UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL TARCÍSIO SAMBORSKI SUPERAR A DIFUSÃO: DESAFIO E DILEMA PARA OS EXTENSIONISTAS RURAIS IJUÍ (RS) 2007 TARCÍSIO SAMBORSKI SUPERAR A DIFUSÃO: DESAFIO E DILEMA PARA OS EXTENSIONISTAS RURAIS Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências - Mestrado da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Walter Frantz IJUÍ (RS) 2007 UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências - Mestrado A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a dissertação intitulada SUPERAR A DIFUSÃO: DESAFIO E DILEMA PARA OS EXTENSIONISTAS RURAIS Elaborada por TARCÍSIO SAMBORSKI como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação nas Ciências. Banca Examinadora Prof. Dr Walter Frantz (orientador) Prof. Dr. Otávio Aloiso Maldaner Profª. Drª. Elza Maria Falkembach Prof. Dr. José Antonio CostaBeber Ijuí(RS), 18 de janeiro de 2007. Coisa A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita. As Indagações A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas. (Mário Quintana) AGRADECIMENTOS À Andréa, ao Tales e ao Theo, pelas ausências, pelas “presenças ausentes ou incômodas” e a bagunça pela casa. Aos meus pais, Carlos e Clair, que sempre me deram muita força e ensinamento. Ao professor Walter Frantz, pela orientação e a liberdade permitida na construção deste estudo. A todos os meus colegas da EMATER/RS-ASCAR que colaboraram de forma direta nas entrevistas ou de forma indireta em conversas sobre o tema. A todos os agricultores e agricultoras que enfrentam o sol sobre a pele e sobre suas lavouras, a rudeza de instrumentos que calejam mãos e lesionam articulações e a crueza das relações econômicas impessoais e injustas, entre tantas outras adversidades, para permitir que todos aqueles que podem comprar possam sentar à mesa e fazer suas refeições. RESUMO O presente trabalho constitui um estudo sobre os serviços de Extensão Rural prestados no Brasil. O objetivo principal deste estudo é identificar o esforço e a busca de superar o legado da teoria de difusão de informações no fazer Extensão Rural na empresa EMATER/RS-ASCAR. Além de analisar como se construiu a visão difusionista inovadora na Extensão Rural e sua conseqüência para os agricultores, este estudo apresenta algumas contribuições que podem auxiliar os trabalhadores em Extensão Rural a tornarem sua atividade mais democrática, no sentido da participação daqueles com quem trabalham, e mais eficiente nas mudanças provocadas rumo a um desenvolvimento sustentável. Inicialmente, o texto apresenta como a construção de um sistema elaborado de conhecimento influenciou a agricultura; depois, mostra a influência da agricultura no surgimento do modo capitalista de produção e a maneira como passa a articular-se dentro da sociedade industrial. Avançando sobre a temática, analisa o surgimento dos serviços de Extensão Rural no Brasil, as principais orientações teóricas que contribuíram na consolidação do difusionismo e o esforço que é realizado para superar esse modelo na Extensão Rural, através da incorporação de teorias críticas da educação. Dessa forma, espera-se contribuir com o desempenho dessa atividade na construção do desenvolvimento rural sustentável. Palavras-Chave: Extensão Rural, Difusão de inovações, Agricultura, Educação Rural, ABSTRACT The present work constitute in a study about services of rural extension carred in Brazil. The main thing objective of this study is identify the effort and the search of overcome the legacy of the theory of diffusion of information in make rural extension in the EMATER/RSASCAR company. Besides analyze as the vision innovative was built in the rural extension and it’s consequence for the farmers, this study to present some contributions that to assist the workers in rural extension to turn his democratic activity, in the participation of those with that works and more efficient in the changes provoked heading for a maintainable development. To get to accomplish those objectives, first we will present as the construction of an elaborated system of knowledge influenced the agriculture, later to show the influence of the agriculture in the appearance in the capitalist way of production and the way with that it passes pronouncing inside of the industrial society. Advancing on the theme, we will analyze the appearance of the services of rural extension in Brazil, the main theoretical orientations that they contributed in the consolidation of the diffusion of innovations and the effort that it is accomplished to overcome that model in the rural extension through the incorporation of critical theories of the education. However, we hoped to contribute with the acting of that activity in the construction of the maintainable rural development. Key words: Rural Extension, Diffusion of innovations , Agriculture, Rural Education. LISTA DE SIGLAS ACAR/ MG - Associação de Crédito e Assistência Rural de Minas Gerais AIA - Associação Internacional Americana APTA - Associação de Programas em Tecnologias Alternativas do Espírito Santo. AS - PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa ASCAR - Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento BIRD - Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento CETAP - Centro de Tecnologias Alternativas Populares no Rio Grande do Sul DRP - Diagnóstico Rápido Participativo EMATER/RS - Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária EMBRATER - Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural ESAV - Escola Superior de Agronomia e Veterinária de Viçosa ETA - Escritório Técnico Brasil-EUA FAEAB - Federação das Associações de Engenheiros Agrônomos do Brasil FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação FASE - Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional FEAB - Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil FETAG/RS - Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul FETRAF – Sul - Federação de Sindicatos de Agricultores Familiares FPM - Fundo de Participação dos Municípios IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IIAA - Instituto Interamericano para Assuntos da América IICA - Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola MPA - Movimento dos Pequenos Agricultores OEA - Organização dos Estados Americanos ONGs - Organizações Não Governamentais PTA - Projeto Tecnologias Alternativas SUMÁRIO INTRODUÇÃO......................................................................................................................... 09 1 CONHECIMENTO, AGRICULTURA E HISTORICIDADE........................................ 1.1 O Trabalho como princípio fundante da sociedade......................................................... 1.2 A Mitologia como explicação da realidade.................................................................... 1.3 Da Grécia e dos mosteiros para a academia: a construção do pensamento ocidental....... 15 15 20 24 2 A AGRICULTURA NA SOCIEDADE INDUSTRIAL...................................................... 35 3 A EXTENSÃO RURAL NO RIO GRANDE DO SUL....................................................... 46 3.1 O espaço da pesquisa e a metodologia utilizada................................................................ 46 3.2 Origens e institucionalização dos serviços da EMATER/RS-ASCAR............................. 51 4 A EXTENSÃO RURAL E A BUSCA DE NOVOS RUMOS: UMA ABORDAGEM A PARTIR DA EDUCAÇÃO...................................................................................................... 76 4.1 A Abordagem Histórico-Cultural seria uma contribuição à Extensão Rural contemporânea? ......................................................................................................................... 88 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................... 103 REFERÊNCIAS........................................................................................................................ 107 INTRODUÇÃO “De repente cai o nível e eu me sinto um imbecil... repetindo... repetindo... repetindo... como num disco riscado o velho texto batido, o discurso dos amantes mal amados, dos amores mal vividos e um terror de ser deixada...” (Simon e Garfunkel) Apesar da perda que o texto escrito causa na letra da música Não vale a pena, brilhantemente interpretada por Maria Rita, ele tem a capacidade de traduzir o que era pensado no momento de definição do referencial teórico escolhido para esta dissertação. Para muitos, certamente, a maneira escolhida para abordar o tema desta escrita é um discurso de amores mal vividos, de nível rebaixado filosoficamente diante de tantos “neos e pós” existentes. Mas devo afirmar que, mesmo diante de tantas teorias contemporâneas, questionando ou buscando superar o marxismo, melhor permanecer fiel ao velho texto batido. Talvez seja para evitar uma sensação de ser deixado, um subterfúgio para evitar uma separação, já que esses referenciais são a orientação teórica da minha prática por grande parte da vida. Isso até pode ser possível. Mas a principal razão, seguindo na metáfora escolhida, é porque, mesmo depois de tantos percalços, de tantas fofocas, de tanto falarem mal dessa companhia, ainda acredito nessa relação! 10 A inquietação inicial, que serviu de motivo a esta dissertação, era saber como a Extensão Rural no Rio Grande do Sul está tentando superar a forma difusionista - inovadora que dominou a intervenção extensionista desde o seu início. O questionamento a essa forma, digamos, “tradicional” de ação extensionista é feita há anos. Além da crítica, têm surgido propostas que visam a produzir uma alteração no fazer extensionista em direção a uma postura mais participativa e dialógica? Quais as dificuldades que essas propostas têm encontrado nessa mudança? Afora a constatação das dificuldades, é possível colaborar com novos elementos no campo educacional que sejam úteis nessa árdua construção de uma nova Extensão Rural? Para fazer isso, decidi, pelas razões acima expostas, analisar o tema a partir do paradigma do trabalho, pois entendo que o marxismo ainda representa o melhor referencial teórico àqueles que buscam superar a alienação dos homens. Fácil seria qualificar esse esforço como uma atitude militante, como um certo proselitismo político, panfletário. Quem sabe? Entretanto, em nome da correção na política, do combate ao sectarismo etc. e tal, inaugurouse na década de 1990 e perdura até hoje um oportunismo intelectual que permite a contemplação dos temas, sua discussão e a elaboração sobre objetos (inclusive por aqueles que o negam) sem a devida preocupação com os homens e suas mazelas. Em nome da fuga ao proselitismo, caiu-se numa apatia e num imobilismo que esconde e mantém a perversidade do sistema capitalista. A forma como decidi abordar o tema da Extensão Rural foi sendo construída através de minhas reflexões como Extensionista Rural. Essas reflexões foram feitas a partir de três referenciais básicos: os pré-conceitos que já possuía pelo empirismo e experiência cotidiana na atividade; as leituras de temas pertinentes à área e mesmo aquelas que na maioria das vezes 11 julgamos que “não têm nada a ver”; e as observações que foram sendo colhidas através de entrevistas ou de “prosas amenas” com colegas, agricultores e as diversas pessoas que tratam sobre o assunto, seja direta ou indiretamente. Esses referenciais somente aqui são separados, porque são atividades de pesquisa e observação diferentes, mas formam um amálgama cuja separação é difícil ou mesmo impossível. A bibliografia existente sobre a Extensão Rural é relativamente escassa quando comparada a outras áreas das Ciências Agrárias.Felizmente foi possível contar com o acervo da biblioteca central da EMATER/RS-ASCAR e da UNIJUÍ e dos empréstimos de alguns colegas e professores que permitiram uma boa revisão sobre o assunto, tentando entender o que era objeto de estudo ou debate dentro desse setor e o que poderia utilizar neste trabalho..Buscando mais precisão e fundamentos, optei por realizar entrevistas semiestruturadas com alguns colegas, dentre as diversas categorias funcionais dos empregados da empresa EMATER/RS-ASCAR, material que muito contribuiu nessa dissertação, talvez não tanto na utilização direta em citações ou referências, mas na alteração de rumos que aconteceu durante a elaboração final.Contudo, por razões que serão explicadas no capítulo três, acabou surgindo uma falha em nossa metodologia que foi a ausência de entrevistas com o público que os profissionais atendem na região. Essa lacuna é suprida, em parte, graças à experiência que possuo em mais de dez anos na atividade de Extensão Rural na empresa e um convívio de vários anos com o setor agrícola e os agricultores da região do estudo, apoiando e assessorando movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores rurais.Claro que minha visão não substitui a enquete direta aos produtores, mas ao menos garante um conhecimento substancial de suas aspirações e concepções sobre o assunto. Resumidamente, foram esses os instrumentos utilizados para construir esta dissertação, que é um olhar sobre a Extensão Rural. E sendo um olhar, está sujeito a todas as 12 limitações de quem o lança, tanto pelo local onde se encontra, pela situação do ambiente em que vive, como por sua “miopia” e seus desvios de foco, mesmo que o esforço tenha levado a apertar os olhos e buscar a visão mais acurada possível. Inicialmente, o texto da dissertação apresenta como os humanos, a partir de sua vida material, foram construindo outras instâncias de mediação da realidade, em processos de conhecer e sistematizar suas experiências e que os levou à construção de complexos sistemas de conhecimento. Partindo da mitologia, primeira forma de explicação do mundo, busca mostrar como foram construídos os sistemas de conhecimento e a relação e participação que a agricultura teve nesse processo. Esses sistemas elaborados de conhecimento influenciaram a agricultura, evidenciando que esse setor não é tão atrasado e resistente à mudança como pensam, ainda hoje, muitas pessoas. Longe disso, esse setor tem respondido aos papéis que a divisão social do trabalho tem construído para ele durante a nossa breve história humana, em especial, a partir do surgimento da urbe. Ainda no primeiro capítulo, a escrita dissertativa também procura mostrar que muitos elementos que persistem no imaginário dos agricultores ou nas suas práticas cotidianas nos dias de hoje não surgiram apenas de processos de aprendizados sobre tentativa e erro ou em formas comunitárias de partilhamento de significados; e sim são resquícios de metanarrativas e processos de sistematização de conhecimentos que já foram hegemônicos em outras épocas e serviram aos humanos na interpretação e compreensão do mundo, mas que ainda hoje continuam ativos, compondo o saber local de muitas comunidades rurais. Quem que não teve a oportunidade de presenciar uma benzedura ou ao menos referências a essa prática? 13 O segundo capítulo analisa a influência da agricultura no surgimento do modo capitalista de produção, apresentando uma tese de Elen Woods, um tanto polêmica, de que o capitalismo nasceu nos campos melhorados da Inglaterra. A análise enfoca, ainda, a maneira como o modo de produção capitalista passa a articular-se dentro da sociedade industrial, desempenhando as macrofunções determinadas pelo sistema industrial, o progresso técnico como a forma peculiar e massificada de modernização euro-americana que se instalou no Brasil e as críticas que recebeu e está recebendo. No terceiro capítulo, o foco de análise é o universo da Extensão Rural. São resgatados o surgimento e desenvolvimento dos serviços de Extensão Rural no Brasil a partir da análise da empresa EMATER/RS-ASCAR. Onde foi a primeira experiência, quem foram os estimuladores e financiadores? Quais as suas principais orientações teóricas? Como se instalou e consolidou o modo difusionista inovador nos serviços de Extensão Rural? O estudo aborda a construção de um sistema nacional pujante e sua decadência; as alternativas que os governos estaduais adotaram e ainda estão adotando para manter em funcionamento a EMATER/RS-ASCAR após a extinção da EMBRATER, centrando a análise nas tentativas e esforços que estão sendo feitos para democratizar a ação extensionista dessa empresa. O quarto e último capítulo constitui um debruçar-se sobre esse esforço de superar a forma tradicional de Extensão Rural a partir de alguns enfoques educacionais. Nele, mostro a importância de Paulo Freire na crítica ao extensionismo feito sob uma forma bancária de educação, a incompreensão que existe de sua obra e a influência da mesma na construção de métodos participativos. Métodos estes que já estão sendo utilizados há muito tempo no Rio Grande do Sul e dos quais apresento dois exemplos: O programa PRORENDA e os DRP, feitos pela EMATER/RS-ASCAR. Para encerrar esse capítulo, serão abordadas algumas 14 questões mais relevantes para o período que a Extensão Rural vive. Através da abordagem histórico-cultural, são apresentadas algumas contribuições para a prática extensionista em bases democráticas e comprometidas com a transformação da sociedade, buscando contribuir para o desempenho dessa atividade na construção do desenvolvimento rural sustentável. 1 CONHECIMENTO, AGRICULTURA E HISTORICIDADE 1.1 O Trabalho como princípio fundante da sociedade Rossi (1992), em seu livro Filosofia e ciência dos modernos, afirma que a imagem da ciência moderna se apresenta como um dado eterno da cultura, alguma coisa que sempre existiu ou uma forma do espírito universal (p.53-5). Diante disso, este capítulo procura resgatar um pouco da história do conhecimento ocidental. Um resgate que tem por intenção demonstrar que a ciência moderna, como todo conhecimento humano, é uma construção histórica e dos humanos. Parece carregada de obviedade tal afirmação, mas reafirmar essa historicidade é salutar para evitar o dogmatismo da ciência e da técnica e ressaltar o aspecto histórico e de construção humana do conhecimento e também das formas de “fazer agricultura”. Saliente-se que, como toda compilação, mais ainda devido à dimensão, à temporalidade e à complexidade do assunto abordado, este trabalho certamente apresenta várias lacunas e/ou omissões - o que, no meu entendimento, não desmerece nem invalida as conclusões que serão apresentadas. Analisando como se deu o desenvolvimento da agricultura, Mazoyer e Roudart (1998) lembram que a espécie Homo sapiens sapiens é recente, seu surgimento ocorreu entre cinqüenta mil e vinte mil anos atrás, mas foi a espécie que conseguiu maiores e mais rápidos avanços técnicos, pois há dez mil anos já pratica agricultura e criação de gado. Mas essa característica não surgiu espontaneamente com essa espécie. Duas espécies antecessoras, os Homini Habiles e Hominis ereti, que viveram no período conhecido como paleolítico antigo, 16 o mais longo da pré-história (três milhões a duzentos mil anos antes da atualidade), são considerados os primeiros hominídeos que tiveram uma verdadeira história técnica e cultural, pois da utilização dos calhaus (lascas de pedras de determinado tamanho) grosseiramente talhados chegaram aos bifaces especializados; da depredação simples à caça organizada das grandes presas; do nomadismo à ocupação de grutas e ao estabelecimento de lares. Supõe-se, por tudo isso, que eles desenvolveram um mínimo de linguagem para a comunicação. Já no paleolítico médio, os Neandertalenses, povo nômade que já dominava o fogo, aprimorariam os instrumentos de pedra talhada por percussão. Essa melhoria deu-se graças a uma nova técnica de preparo de instrumentos cortantes - desbaste levalloivense - que amplia significativamente o poder de corte desses instrumentos e a sua eficiência na realização das tarefas em que eram utilizados. Também é dessa época a caça organizada em grandes batidas, levando rebanhos inteiros para armadilhas naturais. A descoberta, pela arqueologia, de corantes e adornos com dentes de animais dá a entender que eram um povo com preocupações estéticas, mesmo que não existam indícios de produção artística no período. São dos Neandertalenses os registros das primeiras sepulturas e sítios funerários, indicando que já apresentavam preocupações espirituais. Para os autores supracitados, o Homo sapiens sapiens, desde o primeiro período de sua história, no paleolítico recente (40.000 a 11.000 anos da atualidade) seria autor de progressos técnicos que aumentaram enormemente a eficiência de seus instrumentos e ampliaram a sua valência ecológica, permitindo sua expansão geográfica por grande parte do globo terrestre. Mudanças anatômicas nessa espécie, como o aumento do volume e circunvoluções do cérebro - graças a uma dieta alimentar mais rica em proteínas - e o desenvolvimento da faringe e da linguagem articulada, facilitaram a criação e a permuta técnica e cultural. 17 No período neolítico, o homem já havia passado da fase de caça e coleta para a agricultura. Tudo graças à melhoria nos instrumentos que passou a utilizar, como as pedras polidas, a cerâmica de terra cozida e a domesticação de espécies vegetais e animais. Essa é a primeira revolução agrícola, a revolução neolítica. O Homo sapiens sapiens tornou-se agricultor. Mazoyer e Roudat (1998), discorrendo sobre a magnitude dessa mudança, afirmam que: [...] homem não nasceu agricultor, quando surgiu o homem sapiens sapiens era caçador-recoletor. Quando começou a praticar a agricultura e a criação de gado, não encontrou na natureza nenhuma espécie previamente domesticada, mas domesticouas em grande número. Também não dispunha de instrumentos anatômicos adaptados ao trabalho agrícola, mas fabricou-os de todas as espécies e cada vez mais poderosos. Enfim, nenhum saber inato ou revelado lhe ditava a arte e o modo de praticar a agricultura [...] (p.38). Obviamente que a passagem da fase de caça e coleta para a agricultura não foi algo simples. Mazoyer e Roudat (1998) apontam, como fatores principais que permitiram o desenvolvimento dessa nova forma encontrada pelos humanos para buscar o atendimento de suas necessidades, o crescimento populacional, o aumento do tempo de trabalho na caça e coleta diante da escassez dos alimentos pela concorrência e a existência de condições técnicas como as ferramentas e espécies domesticadas. Entretanto, essa mudança técnica econômica produziu profundas transformações sociais e culturais. A alteração na vida dos humanos a partir do início da agricultura exigiu o estabelecimento de um conjunto de regras para preservar o direito de colheita dos campos por quem havia semeado e a preservação do direito à caça dos animais de criação. Afora o regramento inicial das “propriedades”, os humanos dessa época tinham de reservar parte dos grãos como sementes e dos animais como reprodutores, dividir o novo trabalho entre os membros do grupo, criar novas formas de sucessão familiar, enfim “institucionalizar” um novo modo de vida que permitisse a manutenção e reprodução do grupo. 