APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
1
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
FACULDADE INTEGRADA DA
GRANDE FORTALEZA
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Diolema Ferreira Gomes de Oliveira
Emília passos de Oliveira Bezerra
José Rogério Viana de Oliveira
2
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
COPYRIGHT ©2007 BY EDITORA GRANDE
FORTALEZA
ESTA OBRA OU PARTE DELA NÃO PODE SER
REPRODUZIDA POR QUALQUER MEIO SEM A
AUTORIZAÇÃO DO EDITOR.
FACULDADE INTEGRADA DA GRANDE
FORTALEZA
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Capa
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Tel. (85)3299-990/Fax. (85)3496-4384
[email protected]
Bezerra, Emília Passos de Oliveira Bezerra; Oliveira,
Diolema Ferreira Gomes de; Oliveira, Viana José
Rogério .Aplicação da Teoria Literária . Fortaleza:
Editora Grande Fortaleza FGF, 2007.
78p. 21 cm.
1.Teoria Literária 2. Poética 3. Crítica 4. Estética
Catalogação da Publicação: Biblioteca
CentralProfa. Antonieta Cals de Oliveira-FGF
3
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
SUMÁRIO
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Objetivo Geral.................................................. 9
UNIDADE I
A FORMAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Objetivos.......................................................... 10
UNIDADE I
TEMA 1 TEORIA LITERÁRIA
Objetivos Específicos ...................................... 11
1.1 Introdução.................................................. 12
1.2 Resumo ..................................................... 14
1.3 Auto-avaliação ........................................... 15
1.4 Bibliografia ................................................. 15
TEMA 2 A PERSPECTIVA HUMANÍSTICA DA
LITERATURA
Objetivos Específicos ...................................... 16
2.1 Introdução.................................................. 17
2.1 Retórica ..................................................... 17
2.3 Poética....................................................... 18
2.4 Estética ...................................................... 19
2.5 Resumo ..................................................... 19
2.6 Auto-avaliação ........................................... 20
2.7 Bibliografia ................................................. 20
4
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
TEMA 3 A PERSPECTIVA CIENTÍFICA DA
LITERATURA
Objetivos Específicos ...................................... 21
3.1 Introdução.................................................. 22
3.2 História da Literatura ................................. 22
3.3 Crítica Literária .......................................... 26
3.4 Ciência da Literatura.................................. 27
3.5 Teoria da Literatura ................................... 28
3.6 Resumo ..................................................... 29
3.7 Auto-avaliação ........................................... 30
3.8 Bibliografia ................................................. 30
TEMA 4 OS CAMPOS DE ESTUDO
Objetivos Específicos ...................................... 31
4.1 Introdução.................................................. 32
4.2 Resumo ..................................................... 34
4.3 Auto-avaliação ........................................... 34
4.4 Bibliografia ................................................ 34
TEMA 5 A PRÁTICA DA ANÁLISE LITERÁRIA
Objetivos Específicos ...................................... 35
5.1 Princípios Gerais ....................................... 36
5.2 Resumo ..................................................... 40
5.3 Auto-avaliação .......................................... 40
5.4Bibliografia .................................................. 40
5
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE II
O APARECIMENTO DAS CORRENTES
Objetivos.......................................................... 41
TEMA 1 CORRENTES TEXTUALISTAS
Objetivos Específicos ...................................... 42
1.1 Crítica Biográfica ....................................... 43
1.2 Crítica Determinista ................................... 43
1.3 Crítica Impressionista ................................ 44
1.4 Crítica Formalista....................................... 44
1.5 Estilística.................................................... 45
1.6 A “Nova Crítica” ......................................... 47
1.7 Resumo ..................................................... 48
1.8 Auto-avaliação ........................................... 48
1.9 Bibliografia ................................................. 48
TEMA 2 CORRENTES ÉTICO-POLÍTICAS E/OU
SOCIOLÓGICAS
Objetivos Específicos ...................................... 50
2.1 Crítica Existencialista................................. 51
2.2 Crítica Marxista.......................................... 51
2.3 Crítica Sociológica ..................................... 52
2.4 Estética da Recepção................................ 52
2.5 Resumo ..................................................... 53
2.6 Auto-avaliação ........................................... 53
2.7Bibliografia .................................................. 54
6
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
TEMA 3 A TEORIA LITERÁRIA COMO CIÊNCIA
Objetivos Específicos ...................................... 55
3.1A Teoria Literária constitui ou não uma ciência?
