inclinação natural para o comércio. O homem nasceu para isso,
numa concepção inatista e sem validade histórica, como se todos estivem destinados a serem
mercadores desde a concepção. Negando tudo isso, a autora afirma que o capitalismo nasceu
no campo e não na cidade, em local e tempo determinado na história humana e não foi uma
simples extensão do comércio, mas transformou completamente as práticas e relações
humanas mais fundamentais. Lembrando que sempre houve quem se apropriasse dos
trabalhos dos outros e que o mercado era um mecanismo de intercâmbio e distribuição, mas
que no capitalismo esses aspectos assumem um papel determinante de regulador da
reprodução social através de imperativos da competição, acumulação e maximização dos
lucros, pergunta-se:
Dado que os produtores foram explorados pelos apropriadores através de meios não
capitalistas durante milênios antes que o capitalismo surgisse, e dado que os
mercados também existiram desde os tempos imemoriais praticamente em todos os
lugares, como explicar o fato de que as relações produtores/apropriadores passaram
a ser dependentes do mercado? (WOOD, 2000, p.15).
38
Para responder as dúvidas que levanta, a autora aposta numa combinação de fatores
muito peculiares que existiram na Inglaterra no início da Idade Moderna. Concentração do
Estado num poder centralizado, concentração da propriedade da terra, fraqueza de poderes
extra-econômicos dos senhores de terras para extrair renda de seus arrendatários seriam
alguns dos fatores que permitiram uma alteração nas relações produtores/exploradores da
renda da terra, substituindo relações que se davam coercitivamente no meio feudal.
Essa alteração caminhou num processo crescente de sujeição econômica, com a
renda fixada pelas condições de mercado e não por algum padrão legal ou consuetudinário.
Assim, os agricultores ficaram dependentes do mercado não apenas para venda de seus
produtos, mas também o acesso aos meios de produção passou a ser mediado pelo mercado.
Nessa nova relação, instalou-se um ambiente de competição que obrigava os arrendatários,
médios e pequenos produtores a aumentar a produtividade de suas terras, sob pena de serem
excluídos do sistema. Esse aumento de produtividade visando ao lucro era denominado de
melhoramento. Por este entendia-se não apenas inovações tecnológicas e desenvolvimento de
técnicas agrícolas, mas também novas formas e concepções de propriedade. Novas formas
que eliminavam antigos costumes e práticas da concepção tradicional de propriedade. Apesar
dos inúmeros conflitos, esses antigos direitos vão perdendo espaço para a propriedade
melhorada e seus “enclosures”. A propriedade não era apenas privada, agora era privada e
excludente, eliminando todas as restrições para a maximização dos lucros dos arrendatários
capitalistas e dos senhores donos das terras. O melhoramento, e não mais o costume,
estabelecia o direito sobre a propriedade.
Wood (2000, p. 16) entende que nesse período a riqueza da Inglaterra dependia da
produção agrícola. E esta passava por transformações que a tornavam cada vez mais
39
dependente de práticas que podiam ser consideradas capitalistas, como a maximização do
valor de troca por meio da redução de custos e aumento da produtividade através da
especialização, acumulação e inovação. E foi esse capitalismo agrário nascente - baseado
numa tríade formada por proprietários das terras vivendo da renda destas, arrendatários
capitalistas vivendo do lucro e trabalhadores vivendo de salários, que possibilitou uma
elevada produtividade agrícola e criou as condições que impulsionaram uma nova dinâmica
na economia inglesa. Dinâmica que se caracterizava por uma acentuada dependência do
mercado, uma proletarização em massa e o desenvolvimento do capitalismo comercial
industrial.
Sem um setor agrícola produtivo que pudesse sustentar uma importante força de
trabalho não agrícola, o primeiro capitalismo industrial do mundo provavelmente
não teria aparecido. Sem o capitalismo agrário inglês, não teria havido uma massa de
expropriados obrigados a vender sua força de trabalho por um salário. Sem essa
força de trabalho não agrícola expropriada, não teria havido um mercado de massa
para os bens de consumo diário - como alimentos e têxteis - que lideravam o
processo de industrialização na Inglaterra. E sem a sua crescente riqueza, associada
às novas motivações para a expansão colonial - motivações distintas das antigas
formas de aquisição territorial – o imperialismo britânico teria sido algo muito
diferente da máquina de capitalismo industrial que ele se tornou.
E (este é sem
dúvida o ponto mais controverso) sem o capitalismo inglês provavelmente não
haveria nenhum capitalismo (WOODS, 2001, p. 20-1).
Com a consolidação do modo de produção capitalista, a agricultura passa a ser vista
de maneiras diversas pela economia. Corazza e Martinelli Jr. (2005) mostram que, na
economia clássica, com o deslocamento da origem do excedente da terra para o trabalho, a
agricultura perde a supremacia real, mas detém ainda a supremacia teórica e analítica. Assim,
as condições de produção agrícola no encarecimento dos salários e na queda dos lucros
agrícolas e industriais são centrais, de acordo com o economista Ricardo. Já, para Marx, a
agricultura transforma-se em um simples ramo da indústria e é dominada completamente pelo
capital, numa subordinação do setor agrícola ao setor industrial. Posteriormente, com a teoria
econômica neoclássica, a agricultura deixa de ter supremacia, pois a análise econômica passa
40
a centrar-se nos fatores de produção: terra, capital e trabalho. Nessa teoria, o desenvolvimento
econômico se dá pela industrialização e o setor agrícola (mais ineficiente e subordinado
funcionalmente ao industrial) estaria destinado a cumprir algumas funções como: i) o
fornecimento de alimentos em velocidade compatível à urbanização para não pressionar o
salário de subsistência nas cidades; ii) a oferta em escala adequada de matérias-primas e
insumos necessários para o parque industrial em expansão; iii) liberação de mão-de-obra para
atividades não rurais; iv) a geração de divisas em volumes suficientes para bancar a
importação de insumos e máquinas necessárias para a acumulação dinâmica do capital
industrial.
Para o cumprimento das funções macroeconômicas que são reservadas ao setor
agrícola na sociedade industrial, um complexo sistema de expansão do capitalismo para o
campo é desenvolvido. Romeiro (1998) define esse processo como modelo euro-americano de
modernização da agricultura, que sintetizava como:
[...] um sistema de produção que tornou viável a difusão em larga escala da prática
da monocultura. Trata-se de um sistema de produção baseado na utilização intensiva
de fertilizantes químicos combinados com sementes selecionadas de alta capacidade
de resposta a esse tipo de fertilização, no uso de processos mecânicos de
reestruturação e condicionamento de solos degradados pela monocultura e no
emprego sistemático de controle químico de pragas (ROMEIRO, 1998, p. 69).
O avanço científico da Revolução Industrial permitiu a eliminação de uma série de
restrições técnicas para a exploração das culturas mais rentáveis, sob sistema de monocultura.
Se antes era necessária uma maior diversidade de cultivos através da rotação de culturas para
manutenção da fertilidade e da estrutura do solo, novos produtos como máquinas, fertilizantes
químicos e agrotóxicos, variedades melhoradas com alta resposta aos fertilizantes permitiram
que se cultivasse uma mesma espécie, durante um longo tempo, sem prejuízo de sua
rentabilidade. Paralelamente ao avanço tecnológico, uma série de serviços estatais e
41
paraestatais entram em cena para justificar o modelo e torná-lo mais dinâmico e massivo.
Surgem os centros de pesquisa agrícola e os serviços de Extensão Rural. O primeiro
promovendo adaptação e geração de tecnologia e o segundo popularizando essas técnicas
entre os agricultores e expandindo o modelo euro-americano pelo mundo, num fenômeno
também conhecido como Revolução Verde.
O modelo euro-americano, conforme Romeiro (1998), vendia – e ainda vende - a
idéia de que suas práticas agrícolas são a única resposta técnica possível ou a mais eficiente
para aumentar a produtividade do trabalho e o rendimento da terra, fazendo com que o setor
agrícola cumpra o destino reservado para ele na sociedade industrial. Atualmente, através dos
avanços na área da cibernética, da nanotecnologia e da biotecnologia são apresentadas ao
mundo novas técnicas e novos produtos (frankfoods, entre outros) que prometem resolver
problemas que o modelo apresenta (a bem da verdade, muitos foram causados por ele) e
garantir a prosperidade agrícola num novo milênio. Mas nem todos concordam que esse é o
único caminho possível.
Ehlers (1999, p. 19-86), após uma análise das mudanças que permitiram o
surgimento da agricultura moderna no mundo, identifica os precursores da reação ao modelo
que então estava em fase de hegemonização no mundo. Caracterizando-os como “movimentos
rebeldes”, agrupa-os em quatro grandes vertentes. Na Europa, surgem: a agricultura
biodinâmica, iniciada por Rudolf Steiner em 1924; a agricultura orgânica, entre 1925 e 1930,
fundada pelo inglês Sir Albert Howard e difundida por Jerome Irving Rodale na década de 40
nos EUA; e a agricultura biológica, inspirada nas idéias do suíço Hans Peter Müller e mais
tarde difundida por Claude Aubert, na França. Uma outra vertente, a agricultura natural,
surgiu no Japão, a partir de 1935, baseada nas idéias de Mokiti Okada. Para Paulus (1999),
42
esses modelos, “muito embora pouco expressivos estatisticamente, cumpriram – e ainda
cumprem - um papel estratégico na consolidação de estilos alternativos de produção”.
Realmente, derivadas dessas orientações, surgiram pelo mundo, umas mais ortodoxas, outras
mais ecléticas, várias iniciativas que foram constituindo um campo determinado, que se
denominou agricultura alternativa.
No Brasil, a partir dos anos 1980, graças à conquista da liberdade de expressão e
organização da sociedade - subtraída pela ditadura militar - e à crise do chamado milagre
brasileiro, entidades ambientalistas, organizações não governamentais e sindicatos ou
movimentos de agricultores e trabalhadores rurais e urbanos começam a questionar o futuro
que lhes é reservado por esse modelo de desenvolvimento agrícola baseado na monocultura,
no uso abusivo de insumos externos e com alto custo ambiental e social. As críticas ao
modelo convencional são classificadas por Moreira (2000) em três grupos: a crítica da
técnica, que questiona a relação do ser humano com a natureza, reelabora a teoria da renda da
terra incorporando a biodiversidade, apresenta os problemas ambientais como a poluição dos
recursos naturais, a perda de biodiversidade e a erosão dos solos, construindo o conceito de
prudência ambiental; um outro grupo contém a crítica social, devido ao caráter conservador
da Revolução Verde, ao desemprego, ao êxodo rural, à favelização dos trabalhadores rurais, à
sobreexploração da força de trabalho rural, em síntese, uma crítica da natureza do capitalismo
na formação social brasileira e do modelo concentrador e excludente dessa modernização da
agricultura; por fim, a crítica econômica, pelos custos crescentes de produção e
financiamento do sistema, surge uma nova concepção de agricultura que pudesse atender as
necessidades daqueles setores que excluídos ou em fase de exclusão no atual modelo, mas que
também contemplasse os apelos do consumidor que passa a exigir produtos mais saudáveis,
“mais limpos”.
43
Apesar de o termo agricultura alternativa ser um conceito vago, foi utilizado também
no Brasil. A origem do termo, apresentada por Jesus (1996), surge a partir da elaboração de
um relatório do Ministério da Agricultura e da Pesca da Holanda em 1977, que agrupou todas
as correntes não convencionais da agricultura sob essa denominação e, em 1984, o National
Research Council dos EUA, publicou um documento com o título “Alternative Agriculture”,
no qual eram descritos os métodos não convencionais de produção agrícola daquele país.
Outra influência para a adoção do termo foi exercida pelo livro O negócio é ser
pequeno, de E. F. Schumacher, que utilizava o conceito de tecnologia apropriada ou
alternativa. Sob esse termo foram realizados quatro encontro nacionais - Encontro Brasileiro
de Agricultura Alternativa -, organizados pela FAEAB (Federação das Associações de
Engenheiros Agrônomos do Brasil) e FEAB (Federação dos Estudantes de Agronomia do
Brasil), em Curitiba no ano de 1981, no Rio de Janeiro em 1984, em Cuiabá em 1987 e em
Porto Alegre em 1989. No terceiro encontro nacional, Carvalho (1987, p. 21) já chamava a
atenção que a expressão agricultura alternativa seria usada como categoria provisória, sem
possibilidade de oferecer um debate mais profundo no campo conceitual, mas que no
momento era operacional, pois agrupava vários questionamentos ao modelo vigente e também
apontava para novas formas de se fazer agricultura.
Weid (1997) lembra que muitas
organizações não governamentais (ONGs) trazem inclusive incorporado ao nome esse termo,
como, por exemplo, o CETAP- Centro de Tecnologias Alternativas Populares no Rio Grande
do Sul ou a APTA - Associação de Programas em Tecnologias Alternativas do Espírito Santo.
O movimento de agricultura alternativa começou a organizar-se em nível nacional
através do Projeto Tecnologias Alternativas - PTA, vinculado a uma das mais antigas ONGs
brasileiras, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional - FASE. Esse
44
projeto ficou conhecido como Rede PTA e, mais tarde, desvinculou-se da FASE e
transformou-se numa rede de ONGs estaduais articuladas pela AS-PTA – Assessoria e
Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa. O objetivo central do Projeto Tecnologias
Alternativas era oferecer tecnologias que respondessem aos problemas de sustentabilidade
ambiental e exclusão social da agricultura convencional. Com o aprofundamento dos estudos
dessas tecnologias e do diálogo com experiências de outros países, ocorre uma mudança
conceitual e a Agroecologia consolida-se como orientação teórica dominante desse
movimento, que se tornou uma grande referência nacional e que busca defini-la como um
campo científico, entendendo que:
A Agroecologia tem sido reafirmada como uma ciência ou disciplina científica, ou
seja, um campo de conhecimento de caráter multidisciplinar que apresenta uma série
de princípios, conceitos e metodologias que nos permitem estudar, analisar, dirigir,
desenhar e avaliar agroecossistemas. Os agroecossistemas são considerados como
unidades fundamentais para o estudo e o planejamento das intervenções humanas em
prol do desenvolvimento rural sustentável (CAPORAL e COSTABEBER, 2002, p.
14).
A influência exercida por esse movimento na busca de caminhos mais sustentáveis
para o desenvolvimento, influenciando o modo de viver de milhares de pessoas no país e no
mundo, não significa que esse seja o setor hegemônico da agricultura brasileira. A maior parte
das terras cultivadas no país está nas mãos de setores identificados com uma visão de
produção agrícola nos marcos capitalista. A rigor, todas as referências a esse tipo de
exploração são feitas a partir da propagação da imagem de uma agricultura modernizada, de
uso racional dos insumos, com uso controlado e adequado de agrotóxicos e do uso do solo em
perfeita harmonia com o meio ambiente.
Mas a face agressiva dessa forma de exploração, alicerçada no uso indiscriminado de
agrotóxicos e insumos químicos, na mecanização agrícola baseada em combustíveis fósseis
não renováveis, na degradação física, química e biológica dos solos, na poluição das águas e
45
no desflorestamento, quase nunca aparece, vendendo uma dupla ilusão. Para a sociedade
urbana, a ilusão de que ela cumpre a função social de alimentá-la , e para os agricultores, de
que é possível incluí-los sem degradar ainda mais a base material da vida e acelerar a crise do
sistema capitalista.
46
3 A EXTENSÃO RURAL NO RIO GRANDE DO SUL
3.1 O espaço da pesquisa e a metodologia utilizada
“De tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito”
(P. Leminski)
Para um trabalhador da Extensão Rural, a grande dificuldade em adotar uma
metodologia para estudá-la é obter o distanciamento necessário, tanto na coleta, como na
análise dos dados. Segui pelo caminho mais fácil, pouco preocupado com o distanciamento.
Assim, ao utilizar uma série de materiais bibliográficos, documentais e de entrevistas com
alguns colegas, as observações estarão sempre embebidas de minha experiência como
Extensionista Rural. Penso que os afastamentos que tive da atividade diária da Extensão Rural
e da empresa EMATER/RS-ASCAR, durante dois períodos de licença, oportunizaram
condições de ouvir e conviver com outros segmentos, o que leva a “julgamentos” um pouco
acima da “corporação”. Esse fato, que talvez amenize preocupações (e culpas), também acaba
reforçando a condição de pertencimento a um determinado grupo. Logo, os apaixonados pela
neutralidade e objetividade do método julgarão que este não é um trabalho muito objetivo.