18 Tudo isso corrobora a ontologia marxiana, que concebe o trabalho como estruturante do ser social e afirma que o salto ontológico entre as esferas animal e social é operado pelo trabalho. Nenhuma explicação mística ou dádiva dos deuses seria responsável pelo surgimento do homem como ser genérico, a não ser a sua própria história. O trabalho é categoria fundante da sociabilidade e não apenas um simples fator de produção como os outros. Teixeira (1995), analisando o conceito de trabalho na obra de Marx, identifica que o processo do trabalho é a condição possibilitadora da mediação do intercâmbio do homem com a natureza e possui algumas determinidades constitutivas que estão sempre presentes: i) o dispêndio fisiológico de energia; ii) a mensuração do tempo de trabalho; e, por último, iii) sua distribuição entre as diferentes esferas da produção material. Essa universalidade abstrata do trabalho é possível porque, como condição da existência humana, o que lhe dá um caráter universal, revela uma tendência natural do homem de satisfazer suas necessidades. Porém, mesmo sendo uma atividade universal, como criadora de valor de uso ela só se realiza no interior e por meio de uma formação específica de sociedade. Aprofundando um pouco mais a análise sobre esse conceito, Duarte (2006) apresenta outras características distintivas do trabalho humano. Em primeiro lugar, ressalta que ele é uma atividade conscientemente dirigida por uma finalidade previamente estabelecida. Diferentemente dos animais, o homem já tem na sua imaginação o objeto que deseja construir. Uma segunda característica é a de que o trabalho é uma relação mediatizada entre o homem e a natureza, requerendo a utilização de meios de execução, que são um complexo de coisas que o trabalhador coloca entre si mesmo e o objeto de trabalho. Por fim, o processo de trabalho dirige-se a um objeto e materializa-se neste, transformando-o num produto social. O 19 objeto não é mais aquele que era dado pela natureza, mas algo transformado pela atividade e vontade humanas. O ser é produzido e, ao mesmo tempo, é um produto de sua produção. Ao construir e dominar o uso dos instrumentos, não surgia apenas uma nova tecnologia no processo de produção. Surgia também um novo homem. Marx (1983) exemplifica isso ao afirmar: O objeto de arte – tal como qualquer outro produto – cria um público capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto, a produção não cria somente um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto. Logo, a produção gera o consumo:1°, fonecendo-lhe a sua matéria,2°,determinando o modo de consumo;3°, criando no consumidor a necessidade de produtos que começaram por ser simples objetos (p. 210). Nessa dialética, todo ato de criação, toda experiência vivida não é apenas um ato, mas uma complexa relação que não se explica apenas pelas mudanças aparentes (materiais) e tampouco pelas alterações subjetivas (idéias) que produzem na natureza e no homem, num processo circular, já que nenhuma sociedade pode parar de produzir e consumir. As necessidades humanas de alimentar-se, vestir-se, abrigar-se não cessam nunca. Independentemente das diferenças existentes nesses aspectos em cada sociedade, o trabalho é uma condição eterna para a existência humana. Vigotsky (2001), discorrendo sobre a formação do pensamento e da linguagem nos humanos a partir da análise dos experimentos com chimpanzés e crianças, afirma que a articulação entre linguagem e pensamento é a principal diferença na evolução entre os hominídeos. Por isso, em nossa espécie, observa-se um desenvolvimento criativo que supera as necessidades imediatas, gerando instrumentos e representações de ordem estética, simbólica e memorial. O simples uso dos instrumentos não é, portanto, a diferença entre os humanos e os animais, porque esses últimos também fabricam e usam instrumentos. A 20 principal diferença estaria na capacidade de retenção e reprodução dessa experiência no tempo, que se dá numa articulação especial entre linguagem e trabalho, possibilitando o compartilhamento de significados da experiência com os outros. Nas palavras do autor: A comunicação, estabelecida com base em compreensão racional e na intenção de transmitir idéias e vivências, exige necessariamente um sistemas de meios cujo protótipo foi, é e continuará sendo a linguagem humana, que surgiu da necessidade de comunicação do processo de trabalho (VIGOTSKY, 2001, p.11). Isso permitiu ao homem desenvolver formas superiores de comunicação, baseadas na compreensão e comunicação, ultrapassando as formas instintivas que nossa condição animal possui, caracterizadas pela percepção e pelo afeto, e que se transmitiam em forma de contágio. Esses sistemas de comunicação permitiram ao homem não apenas se comunicar, mas também buscar a compreensão de sua existência e da realidade, enfim, a explicação do funcionamento do mundo. 1.2 A Mitologia como explicação da realidade A ontologia marxiana, explicitada acima, é uma elaboração teórica recente na nossa história. A primeira tentativa sistematizada de explicar o mundo no ocidente deu-se através da mitologia. Hoje, é muito comum encontrarmos referências - não apenas literárias - a esse período em algumas elaborações sobre Agroecologia e entre aqueles que defendem a teoria do caos. Assim, nada melhor para apresentar o espírito dessa concepção que os versos de Hesíodo na Teogonia: “Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias” (apud TORRANO, 2003, p.111). 21 O caos era o estado primordial do mundo, uma matéria difusa, inefável, mas uma divindade que tinha a capacidade de fecundar. A cosmogonia foi a forma primitiva de explicação do surgimento do mundo. Fez surgir também o primeiro discurso organizador do mundo, cristalizado naquilo que Detienne (1988) denomina de palavra mágico-religiosa. Segundo esse autor, a palavra mágico-religiosa possui diversos aspectos, mas um deles se destaca: a eficácia. Esse é o aspecto principal da palavra mágica na concepção do autor. É uma palavra que é potência religiosa; que se distingue de uma ação - pois palavra e ato não se separam e nem estão submetidos a nenhuma temporalidade. Sendo pronunciada num presente absoluto, ela é “o que foi, o que é, o que será”. Está sempre em conformidade com a ordem cósmica, mas é inseparável das condutas e valores simbólicos, só existe enquanto inscrita nessa ordem. Em nenhum momento, a palavra dos poetas, das musas, do rei de justiça busca a concordância dos ouvintes, o assentimento do grupo social. Ela é um privilégio de um tipo de homem excepcional. Outro aspecto importante do mito poético é a marca da oralidade, que não determina apenas as características exteriores e formais dos poemas e catálogos. Torrano (2003) vê essa marca também na própria concepção de linguagem dos poetas e no uso que Hesíodo faz da linguagem, pois Nesta comunidade agrícola e pastoril anterior a constituição da polis e à adoção do alfabeto, o aedo (i.e. o poeta-cantor) representa o máximo poder da tecnologia de comunicação. Toda a visão de mundo e consciência e sua própria história (sagrada e/ou exemplar) é, para este grupo social, conservada e transmitida pelo canto do poeta. É através da audição deste canto que o homem comum podia romper os restritos limites de suas possibilidades físicas de movimento e visão, transcender suas fronteiras geográficas e temporais, que de outro modo permaneceriam infranqueáveis (TORRANO, 2003, p. 16). Assim, o autor em questão julga que para os povos que não conheciam a escrita, o poder, a força da palavra transmitida pelo aedo não se dava apenas pelo seu caráter divino, já 22 que o canto das Musas nascia da Memória, mas também dos versos hexâmetros, forma absoluta de expressão literária nesse período. Somente mais tarde a poesia lírica e a prosa surgiriam para contrapor-se ao canto mítico. Este era o som, a forma e a métrica da palavra divina. A poesia foi a “res pública” durante um grande período da existência humana. Nas cerimônias em que os cantos eram entoados, a palavra tinha poder de relembrar o passado e predizer o futuro. Essa força era de tal proporção que o nome e a coisa nomeada tinham uma relação direta e não de mera representação. O nome presentificava o nomeado. E essa presença divina restaurava a vida, curava doentes e organizava a vida dos ouvintes. Um bom exemplo dessas cerimônias era a comemoração do ano novo babilônico, na qual o canto apresentava a ordem do mundo, garantindo sua renovação no ano que se iniciava. A ordem surgida do Caos era reinstalada pela força dos cantos e apresentada aos homens como o conhecimento possível do mundo (TORRANO, 2003). Caimi (2005) afirma que a mitologia possibilita o conhecimento. Mas o permite numa lógica de ambigüidade. Nessa lógica - que é constituinte do mito -, os contrários se compõem, são contíguos. Somente pelo conhecimento da ordem que instaura, é possível o conhecimento. O mito não precisa de nenhuma referência que lhe dê veracidade, ele sempre é. É um discurso dito por um mestre para um receptor que só recebe, um receptor passivo. Só restava aos homens seguir os desígnios e vontades divinas no seu cotidiano, sob pena de não conseguirem mais viver em conformidade com essa ordem. O sistema mítico servia para organizar e ordenar o mundo. Enquanto buscava garantir seu alimento, o homem criava uma série de sistemas agrários, todos evoluídos dos 23 sistemas de florestas abatidas e queimadas (forma pioneira de exploração das terras). Os principais sistemas pós florestais foram conceituados por Mazoyer e Rudart (1998) como cultura atrelada ligeira e sistemas hidráulicos dos Vales. Uma série de instrumentos era utilizada pelos agricultores no cultivo do solo, além de outro conjunto de regramentos no uso das terras comuns, principalmente campos de pastagens e florestas. Mas a evolução técnica se dava dentro e determinada pelo ordenamento mítico. A agricultura que se fazia nesse período realizava vários rituais buscando obter as bênçãos e os agrados dos deuses, mesclando técnica e mito. São exemplos conhecidos a adoração a Deméter/Ceres, sendo que a cada início de semeadura as mulheres presenteavam a Deusa com leite, mel e o sacrifício de uma porca; bem como o culto a Dionísio/Baco na produção vitivinícola. Os homens podiam lutar contra as dificuldades da natureza, criando técnicas para superação das mesmas, mas a maneira predominante de explicá-las e compreendê-las era dada pelos mitos. Mas as coisas começam a mudar. O próprio Hesíodo, no poema Teogonia, canta que “Quando Deméter gera Riqueza com o herói Jazão, ela o faz sobre uma terra três vezes lavrada na gorda região de Creta” (TORRANO, p. 2003, p. 161), indicando que não apenas as características naturais de fertilidade do solo - uma dádiva divina -, mas uma forma contemporânea de cultivo, nesse caso expressa pela tripla lavradura, são responsáveis pela produção da Riqueza. Em seu outro poema, Os Trabalhos e os Dias, a vida agrícola é exaltada na sua plenitude, sendo apresentada como o fundamento da civilização. Analisando a conceituação de homem e trabalho em Homero e Hesíodo, Shigunov Neto e Nagel (2005) afirmam que o primeiro ainda concebe o homem como um sujeito que pensa miticamente, vendo os êxitos humanos como favores dos deuses. O homem é um guerreiro defensor da família e da terra, sepultura coletiva onde todos devem ser enterrados, 24 mas livre da fatalidade do trabalho. Já em Hesíodo o homem é um agricultor, um ser individual, que começa a ser compreendido em sua plenitude como distinto dos deuses, e que tem no trabalho uma forma de prover a sobrevivência material, forma esta que é defendida e exaltada como virtuosa e digna pelo poeta. 1.3 Da Grécia e dos mosteiros para a academia: a construção do pensamento ocidental Aos poucos, os homens que viviam de acordo com a vontade e desejo dos deuses, através da tradução dos escolhidos, num sistema fechado, totalitário, aparentemente fadado à eternidade, começam a romper com essa visão de mundo. É pouco crível, para não dizer incrível, que um sistema dessa magnitude fosse superado e suplantado pela ação humana. Mas foi na atividade guerreira, nas assembléias dos guerreiros que surgiu a palavra diálogo, que veio a superar o canto das Musas. É possível afirmar que esse foi o início da dessacralização da palavra. A palavra mágico-religiosa passa a dar lugar a um discurso baseado não mais na alethéia1, mas na doxa2. A palavra diálogo é fruto da atividade guerreira, especialmente do processo de distribuição do butim, quando os guerreiros, em assembléia, tinham direitos a isegoria (direito de falar) e isonomia. Caimi (2005) assevera que essa era uma palavra que complementava a ação, inscrita num determinado tempo e provida de autonomia própria. Não mais era solitária e unilateral, mas pertencente a um grupo social. A partir daí, quando ela se torna mundana, os homens começam a inquietar-se com a força da palavra. Essa inquietação parte em duas direções. Uma dedica-se ao problema da potência da palavra sobre a realidade, ao passo que a outra se refere à potência da palavra sobre o outro. 1 Alethéia: verdade, realidade. Palavra composta pelo prefixo negativo a- e pelo substantivo léthe (esquecimento). É o não esquecido, não perdido, não oculto; é o lembrado, encontrado, visto visível, manifesto aos olhos do corpo e do espírito. 2 Doxa: Opinião, crença, reputação (isto é, boa ou má opinião sobre alguém), suposição, conjetura. 25 Como já indicava Hesíodo, a agricultura começa a ter uma importância fundamental, pois a especialização da sociedade guerreira retira da atividade agrícola parte da população, obrigando que outros produzam a comida necessária aos não agricultores. Entretanto, devido à baixa produtividade do trabalho agrícola, uma pessoa tinha dificuldades de produzir alimento suficiente para si e/ou sua família. Quando tinha de prover de alimentos a outras pessoas fora do grupo familiar, os problemas aumentavam. Os excedentes eram poucos ou quase não existiam. Como garantir alimento suficiente para a população? Para resolver essa questão, surgiram a colonização, a escravatura e a pilhagem. Dessa forma, usavam-se os guerreiros para garantir o abastecimento alimentar dos cidadãos. A partir da análise da Grécia antiga é possível ter uma melhor compreensão desse processo. Cortella (2003) distingue quatro fases da Grécia antiga: a pré-homérica, a homérica, a arcaica e a clássica. Nas duas primeiras, ocorreu o processo de diferenciação dos núcleos familiares (genos), concentrando terras nas mãos de uns poucos, o que proporcionou o surgimento da aristocracia. Já no período arcaico (VIII até VI a C.), o processo de consolidação das cidades-estados, o aumento do domínio, a ampliação do comércio e da escravidão, garantiram à aristocracia tempo livre para dedicar-se a questionamentos. Os mitos ainda tinham sua força, mas já não bastava saber de onde vinha o mundo, como ele foi criado. Além da explicação da origem, começava a indagação sobre o funcionamento desse mundo, como é a realidade (já com fins instrumentais) e do que ela é composta? Enfim, surgia uma série de questões que os mitos já não eram suficientes para explicar. Essas foram as preocupações dos primeiros filósofos como Tales de Mileto e os Pitagóricos. A palavra começava a ser usada como potência sobre a realidade. 26 Nessa época, os sistemas de produção agrícola mais comuns eram os sistemas de cultura atrelada ligeira e os sistemas hidráulicos. O primeiro pode ser caracterizado como um sistema de produção de cereais baseado numa área de cultivo (ager) e outra de pastoreio e coleta de produtos (saltus) trabalhados através do uso de instrumentos manuais – foices, pás, enxadas - e instrumentos rudimentares de tração para preparo do solo e transporte. O arado utilizado nesse período tinha uma capacidade de aração reduzida, impedindo um eficiente controle de ervas daninhas, obrigando o uso de enxadas ou pás para melhorar o preparo do solo. A fertilização do ager era feita através da transferência direta de matéria orgânica do saltus para a parcela que seria cultivada. Esse material era coletado em forma de restos vegetais ou através das dejeções animais, pois os animais que pastejavam no saltus durante o dia, pernoitavam nas parcelas cultivadas à noite para fertilizar. Já o sistema hidráulico, que aproveitava o movimento das cheias dos rios, permitiu o desenvolvimento de um sistema de produção complexo, no qual o aproveitamento da água para irrigação e a fertilização de aluvião garantiram altos níveis de produção agrícola. Nesse sistema, os instrumentos utilizados já incorporavam os incipientes avanços do conhecimento, como se pode concluir a partir do uso do parafuso de Arquimedes, instrumento que possibilitava a elevação de água entre os canais. Porém, como citado anteriormente, também surgia a preocupação quanto à potência da palavra sobre o outro. A forma de administração política da polis através da democracia direta não só proporcionava condições para esses pensamentos, como era a razão de os mesmos existirem. Os aristocratas, como viviam da exploração da terra pelos escravos, podiam dedicar mais tempo aos estudos, aprimorando a participação nos debates das assembléias. Já os comerciantes, cuja riqueza provinha do comércio, atividade que dependia 27 de maior dedicação, não podiam ter a mesma capacidade de intervenção, perdendo então espaço na luta que travavam com os aristocratas pelo poder. Para resolver essa questão, contrataram pensadores estrangeiros para ensiná-los. Esses pensadores, tratados de forma pejorativa pela aristocracia, ficaram conhecidos como sofistas e realizaram o contraponto às teorias aristocráticas. A contribuição dos sofistas para o pensamento contemporâneo teve um reconhecimento tardio. As contribuições mais importantes desse período deram-se através da obra de Platão e Aristóteles, pensadores que alicerçaram as bases do pensamento moderno. Platão resgatou o pensamento socrático e, de acordo com Cortella (2003), suas idéias de permanência e fluxo, mutabilidade das coisas e imutabilidade das verdades, criam um arcabouço teórico que estabelece uma nova cosmogonia. Para Platão, Deus moldou com a matéria bruta do caos o universo, o cosmos. E Deus fez o cosmos de acordo com modelos abstratos, idéias que eram essências ou as verdades de tudo. As idéias são anteriores à existência de nosso mundo, não pertencem a ele e, por isso, não são materiais. Não sendo materiais, não se transformam, são eternas e imutáveis. Partindo dessa explicação sobre a criação do mundo, o filósofo buscou a explicação do funcionamento do mesmo, como ele se organiza e funciona. Essa explicação deu-se a partir da existência de dois mundos: o mundo sensível (da materialidade das coisas) e o mundo inteligível das verdades, das idéias (um mundo imaterial, eterno e perfeito). O mundo sensível é onde vivemos; já o mundo das idéias não tem lugar, dado sua imaterialidade. O mundo sensível seria uma cópia imperfeita do mundo das idéias. O ser humano vive nos dois mundos. O corpo no mundo sensível, a alma no mundo inteligível. Quanto mais conseguirmos utilizar a razão como condutora da charrete puxada pelos cavalos Desejo e Vontade para perto dos deuses, mais puros seremos. O corpo é a morada da alma que 28 exige sua purificação. E a alma já conhece as verdades, somente as perdeu ao ganhar a corporeidade. Então, a verdade precisa ser reconhecida. Aprender é recordar, conhecer é descobrir, numa teoria da reminiscência. Aristóteles foi discípulo de Platão por dezenove anos e tenta superar o mestre, criticando o dualismo (mundo sensível e mundo inteligível) de sua obra. Para ele, a realidade que existe é a substância individual representada pelo indivíduo material concreto, que por sua vez é composto de matéria e forma. Ao trazer o mundo inteligível para junto do mundo sensível, Aristóteles passa a valorizar a experiência, a observação como passo importante para o conhecimento. Não enxergamos mais as sombras da caverna de Platão, pois o intelecto humano pode, através da abstração, separar a matéria da forma ao buscar o conhecimento numa natureza composta por indivíduos (unidade indissociável da matéria e da forma). Boorstin (2003) analisa que se o atrativo de Platão tinha sido o encanto com o ideal, o duradouro, o imutável, o interesse pela vasta e enciclopédica obra de Aristóteles se dava pelo conjunto de conhecimentos a partir da acumulação de fatos da experiência humana e do mundo com uma explicação das causas, o que tornava a natureza um reino de objetivos expostos. Esses dois autores foram, indubitavelmente, os pensadores que maior influência exerceram sobre a constituição do pensamento antigo da humanidade. No período helenista, marcado por forte ecletismo entre as escolas do período, a presença desses pensadores foi significativa. Mas graças a esse ecletismo, muitas obras puderam ser preservadas e permitiram que o pensamento moderno pudesse conhecê-las. Entretanto, foi pela incorporação da 29 filosofia grega ao cristianismo que o pensamento platônico e, posteriormente, o aristotélico ganharam o mundo. Santo Agostinho foi o filósofo medieval mais importante e selou a união da filosofia grega com o cristianismo, pela reunião da obra de Platão com a tradição cristã. Concebia a teologia como a verdadeira ciência, seguindo o princípio comum no período: crer para conhecer. Não era nos sentidos, na razão, mas na fé que estava a verdade. E a mente humana só podia conhecer porque continha a luz divina que a presidia e permitia a revelação da verdade. Com a dissolução do império romano, a fragmentação do mundo europeu e a ortodoxia religiosa no Império Bizantino, o pensamento de Santo Agostinho exerceria influência por vários séculos. Com as invasões árabes, contribuições em vários campos do conhecimento são trazidas do Oriente para o Ocidente. Junto com esses conhecimentos, vem o pensamento de Aristóteles, que seria posteriormente assimilado pelo cristianismo através de São Tomás de Aquino, não sem forte reação – e proibição -, dos seguidores de Santo Agostinho. Era uma nova forma que o Cristianismo encontrava para manter a supremacia da fé sobre a razão, tentando integrar a filosofia e a teologia num sistema lógico coerente e unificado. De maneira semelhante às mudanças no pensamento durante a Idade Média, as alterações na agricultura se faziam notar. Organizada em núcleos para enfrentar as constantes invasões, recebendo proteção através do pagamento das corvéias, os agricultores em regime de servidão iniciam o uso da Charrua - arado que faz um revolvimento mais profundo do solo -, adotam o sistema trienal de cultivo e o uso dos eqüinos no sistema de atrelagem em colar na 30 tração e transporte em consonância com as alterações institucionais do feudalismo3. Isso permitiu um novo sistema de produção que trouxe ótimos índices de produtividade e a constituição de excedentes alimentares para viabilizar o fornecimento para os núcleos urbanos. A centralidade do pensamento medieval não estava muito ligada às atividades práticas, pois predominava a preocupação com a elevação do espírito e a busca do prazer e tranqüilidade da alma, restando pouco espaço para questões mais práticas, como a agricultura. Entretanto, dois exemplos evidenciam a marca desse pensamento na agricultura. O primeiro foi a forma peculiar de lidar com as pragas nas culturas. Ferry (1994) resgata uma prática comum no período medieval, relatando casos ocorridos em 1545 e 1587 em que os agricultores franceses pediam às autoridades eclesiásticas que excomungassem as pragas que atacavam suas videiras, o que gerava a instauração de um processo contra os insetos. Sobre o expediente de processar os animais, o advogado Gaspard Bally, comentado pelo autor supracitado, escreve: não se deve menosprezar a eficácia das monitórias [ou seja, neste caso, as repreensões com que a autoridade eclesiástica fulmina os animais], tendo em vista que se trata de uma coisa sumamente importante que traz consigo o mais perigoso gládio de que se serve nossa Santa Mãe Igreja, que é a excomunhão, a qual corta com igual proficiência tanto a madeira seca quanto a verde, não poupando os vivos nem os mortos; ela não atinge somente as criaturas dotadas de razão, mas alcança também os irracionais, como os animais (BALLY, apud FERRY, 1994, p. 11). Outra demonstração da influência do pensamento medieval sobre os processos agrícolas da época é dada pela concepção de nutrição vegetal de Aristóteles. Romeiro (1998, p. 47-8) lembra que ao fazer referência sobre a propagação das vantagens da carpideira 3 Sobre isso existe uma grande polêmica se foi um, vários e quais foram os fatores que permitiram as mudanças agrícolas no período. Essa discussão pode ser acompanhada em Romeiro (1998). 