......................................................................... 56
3.2 Resumo ..................................................... 57
3.3 Auto-avaliação ........................................... 57
3.4 Bibliografia ................................................. 60
TEMA
4
A
CONTRIBUIÇÃO
DE
ROLAND
BARTHES
Objetivos Específicos ...................................... 61
4.1O Prazer do Texto – Obra E Texto ............. 62
4.2 Resumo ..................................................... 64
4.3 Auto-avaliação ........................................... 65
4.4 Bibliografia ................................................. 65
TEMA
5
OS
CAMINHOS
DA
CRÍTICA
BRASILEIRA
Objetivos Específicos ...................................... 66
5.1 Breve Histórico ......................................... 67
5.2 Resumo ..................................................... 68
5.3 Auto-avaliação ........................................... 68
5.4 Bibliografia ................................................. 68
7
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
8
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Objetivo Geral
•
O módulo de Teoria Literária I propõe o amplo
estudo acerca da atividade crítica como
método à interpretação do texto literário, a
partir dos critérios desenvolvidos ao longo do
processo de estruturação do tema enquanto
disciplina.
9
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE I
A FORMAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Objetivos
•
Destacar o papel da Teoria da Literatura na
compreensão do fazer literário; as perspectivas
humanística e científica e seus elementos
formadores; o campo de estudos e os limites
das disciplinas conexas como Lingüística,
Sociologia, Psicologia etc.; bem como uma
reflexão sobre a importância da prática
analítica dos textos literários.
10
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE I
TEMA 1
TEORIA LITERÁRIA
Objetivos Específicos
•
Reconhecer a Teoria Literária como campo
metodológico à compreensão do fazer literário.
11
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
1.1 Introdução
Como compreender a natureza do literário
segundo a Teoria Literária?
Conhecida como Teoria Literária, Crítica Literária,
às vezes, Teoria Crítica, esta disciplina propõe
estabelecer uma base teórica capaz de
compreender o fenômeno literário.
Sabemos que toda interpretação parte de um
método de estudo; no caso da interpretação
literária, o objetivo da Teoria Literária é o de
formular critérios consistentes, como: a relação
autor e obra, a base temática que permeia o texto,
as abordagens históricas, a relevância lingüística,
sua caracterização, através da distinção dos
elementos que a compõem, bem como os
elementos inconscientes do texto etc.
Como
atividade
de
investigação, a crítica se
exerce no sentido de
conduzir-se para dentro
dos vestígios deixados
pelo literário. Assim, a
teorização
sobre
o
objeto literário leva à
constituição
de
um
método de estudo, decorrente do próprio objeto.
Se nos voltarmos para a etimologia da palavra
método, melhor apreenderemos o seu significado:
do grego méthodos, de meta- e hodós estrutura-se
a idéia de caminho para e por onde. Esse caminho
de penetração na obra deve ser apontado por ela,
deve atender à sua especificidade, não podendo,
por
isso,
traçar-se
aprioristicamente.
A
12
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
metodologia não pode pressupor o texto. O
método, em sua atuação dinâmica, é o próprio
objeto funcionando.
Cabe à crítica literária desempenhar suas funções
de caracterização da obra, objetivando reconduzila à sua origem, ao seu fundamento. Qualquer que
seja a via de acesso escolhida (sociológica,
psicológica, lingüística), deve ser entendida como
um modelo de investigação dinâmico e aberto às
inúmeras possibilidades.
O investigador deve ter a consciência de que sua
via de acesso à obra não é a única, nem a totaliza.
Isto porque toda produção literária transcende as
fronteiras do explícito e do implícito e nos guia
incessantemente para o não-limite, para o velado
território que se esconde na descoberta de cada
imagem.
A crítica conjuga um modo de ser (da obra) com
um modo de ver (do crítico), ambos plantados
historicamente. Vejamos um exemplo:
O Boi e a Rã:
Uma rã viu um boi que tinha uma boa estatura.
Ela, que era pequena, invejosa, começou a inflarse para igualar-se ao boi em tamanho. Depois de
algum tempo, disse: — Olhe-me, minha irmã, já é
o bastante? Estou do tamanho do boi:
— De jeito nenhum.
— E agora?
— De modo algum.
— Olhe-me agora.
— Você nem se aproxima dele.
O animal invejoso inflou-se tanto que estourou.
13
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
(apud. Fiorin,
2003, p.101).
Poderíamos perguntar: qual o modo de ser do
texto em questão? Trata-se de uma história de
animais ou de homens? Os personagens são as
duas rãs e o boi, que são animais. No entanto,
certos termos, como “invejosa”, “disse”, como
querer igualar-se ao boi são elementos próprios do
ser humano. Há no texto então um traço de
significação humano, o que nos obriga a ler a
fábula como uma história de gente. No plano
humano, a rã não é a rã, mas o homem invejoso
que faz tudo para igualar-se a quem ele inveja.
Aspectos particulares ao formato do texto como o
gênero narrativo, a base temática, os traços
semânticos, a coerência lingüística, etc alicerçam
as bases interpretativas inscritas no próprio texto
em questão.
Caberá ao leitor (ao “modo de ver”), agrupar os
elementos significativos (temas, figuras, traços
semânticos, linguagem particular etc), percorrê-los
por inteiro, localizando suas recorrências e
particularidades, a fim determinar um plano de
leitura, de interpretação.