Fazer o quê? Estamos “sujeitos” a isso.
Para ouvir os envolvidos diretamente com o tema da dissertação,, realizei uma
pesquisa de campo na região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. A pesquisa foi feita
apenas com os Extensionistas Rurais da EMATER/RS-ASCAR pois inicialmente o projeto de
47
pesquisa era orientado para avaliar aspectos da formação profissional dos mesmos e as
diferenças que poderiam ou não existir entre profissionais que viveram períodos
mais
intensos de transferência de tecnologia como o Projetão e aqueles que tiveram o contato com
a crítica da modernização da agricultura brasileira ainda na educação formal ( colégios
agrícolas e universidades) ou atrvés da formação inicial oferecida pela empresa.Tendo a
pesquisa esse objetivo, não foram entrevistados os diferentes públicos que a Extensão Rural
trabalha na região.Entretanto, no momento da qualificação da dissertação, graças a
contribuição da banca examinadora, o trabalho assume um aspecto mais amplo sobre a
atividade extensionista e essa lacuna passa a existir na nossa metodologia.
.
A Região Celeiro do Estado do Rio Grande do Sul está localizada na parte Noroeste
do Estado. É composta por vinte e um municípios: Barra do Guarita, Bom Progresso, Braga,
Chiapetta, Campo Novo, Coronel Bicaco, Crissiumal, Derrubadas, Humaitá, Inhacorá,
Miraguaí, Redentora, Santo Augusto, São Martinho, São Valério, Sede Nova, Tenente
Portela, Tiradentes do Sul, Três Passos, Vista Gaúcha e Esperança do Sul e se caracteriza
por uma participação expressiva da agricultura na economia, com um predomínio de médias e
pequenas propriedades agrícolas, resultado de um processo de ocupação do espaço conhecido
como colonização tardia5. Esta é a migração interna de filhos ou famílias de imigrantes das
primeiras colônias (assentamentos humanos efetivados com imigrantes vindos da Europa) do
Estado do Rio Grande do Sul que se situavam na região da Serra, Centro e Vale do Sinos e
Paranhana
A população residente é de 149.590 habitantes, sendo 76.387 habitantes (51,06%) na
área urbana e 73.204 habitantes (48,94%) na área rural, de acordo com o Censo 2000 do
5
Para uma análise desse processo de ocupação do Rio Grande do Sul ver Sandra Jatahy Pesavento. História do
Rio Grande do Sul, 6ª ed. Porto Alegre:Mercado Aberto,1992.
48
IBGE. No meio rural, cerca de 40% da população é constituída por homens adultos, 38% de
mulheres adultas e 22 % de jovens. No período de 1991 a 2000, a região apresentou uma taxa
média anual de crescimento demográfico negativa de –1,09%, indicando a perda de população
para outras regiões, principalmente jovens do meio rural. Apenas três municípios - Bom
Progresso (+0,05), Chiapeta (+0,24) e Inhacorá (+0,14) - apresentaram índices positivos, mas
mesmo assim bastante inferiores à média estadual, que é de +1,21% ao ano. Esse
comportamento negativo da taxa de crescimento deve-se ao fato de ser uma região
fornecedora de mão-de-obra para as regiões industriais ou de abertura de fronteira agrícola do
país.
A estrutura fundiária da Região Celeiro evidencia a predominância da pequena
propriedade. Segundo o Censo Agropecuário de 1996 do IBGE, são 24.742 estabelecimentos
rurais, sendo que 11.425 têm até 10 hectares, representando 46% do total de estabelecimentos.
Entre 10 e 20 hectares o número é de 8.090 estabelecimentos rurais, 33% do total. Acima de
20 e inferior a 50 hectares são 3.969 estabelecimentos, representando 16% do total, e acima
de 50 hectares são apenas 5%, abrangendo 1.258 estabelecimentos.
Na região, encontram-se também cerca de 50% da população indígena do estado, nas
reservas da Guarita e Inhacorá (apesar do nome, essa TI fica localizada no município de São
Valério do Sul). Existem 520 pessoas assentadas do Programa Nacional de Reforma Agrária
nos municípios de Coronel Bicaco e Chiapeta. Essa referência é importante porque esses são
segmentos considerados atualmente como “públicos especiais” pela Extensão Rural.
No aspecto econômico, a região destaca-se como produtora de matéria-prima
agropecuária (para a transformação em outras regiões do estado) e pelo baixo valor agregado
49
oriundo dessa produção. A principal atividade agrícola da região é a produção de grãos,
especialmente a cultura da soja, com cerca de 250.000 hectares; trigo com 80.000 hectares; e
milho com 50.000 hectares,. A produção animal mais relevante é a produção leiteira, que é
uma atividade econômica importante para 8.876 famílias dos municípios, sendo que 6.830
famílias produzem até 50 litros de leite por dia, 2.031 entre 50 e 100 litros diários e apenas
1.142 que possuem uma produção que supera 100 litros por dia.
Outras atividades produtivas desenvolvidas na região são a fruticultura, produção de
suínos e hortigranjeiros. Recentemente, com ações e programas públicos voltados à agregação
de valor para a produção primária - como o Programa de Agroindústria Familiar e o Pronaf
Agroindústria - e pela preferência manifestada dos consumidores da região por produtos
industrializados de origem colonial, houve uma expansão da atividade agroindustrial em
pequenos empreendimentos familiares ou pequenas cooperativas. Além da produção, grande
parte da renda dos agricultores provém dos benefícios previdenciários, graças a condição de
segurado especial da previdência que o agricultor familiar possui.Em alguns municípios esses
valores superam o valor bruto da produção primária ou o retorno financeiro do FPM (Fundo
de Participação dos Municípios).
Todos os municípios possuem um Sindicato de Trabalhadores Rurais. Existem
Sindicatos Filiados à FETAG/RS (Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do
Rio Grande do Sul) e à FETRAF – Sul (Federação de Sindicatos de Agricultores Familiares).
Também existe na maior parte dos municípios organização de grupos de agricultores ligados
ao MPA6 (Movimento dos Pequenos Agricultores), sendo que esse movimento foi objeto de
estudo de uma dissertação neste curso de mestrado em Educação nas Ciências.
6
Sobre o MPA ver a dissertação de Célio Valdemar Cadona.. Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA-o
novo nasce das estradas. Mestrado Educação nas Ciências, Unijui:2004.
50
Os entrevistados foram selecionados dentro das categorias mais numerosas de
trabalhadores da Extensão Rural que atuam na região Celeiro, pertencentes à região
administrativa da EMATER/RS-ASCAR de Ijuí. Essas categorias são técnicos agrícolas,
extensionistas de bem estar social e engenheiros agrônomos. A região administrativa de Ijuí é
composta por quarenta e sete escritórios municipais, três escritórios de classificação vegetal,
um centro de treinamento em Bom Progresso e um escritório regional de apoio situado em
Ijuí. Possui em seu corpo funcional cinqüenta e dois técnicos agrícolas, vinte e seis
engenheiros agrônomos, dois médicos veterinários, quarenta técnicos de bem estar social e
trinta e seis funcionários em setores de apoio (assistentes administrativos, auxiliares de
limpeza, informática e outros).
A escolha dos entrevistados deu-se pelo período de admissão na empresa. Foram
selecionados dois períodos emblemáticos: o Projetão em 1980 e o período de 1999 a 2002. As
razões da escolha desses períodos são: a orientação recebida durante a fase de ingresso na
empresa, num processo de formação denominado de pré-serviço no período de 1980 e
capacitação inicial a partir do ano de 1997. No primeiro caso, o Projetão significou a
expansão do sistema de Extensão Rural pelo Estado e a afirmação da orientação difusionista
que se tornava hegemônica nessa época, graças às orientações estabelecidas para o Banco
Mundial para projetos de desenvolvimento rural em países pobres. Já no segundo período
escolhido, que foi de 1999 a 2002, a capacitação inicial deu-se sob bases de uma política de
formação de recursos humanos diferenciada do pré-serviço do Projetão. Essa política estava
orientada para o campo conceitual denominado de Agroecologia, com forte presença dos
estudos e diagnósticos participativos e o enfoque nas cadeias de produção e nos sistemas de
produção na propriedade.
51
A partir desse critério, escolhi dois entrevistados em cada categoria profissional, um
em cada período de admissão escolhido. A seleção dentro dos períodos foi feita pela data de
admissão: os mais antigos, no caso do período do Projetão; e os mais recentes, no caso do
outro período. As entrevistas semi-estruturadas, com ênfase no papel que identificam para a
Extensão Rural na atualidade e no trabalho que realizam, foram feitas entre outubro de 2005 e
janeiro de 2006. Todas foram realizadas no local de trabalho, com autorização da direção da
empresa e dos empregados entrevistados e foram gravadas para registro e consultas
posteriores. As referências que posteriormente serão feitas, baseadas nas falas e contribuições
desses Extensionistas, estarão identificadas pelo termo Extensionista e um número
correspondente à ordem das entrevistas realizadas.
3.2 Origens e institucionalização dos serviços da EMATER/RS-ASCAR
As atividades de troca de experiências e informações sobre agricultura são antigas.
Fazem parte do processo de domesticação da natureza e remontam ao início da civilização
humana. Já a Extensão Rural, da forma como a conhecemos hoje, não pode ser definida como
um sistema de troca de informações que se assemelha a uma prática milenar dos povos
agrícolas, a exemplo de serviços de informações que existiam na Mesopotâmia e nas dinastias
chinesas7. O sentido da Extensão Rural é radicalmente novo no capitalismo.
Conceituar a Extensão Rural (algo que não é fácil) e apresentar um pouco os
principais momentos de sua constituição no Brasil é o objetivo deste capítulo. Para tanto,
utilizo o exemplo da Associação Sulina de Crédito Rural – EMATER/RS-ASCAR /
7
Ver Gonçalo Duro dos Santos. Os camponeses e o imperador:reflexões etnográficas sobre
orizicultura intensiva e estratificação social no Sudeste da China rural. Disponível no sítio
www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/etn/v10n1/v10n1a02.pdf
52
Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural EMATER-RS, para substanciar essa história. Entendo que é perfeitamente possível
estabelecer a partir da história desta instituição o marco de constituição dessa prática,
apresentando as principais orientações teóricas que a substanciavam e os objetivos a que se
propunha.
Fonseca (1985), em seu livro A Extensão Rural no Brasil: um projeto para o capital,
assim apresenta a idéia sobre Extensão Rural:
a) sistema especial de educação rural que atinge adultos e jovens através de
metodologia adequada e da ação de líderes em grupos e comunidades, visando à
adoção de novas práticas agropecuárias e domésticas;
b) sistema educativo e informal que busca obter mudanças de atitude, procura
aperfeiçoar as aptidões e melhorar as condições de vida da população rural, através
da tecnificação do trabalho agrícola e fomento da organização comunitária;
c) modalidade informal e democrática de educação de adultos e jovens que visa
levar ao agricultor e a sua família os conhecimentos necessários à solução dos
problemas que impedem a elevação de seus níveis de vida;
d) processo educacional que visa induzir o povo (considerando povo, indivíduo e
instituições) a interpretar e responder, de maneira apropriada, às mensagens de
mudanças para a promoção do desenvolvimento sócio-econômico do meio rural
através da integração das forças vivas da comunidade (FONSECA, 1985, p.50).
Essa idéia de explorar “as forças vivas da comunidade8” tinha sido, anteriormente,
divulgada no Brasil pelo movimento do ruralismo pedagógico, que defendia a concepção de
uma escola integrada às condições locais e orientou vários programas setoriais do Ministério
da Agricultura, como as colônias agrícolas, a aldeia rural, a Campanha de Educação de
Adultos e suas Missões Rurais de Educação de Adultos (CALAZANS, 2006). Todo esse
movimento permitiu a consolidação dessa idéia de desenvolvimento local que serviu ao início
da implantação do modelo americano de Extensão Rural no Brasil. Somente seriam alteradas
8
O conceito de comunidade é controverso na sociologia, quase sempre utilizada no sentido de oposição a
sociedade. No sentido usado, pode ser “ caracterizada pela simplicidade, pela fraca divisão do trabalho,por um
pensamento não científico, “mágico”, por uma extensão limitada, por relações cara a cara, por ordens e
castas,por dominação do sagrado” Dubet, François. Sociologia da experiência. Lisboa:Instituto Piaget,1996.
53
as unidades de intervenção. O que era a escola para o ruralismo pedagógico, passa a ser a
comunidade rural para a Extensão Rural.
Já o início institucional da Extensão Rural no Brasil é explicado por Martins (2001) a
partir daquilo que ela denomina de “espírito esaviano”, numa referência à Escola Superior de
Agronomia e Veterinária de Viçosa, que tinha uma proposta pedagógica alicerçada no Land
Grand Colleges dos Estados Unidos. Foi em Viçosa que se iniciou a formação de
profissionais cuja missão seria transformar a sociedade rural tradicional por meio do
progresso técnico advindo dos avanços da ciência. A ESAV foi o lócus privilegiado do
pragmatismo e experimentalismo pedagógico que originou as primeiras iniciativas de
Extensão Rural no Brasil.
Apesar de o Estado de Minas Gerais protagonizar o estabelecimento da Extensão
Rural, foi no município paulista de Santa Rita do Passa Quatro, no ano de 1948, a primeira
experiência de Extensão Rural nos moldes que a conhecemos hoje. Essa ação buscou
responder ao problema de falta de forragem para o gado leiteiro através do uso de silos
trincheiras num trabalho realizado em parceria com produtores, empresas locais, Prefeitura
Municipal, Governo Estadual e o assessoramento da Associação Internacional Americana
(AIA) (FONSECA, 1985).
Dessa experiência, iniciou-se o processo de institucionalização da Extensão Rural no
Brasil, juntando a “grande disposição” da AIA com o espírito esaviano, o governo de Minas
Gerais assina um convênio em 06 de dezembro de 1948 criando a Associação de Crédito e
Assistência Rural - ACAR. Esse pode ser identificado como o nascimento da Extensão Rural
no Brasil. Mas esse “bebê” já nasce com um destino traçado: crescer à semelhança do modelo
54
americano de Extensão Rural e promover o modelo euro-americano de modernização da
agricultura no campo brasileiro.
Se a institucionalização e expansão dos serviços de Extensão Rural no “terceiro
mundo” constituíram uma das estratégias para a difusão do modelo euro-americano de
modernização agrícola, Padilha (apud CAPORAL, 1991) identifica os grandes patrocinadores
dessa experiência em três grupos: i) o governo americano e suas instituições (IIAA - Instituto
Interamericano para Assuntos da América e o ETA - Escritório Técnico Brasil-EUA; ii) as
associações ou entidades filantrópicas (Fundações Ford e Rockfeller) e iii) os organismos
internacionais (OEA, BID, IICA, FAO, BIRD). Cada qual com seu respectivo “modus
operandi”, esses patrocinadores conseguiram em pouco tempo criar as condições materiais e o
contexto político para a implementação do modelo americano de Extensão Rural agrícola no
Brasil.
A primeira fase da Extensão Rural no Brasil deu-se pelo denominado modelo
clássico, em que a extensão é o elo entre as estações de pesquisa experimentais, geralmente
entidades universitárias, e as populações rurais, com a tarefa de estender os conhecimentos ao
povo rural e levar os problemas do povo às fontes de pesquisa. Esse modelo caracterizou-se
pelo “exagerado entusiasmo fundado na idéia de que era necessário informar e persuadir os
agricultores a adotarem melhores práticas” (FONSECA, 1985, p. 41) numa direção que
pretendia ser de mão dupla, levando o conhecimento para o povo e retornando com os
problemas deste para a pesquisa. Esta, por sua vez, através do conhecimento científico,
poderia encontrar soluções para tais problemas.