31 mecânica inventada por Jhetro Trull, Duhamel du Monceau, na França em 1753, acrescentava que além do controle das ervas daninhas, o equipamento podia revolver o solo intensamente, o que melhoraria a nutrição das plantas, já que, segundo Aristóteles, estas se nutriam de partes ínfimas de solo. Assim, quanto mais pulverizado o solo, melhor a nutrição das plantas. Essa concepção perdurou até o século XIX, quando Liebig demonstrou que a nutrição vegetal se dá pela absorção de certos elementos minerais e não de partículas de solo. Mas apesar de todo o esforço dos escolásticos, a decadência do mundo feudal e a consolidação do mercantilismo, a urbanização crescente e o humanismo renascentista, iniciase a consolidação do pensamento moderno quando a idéia de verdade como revelação divina passa a dar lugar à idéia de descoberta. Analisando a crise da tradição e o surgimento do pensamento moderno, Marcondes (2004, p. 139-75) afirma que, como Lutero pôs em dúvida a autoridade eclesiástica ao mostrar a corrupção dos papas e o desvirtuamento da Igreja, a apresentação da teoria heliocêntrica por Copérnico - pela qual Giordano Bruno foi queimado em 1600 e Galileu Galilei condenado logo após, mostrou as falsidades teóricas, gerando falta de confiança no saber tradicional. Além do Sol, o homem também passa a ter centralidade no humanismo renascentista, adequando os princípios de livre iniciativa de que o mercantilismo necessitava. Tudo isso fez surgir um conjunto de reflexões e tentativas de retomar a confiança na tradição. É contra essa “esterilidade e futilidade” da tradição no conhecimento que Francis Bacon ergue-se e, de acordo com Oliveira (2002, p. 61-84), estabelece críticas sobre três frentes: os objetivos do conhecimento, as formas de se alcançá-lo e a postura frente a ele. A forma contemplativa da filosofia, sua ligação com a teologia e a ausência de uma tentativa de compreensão que representasse um domínio da natureza eram as razões da estagnação do 32 conhecimento; já os métodos baseados em princípios, na demonstração e na retórica, com desconsideração dos métodos experimentais, só levavam a uma atitude frente ao conhecimento, o recurso da autoridade como argumento e “conseqüentemente todo processo científico se tornou uma sucessão de professores e alunos e não de inventores e aprimoradores de invenção” (BACON apud OLIVEIRA, 2002, p.70). Se Bacon defendeu uma ciência aplicada, a serviço da ampliação do domínio do homem sobre a natureza, Descartes buscou resgatar a confiança no conhecimento. Partindo da idéia de que a racionalidade pertence à natureza humana e de que o homem tem dentro de si a possibilidade do conhecimento - apenas deturpada pelos erros da tradição, Descartes estabeleceu o argumento do cogito como seu ponto arquimediano e construiu um novo sistema filosófico. Refutando o ceticismo através do “eu pensante” e estabelecendo um método para chegar às verdades, sua obra é considerada a fundadora da filosofia moderna. Inaugurava-se uma nova fase da história humana, na qual a consolidação da razão instrumental proporcionaria a base técnica para a expansão do modo de produção capitalista. Essas mudanças, de acordo com Marques (1988, p. 52), “[...] levarão à idade moderna da era industrial e do capitalismo, da explosão demográfica e da luta de classes, da razão abstrata e da aplicação da ciência ao processo produtivo para o mercado sem limites, da precipitação da história no afã de consumir para produzir”. As conseqüências e as críticas a essa razão instrumental já são amplamente conhecidas e não serão abordadas aqui. Interessa nesse momento reforçar que após a ascensão da burguesia e a consolidação do capitalismo no planeta, buscou-se uma naturalização desse modo de vida, como se o homem fosse um ser egoísta e concorrencial por natureza. E essa 33 ideologia esforçou-se por “naturalizar” vários aspectos da vida moderna. Lessa (2000, p. 15972), comentando a obra de Luckás, lembra que este afirmava que a elevação do modo burguês de ser a uma essência universal do ser humano termina colocando um limite insuperável para a história, porque não haveria como superar essa “natureza humana”. Para superar esse impasse, lembra que a essência dos homens é o conjunto de suas relações sociais, o que insere essa essência nas dimensões do processo histórico, pois se forem alteradas as relações sociais, altera-se a essência humana. Dessa maneira, a alteração do modo capitalista converte-se numa possibilidade ontológica, que não necessariamente significa sua realização prática imediata ou sua inevitabilidade, mas que rejeita a possibilidade de fim da história. Essa reflexão parece-me ser das mais importantes. A agricultura que a modernidade construiu também é vista dessa forma naturalizada. Cada vez mais busca-se uma padronização no mundo inteiro, através de avanços nas técnicas de controle da natureza. Produzir e consumir são ações que ficam cada vez mais parecidas em qualquer parte do mundo. Não é só a Coca-Cola que é igual, o milho ficou mais parecido, o feijão, o arroz e junto com eles a base alimentar acaba tornando-se semelhante. Mesmas marcas, mesmos sabores, mesmos odores. Agricultura a serviço da reprodução e movimento das grandes máquinas industriais e não mais a serviço de alimentar a vida. Será que necessariamente tem de ser assim? Estudar como a humanidade viveu, tentou entender o mundo e constituiu grandes civilizações antes do capitalismo é importante para demonstrar que a sociedade capitalista não é a única via de desenvolvimento, já que não foi a forma como “caminhou” a humanidade na maior parte de seu tempo de existência. 34 Ao finalizar este capítulo, quero chamar a atenção para o fato de que o pensamento e a ciência são produtos da atividade humana, em processos de negociação e explicitação de verdades que vão suplantando outras, mas muitas dessas verdades permanecem vivas em determinados grupos. Não seria ridículo na Antigüidade um agricultor acreditar que as mulheres durante o seu ciclo menstrual ficassem impedidas de adentrar em suas plantações, o que levaria ao adoecimento de suas plantas. Essa era a verdade da época, cantada pelos poetas. Fica difícil explicar que ainda hoje muitos agricultores ainda mantenham vivo esse mito, mas é comum encontrarmos agricultores que ainda pensem assim. Outra prática comum é o benzimento, que lembra muito as monitórias. Nas décadas de 1970 e 1980 houve grandes surtos de lagartas desfolhadoras na cultura da soja no Rio Grande do Sul e não faltaram benzedores, inclusive muitas autoridades eclesiásticas, que se revezavam nas lavouras, benzendo três cantos e deixando um em aberto para que as lagartas pudessem deixar a plantação. Portanto, conhecer, ainda que sucintamente, a história do pensamento ocidental e sua influência na formação do conhecimento local dos agricultores e agricultoras evita o simplismo exagerado de que todo o conhecimento popular é elaborado em forma de tentativa e erro dos indivíduos na constituição de suas vidas. 2 A AGRICULTURA NA SOCIEDADE INDUSTRIAL O capítulo anterior mostra que a prática da agricultura acompanha os homens desde o nascimento da sociedade, numa relação de constituinte e constituída. Salienta, em especial, a influência que os paradigmas do conhecimento exerciam sobre a atividade. Neste capítulo, abordarei as relações macroeconômicas que a agricultura passa a estabelecer na sociedade industrial, ressaltando a importância do setor para a nossa vida e o processo de modernização que a agricultura sofreu. Quando se fala sobre modernização da agricultura, somos levados a pensar, quase sempre, no processo conhecido como Revolução Verde. Entretanto, desde as mudanças nos sistemas de produção realizadas durante o período feudal, como o sistema trienal e novos instrumentos de cultivo, ocorre um processo de intensificação da produção agrícola. Mais tarde, com o surgimento do sistema de rotação de culturas Norfolk, da máquina de vapor e dos adubos sintéticos, essa intensificação acentuar-se-ia. As descobertas científicas da Idade Moderna produziram grandes mudanças. Justus von Liebig superou Julius Hensel4 e solidificou com seus estudos dos compostos químicos as bases da quimificação da agricultura. Mendel forneceu condições para seleções genéticas mais aprimoradas. A tração animal passou a ceder lugar à máquina, num processo crescente de mecanização das atividades. Como não era necessário fertilizar com dejetos animais, tampouco os animais precisavam puxar o arado ou carroças, a carne passa a ceder lugar para o aço. Mas não se restringiam ao aspecto tecnológico as mudanças que a época moderna reservava para o setor agrícola. Corazza e Martinelli Jr. (2005) reiteram que a agricultura na Antigüidade tinha como regra geral a produção de bens, pois a busca de riqueza estava subordinada à finalidade de 4 Julius Hensel polemizou na época com Liebig porque defendia o uso de pós de rocha ao invés de compostos químicos sintéticos na fertilização. Foi processado e seu livro Pães de Pedra chegou a ser censurado. 36 atender as necessidades humanas e não constituía um fim em si mesma. Na Idade Média, a agricultura é a atividade principal que dá sustento ao feudo, mantido com o trabalho servil. O excedente produtivo, obtido nos sistemas agrícolas mais intensivos no período feudal, permitia sustentar um número maior de pessoas nas cidades. O aumento da população nas cidades, a ampliação da participação do capital comercial na economia e o desenvolvimento das manufaturas e corporações urbanas iam alterando a forma tradicional de ocupação de espaço e de organização das sociedades. Porém, a despeito de todas as mudanças, a agricultura ainda mantinha seu status de atividade principal. Os fisiocratas franceses dividiam a sociedade da época em três classes: a classe produtora, composta pelos trabalhadores do campo; a classe proprietária, na qual se enquadravam a Coroa, a aristocracia rural, a nova burguesia proprietária de terras e o clero; e a classe estéril, que era composta por trabalhadores urbanos, comerciantes e artesãos. Essas três classes tinham suas funções: a primeira garantia os “produtos de nossas terras”; a segunda vivia da renda fundiária, dos impostos e do dízimo, enquanto a terceira vivia da mão–de–obra e do lucro do comércio, pois para os fisiocratas o produto líquido era o motor da economia. E esse produto originava-se na atividade agrícola, sendo que o fator principal que o explicava era a fertilidade da terra. Mas apesar de professarem isso, não era só a fertilidade da terra que eles consideravam. Indicavam a agricultura que se realizava no norte da França (baseada em grandes propriedades) como aquela que gerava excedente, sendo um modelo a ser seguido e apoiado pelo Estado. A agricultura do sul do país, composta de pequenas propriedades, não era considerada um bom modelo. Mesmo que não admitidas explicitamente, além da fertilidade, as novas formas de organizar a produção agrícola seriam as responsáveis pela geração do excedente, o que levou Marx a afirmar que a essência burguesa da teoria fisiocrata ainda estava encoberta por uma máscara feudal “a fisiocracia supera seu caráter feudal ao 37 declarar que a indústria (a agricultura) como sua essência; mas comporta-se negativamente perante o mundo da indústria, reconhece o sistema feudal, ao declarar que a agricultura é a única indústria” (MARX, 1985, p. 5). Wood (2000), versando sobre as origens do capitalismo, numa tese polêmica, nega que o capitalismo tenha surgido nas cidades pela facilidade de comércio e troca e suas classes típicas (burguesia), que numa expansão espontânea do comércio, auxiliadas pela ética protestante, acabariam desenvolvendo o capitalismo. Esse desenvolvimento apresentar-se-ia como uma ligação natural entre cidade, capitalismo e comércio urbano. O capitalismo é a decorrência automática de práticas tão antigas como a troca e o escambo e conseqüência da natureza humana, de uma inclinação natural para o comércio. O homem nasceu para isso, numa concepção inatista e sem validade histórica, como se todos estivem destinados a serem mercadores desde a concepção. Negando tudo isso, a autora afirma que o capitalismo nasceu no campo e não na cidade, em local e tempo determinado na história humana e não foi uma simples extensão do comércio, mas transformou completamente as práticas e relações humanas mais fundamentais. Lembrando que sempre houve quem se apropriasse dos trabalhos dos outros e que o mercado era um mecanismo de intercâmbio e distribuição, mas que no capitalismo esses aspectos assumem um papel determinante de regulador da reprodução social através de imperativos da competição, acumulação e maximização dos lucros, pergunta-se: Dado que os produtores foram explorados pelos apropriadores através de meios não capitalistas durante milênios antes que o capitalismo surgisse, e dado que os mercados também existiram desde os tempos imemoriais praticamente em todos os lugares, como explicar o fato de que as relações produtores/apropriadores passaram a ser dependentes do mercado? (WOOD, 2000, p.15). 38 Para responder as dúvidas que levanta, a autora aposta numa combinação de fatores muito peculiares que existiram na Inglaterra no início da Idade Moderna. Concentração do Estado num poder centralizado, concentração da propriedade da terra, fraqueza de poderes extra-econômicos dos senhores de terras para extrair renda de seus arrendatários seriam alguns dos fatores que permitiram uma alteração nas relações produtores/exploradores da renda da terra, substituindo relações que se davam coercitivamente no meio feudal. Essa alteração caminhou num processo crescente de sujeição econômica, com a renda fixada pelas condições de mercado e não por algum padrão legal ou consuetudinário. Assim, os agricultores ficaram dependentes do mercado não apenas para venda de seus produtos, mas também o acesso aos meios de produção passou a ser mediado pelo mercado. Nessa nova relação, instalou-se um ambiente de competição que obrigava os arrendatários, médios e pequenos produtores a aumentar a produtividade de suas terras, sob pena de serem excluídos do sistema. Esse aumento de produtividade visando ao lucro era denominado de melhoramento. Por este entendia-se não apenas inovações tecnológicas e desenvolvimento de técnicas agrícolas, mas também novas formas e concepções de propriedade. Novas formas que eliminavam antigos costumes e práticas da concepção tradicional de propriedade. Apesar dos inúmeros conflitos, esses antigos direitos vão perdendo espaço para a propriedade melhorada e seus “enclosures”. A propriedade não era apenas privada, agora era privada e excludente, eliminando todas as restrições para a maximização dos lucros dos arrendatários capitalistas e dos senhores donos das terras. O melhoramento, e não mais o costume, estabelecia o direito sobre a propriedade. Wood (2000, p. 16) entende que nesse período a riqueza da Inglaterra dependia da produção agrícola. E esta passava por transformações que a tornavam cada vez mais 39 dependente de práticas que podiam ser consideradas capitalistas, como a maximização do valor de troca por meio da redução de custos e aumento da produtividade através da especialização, acumulação e inovação. E foi esse capitalismo agrário nascente - baseado numa tríade formada por proprietários das terras vivendo da renda destas, arrendatários capitalistas vivendo do lucro e trabalhadores vivendo de salários, que possibilitou uma elevada produtividade agrícola e criou as condições que impulsionaram uma nova dinâmica na economia inglesa. Dinâmica que se caracterizava por uma acentuada dependência do mercado, uma proletarização em massa e o desenvolvimento do capitalismo comercial industrial. Sem um setor agrícola produtivo que pudesse sustentar uma importante força de trabalho não agrícola, o primeiro capitalismo industrial do mundo provavelmente não teria aparecido. Sem o capitalismo agrário inglês, não teria havido uma massa de expropriados obrigados a vender sua força de trabalho por um salário. Sem essa força de trabalho não agrícola expropriada, não teria havido um mercado de massa para os bens de consumo diário - como alimentos e têxteis - que lideravam o processo de industrialização na Inglaterra. E sem a sua crescente riqueza, associada às novas motivações para a expansão colonial - motivações distintas das antigas formas de aquisição territorial – o imperialismo britânico teria sido algo muito diferente da máquina de capitalismo industrial que ele se tornou. E (este é sem dúvida o ponto mais controverso) sem o capitalismo inglês provavelmente não haveria nenhum capitalismo (WOODS, 2001, p. 20-1). Com a consolidação do modo de produção capitalista, a agricultura passa a ser vista de maneiras diversas pela economia. Corazza e Martinelli Jr. (2005) mostram que, na economia clássica, com o deslocamento da origem do excedente da terra para o trabalho, a agricultura perde a supremacia real, mas detém ainda a supremacia teórica e analítica. Assim, as condições de produção agrícola no encarecimento dos salários e na queda dos lucros agrícolas e industriais são centrais, de acordo com o economista Ricardo. Já, para Marx, a agricultura transforma-se em um simples ramo da indústria e é dominada completamente pelo capital, numa subordinação do setor agrícola ao setor industrial. Posteriormente, com a teoria econômica neoclássica, a agricultura deixa de ter supremacia, pois a análise econômica passa 40 a centrar-se nos fatores de produção: terra, capital e trabalho. Nessa teoria, o desenvolvimento econômico se dá pela industrialização e o setor agrícola (mais ineficiente e subordinado funcionalmente ao industrial) estaria destinado a cumprir algumas funções como: i) o fornecimento de alimentos em velocidade compatível à urbanização para não pressionar o salário de subsistência nas cidades; ii) a oferta em escala adequada de matérias-primas e insumos necessários para o parque industrial em expansão; iii) liberação de mão-de-obra para atividades não rurais; iv) a geração de divisas em volumes suficientes para bancar a importação de insumos e máquinas necessárias para a acumulação dinâmica do capital industrial. Para o cumprimento das funções macroeconômicas que são reservadas ao setor agrícola na sociedade industrial, um complexo sistema de expansão do capitalismo para o campo é desenvolvido. Romeiro (1998) define esse processo como modelo euro-americano de modernização da agricultura, que sintetizava como: [...] um sistema de produção que tornou viável a difusão em larga escala da prática da monocultura. Trata-se de um sistema de produção baseado na utilização intensiva de fertilizantes químicos combinados com sementes selecionadas de alta capacidade de resposta a esse tipo de fertilização, no uso de processos mecânicos de reestruturação e condicionamento de solos degradados pela monocultura e no emprego sistemático de controle químico de pragas (ROMEIRO, 1998, p. 69). O avanço científico da Revolução Industrial permitiu a eliminação de uma série de restrições técnicas para a exploração das culturas mais rentáveis, sob sistema de monocultura. Se antes era necessária uma maior diversidade de cultivos através da rotação de culturas para manutenção da fertilidade e da estrutura do solo, novos produtos como máquinas, fertilizantes químicos e agrotóxicos, variedades melhoradas com alta resposta aos fertilizantes permitiram que se cultivasse uma mesma espécie, durante um longo tempo, sem prejuízo de sua rentabilidade. Paralelamente ao avanço tecnológico, uma série de serviços estatais e 41 paraestatais entram em cena para justificar o modelo e torná-lo mais dinâmico e massivo. Surgem os centros de pesquisa agrícola e os serviços de Extensão Rural. O primeiro promovendo adaptação e geração de tecnologia e o segundo popularizando essas técnicas entre os agricultores e expandindo o modelo euro-americano pelo mundo, num fenômeno também conhecido como Revolução Verde. O modelo euro-americano, conforme Romeiro (1998), vendia – e ainda vende - a idéia de que suas práticas agrícolas são a única resposta técnica possível ou a mais eficiente para aumentar a produtividade do trabalho e o rendimento da terra, fazendo com que o setor agrícola cumpra o destino reservado para ele na sociedade industrial. Atualmente, através dos avanços na área da cibernética, da nanotecnologia e da biotecnologia são apresentadas ao mundo novas técnicas e novos produtos (frankfoods, entre outros) que prometem resolver problemas que o modelo apresenta (a bem da verdade, muitos foram causados por ele) e garantir a prosperidade agrícola num novo milênio. Mas nem todos concordam que esse é o único caminho possível. Ehlers (1999, p. 19-86), após uma análise das mudanças que permitiram o surgimento da agricultura moderna no mundo, identifica os precursores da reação ao modelo que então estava em fase de hegemonização no mundo. Caracterizando-os como “movimentos rebeldes”, agrupa-os em quatro grandes vertentes. Na Europa, surgem: a agricultura biodinâmica, iniciada por Rudolf Steiner em 1924; a agricultura orgânica, entre 1925 e 1930, fundada pelo inglês Sir Albert Howard e difundida por Jerome Irving Rodale na década de 40 nos EUA; e a agricultura biológica, inspirada nas idéias do suíço Hans Peter Müller e mais tarde difundida por Claude Aubert, na França. Uma outra vertente, a agricultura natural, surgiu no Japão, a partir de 1935, baseada nas idéias de Mokiti Okada. Para Paulus (1999), 42 esses modelos, “muito embora pouco expressivos estatisticamente, cumpriram – e ainda cumprem - um papel estratégico na consolidação de estilos alternativos de produção”. Realmente, derivadas dessas orientações, surgiram pelo mundo, umas mais ortodoxas, outras mais ecléticas, várias iniciativas que foram constituindo um campo determinado, que se denominou agricultura alternativa. No Brasil, a partir dos anos 1980, graças à conquista da liberdade de expressão e organização da sociedade - subtraída pela ditadura militar - e à crise do chamado milagre brasileiro, entidades ambientalistas, organizações não governamentais e sindicatos ou movimentos de agricultores e trabalhadores rurais e urbanos começam a questionar o futuro que lhes é reservado por esse modelo de desenvolvimento agrícola baseado na monocultura, no uso abusivo de insumos externos e com alto custo ambiental e social. As críticas ao modelo convencional são classificadas por Moreira (2000) em três grupos: a crítica da técnica, que questiona a relação do ser humano com a natureza, reelabora a teoria da renda da terra incorporando a biodiversidade, apresenta os problemas ambientais como a poluição dos recursos naturais, a perda de biodiversidade e a erosão dos solos, construindo o conceito de prudência ambiental; um outro grupo contém a crítica social, devido ao caráter conservador da Revolução Verde, ao desemprego, ao êxodo rural, à favelização dos trabalhadores rurais, à sobreexploração da força de trabalho rural, em síntese, uma crítica da natureza do capitalismo na formação social brasileira e do modelo concentrador e excludente dessa modernização da agricultura; por fim, a crítica econômica, pelos custos crescentes de produção e financiamento do sistema, surge uma nova concepção de agricultura que pudesse atender as necessidades daqueles setores que excluídos ou em fase de exclusão no atual modelo, mas que também contemplasse os apelos do consumidor que passa a exigir produtos mais saudáveis, “mais limpos”. 