Há textos que permitem mais de uma leitura. As
mesmas figuras podem ser interpretadas segundo
mais de um plano de leitura, outras não.
1.2 Resumo
A Teoria Literária é a disciplina que estabelece
métodos de estudo à interpretação do texto
literário, a partir de critérios como a relação autor e
obra, a base temática, as abordagens históricas,
14
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
os aspectos lingüísticos etc. Mas, é, sobretudo, a
partir do próprio texto que a investigação literária
deve acontecer.
1.3 Auto-avaliação
A que conclusões podemos chegar de acordo com
o trecho: “a crítica conjuga um modo de ser (da
obra) com um modo de ver (do crítico), ambos
plantados historicamente”. Escreva um pequeno
texto a partir das suas reflexões.
1.4 Bibliografia
•
•
•
•
•
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
15
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE I
TEMA 2
A PERSPECTIVA HUMANÍSTICA DA
LITERATURA
Objetivos Específicos
•
•
Identificar os elementos formadores do termo
Teoria da Literatura, tendo como parâmetros
duas
perspectivas:
1.
a
perspectiva
humanística representada pelas disciplinas
Retórica, Poética, Estética; 2. a perspectiva
científica com as disciplinas História da
Literatura, Crítica Literária e Ciência da
Literatura;
Delimitar seu campo de estudos e status
enquanto disciplina e o estabelecimento dos
seus limites com disciplinas conexas, como
Lingüística,
Sociologia,
Psicologia,
Antropologia, etc;
16
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
2.1 Introdução
As disciplinas humanísticas constituem a própria
base do ideal de cultura representado pelo
Humanismo. Essas disciplinas são a Retórica, a
Poética e a Estética.
2.2 Retórica
A Retórica surge na
Sicília no século V a.
C., como estratégia
discursiva de um fato
político-econômico,
convinha
ser
eloqüente
para
convencer;
considerada
como
habilidosa
manipulação técnica
da linguagem, capaz de convencer e render
admiração social pelo brilho dos efeitos verbais,
mesmo quando a argumentação se põe em
desacordo com a verdade. Logo após, torna-se
instrumento dos profissionais da palavra, os
especialistas do discurso, prestando com seu
know-how serviços remunerados (cobravam as
aulas de eloqüência), e dele auferindo
reconhecimento social.
“Segundo Barthes, a âmbito da Retórica comporta
seis práticas afins: 1ª - uma técnica, ou arte, no
sentido clássico (a arte da persuasão); 2ª - um
ensino (foi matéria de exercícios, lições, provas);
3ª - uma ciência ou protociência (delimitado campo
17
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
de observação dos
efeitos
da
linguagem;
classificação desses
efeitos;
metalinguagem); 4ª uma moral (sistema
de regras); 5ª - uma
prática
social
(técnica que assegura aos segmentos sociais
dominantes a propriedade da palavra); 6ª - uma
prática lúdica — uso caricato do sistema de
regras”. (apud SOUZA, 1987, p.30).
2.3 Poética
Retórica
e
Poética
são
disciplinas que nem sempre se
apresentam com clareza. O
primeiro tratado sistemático
acerca da disciplina Poética é
o de Aristóteles, que a entende
como imitação do real. Na
Idade Média, ela se dilui na
Retórica com os tratados de
versificação,
voltados para o inventário e descrição das formas
poéticas consagradas na Antiguidade. A partir do
século XV e início do século XVI, a Poética inicia
seu ciclo final que se prolonga até o século XVIII.
Hoje o nome Poética concorre com Teoria da
Literatura, servindo para designar a disciplina
contemporânea cujo campo é a Literatura.
18
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Poética também deve ser entendida, segundo Paul
Valéry, como obra do espírito. O espírito vai e
volta, modifica o que é produzido por seu ser mais
interior, através da sensação particular do
julgamento dos outros. É fruto de longos cuidados
e reúne uma quantidade de tentativas, de
repetições, de eliminações e de escolhas. Exigindo
meses de reflexão e pode supor também a
experiência e as aquisições de uma vida inteira.
2.4 Estética
Somente a partir do século XVIII a Estética é
transformada numa disciplina autônoma. Ela
comparece à cena da investigação da Literatura,
como disciplina autônoma e individualizada pelo
nome que lhe é próprio. Segundo estudos de
Baumgarten, a Estética está circunscrita aos fatos
ligados à sensibilidade e à percepção. Alinhada
com um conceito de Arte, colocando-se em
consonância tanto com a ordem da emergente
Ciência moderna, quanto com a ideologia do
Romantismo, a Estética se habilita a tomar, no
campo da investigação da Literatura, o lugar até
então ocupado pela Retórica e pela Poética.
2.5 Resumo
A Retórica, a Poética e a Estética são instâncias
reflexivas, pois são disciplinas abrangentes da
Filosofia. Inicialmente, a Retórica se cristalizou
como a arte da oratória, e a Poética como a arte
da poesia, embora sejam consideradas irmãs
(quase siamesas). A Estética se habilita a tomar,
19
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
no campo da investigação literária, o lugar
ocupado pela Retórica e pela Poética, ao
encaminhar um entendimento da linguagem como
transparência aos fatos de razão e sensibilidade.