55
Esse modelo funcionava nos Estados Unidos da América, com sua criação desde a
guerra da sucessão e institucionalizado em 1914, onde servia ao propósito de divulgação de
técnicas modernas para os agricultores. Naquele país, esse sistema funcionou porque a
agricultura tinha na busca da lucratividade seu aspecto principal, característica pouco comum
na agricultura européia. Ao explicar a colonização do “Novo Mundo”, um estudioso do
desenvolvimento agrícola mundial concluiu que:
para esses imigrantes, a agricultura na América era menos um modo de vida do que
um meio de fazer dinheiro. Eles vinham dispostos a abandonar, como o fizeram as
relações entre homem e terra, marcadas por um profundo respeito, típicos da
tradição camponesa européia. A característica maior da agricultura americana, [...]
era seu caráter altamente especulativo (ROMEIRO, 1998, p. 72).
O mesmo autor explica que as Estações Experimentais Regionais nasceram fruto de
um vasto movimento de propaganda e agitação de fazendeiros e jornalistas militantes que
defendiam a criação dessas unidades como fazendas-modelos, realizando experimentos que os
agricultores não tinham condições de fazer e gerando novas técnicas de produção, mas sempre
com a preocupação e o intento de aumentar a rentabilidade. A pesquisa e a Extensão Rural
serviam a esse propósito e surgiram pela pressão dos agricultores. Nessa realidade, onde os
agricultores operavam numa racionalidade capitalista, exploravam suas terras sob condições
de monocultivo e degradação que exigiam respostas constantes, além de reconhecer as
vantagens da tecnologia na busca de maior produtividade, a divulgação e geração de novas
tecnologias era um processo legitimado, necessário e até exigido pelos agricultores.
No Brasil, o processo de implantação da Extensão Rural não se deu pelo desejo dos
agricultores, que eram bem diferentes do “farmer americano”, pois eles eram vistos da
seguinte maneira:
56
O homem rural, de índole retraída e desconfiado, isolado em seu ambiente pela falta
de meios de comunicação e de interesses comunitários, tem vivido à margem do
progresso agrícola [...] A família vive em habitação precaríssima, sem condições
mínimas de conforto, completamente desprovida de atrativos. Na sua maioria o
homem rural é portador de males e doenças, notadamente a verminose, que reduzem
grandemente sua capacidade de produção (ACAR-MG Relatório 1954/1955 apud
FONSECA, 1985, p. 92).
Mudar a população rural através do progresso técnico. Essa era a solução que a
Extensão Rural propunha para melhorar as precárias condições em que viviam as famílias. O
desconhecimento dos avanços científicos era o único fator que causava essa situação. Outros
fatores estruturais do campo brasileiro, como a concentração fundiária e ausência de políticas
específicas para os camponeses, sequer apareciam no discurso. A situação que era descrita
pela ACAR-MG assemelhava ao retrato pitoresco que Monteiro Lobato traçou do cabloco
brasileiro em 1918 em seu Urupês, quando criou a célebre figura do Jeca Tatu.
Ainda sobre a forma que a realidade da população era apresentada nos programas
educacionais do período, sempre como um complexo de carências, de referências negativas,
Calazans et alli (1981, p. 171) aponta para um paradoxo na lógica que os estruturavam. A
“impressão de carência total” é sempre produzida pela constatação de uma carência
econômica. A carência econômica que determina a carência de saúde, nutricional, de contatos
externos etc., enfim “[...] uma determinação do econômico sobre todas as instâncias
socioculturais”. Mas a esse diagnóstico, recomenda-se um remédio que não passa por uma
ação sobre o campo determinante, no caso, o econômico. Por mais incrível que pareça, as
soluções apontadas, “[...] as receitas para curar o corpo social enfermo, confere-se a educação
um papel redentor. Esta será na estratégia de reabilitação do homem no campo, um reversor
de tendências, um determinante de transformações profundas e definitivas” Calazans et alli
(1981, p. 171).
57
Indo além, os autores em questão avaliam que através dessa receita caberia ao
educador articular a população para “torná-la forte e dotá-la de uma substância”. A rigor,
dessa maneira, a realidade da população não apenas é negativa. Ela passa a ser ausente. Um
vazio frente a essa substância que inexiste. E tudo fica a cargo do educador e sua tarefa
fantástica. “Pleno, o mobilizador se incumbe de preencher esse vácuo [...] Se uma sociedade é
diferente da minha, assim o é, porque é vazia de minha própria sociedade” (CALAZANS et
alli, 1981, p. 172).
Mas a forma clássica de fazer Extensão Rural, apesar da crença dos especialistas que
esse era um remédio efetivo para o combate à pobreza, não foi eficiente com o público
brasileiro. A primeira avaliação do sistema da ACAR-MG, em 1952, feita por uma equipe de
técnicos americanos, “deixou todos perplexos, pois o Serviço de Extensão não tinha tido
resultados satisfatórios como se esperava. [...] Foi feito um novo planejamento, mas com a
idéia de educar o agricultor e sua família e utilizar o crédito como ferramenta de educação”
(MOITTA, 1970, apud FONSECA, 1985, p. 85). Então, após a constatação de que o modelo
americano clássico não servia, começa a ser gestado um novo modelo para a Extensão Rural,
mais “apropriado aos países subdesenvolvidos”, com a Extensão Rural assumindo um papel
mais educativo.
Fonseca (1985) explica que a adequação do modelo clássico de Extensão Rural ao
mundo subdesenvolvido foi elaborada por Everett M. Rogers. Essa adaptação gerou um
modelo de intervenção que ficou conhecido como difusionista-inovador, baseado nas teorias
difusionistas dos antropólogos ingleses e na teoria dos sistemas sociais de Talcott Parsons.
Esse modelo de intervenção acreditava que o processo de criação, difusão e adoção de novas
idéias poderia causar mudanças estruturais no sistema social, promovendo desenvolvimento
58
(modernização ao nível do sistema) e modernização (modificação de um estilo tradicional de
viver, aumentando sua complexidade e inclinando-se para os avanços da tecnologia e das
mudanças rápidas). A principal contribuição trazida por Rogers é o conceito de “capacidade
individual para inovar”, que seria:
[...] um processo mental por onde passa o indivíduo desde a primeira notícia de
inovação até decidir adota-la ou rejeita-la, e confirmar depois de sua resolução.
Temos conceituado quatro funções dentro desse processo: 1) conhecer, 2)
persuadir, 3) decidir e 4) confirmar. A adoção consiste em decidir usar
plenamente a idéia nova, como a melhor opção para atuar (ROGERS, 1974 apud
FONSECA, 1985, p. 44) [grifos meus].
Essa fase difusionista inovadora da Extensão Rural buscava muito mais que a
simples oferta de técnicas para o homem rural. Diferente da forma clássica, seus objetivos iam
além da divulgação científica e da apresentação do mundo moderno aos cablocos. Sua
preocupação estava centrada na adoção efetiva de inovações, numa mudança cujo
[...] problema consiste em mudar normas de comportamento tradicional, a fim de se
conseguir um conduta nova mais conforme às exigências do progresso social técnico
[...] o Extensionista se dará conta de que não poderá fazer com que aceitem e adotem
- dois termos que não são sinônimos- a inovação inscrita em seu programa a não ser
`a medida que ele possa modificar o que as pessoas sabem, pensam, crêem, sentem e
fazem de uma maneira tradicional. Em outras palavras, torna-se necessário uma ação
sobre o plano psicológico (CLERCK, 1969, p. 99, apud FONSECA, 1985,
p. 51).
No Rio Grande do Sul, a primeira tentativa de fundar uma instituição extensionista
nesses moldes ocorreu em setembro de 1951, numa reunião da qual
[...] participaram as maiores autoridades civis e eclesiásticas do Estado, inclusive o
governador, e, não por coincidência, estavam preentes os senhores Robert W.
Huggens e Henry Wight Bragley, diretores da American International Association
(AIA) do Grupo Rockfeller, o Sr. Vice-Cônsul dos Estados Unidos da América e
ainda Mr. Wlater L. Crawford, assistente técnico da ACAR-MG (CAPORAL, 1991,
p.49).
O mesmo autor explica que, apesar de a criação da ACAR ter sido aprovada nessa
reunião, ela não foi implementada, postergando o início dos serviços até a criação da
59
Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural – EMATER/RS-ASCAR, em 1955. Esse
início das atividades extensionistas no Rio Grande do Sul deu-se a partir de uma concepção de
Extensão Rural que é definida por diversos autores como a forma clássica:
Extensão Rural como orientação e assistência técnica ao agricultor e sua família,
articulada ao crédito supervisionado, constitui a chave do sistema que a ACAR
emprega para elevar o padrão de vida do pequeno e médio agricultor.
Há que ressaltar, antes de mais nada, o caráter integral da extensão da
ACAR.Visa esta organização a assistir o homem do campo e sua família na solução
de seus problemas nos mais diversos setores, abrangendo o lar, a propriedade e a
comunidade.
Os métodos de extensão adotados pela ACAR são simples e práticos. Na
divulgação de conhecimentos têm larga aplicação os “auxílios audiovisuais”, isto é,
flanelógrafos, cartazes, folhetos, programas de rádio, artigos em jornais, projeção de
filmes e fotografias. Estes recursos didáticos são essenciais dado o baixo nível
cultural o nosso homem do campo (ACAR-MG, 1959, apud FONSECA, 1985, p.
84) [grifos meus].
Essa fórmula não trazia apenas a preocupação com o aumento da produtividade, mas
também com outros aspectos das propriedades rurais, principalmente com a administração do
lar. Essa preocupação era derivada do enfoque norte-americano de Farm Home
Administration e Farm Land Administration. O Brasil desse período apresentava elevados
índices de desnutrição, verminose, ausência de saneamento básico, em especial nas zonas
rurais, o que transformava essas questões - no período, entendidas como domésticas - numa
necessidade de intervenção e promoção de uma mudança cultural dos nossos Jecas Tatus.
Uma análise do programa de atividades de 1957/1958 do projeto ETA 11 - ASCAR
revela diversas indicações sobre essa forma clássica de “fazer” a Extensão Rural, mesmo que
nesse período já se inicie o trabalho com o modelo difusionista inovador. A primeira frase do
plano apresenta um conceito de Extensão Rural como “fundamentalmente um programa de
bem estar do homem do campo”. Para atingir esse bem estar, inicia-se o trabalho de
planejamento que deveria ser de fato um trabalho conforme as tradições e características da
Extensão Rural, com o diagnóstico desta, a fim de que se avaliasse o material disponível a um
60
início de ação. Esse diagnóstico era realizado em reuniões, visitas, entrevistas e pesquisas
estatísticas, num processo de seleção de problemas, sendo que:
[...] o povo participou ativamente da seleção dos mesmos, levando em conta
principalmente aqueles que iam de encontro as suas necessidades mais preementes.
Inclui-se também problemas não sentidos por ele, mas que a situação existente
mostrava aos técnicos, a necessidade de solução. Desta maneira os problemas
selecionados determinaram os objetivos possibilitando o planejamento para uma
possível solução (Programa de Atividades de 1957/1958 / projeto ETA 11 –
EMATER/RS).( grifos meus)
Ainda no que tange ao povo, num item intitulado “O conhecimento dos Agricultores
e suas Reações”, podem ser colhidos mais subsídios sobre a forma como a Extensão Rural via
o trabalho com o seu público. Salientando que os “agricultores como primeiras vítimas de
seus erros [...] estão despertando para a agricultura mais racional”, enfatizam que “os
Extensionistas muito têm feito para divulgação de preceitos básicos e que seria a solução dos
problemas dos agricultores” (EMATER/RS, 1957).
Também é possível encontrar nesse material aqueles elementos que Fonseca (1988)
encontrou ao analisar a influência do E.T.A.- Escritório Técnico Brasil-EUA - na formulação
do discurso extensionista. Considerando que os objetivos que eram apresentados - “aumento
da produção e da produtividade agrícola e elevação dos níveis de vida da população rural” não eram suficientes para caracterizar a ação extensionista, já que objetivos podem
concretizar-se sob as mais diversas formas, a autora levantou os pontos-chave do conteúdo da
atividade extensionista para melhor definir o discurso extensionista. E os pontos principais do
conteúdo seriam: i) a experimentação empírica; ii) a valorização do tipo de trabalho exercido
pelo técnico extensionista; iii) o caráter educativo do trabalho e iv) a crença em alternativas
comunitárias de auto-ajuda.
61
Como esse programa era resultado da cooperação do Escritório Técnico Brasil-EUAETA, fica confirmado que a estratégia de implantação do sistema de Extensão Rural oficial
levado a cabo pelo conjunto de instituições americanas conseguiu criar, além das condições
institucionais, a consolidação de um discurso extensionista difusionista inovador necessário
para a difusão do padrão euro-americano de modernização agrícola. Caporal (1991) salienta
que para garantir a uniformização de seus princípios doutrinários e o desenvolvimento da
Extensão Rural no Brasil, especialistas em treinamento (grande parte dos quadros funcionais
do AIA e ETA) estabeleceram um currículo mínimo para o treinamento inicial dos
Extensionistas. Currículo que era composto de noções de Extensão Rural, Administração
Rural e do Lar, Higiene Rural, Relações Públicas e Associativismo Rural, distribuídos num
curso intensivo de oito semanas de duração, realizado nos centros de treinamento criados para
esse fim.
Essa fase da Extensão Rural tinha por objetivo atingir os pequenos e médios
produtores, ajudando a fixar o homem no campo. Entretanto, o processo de modernização da
agricultura brasileira acabou causando um enorme êxodo rural, expulsando milhares de
famílias para os meios urbanos e forçando aqueles que permaneceram no campo a integrar-se
aos complexos agroindustriais ou situar-se à margem do sistema. Não mais havia sentido para
uma Extensão Rural com foco no desenvolvimento de comunidades e na família rural. A
Extensão Rural
passa a orientar-se estritamente pela produção voltada ao mercado,
aumentando a geração de divisas com a exportação e ampliando o mercado para máquinas e
insumos pela agricultura.
Rodrigues (1994) explica que essa ação extensionista estava determinada pelas
diretrizes do I Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico (1972-1974), numa tendência
62
à seletividade para as ações produtivistas na agricultura com metas setoriais de intensificação
do uso de insumos modernos, de mecanização agrícola, de desenvolvimento da indústria
nacional de adubos, corretivos e “defensivos agrícolas”, da geração e adaptação de
conhecimentos através da pesquisa agropecuária para alteração da base técnica e da
articulação de um sistema nacional de crédito agrícola que financiasse essa alteração aos
agricultores..
Para melhorar a ação governamental na área, é criada a Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA e, mais tarde, a Empresa Brasileira de Assistência
Técnica e Extensão Rural – EMBRATER, num esforço que, segundo Caporal (1991), fica
muito claro ao se ler a Exposição de motivos n° 08/74, dos Ministros da Agricultura e Chefe
da Secretaria do Planejamento, enviada ao Congresso pelo presidente Ernesto Geisel em
06/1974.
A concretização de um plano de desenvolvimento agrícola depende, basicamente, da
conjugação de esforços para aumentar os níveis de produção e produtividade da
nossa agricultura que, como se sabe, são ainda muito baixos. A conjugação ordenada
da pesquisa, do crédito e da assistência técnica torna-se essencial aos esforços do
governo para acelerar o processo de desenvolvimento do setor agropecuário, através
da incorporação maciça de tecnologia e da melhoria da produtividade da mão-deobra no campo (EMBRATER, 1975, apud CAPORAL, 1991, p.45).
Uma boa amostra do que seria essa terceira fase da Extensão Rural pode ser vista no
objetivo geral do programa da EMATER-RS (criada em 1977) para o ano de 1979, que era “a
transferência de tecnologia agropecuária e gerencial aos produtores rurais, para elevar a
produtividade dos fatores empregados na formação e comercialização da produção agrícola.”
(EMATER/RS, 1979, p. 20). O público beneficiário passa a ser dividido em dois grupos: a)
produtores de média e alta renda e b) produtores de baixa renda. Os primeiros deveriam ser
selecionados para o trabalho a partir dos seguintes critérios “a) produtores de melhores
condições para integração nos mercados de insumos e serviços agrícolas, b) produtores
63
suscetíveis e motivados à adoção de inovações tecnológicas e gerenciais e c) produtores com
maior independência no uso da terra, do capital e da mão-de-obra” (EMATER/RS, 1979, p.