43 Apesar de o termo agricultura alternativa ser um conceito vago, foi utilizado também no Brasil. A origem do termo, apresentada por Jesus (1996), surge a partir da elaboração de um relatório do Ministério da Agricultura e da Pesca da Holanda em 1977, que agrupou todas as correntes não convencionais da agricultura sob essa denominação e, em 1984, o National Research Council dos EUA, publicou um documento com o título “Alternative Agriculture”, no qual eram descritos os métodos não convencionais de produção agrícola daquele país. Outra influência para a adoção do termo foi exercida pelo livro O negócio é ser pequeno, de E. F. Schumacher, que utilizava o conceito de tecnologia apropriada ou alternativa. Sob esse termo foram realizados quatro encontro nacionais - Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa -, organizados pela FAEAB (Federação das Associações de Engenheiros Agrônomos do Brasil) e FEAB (Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil), em Curitiba no ano de 1981, no Rio de Janeiro em 1984, em Cuiabá em 1987 e em Porto Alegre em 1989. No terceiro encontro nacional, Carvalho (1987, p. 21) já chamava a atenção que a expressão agricultura alternativa seria usada como categoria provisória, sem possibilidade de oferecer um debate mais profundo no campo conceitual, mas que no momento era operacional, pois agrupava vários questionamentos ao modelo vigente e também apontava para novas formas de se fazer agricultura. Weid (1997) lembra que muitas organizações não governamentais (ONGs) trazem inclusive incorporado ao nome esse termo, como, por exemplo, o CETAP- Centro de Tecnologias Alternativas Populares no Rio Grande do Sul ou a APTA - Associação de Programas em Tecnologias Alternativas do Espírito Santo. O movimento de agricultura alternativa começou a organizar-se em nível nacional através do Projeto Tecnologias Alternativas - PTA, vinculado a uma das mais antigas ONGs brasileiras, a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional - FASE. Esse 44 projeto ficou conhecido como Rede PTA e, mais tarde, desvinculou-se da FASE e transformou-se numa rede de ONGs estaduais articuladas pela AS-PTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa. O objetivo central do Projeto Tecnologias Alternativas era oferecer tecnologias que respondessem aos problemas de sustentabilidade ambiental e exclusão social da agricultura convencional. Com o aprofundamento dos estudos dessas tecnologias e do diálogo com experiências de outros países, ocorre uma mudança conceitual e a Agroecologia consolida-se como orientação teórica dominante desse movimento, que se tornou uma grande referência nacional e que busca defini-la como um campo científico, entendendo que: A Agroecologia tem sido reafirmada como uma ciência ou disciplina científica, ou seja, um campo de conhecimento de caráter multidisciplinar que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias que nos permitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas. Os agroecossistemas são considerados como unidades fundamentais para o estudo e o planejamento das intervenções humanas em prol do desenvolvimento rural sustentável (CAPORAL e COSTABEBER, 2002, p. 14). A influência exercida por esse movimento na busca de caminhos mais sustentáveis para o desenvolvimento, influenciando o modo de viver de milhares de pessoas no país e no mundo, não significa que esse seja o setor hegemônico da agricultura brasileira. A maior parte das terras cultivadas no país está nas mãos de setores identificados com uma visão de produção agrícola nos marcos capitalista. A rigor, todas as referências a esse tipo de exploração são feitas a partir da propagação da imagem de uma agricultura modernizada, de uso racional dos insumos, com uso controlado e adequado de agrotóxicos e do uso do solo em perfeita harmonia com o meio ambiente. Mas a face agressiva dessa forma de exploração, alicerçada no uso indiscriminado de agrotóxicos e insumos químicos, na mecanização agrícola baseada em combustíveis fósseis não renováveis, na degradação física, química e biológica dos solos, na poluição das águas e 45 no desflorestamento, quase nunca aparece, vendendo uma dupla ilusão. Para a sociedade urbana, a ilusão de que ela cumpre a função social de alimentá-la , e para os agricultores, de que é possível incluí-los sem degradar ainda mais a base material da vida e acelerar a crise do sistema capitalista. 46 3 A EXTENSÃO RURAL NO RIO GRANDE DO SUL 3.1 O espaço da pesquisa e a metodologia utilizada “De tanto fazer tudo parecer perfeito você pode ficar louco ou para todos os efeitos suspeito de ser verbo sem sujeito” (P. Leminski) Para um trabalhador da Extensão Rural, a grande dificuldade em adotar uma metodologia para estudá-la é obter o distanciamento necessário, tanto na coleta, como na análise dos dados. Segui pelo caminho mais fácil, pouco preocupado com o distanciamento. Assim, ao utilizar uma série de materiais bibliográficos, documentais e de entrevistas com alguns colegas, as observações estarão sempre embebidas de minha experiência como Extensionista Rural. Penso que os afastamentos que tive da atividade diária da Extensão Rural e da empresa EMATER/RS-ASCAR, durante dois períodos de licença, oportunizaram condições de ouvir e conviver com outros segmentos, o que leva a “julgamentos” um pouco acima da “corporação”. Esse fato, que talvez amenize preocupações (e culpas), também acaba reforçando a condição de pertencimento a um determinado grupo. Logo, os apaixonados pela neutralidade e objetividade do método julgarão que este não é um trabalho muito objetivo. Fazer o quê? Estamos “sujeitos” a isso. Para ouvir os envolvidos diretamente com o tema da dissertação,, realizei uma pesquisa de campo na região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. A pesquisa foi feita apenas com os Extensionistas Rurais da EMATER/RS-ASCAR pois inicialmente o projeto de 47 pesquisa era orientado para avaliar aspectos da formação profissional dos mesmos e as diferenças que poderiam ou não existir entre profissionais que viveram períodos mais intensos de transferência de tecnologia como o Projetão e aqueles que tiveram o contato com a crítica da modernização da agricultura brasileira ainda na educação formal ( colégios agrícolas e universidades) ou atrvés da formação inicial oferecida pela empresa.Tendo a pesquisa esse objetivo, não foram entrevistados os diferentes públicos que a Extensão Rural trabalha na região.Entretanto, no momento da qualificação da dissertação, graças a contribuição da banca examinadora, o trabalho assume um aspecto mais amplo sobre a atividade extensionista e essa lacuna passa a existir na nossa metodologia. . A Região Celeiro do Estado do Rio Grande do Sul está localizada na parte Noroeste do Estado. É composta por vinte e um municípios: Barra do Guarita, Bom Progresso, Braga, Chiapetta, Campo Novo, Coronel Bicaco, Crissiumal, Derrubadas, Humaitá, Inhacorá, Miraguaí, Redentora, Santo Augusto, São Martinho, São Valério, Sede Nova, Tenente Portela, Tiradentes do Sul, Três Passos, Vista Gaúcha e Esperança do Sul e se caracteriza por uma participação expressiva da agricultura na economia, com um predomínio de médias e pequenas propriedades agrícolas, resultado de um processo de ocupação do espaço conhecido como colonização tardia5. Esta é a migração interna de filhos ou famílias de imigrantes das primeiras colônias (assentamentos humanos efetivados com imigrantes vindos da Europa) do Estado do Rio Grande do Sul que se situavam na região da Serra, Centro e Vale do Sinos e Paranhana A população residente é de 149.590 habitantes, sendo 76.387 habitantes (51,06%) na área urbana e 73.204 habitantes (48,94%) na área rural, de acordo com o Censo 2000 do 5 Para uma análise desse processo de ocupação do Rio Grande do Sul ver Sandra Jatahy Pesavento. História do Rio Grande do Sul, 6ª ed. Porto Alegre:Mercado Aberto,1992. 48 IBGE. No meio rural, cerca de 40% da população é constituída por homens adultos, 38% de mulheres adultas e 22 % de jovens. No período de 1991 a 2000, a região apresentou uma taxa média anual de crescimento demográfico negativa de –1,09%, indicando a perda de população para outras regiões, principalmente jovens do meio rural. Apenas três municípios - Bom Progresso (+0,05), Chiapeta (+0,24) e Inhacorá (+0,14) - apresentaram índices positivos, mas mesmo assim bastante inferiores à média estadual, que é de +1,21% ao ano. Esse comportamento negativo da taxa de crescimento deve-se ao fato de ser uma região fornecedora de mão-de-obra para as regiões industriais ou de abertura de fronteira agrícola do país. A estrutura fundiária da Região Celeiro evidencia a predominância da pequena propriedade. Segundo o Censo Agropecuário de 1996 do IBGE, são 24.742 estabelecimentos rurais, sendo que 11.425 têm até 10 hectares, representando 46% do total de estabelecimentos. Entre 10 e 20 hectares o número é de 8.090 estabelecimentos rurais, 33% do total. Acima de 20 e inferior a 50 hectares são 3.969 estabelecimentos, representando 16% do total, e acima de 50 hectares são apenas 5%, abrangendo 1.258 estabelecimentos. Na região, encontram-se também cerca de 50% da população indígena do estado, nas reservas da Guarita e Inhacorá (apesar do nome, essa TI fica localizada no município de São Valério do Sul). Existem 520 pessoas assentadas do Programa Nacional de Reforma Agrária nos municípios de Coronel Bicaco e Chiapeta. Essa referência é importante porque esses são segmentos considerados atualmente como “públicos especiais” pela Extensão Rural. No aspecto econômico, a região destaca-se como produtora de matéria-prima agropecuária (para a transformação em outras regiões do estado) e pelo baixo valor agregado 49 oriundo dessa produção. A principal atividade agrícola da região é a produção de grãos, especialmente a cultura da soja, com cerca de 250.000 hectares; trigo com 80.000 hectares; e milho com 50.000 hectares,. A produção animal mais relevante é a produção leiteira, que é uma atividade econômica importante para 8.876 famílias dos municípios, sendo que 6.830 famílias produzem até 50 litros de leite por dia, 2.031 entre 50 e 100 litros diários e apenas 1.142 que possuem uma produção que supera 100 litros por dia. Outras atividades produtivas desenvolvidas na região são a fruticultura, produção de suínos e hortigranjeiros. Recentemente, com ações e programas públicos voltados à agregação de valor para a produção primária - como o Programa de Agroindústria Familiar e o Pronaf Agroindústria - e pela preferência manifestada dos consumidores da região por produtos industrializados de origem colonial, houve uma expansão da atividade agroindustrial em pequenos empreendimentos familiares ou pequenas cooperativas. Além da produção, grande parte da renda dos agricultores provém dos benefícios previdenciários, graças a condição de segurado especial da previdência que o agricultor familiar possui.Em alguns municípios esses valores superam o valor bruto da produção primária ou o retorno financeiro do FPM (Fundo de Participação dos Municípios). Todos os municípios possuem um Sindicato de Trabalhadores Rurais. Existem Sindicatos Filiados à FETAG/RS (Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) e à FETRAF – Sul (Federação de Sindicatos de Agricultores Familiares). Também existe na maior parte dos municípios organização de grupos de agricultores ligados ao MPA6 (Movimento dos Pequenos Agricultores), sendo que esse movimento foi objeto de estudo de uma dissertação neste curso de mestrado em Educação nas Ciências. 6 Sobre o MPA ver a dissertação de Célio Valdemar Cadona.. Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA-o novo nasce das estradas. Mestrado Educação nas Ciências, Unijui:2004. 50 Os entrevistados foram selecionados dentro das categorias mais numerosas de trabalhadores da Extensão Rural que atuam na região Celeiro, pertencentes à região administrativa da EMATER/RS-ASCAR de Ijuí. Essas categorias são técnicos agrícolas, extensionistas de bem estar social e engenheiros agrônomos. A região administrativa de Ijuí é composta por quarenta e sete escritórios municipais, três escritórios de classificação vegetal, um centro de treinamento em Bom Progresso e um escritório regional de apoio situado em Ijuí. Possui em seu corpo funcional cinqüenta e dois técnicos agrícolas, vinte e seis engenheiros agrônomos, dois médicos veterinários, quarenta técnicos de bem estar social e trinta e seis funcionários em setores de apoio (assistentes administrativos, auxiliares de limpeza, informática e outros). A escolha dos entrevistados deu-se pelo período de admissão na empresa. Foram selecionados dois períodos emblemáticos: o Projetão em 1980 e o período de 1999 a 2002. As razões da escolha desses períodos são: a orientação recebida durante a fase de ingresso na empresa, num processo de formação denominado de pré-serviço no período de 1980 e capacitação inicial a partir do ano de 1997. No primeiro caso, o Projetão significou a expansão do sistema de Extensão Rural pelo Estado e a afirmação da orientação difusionista que se tornava hegemônica nessa época, graças às orientações estabelecidas para o Banco Mundial para projetos de desenvolvimento rural em países pobres. Já no segundo período escolhido, que foi de 1999 a 2002, a capacitação inicial deu-se sob bases de uma política de formação de recursos humanos diferenciada do pré-serviço do Projetão. Essa política estava orientada para o campo conceitual denominado de Agroecologia, com forte presença dos estudos e diagnósticos participativos e o enfoque nas cadeias de produção e nos sistemas de produção na propriedade. 51 A partir desse critério, escolhi dois entrevistados em cada categoria profissional, um em cada período de admissão escolhido. A seleção dentro dos períodos foi feita pela data de admissão: os mais antigos, no caso do período do Projetão; e os mais recentes, no caso do outro período. As entrevistas semi-estruturadas, com ênfase no papel que identificam para a Extensão Rural na atualidade e no trabalho que realizam, foram feitas entre outubro de 2005 e janeiro de 2006. Todas foram realizadas no local de trabalho, com autorização da direção da empresa e dos empregados entrevistados e foram gravadas para registro e consultas posteriores. As referências que posteriormente serão feitas, baseadas nas falas e contribuições desses Extensionistas, estarão identificadas pelo termo Extensionista e um número correspondente à ordem das entrevistas realizadas. 3.2 Origens e institucionalização dos serviços da EMATER/RS-ASCAR As atividades de troca de experiências e informações sobre agricultura são antigas. Fazem parte do processo de domesticação da natureza e remontam ao início da civilização humana. Já a Extensão Rural, da forma como a conhecemos hoje, não pode ser definida como um sistema de troca de informações que se assemelha a uma prática milenar dos povos agrícolas, a exemplo de serviços de informações que existiam na Mesopotâmia e nas dinastias chinesas7. O sentido da Extensão Rural é radicalmente novo no capitalismo. Conceituar a Extensão Rural (algo que não é fácil) e apresentar um pouco os principais momentos de sua constituição no Brasil é o objetivo deste capítulo. Para tanto, utilizo o exemplo da Associação Sulina de Crédito Rural – EMATER/RS-ASCAR / 7 Ver Gonçalo Duro dos Santos. Os camponeses e o imperador:reflexões etnográficas sobre orizicultura intensiva e estratificação social no Sudeste da China rural. Disponível no sítio www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/etn/v10n1/v10n1a02.pdf 52 Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural EMATER-RS, para substanciar essa história. Entendo que é perfeitamente possível estabelecer a partir da história desta instituição o marco de constituição dessa prática, apresentando as principais orientações teóricas que a substanciavam e os objetivos a que se propunha. Fonseca (1985), em seu livro A Extensão Rural no Brasil: um projeto para o capital, assim apresenta a idéia sobre Extensão Rural: a) sistema especial de educação rural que atinge adultos e jovens através de metodologia adequada e da ação de líderes em grupos e comunidades, visando à adoção de novas práticas agropecuárias e domésticas; b) sistema educativo e informal que busca obter mudanças de atitude, procura aperfeiçoar as aptidões e melhorar as condições de vida da população rural, através da tecnificação do trabalho agrícola e fomento da organização comunitária; c) modalidade informal e democrática de educação de adultos e jovens que visa levar ao agricultor e a sua família os conhecimentos necessários à solução dos problemas que impedem a elevação de seus níveis de vida; d) processo educacional que visa induzir o povo (considerando povo, indivíduo e instituições) a interpretar e responder, de maneira apropriada, às mensagens de mudanças para a promoção do desenvolvimento sócio-econômico do meio rural através da integração das forças vivas da comunidade (FONSECA, 1985, p.50). Essa idéia de explorar “as forças vivas da comunidade8” tinha sido, anteriormente, divulgada no Brasil pelo movimento do ruralismo pedagógico, que defendia a concepção de uma escola integrada às condições locais e orientou vários programas setoriais do Ministério da Agricultura, como as colônias agrícolas, a aldeia rural, a Campanha de Educação de Adultos e suas Missões Rurais de Educação de Adultos (CALAZANS, 2006). Todo esse movimento permitiu a consolidação dessa idéia de desenvolvimento local que serviu ao início da implantação do modelo americano de Extensão Rural no Brasil. Somente seriam alteradas 8 O conceito de comunidade é controverso na sociologia, quase sempre utilizada no sentido de oposição a sociedade. No sentido usado, pode ser “ caracterizada pela simplicidade, pela fraca divisão do trabalho,por um pensamento não científico, “mágico”, por uma extensão limitada, por relações cara a cara, por ordens e castas,por dominação do sagrado” Dubet, François. Sociologia da experiência. Lisboa:Instituto Piaget,1996. 53 as unidades de intervenção. O que era a escola para o ruralismo pedagógico, passa a ser a comunidade rural para a Extensão Rural. Já o início institucional da Extensão Rural no Brasil é explicado por Martins (2001) a partir daquilo que ela denomina de “espírito esaviano”, numa referência à Escola Superior de Agronomia e Veterinária de Viçosa, que tinha uma proposta pedagógica alicerçada no Land Grand Colleges dos Estados Unidos. Foi em Viçosa que se iniciou a formação de profissionais cuja missão seria transformar a sociedade rural tradicional por meio do progresso técnico advindo dos avanços da ciência. A ESAV foi o lócus privilegiado do pragmatismo e experimentalismo pedagógico que originou as primeiras iniciativas de Extensão Rural no Brasil. Apesar de o Estado de Minas Gerais protagonizar o estabelecimento da Extensão Rural, foi no município paulista de Santa Rita do Passa Quatro, no ano de 1948, a primeira experiência de Extensão Rural nos moldes que a conhecemos hoje. Essa ação buscou responder ao problema de falta de forragem para o gado leiteiro através do uso de silos trincheiras num trabalho realizado em parceria com produtores, empresas locais, Prefeitura Municipal, Governo Estadual e o assessoramento da Associação Internacional Americana (AIA) (FONSECA, 1985). Dessa experiência, iniciou-se o processo de institucionalização da Extensão Rural no Brasil, juntando a “grande disposição” da AIA com o espírito esaviano, o governo de Minas Gerais assina um convênio em 06 de dezembro de 1948 criando a Associação de Crédito e Assistência Rural - ACAR. Esse pode ser identificado como o nascimento da Extensão Rural no Brasil. Mas esse “bebê” já nasce com um destino traçado: crescer à semelhança do modelo 54 americano de Extensão Rural e promover o modelo euro-americano de modernização da agricultura no campo brasileiro. Se a institucionalização e expansão dos serviços de Extensão Rural no “terceiro mundo” constituíram uma das estratégias para a difusão do modelo euro-americano de modernização agrícola, Padilha (apud CAPORAL, 1991) identifica os grandes patrocinadores dessa experiência em três grupos: i) o governo americano e suas instituições (IIAA - Instituto Interamericano para Assuntos da América e o ETA - Escritório Técnico Brasil-EUA; ii) as associações ou entidades filantrópicas (Fundações Ford e Rockfeller) e iii) os organismos internacionais (OEA, BID, IICA, FAO, BIRD). Cada qual com seu respectivo “modus operandi”, esses patrocinadores conseguiram em pouco tempo criar as condições materiais e o contexto político para a implementação do modelo americano de Extensão Rural agrícola no Brasil. A primeira fase da Extensão Rural no Brasil deu-se pelo denominado modelo clássico, em que a extensão é o elo entre as estações de pesquisa experimentais, geralmente entidades universitárias, e as populações rurais, com a tarefa de estender os conhecimentos ao povo rural e levar os problemas do povo às fontes de pesquisa. Esse modelo caracterizou-se pelo “exagerado entusiasmo fundado na idéia de que era necessário informar e persuadir os agricultores a adotarem melhores práticas” (FONSECA, 1985, p. 41) numa direção que pretendia ser de mão dupla, levando o conhecimento para o povo e retornando com os problemas deste para a pesquisa. Esta, por sua vez, através do conhecimento científico, poderia encontrar soluções para tais problemas. 55 Esse modelo funcionava nos Estados Unidos da América, com sua criação desde a guerra da sucessão e institucionalizado em 1914, onde servia ao propósito de divulgação de técnicas modernas para os agricultores. Naquele país, esse sistema funcionou porque a agricultura tinha na busca da lucratividade seu aspecto principal, característica pouco comum na agricultura européia. Ao explicar a colonização do “Novo Mundo”, um estudioso do desenvolvimento agrícola mundial concluiu que: para esses imigrantes, a agricultura na América era menos um modo de vida do que um meio de fazer dinheiro. Eles vinham dispostos a abandonar, como o fizeram as relações entre homem e terra, marcadas por um profundo respeito, típicos da tradição camponesa européia. A característica maior da agricultura americana, [...] era seu caráter altamente especulativo (ROMEIRO, 1998, p. 72). O mesmo autor explica que as Estações Experimentais Regionais nasceram fruto de um vasto movimento de propaganda e agitação de fazendeiros e jornalistas militantes que defendiam a criação dessas unidades como fazendas-modelos, realizando experimentos que os agricultores não tinham condições de fazer e gerando novas técnicas de produção, mas sempre com a preocupação e o intento de aumentar a rentabilidade. A pesquisa e a Extensão Rural serviam a esse propósito e surgiram pela pressão dos agricultores. Nessa realidade, onde os agricultores operavam numa racionalidade capitalista, exploravam suas terras sob condições de monocultivo e degradação que exigiam respostas constantes, além de reconhecer as vantagens da tecnologia na busca de maior produtividade, a divulgação e geração de novas tecnologias era um processo legitimado, necessário e até exigido pelos agricultores. No Brasil, o processo de implantação da Extensão Rural não se deu pelo desejo dos agricultores, que eram bem diferentes do “farmer americano”, pois eles eram vistos da seguinte maneira: 56 O homem rural, de índole retraída e desconfiado, isolado em seu ambiente pela falta de meios de comunicação e de interesses comunitários, tem vivido à margem do progresso agrícola [...] A família vive em habitação precaríssima, sem condições mínimas de conforto, completamente desprovida de atrativos. Na sua maioria o homem rural é portador de males e doenças, notadamente a verminose, que reduzem grandemente sua capacidade de produção (ACAR-MG Relatório 1954/1955 apud FONSECA, 1985, p. 92). Mudar a população rural através do progresso técnico. Essa era a solução que a Extensão Rural propunha para melhorar as precárias condições em que viviam as famílias. O desconhecimento dos avanços científicos era o único fator que causava essa situação. Outros fatores estruturais do campo brasileiro, como a concentração fundiária e ausência de políticas específicas para os camponeses, sequer apareciam no discurso. A situação que era descrita pela ACAR-MG assemelhava ao retrato pitoresco que Monteiro Lobato traçou do cabloco brasileiro em 1918 em seu Urupês, quando criou a célebre figura do Jeca Tatu. Ainda sobre a forma que a realidade da população era apresentada nos programas educacionais do período, sempre como um complexo de carências, de referências negativas, Calazans et alli (1981, p. 171) aponta para um paradoxo na lógica que os estruturavam. A “impressão de carência total” é sempre produzida pela constatação de uma carência econômica. A carência econômica que determina a carência de saúde, nutricional, de contatos externos etc., enfim “[...] uma determinação do econômico sobre todas as instâncias socioculturais”. Mas a esse diagnóstico, recomenda-se um remédio que não passa por uma ação sobre o campo determinante, no caso, o econômico. Por mais incrível que pareça, as soluções apontadas, “[...] as receitas para curar o corpo social enfermo, confere-se a educação um papel redentor. Esta será na estratégia de reabilitação do homem no campo, um reversor de tendências, um determinante de transformações profundas e definitivas” Calazans et alli (1981, p. 171). 