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Aná­po­lis, de 11 a 17 de setembro de 2015
geral
ENTREVISTA / IRAPUAN COSTA JÚNIOR
“Vivemos hoje em um País com
muitos abalos no campo político”
Um dos políticos mais influentes de Goiás durante mais de três décadas, retornou à Cidade para ministrar palestra sobre
ideologia comunista que está na sombra do poder em países da América do Sul
Claudius Brito
O
ex-governador;
ex-senador,
ex-deputado federal
e ex-prefeito de Anápolis,
Irapuan Costa Júnior esteve na Cidade, na noite
da última quarta-feira, 09,
para ministrar uma palestra a convite da Associação dos Diplomados da
Escola Superior de Guerra
(ADESG) e da FIEG Regional Anápolis, para um seleto grupo de lideranças
políticas e empresariais.
O tema abordado foi sobre
a teoria do filósofo italiano Antônio Gramsci, cujo
ideário vem sendo propagado no mundo e, de forma evidente, nos países
da América do Sul, dentre
eles, o Brasil, tendo como
cerne o que ele apelidava
de Filosofia da Pax, o que
nada mais era do que o comunismo e meios de ação
que foram detalhados em
33 cadernos escritos por
Gramsci durante os anos
em que ficou preso pela
ditadura fascista à época
instalada na Itália.
Antes da palestra, Irapuan Costa Júnior concedeu uma entrevista fazendo uma abordagem sobre
o período de sua participação política e administrativa em Anápolis e em Goiás
e a sua visão sobre o panorama atual da política brasileira. Segue a entrevista:
Quando foi Prefeito de
Anápolis, na década de
70, o senhor montou um
secretariado com pessoas
consideradas bem sucedidas à época. Hoje, as equipes de governo, em qualquer esfera, são montadas
mais por competência ou
por influência política?
Empresários, lideranças classistas e convidados especiais ouviram a palestra do ex-governador de Goiás esta semana em Anápolis
que, até então, não tinha
tido uma correspondência
grande (em termos de investimentos), dos governos Federal e Estadual. E,
o que fizemos foi ir de encontro a esta vocação anapolina e tivemos o apoio
de todas as entidades e a
prova que estávamos certos com aquela união é que
hoje o que eu considero o
distrito industrial mais
bem estabelecido - não o
maior - do Brasil.
Na época, o senhor
também apresentou uma
emenda
constitucional
na Assembleia Legislativa de Goiás, retirando o
benefício da pensão vitalícia dos ex-governadores.
Continua
comungando
este pensamento?
Irapuan Costa Júnior
- Hoje é mais pela composição política que o governo, seja ele municipal,
estadual ou federal precisa
para ter a sua ação política. E isso, se não for feito
com muito cuidado, acaba
trazendo problema. Pode
ser que um secretariado
seja montado politicamente, mas não pode ser
este o único critério. Tem
que ser montado politica
e tecnicamente. Quem vai
ocupar uma função pública pode ser indicado por
um partido, mas tem de ter
uma formação compatível
com a função que vai exercer. O que acontece muito
hoje no Governo Federal
é que não tomaram esse
cuidado. Os partidos que
apoiaram o ex-presidente
Lula poderiam sim ser indicados, mas teriam de ser
pessoas competentes.
Irapuan Costa Júnior Comungo. Esta pensão era
constitucional, artigo 40
da Carta Estadual e dava
aos ex-governadores, mesmo que tivessem exercido
um período curto, o direito
a uma pensão equivalente
ao que percebe um desembargador do Tribunal de
Justiça. E nós não achávamos justo, como não
acho até hoje, uma pessoa
que exercia a função ter a
maior aposentadoria que
poderia ter no Estado. E foi
com muita tranquilidade
que nós propusemos, então, a retirada deste artigo
da Constituição do Estado e a Assembleia aceitou
nossa proposta e revogou.
Quando o senhor foi
Governador, uma das
ações voltadas para Anápolis foi a construção do
Distrito Agro Industrial.
Foi um presente para a Cidade. Mas, naquela época,
houve alguma resistência
à implantação do DAIA?
Irapuan Costa Júnior Eu acompanho à distância.
Afinal, nós estamos vivendo num País que tem sofrido muitos abalos políticos
e a gente se preocupa com
os filhos e netos. Continuo
acompanhando e torcendo
para que tudo dê certo.