22). Já os produtores de baixa renda teriam sua seleção baseada nas seguintes condições “a)
produtores em concentração espacial favorável e que tenham condições de serem preparados
para gozar os benefícios do associativismo e das instituições comunitárias, b) produtores com
potencialidades para serem incorporados à economia de mercado, pelo aumento da produção
agropecuária e da renda familiar” (EMATER/RS, 1979, p. 23).
O planejamento também era efetuado por projetos, cuja programação tinha por
finalidade desencadear ações em dois eixos principais. Um deles era o processo de
transferência de tecnologia agropecuária para a elevação dos níveis de produção e
produtividade, o outro buscaria dotar os produtores (termo característico e bem apropriado
para o período) de instrumentos de controle e acompanhamento de custos, de tecnologia
gerencial para sistematizar a administração da propriedade.
Essa fase ficou conhecida como transferência de tecnologias. De modo geral,
operava-se ainda pela difusão de inovações, porém, agora, estas se concentravam por um
determinado produto agrícola, seja uma cultura como milho ou soja, seja uma atividade de
criação animal como pecuária de corte ou ovinocultura. É o processo de especialização e
compartimentalização do conhecimento através do método cartesiano de decompor em partes,
característico da modernidade, que passa a ser adotado na atividade agrícola.
Outra característica foi a padronização e a amplitude de recomendações técnicas
através dos famosos pacotes tecnológicos. Os pacotes, como procedimentos genéricos de
recomendação técnica, não se tornaram comuns devido a um maior conhecimento fisiológico
64
e fenológico dos vegetais, da composição química dos solos, da climatologia agrícola e em
outras áreas da agronomia. Um maior conhecimento universal da atividade agrícola permite
generalizar procedimentos que sejam mais eficazes do que ineficazes. Não era na ampliação
do conhecimento da realidade agrícola que os pacotes se sustentavam. A adoção das técnicas
preconizadas nos pacotes só era possível graças a subsídios governamentais nos insumos e na
formação dos preços agrícolas através da política de garantia de preços mínimos, o que
garantia a remuneração do produtor. Era uma política que se dizia voltada para a produção de
mercado, mas que foi implantada e sustentada em grande parte pelas políticas públicas
existentes e pelo apoio benevolente do Tesouro Nacional.
Uma demonstração da especialização da ação extensionista no rumo de uma
intervenção restrita ao campo produtivo pode ser vista no objetivo geral do Plano Estadual de
Assistência Técnica e Extensão Rural -1980/81, que buscava “aumentar, significativamente, o
volume, a produção e os índices de produtividade da agricultura gaúcha, através da
transferência de tecnologia agropecuária e gerencial” (EMATER/RS, 1982, p. 02).
Se esse era o objetivo do plano, a maneira escolhida para efetivá-lo foi bastante
original. Seguiu a tradição que a Extensão Rural já tinha. Importou-se um modelo já
implementado por um organismo internacional. Essa receita nova era o modelo de capacitação
e visita do Banco Mundial, modelo teórico que fundamentou o conhecido Projetão da
EMATER/RS, quando a empresa ampliou sua área de atuação de 157 para 185 municípios9 , o
número de produtores atendidos ampliou de 117.957 para 252.446 e o número de técnicos de
execução aumentou de 1.276 para 1.957.
9
Importante lembrar que até 1981 o número de municípios gaúchos era de 232 e não os 496 municípios de hoje.
65
A ampliação no número de municípios e dos agricultores atendidos explica-se
quando se observa que, frente o cenário de crise da economia mundial, o Governo Brasileiro
estabeleceu no seu III Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico que a agricultura seria
um setor
eficaz para resolver alguns problemas nacionais como: i) minimizar a crise
energética através da produção de biomassa como fonte de energia renovável (Proálcool); ii)
amenizar o problema de balanço de pagamentos via incremento das exportações de produtos
primários e, por fim, aquela que seria a principal razão de atender os pequenos agricultores,
iii) instrumentos de contenção da pressão inflacionária através do aumento da oferta de
alimentos básicos no mercado interno (RODRIGUES, 1994).
Se a recessão econômica impedia a modernização da base técnica, tanto no ritmo em
que vinha acontecendo como nos locais (grandes e médias propriedades rurais) onde
acontecia, seriam buscados novos espaços e agricultores para serem modernizados. Política
que ainda serviria para legitimar o Governo Brasileiro como preocupado com o “social”, já
que se reduzia significativamente o crescimento econômico, sua principal fonte de
legitimação.
Voltando ao sistema de capacitação e visita (C&V) adotado pela EMATER/RS, é
necessário afirmar que foi o modelo teórico que o Banco Mundial utilizou para os projetos
que financiava no “terceiro mundo”, e seus princípios mais relevantes eram:
[...] todas as atividades de Extensão Rural (na região) são unificadas em um serviço
só, o serviço tem exclusivamente tarefas de aconselhamento e não assume funções
governamentais ou administrativas (fiscalização), nem tarefas de estatística (por
exemplo,relacionada ao imposto) ou de abastecimento de insumos, o
aconselhamento se concentra nas culturas principais e em poucos, mas importantes
práticas relacionadas a elas, o trabalho é realizado através de agricultores de contato
(cerca de 10% do grupo alvo distribuído em 8 grupos de 4 a 15 pessoas) que devem
servir de exemplo para os outros membros do grupo alvo [...] (SCHIMITZ, 2001, p.
64).
66
Observa-se que a especialização é exacerbada nessa metodologia, que chega a
selecionar práticas dentro de uma cultura para a difusão e adoção pelos agricultores. É um
enxugamento de currículo significativo frente ao que se propunha a Extensão Rural no seu
início. Na EMATER/RS, esse modelo foi implantado através da inserção de técnicos de nível
médio para residir nas comunidades. Os técnicos residiam nas propriedades ou em locais da
comunidade e as equipes eram formadas e distribuídas segundo os seguintes critérios:
a) o número médio de estabelecimentos agropecuários por área de atuação deve ser
de 300 e o de produtores a serem assistidos direta e regularmente por técnico
executor (nível médio) de 150, ou seja, 50% do total;
b) Um Supervisor Local (Técnico de Nível Superior) para cada grupo de cinco
Técnicos de Execução (nível médio) e um auxiliar Administrativo (Secretário) para
cada equipe de dez técnicos (Supervisor Local + Técnicos Executores + outros
técnicos) (EMATER/RS, 1982, p.02).
Essa atuação interiorizada e o uso de motocicletas para o deslocamento são as
maiores marcas (para muitos, são cicatrizes) desse período. Nas palavras de uma
Extensionista que iniciou sua atividade nesse período - “No Projetão, era cada técnico com
sua moto, vinha aqueles pacotes prontos... eram uns coitados que ficavam lá” (Extensionista
1) - é possível identificar a motocicleta como símbolo e também as dificuldades sob as quais o
trabalho era realizado.
Mas o maior efeito do referido projeto foi na difusão de tecnologias, em especial na
cultura do milho, escolhida para atuação na Região Noroeste do Rio Grande do Sul, cujo
acompanhamento, em grupos, das lavouras demonstrativas da cultura “começava na análise
do solo [...] até chegar, para surpresa nossa e do pessoal, numa produção superior a 100 sacas
por hectare... começou o pessoal a adotar essa tecnologia... o Projetão estava destinado a
difundir essa tecnologia” (Extensionista 2). Outro efeito foi a consolidação do agricultor
assistido individualmente, herança que ainda hoje repercute na expectativa dos agricultores
em relação à atividade extensionista. Aliás, expectativa que não era apenas dos agricultores.
67
Um dos mais jovens Extensionistas entrevistados afirmou que “a gente tinha uma idéia que [a
Extensão Rural] era mais direcionada ao nível do produtor, produtor por produtor quando
entrei na empresa” (Extensionista 5). Esse contato direto com os produtores através de visitas
e uso de lavouras demonstrativas permitiu a difusão do uso de sementes melhoradas,
adubação química (em especial a nitrogenada) e controle de plantas ruderais. A preocupação
em se adotar e seguir o modelo era tanta, e dentro dela a preocupação com o trabalho de
campo, que ao avaliar as condições de trabalho dos técnicos interiorizados, chegou-se a
constatação de que muitos ficavam parados entre 60 a 70 dias por ano devido a chuvas, que
impediam o transporte por motocicletas. Como solução, foi apresentada a idéia de os técnicos
terem um espaço para trabalho e depósito de materiais, pois
Seria desejável e até indispensável que todos os técnicos tivessem o seu cantinho
[...] ao lado de suas vantagens há um inconveniente grande que é o de transformar
tal peça num mini escritório, passando o técnico a atender os agricultores nele, em
vez de ir para o campo, mesmo nos dias de tempo bom, o que não estaria conforme o
modelo (EMATER/RS, 1982, p. 43).
O Projetão pode ser identificado como a experiência mais radical em termos de
transferência de tecnologia e da difusão através de agricultores inovadores. Essa difusão de
técnicas científicas, portanto neutras, positivas frente ao papel que a agricultura deveria
desempenhar na economia brasileira, estava de acordo com aquilo que o regime militar
entendia como uma boa ação de governo. Em tempos de “Exportar é o que importa”, de
“Plante que o João garante”, para citar alguns slogans que retratam o espírito da época, ter um
conjunto de técnicos “trazendo” técnicas modernas às comunidades mais distantes e
promovendo o aumento da produtividade e da produção nacional eram sinais exteriores que
concretizavam para a população o discurso ufanista do milagre brasileiro.
68
Para um discurso que entendia ter o conhecimento o seguinte fluxo: a) o
desenvolvimento da ciência pura; b) a invenção; c) a inovação; d) o financiamento da
inovação e, por último, e) a aceitação da inovação e que o papel reservado aos agentes de
mudanças era promover a quinta etapa (MACLAURIN, apud BORDENAVE, 1980), chegar à
concepção do Projetão era um mero exercício de lógica formal. Acresça-se a essas
concepções a escala de adoção de inovação, que fornecia as bases psicológicas do processo de
adoção, onde se estabelecia uma escada onde o primeiro degrau era atenção, seguida pelo
interesse, num passo seguinte a avaliação, o ensaio e, finalmente, a adoção, tudo estava
resolvido.
Mas nessa receita não poderiam faltar alguns ingredientes básicos da época, como a
mania de medir tudo, herança da sociologia rural americana. Graças aos métodos modernos da
estatística, dividiam-se os agricultores pela velocidade de adoção das inovações em cinco
grupos, com o respectivo percentual de participação em cada grupo. Seriam eles: primeiro, os
inovadores, apenas 2,5%, que vinham seguidos pelos adotadores precoces, numa proporção de
13,5% que dariam lastro para a maioria inicial, algo que representaria 34%, que por sua vez
seriam seguidos por mais 34% da maioria tardia. Somente mais tarde os 16% restantes,
denominados atrasados, adotariam a inovação.
Mesmo com a forte presença das idéias sociológicas, dentro desse campo havia uma
batalha. Os economistas afirmavam que era o aspecto econômico o principal fator que levava
à mudança. Para fornecer uma idéia desse debate, apresentarei algumas anotações extraídas de
uma edição especial do IICA – Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola - organizada
por Bordenave (1980), que versava sobre a transferência de tecnologia e o pequeno produtor.
Essa publicação tinha como intenção promover um debate, quase à semelhança de um desafio,
69
entre sociólogos e economistas. Entretanto, não buscava dar publicidade às duas maneiras de
se olhar determinado problema. Apresentava-se como um duelo, em que qual das duas deveria
provar ser mais certa e importante que a outra. Resgato esse trabalho para mostrar como a
aprendizagem era vista no período. Primeiro são apresentadas três formas de aprendizado
pelos agricultores: i) tentativa e erro; ii) treinamento prático em serviço empreendido por
agências de Extensão Rural; iii) educação formal. Cada sistema desses poderia ser utilizado,
ressalvado que a escolha deveria se dar pela análise do custo/benefício de cada um. Como a
centralidade era o custo de adoção das inovações, é criado um custo de procura e do
aprendizado que varia de acordo com as categorias do aprendizado requerido. E as categorias
de aprendizado em relação às práticas agrícolas são definidas por Byrnes (apud
BORDENAVE, 1980) em quatro situações: a) aprender a associar um conceito ou material a
outro; b) aprender um novo princípio; c) aprender a aplicar um princípio já conhecido; d)
aprender um processo em seqüência.
Caporal (1991) é pertinente ao afirmar que o período de “desenvolvimento de
comunidades ou de propriedade com um todo” da Extensão Rural só existiu para garantir a
implantação do sistema e a subordinação da agricultura ao setor industrial. Para ele, a
Extensão Rural nasceu para educar para a assistência técnica, promovendo um processo de
internalização do progresso técnico desenvolvido pelo capital industrial. Indo mais além, o
autor afirma que
as bases teóricas que orientam a ‘educação’, na prática extensionista, exigem uma
atitude autoritária. Se a mudança deve ser induzida, se a percepção da necessidade
de mudanças é exógena, se é entidade, o Estado ou o técnico que a percebe, por
outro lado, também vem de fora da “comunidade” a tentativa de solução dos
problemas detectados, normalmente pela transferência de tecnologia, cria-se um
cenário próprio para uma educação autoritária, de cima para baixo e sobretudo
antidialógica (CAPORAL, 1991, p. 62).
70
Afora esse aspecto da postura autoritária da educação - donde nasce a certeza de
muitos técnicos de que são detentores do saber e da verdade, e também da espera, por parte de
alguns agricultores, de que o paternal Estado resolva seus problemas, na prática, as mudanças
não foram como a teoria assim apregoava. A elaboração de Willard Cochrane (apud
ABRAMOVAY,1992) da teoria do “treadmill of technology” ou espiral tecnológica que
analisa os ganhos em produtividade e renda dos agricultores que adotam técnicas e métodos
inovadores, demonstra os limites que esse tipo de intervenção possui para promover um
desenvolvimento mais justo. Como a elasticidade de demanda dos produtos agrícolas é muito
baixa, os preços caem quando a produção aumenta, reduzindo os ganhos de todos que
produzem. Assim, aquele produtor que investe na melhoria de sua produção, está colocando
seu vizinho que não investiu numa condição pior do que aquela em que ele se encontrava
anteriormente. E para ele também piora. Como seu investimento é uma inversão de capital
que deve ser remunerado pela produção, além de baixar os ganhos dos outros, reduz também a
sua renda, o que o obriga a estar sempre investindo para não ser excluído da atividade e
aumentar a sua produção para ganhar a mesma quantia que ganhava antes. Em resumo, é o
mesmo que ficar pedalando sem sair do lugar e, cada vez mais, obviamente mais cansado e
fraco, pedalar um pouco mais para permanecer no mesmo lugar. Portanto, o difusionismo
realiza uma modernização seletiva e obriga a investimentos e gastos crescentes a quem deseja
permanecer na atividade.
Isso posto, evidencia-se que a festa do milagre brasileiro acabou. E a ressaca para a
agricultura foi muito grande. A Revolução Verde deixou marcas profundas no Brasil. E a
Extensão Rural também teve o seu quinhão de dor de cabeça, suas cicatrizes e, diria, uma
ferida, ainda hoje exposta. Essa ferida não cicatrizada é a tentativa de superação do
difusionismo.
71
Junto a crise econômica pós-milagre, o Brasil passou por uma fase de abertura
política, de grande efervescência cultural, com o surgimento de idéias e ideais suprimidos à
população durante a censura do regime militar. E a Extensão Rural também viveu a sua
abertura política. Num movimento que ficou conhecido como repensar da Extensão Rural,
diversos setores da sociedade engajaram-se na luta por uma nova Extensão Rural. As
características desse movimento foram a mudança de público preferencial, que passaria a ser
de pequenos e médios produtores, jovens e com um trabalho mais focado em produção de
alimentos básicos e atividades comunitárias. Foi um movimento marcado pelos princípios
educativos de Paulo Freire, dando importância ao saber dos agricultores e estabelecendo a
introdução de métodos participativos como forma de iniciar o diálogo entre os técnicos e seu
público.