2.6 Auto-avaliação
De acordo com o estudo realizado, podemos dizer
que as palavras que melhor definem as disciplinas
Retórica, Poética e Estética são persuasão,
imitação e percepção sensível? Explique.
2.7 Bibliografia
•
•
•
•
•
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
20
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE I
TEMA 3
A PERSPECTIVA CIENTÍFICA
DA LITERATURA
Objetivos Específicos
•
Identificar o processo de construção das novas
realizações de investigação da Literatura
através da história.
21
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
3.1 Introdução
A investigação da Literatura no século XIX se
desenvolveu no sentido de desagregar a síntese
construída pelos resultados convergentes das três
disciplinas humanísticas já consideradas. Desse
modo impõem-se novas realizações históricas de
investigação da Literatura.
3.2 História da Literatura
Na História da Literatura cabe distinguir três
diretrizes principais: biográfico-psicológica, a
sociológica e a filológica.
Ângulo biográfico-psicológico: Sobretudo a
partir da convicção romântica de gênio, que se
generalizou o estudo da Literatura como
levantamento de biografias (história do indivíduo)
bem como o estudo da Literatura não escapou à
nova sedução da Psicologia concebida como
Ciência total. Desenvolveram-se investigações da
Literatura a partir de pontos de vista psicológicos,
visando ao escritor, ao processo criador, ao
conteúdo de psiquismo presente nas obras.
Ângulo sociológico: Desde os primórdios
oitocentistas que a sociologia tem prestígio junto
aos estudiosos de Literatura. Segundo Antônio
Cândido, é preciso uma correta restrição ao
enfoque sociológico da Literatura, pois nem
sempre é possível admitir relações diretas e do
tipo causal entre o literário e o social, afirmando
ser indispensável à “crítica” o seguinte: “... ter
22
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
consciência da relação arbitrária e deformante que
o trabalho científico estabelece com a realidade,
mesmo quando pretende observá-la e transpô-la
rigorosamente, pois a mimese é sempre uma
forma de poiese” (apud SOUZA, 1987, p.73). No
entanto, segundo o mesmo Antônio Cândido, há
seis modalidades básicas, além das inúmeras
variantes,
de
estudos
da
Literatura
sociologicamente orientados: 1ª - Trabalhos cuja
finalidade é estabelecer uma relação entre a
Literatura e as condições sociais, tendentes a uma
exposição paralela do social e do literário; 2ª Estudo da literatura enquanto espelho da
sociedade. Essa seria uma modalidade mais
simples e comum, tendente mais à Sociologia
elementar do que à Crítica Literária; 3ª - Estudo da
relação entre a obra e o público; 4ª - Pesquisa da
posição e função social do escritor, relacionandoas com a natureza de sua obra, a fim de, em
última instância, estabelecer os vínculos posiçãofunção social do escritor/obra/organização da
sociedade; 5ª - Estudo da função política das
obras e dos autores; 6ª - Investigação hipotética
das origens da Literatura em geral ou de certo(s)
gêneros em particular.
Vejamos o exemplo abaixo:
23
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Pivete
(Chico Buarque
Composição: Francis Hime e Chico Buarque)
No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Sobe o Borel
Meio se maloca
Agita numa boca
Descola uma mutuca
E um papel
Sonha aquela mina, olerê
Prancha, parafina, olará
Dorme gente fina
Acorda pinel
Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
24
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Se manda pra Tijuca
Na contramão
Dança pára-lama
Já era pára-choque
Agora ele se chama
Emersão
Sobe no passeio, olerê
Pega no Recreio, olará
Não se liga em freio
Nem direção
No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta
Batalha na sarjeta
E tem as pernas tortas
Ao analisarmos a canção Pivete, de Chico
Buarque de Holanda, podemos observar
elementos semelhantes que descrevem nossa
realidade social. O personagem descrito pelo autor
demonstra hábitos e atitudes das crianças
abandonadas. Há uma exposição paralela entre o
literário e o social.
Ângulo filológico: A Filologia surgiu em função
direta da Literatura, permanecendo como tal por
toda a sua longa história. Mantém-se assim por
causa da suposta neutralidade de investigação,
garantida por seu rigor técnico, objetividade,
submissão dos fatos, atenção exclusiva ao
estabelecimento e explicação dos textos.
25
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Ângulo filológico: A Filologia surgiu em função
direta da Literatura, permanecendo como tal por
toda a sua longa história. Mantém-se assim por
causa da suposta neutralidade de investigação,
garantida por seu rigor técnico, objetividade,
submissão dos fatos, atenção exclusiva ao
estabelecimento e explicação dos textos.