57 Indo além, os autores em questão avaliam que através dessa receita caberia ao educador articular a população para “torná-la forte e dotá-la de uma substância”. A rigor, dessa maneira, a realidade da população não apenas é negativa. Ela passa a ser ausente. Um vazio frente a essa substância que inexiste. E tudo fica a cargo do educador e sua tarefa fantástica. “Pleno, o mobilizador se incumbe de preencher esse vácuo [...] Se uma sociedade é diferente da minha, assim o é, porque é vazia de minha própria sociedade” (CALAZANS et alli, 1981, p. 172). Mas a forma clássica de fazer Extensão Rural, apesar da crença dos especialistas que esse era um remédio efetivo para o combate à pobreza, não foi eficiente com o público brasileiro. A primeira avaliação do sistema da ACAR-MG, em 1952, feita por uma equipe de técnicos americanos, “deixou todos perplexos, pois o Serviço de Extensão não tinha tido resultados satisfatórios como se esperava. [...] Foi feito um novo planejamento, mas com a idéia de educar o agricultor e sua família e utilizar o crédito como ferramenta de educação” (MOITTA, 1970, apud FONSECA, 1985, p. 85). Então, após a constatação de que o modelo americano clássico não servia, começa a ser gestado um novo modelo para a Extensão Rural, mais “apropriado aos países subdesenvolvidos”, com a Extensão Rural assumindo um papel mais educativo. Fonseca (1985) explica que a adequação do modelo clássico de Extensão Rural ao mundo subdesenvolvido foi elaborada por Everett M. Rogers. Essa adaptação gerou um modelo de intervenção que ficou conhecido como difusionista-inovador, baseado nas teorias difusionistas dos antropólogos ingleses e na teoria dos sistemas sociais de Talcott Parsons. Esse modelo de intervenção acreditava que o processo de criação, difusão e adoção de novas idéias poderia causar mudanças estruturais no sistema social, promovendo desenvolvimento 58 (modernização ao nível do sistema) e modernização (modificação de um estilo tradicional de viver, aumentando sua complexidade e inclinando-se para os avanços da tecnologia e das mudanças rápidas). A principal contribuição trazida por Rogers é o conceito de “capacidade individual para inovar”, que seria: [...] um processo mental por onde passa o indivíduo desde a primeira notícia de inovação até decidir adota-la ou rejeita-la, e confirmar depois de sua resolução. Temos conceituado quatro funções dentro desse processo: 1) conhecer, 2) persuadir, 3) decidir e 4) confirmar. A adoção consiste em decidir usar plenamente a idéia nova, como a melhor opção para atuar (ROGERS, 1974 apud FONSECA, 1985, p. 44) [grifos meus]. Essa fase difusionista inovadora da Extensão Rural buscava muito mais que a simples oferta de técnicas para o homem rural. Diferente da forma clássica, seus objetivos iam além da divulgação científica e da apresentação do mundo moderno aos cablocos. Sua preocupação estava centrada na adoção efetiva de inovações, numa mudança cujo [...] problema consiste em mudar normas de comportamento tradicional, a fim de se conseguir um conduta nova mais conforme às exigências do progresso social técnico [...] o Extensionista se dará conta de que não poderá fazer com que aceitem e adotem - dois termos que não são sinônimos- a inovação inscrita em seu programa a não ser `a medida que ele possa modificar o que as pessoas sabem, pensam, crêem, sentem e fazem de uma maneira tradicional. Em outras palavras, torna-se necessário uma ação sobre o plano psicológico (CLERCK, 1969, p. 99, apud FONSECA, 1985, p. 51). No Rio Grande do Sul, a primeira tentativa de fundar uma instituição extensionista nesses moldes ocorreu em setembro de 1951, numa reunião da qual [...] participaram as maiores autoridades civis e eclesiásticas do Estado, inclusive o governador, e, não por coincidência, estavam preentes os senhores Robert W. Huggens e Henry Wight Bragley, diretores da American International Association (AIA) do Grupo Rockfeller, o Sr. Vice-Cônsul dos Estados Unidos da América e ainda Mr. Wlater L. Crawford, assistente técnico da ACAR-MG (CAPORAL, 1991, p.49). O mesmo autor explica que, apesar de a criação da ACAR ter sido aprovada nessa reunião, ela não foi implementada, postergando o início dos serviços até a criação da 59 Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural – EMATER/RS-ASCAR, em 1955. Esse início das atividades extensionistas no Rio Grande do Sul deu-se a partir de uma concepção de Extensão Rural que é definida por diversos autores como a forma clássica: Extensão Rural como orientação e assistência técnica ao agricultor e sua família, articulada ao crédito supervisionado, constitui a chave do sistema que a ACAR emprega para elevar o padrão de vida do pequeno e médio agricultor. Há que ressaltar, antes de mais nada, o caráter integral da extensão da ACAR.Visa esta organização a assistir o homem do campo e sua família na solução de seus problemas nos mais diversos setores, abrangendo o lar, a propriedade e a comunidade. Os métodos de extensão adotados pela ACAR são simples e práticos. Na divulgação de conhecimentos têm larga aplicação os “auxílios audiovisuais”, isto é, flanelógrafos, cartazes, folhetos, programas de rádio, artigos em jornais, projeção de filmes e fotografias. Estes recursos didáticos são essenciais dado o baixo nível cultural o nosso homem do campo (ACAR-MG, 1959, apud FONSECA, 1985, p. 84) [grifos meus]. Essa fórmula não trazia apenas a preocupação com o aumento da produtividade, mas também com outros aspectos das propriedades rurais, principalmente com a administração do lar. Essa preocupação era derivada do enfoque norte-americano de Farm Home Administration e Farm Land Administration. O Brasil desse período apresentava elevados índices de desnutrição, verminose, ausência de saneamento básico, em especial nas zonas rurais, o que transformava essas questões - no período, entendidas como domésticas - numa necessidade de intervenção e promoção de uma mudança cultural dos nossos Jecas Tatus. Uma análise do programa de atividades de 1957/1958 do projeto ETA 11 - ASCAR revela diversas indicações sobre essa forma clássica de “fazer” a Extensão Rural, mesmo que nesse período já se inicie o trabalho com o modelo difusionista inovador. A primeira frase do plano apresenta um conceito de Extensão Rural como “fundamentalmente um programa de bem estar do homem do campo”. Para atingir esse bem estar, inicia-se o trabalho de planejamento que deveria ser de fato um trabalho conforme as tradições e características da Extensão Rural, com o diagnóstico desta, a fim de que se avaliasse o material disponível a um 60 início de ação. Esse diagnóstico era realizado em reuniões, visitas, entrevistas e pesquisas estatísticas, num processo de seleção de problemas, sendo que: [...] o povo participou ativamente da seleção dos mesmos, levando em conta principalmente aqueles que iam de encontro as suas necessidades mais preementes. Inclui-se também problemas não sentidos por ele, mas que a situação existente mostrava aos técnicos, a necessidade de solução. Desta maneira os problemas selecionados determinaram os objetivos possibilitando o planejamento para uma possível solução (Programa de Atividades de 1957/1958 / projeto ETA 11 – EMATER/RS).( grifos meus) Ainda no que tange ao povo, num item intitulado “O conhecimento dos Agricultores e suas Reações”, podem ser colhidos mais subsídios sobre a forma como a Extensão Rural via o trabalho com o seu público. Salientando que os “agricultores como primeiras vítimas de seus erros [...] estão despertando para a agricultura mais racional”, enfatizam que “os Extensionistas muito têm feito para divulgação de preceitos básicos e que seria a solução dos problemas dos agricultores” (EMATER/RS, 1957). Também é possível encontrar nesse material aqueles elementos que Fonseca (1988) encontrou ao analisar a influência do E.T.A.- Escritório Técnico Brasil-EUA - na formulação do discurso extensionista. Considerando que os objetivos que eram apresentados - “aumento da produção e da produtividade agrícola e elevação dos níveis de vida da população rural” não eram suficientes para caracterizar a ação extensionista, já que objetivos podem concretizar-se sob as mais diversas formas, a autora levantou os pontos-chave do conteúdo da atividade extensionista para melhor definir o discurso extensionista. E os pontos principais do conteúdo seriam: i) a experimentação empírica; ii) a valorização do tipo de trabalho exercido pelo técnico extensionista; iii) o caráter educativo do trabalho e iv) a crença em alternativas comunitárias de auto-ajuda. 61 Como esse programa era resultado da cooperação do Escritório Técnico Brasil-EUAETA, fica confirmado que a estratégia de implantação do sistema de Extensão Rural oficial levado a cabo pelo conjunto de instituições americanas conseguiu criar, além das condições institucionais, a consolidação de um discurso extensionista difusionista inovador necessário para a difusão do padrão euro-americano de modernização agrícola. Caporal (1991) salienta que para garantir a uniformização de seus princípios doutrinários e o desenvolvimento da Extensão Rural no Brasil, especialistas em treinamento (grande parte dos quadros funcionais do AIA e ETA) estabeleceram um currículo mínimo para o treinamento inicial dos Extensionistas. Currículo que era composto de noções de Extensão Rural, Administração Rural e do Lar, Higiene Rural, Relações Públicas e Associativismo Rural, distribuídos num curso intensivo de oito semanas de duração, realizado nos centros de treinamento criados para esse fim. Essa fase da Extensão Rural tinha por objetivo atingir os pequenos e médios produtores, ajudando a fixar o homem no campo. Entretanto, o processo de modernização da agricultura brasileira acabou causando um enorme êxodo rural, expulsando milhares de famílias para os meios urbanos e forçando aqueles que permaneceram no campo a integrar-se aos complexos agroindustriais ou situar-se à margem do sistema. Não mais havia sentido para uma Extensão Rural com foco no desenvolvimento de comunidades e na família rural. A Extensão Rural passa a orientar-se estritamente pela produção voltada ao mercado, aumentando a geração de divisas com a exportação e ampliando o mercado para máquinas e insumos pela agricultura. Rodrigues (1994) explica que essa ação extensionista estava determinada pelas diretrizes do I Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico (1972-1974), numa tendência 62 à seletividade para as ações produtivistas na agricultura com metas setoriais de intensificação do uso de insumos modernos, de mecanização agrícola, de desenvolvimento da indústria nacional de adubos, corretivos e “defensivos agrícolas”, da geração e adaptação de conhecimentos através da pesquisa agropecuária para alteração da base técnica e da articulação de um sistema nacional de crédito agrícola que financiasse essa alteração aos agricultores.. Para melhorar a ação governamental na área, é criada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA e, mais tarde, a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMBRATER, num esforço que, segundo Caporal (1991), fica muito claro ao se ler a Exposição de motivos n° 08/74, dos Ministros da Agricultura e Chefe da Secretaria do Planejamento, enviada ao Congresso pelo presidente Ernesto Geisel em 06/1974. A concretização de um plano de desenvolvimento agrícola depende, basicamente, da conjugação de esforços para aumentar os níveis de produção e produtividade da nossa agricultura que, como se sabe, são ainda muito baixos. A conjugação ordenada da pesquisa, do crédito e da assistência técnica torna-se essencial aos esforços do governo para acelerar o processo de desenvolvimento do setor agropecuário, através da incorporação maciça de tecnologia e da melhoria da produtividade da mão-deobra no campo (EMBRATER, 1975, apud CAPORAL, 1991, p.45). Uma boa amostra do que seria essa terceira fase da Extensão Rural pode ser vista no objetivo geral do programa da EMATER-RS (criada em 1977) para o ano de 1979, que era “a transferência de tecnologia agropecuária e gerencial aos produtores rurais, para elevar a produtividade dos fatores empregados na formação e comercialização da produção agrícola.” (EMATER/RS, 1979, p. 20). O público beneficiário passa a ser dividido em dois grupos: a) produtores de média e alta renda e b) produtores de baixa renda. Os primeiros deveriam ser selecionados para o trabalho a partir dos seguintes critérios “a) produtores de melhores condições para integração nos mercados de insumos e serviços agrícolas, b) produtores 63 suscetíveis e motivados à adoção de inovações tecnológicas e gerenciais e c) produtores com maior independência no uso da terra, do capital e da mão-de-obra” (EMATER/RS, 1979, p. 22). Já os produtores de baixa renda teriam sua seleção baseada nas seguintes condições “a) produtores em concentração espacial favorável e que tenham condições de serem preparados para gozar os benefícios do associativismo e das instituições comunitárias, b) produtores com potencialidades para serem incorporados à economia de mercado, pelo aumento da produção agropecuária e da renda familiar” (EMATER/RS, 1979, p. 23). O planejamento também era efetuado por projetos, cuja programação tinha por finalidade desencadear ações em dois eixos principais. Um deles era o processo de transferência de tecnologia agropecuária para a elevação dos níveis de produção e produtividade, o outro buscaria dotar os produtores (termo característico e bem apropriado para o período) de instrumentos de controle e acompanhamento de custos, de tecnologia gerencial para sistematizar a administração da propriedade. Essa fase ficou conhecida como transferência de tecnologias. De modo geral, operava-se ainda pela difusão de inovações, porém, agora, estas se concentravam por um determinado produto agrícola, seja uma cultura como milho ou soja, seja uma atividade de criação animal como pecuária de corte ou ovinocultura. É o processo de especialização e compartimentalização do conhecimento através do método cartesiano de decompor em partes, característico da modernidade, que passa a ser adotado na atividade agrícola. Outra característica foi a padronização e a amplitude de recomendações técnicas através dos famosos pacotes tecnológicos. Os pacotes, como procedimentos genéricos de recomendação técnica, não se tornaram comuns devido a um maior conhecimento fisiológico 64 e fenológico dos vegetais, da composição química dos solos, da climatologia agrícola e em outras áreas da agronomia. Um maior conhecimento universal da atividade agrícola permite generalizar procedimentos que sejam mais eficazes do que ineficazes. Não era na ampliação do conhecimento da realidade agrícola que os pacotes se sustentavam. A adoção das técnicas preconizadas nos pacotes só era possível graças a subsídios governamentais nos insumos e na formação dos preços agrícolas através da política de garantia de preços mínimos, o que garantia a remuneração do produtor. Era uma política que se dizia voltada para a produção de mercado, mas que foi implantada e sustentada em grande parte pelas políticas públicas existentes e pelo apoio benevolente do Tesouro Nacional. Uma demonstração da especialização da ação extensionista no rumo de uma intervenção restrita ao campo produtivo pode ser vista no objetivo geral do Plano Estadual de Assistência Técnica e Extensão Rural -1980/81, que buscava “aumentar, significativamente, o volume, a produção e os índices de produtividade da agricultura gaúcha, através da transferência de tecnologia agropecuária e gerencial” (EMATER/RS, 1982, p. 02). Se esse era o objetivo do plano, a maneira escolhida para efetivá-lo foi bastante original. Seguiu a tradição que a Extensão Rural já tinha. Importou-se um modelo já implementado por um organismo internacional. Essa receita nova era o modelo de capacitação e visita do Banco Mundial, modelo teórico que fundamentou o conhecido Projetão da EMATER/RS, quando a empresa ampliou sua área de atuação de 157 para 185 municípios9 , o número de produtores atendidos ampliou de 117.957 para 252.446 e o número de técnicos de execução aumentou de 1.276 para 1.957. 9 Importante lembrar que até 1981 o número de municípios gaúchos era de 232 e não os 496 municípios de hoje. 65 A ampliação no número de municípios e dos agricultores atendidos explica-se quando se observa que, frente o cenário de crise da economia mundial, o Governo Brasileiro estabeleceu no seu III Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico que a agricultura seria um setor eficaz para resolver alguns problemas nacionais como: i) minimizar a crise energética através da produção de biomassa como fonte de energia renovável (Proálcool); ii) amenizar o problema de balanço de pagamentos via incremento das exportações de produtos primários e, por fim, aquela que seria a principal razão de atender os pequenos agricultores, iii) instrumentos de contenção da pressão inflacionária através do aumento da oferta de alimentos básicos no mercado interno (RODRIGUES, 1994). Se a recessão econômica impedia a modernização da base técnica, tanto no ritmo em que vinha acontecendo como nos locais (grandes e médias propriedades rurais) onde acontecia, seriam buscados novos espaços e agricultores para serem modernizados. Política que ainda serviria para legitimar o Governo Brasileiro como preocupado com o “social”, já que se reduzia significativamente o crescimento econômico, sua principal fonte de legitimação. Voltando ao sistema de capacitação e visita (C&V) adotado pela EMATER/RS, é necessário afirmar que foi o modelo teórico que o Banco Mundial utilizou para os projetos que financiava no “terceiro mundo”, e seus princípios mais relevantes eram: [...] todas as atividades de Extensão Rural (na região) são unificadas em um serviço só, o serviço tem exclusivamente tarefas de aconselhamento e não assume funções governamentais ou administrativas (fiscalização), nem tarefas de estatística (por exemplo,relacionada ao imposto) ou de abastecimento de insumos, o aconselhamento se concentra nas culturas principais e em poucos, mas importantes práticas relacionadas a elas, o trabalho é realizado através de agricultores de contato (cerca de 10% do grupo alvo distribuído em 8 grupos de 4 a 15 pessoas) que devem servir de exemplo para os outros membros do grupo alvo [...] (SCHIMITZ, 2001, p. 64). 66 Observa-se que a especialização é exacerbada nessa metodologia, que chega a selecionar práticas dentro de uma cultura para a difusão e adoção pelos agricultores. É um enxugamento de currículo significativo frente ao que se propunha a Extensão Rural no seu início. Na EMATER/RS, esse modelo foi implantado através da inserção de técnicos de nível médio para residir nas comunidades. Os técnicos residiam nas propriedades ou em locais da comunidade e as equipes eram formadas e distribuídas segundo os seguintes critérios: a) o número médio de estabelecimentos agropecuários por área de atuação deve ser de 300 e o de produtores a serem assistidos direta e regularmente por técnico executor (nível médio) de 150, ou seja, 50% do total; b) Um Supervisor Local (Técnico de Nível Superior) para cada grupo de cinco Técnicos de Execução (nível médio) e um auxiliar Administrativo (Secretário) para cada equipe de dez técnicos (Supervisor Local + Técnicos Executores + outros técnicos) (EMATER/RS, 1982, p.02). Essa atuação interiorizada e o uso de motocicletas para o deslocamento são as maiores marcas (para muitos, são cicatrizes) desse período. Nas palavras de uma Extensionista que iniciou sua atividade nesse período - “No Projetão, era cada técnico com sua moto, vinha aqueles pacotes prontos... eram uns coitados que ficavam lá” (Extensionista 1) - é possível identificar a motocicleta como símbolo e também as dificuldades sob as quais o trabalho era realizado. Mas o maior efeito do referido projeto foi na difusão de tecnologias, em especial na cultura do milho, escolhida para atuação na Região Noroeste do Rio Grande do Sul, cujo acompanhamento, em grupos, das lavouras demonstrativas da cultura “começava na análise do solo [...] até chegar, para surpresa nossa e do pessoal, numa produção superior a 100 sacas por hectare... começou o pessoal a adotar essa tecnologia... o Projetão estava destinado a difundir essa tecnologia” (Extensionista 2). Outro efeito foi a consolidação do agricultor assistido individualmente, herança que ainda hoje repercute na expectativa dos agricultores em relação à atividade extensionista. Aliás, expectativa que não era apenas dos agricultores. 67 Um dos mais jovens Extensionistas entrevistados afirmou que “a gente tinha uma idéia que [a Extensão Rural] era mais direcionada ao nível do produtor, produtor por produtor quando entrei na empresa” (Extensionista 5). Esse contato direto com os produtores através de visitas e uso de lavouras demonstrativas permitiu a difusão do uso de sementes melhoradas, adubação química (em especial a nitrogenada) e controle de plantas ruderais. A preocupação em se adotar e seguir o modelo era tanta, e dentro dela a preocupação com o trabalho de campo, que ao avaliar as condições de trabalho dos técnicos interiorizados, chegou-se a constatação de que muitos ficavam parados entre 60 a 70 dias por ano devido a chuvas, que impediam o transporte por motocicletas. Como solução, foi apresentada a idéia de os técnicos terem um espaço para trabalho e depósito de materiais, pois Seria desejável e até indispensável que todos os técnicos tivessem o seu cantinho [...] ao lado de suas vantagens há um inconveniente grande que é o de transformar tal peça num mini escritório, passando o técnico a atender os agricultores nele, em vez de ir para o campo, mesmo nos dias de tempo bom, o que não estaria conforme o modelo (EMATER/RS, 1982, p. 43). O Projetão pode ser identificado como a experiência mais radical em termos de transferência de tecnologia e da difusão através de agricultores inovadores. Essa difusão de técnicas científicas, portanto neutras, positivas frente ao papel que a agricultura deveria desempenhar na economia brasileira, estava de acordo com aquilo que o regime militar entendia como uma boa ação de governo. Em tempos de “Exportar é o que importa”, de “Plante que o João garante”, para citar alguns slogans que retratam o espírito da época, ter um conjunto de técnicos “trazendo” técnicas modernas às comunidades mais distantes e promovendo o aumento da produtividade e da produção nacional eram sinais exteriores que concretizavam para a população o discurso ufanista do milagre brasileiro. 