Na EMATER/RS-ASCAR / EMATER-RS o repensar foi o primeiro grande
movimento de consulta aos trabalhadores da empresa. Cada unidade operativa recebeu
orientações, documentos e textos básicos para leitura e reflexão, que posteriormente seriam
discutidos em nível municipal com lideranças e entidades ligadas à Extensão Rural. Após a
etapa municipal, cujo trabalho foi sistematizado, representantes levaram as propostas aos
encontros microrregionais e, em seguida, encaminharam-nas para um seminário estadual com
participantes escolhidos nos encontros anteriores, intitulado “Extensão Rural – Enfoque
Participativo”. O conjunto de diretrizes e estratégias aprovadas no seminário seriam, segundo
o presidente da época, “consideradas por esta Diretoria como orientação básica a ser seguida
pela EMATER/RS no período 1987/91 e deverão estar consubstanciadas no Plano Diretor da
organização para esse período” (EMATER/RS, 1987).
72
E entre essas diretrizes podiam ser encontradas a definição dos públicos transformados não mais em públicos–alvos, mas públicos compromissos, a integração dos
sem-terra, das mulheres e jovens rurais, dos assalariados e uma clara referência ao Latifúndio
e à Empresa Rural como público não preferencial. Outra diretriz era a busca de um processo
educativo dialógico e um reforço no trabalho comunitário. Sobre a transferência de tecnologia
era apresentado o conceito das tecnologias socialmente apropriadas, incorporando os
agricultores como produtores de tecnologia, junto com a Extensão Rural e a pesquisa. E a
metodologia de trabalho deveria dar preferência a métodos grupais, com uma postura baseada
no diálogo e senso crítico para promover uma comunicação horizontal, que procurasse
interpretar e modificar uma realidade (EMATER/RS, 1987).
Se o Repensar tinha o objetivo de abalar as estruturas da Extensão Rural difusionista,
a fase seguinte vivida pela Extensão Rural foi mais eficiente10. Não apenas abalou as
estruturas, como as demoliu. O primeiro governo federal eleito pelo voto popular aprofundou
a desestruturação e extinção dos serviços, culminando no fechamento da EMBRATER,
justificada pela retirada de dezessete por cento (17%) da receita do Governo Federal na
reforma tributária feita pela Constituição de 1988, e no seu rastro uma série de empresas
estaduais foram extintas ou tiveram de fazer os mais variados arranjos, numa condição de
penúria financeira que as imobilizava. Acaba um período significativo na Extensão Rural.
Junto a falência das estruturas, termina a integração funcional da Extensão Rural, as
macrodefinições estabelecidas nos planos governamentais. Por essa razão, a partir desse
momento, a EMATER/RS passa a ter mais relação com as políticas estabelecidas pelo
Governo Estadual do RS do que com o Governo Federal, pois, desde que a empresa ficou sem
10
Sobre a eficiência do movimento Repensar, considero que foi importante porque trouxe uma série de conceitos
novos para o meio extensionista. Entretanto, os efeitos práticos na EMATER/RS ficaram aquém das expectativas
de seus funcionários e suponho (porque não entrevistei nenhum) que também da Diretoria da época.
73
os recursos financeiros do sistema EMBRATER, seu orçamento passou a ser viabilizado pelo
governo estadual, e a receita, gerada na de prestação de serviços.
O período posterior ao “repensar da Extensão Rural”, correspondendo a dois
mandatos nos governos estaduais, afora algumas experiências e programas mais
significativos, é marcado como uma fase de aplicação do ideário neoliberal. Inicia-se uma
capacitação e tentativa de implantação dos programas de qualidade total na gestão da
empresa, num processo muito semelhantes ao que hoje é vivido pelas escolas gaúchas.
Também graças ao programa Pró-Rural 2000 começa uma série de ações, na linha de políticas
compensatórias, buscando minimizar os efeitos da pobreza rural. Do ponto de vista
educacional, é projetada uma rede de centro de treinamentos, destinada à profissionalização
dos agricultores em modernas técnicas de produção, entendendo que eles deveriam capacitarse para enfrentar a concorrência e aproveitar as chances que o mundo globalizado oferecia.
Ainda assim, no ano de 1997, é criado um Fórum Permanente de Extensão Rural que
seria um ciclo de conferências, estudos e divulgação para tratar temas afins à Extensão Rural
e também um espaço de apresentação da produção acadêmica dos profissionais da
EMATER/RS. No documento de criação desse Fórum, nos resultados esperados, está
registrado:
Tendo em vista que os mais de 40 anos de Extensão Rural no RS foram construídos
dentro de uma conjuntura difusionista e produtivista, espera-se com o Fórum forjar
uma nova geração de extensionistas sintonizados com as transformações que estão
ocorrendo mundialmente... (EMATER/RS-ASCAR-EMATER-RS,1997,p.5).
Na outra gestão estadual, com início em 1999 e que foi até 2002, assumiu a direção
técnica da empresa, Francisco Roberto Caporal, um dos principais elaboradores e críticos da
Extensão Rural na atualidade brasileira e na presidência Lino de David, um engenheiro
74
agrônomo oriundo do movimento ambientalista; o difusionismo era visto como um enfoque
reducionista homogeneizador que auxiliou na implantação do modelo de agricultura da
Revolução Verde. Para tentar superá-lo, foi instituído um processo de consulta e construção
de um plano estratégico para a empresa e um amplo processo de formação dos empregados11.
Essa formação dava-se através de cursos baseadas no uso de metodologias de diagnósticos
participativos e nos princípios da Agroecologia, numa tentativa de construção de uma
Extensão Rural que fosse:
Um processo de intervenção de caráter educativo e transformador, baseado em
metodologias de investigação-ação participante que permitam o desenvolvimento de
uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção de
sistematização de conhecimentos que os leve a incidir conscientemente sobre a
realidade, com o objetivo de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente
eqüitativo e ambientalmente sustentável, adotando os princípios teóricos da
Agroecologia com o critério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais
adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e do
sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo (CAPORAL, 1999, p. 14243).
Esse foi o período em que as críticas ao difusionismo e à forma tradicional de
trabalho da Extensão Rural foram exacerbadas, agravadas pelas disputas partidárias, acirradas
nesse período da história política do Rio Grande do Sul12. Travou-se uma disputa mais
ideológica que conceitual. A Agroecologia era vista como uma bandeira do PT e não como
um novo campo científico. Não se debatiam seus conceitos e premissas, mas sim se combatia
quem os propagava.
Após o reconhecimento das falhas e da impropriedade no trabalho extensionista
tradicional, construído durante 40 anos, a Extensão rural já gastou metade desse tempo
tentando livrar-se do espectro do difusionismo. Em 2006, o repensar, primeiro movimento
11
Para um balanço mais preciso sobre essa gestão confira Caporal 2002b na bibliografia dessa dissertação.
A gestão Olívio Dutra / Miguel Rosseto foi marcada por uma série de disputas ideológicas, nos mais diversos
setores, e a extensão rural não ficou fora dessa polêmica, principalmente pela sua opção contra os transgênicos e
a exclusividade para agricultura familiar.
12
75
forte de questionamento das bases difusionistas, fez 20 anos. E a EMATER/RS-ASCAR
passou e participou de todo esse processo, inclusive em alguns períodos assumindo papel
protagonista. Teve o seu repensar no final da década de 1980, foi embebida pelo discurso
neoliberal na década seguinte, buscando uma qualidade total, prenúncio da nova era
globalizada, passou pela experiência democrática e popular, quando apostou forte na
Agroecologia como base científica e nos diagnósticos participativos.Neste momento, em
documento comemorativo aos seus 50 anos, aponta que a EMATER/RS vive uma fase que
denomina por Pluralidade de uma Extensão Rural para todos, justificando que há uma
variedade de públicos para o trabalho da Extensão Rural e que o progresso técnico não
beneficia por igual todo mundo (EMATER/RS, 2005).
Neste capítulo, procurei mostrar um pouco do início da história da Extensão Rural no
Brasil e sua constituição aqui no Rio Grande do Sul, através do acompanhamento das
principais fases da ASCAR- EMATER/RS, instituição oficial de Extensão Rural nesta
Unidade da Federação. No próximo capítulo, quero aprofundar um pouco mais a discussão
sobre algumas questões inerentes ao aspecto educativo da Extensão Rural, analisando as
mudanças nos métodos de trabalho e apresentando algumas proposições que possam permitir
avanços na tentativa de superar a forma difusionista de fazer Extensão Rural.
76
4 A EXTENSÃO RURAL E A BUSCA DE NOVOS RUMOS: UMA ABORDAGEM A
PARTIR DA EDUCAÇÃO
“O homem, meu general, é muito útil:
sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar”
(B. Brecht)
Nenhum trabalho que objetive discutir a Extensão Rural nos seus últimos anos, sob o
aspecto educativo, e que pretenda ser sério, pode se furtar de avaliar a obra do educador
brasileiro Paulo Freire. Apesar de ser datado ainda da década de 60 do século passado, o livro
desse autor intitulado Extensão ou Comunicação? pode ser alçado à condição de marco na
mudança de rumos e nos questionamentos que a Extensão Rural apresentaria no início dos
anos 80 no Brasil. Como já foi esclarecido anteriormente, a crise agrícola pós-milagre
econômico, a falência do sistema oficial e a democratização política formaram um amálgama
que permitiu esse cenário. Dentro deste, um pensador exerceu grande influência: Paulo Freire.
Por essa razão, inicio este capítulo apresentando um pouco do conteúdo de seu estudo que
pretendia fazer uma análise global do engenheiro agrônomo educador.
Sua obra inicia-se com uma análise crítica do termo extensão; através do estudo
semântico e do “campo associativo” desse termo, acaba por defini-lo como:
[...] a ação extensionista envolve, qualquer que seja o setor em que se realize, a
necessidade que sentem aqueles que a fazem, de ir até a “outra parte do mundo”,
considerada inferior, para, a sua maneira, “normalizá-la”. Para fazê-la mais ou
menos semelhante ao seu mundo (FREIRE, 1982, p. 22).
O autor entende que a ação extensionista não está em conformidade com seus
preceitos de um “que fazer” educativo como prática de liberdade, pois tem por base
77
mecanismos de persuasão. Além disso, como o objetivo fundamental do Extensionista é tentar
fazer com que os camponeses substituam os conhecimentos que utilizam para agir sobre sua
realidade, por outros, que são os conhecimentos do Extensionista, tem-se na prática de levar a
mensagem até os camponeses o único aspecto dinâmico da Extensão Rural, pois o
conhecimento estendido é estático, devendo ser transferido e depositado nos educandos. Uma
das entrevistas que realizei oferece um exemplo bem concreto de como essa forma de
educação se dava no cotidiano da Extensão Rural: “Em 1981, num pré-serviço de 45 dias, o
engenheiro agrônomo me disse: - Vai lá em tal comunidade e fala sobre verminose... A gente
não se perguntava se aquela era a necessidade da comunidade” (Extensionista 1). O
importante era a presença e a mensagem da Extensão Rural chegar até a comunidade. É uma
forma de “educação bancária”, como define Paulo Freire no seu livro Pedagogia do Oprimido
(1994) e que ficou sendo um dos conceitos mais conhecidos desse educador.
Essa popularidade do conceito de educação bancária como prática da Extensão Rural
tem um aspecto positivo, que é o conhecimento por parte dos interessados da problemática
que ela apresenta. Infelizmente, muitos resumem a obra Extensão ou Comunicação? a essa
primeira parte, fazendo uma leitura superficial, resumida ao momento da crítica e
desconstrução do termo, alegando, inclusive, um certo preconceito do autor com os
Extensionistas e desconsiderando a segunda parte de sua obra. Justamente aquela parte em
que ele busca afirmar o que entende por e como deva ser a atividade de um engenheiro
agrônomo educador, numa educação baseada no diálogo problematizador.
É desse entendimento equivocado que julgo derivar uma série de críticas ao autor.
Uma das mais fortes e injustas é a alegação de que, na sua concepção de educação dialógica,
somente o saber popular tem validade e o saber do técnico sempre será do invasor cultural, do
78
reprodutor cultural. MASSELLI (1998), analisando a Extensão Rural que era realizada nos
assentamentos da reforma agrária do Estado de São Paulo, e dentro dela a relação entre
técnico e agricultor que se dava a partir da concepção freiriana de educação, encontra alguns
depoimentos que deixam claro o que afirmamos acima. O descaso e o pouco respeito pelo
saber dos agricultores, ironizado pelos técnicos, pode ser visto num diálogo em que o técnico
diz: “uma vez eu estava conversando com um colega e a conclusão era a seguinte: o pequeno
produtor tem menos controle sobre o óleo diesel que ele usa no trator do que uma dona de
casa tem sobre o óleo de fritura” (MASSELLI, 1998, p. 102). Um engenheiro agrônomo
revela seu conflito: “Eu tinha uma experiência a passar... eu não estava lá para passar
experiência, eu era um profissional pago pelo Estado para atuar no melhor sentido. Eu sei
que o saber camponês, entre mil aspas aí, dizia que tinha que ser assim; e eu sabia por
experiência científica, conhecimento técnico, etc. que devia ser de outra forma.”
(MASSELLI, 1998, p. 104). Outro técnico vai um pouco além e afirma: “saber camponês,
saber popular..., se o povo fosse tão sabido não estaria tão f... como está – só para ficar
registrado” (MASSELLI, 1998, p. 101). Esses depoimentos são suficientes para que se tenha
dimensão da falta de entendimento da proposta de Paulo Freire, a qual era bem explícita no
livro Extensão ou Comunicação?.
O autor apresenta, no referido livro, as discussões que mantinha com os engenheiros
agrônomos extensionistas no Chile, os quais julgavam “perda de tempo” o diálogo com os
agricultores porque o aumento da produtividade agrícola era premente para aquele país e o
conhecimento que eles levariam era de caráter científico, o que dificultava o diálogo já que os
agricultores não sabiam o que eram essas técnicas, o que impossibilitava de dialogar, pois
como dialogar sobre aquilo que não se conhece? Respondendo a eles, Freire (1982) afirma
que “O diálogo problematizador não depende do conteúdo que vai ser problematizado. Tudo
79
pode ser problematizado” (p. 53). Já sobre a perda de tempo, alerta que: “não há que se
considerar perdido o tempo de diálogo que problematizando, critica e, criticando, insere o
homem em sua realidade como verdadeiro sujeito da transformação” (p. 51).
Quanto à questão do “excesso de valorização do conhecimento popular”, o autor é
explícito ao comentar sobre a consciência mágica, sincrético-religiosa, da população
camponesa e que não defende a manutenção da situação dos camponeses como estão. Ao
comentar a maneira como, no Nordeste Brasileiro, agricultores tentam combater lagartas
espetando-as em estacas, dispostas em triângulos sob a plantação, tentando espantar as outras,
que fugiriam com medo, não deixa dúvidas sobre a inutilidade desse procedimento na solução
do problema e afirma que: “enquanto espera, contudo que se vão, perde o camponês sua
colheita, em parte ou grande parte” (FREIRE, 1982, p. 30).
A pretendida e propagada afirmação de que o autor faz apologia do saber popular
frente o saber acadêmico não está registrada em nenhuma parte desse livro. Tampouco ocorre
um desmerecimento do saber técnico, no caso o engenheiro agrônomo educador, cuja função
era vista como:
[...] o trabalho básico do engenheiro agrônomo educador [...] é tentar,
simultaneamente com a capacitação técnica, a superação da percepção mágica da
realidade, como a superação da “doxa” pelo “logos” da realidade. É tentar superar o
conhecimento, que, partindo do sensível, alcança a razão da realidade (FREIRE,
1982, p. 33).
Parece que não foi exclusividade dos engenheiros agrônomos o entendimento de que
o autor conferia um privilégio de verdade ao saber popular de seus educandos. Gehlen (2006,
p. 56-7), ao analisar as leituras do método de Paulo Freire em diversos autores
contemporâneos, reconhece que a fase de redução temática é “esquecida” em vários deles, o
80
que acaba deixando margens para interpretações equivocadas e a acusação de que as ações
pedagógicas propostas são espontaneístas e reducionistas. O que deve ficar claro é que em
momento algum existe referência que possa embasar essa crítica ao método freiriano, que tem
dado mostras de sua eficiência na educação popular.