3.3 Crítica Literária
No século XX, a investigação mais rigorosa e
especializada do objeto literário tem evitado servirse do termo Crítica Literária, por entendê-la como
uma expressão comprometida com a atitude
impressionista. Embora a restrição à prática da
Crítica, conforme caracterizamos essa atividade,
seja um dos traços identificadores dos estudos
literários do presente, isso não significa que a
palavra tenha sido banida do vocabulário técnico,
permanecendo em uso na nomenclatura técnica
de diversas línguas. No entanto, não escapa a um
significado ambíguo, muitas vezes confundido com
o de resenha jornalística, com intuito de
divulgação/publicidade.
Vejamos o que afirma Antônio Cândido sobre a
crítica literária:
“Não posso aproximar-me da
poesia, como crítico, sem
sentir
um
certo
constrangimento.
Porque,
para fugir a uma certa crítica
detestável
de
impressões
vagas e de tiradas sem
sentido, o crítico vai se
26
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
esforçando por se exprimir em
conceitos, que são o resultado
de análises em que o seu
esforço foi - por mais que não
o
quisesse
o
de
intelectualizar as emoções.
Submeter
a
poesia
ao
processo de expressão crítica
é, de certo modo, sacrílego e
perigoso.
Sacrílego,
na
mesma medida em que o é a
crítica musical intelectualizada;
perigoso, na medida em que o
crítico sacrifica boa parte da
sua experiência poética passada em regiões e em
termos inefáveis - e se
intromete pela do leitor a
dentro.
Instituto de Estudos
Brasileiros, São
Paulo, IEB, 1994, pp.
135-139.)
(Cândido Antônio, Revista do
3.4 Ciência da
Literatura
Há dois aspectos a
considerar:
o
primeiro, o termo Ciência da Literatura constitui
uma preferência léxica da língua alemã, enquanto
27
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
realização histórica no campo dos estudos
literários; o segundo refere-se à crise do
historicismo à implantação da Teoria da Literatura,
na qual é possível detectar certa vacilação na
escolha entre os métodos e conceitos da
prestigiosa História da Literatura.
3.5 Teoria da Literatura
A expressão Teoria da Literatura está ligada à
ampla influência da obra homônima de Wellek e
Warren, publicada em 1942. Desde o início do
século XX, vieram-se desenvolvendo diretrizes de
investigação da Literatura contrárias aos modelos
biográfico-psicológico, sociológico e filológico.
Essas diretrizes cristalizaram-se em grupos e
movimentos (hoje tidos como correntes da Teoria
da Literatura). Mas convém entender por Teoria da
Literatura uma disciplina específica no campo dos
estudos literários, cuja unidade se acha
estabelecida pelo destaque dado ao texto e à
linguagem, fundamentalmente uma construção de
palavras, um arranjo verbal, um artefato de
linguagem, ideal largamente compartilhado por
inúmeras ideologias relativas à criação literária
desenvolvida no século XX, inclusive as que se
preocupam com as expectativas do receptor, bem
como a maneira como a obra literária capta a
realidade.
Segundo Luiz Costa Lima, são os “filtros”, os que
se colocam entre a obra e a realidade. Esses
“filtros” não só permitem distinguir o literário do
não-literário, mas também aponta tratamento
específico para cada gênero. Por exemplo, a
28
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
forma do soneto — presa aos catorze versos,
dispostos em dois quartetos e dois tercetos —
constitui uma forma fixa do gênero lírico. Vejamos
o exemplo em que o eu poético utiliza-se da forma
fixa do soneto para expressar à amada os seus
sentimentos mais particulares e nobres —
utilizando, portanto, o gênero lírico.
Soneto do Amor Total
(Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes)
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
3.6 Resumo
A
investigação
literária
no
século
XIX
desenvolveu-se inicialmente a partir das seguintes
diretrizes: biográfico-psicológica (história do
29
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
indivíduo/autor), sociológica (relação direta entre a
obra e a sociedade) e a filológica (rigor técnico da
linguagem). No século XX, a Crítica Literária
confunde-se com resenha jornalística, com alto
teor impressionista. Somente com os alemães, a
Ciência da Literatura pôde se ampliada. Em
princípio, como disciplina sistemática da Literatura,
ligada a fatores históricos. Posteriormente,
expressada como Teoria da Literatura, cujo campo
de estudo é o texto e a linguagem.
3.7 Auto-avaliação
Caro aluno, é possível detectar que a perspectiva
científica da literatura é uma evolução da
perspectiva humanística da literatura? Ou não, são
perspectivas
independentes,
sem
vínculos
históricos? Pesquise e aprofunde os dados.
3.8 Bibliografia
•
•
•
•
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
30
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE I
TEMA 4
OS CAMPOS DE ESTUDO
Objetivos Específicos
•
Identificar a partir do texto literário os diversos
campos de estudo.
31
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
4.1 Introdução
Segundo Massaud Moisés, a rigor “toda análise
textual é contextual”. Assim ensina a experiência.