68 Para um discurso que entendia ter o conhecimento o seguinte fluxo: a) o desenvolvimento da ciência pura; b) a invenção; c) a inovação; d) o financiamento da inovação e, por último, e) a aceitação da inovação e que o papel reservado aos agentes de mudanças era promover a quinta etapa (MACLAURIN, apud BORDENAVE, 1980), chegar à concepção do Projetão era um mero exercício de lógica formal. Acresça-se a essas concepções a escala de adoção de inovação, que fornecia as bases psicológicas do processo de adoção, onde se estabelecia uma escada onde o primeiro degrau era atenção, seguida pelo interesse, num passo seguinte a avaliação, o ensaio e, finalmente, a adoção, tudo estava resolvido. Mas nessa receita não poderiam faltar alguns ingredientes básicos da época, como a mania de medir tudo, herança da sociologia rural americana. Graças aos métodos modernos da estatística, dividiam-se os agricultores pela velocidade de adoção das inovações em cinco grupos, com o respectivo percentual de participação em cada grupo. Seriam eles: primeiro, os inovadores, apenas 2,5%, que vinham seguidos pelos adotadores precoces, numa proporção de 13,5% que dariam lastro para a maioria inicial, algo que representaria 34%, que por sua vez seriam seguidos por mais 34% da maioria tardia. Somente mais tarde os 16% restantes, denominados atrasados, adotariam a inovação. Mesmo com a forte presença das idéias sociológicas, dentro desse campo havia uma batalha. Os economistas afirmavam que era o aspecto econômico o principal fator que levava à mudança. Para fornecer uma idéia desse debate, apresentarei algumas anotações extraídas de uma edição especial do IICA – Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola - organizada por Bordenave (1980), que versava sobre a transferência de tecnologia e o pequeno produtor. Essa publicação tinha como intenção promover um debate, quase à semelhança de um desafio, 69 entre sociólogos e economistas. Entretanto, não buscava dar publicidade às duas maneiras de se olhar determinado problema. Apresentava-se como um duelo, em que qual das duas deveria provar ser mais certa e importante que a outra. Resgato esse trabalho para mostrar como a aprendizagem era vista no período. Primeiro são apresentadas três formas de aprendizado pelos agricultores: i) tentativa e erro; ii) treinamento prático em serviço empreendido por agências de Extensão Rural; iii) educação formal. Cada sistema desses poderia ser utilizado, ressalvado que a escolha deveria se dar pela análise do custo/benefício de cada um. Como a centralidade era o custo de adoção das inovações, é criado um custo de procura e do aprendizado que varia de acordo com as categorias do aprendizado requerido. E as categorias de aprendizado em relação às práticas agrícolas são definidas por Byrnes (apud BORDENAVE, 1980) em quatro situações: a) aprender a associar um conceito ou material a outro; b) aprender um novo princípio; c) aprender a aplicar um princípio já conhecido; d) aprender um processo em seqüência. Caporal (1991) é pertinente ao afirmar que o período de “desenvolvimento de comunidades ou de propriedade com um todo” da Extensão Rural só existiu para garantir a implantação do sistema e a subordinação da agricultura ao setor industrial. Para ele, a Extensão Rural nasceu para educar para a assistência técnica, promovendo um processo de internalização do progresso técnico desenvolvido pelo capital industrial. Indo mais além, o autor afirma que as bases teóricas que orientam a ‘educação’, na prática extensionista, exigem uma atitude autoritária. Se a mudança deve ser induzida, se a percepção da necessidade de mudanças é exógena, se é entidade, o Estado ou o técnico que a percebe, por outro lado, também vem de fora da “comunidade” a tentativa de solução dos problemas detectados, normalmente pela transferência de tecnologia, cria-se um cenário próprio para uma educação autoritária, de cima para baixo e sobretudo antidialógica (CAPORAL, 1991, p. 62). 70 Afora esse aspecto da postura autoritária da educação - donde nasce a certeza de muitos técnicos de que são detentores do saber e da verdade, e também da espera, por parte de alguns agricultores, de que o paternal Estado resolva seus problemas, na prática, as mudanças não foram como a teoria assim apregoava. A elaboração de Willard Cochrane (apud ABRAMOVAY,1992) da teoria do “treadmill of technology” ou espiral tecnológica que analisa os ganhos em produtividade e renda dos agricultores que adotam técnicas e métodos inovadores, demonstra os limites que esse tipo de intervenção possui para promover um desenvolvimento mais justo. Como a elasticidade de demanda dos produtos agrícolas é muito baixa, os preços caem quando a produção aumenta, reduzindo os ganhos de todos que produzem. Assim, aquele produtor que investe na melhoria de sua produção, está colocando seu vizinho que não investiu numa condição pior do que aquela em que ele se encontrava anteriormente. E para ele também piora. Como seu investimento é uma inversão de capital que deve ser remunerado pela produção, além de baixar os ganhos dos outros, reduz também a sua renda, o que o obriga a estar sempre investindo para não ser excluído da atividade e aumentar a sua produção para ganhar a mesma quantia que ganhava antes. Em resumo, é o mesmo que ficar pedalando sem sair do lugar e, cada vez mais, obviamente mais cansado e fraco, pedalar um pouco mais para permanecer no mesmo lugar. Portanto, o difusionismo realiza uma modernização seletiva e obriga a investimentos e gastos crescentes a quem deseja permanecer na atividade. Isso posto, evidencia-se que a festa do milagre brasileiro acabou. E a ressaca para a agricultura foi muito grande. A Revolução Verde deixou marcas profundas no Brasil. E a Extensão Rural também teve o seu quinhão de dor de cabeça, suas cicatrizes e, diria, uma ferida, ainda hoje exposta. Essa ferida não cicatrizada é a tentativa de superação do difusionismo. 71 Junto a crise econômica pós-milagre, o Brasil passou por uma fase de abertura política, de grande efervescência cultural, com o surgimento de idéias e ideais suprimidos à população durante a censura do regime militar. E a Extensão Rural também viveu a sua abertura política. Num movimento que ficou conhecido como repensar da Extensão Rural, diversos setores da sociedade engajaram-se na luta por uma nova Extensão Rural. As características desse movimento foram a mudança de público preferencial, que passaria a ser de pequenos e médios produtores, jovens e com um trabalho mais focado em produção de alimentos básicos e atividades comunitárias. Foi um movimento marcado pelos princípios educativos de Paulo Freire, dando importância ao saber dos agricultores e estabelecendo a introdução de métodos participativos como forma de iniciar o diálogo entre os técnicos e seu público. Na EMATER/RS-ASCAR / EMATER-RS o repensar foi o primeiro grande movimento de consulta aos trabalhadores da empresa. Cada unidade operativa recebeu orientações, documentos e textos básicos para leitura e reflexão, que posteriormente seriam discutidos em nível municipal com lideranças e entidades ligadas à Extensão Rural. Após a etapa municipal, cujo trabalho foi sistematizado, representantes levaram as propostas aos encontros microrregionais e, em seguida, encaminharam-nas para um seminário estadual com participantes escolhidos nos encontros anteriores, intitulado “Extensão Rural – Enfoque Participativo”. O conjunto de diretrizes e estratégias aprovadas no seminário seriam, segundo o presidente da época, “consideradas por esta Diretoria como orientação básica a ser seguida pela EMATER/RS no período 1987/91 e deverão estar consubstanciadas no Plano Diretor da organização para esse período” (EMATER/RS, 1987). 72 E entre essas diretrizes podiam ser encontradas a definição dos públicos transformados não mais em públicos–alvos, mas públicos compromissos, a integração dos sem-terra, das mulheres e jovens rurais, dos assalariados e uma clara referência ao Latifúndio e à Empresa Rural como público não preferencial. Outra diretriz era a busca de um processo educativo dialógico e um reforço no trabalho comunitário. Sobre a transferência de tecnologia era apresentado o conceito das tecnologias socialmente apropriadas, incorporando os agricultores como produtores de tecnologia, junto com a Extensão Rural e a pesquisa. E a metodologia de trabalho deveria dar preferência a métodos grupais, com uma postura baseada no diálogo e senso crítico para promover uma comunicação horizontal, que procurasse interpretar e modificar uma realidade (EMATER/RS, 1987). Se o Repensar tinha o objetivo de abalar as estruturas da Extensão Rural difusionista, a fase seguinte vivida pela Extensão Rural foi mais eficiente10. Não apenas abalou as estruturas, como as demoliu. O primeiro governo federal eleito pelo voto popular aprofundou a desestruturação e extinção dos serviços, culminando no fechamento da EMBRATER, justificada pela retirada de dezessete por cento (17%) da receita do Governo Federal na reforma tributária feita pela Constituição de 1988, e no seu rastro uma série de empresas estaduais foram extintas ou tiveram de fazer os mais variados arranjos, numa condição de penúria financeira que as imobilizava. Acaba um período significativo na Extensão Rural. Junto a falência das estruturas, termina a integração funcional da Extensão Rural, as macrodefinições estabelecidas nos planos governamentais. Por essa razão, a partir desse momento, a EMATER/RS passa a ter mais relação com as políticas estabelecidas pelo Governo Estadual do RS do que com o Governo Federal, pois, desde que a empresa ficou sem 10 Sobre a eficiência do movimento Repensar, considero que foi importante porque trouxe uma série de conceitos novos para o meio extensionista. Entretanto, os efeitos práticos na EMATER/RS ficaram aquém das expectativas de seus funcionários e suponho (porque não entrevistei nenhum) que também da Diretoria da época. 73 os recursos financeiros do sistema EMBRATER, seu orçamento passou a ser viabilizado pelo governo estadual, e a receita, gerada na de prestação de serviços. O período posterior ao “repensar da Extensão Rural”, correspondendo a dois mandatos nos governos estaduais, afora algumas experiências e programas mais significativos, é marcado como uma fase de aplicação do ideário neoliberal. Inicia-se uma capacitação e tentativa de implantação dos programas de qualidade total na gestão da empresa, num processo muito semelhantes ao que hoje é vivido pelas escolas gaúchas. Também graças ao programa Pró-Rural 2000 começa uma série de ações, na linha de políticas compensatórias, buscando minimizar os efeitos da pobreza rural. Do ponto de vista educacional, é projetada uma rede de centro de treinamentos, destinada à profissionalização dos agricultores em modernas técnicas de produção, entendendo que eles deveriam capacitarse para enfrentar a concorrência e aproveitar as chances que o mundo globalizado oferecia. Ainda assim, no ano de 1997, é criado um Fórum Permanente de Extensão Rural que seria um ciclo de conferências, estudos e divulgação para tratar temas afins à Extensão Rural e também um espaço de apresentação da produção acadêmica dos profissionais da EMATER/RS. No documento de criação desse Fórum, nos resultados esperados, está registrado: Tendo em vista que os mais de 40 anos de Extensão Rural no RS foram construídos dentro de uma conjuntura difusionista e produtivista, espera-se com o Fórum forjar uma nova geração de extensionistas sintonizados com as transformações que estão ocorrendo mundialmente... (EMATER/RS-ASCAR-EMATER-RS,1997,p.5). Na outra gestão estadual, com início em 1999 e que foi até 2002, assumiu a direção técnica da empresa, Francisco Roberto Caporal, um dos principais elaboradores e críticos da Extensão Rural na atualidade brasileira e na presidência Lino de David, um engenheiro 74 agrônomo oriundo do movimento ambientalista; o difusionismo era visto como um enfoque reducionista homogeneizador que auxiliou na implantação do modelo de agricultura da Revolução Verde. Para tentar superá-lo, foi instituído um processo de consulta e construção de um plano estratégico para a empresa e um amplo processo de formação dos empregados11. Essa formação dava-se através de cursos baseadas no uso de metodologias de diagnósticos participativos e nos princípios da Agroecologia, numa tentativa de construção de uma Extensão Rural que fosse: Um processo de intervenção de caráter educativo e transformador, baseado em metodologias de investigação-ação participante que permitam o desenvolvimento de uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção de sistematização de conhecimentos que os leve a incidir conscientemente sobre a realidade, com o objetivo de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente eqüitativo e ambientalmente sustentável, adotando os princípios teóricos da Agroecologia com o critério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e do sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo (CAPORAL, 1999, p. 14243). Esse foi o período em que as críticas ao difusionismo e à forma tradicional de trabalho da Extensão Rural foram exacerbadas, agravadas pelas disputas partidárias, acirradas nesse período da história política do Rio Grande do Sul12. Travou-se uma disputa mais ideológica que conceitual. A Agroecologia era vista como uma bandeira do PT e não como um novo campo científico. Não se debatiam seus conceitos e premissas, mas sim se combatia quem os propagava. Após o reconhecimento das falhas e da impropriedade no trabalho extensionista tradicional, construído durante 40 anos, a Extensão rural já gastou metade desse tempo tentando livrar-se do espectro do difusionismo. Em 2006, o repensar, primeiro movimento 11 Para um balanço mais preciso sobre essa gestão confira Caporal 2002b na bibliografia dessa dissertação. A gestão Olívio Dutra / Miguel Rosseto foi marcada por uma série de disputas ideológicas, nos mais diversos setores, e a extensão rural não ficou fora dessa polêmica, principalmente pela sua opção contra os transgênicos e a exclusividade para agricultura familiar. 12 75 forte de questionamento das bases difusionistas, fez 20 anos. E a EMATER/RS-ASCAR passou e participou de todo esse processo, inclusive em alguns períodos assumindo papel protagonista. Teve o seu repensar no final da década de 1980, foi embebida pelo discurso neoliberal na década seguinte, buscando uma qualidade total, prenúncio da nova era globalizada, passou pela experiência democrática e popular, quando apostou forte na Agroecologia como base científica e nos diagnósticos participativos.Neste momento, em documento comemorativo aos seus 50 anos, aponta que a EMATER/RS vive uma fase que denomina por Pluralidade de uma Extensão Rural para todos, justificando que há uma variedade de públicos para o trabalho da Extensão Rural e que o progresso técnico não beneficia por igual todo mundo (EMATER/RS, 2005). Neste capítulo, procurei mostrar um pouco do início da história da Extensão Rural no Brasil e sua constituição aqui no Rio Grande do Sul, através do acompanhamento das principais fases da ASCAR- EMATER/RS, instituição oficial de Extensão Rural nesta Unidade da Federação. No próximo capítulo, quero aprofundar um pouco mais a discussão sobre algumas questões inerentes ao aspecto educativo da Extensão Rural, analisando as mudanças nos métodos de trabalho e apresentando algumas proposições que possam permitir avanços na tentativa de superar a forma difusionista de fazer Extensão Rural. 76 4 A EXTENSÃO RURAL E A BUSCA DE NOVOS RUMOS: UMA ABORDAGEM A PARTIR DA EDUCAÇÃO “O homem, meu general, é muito útil: sabe voar, e sabe matar Mas tem um defeito - Sabe pensar” (B. Brecht) Nenhum trabalho que objetive discutir a Extensão Rural nos seus últimos anos, sob o aspecto educativo, e que pretenda ser sério, pode se furtar de avaliar a obra do educador brasileiro Paulo Freire. Apesar de ser datado ainda da década de 60 do século passado, o livro desse autor intitulado Extensão ou Comunicação? pode ser alçado à condição de marco na mudança de rumos e nos questionamentos que a Extensão Rural apresentaria no início dos anos 80 no Brasil. Como já foi esclarecido anteriormente, a crise agrícola pós-milagre econômico, a falência do sistema oficial e a democratização política formaram um amálgama que permitiu esse cenário. Dentro deste, um pensador exerceu grande influência: Paulo Freire. Por essa razão, inicio este capítulo apresentando um pouco do conteúdo de seu estudo que pretendia fazer uma análise global do engenheiro agrônomo educador. Sua obra inicia-se com uma análise crítica do termo extensão; através do estudo semântico e do “campo associativo” desse termo, acaba por defini-lo como: [...] a ação extensionista envolve, qualquer que seja o setor em que se realize, a necessidade que sentem aqueles que a fazem, de ir até a “outra parte do mundo”, considerada inferior, para, a sua maneira, “normalizá-la”. Para fazê-la mais ou menos semelhante ao seu mundo (FREIRE, 1982, p. 22). O autor entende que a ação extensionista não está em conformidade com seus preceitos de um “que fazer” educativo como prática de liberdade, pois tem por base 77 mecanismos de persuasão. Além disso, como o objetivo fundamental do Extensionista é tentar fazer com que os camponeses substituam os conhecimentos que utilizam para agir sobre sua realidade, por outros, que são os conhecimentos do Extensionista, tem-se na prática de levar a mensagem até os camponeses o único aspecto dinâmico da Extensão Rural, pois o conhecimento estendido é estático, devendo ser transferido e depositado nos educandos. Uma das entrevistas que realizei oferece um exemplo bem concreto de como essa forma de educação se dava no cotidiano da Extensão Rural: “Em 1981, num pré-serviço de 45 dias, o engenheiro agrônomo me disse: - Vai lá em tal comunidade e fala sobre verminose... A gente não se perguntava se aquela era a necessidade da comunidade” (Extensionista 1). O importante era a presença e a mensagem da Extensão Rural chegar até a comunidade. É uma forma de “educação bancária”, como define Paulo Freire no seu livro Pedagogia do Oprimido (1994) e que ficou sendo um dos conceitos mais conhecidos desse educador. Essa popularidade do conceito de educação bancária como prática da Extensão Rural tem um aspecto positivo, que é o conhecimento por parte dos interessados da problemática que ela apresenta. Infelizmente, muitos resumem a obra Extensão ou Comunicação? a essa primeira parte, fazendo uma leitura superficial, resumida ao momento da crítica e desconstrução do termo, alegando, inclusive, um certo preconceito do autor com os Extensionistas e desconsiderando a segunda parte de sua obra. Justamente aquela parte em que ele busca afirmar o que entende por e como deva ser a atividade de um engenheiro agrônomo educador, numa educação baseada no diálogo problematizador. É desse entendimento equivocado que julgo derivar uma série de críticas ao autor. Uma das mais fortes e injustas é a alegação de que, na sua concepção de educação dialógica, somente o saber popular tem validade e o saber do técnico sempre será do invasor cultural, do 78 reprodutor cultural. MASSELLI (1998), analisando a Extensão Rural que era realizada nos assentamentos da reforma agrária do Estado de São Paulo, e dentro dela a relação entre técnico e agricultor que se dava a partir da concepção freiriana de educação, encontra alguns depoimentos que deixam claro o que afirmamos acima. O descaso e o pouco respeito pelo saber dos agricultores, ironizado pelos técnicos, pode ser visto num diálogo em que o técnico diz: “uma vez eu estava conversando com um colega e a conclusão era a seguinte: o pequeno produtor tem menos controle sobre o óleo diesel que ele usa no trator do que uma dona de casa tem sobre o óleo de fritura” (MASSELLI, 1998, p. 102). Um engenheiro agrônomo revela seu conflito: “Eu tinha uma experiência a passar... eu não estava lá para passar experiência, eu era um profissional pago pelo Estado para atuar no melhor sentido. Eu sei que o saber camponês, entre mil aspas aí, dizia que tinha que ser assim; e eu sabia por experiência científica, conhecimento técnico, etc. que devia ser de outra forma.” (MASSELLI, 1998, p. 104). Outro técnico vai um pouco além e afirma: “saber camponês, saber popular..., se o povo fosse tão sabido não estaria tão f... como está – só para ficar registrado” (MASSELLI, 1998, p. 101). Esses depoimentos são suficientes para que se tenha dimensão da falta de entendimento da proposta de Paulo Freire, a qual era bem explícita no livro Extensão ou Comunicação?. O autor apresenta, no referido livro, as discussões que mantinha com os engenheiros agrônomos extensionistas no Chile, os quais julgavam “perda de tempo” o diálogo com os agricultores porque o aumento da produtividade agrícola era premente para aquele país e o conhecimento que eles levariam era de caráter científico, o que dificultava o diálogo já que os agricultores não sabiam o que eram essas técnicas, o que impossibilitava de dialogar, pois como dialogar sobre aquilo que não se conhece? Respondendo a eles, Freire (1982) afirma que “O diálogo problematizador não depende do conteúdo que vai ser problematizado. Tudo 79 pode ser problematizado” (p. 53). Já sobre a perda de tempo, alerta que: “não há que se considerar perdido o tempo de diálogo que problematizando, critica e, criticando, insere o homem em sua realidade como verdadeiro sujeito da transformação” (p. 51). Quanto à questão do “excesso de valorização do conhecimento popular”, o autor é explícito ao comentar sobre a consciência mágica, sincrético-religiosa, da população camponesa e que não defende a manutenção da situação dos camponeses como estão. Ao comentar a maneira como, no Nordeste Brasileiro, agricultores tentam combater lagartas espetando-as em estacas, dispostas em triângulos sob a plantação, tentando espantar as outras, que fugiriam com medo, não deixa dúvidas sobre a inutilidade desse procedimento na solução do problema e afirma que: “enquanto espera, contudo que se vão, perde o camponês sua colheita, em parte ou grande parte” (FREIRE, 1982, p. 30). A pretendida e propagada afirmação de que o autor faz apologia do saber popular frente o saber acadêmico não está registrada em nenhuma parte desse livro. Tampouco ocorre um desmerecimento do saber técnico, no caso o engenheiro agrônomo educador, cuja função era vista como: [...] o trabalho básico do engenheiro agrônomo educador [...] é tentar, simultaneamente com a capacitação técnica, a superação da percepção mágica da realidade, como a superação da “doxa” pelo “logos” da realidade. É tentar superar o conhecimento, que, partindo do sensível, alcança a razão da realidade (FREIRE, 1982, p. 33). Parece que não foi exclusividade dos engenheiros agrônomos o entendimento de que o autor conferia um privilégio de verdade ao saber popular de seus educandos. Gehlen (2006, p. 56-7), ao analisar as leituras do método de Paulo Freire em diversos autores contemporâneos, reconhece que a fase de redução temática é “esquecida” em vários deles, o 80 que acaba deixando margens para interpretações equivocadas e a acusação de que as ações pedagógicas propostas são espontaneístas e reducionistas. O que deve ficar claro é que em momento algum existe referência que possa embasar essa crítica ao método freiriano, que tem dado mostras de sua eficiência na educação popular. Ainda hoje, como os engenheiros agrônomos chilenos, há muitos que entendem que a educação dialógica é jogar conversa fora, é um construtivismo ingênuo, reforçando o senso comum e reproduzindo o status quo; de outra parte, alguns mais afoitos fazem uma leitura um tanto parcial da obra de Freire, usando-a apenas para questionamentos. Nesses dois pólos de parco entendimento do autor, um acha que ele renega o saber acadêmico, o outro pensa que tem um instrumental maniqueísta para atacar, simploriamente, a ordem estabelecida. A esses dois grupos, deixamos que o mestre fale: [...] a educação é uma forma de intervenção no mundo. Intervenção que além do conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o esforço de reprodução da ideologia dominante quanto ao seu desmascaramento. Dialéctica e contraditoriamente, não poderia ser a educação só uma ou só outra dessas coisas. Nem apenas reprodutora, nem apenas desmascaradora da ideologia dominante (FREIRE, 2005, p. 98). Saliento esse aspecto por entender que no campo da Extensão Rural existem muitos representantes desses grupos. Efetivamente, a assimilação da crítica de Paulo Freire à ação extensionista, na Extensão Rural oficial, deu-se mais na condição de sensibilizadora para uma reflexão da prática do que uma adoção de seu método na integralidade. No meu entendimento, a maior mudança que Freire proporcionou na Extensão Rural foi o abandono de métodos persuasivos e a busca de metodologias participativas que tornassem possível o estabelecimento de condições de diálogo com os agricultores e agricultoras e o respeito ao saber local. Nas palavras de um dos entrevistados nesta pesquisa: “Hoje os técnicos são mais democráticos. Ouve-se os produtores, trabalha-se com os conselhos agropecuários, faz-se o 81 DRP. A orientação passou para uma forma mais participativa” (Extensionista 1). A partir de agora, parto para a análise de dois momentos na história da EMATER/RS que considero marcantes na adoção e no desenvolvimento dessas ferramentas: O Programa PRORENDA ( Programa de viabilização de espaços econômicos para populações de baixa renda) e o uso dos Diagnósticos Rápidos Participativos com ênfase na Sustentabilidade. O Programa PRORENDA iniciou-se no Estado do Rio Grande do Sul no ano de 1990; fruto de uma cooperação internacional Brasil-Alemanha, era coordenado pela Sociedade Alemã de Cooperação Técnica (GTZ) e pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado do RS. Segundo um dos responsáveis pela execução desse programa no Rio Grande do Sul, um dos princípios gerais dentro do processo metodológico do PRORENDA consiste em estabelecer um diálogo partindo da realidade do agricultor, ou da forma como ele percebe a realidade de seu mundo (FRANTZ, 2002). Para atingir os objetivos e em consonância com os princípios do PRORENDA, foi formulada uma metodologia de campo, fruto da experiência adquirida em três anos de uma fase piloto do programa, que era composta de “10 Passos”13 que começavam com a exposição para a comunidade, diagnose e planejamento participativo e terminavam em reuniões de negociação municipais. Junto a esse processo de mobilização, dessa caminhada, acontecia um “ciclo de reflexões” que discutia a metodologia empregada e o andamento do processo. 