Ainda hoje, como os engenheiros agrônomos chilenos, há muitos que entendem que
a educação dialógica é jogar conversa fora, é um construtivismo ingênuo, reforçando o senso
comum e reproduzindo o status quo; de outra parte, alguns mais afoitos fazem uma leitura um
tanto parcial da obra de Freire, usando-a apenas para questionamentos. Nesses dois pólos de
parco entendimento do autor, um acha que ele renega o saber acadêmico, o outro pensa que
tem um instrumental maniqueísta para atacar, simploriamente, a ordem estabelecida. A esses
dois grupos, deixamos que o mestre fale:
[...] a educação é uma forma de intervenção no mundo. Intervenção que além do
conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o
esforço de reprodução da ideologia dominante quanto ao seu desmascaramento.
Dialéctica e contraditoriamente, não poderia ser a educação só uma ou só outra
dessas coisas. Nem apenas reprodutora, nem apenas desmascaradora da ideologia
dominante (FREIRE, 2005, p. 98).
Saliento esse aspecto por entender que no campo da Extensão Rural existem muitos
representantes desses grupos. Efetivamente, a assimilação da crítica de Paulo Freire à ação
extensionista, na Extensão Rural oficial, deu-se mais na condição de sensibilizadora para uma
reflexão da prática do que uma adoção de seu método na integralidade. No meu entendimento,
a maior mudança que Freire proporcionou na Extensão Rural foi o abandono de métodos
persuasivos e a busca de metodologias participativas que tornassem possível o
estabelecimento de condições de diálogo com os agricultores e agricultoras e o respeito ao
saber local. Nas palavras de um dos entrevistados nesta pesquisa: “Hoje os técnicos são mais
democráticos. Ouve-se os produtores, trabalha-se com os conselhos agropecuários, faz-se o
81
DRP. A orientação passou para uma forma mais participativa” (Extensionista 1). A partir de
agora, parto para a análise de dois momentos na história da EMATER/RS que considero
marcantes na adoção e no desenvolvimento dessas ferramentas: O Programa PRORENDA (
Programa de viabilização de espaços econômicos para populações de baixa renda) e o uso
dos Diagnósticos Rápidos Participativos com ênfase na Sustentabilidade.
O Programa PRORENDA iniciou-se no Estado do Rio Grande do Sul no ano de
1990; fruto de uma cooperação internacional Brasil-Alemanha, era coordenado pela
Sociedade Alemã de Cooperação Técnica (GTZ) e pela Secretaria de Agricultura e
Abastecimento do Estado do RS. Segundo um dos responsáveis pela execução desse
programa no Rio Grande do Sul, um dos princípios gerais dentro do processo metodológico
do PRORENDA consiste em estabelecer um diálogo partindo da realidade do agricultor, ou
da forma como ele percebe a realidade de seu mundo (FRANTZ, 2002). Para atingir os
objetivos e em consonância com os princípios do PRORENDA, foi formulada uma
metodologia de campo, fruto da experiência adquirida em três anos de uma fase piloto do
programa, que era composta de “10 Passos”13 que começavam com a exposição para a
comunidade, diagnose e planejamento participativo e terminavam em reuniões de negociação
municipais. Junto a esse processo de mobilização, dessa caminhada, acontecia um “ciclo de
reflexões” que discutia a metodologia empregada e o andamento do processo.
13
Os dez passos eram: 1°) encontro da equipe com a comunidade e/ou grupo e apresentação do
programa;2°)avaliação e decisão do grupo sobre a participação no programa;3°) análise da resposta da
comunidade e preparação do diagnóstico;4°)diagnóstico com mapa falante,diagrama de Venn e outras técnica
participativas;5°) análise do diagnóstico e coleta de informações sobre programas e recursos disponíveis;6°)
definição dos objetivos e prioridades dos grupos;7°) análise dos objetivos e prioridades definidos pelo
grupo,8°)planejsmento das atividades;9°) assessoramento aos grupos nas articulações e na compatibilização do
planejamento;10°)formalização das parcerias-assinaturas dos contratos.Fonte: PRORENDA Agricultura
Familiar/RS. SAAb-RS,abril de 1998 (mimeo).
82
Com o uso desse instrumental buscava-se proporcionar – inclusive institucionalizaruma condição de diálogo entre os grupos de famílias organizados pelos PRORENDA e os
técnicos de instituições que prestam serviços aos agricultores.
Quero deter-me no papel do técnico dentro dessa metodologia. Ele apresenta uma
dupla função, sendo visto em alguns momentos como um moderador, “entendido como uma
pessoa que coordena os trabalhos de um grupo sem influenciar no trabalho com idéias
próprias, mas faz avançar a discussão. Alguns usam o termo facilitador” (FRANTZ, 2002, p.
120). Em outros momentos, o técnico não realiza a moderação, mas atua como especialista a
serviço dos agricultores. Essa distinção é muito importante, porque reconhece a especificidade
do trabalho de assistência técnica, já que o técnico não é um professor e a contingência da
atividade agrícola cria, muitas vezes, relações não muito dialógicas, como acontece com
técnicos que recomendam agrotóxicos e medicamentos, algo que infelizmente é a realidade da
maior parte da assistência técnica existente nos municípios. A grande dificuldade é entender:
como um técnico que tem uma prática convencional, defendendo o produtivismo, consegue
adotar uma postura de moderador?
Essa tarefa é dedicada à metodologia que era acompanhada de um processo contínuo
de capacitação sob a responsabilidade do Coordenador Regional. Processo que estava baseado
“num novo conceito de educação melhor expresso pela teoria construtivista, o que exige
pensar e estar preparado para situações não previstas” (FRANTZ, 2002, p. 121) [grifos meus]
e que estava atento à tendência dos técnicos de retornar às práticas autoritárias de transmissão
de conhecimento. O mesmo autor faz referência à pedagogia de Paulo Freire, especificamente
ao tema gerador que surge nos primeiros passos da metodologia (10 Passos), indicando que
houve a incorporação das teorias desse educador na elaboração da metodologia.
83
Para a empresa EMATER/RS-ASCAR, cuja participação no programa variou de
intensidade, a metodologia elaborada e adotada pelo PRORENDA deixou, como maior
herança e contribuição, os métodos de moderação visual com uso de tarjetas, com base no
método ZOPP14 e a formação de alguns técnicos que trabalharam mais com o programa e que
ainda hoje atuam como formadores em oficinas de metodologias participativas para outros
colegas e agricultores. Apesar da participação ativa em muitos municípios, em nível estadual,
a metodologia dos “10 Passos” não fez e não faz parte do universo metodológico adotado pela
empresa nas suas ações.
A EMATER/RS-ASCAR desde o ano de 1997 começou um processo de capacitação
de seus técnicos para a utilização de métodos baseados no Diagnóstico Rápido ParticipativoDRP, cujas ferramentas também são utilizadas no PRORENDA no processo de diagnóstico da
comunidade. Mas registro de Ribeiro (1996) já indica que, nos anos anteriores, houve o uso
dessa metodologia num projeto da EMATER/RS que envolvia os municípios de Caçapava do
Sul, Lavras do Sul, Santana da Boa Vista e Pinheiro Machado e ficou conhecido na empresa
como “área-piloto”.
Os primeiros cursos foram destinados aos Extensionistas rurais (somente da área
técnica) que estavam lotados nos municípios beneficiados com o Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), modalidade Infra-estrutura e Serviços
Municipais. Esse programa do Governo Federal exigia, como contrapartida da
municipalidade, a construção de um Plano Municipal de Desenvolvimento Rural e uma plena
atuação do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural. A EMATER/RS desenvolveu um
14
Método ZOPP, em alemão Ziel orientierte Projekt Planung ou planejamento de projetos orientados por
objetivos desenvolvido pela GTZ nas décadas de 1970 e 1980.
84
curso de Capacitação em Desenvolvimento Rural Sustentável e Planejamento Municipal em
convênio com o Governo Federal para que os técnicos tivessem condições de elaborar e gestar
os planos desse programa. Foi nesses cursos que algumas ferramentas do Diagnóstico Rápido
Participativo começaram a ser popularizadas na empresa. Já na gestão seguinte, a direção da
empresa realizou um amplo processo de formação de seus empregados em um curso que foi
denominado Desenvolvimento Rural Sustentável: enfoque Agroecológico. Esses cursos
tinham duração de quatro semanas alternadas, sendo que na primeira ocorria um nivelamento
conceitual sobre questões de gênero, Agroecologia e desenvolvimento econômico e
planejamento municipal e, nas seguintes, avançava-se com o estudo e a aplicação das
ferramentas participativas como o mapa da comunidade, o itinerário técnico e social,a
tipologia da comunidade, a matriz de desenvolvimento, a caminhada transversal, a rotina
diária e uma matriz de planejamento participativo e elementos de visualização móvel. Todo
processo envolvia a teoria e a prática,pois fazia parte da programação do curso a realização
de um diagnóstico real numa comunidade agrícola próxima aos locais do curso.
Guardadas as diferenças em relação à abordagem mais direcionada para o campo da
Agroecologia, que, veremos adiante, foi um aspecto muito positivo, as ferramentas utilizadas
são, em sua maioria, as mesmas utilizadas no mundo todo para a realização dos Diagnósticos
Rápidos Participativos. Robert Chambers, um dos idealizadores do método, ao avaliar cinco
anos de aplicação em diversas partes do mundo, assim descreve por que surgiu e o que é este
método:
O DRP começou a evoluir na busca de enfoques práticos para a investigação e
planejamento que pudessem prestar apoio a um planejamento mais descentralizado e
uma tomada de decisão mais democrática, valorizando a diversidade social,
trabalhando para a sustentabilidade, aumentando a participação e reforçando o poder
da comunidade. O DRP pode ser descrito como um conjunto crescente de enfoques e
métodos para permitir que a população local partilhe, aperfeiçoe e analise seus
conhecimentos sobre sua vida e condições com o fim de planejar e agir
(CHAMBERS e GUIJT, 1995, p. 5).
85
Se o objetivo era desenvolver um diagnóstico participativo, foi necessário elaborar
ou sistematizar uma série de ferramentas para esse fim. Para se ter uma idéia da quantidade
existente, Gelphus (1997) sistematiza uma coletânea de 80 ferramentas que podem ser
utilizadas no planejamento participativo, tanto em suas fases de diagnóstico e planificação,
como na avaliação e monitoramento. Como se vê, a velha máxima que afirmava “para
auscultar o coração de um povo não precisa de estestoscópio”, não parece muito verdadeira.
Os instrumentos que foram e estão sendo desenvolvidos demonstram que não é tarefa fácil
alcançar o entendimento da racionalidade do povo e permitir a comunicação das equipes
técnicas com as populações juntos as quais atuam.
A variedade, a criatividade e as utilidades das ferramentas são impressionantes. Ao
serem aplicadas, elas não cumprem somente a função de obter alguma informação a que
estejam destinadas na divisão existente no processo de diagnose e planejamento. Elas acabam
criando um ambiente de participação que garante ao(s) técnico(s) envolvido(s) as condições
de “regência” do grupo. Os agricultores e agricultoras que acompanham o diagnóstico não
estão ali pela exigência de passar de ano ou outra condição que os retenha no grupo. Isso
obriga o técnico a explorar ao máximo essas ferramentas para tornar o ambiente agradável e
dinâmico, limitando os mais afoitos e “conversadores” e estimulando os tímidos e retraídos,
atingindo uma participação o mais equânime possível. Essa é uma grande vantagem dos
métodos participativos em relação aos tradicionais.
Considerando que se trata da atividade do técnico durante o DRP, convém salientar
que todos os comentadores avaliam que a condição do técnico que comanda, que “rege” os
trabalhos, enfim, que faz a moderação deve “beirar” a neutralidade, permitindo a expressão
86
dos participantes e “freando” o ímpeto de “resolver” as questões que vão se apresentando com
a sua visão do problema. Sobre esse aspecto, Chambers e Guijt (1995) reconhecem que o
agente externo (técnico) nos programas de DRP é ativo enquanto possuidor de opiniões e
idéias, mas seu papel deve ser o de facilitar as análises para os membros da comunidade. A
postura que consideram mais adequada para tanto é: “[...] aprender a calar-se, estimular e
fomentar a confiança, especialmente no início, restringir seu desejo de mostrar suas próprias
idéias” (CHAMBERS e GUIJT, 1995, p. 11). Outro divulgador do método também reforça
essa condição do técnico e afirma que “[...] os membros da moderação não devem agir como
instrutores/as [...] A função da equipe é escutar e não ensinar” (VERDEJO, 2006, p.18).
Portanto, tanto no DRP, como nos “10 Passos” do PRORENDA, o cuidado em “frear” o
técnico na sua faina tecnocrata, no seu ímpeto de “solucionar tudo”, especialmente no início
dos trabalhos, está claro e posto como um dos condicionantes do sucesso do método. Mais
adiante, quero voltar a essa questão, para algumas considerações.
Voltando ao desempenho dos diagnósticos na EMATER/RS-ASCAR, parece que a
avaliação sobre ele é controversa. Kreutz (2004, p. 94-5) avalia que a proposta do DRP não
foi bem aceita pelas lideranças municipais pelo elevado custo de execução, uma relativa perda
de tempo com a atividade e a ausência de recursos para implementar o que era planejado,
ocasionando aumento de expectativa das comunidades, incompatível com a capacidade de
atendimento das Prefeituras Municipais. Junta-se a esse cenário o grande número de
programas em execução pela empresa que causa uma grande dificuldade de alocar tempo e
pessoal. Tudo o leva a concluir que a adoção do DRP não prosperou no interior da Extensão
Rural como se esperava. Já o Diretor Técnico da empresa no período 1999-2002, ao discutir a
Extensão Rural num seminário, faz a seguinte avaliação do uso das metodologias
participativas pela empresa:
87
A adoção do DRP, como metodologia para o planejamento com as comunidades,
vem crescendo de forma importante, sendo que, somente em 2001, foram 1.091 os
planos de comunidade realizados a partir do uso do DRP, envolvendo 32.055
beneficiários. Ressalte-se que em 2002, todos os planos das comunidades
beneficiadas pelos programas RS Rural e Pró Guaíba estão sendo precedidos dos
respectivos DRP’s. Assim mesmo, está em andamento a aplicação da ferramenta de
Leitura de Paisagem de todos os municípios do Estado, com a participação de
técnicos, conselheiros municipais, representantes de comunidades, do poder público
local e outras instituições, o que se consolidará como um importante instrumento
para o planejamento de atividades em prol do desenvolvimento local e regional
(CAPORAL, 2002b, p. 37-8).
Observa-se que o programa RS-Rural foi o que proporcionou as condições efetivas
para a realização dos diagnósticos e que os mesmos tiveram uma execução massiva no Rio
Grande do Sul. O uso dessas ferramentas também não foi limitado à gestão que as
implementou. Nos anos seguintes, sob uma nova administração estadual, muitos Escritórios
Municipais da EMATER/RS-ASCAR na região Celeiro do RS seguiram utilizando técnicas
de diagnóstico e planejamento participativo para elaborar projetos do RS-Rural, como pude
constatar nas entrevistas de campo. Inexiste uma avaliação mais precisa sobre o impacto
dessas ações. Uma visita ao sítio eletrônico da ASCAR-EMATER-RS (http://www.ematerrs.tche.br/sistematização de experiências) permite identificar que, num processo de seleção de
experiências consideradas agroecológicas ou inovadoras em todo o estado do RS, grande
número tem sua metodologia de trabalho baseada no uso do DRP ou de alguma ferramenta
participativa. Quanto aos problemas elencados por Kreutz (2002), entendo que o são aqueles
referentes às condições de realização dos diagnósticos, pois o “empoderamento” das
comunidades e uma ampliação de sua pauta de reivindicações não devem ser considerados
problemas para a Extensão Rural. Em relação aos primeiros, parece óbvio que a simples
existência de uma teoria, ou de um arcabouço teórico que dê conta das especificidades do
trabalho com as comunidades rurais e faça uma boa mediação entre técnicos e
agricultores(as), não é a garantia de realização desse trabalho. Encontrar ou escolher essa
forma de mediação pode ser um passo, mas não é a solução. Garantir as condições efetivas
88
para que essa mediação aconteça passa a ser o passo seguinte. Isso não invalida a escolha
inicial, apenas a reforça.