Irapuan Costa Júnior
- Não encontrei resistência. Anápolis sempre teve
uma vocação industrial, só
O que o senhor acha
dessa questão do impeachment da Presidente Dilma
Rousseff, que vem sendo
O senhor continua
acompanhando a política
anapolina e a política goiana, mesmo estando fora
dela já há algum tempo?
debatida e é uma questão
bastante controversa?
Irapuan Costa Júnior Nós estamos vivendo uma
situação tão difícil de corrupção e de incompetência, que qualquer coisa
que aconteça, desde que
aconteça dentro do quadro constitucional, dentro
da lei e com certa pacificação, é melhor do que o
que temos hoje, porque a
expectativa de continuar
um governo com três anos
de recessão econômica e
com desemprego, vai ser
um preço muito alto para
a sociedade brasileira pagar. Tem muitas famílias já
prejudicadas pelo desemprego, pela quebradeira de
empresas, as indústrias estão num processo difícil de
recuperação. Então, acho
que alguma coisa precisa
acontecer e rápido.
O senhor vê algum cenário para que haja uma
mudança próxima na economia do País?
Irapuan Costa Júnior Infelizmente, não. Neste
momento não vejo, a não
ser que haja um impedimento e, por outro lado,
nós sabemos que a oposição é fraquíssima. De
modo que não existe no
horizonte uma boa solução. Pode ter uma pequena
melhora. E isso já não é de
se jogar fora numa situação que estamos vivendo.
Tem alguns setores da
sociedade que defendem a
volta dos militares ao poder. O senhor, o que acha
desta ideia?
Irapuan Costa Júnior Eu vivi isso. Os governos
militares fizeram muitas
coisas boas. Primeiro, os
militares planejam, são organizados. Coisa que nós
não vimos mais da década
de 80 para cá. Um País do
tamanho do Brasil gerido
sem planejamento é dinheiro jogado fora. Segundo, foi uma época de muita honestidade. Nenhum
militar e nenhum filho de
militar no poder saiu rico.
Irapuan Costa Júnior: uma das mais completas biografias de Goiás nas últimas três décadas
E, essas duas coisas são
muito importantes. Mas
eu acho que hoje, até do
ponto de vista internacional, não há clima para isso
mais. O mínimo poderia
acontecer seria uma intervenção para colocar um
pouco de ordem na casa e
convocar eleição para daí a
90 dias.
O senhor veio a Anápolis ministrar uma palestra
a respeito de um filósofo italiano que pregava o
comunismo. Este tipo de
manifestação aqui no Brasil e na América do Sul
ainda é propagado, exerce
influência?
Irapuan Costa Júnior
- Eu faço esta palestra em
vários lugares, porque
acho muito importante
este filósofo italiano que,
no meu ponto de vista e
de muitas pessoas que estudaram os sistemas políticos da década de 20,
se mostrou muito mais
inteligente que o próprio
Karl Marx, do que Lênin
e Trotsky, porque as previsões da luta de classes
da teoria marxista não se
realizaram. Em nenhum
país, cumpriram o que
prometeram de fazer uma
sociedade afluente, rica,
desenvolvida. Pelo contrário, a pobreza sempre se
instalou com o regime comunista. E o que acontece
é que o Gramsci, ao contrário dos outros filósofos
da linha de Marx e Engels,
foi muito competente em
articular como chegar ao
poder. Depois que chega
ao poder, não faz milagre
um governo que não valoriza a vontade individual.
Entende o homem como
um ser fundido na massa.
E isso não é verdade, as
pessoas têm as suas aspirações, pensam diferente,
têm a sua vontade e o desejo de se realizar profissionalmente. Cada um de nós
gosta de seus filhos, gosta
de sua mulher de forma diferente. Então, o comunismo já demonstrou que não
funciona. Mas, o Gramsci
ensina como chegar lá. E
o que ele pensou - e que
hoje se faz de forma planejada - já aconteceu na
Venezuela, na Bolívia e no
Equador. No Brasil, já caminhou muito, numa ação
organizada que começou
em 1990. Então, eu estou
dando um alerta para que
nós possamos terminar
com esta ação, antes que
ela já produza mais estragos do que já produz.
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