Um escrito constitui sempre um ser vivo,
empregando regras, aberto a influxos de fora, da
cultura em que foi produzido, da Língua em que foi
elaborado, a sociedade que o motivou, dos valores
em vigência no tempo, etc. Se a tudo isso que o
envolve, que lhe informa a circunstância originária,
se atribuir o nome do contexto, é imediato
depreender que, efetivamente, toda análise textual
acaba sendo contextual.
As relações da análise literária com outras formas
de conhecimento acontecem comumente. Se um
texto implica questões psicológicas, obviamente o
analista deve reportar-se à cooperação da
Psicologia; se implica questões filosóficas, há de
recorrer à Filosofia, e assim por diante. Mas,
adotará tal procedimento “sempre que o texto o
determinar, não porque a isso o arrastem suas
opiniões e convicções ideológicas”. (MOISÉS,
1988, p.18).
Sabemos que não é fácil abstrair ou neutralizar
temperamentos e preconceitos, fantasias durante
o processo de análise, mas cumpre ao analista
assumir a isenção requerida pelo próprio
movimento da sua inteligência e sensibilidade ao
interpretar o texto que sua curiosidade elegeu. É
preciso se esforçar por impedir que a deformação
possa induzi-lo atribuir ao texto aquilo que não
possui ou não pode possuir. Por exemplo:
asseverar a existência de luta de classes nos
romances machadianos, ou deixar de perceber o
conflito social nas obras de Jorge Amado.
32
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Vejamos o poema abaixo:
Uma vez
Uma fala
Uma foz
uma bala
Uma vez
Uma fala
uma voz
Uma foz
uma voz
Uma bala
uma vez
Uma
voz
Uma vala
Uma vez
(CAMPOS, Augusto de). In: SIMON, Maria &
DANTAS, Vinícius de Ávila.
(Poesia Concreta, SP, Abril, 1982, p.28.).
Este poema apresenta como tema a violência
urbana. Escrito na década de 50 propõe a
valorização da mensagem a partir do som, da
forma visual e da carga semântica das palavras,
possibilita múltiplas leituras: a vertical, a horizontal,
a diagonal; estabelece um contexto específico,
com intenção social e política, própria ao
momento, mas que se estende ao longo dos anos.
33
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
4.2 Resumo
O texto literário traz em sua composição inúmeras
questões. Cabe ao analista reconhecer quais são
elas e de que forma são colocadas, pois o próprio
texto encaminha sua temática a um ou outro
campo de estudo, seja a Psicologia, a Filosofia. O
contexto o qual está inserido é o próprio caminho
para a análise.
4.3 Auto-avaliação
Caro aluno pode dizer que o texto é ponto de
partida e ponto de chegada da análise literária?
4.4 Bibliografia
•
•
•
•
•
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
34
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE I
TEMA 5
A PRÁTICA DA ANÁLISE LITERÁRIA
Objetivos Específicos
•
Propor uma reflexão sobre a prática da análise
literária.
35
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
5.1 Princípios Gerais
Para frutificar, a análise literária pressupõe sempre
uma teoria da Literatura, porquanto sem ela
conduz a nada, ou a superficialidades. Ao
defrontar-se com o texto, o analista há de estar
munido de aparelhagem adequada a seu trabalho.
Acima de tudo, precisará estar seguro da
orientação crítica a seguir e do conceito e limite
dos gêneros literários. O bom senso deve conduzilo, pois a proposição de algumas normas
metodológicas referentes ao comportamento
analítico deverão ser abertas, e tão flexíveis
quanto o é a própria matéria literária.
Observemos o exemplo abaixo, trata-se de um
fragmento de um capítulo de Vidas Secas, de
Graciliano Ramos:
O soldado amarelo
Era um facão verdadeiro, sim senhor, movera-se
como um raio cortando palmas de quipá. E
estivera a pique de rachar o quengo de um semvergonha. Agora dormia na bainha rota, era um
troço inútil, mas tinha sido uma arma. Se aquela
coisa tivesse tirado mais um segundo, o polícia
estaria morto. Imaginou-o assim, caído, as pernas
abertas, os bugalhos apavorados, um fio de
sangue empastando-lhe os cabelos, formando um
riacho entre os seixos da vereda. Muito bem! Ia
arrastá-lo para dentro da caatinga, entregá-lo aos
urubus. E não sentiria remorso. Dormiria com a
mulher, sossegado, na cama de varas. Depois
36
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
gritaria aos meninos, que precisavam de criação.
Era um homem, evidentemente.
Aproximou-se fixou os olhos nos do polícia, que se
desviraram. Um homem. Besteira pensar que ia
ficar murcho o resto da vida. Estava acabado?
Não estava. Mas para que suprimir aquele doente
que bambeava e só queria ir para baixo? Inutilizarse por causa de uma fraqueza fardada que
vadiava na feira e insultava os pobres! Não se
inutilizava, não valia a pena inutilizar-se. Guardava
a sua força.