Nesse sentido, finalizando a discussão sobre as metodologias participativas na
Extensão Rural, quero deixar uma pergunta que, por ser simples, deve ser de difícil resposta,
como todas as perguntas simples. Observando que todas as experiências apresentadas no Rio
Grande do Sul de uso de metodologias participativas apresentaram problemas devido ao seu
alto custo de execução, fico intrigado em saber: por que, apesar de inspirar e dar base crítica a
esses trabalhos, o método de Paulo Freire nunca foi adotado em sua integralidade (além de
sua crítica à educação bancária), pelo menos em algumas atividades da Extensão Rural?
4.1 A Abordagem Histórico-Cultural seria uma contribuição à Extensão Rural
contemporânea?
Em que pesem a influência e o respeito que a obra de Paulo Freire possui no campo
da Extensão Rural na América Latina e a lacuna na resposta para a pergunta feita acima,
buscarei na vertente histórico-cultural algumas contribuições que podem ser interessantes para
auxiliar a Extensão Rural a superar o fantasma do difusionismo. Essa escolha não se deu por
pensamentos do tipo: Vigotsky é melhor que Paulo Freire; a abordagem histórico-cultural
seria a melhor orientação teórica para a ação educativa da Extensão Rural; ou quaisquer
argumentos nesse viés. Abordagens a partir do referencial freiriano são comuns para criticar a
prática tradicional da Extensão Rural e anunciar novos postulados para a mesma. Não seria
honesto, do ponto de vista intelectual, ignorar o vasto esforço no sentido de melhorar a
comunicação entre técnicos e agricultores, ou negar que é esse o referencial teórico que
orienta a maior parte dos trabalhos de educação popular no campo.
89
Resolvi procurar outros caminhos para ver se um pouco de diversidade poderia
contribuir com o setor. Setor que, até este momento, tento mostrar o esforço que faz na
democratização das relações entre os técnicos e agricultores(as). A democratização foi a
tônica, tanto na crítica ao difusionismo, como na incessante procura de métodos alternativos
que dessem conta de ampliar a participação. Para facilitar a participação e firmar o diálogo,
várias ferramentas foram e ainda são desenvolvidas, permitindo a verbalização ou expressão
sob diversas formas dos olhares que agricultores e agricultoras têm sobre suas vidas e os
projetos que lhes são pertinentes. Afora este propósito, a postura do técnico nesses trabalhos é
bastante questionada, colocando em dúvida sua condição de especialista e estimulando-o a
ouvir e dar atenção aos saberes que as comunidades possuem.
Neste aspecto, é incrível o grau de detalhamento das ferramentas participativas. Tão
incrível como sua variedade. Contudo, em situações posteriores, após o diagnóstico realizado,
os problemas discutidos e as atividades planejadas na relação entre técnicos(as) e
agricultores(as) sofre um certo relaxamento. O zelo inicial, evidenciado em alguns parágrafos
acima, nos quais discuti a postura do moderador, é substituído pela recomendação genérica e
pouco clara de que o técnico deve adotar uma concepção pedagógica construtivista e baseada
na aprendizagem, geralmente identificada como um processo que permite aprender a
aprender, ou seja, aprender aquilo que está sendo objeto de aprendizado, mas desenvolvendo
condições de resolver outras situações com aquele aprendizado.
Dessa forma, a Extensão Rural tem-se apoiado mais no seu aspecto de
assessoramento (tanto organizativo como burocrático) e deixando o espaço de assistência
técnica que antes realizava para a assistência técnica privada. Esta, por sua vez, segue
90
reproduzindo o padrão de transferência de tecnologias, agora o pacote biotecnológico
marcado pela associação entre a transgenia e os agrotóxicos. Martins (2001) mostra que, no
Brasil, primeiro os agricultores conseguem a visibilidade política para depois criarem as
necessidades técnicas. Então, a Extensão no Rio Grande do Sul esteve presente na primeira
fase, resta saber como se comportará nas necessidades técnicas. Se a tecnologia é necessária, e
somos sabedores de que ela não é neutra, pois todo conhecimento é interessado, qual
tecnologia usar? Adianta construir um Plano Municipal de Desenvolvimento Rural sob forma
participativa, mas estabelecer soluções para os problemas com base na mesma tecnologia que
os vêm deixando cada dia mais pobres; a mesma técnica que deixa suas terras e os outros
recursos naturais mais degradados?
Atualmente, essa questão se coloca como resolvida pela simples aceitação ou
menção dos temas aprendizagem ou construtivismo. Para evitar que, a partir de diagnósticos
participativos e democráticos, possam ser estabelecidas relações que não correspondam a
esses princípios, problematizo um pouco essa questão da aprendizagem.
Os ideais democráticos da aprendizagem, do enfoque “aprender a aprender”, apesar
de se apresentarem como novidade, podem representar uma armadilha para quem deseja um
pouco mais da educação, ou seja, para quem a conceba como uma prática libertadora. Duarte
(2006) entende que o lema “aprender a aprender”, tão em voga no construtivismo, é uma
proposição educacional afinada ao projeto político de adequação das estruturas e instituições
sociais às características do processo de reprodução do capital na atualidade. O processo
produtivo exige a elevação do nível intelectual dos trabalhadores para que possam
acompanhar as mudanças tecnológicas. A tecnologia disponibilizada aos agricultores exige
uma formação diferente. Não mais é aquela que ele possuía no tempo do arado tracionado à
91
junta de bois. Mas essa formação deve ser limitada. Ela deva ser suficiente para que ele possa
preparar e aplicar adequadamente os insumos químicos, manejar satisfatoriamente as
máquinas e equipamentos agrícolas cada vez mais modernos, enfim, conhecimento suficiente
para poder trabalhar em processos de produção que lhe são impostos. Mas o nível de
conhecimento ao qual o agricultor pode ter acesso deve manter-se nessa condição de
suficiência para a execução das tarefas. Nessa perspectiva, não interessa que ele conheça os
riscos a que está sujeito ao trabalhar com agrotóxicos, tampouco que saiba que o uso
continuado leva sempre ao uso de quantidades maiores pelo aumento da resistência e
diminuição da biodiversidade, ou qualquer outro conhecimento que sirva para questionar o
sistema de produção capitalista que lhe explora.
A preocupação excessiva com os métodos, com a didática, leva-nos a menosprezar
ou não dar atenção ao conteúdo, àquilo que é ou deve ser ensinado. Duarte (2006) avalia que a
crítica pós-moderna tem contribuído, sobremaneira, para esse descaso. Tudo isso porque, ao
considerar que todo projeto de transformação política consciente da totalidade social
redundaria em propostas autoritárias, verdadeiras heranças da “ilusão iluminista” de
emancipação humana por meio da razão, acaba por deixar um vazio onde se perpetuam
proposições educativas a serviço do capital.
Não concordo com essa condição de beco sem saída do pós-modernismo e acredito
que a humanidade é capaz de superar a atual crise civilizatória que vive, e que essa é uma
necessidade urgente, como bem afirma Meszáros (2006), pois o capital esgotou sua parca
capacidade civilizatória e agora é uma pura relação destrutiva:
Uma das heranças mais duras, mas também mais instrutivas que nos deixa o século
XX, é a lição de que não podemos esperar nenhuma garantia de futuro com base na
convicção de que haja leis que trabalhem pelo homem. O que significa colocar no
92
centro do debate o tema da responsabilidade do homem na construção de sua própria
realidade, ante a ausência de “garantias legais”; em outras palavras, assumir o
alcance que tem a solidão do homem e seus imensos desafios (ZEMELMANN, apud
FRIGOTO e CIAVATTTA 2001, p. 7-8).
Somos obrigados a aceitar os desafios. Claro que acreditar que a educação seja a
ferramenta redentora para superar a atual crise é algo simplista. Porém, negar a ela o potencial
e o compromisso que deve ter “na solidão e os imensos desafios” do homem não é mais
simplismo, é irresponsabilidade. Ante tudo isso, faço uma proposição educativa para a
Extensão Rural, a fim de dar suporte às tarefas que lhe cabem na construção de uma realidade
melhor para todos. Mas essa proposição não está alicerçada numa simples “herança de ilusão
iluminista”. Tampouco tem por base única a noção de que aos agricultores(as) não pode ser
negado o direito de ter uma educação plena, que vá além da mera “formação profissional”
para desempenhar certas funções que lhes são estabelecidas na divisão social do trabalho. É
necessário dizer, ainda, que essa noção não deve ser compartilhada por todos os
Extensionistas rurais. Tampouco o conceito de uma nova Extensão Rural que apresentarei é
consensual, mas é aquele que considero mais apropriado para os enfrentamentos necessários.
Minha proposição situa-se no campo científico definido hoje como Agroecologia, numa
oposição clara à corrente que defende a modernização da agricultura através da
motomecanização crescente, do uso intensivo de tecnologias de manipulação do genoma e de
doses e volumes crescentes de agrotóxicos. O conceito de Extensão Rural agroecológica está
sendo assim definido atualmente:
Um processo de intervenção de caráter educativo e transformador, baseado em
metodologias de investigação-ação participante que permitam o desenvolvimento de
uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção de
sistematização de conhecimentos que os leve a incidir conscientemente sobre a
realidade, com o objetivo de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente
eqüitativo e ambientalmente sustentável, adotando os princípios teóricos da
Agroecologia com o critério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais
adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e
do sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo (CAPORAL, 1999, p.
142-143) [grifos meus].
93
A Extensão Rural deve ter um conteúdo para sua intervenção, razão pela qual, acima,
já fiz referências ao acerto da escolha da Agroecologia como base científica nos cursos
realizados pela EMATER/RS-ASCAR. E tentando melhorar esse processo de intervenção,
minha defesa de uma postura mais ativa no campo educacional fundamentar-se-á nas
elaborações da teoria histórico-cultural sobre aprendizagem e desenvolvimento.
Vigotsky (2001, p. 296-310), ao tratar da questão da aprendizagem e do
desenvolvimento intelectual, aponta para três tentativas da psicologia com vistas a resolver
esse problema. A primeira considera o desenvolvimento e a aprendizagem como dois
processos independentes entre si. O desenvolvimento é visto como um processo de
maturação, sujeito a leis naturais. Já a aprendizagem é o aproveitamento exterior das
oportunidades criadas no processo de desenvolvimento, requerendo sempre um certo grau de
maturidade (desenvolvimento) de funções psíquicas particulares. A aprendizagem é
caudatária do desenvolvimento. Somente depois de o desenvolvimento completar-se em
determinados estágios é que a aprendizagem se torna viável, mas nunca ela influenciará o
desenvolvimento. Uma segunda concepção considera desenvolvimento e aprendizagem
processos idênticos. Quanto mais se aprende, mais se desenvolve. A terceira abordagem tenta
unificar as anteriores; no entanto, coloca a aprendizagem numa posição mais ativa,
salientando que é um processo de surgimento de novas estruturas e/ou aperfeiçoamento de
antigas, transferindo o aprendizado ganho em determinadas situações para outras, além dos
limites daqueles resultados imediatos que a aprendizagem conseguiu.
Os estudos realizados por Vigotsky levam-no a estabelecer novas bases para a
relação aprendizagem-desenvolvimento. Para ele, “o desenvolvimento da base psicológica da
aprendizagem das disciplinas principais não antecede o seu início, mas se realiza em
94
indissolúvel vínculo interior com ele, no curso de seu desenvolvimento ascencional”
(VIGOTSKY, 2001, p. 321-322).
Resumindo, desenvolvimento não acontece antes da
aprendizagem, mas em relação com ela. Relação essa que, do ponto de vista temporal, é dada
por um adiantamento da aprendizagem, que estará sempre adiante do desenvolvimento, haja
vista que “a criança adquire certos hábitos e habilidades numa área específica antes de
aprender a aplicá-las de modo consciente e arbitrário” (VIGOTSKY, 2001, p. 322). Para o
autor em questão, a aprendizagem sempre estará antecipando-se ao desenvolvimento.
Mas essa explicação fica incompleta se não lembrarmos da importância das relações
sociais no processo de desenvolvimento. Segundo Pino (2000), para Vigotsky, a psicologia
sempre definiu a relação indivíduo versus sociedade com termos vagos como socialização,
adaptação, integração etc., mas ele inverte a questão e pergunta: o que o meio social está
fazendo para criar na criança as funções superiores de origem e natureza social? Portanto, na
teoria histórico-cultural, o desenvolvimento segue o sentido da conversão das relações sociais
em funções mentais, através da mediação semiótica que é o processo elementar da
ontogênese, pois:
O aparecimento da linguagem e a mediação de outros signos e instrumentos
construídos culturalmente, as ações, antes naturais, pela internalização dos
significados, passam a ser dirigidas pelas funções psíquicas superiores. A memória
que antes era mecânica, passa a se constituir em memória lógica; o pensamento que
antes funcionava de forma concreta, passa a operar com generalizações e abstrações
(MOURA, 1999, p. 154).
Essa compreensão levou Vigotsky a elaborar um método de análise baseado na
articulação do pensamento e da linguagem. Elucidar a relação entre o pensamento e a
linguagem era seu objetivo, entendendo que ambos são dois sistemas separados que têm
origens genéticas diferentes e processos de desenvolvimento distintos, mas com uma relação
complexa e um ponto de encontro. Esse ponto de encontro, ele denominou pensamento
95
verbal. E este, por sua vez, é expresso pelo significado da palavra, o que coloca a unidade de
análise do significado da palavra. Esta é a forma mais simples que contém as propriedades
inerentes ao pensamento discursivo, a unidade do pensamento e da linguagem. E o significado
da palavra é uma generalização ou conceito e “toda generalização, toda formação de conceitos
é o ato mais específico, mais autêntico e mais indiscutível de pensamento” (VIGOTSKY,
2001, p. 397-98).
Essa contribuição de Vigotsky de que a palavra é a unidade de análise que permite o
estudo concreto do pensamento discursivo porque ela é um modo absolutamente original de
representação da realidade na consciência, ou seja, ela une o pensamento e a linguagem, por si
só, uma grande contribuição para a psicologia, foi completada em suas pesquisas pela noção
de que os significados das palavras se desenvolvem, o que permitiu o entendimento da
mutabilidade e dinâmica das relações entre pensamento e palavra:
O pensamento não é só externamente mediado pelos signos como internamente
mediado por significados. Acontece que a comunicação imediata entre consciências
não é impossível só fisicamente mas também psicologicamente. Isto pode ser
atingido por via indireta, por via mediata. Essa via é uma mediação interna do
pensamento, primeiro pelos significados e depois pelas palavras. Por isso o
pensamento nunca é igual ao significado direto das palavras (VIGOTSKY, 2001, p.
479).
Para finalizar sua análise do pensamento verbal, o autor supracitado lembra que é
preciso descobrir os motivos que fazem o pensamento nascer e orientam o seu fluxo. Motivos
que nascem de “nossos pendores e necessidades, os nossos interesses e motivações, os nossos
afetos e emoções” (VIGOTSKY, 2001, p. 479). Dessa forma, completa sua análise e não
recorre a uma saída idealista e tautológica, ao reconhecer que um pensamento não pode nascer
de outro pensamento, mas desse campo de consciência que, conforme explicado acima, surge
nas relações sociais. Com esses elementos, Vigotsky julga ser possível a compreensão efetiva
96
e plena do pensamento alheio. Temos aí uma sólida base para trabalharmos situações de
ensino-aprendizagem em termos dialógicos com o público da Extensão Rural, mas que tenha
como orientação geral a busca do desenvolvimento intelectual desse público (VIGOTSKY,
2001).
Este trabalho de pesquisa mostrou, em capítulos anteriores, a importância de
determinados instrumentos para a história da agricultura, como o arado charrua e novas
formas de atrelagem. Mas não foram apenas os instrumentos materiais que transformaram o
mundo agrícola. Mudanças outras na forma de arranjar no tempo e no espaço os insumos
materiais - terra, sementes, animais, adubos e políticas agrícolas – tornaram-se poderosos
instrumentos de mudança. Foi com a introdução da rotação trienal, do uso da rotação de
culturas no sistema Norfolk, enfim, mudanças baseadas em conceitos, que se tornou possível
alterar e melhorar o desempenho do sistema. Com base nisso, adoto a tese de que os conceitos
são instrumentos, tal qual uma ferramenta, auxiliando na construção histórica dos homens.