13 Os dez passos eram: 1°) encontro da equipe com a comunidade e/ou grupo e apresentação do programa;2°)avaliação e decisão do grupo sobre a participação no programa;3°) análise da resposta da comunidade e preparação do diagnóstico;4°)diagnóstico com mapa falante,diagrama de Venn e outras técnica participativas;5°) análise do diagnóstico e coleta de informações sobre programas e recursos disponíveis;6°) definição dos objetivos e prioridades dos grupos;7°) análise dos objetivos e prioridades definidos pelo grupo,8°)planejsmento das atividades;9°) assessoramento aos grupos nas articulações e na compatibilização do planejamento;10°)formalização das parcerias-assinaturas dos contratos.Fonte: PRORENDA Agricultura Familiar/RS. SAAb-RS,abril de 1998 (mimeo). 82 Com o uso desse instrumental buscava-se proporcionar – inclusive institucionalizaruma condição de diálogo entre os grupos de famílias organizados pelos PRORENDA e os técnicos de instituições que prestam serviços aos agricultores. Quero deter-me no papel do técnico dentro dessa metodologia. Ele apresenta uma dupla função, sendo visto em alguns momentos como um moderador, “entendido como uma pessoa que coordena os trabalhos de um grupo sem influenciar no trabalho com idéias próprias, mas faz avançar a discussão. Alguns usam o termo facilitador” (FRANTZ, 2002, p. 120). Em outros momentos, o técnico não realiza a moderação, mas atua como especialista a serviço dos agricultores. Essa distinção é muito importante, porque reconhece a especificidade do trabalho de assistência técnica, já que o técnico não é um professor e a contingência da atividade agrícola cria, muitas vezes, relações não muito dialógicas, como acontece com técnicos que recomendam agrotóxicos e medicamentos, algo que infelizmente é a realidade da maior parte da assistência técnica existente nos municípios. A grande dificuldade é entender: como um técnico que tem uma prática convencional, defendendo o produtivismo, consegue adotar uma postura de moderador? Essa tarefa é dedicada à metodologia que era acompanhada de um processo contínuo de capacitação sob a responsabilidade do Coordenador Regional. Processo que estava baseado “num novo conceito de educação melhor expresso pela teoria construtivista, o que exige pensar e estar preparado para situações não previstas” (FRANTZ, 2002, p. 121) [grifos meus] e que estava atento à tendência dos técnicos de retornar às práticas autoritárias de transmissão de conhecimento. O mesmo autor faz referência à pedagogia de Paulo Freire, especificamente ao tema gerador que surge nos primeiros passos da metodologia (10 Passos), indicando que houve a incorporação das teorias desse educador na elaboração da metodologia. 83 Para a empresa EMATER/RS-ASCAR, cuja participação no programa variou de intensidade, a metodologia elaborada e adotada pelo PRORENDA deixou, como maior herança e contribuição, os métodos de moderação visual com uso de tarjetas, com base no método ZOPP14 e a formação de alguns técnicos que trabalharam mais com o programa e que ainda hoje atuam como formadores em oficinas de metodologias participativas para outros colegas e agricultores. Apesar da participação ativa em muitos municípios, em nível estadual, a metodologia dos “10 Passos” não fez e não faz parte do universo metodológico adotado pela empresa nas suas ações. A EMATER/RS-ASCAR desde o ano de 1997 começou um processo de capacitação de seus técnicos para a utilização de métodos baseados no Diagnóstico Rápido ParticipativoDRP, cujas ferramentas também são utilizadas no PRORENDA no processo de diagnóstico da comunidade. Mas registro de Ribeiro (1996) já indica que, nos anos anteriores, houve o uso dessa metodologia num projeto da EMATER/RS que envolvia os municípios de Caçapava do Sul, Lavras do Sul, Santana da Boa Vista e Pinheiro Machado e ficou conhecido na empresa como “área-piloto”. Os primeiros cursos foram destinados aos Extensionistas rurais (somente da área técnica) que estavam lotados nos municípios beneficiados com o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), modalidade Infra-estrutura e Serviços Municipais. Esse programa do Governo Federal exigia, como contrapartida da municipalidade, a construção de um Plano Municipal de Desenvolvimento Rural e uma plena atuação do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural. A EMATER/RS desenvolveu um 14 Método ZOPP, em alemão Ziel orientierte Projekt Planung ou planejamento de projetos orientados por objetivos desenvolvido pela GTZ nas décadas de 1970 e 1980. 84 curso de Capacitação em Desenvolvimento Rural Sustentável e Planejamento Municipal em convênio com o Governo Federal para que os técnicos tivessem condições de elaborar e gestar os planos desse programa. Foi nesses cursos que algumas ferramentas do Diagnóstico Rápido Participativo começaram a ser popularizadas na empresa. Já na gestão seguinte, a direção da empresa realizou um amplo processo de formação de seus empregados em um curso que foi denominado Desenvolvimento Rural Sustentável: enfoque Agroecológico. Esses cursos tinham duração de quatro semanas alternadas, sendo que na primeira ocorria um nivelamento conceitual sobre questões de gênero, Agroecologia e desenvolvimento econômico e planejamento municipal e, nas seguintes, avançava-se com o estudo e a aplicação das ferramentas participativas como o mapa da comunidade, o itinerário técnico e social,a tipologia da comunidade, a matriz de desenvolvimento, a caminhada transversal, a rotina diária e uma matriz de planejamento participativo e elementos de visualização móvel. Todo processo envolvia a teoria e a prática,pois fazia parte da programação do curso a realização de um diagnóstico real numa comunidade agrícola próxima aos locais do curso. Guardadas as diferenças em relação à abordagem mais direcionada para o campo da Agroecologia, que, veremos adiante, foi um aspecto muito positivo, as ferramentas utilizadas são, em sua maioria, as mesmas utilizadas no mundo todo para a realização dos Diagnósticos Rápidos Participativos. Robert Chambers, um dos idealizadores do método, ao avaliar cinco anos de aplicação em diversas partes do mundo, assim descreve por que surgiu e o que é este método: O DRP começou a evoluir na busca de enfoques práticos para a investigação e planejamento que pudessem prestar apoio a um planejamento mais descentralizado e uma tomada de decisão mais democrática, valorizando a diversidade social, trabalhando para a sustentabilidade, aumentando a participação e reforçando o poder da comunidade. O DRP pode ser descrito como um conjunto crescente de enfoques e métodos para permitir que a população local partilhe, aperfeiçoe e analise seus conhecimentos sobre sua vida e condições com o fim de planejar e agir (CHAMBERS e GUIJT, 1995, p. 5). 85 Se o objetivo era desenvolver um diagnóstico participativo, foi necessário elaborar ou sistematizar uma série de ferramentas para esse fim. Para se ter uma idéia da quantidade existente, Gelphus (1997) sistematiza uma coletânea de 80 ferramentas que podem ser utilizadas no planejamento participativo, tanto em suas fases de diagnóstico e planificação, como na avaliação e monitoramento. Como se vê, a velha máxima que afirmava “para auscultar o coração de um povo não precisa de estestoscópio”, não parece muito verdadeira. Os instrumentos que foram e estão sendo desenvolvidos demonstram que não é tarefa fácil alcançar o entendimento da racionalidade do povo e permitir a comunicação das equipes técnicas com as populações juntos as quais atuam. A variedade, a criatividade e as utilidades das ferramentas são impressionantes. Ao serem aplicadas, elas não cumprem somente a função de obter alguma informação a que estejam destinadas na divisão existente no processo de diagnose e planejamento. Elas acabam criando um ambiente de participação que garante ao(s) técnico(s) envolvido(s) as condições de “regência” do grupo. Os agricultores e agricultoras que acompanham o diagnóstico não estão ali pela exigência de passar de ano ou outra condição que os retenha no grupo. Isso obriga o técnico a explorar ao máximo essas ferramentas para tornar o ambiente agradável e dinâmico, limitando os mais afoitos e “conversadores” e estimulando os tímidos e retraídos, atingindo uma participação o mais equânime possível. Essa é uma grande vantagem dos métodos participativos em relação aos tradicionais. Considerando que se trata da atividade do técnico durante o DRP, convém salientar que todos os comentadores avaliam que a condição do técnico que comanda, que “rege” os trabalhos, enfim, que faz a moderação deve “beirar” a neutralidade, permitindo a expressão 86 dos participantes e “freando” o ímpeto de “resolver” as questões que vão se apresentando com a sua visão do problema. Sobre esse aspecto, Chambers e Guijt (1995) reconhecem que o agente externo (técnico) nos programas de DRP é ativo enquanto possuidor de opiniões e idéias, mas seu papel deve ser o de facilitar as análises para os membros da comunidade. A postura que consideram mais adequada para tanto é: “[...] aprender a calar-se, estimular e fomentar a confiança, especialmente no início, restringir seu desejo de mostrar suas próprias idéias” (CHAMBERS e GUIJT, 1995, p. 11). Outro divulgador do método também reforça essa condição do técnico e afirma que “[...] os membros da moderação não devem agir como instrutores/as [...] A função da equipe é escutar e não ensinar” (VERDEJO, 2006, p.18). Portanto, tanto no DRP, como nos “10 Passos” do PRORENDA, o cuidado em “frear” o técnico na sua faina tecnocrata, no seu ímpeto de “solucionar tudo”, especialmente no início dos trabalhos, está claro e posto como um dos condicionantes do sucesso do método. Mais adiante, quero voltar a essa questão, para algumas considerações. Voltando ao desempenho dos diagnósticos na EMATER/RS-ASCAR, parece que a avaliação sobre ele é controversa. Kreutz (2004, p. 94-5) avalia que a proposta do DRP não foi bem aceita pelas lideranças municipais pelo elevado custo de execução, uma relativa perda de tempo com a atividade e a ausência de recursos para implementar o que era planejado, ocasionando aumento de expectativa das comunidades, incompatível com a capacidade de atendimento das Prefeituras Municipais. Junta-se a esse cenário o grande número de programas em execução pela empresa que causa uma grande dificuldade de alocar tempo e pessoal. Tudo o leva a concluir que a adoção do DRP não prosperou no interior da Extensão Rural como se esperava. Já o Diretor Técnico da empresa no período 1999-2002, ao discutir a Extensão Rural num seminário, faz a seguinte avaliação do uso das metodologias participativas pela empresa: 87 A adoção do DRP, como metodologia para o planejamento com as comunidades, vem crescendo de forma importante, sendo que, somente em 2001, foram 1.091 os planos de comunidade realizados a partir do uso do DRP, envolvendo 32.055 beneficiários. Ressalte-se que em 2002, todos os planos das comunidades beneficiadas pelos programas RS Rural e Pró Guaíba estão sendo precedidos dos respectivos DRP’s. Assim mesmo, está em andamento a aplicação da ferramenta de Leitura de Paisagem de todos os municípios do Estado, com a participação de técnicos, conselheiros municipais, representantes de comunidades, do poder público local e outras instituições, o que se consolidará como um importante instrumento para o planejamento de atividades em prol do desenvolvimento local e regional (CAPORAL, 2002b, p. 37-8). Observa-se que o programa RS-Rural foi o que proporcionou as condições efetivas para a realização dos diagnósticos e que os mesmos tiveram uma execução massiva no Rio Grande do Sul. O uso dessas ferramentas também não foi limitado à gestão que as implementou. Nos anos seguintes, sob uma nova administração estadual, muitos Escritórios Municipais da EMATER/RS-ASCAR na região Celeiro do RS seguiram utilizando técnicas de diagnóstico e planejamento participativo para elaborar projetos do RS-Rural, como pude constatar nas entrevistas de campo. Inexiste uma avaliação mais precisa sobre o impacto dessas ações. Uma visita ao sítio eletrônico da ASCAR-EMATER-RS (http://www.ematerrs.tche.br/sistematização de experiências) permite identificar que, num processo de seleção de experiências consideradas agroecológicas ou inovadoras em todo o estado do RS, grande número tem sua metodologia de trabalho baseada no uso do DRP ou de alguma ferramenta participativa. Quanto aos problemas elencados por Kreutz (2002), entendo que o são aqueles referentes às condições de realização dos diagnósticos, pois o “empoderamento” das comunidades e uma ampliação de sua pauta de reivindicações não devem ser considerados problemas para a Extensão Rural. Em relação aos primeiros, parece óbvio que a simples existência de uma teoria, ou de um arcabouço teórico que dê conta das especificidades do trabalho com as comunidades rurais e faça uma boa mediação entre técnicos e agricultores(as), não é a garantia de realização desse trabalho. Encontrar ou escolher essa forma de mediação pode ser um passo, mas não é a solução. Garantir as condições efetivas 88 para que essa mediação aconteça passa a ser o passo seguinte. Isso não invalida a escolha inicial, apenas a reforça. Nesse sentido, finalizando a discussão sobre as metodologias participativas na Extensão Rural, quero deixar uma pergunta que, por ser simples, deve ser de difícil resposta, como todas as perguntas simples. Observando que todas as experiências apresentadas no Rio Grande do Sul de uso de metodologias participativas apresentaram problemas devido ao seu alto custo de execução, fico intrigado em saber: por que, apesar de inspirar e dar base crítica a esses trabalhos, o método de Paulo Freire nunca foi adotado em sua integralidade (além de sua crítica à educação bancária), pelo menos em algumas atividades da Extensão Rural? 4.1 A Abordagem Histórico-Cultural seria uma contribuição à Extensão Rural contemporânea? Em que pesem a influência e o respeito que a obra de Paulo Freire possui no campo da Extensão Rural na América Latina e a lacuna na resposta para a pergunta feita acima, buscarei na vertente histórico-cultural algumas contribuições que podem ser interessantes para auxiliar a Extensão Rural a superar o fantasma do difusionismo. Essa escolha não se deu por pensamentos do tipo: Vigotsky é melhor que Paulo Freire; a abordagem histórico-cultural seria a melhor orientação teórica para a ação educativa da Extensão Rural; ou quaisquer argumentos nesse viés. Abordagens a partir do referencial freiriano são comuns para criticar a prática tradicional da Extensão Rural e anunciar novos postulados para a mesma. Não seria honesto, do ponto de vista intelectual, ignorar o vasto esforço no sentido de melhorar a comunicação entre técnicos e agricultores, ou negar que é esse o referencial teórico que orienta a maior parte dos trabalhos de educação popular no campo. 89 Resolvi procurar outros caminhos para ver se um pouco de diversidade poderia contribuir com o setor. Setor que, até este momento, tento mostrar o esforço que faz na democratização das relações entre os técnicos e agricultores(as). A democratização foi a tônica, tanto na crítica ao difusionismo, como na incessante procura de métodos alternativos que dessem conta de ampliar a participação. Para facilitar a participação e firmar o diálogo, várias ferramentas foram e ainda são desenvolvidas, permitindo a verbalização ou expressão sob diversas formas dos olhares que agricultores e agricultoras têm sobre suas vidas e os projetos que lhes são pertinentes. Afora este propósito, a postura do técnico nesses trabalhos é bastante questionada, colocando em dúvida sua condição de especialista e estimulando-o a ouvir e dar atenção aos saberes que as comunidades possuem. Neste aspecto, é incrível o grau de detalhamento das ferramentas participativas. Tão incrível como sua variedade. Contudo, em situações posteriores, após o diagnóstico realizado, os problemas discutidos e as atividades planejadas na relação entre técnicos(as) e agricultores(as) sofre um certo relaxamento. O zelo inicial, evidenciado em alguns parágrafos acima, nos quais discuti a postura do moderador, é substituído pela recomendação genérica e pouco clara de que o técnico deve adotar uma concepção pedagógica construtivista e baseada na aprendizagem, geralmente identificada como um processo que permite aprender a aprender, ou seja, aprender aquilo que está sendo objeto de aprendizado, mas desenvolvendo condições de resolver outras situações com aquele aprendizado. Dessa forma, a Extensão Rural tem-se apoiado mais no seu aspecto de assessoramento (tanto organizativo como burocrático) e deixando o espaço de assistência técnica que antes realizava para a assistência técnica privada. Esta, por sua vez, segue 90 reproduzindo o padrão de transferência de tecnologias, agora o pacote biotecnológico marcado pela associação entre a transgenia e os agrotóxicos. Martins (2001) mostra que, no Brasil, primeiro os agricultores conseguem a visibilidade política para depois criarem as necessidades técnicas. Então, a Extensão no Rio Grande do Sul esteve presente na primeira fase, resta saber como se comportará nas necessidades técnicas. Se a tecnologia é necessária, e somos sabedores de que ela não é neutra, pois todo conhecimento é interessado, qual tecnologia usar? Adianta construir um Plano Municipal de Desenvolvimento Rural sob forma participativa, mas estabelecer soluções para os problemas com base na mesma tecnologia que os vêm deixando cada dia mais pobres; a mesma técnica que deixa suas terras e os outros recursos naturais mais degradados? Atualmente, essa questão se coloca como resolvida pela simples aceitação ou menção dos temas aprendizagem ou construtivismo. Para evitar que, a partir de diagnósticos participativos e democráticos, possam ser estabelecidas relações que não correspondam a esses princípios, problematizo um pouco essa questão da aprendizagem. Os ideais democráticos da aprendizagem, do enfoque “aprender a aprender”, apesar de se apresentarem como novidade, podem representar uma armadilha para quem deseja um pouco mais da educação, ou seja, para quem a conceba como uma prática libertadora. Duarte (2006) entende que o lema “aprender a aprender”, tão em voga no construtivismo, é uma proposição educacional afinada ao projeto político de adequação das estruturas e instituições sociais às características do processo de reprodução do capital na atualidade. O processo produtivo exige a elevação do nível intelectual dos trabalhadores para que possam acompanhar as mudanças tecnológicas. A tecnologia disponibilizada aos agricultores exige uma formação diferente. Não mais é aquela que ele possuía no tempo do arado tracionado à 91 junta de bois. Mas essa formação deve ser limitada. Ela deva ser suficiente para que ele possa preparar e aplicar adequadamente os insumos químicos, manejar satisfatoriamente as máquinas e equipamentos agrícolas cada vez mais modernos, enfim, conhecimento suficiente para poder trabalhar em processos de produção que lhe são impostos. Mas o nível de conhecimento ao qual o agricultor pode ter acesso deve manter-se nessa condição de suficiência para a execução das tarefas. Nessa perspectiva, não interessa que ele conheça os riscos a que está sujeito ao trabalhar com agrotóxicos, tampouco que saiba que o uso continuado leva sempre ao uso de quantidades maiores pelo aumento da resistência e diminuição da biodiversidade, ou qualquer outro conhecimento que sirva para questionar o sistema de produção capitalista que lhe explora. A preocupação excessiva com os métodos, com a didática, leva-nos a menosprezar ou não dar atenção ao conteúdo, àquilo que é ou deve ser ensinado. Duarte (2006) avalia que a crítica pós-moderna tem contribuído, sobremaneira, para esse descaso. Tudo isso porque, ao considerar que todo projeto de transformação política consciente da totalidade social redundaria em propostas autoritárias, verdadeiras heranças da “ilusão iluminista” de emancipação humana por meio da razão, acaba por deixar um vazio onde se perpetuam proposições educativas a serviço do capital. Não concordo com essa condição de beco sem saída do pós-modernismo e acredito que a humanidade é capaz de superar a atual crise civilizatória que vive, e que essa é uma necessidade urgente, como bem afirma Meszáros (2006), pois o capital esgotou sua parca capacidade civilizatória e agora é uma pura relação destrutiva: Uma das heranças mais duras, mas também mais instrutivas que nos deixa o século XX, é a lição de que não podemos esperar nenhuma garantia de futuro com base na convicção de que haja leis que trabalhem pelo homem. O que significa colocar no 92 centro do debate o tema da responsabilidade do homem na construção de sua própria realidade, ante a ausência de “garantias legais”; em outras palavras, assumir o alcance que tem a solidão do homem e seus imensos desafios (ZEMELMANN, apud FRIGOTO e CIAVATTTA 2001, p. 7-8). Somos obrigados a aceitar os desafios. Claro que acreditar que a educação seja a ferramenta redentora para superar a atual crise é algo simplista. Porém, negar a ela o potencial e o compromisso que deve ter “na solidão e os imensos desafios” do homem não é mais simplismo, é irresponsabilidade. Ante tudo isso, faço uma proposição educativa para a Extensão Rural, a fim de dar suporte às tarefas que lhe cabem na construção de uma realidade melhor para todos. Mas essa proposição não está alicerçada numa simples “herança de ilusão iluminista”. Tampouco tem por base única a noção de que aos agricultores(as) não pode ser negado o direito de ter uma educação plena, que vá além da mera “formação profissional” para desempenhar certas funções que lhes são estabelecidas na divisão social do trabalho. É necessário dizer, ainda, que essa noção não deve ser compartilhada por todos os Extensionistas rurais. Tampouco o conceito de uma nova Extensão Rural que apresentarei é consensual, mas é aquele que considero mais apropriado para os enfrentamentos necessários. Minha proposição situa-se no campo científico definido hoje como Agroecologia, numa oposição clara à corrente que defende a modernização da agricultura através da motomecanização crescente, do uso intensivo de tecnologias de manipulação do genoma e de doses e volumes crescentes de agrotóxicos. O conceito de Extensão Rural agroecológica está sendo assim definido atualmente: Um processo de intervenção de caráter educativo e transformador, baseado em metodologias de investigação-ação participante que permitam o desenvolvimento de uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção de sistematização de conhecimentos que os leve a incidir conscientemente sobre a realidade, com o objetivo de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente eqüitativo e ambientalmente sustentável, adotando os princípios teóricos da Agroecologia com o critério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e do sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo (CAPORAL, 1999, p. 142-143) [grifos meus]. 