Vacilou e coçou a testa. Havia muitos bichinhos
assim ruins, havia um horror de bichinhos assim
fracos e ruins.
Afastou-se, inquieto. Vendo-o acanalhado e
ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou,
pisou firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou
o chapéu de couro.
— Governo é governo.
Tirou o chapéu de couro, curvou-se e ensinou o
caminho ao soldado amarelo.
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 51. Ed. São
Paulo, Record, 1983. P.106-7).
Este é o fragmento de um capítulo de Vidas
Secas, romance escrito por Graciliano Ramos.
Sabemos que o romance é uma forma narrativa
que, embora sem nenhuma relação genética com
a epopéia, a ela equivale nos tempos modernos.
E, ao contrário da epopéia, como forma
representativa do mundo burguês, volta-se para o
homem como indivíduo. O enredo, as
personagens, o espaço, o tempo, o ponto de vista
37
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
da
narrativa
constituem
os
elementos
estruturadores do romance.
O tema de Vidas Secas se confunde com o próprio
título do romance, sendo ele constituído por
aspectos essenciais na configuração do estado de
“secura” socioeconômica e psicológica em que
vivem os retirantes das secas do Nordeste
brasileiro.
O romance apresenta descrições, com as quais se
representam personagens, objetos, espaço... Nele,
o grande investimento do autor foi na relação entre
o espaço físico (modificado pelas secas) e o
humano (as vidas que se tornam secas também).
Também podemos observar o destaque dado a
cada membro da família de retirantes, mas é de
Fabiano, seu chefe, que se faz um retrato físico e
psicológico minucioso, a partir de quem se dão a
conhecer todas as outras personagens.
No trecho acima o narrador usou o recurso do
discurso indireto livre. O texto em terceira pessoa,
não anuncia os pensamentos do personagem, as
interrogações apresentam-se na forma direta, para
analisar objetivamente a atitude de Fabiano diante
da polícia (medo, desejo de vingança, desprezo),
mas, ao mesmo tempo, para revelar o íntimo do
personagem, sua subjetividade. O discurso
indireto livre permite-lhe uma análise objetiva que
expressa o personagem. Quando o personagem
fala: “— Governo é governo”, a impressão que fica
é a de que o narrador, ao utilizar o discurso direto
para citar a fala de Fabiano, pretende ressaltar
que essa reação de submissão corresponde a
uma real atitude de Fabiano e não ao produto de
uma interpretação do narrador.
38
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
O caráter inovador de Vidas Secas nos leva a lê-lo
como um romance aberto, com seus vários
quadros, centrado cada um em determinada
personagem, como o exemplo acima. Por isso é
chamado de romance desmontável. E como tal,
possui um enredo cíclico, pois que o final da trama
é uma retirada, como o princípio fora uma
chegada, a sugerir o narrador a alternância
inumerável de fuga da miséria e encontro da terra
desejada, em função do ciclo das secas.
Ao longo da narrativa, observamos recursos
contemporâneos bastante utilizados como é o
caso do monólogo interior. Este não tem
intervenções, apresenta o que há de mais íntimo
na personagem, mais próximo do inconsciente.
Está muito próximo ao que a Psicologia denomina
de fluxo de consciência.
Assim, à análise é preciso levar em conta também
cada gênero, espécie ou forma literária.
A análise constitui um modo de ler, de ver o texto
e de, portanto, ensinar a ler e a ver. Ensinar a ler
implica conduzir o leitor ou o educando a ver, a
escolher do texto o mais importante, mas não
propriamente a julgá-lo, o que constitui desígnio da
crítica literária.
Vejamos:
1. A análise constitui um hábito, quase um vício
intelectual, que enriquece o leitor com novas
experiências.
2. Ensinar a ler implica conduzir o leitor a escolher
do texto o mais importante, cabe ao professor
propor sugestões de caminhos e processos.
39
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
3. A análise deve abster-se de adjetivar, o
emprego de qualificativos só é necessário para
classificar e ordenar, nunca para estabelecer
juízos de valor.
Uma leitura em profundidade pressupõe sempre
que o texto literário, sendo composto de
metáforas, é ambíguo por natureza, ou seja,
guarda uma multiplicidade de sentidos. Ler mal
significa não perceber a extensão dessa
ambigüidade, ou apenas percebê-la sem poder
compreendê-la ou justificá-la.
5.2 Resumo
A análise literária sempre pressupõe um método
que deve estar alicerçado, a princípio, pela
maturidade intelectual e bom senso do leitor e,
posteriormente, pelos aspectos formais que o
próprio texto traz como gênero, espécie ou forma
literária.
5.3 Auto-avaliação
O que você, caro aluno, entende pela assertiva: “A
análise constitui um modo de ler, de ver o texto e
de, portanto, ensinar a ler e a ver”.