Dessa forma, a Extensão Rural não pode cair no voluntarismo de um construtivismo
ingênuo, rebaixado quase a ponto da apologia do empirismo ou de uma singularidade ingênua.
Se é certo que o homem se torna homem pelo trabalho, ele assim o faz com o uso de certos
instrumentos e dotá-lo dos conceitos (instrumentos) necessários é contribuir para sua
humanização. Essas considerações teóricas são muito importantes, pois demonstram que
instrumentalizar, na plena acepção do termo, os agricultores com conceitos eficientes é
garantir maior autonomia e capacidade de ação.
Usarei um exemplo da minha experiência para mostrar a importância do
desenvolvimento do pensamento no sentido de uma maior abstração. Durante uma perícia do
97
Seguro da Agricultura Familiar, encontrei um agricultor que, para explicar a origem de uma
variedade de soja transgênica originária do contrabando de variedades argentinas, disse:
-Ah! essa é a 6060.
Como essa variedade era desconhecida, estranhei o nome, que foi prontamente
“explicado” por ele:
- Olha, eu acho que dois vizinhos plantaram essa soja, um colheu 60 sacos por
hectare e outro também colheu. Aí ficou sendo a 6060.
Isso reflete a dificuldade dos agricultores em lidar com conceitos abstratos. Para ele,
o sentido dos números era o concreto, a produção em sacas obtida por hectare. Não poderia
ser um número arbitrário dado por um pesquisador ou pela empresa visando a identificar
aquela variedade.
Então, ao trabalharmos com os agricultores, não devemos usar conceitos abstratos?
Devemos sempre usar exemplos diretos? Somente referências concretas e, muitas vezes,
equivocadas? Não temos de ter como meta ensiná-los a pensar de forma mais ampla no
sentido do concreto para o abstrato?
Outro aspecto relevante no que tange à formação dos agricultores é ressaltado por
Schmelkes (1981, p. 311-12) quando analisa o Plano Milho no México, evidenciando que os
efeitos sobre a modernização das práticas agrícolas pesam significativamente sobre as
condutas técnicas, mas não sobre os conhecimentos técnicos. As recomendações são
98
aplicadas, mas os agricultores não sabem o que fazem. Porém, entre aqueles agricultores que
contavam com maiores conhecimentos prévios, seja pela escolarização ou por morarem em
ambientes mais ricos em sociabilidade, ocorria um aumento dos conhecimentos técnicos.
Semelhante conclusão foi dada por um dos colegas entrevistados nesta pesquisa, que afirmou
sobre a existência de diferença no trabalho quanto à escolarização: “Sim. Na verdade tem
[diferença]. A gente observa muito bem na hora de escolher os líderes nas tarefas de grupo.
Escolarizados se destacam, assumindo os cargos de direção. Há uma diferenciação. E também
no entendimento. “ (Extensionista 5).
A agricultura é muito complexa enquanto atividade e muito diversificada enquanto
categoria. São vários públicos, variados projetos de vida. Isso impede que alguém, por mais
excelência técnica que tenha, conheça uma parte significativa que possa se tornar
razoavelmente preciso na tomada de decisões, dispensando o auxílio de outros. A Extensão
Rural terá de trabalhar numa perspectiva que contemple diferentes olhares e com uma
variedade de ações para contemplar o múltiplo, enfim, na direção da polifonia. Sobral (2005)
lembra que o agir humano se define em termos de atos singulares, mas atos absoluta e
irredutivelmente singulares exigiriam agentes únicos, situações irrepetíveis, impedindo
qualquer generalização. Isso nos deixaria sob a tirania da eterna redescoberta do agir. Por
outro lado, uma generalização que junte atos, sem respeitar o que neles existe de singular, tem
como pressuposto agentes idênticos e uma única situação de ação que não corresponde à
condição humana. Esse é um risco para uma nova Extensão Rural? Qual é a maneira para
evitar que ela seja uma colcha de retalhos? Qual o cuidado para que ela não invista seus
esforços naquilo que pode ser “uma leitura fragmentada e muitas vezes pontual [...] num
período em que paradoxalmente, se imponham processos de homogeneização e de standards
99
de comportamento mundializados” (FONTES, 2001, p. 121), caindo num particularismo que a
torne vulnerável frente a onda global de massificação?
Além desse cuidado para não formar guetos, outro desafio da Extensão Rural é fazer
parte do cotidiano daqueles com que trabalha. Não se trata de defender a permanência dos
serviços da maneira que está posta; longe disso, apenas deixar claro que relações esporádicas
como cursos e treinamentos, seja em centros de treinamento ou em atividades nas
comunidades como são feitas por algumas entidades que prestam serviços de capacitação de
agricultores, podem suprir alguma deficiência momentânea, mas geralmente não contribuem
muito para a formação dos agricultores. Porém, a Extensão Rural permanecer no meio deles
sem contribuir com o desenvolvimento, sem realizar uma aprendizagem que impulsione o
desenvolvimento, também não faz sentido.
Diante do exposto, afirmo que não basta a preocupação e a sensibilidade necessária
de buscar a comunicação. A Extensão Rural agroecológica tem de assumir a preocupação em
desenvolver conceitualmente os agricultores(as), para permitir que avancem nas análises de
seus problemas, raciocinando além de sua condição concreta, dando-lhes autonomia e
dispensando a tutela do técnico.
Pode parecer uma incoerência tal afirmação. Afinal, apresentei argumentos sobre as
limitações da razão técnica instrumental, defendendo uma postura em favor de uma “razão
mais aberta”; e, agora, faço a defesa de um “choque de conceitos”? Um dos primeiros
caminhos para utilizarmos o conhecimento é romper a ditadura dos técnicos e doutos. Diante
de tantos percalços que a verdade única da ciência tem encontrado, propiciar que mais pessoas
cientifiquem-se de seus limites pode favorecer mudanças. Quem não conhece uma questão,
100
não tem como refletir sobre ela. Além disso, a situação de degradação do ambiente e da
sociedade moderna não nos permite iniciar do zero, através de processos de aprendizagem
baseados em tentativas e erros, reféns da “tirania da eterna redescoberta do agir”. Da mesma
forma, os estudos de populações indígenas ou outros sistemas de produção, ainda não tão
“contaminados” pelo valor de troca, poderão fornecer-nos importantes aportes de
conhecimento, mas não significam a construção de um outro sistema de conhecimento. Tais
análises, comuns na Agroecologia, só são possíveis graças aos avanços científicos, conforme
muito bem explicou Marx (1995) ao definir que a chave da anatomia do macaco é a anatomia
do homem, ou seja, o desenvolvimento de um mesmo fenômeno em níveis superiores permite
melhores estudos de fases inferiores.
Não se trata do exemplo platônico de defender a razão para conduzir a “charrete” e
controlar os “cavalos” Desejo e Vontade. Trata-se de defender que todos, inclusive os
agricultores, possuam elementos suficientes para conduzir suas “charretes” pelos caminhos
que sejam possíveis e julguem adequados. Lembrando a bela metáfora de que fazer ciência é
construir um barco em pleno oceano, pergunta-se: não teríamos mais sucesso se fôssemos
bons carpinteiros?
Sendo esses pressupostos aceitos, fica ainda a pergunta: como é possível fazer isso?
De que forma podemos avançar nesse sentido? Os métodos de trabalho da Extensão Rural dão
conta, hoje, dessa tarefa? Certamente não. A Extensão Rural avançou muito em métodos de
diagnóstico participativo, permitindo ótimos resultados no levantamento das problemáticas,
dos temas que deveriam ser trabalhados. Contudo, na hora do prognóstico, mesmo que
existam outros caminhos possíveis, quase sempre predomina uma solução de especialistas.
Essa parece ser a grande lacuna que a Extensão Rural apresenta no momento. Nas palavras
101
dos colegas entrevistados: “Como lidar com a diversidade e dinâmica dos grupos... como
organizar e manter o grupo funcionando?” (Extensionista 5). Isso mostra que, depois de um
tempo, não mais basta uma boa prosa para manter a atenção e o interesse dos grupos
organizados. Outra dúvida, posterior, mas intensamente imbricada com essa, é saber: “quando
vão conseguir caminhar com as próprias pernas, sem ninguém para auxiliar? Através do
acompanhamento isso será atingido?” (Extensionista 5). Como melhorar a construção dos
saberes rumo à autonomia?
Para suprir as deficiências, alguns estudos realizados a partir da concepção históricocultural podem ajudar. Uma primeira contribuição seria adequar a proposta de situações de
estudo (MALDANER, 2004) para atividades de formação e experimentação participativa com
os agricultores. Por que pode ser importante a aqdequação das situações de estudo? Pelas
seguintes razões: a) permite uso dos conceitos num “processo de conceitualização
ascendente”; b) permite o respeito pelo saber das partes envolvidas nas relações da atividade
extensionista; c) possibilita a participação; d) permite uma estruturação, um plano de aula em
determinadas áreas que garantiria um acúmulo não só para os participantes e sim para toda a
instituição; e) pode favorecer intercâmbios ou parcerias institucionais e, por fim, mas algo
muito importante, f) tem condições de unir a teoria e a prática.
A outra frente de estudos poderia ser uma maior atenção sobre o papel da escrita e da
leitura, enfim, da escolarização na organização do pensamento como apresentado por Oliveira
(1996), algo que faria muitos Extensionistas questionarem a quase exclusividade da oralidade
em seus métodos de trabalho, com a ausência de ferramentas que utilizem a escrita e a leitura.
Essa questão surgiu da seguinte forma nas entrevistas: “A grande maioria da nossa agricultura
deixa muito a desejar em aspectos técnicos. Um pouco, talvez, é motivado pelo baixo grau de
102
estudo [...] o baixo grau de leitura” ( Extensionista 3). Mas o que a Extensão tem feito para
melhorar ou criar o hábito de leitura? Hoje, pela utilização plena de espaços em TV e rádio,
pouco material impresso é distribuído, e quando o é, geralmente é mais marketing e
divulgação de programas do que aspectos educativos.
Já a melhoria no entendimento das condições de participação e diálogo nas
atividades realizadas pela Extensão Rural poderia receber a colaboração dos estudos de
participação em sala de aula, o que traria novas luzes para aquelas avaliações feitas após as
reuniões, geralmente nos veículos empoeirados, do tipo “viu o que aquele fez”,” “o que será
que ele quis dizer”, “porque eles ficaram tão quietos” e deixariam os profissionais mais
seguros, aptos a dialogarem mais, conversarem mais e melhorarem o seu trabalho.
103
CONSIDERAÇÕES FINAIS
“Penso que cumprir a vida seja
simplesmente
compreender a marcha e ir
tocando em frente
(...)
Cada um de nós compõe
a sua própria história
e cada ser em si
carrega o dom de ser capaz
de ser feliz”
(Renato Teixeira)
Pensar sobre a educação que é necessária, e ao mesmo tempo possível, para
agricultores e agricultoras sempre requer algumas delimitações, pela vastidão que o tema
possui e as várias abordagens que podem ser feitas. Para encerrar a dissertação quero destacar
duas. A primeira é quem é ou vai ser o sujeito; e a segunda quais são os propósitos e
interesses da sociedade em geral que estarão sendo defendidos.
Em relação à educação que deve ser feita com os agricultores, primeiro devemos ter
muito claro a enorme diversidade entre aqueles que trabalham em atividades agrícolas ou
moram em áreas rurais ou rurbanas15? Não existe um produtor ou produtora apenas. As
diferenças são imensas entre a população rural do Brasil. Nem mesmo se aceita essa categoria
única (o produtor), pois se reconhece a especificidade dos públicos especiais como
quilombolas, indígenas, pescadores e tantos outros. Reconhecimento que veio graças a uma
15
Sobre essa questão vale a pena acessar http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/divulg/novorural.html e
104
maior visibilidade na esfera pública, alcançada por meio de uma árdua luta. São agricultores e
agricultoras familiares, jovens, quilombolas, sertanejos, pecuaristas familiares, assentados,
reassentados, pescadores artesanais, indígenas, e tantas categorias de público para o trabalho
da Extensão Rural que merecem ter suas particularidades e anseios respeitados.?
Diante disso, a opção teórica a ser escolhida para embasar a ação educacional da
Extensão Rural não pode ser redutora e homogeneizadora.Ela deve garantir em seus conceitos
básicos e no instrumental de análise para o trabalho uma perspectiva mais complexa e de
respeito a diversidade destacada acima.Entretanto, ela não pode se limitar tão somente a
respeitar, reconhecer ou reforçar essas especificidades.Se não pode atender como todos
fossem iguais, também não pode se limitar ao particularismo, numa posição ingênua e
reduzida, negando a socialização mais abrangente que a dimensão local ou regional possui no
mundo de hoje.
Isso remete a segunda questão enunciada anteriormente. Qual é o conteúdo e quais
interesses e propósitos que a atividade educativa da Extensão Rural deve obedecer. Penso que
o agricultor necessita de uma educação científica e tecnológica igual ou possivelmente
superior a muitos trabalhadores urbanos. Por que essa afirmação? Porque as necessidades de
conhecimento sistematizado para ser um agricultor são mais complexas que as de um operário
numa esteira de produção. Antes, numa abordagem neoclássica, a agricultura sendo vista
apenas como produtora de matéria-prima para a indústria, produzindo divisas e alimentos a
preços baixos, treinar os agricultores para produzir “commodities” era a finalidade da
Extensão Rural. Os produtos eram justamente aqueles mais necessários às cadeias
agroindustriais ou à dieta alimentar da nação.
Nessa perspectiva, a Extensão Rural tinha um papel clássico na modernização euroamericana da agricultura, fornecendo os conhecimentos necessários (não mais dos que os
105
necessários) para que os agricultores se tornassem racionais, isto é, operassem a partir da
razão técnica instrumental, abandonando visões mágicas ou pseudocientíficas da realidade.
De posse dessa ferramenta, mais algumas que o Estado ou o Mercado ofereciam, as
imperfeições do sistema seriam corrigidas. Tudo era uma questão de tempo. O caminho do
sucesso era esse, bastava ter paciência que sua vez chegaria. E a Extensão Rural estava lá para
ajudar. Entretanto, após a consolidação desse modelo no meio rural brasileiro, o papel da
Extensão Rural fica diluído e parte de suas atividades passa a ser incorporada por outras
empresas e cooperativas agrícolas, deixando o setor numa encruzilhada.
É incontestável que atualmente a agricultura tem sua função ampliada. O debate e as
pesquisas sobre a multifuncionalidade e a pluriatividade da agricultura, em especial a familiar,
mostram que o agricultor não mais é um mero produtor. Além dessa situação concreta,de
mudanças ocorridas nas atividades desenvoilvidas pelo público mais próximo,existe uma
ampliação na expectativa que a população urbana, consumidora de mercadorias e serviços,
passa a ter sobre o desenvolvimento rural. Não se restringe mais aos moradores rurais ou
rurbanos essa problemática.Aqueles que indiretamente tem suas vidas ligadas a atividade
agrícola, também opinam e influenciam o rumo do desenvolvimento pretendido. Diante desse
novo cenário, é possível a Extensão Rural contribuir com esse desafio?
Entendo que sim. Através do estudo das transformações que o sistema de produção
capitalista impôs ao setor e do comportamento que a Extensão Rural teve no caso brasileiro,
fica claro que a construção desse modelo de fazer agricultura levou muito tempo, muitos
recursos, muito suor e sangue (grilagem, banditismo, repressão sindical) para se instalar no
país. Desconstruí-lo e colocar no seu lugar uma forma de agricultura que seja mais sustentável
e justa também levará tempo. É trabalho para várias gerações; mesmo que o imperativo
106
ecológico, a pobreza crescente e a possibilidade da barbárie coloquem essa questão como
necessária e urgente.
A Extensão Rural tem condições de auxiliar nessa tarefa, ao invés de acreditar que o
caminho apontado pela modernização sob o modelo euro-americano seja uma solução para a
agricultura. Obviamente, não será tarefa fácil. Questionar os setores hegemônicos e seus
interesses reais e imediatos apresenta muitas dificuldades; deixa aqueles que o fazem sujeitos
a toda sorte de constrangimentos, de coerção, intimidação ou tantas outras formas, veladas ou
explícitas, de repressão. Mas é uma luta necessária e que vale a pena. Estamos “sujeitos” a
tudo isso.
107
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