93 A Extensão Rural deve ter um conteúdo para sua intervenção, razão pela qual, acima, já fiz referências ao acerto da escolha da Agroecologia como base científica nos cursos realizados pela EMATER/RS-ASCAR. E tentando melhorar esse processo de intervenção, minha defesa de uma postura mais ativa no campo educacional fundamentar-se-á nas elaborações da teoria histórico-cultural sobre aprendizagem e desenvolvimento. Vigotsky (2001, p. 296-310), ao tratar da questão da aprendizagem e do desenvolvimento intelectual, aponta para três tentativas da psicologia com vistas a resolver esse problema. A primeira considera o desenvolvimento e a aprendizagem como dois processos independentes entre si. O desenvolvimento é visto como um processo de maturação, sujeito a leis naturais. Já a aprendizagem é o aproveitamento exterior das oportunidades criadas no processo de desenvolvimento, requerendo sempre um certo grau de maturidade (desenvolvimento) de funções psíquicas particulares. A aprendizagem é caudatária do desenvolvimento. Somente depois de o desenvolvimento completar-se em determinados estágios é que a aprendizagem se torna viável, mas nunca ela influenciará o desenvolvimento. Uma segunda concepção considera desenvolvimento e aprendizagem processos idênticos. Quanto mais se aprende, mais se desenvolve. A terceira abordagem tenta unificar as anteriores; no entanto, coloca a aprendizagem numa posição mais ativa, salientando que é um processo de surgimento de novas estruturas e/ou aperfeiçoamento de antigas, transferindo o aprendizado ganho em determinadas situações para outras, além dos limites daqueles resultados imediatos que a aprendizagem conseguiu. Os estudos realizados por Vigotsky levam-no a estabelecer novas bases para a relação aprendizagem-desenvolvimento. Para ele, “o desenvolvimento da base psicológica da aprendizagem das disciplinas principais não antecede o seu início, mas se realiza em 94 indissolúvel vínculo interior com ele, no curso de seu desenvolvimento ascencional” (VIGOTSKY, 2001, p. 321-322). Resumindo, desenvolvimento não acontece antes da aprendizagem, mas em relação com ela. Relação essa que, do ponto de vista temporal, é dada por um adiantamento da aprendizagem, que estará sempre adiante do desenvolvimento, haja vista que “a criança adquire certos hábitos e habilidades numa área específica antes de aprender a aplicá-las de modo consciente e arbitrário” (VIGOTSKY, 2001, p. 322). Para o autor em questão, a aprendizagem sempre estará antecipando-se ao desenvolvimento. Mas essa explicação fica incompleta se não lembrarmos da importância das relações sociais no processo de desenvolvimento. Segundo Pino (2000), para Vigotsky, a psicologia sempre definiu a relação indivíduo versus sociedade com termos vagos como socialização, adaptação, integração etc., mas ele inverte a questão e pergunta: o que o meio social está fazendo para criar na criança as funções superiores de origem e natureza social? Portanto, na teoria histórico-cultural, o desenvolvimento segue o sentido da conversão das relações sociais em funções mentais, através da mediação semiótica que é o processo elementar da ontogênese, pois: O aparecimento da linguagem e a mediação de outros signos e instrumentos construídos culturalmente, as ações, antes naturais, pela internalização dos significados, passam a ser dirigidas pelas funções psíquicas superiores. A memória que antes era mecânica, passa a se constituir em memória lógica; o pensamento que antes funcionava de forma concreta, passa a operar com generalizações e abstrações (MOURA, 1999, p. 154). Essa compreensão levou Vigotsky a elaborar um método de análise baseado na articulação do pensamento e da linguagem. Elucidar a relação entre o pensamento e a linguagem era seu objetivo, entendendo que ambos são dois sistemas separados que têm origens genéticas diferentes e processos de desenvolvimento distintos, mas com uma relação complexa e um ponto de encontro. Esse ponto de encontro, ele denominou pensamento 95 verbal. E este, por sua vez, é expresso pelo significado da palavra, o que coloca a unidade de análise do significado da palavra. Esta é a forma mais simples que contém as propriedades inerentes ao pensamento discursivo, a unidade do pensamento e da linguagem. E o significado da palavra é uma generalização ou conceito e “toda generalização, toda formação de conceitos é o ato mais específico, mais autêntico e mais indiscutível de pensamento” (VIGOTSKY, 2001, p. 397-98). Essa contribuição de Vigotsky de que a palavra é a unidade de análise que permite o estudo concreto do pensamento discursivo porque ela é um modo absolutamente original de representação da realidade na consciência, ou seja, ela une o pensamento e a linguagem, por si só, uma grande contribuição para a psicologia, foi completada em suas pesquisas pela noção de que os significados das palavras se desenvolvem, o que permitiu o entendimento da mutabilidade e dinâmica das relações entre pensamento e palavra: O pensamento não é só externamente mediado pelos signos como internamente mediado por significados. Acontece que a comunicação imediata entre consciências não é impossível só fisicamente mas também psicologicamente. Isto pode ser atingido por via indireta, por via mediata. Essa via é uma mediação interna do pensamento, primeiro pelos significados e depois pelas palavras. Por isso o pensamento nunca é igual ao significado direto das palavras (VIGOTSKY, 2001, p. 479). Para finalizar sua análise do pensamento verbal, o autor supracitado lembra que é preciso descobrir os motivos que fazem o pensamento nascer e orientam o seu fluxo. Motivos que nascem de “nossos pendores e necessidades, os nossos interesses e motivações, os nossos afetos e emoções” (VIGOTSKY, 2001, p. 479). Dessa forma, completa sua análise e não recorre a uma saída idealista e tautológica, ao reconhecer que um pensamento não pode nascer de outro pensamento, mas desse campo de consciência que, conforme explicado acima, surge nas relações sociais. Com esses elementos, Vigotsky julga ser possível a compreensão efetiva 96 e plena do pensamento alheio. Temos aí uma sólida base para trabalharmos situações de ensino-aprendizagem em termos dialógicos com o público da Extensão Rural, mas que tenha como orientação geral a busca do desenvolvimento intelectual desse público (VIGOTSKY, 2001). Este trabalho de pesquisa mostrou, em capítulos anteriores, a importância de determinados instrumentos para a história da agricultura, como o arado charrua e novas formas de atrelagem. Mas não foram apenas os instrumentos materiais que transformaram o mundo agrícola. Mudanças outras na forma de arranjar no tempo e no espaço os insumos materiais - terra, sementes, animais, adubos e políticas agrícolas – tornaram-se poderosos instrumentos de mudança. Foi com a introdução da rotação trienal, do uso da rotação de culturas no sistema Norfolk, enfim, mudanças baseadas em conceitos, que se tornou possível alterar e melhorar o desempenho do sistema. Com base nisso, adoto a tese de que os conceitos são instrumentos, tal qual uma ferramenta, auxiliando na construção histórica dos homens. Dessa forma, a Extensão Rural não pode cair no voluntarismo de um construtivismo ingênuo, rebaixado quase a ponto da apologia do empirismo ou de uma singularidade ingênua. Se é certo que o homem se torna homem pelo trabalho, ele assim o faz com o uso de certos instrumentos e dotá-lo dos conceitos (instrumentos) necessários é contribuir para sua humanização. Essas considerações teóricas são muito importantes, pois demonstram que instrumentalizar, na plena acepção do termo, os agricultores com conceitos eficientes é garantir maior autonomia e capacidade de ação. Usarei um exemplo da minha experiência para mostrar a importância do desenvolvimento do pensamento no sentido de uma maior abstração. Durante uma perícia do 97 Seguro da Agricultura Familiar, encontrei um agricultor que, para explicar a origem de uma variedade de soja transgênica originária do contrabando de variedades argentinas, disse: -Ah! essa é a 6060. Como essa variedade era desconhecida, estranhei o nome, que foi prontamente “explicado” por ele: - Olha, eu acho que dois vizinhos plantaram essa soja, um colheu 60 sacos por hectare e outro também colheu. Aí ficou sendo a 6060. Isso reflete a dificuldade dos agricultores em lidar com conceitos abstratos. Para ele, o sentido dos números era o concreto, a produção em sacas obtida por hectare. Não poderia ser um número arbitrário dado por um pesquisador ou pela empresa visando a identificar aquela variedade. Então, ao trabalharmos com os agricultores, não devemos usar conceitos abstratos? Devemos sempre usar exemplos diretos? Somente referências concretas e, muitas vezes, equivocadas? Não temos de ter como meta ensiná-los a pensar de forma mais ampla no sentido do concreto para o abstrato? Outro aspecto relevante no que tange à formação dos agricultores é ressaltado por Schmelkes (1981, p. 311-12) quando analisa o Plano Milho no México, evidenciando que os efeitos sobre a modernização das práticas agrícolas pesam significativamente sobre as condutas técnicas, mas não sobre os conhecimentos técnicos. As recomendações são 98 aplicadas, mas os agricultores não sabem o que fazem. Porém, entre aqueles agricultores que contavam com maiores conhecimentos prévios, seja pela escolarização ou por morarem em ambientes mais ricos em sociabilidade, ocorria um aumento dos conhecimentos técnicos. Semelhante conclusão foi dada por um dos colegas entrevistados nesta pesquisa, que afirmou sobre a existência de diferença no trabalho quanto à escolarização: “Sim. Na verdade tem [diferença]. A gente observa muito bem na hora de escolher os líderes nas tarefas de grupo. Escolarizados se destacam, assumindo os cargos de direção. Há uma diferenciação. E também no entendimento. “ (Extensionista 5). A agricultura é muito complexa enquanto atividade e muito diversificada enquanto categoria. São vários públicos, variados projetos de vida. Isso impede que alguém, por mais excelência técnica que tenha, conheça uma parte significativa que possa se tornar razoavelmente preciso na tomada de decisões, dispensando o auxílio de outros. A Extensão Rural terá de trabalhar numa perspectiva que contemple diferentes olhares e com uma variedade de ações para contemplar o múltiplo, enfim, na direção da polifonia. Sobral (2005) lembra que o agir humano se define em termos de atos singulares, mas atos absoluta e irredutivelmente singulares exigiriam agentes únicos, situações irrepetíveis, impedindo qualquer generalização. Isso nos deixaria sob a tirania da eterna redescoberta do agir. Por outro lado, uma generalização que junte atos, sem respeitar o que neles existe de singular, tem como pressuposto agentes idênticos e uma única situação de ação que não corresponde à condição humana. Esse é um risco para uma nova Extensão Rural? Qual é a maneira para evitar que ela seja uma colcha de retalhos? Qual o cuidado para que ela não invista seus esforços naquilo que pode ser “uma leitura fragmentada e muitas vezes pontual [...] num período em que paradoxalmente, se imponham processos de homogeneização e de standards 99 de comportamento mundializados” (FONTES, 2001, p. 121), caindo num particularismo que a torne vulnerável frente a onda global de massificação? Além desse cuidado para não formar guetos, outro desafio da Extensão Rural é fazer parte do cotidiano daqueles com que trabalha. Não se trata de defender a permanência dos serviços da maneira que está posta; longe disso, apenas deixar claro que relações esporádicas como cursos e treinamentos, seja em centros de treinamento ou em atividades nas comunidades como são feitas por algumas entidades que prestam serviços de capacitação de agricultores, podem suprir alguma deficiência momentânea, mas geralmente não contribuem muito para a formação dos agricultores. Porém, a Extensão Rural permanecer no meio deles sem contribuir com o desenvolvimento, sem realizar uma aprendizagem que impulsione o desenvolvimento, também não faz sentido. Diante do exposto, afirmo que não basta a preocupação e a sensibilidade necessária de buscar a comunicação. A Extensão Rural agroecológica tem de assumir a preocupação em desenvolver conceitualmente os agricultores(as), para permitir que avancem nas análises de seus problemas, raciocinando além de sua condição concreta, dando-lhes autonomia e dispensando a tutela do técnico. Pode parecer uma incoerência tal afirmação. Afinal, apresentei argumentos sobre as limitações da razão técnica instrumental, defendendo uma postura em favor de uma “razão mais aberta”; e, agora, faço a defesa de um “choque de conceitos”? Um dos primeiros caminhos para utilizarmos o conhecimento é romper a ditadura dos técnicos e doutos. Diante de tantos percalços que a verdade única da ciência tem encontrado, propiciar que mais pessoas cientifiquem-se de seus limites pode favorecer mudanças. Quem não conhece uma questão, 100 não tem como refletir sobre ela. Além disso, a situação de degradação do ambiente e da sociedade moderna não nos permite iniciar do zero, através de processos de aprendizagem baseados em tentativas e erros, reféns da “tirania da eterna redescoberta do agir”. Da mesma forma, os estudos de populações indígenas ou outros sistemas de produção, ainda não tão “contaminados” pelo valor de troca, poderão fornecer-nos importantes aportes de conhecimento, mas não significam a construção de um outro sistema de conhecimento. Tais análises, comuns na Agroecologia, só são possíveis graças aos avanços científicos, conforme muito bem explicou Marx (1995) ao definir que a chave da anatomia do macaco é a anatomia do homem, ou seja, o desenvolvimento de um mesmo fenômeno em níveis superiores permite melhores estudos de fases inferiores. Não se trata do exemplo platônico de defender a razão para conduzir a “charrete” e controlar os “cavalos” Desejo e Vontade. Trata-se de defender que todos, inclusive os agricultores, possuam elementos suficientes para conduzir suas “charretes” pelos caminhos que sejam possíveis e julguem adequados. Lembrando a bela metáfora de que fazer ciência é construir um barco em pleno oceano, pergunta-se: não teríamos mais sucesso se fôssemos bons carpinteiros? Sendo esses pressupostos aceitos, fica ainda a pergunta: como é possível fazer isso? De que forma podemos avançar nesse sentido? Os métodos de trabalho da Extensão Rural dão conta, hoje, dessa tarefa? Certamente não. A Extensão Rural avançou muito em métodos de diagnóstico participativo, permitindo ótimos resultados no levantamento das problemáticas, dos temas que deveriam ser trabalhados. Contudo, na hora do prognóstico, mesmo que existam outros caminhos possíveis, quase sempre predomina uma solução de especialistas. Essa parece ser a grande lacuna que a Extensão Rural apresenta no momento. Nas palavras 101 dos colegas entrevistados: “Como lidar com a diversidade e dinâmica dos grupos... como organizar e manter o grupo funcionando?” (Extensionista 5). Isso mostra que, depois de um tempo, não mais basta uma boa prosa para manter a atenção e o interesse dos grupos organizados. Outra dúvida, posterior, mas intensamente imbricada com essa, é saber: “quando vão conseguir caminhar com as próprias pernas, sem ninguém para auxiliar? Através do acompanhamento isso será atingido?” (Extensionista 5). Como melhorar a construção dos saberes rumo à autonomia? Para suprir as deficiências, alguns estudos realizados a partir da concepção históricocultural podem ajudar. Uma primeira contribuição seria adequar a proposta de situações de estudo (MALDANER, 2004) para atividades de formação e experimentação participativa com os agricultores. Por que pode ser importante a aqdequação das situações de estudo? Pelas seguintes razões: a) permite uso dos conceitos num “processo de conceitualização ascendente”; b) permite o respeito pelo saber das partes envolvidas nas relações da atividade extensionista; c) possibilita a participação; d) permite uma estruturação, um plano de aula em determinadas áreas que garantiria um acúmulo não só para os participantes e sim para toda a instituição; e) pode favorecer intercâmbios ou parcerias institucionais e, por fim, mas algo muito importante, f) tem condições de unir a teoria e a prática. A outra frente de estudos poderia ser uma maior atenção sobre o papel da escrita e da leitura, enfim, da escolarização na organização do pensamento como apresentado por Oliveira (1996), algo que faria muitos Extensionistas questionarem a quase exclusividade da oralidade em seus métodos de trabalho, com a ausência de ferramentas que utilizem a escrita e a leitura. Essa questão surgiu da seguinte forma nas entrevistas: “A grande maioria da nossa agricultura deixa muito a desejar em aspectos técnicos. Um pouco, talvez, é motivado pelo baixo grau de 102 estudo [...] o baixo grau de leitura” ( Extensionista 3). Mas o que a Extensão tem feito para melhorar ou criar o hábito de leitura? Hoje, pela utilização plena de espaços em TV e rádio, pouco material impresso é distribuído, e quando o é, geralmente é mais marketing e divulgação de programas do que aspectos educativos. Já a melhoria no entendimento das condições de participação e diálogo nas atividades realizadas pela Extensão Rural poderia receber a colaboração dos estudos de participação em sala de aula, o que traria novas luzes para aquelas avaliações feitas após as reuniões, geralmente nos veículos empoeirados, do tipo “viu o que aquele fez”,” “o que será que ele quis dizer”, “porque eles ficaram tão quietos” e deixariam os profissionais mais seguros, aptos a dialogarem mais, conversarem mais e melhorarem o seu trabalho. 103 CONSIDERAÇÕES FINAIS “Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente (...) Cada um de nós compõe a sua própria história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz” (Renato Teixeira) Pensar sobre a educação que é necessária, e ao mesmo tempo possível, para agricultores e agricultoras sempre requer algumas delimitações, pela vastidão que o tema possui e as várias abordagens que podem ser feitas. Para encerrar a dissertação quero destacar duas. A primeira é quem é ou vai ser o sujeito; e a segunda quais são os propósitos e interesses da sociedade em geral que estarão sendo defendidos. Em relação à educação que deve ser feita com os agricultores, primeiro devemos ter muito claro a enorme diversidade entre aqueles que trabalham em atividades agrícolas ou moram em áreas rurais ou rurbanas15? Não existe um produtor ou produtora apenas. As diferenças são imensas entre a população rural do Brasil. Nem mesmo se aceita essa categoria única (o produtor), pois se reconhece a especificidade dos públicos especiais como quilombolas, indígenas, pescadores e tantos outros. Reconhecimento que veio graças a uma 15 Sobre essa questão vale a pena acessar http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/divulg/novorural.html e 104 maior visibilidade na esfera pública, alcançada por meio de uma árdua luta. São agricultores e agricultoras familiares, jovens, quilombolas, sertanejos, pecuaristas familiares, assentados, reassentados, pescadores artesanais, indígenas, e tantas categorias de público para o trabalho da Extensão Rural que merecem ter suas particularidades e anseios respeitados.? Diante disso, a opção teórica a ser escolhida para embasar a ação educacional da Extensão Rural não pode ser redutora e homogeneizadora.Ela deve garantir em seus conceitos básicos e no instrumental de análise para o trabalho uma perspectiva mais complexa e de respeito a diversidade destacada acima.Entretanto, ela não pode se limitar tão somente a respeitar, reconhecer ou reforçar essas especificidades.Se não pode atender como todos fossem iguais, também não pode se limitar ao particularismo, numa posição ingênua e reduzida, negando a socialização mais abrangente que a dimensão local ou regional possui no mundo de hoje. Isso remete a segunda questão enunciada anteriormente. Qual é o conteúdo e quais interesses e propósitos que a atividade educativa da Extensão Rural deve obedecer. Penso que o agricultor necessita de uma educação científica e tecnológica igual ou possivelmente superior a muitos trabalhadores urbanos. Por que essa afirmação? Porque as necessidades de conhecimento sistematizado para ser um agricultor são mais complexas que as de um operário numa esteira de produção. Antes, numa abordagem neoclássica, a agricultura sendo vista apenas como produtora de matéria-prima para a indústria, produzindo divisas e alimentos a preços baixos, treinar os agricultores para produzir “commodities” era a finalidade da Extensão Rural. Os produtos eram justamente aqueles mais necessários às cadeias agroindustriais ou à dieta alimentar da nação. Nessa perspectiva, a Extensão Rural tinha um papel clássico na modernização euroamericana da agricultura, fornecendo os conhecimentos necessários (não mais dos que os 105 necessários) para que os agricultores se tornassem racionais, isto é, operassem a partir da razão técnica instrumental, abandonando visões mágicas ou pseudocientíficas da realidade. De posse dessa ferramenta, mais algumas que o Estado ou o Mercado ofereciam, as imperfeições do sistema seriam corrigidas. Tudo era uma questão de tempo. O caminho do sucesso era esse, bastava ter paciência que sua vez chegaria. E a Extensão Rural estava lá para ajudar. Entretanto, após a consolidação desse modelo no meio rural brasileiro, o papel da Extensão Rural fica diluído e parte de suas atividades passa a ser incorporada por outras empresas e cooperativas agrícolas, deixando o setor numa encruzilhada. É incontestável que atualmente a agricultura tem sua função ampliada. O debate e as pesquisas sobre a multifuncionalidade e a pluriatividade da agricultura, em especial a familiar, mostram que o agricultor não mais é um mero produtor. Além dessa situação concreta,de mudanças ocorridas nas atividades desenvoilvidas pelo público mais próximo,existe uma ampliação na expectativa que a população urbana, consumidora de mercadorias e serviços, passa a ter sobre o desenvolvimento rural. Não se restringe mais aos moradores rurais ou rurbanos essa problemática.Aqueles que indiretamente tem suas vidas ligadas a atividade agrícola, também opinam e influenciam o rumo do desenvolvimento pretendido. Diante desse novo cenário, é possível a Extensão Rural contribuir com esse desafio? Entendo que sim. Através do estudo das transformações que o sistema de produção capitalista impôs ao setor e do comportamento que a Extensão Rural teve no caso brasileiro, fica claro que a construção desse modelo de fazer agricultura levou muito tempo, muitos recursos, muito suor e sangue (grilagem, banditismo, repressão sindical) para se instalar no país. Desconstruí-lo e colocar no seu lugar uma forma de agricultura que seja mais sustentável e justa também levará tempo. É trabalho para várias gerações; mesmo que o imperativo 106 ecológico, a pobreza crescente e a possibilidade da barbárie coloquem essa questão como necessária e urgente. A Extensão Rural tem condições de auxiliar nessa tarefa, ao invés de acreditar que o caminho apontado pela modernização sob o modelo euro-americano seja uma solução para a agricultura. Obviamente, não será tarefa fácil. Questionar os setores hegemônicos e seus interesses reais e imediatos apresenta muitas dificuldades; deixa aqueles que o fazem sujeitos a toda sorte de constrangimentos, de coerção, intimidação ou tantas outras formas, veladas ou explícitas, de repressão. Mas é uma luta necessária e que vale a pena. Estamos “sujeitos” a tudo isso. 107 REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. (Org.). Reconstruindo a Agricultura: idéias e ideais na perspectiva do desenvolvimento sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1997. ALTIERI, M. Agroecologia - as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA, 1989. ABRAMOVAY,Ricardo. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. Campinas: Ed. Unicamp,1992,275 p. BICCA, E. F. Extensão Rural da pesquisa ao campo. Guaíba: Agropecuária,1992. BORDENAVE, Juan Díaz. A Transferência de tecnologia e o pequeno agricultor. IICAInstituto Interamericano de Cooperação Agrícola. Série Publicações Miscelâneas, n. 23, jan.1980. BOSERUP, E. 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