5.4 Bibliografia
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
40
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
•
•
•
•
•
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
UNIDADE II
O APARECIMENTO DAS CORRENTES
Objetivos
•
Conceituar e propor a reflexão sobre as
teorias críticas iniciadas no século XIX,
orientadoras da leitura investigativa do
texto literário.
41
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE II
TEMA 1
CORRENTES TEXTUALISTAS
Objetivos Específicos
•
Identificar as características das correntes
textualistas.
42
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
1.1 Crítica Biográfica
Nas primeiras décadas do século XIX, com o
Romantismo, a crítica literária passa a processarse sistematicamente, destacando-se, então, o
crítico francês Sainte-Beuve (1804-1868) e seu
método biográfico: um processo de descrição que
procurava explicar elementos da obra, através da
vida do autor, fazendo uma abordagem da sua
biografia. O desenvolvimento posterior da teoria
literária mostrou que essa análise das obras era
frágil e até contraditória.
Fonte da imagem:attambur.com/
1.2 Crítica Determinista
Sob a influência do Positivismo de Augusto Comte,
cuja característica principal era o naturalismo,
procurou-se aplicar à literatura os métodos das
ciências naturais: da biologia, da física, da
química, apontando como um precursor da
43
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
sociologia da literatura, pois seu exercício crítico
consiste na procura das causas e leis da criação
literária, havendo três fatores determinantes: a
raça, o meio, o momento.
1.3 Crítica Impressionista
No final do século XIX,
numa perspectiva oposta
à postura científica e
objetiva
de
então,
desenvolve-se
uma
tendência
crítica
centrada
na
subjetividade do leitor, a
quem cabia transmitir as
impressões que mais profundamente marcaram a
sua sensibilidade, em contato com obras-primas
de todas as épocas.
1.4 Crítica
Formalista
Entendendo que a
investigação da obra
literária deva se fixar
na própria obra,
desenvolve-se,
a
partir da função do Círculo Lingüístico de Moscou
(entre 1914 e 1915), um movimento de crítica
literária, estreitamente ligado aos movimentos
artísticos de vanguarda, que se denominou
Formalismo Russo. Os formalistas vão procurar
distinguir, no próprio texto, as características que o
44
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
tornam literário, a sua literariedade. Vista por eles
a obra como uma forma, isto é, um sistema em
que todos os elementos se integram, não sendo,
por isso, possível separar forma e conteúdo, a
literariedade resultaria do procedimento de
singularização, própria da linguagem literária,
explicado em oposição ao automatismo da
linguagem usual, decorrente da percepção
automática do mundo, à qual nos acostumamos no
dia-a-dia.
Crítica Formalista - a investigação da obra literária
deva se fixar na própria obra.
Fonte da imagem: http://www.fcsh.unl.pt
1.5 Estilística
A estilística literária inicia-se com Karl Vossler
(1872-1949), discípulo de Benedetto Croce (18661952). Trata-se de uma estilística literária, que se
firmaria como crítica estilística e que se basearia
na conceituação idealista de Croce, da arte como
intuição-expressão. Seria a linguagem um ato
espiritual e criador, expressão da fantasia
individual.
45
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Estilística - linguagem um ato espiritual e
criador, expressão da fantasia individual.
Leo Spitzer (1887-1960), reagindo à postura então
predominante no estudo das obras literárias, que
eram vistas como veículos para esclarecimento de
outras realidades, que não as da própria obra,
associa, em seus trabalhos, sob a influência das
teorias freudianas, a criação literária ao psiquismo
do autor, apreendendo-a como expressão de uma
personalidade, mas sem cair no biografismo.
Considerava a obra como uma totalidade, na qual
todos
os
elementos
se
estruturavam
organicamente.
A estilística espanhola com Damaso Alonso
concebe a existência de três graus de
conhecimento da obra: o do leitor, que reproduziria
a intuição do autor; o do crítico, como um leitor
excepcional, capaz de exprimir artisticamente as
intuições profundas, nítidas e totalizadoras da
obra; e o da análise científica, tarefa da estilística,
que, por ser científica, não atingiria a essência na
obra, somente acessível à intuição.
46
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
Carlos Bousoño, discípulo de Damaso Alonso
propõe a exploração da obra literária a partir da
interpretação entre o eu individual e o eu social do
escritor, a inclusão de elementos epocais, com o
que procurou dar à crítica uma dimensão
diacrônica e ideológica.
1.6 A “Nova Crítica”
A nova crítica se propõe a romper com a
hermenêutica (interpretação de texto), com a
ontologia (estudo metafísico ou do ser), com a
filologia (interpretação a partir de figuras de
linguagem previamente dadas) e com a leitura de
texto que empresta a este a noção de “intenção do
autor” ou se rege pelo perfil biográfico do mesmo.
Dentro de uma noção de autonomia do texto
estético, a Nova Crítica propõe para o texto
poético uma “leitura microscópica”, isto é,
imanente do texto literário, com uma análise a
partir do significado do próprio texto, e não de um
contexto histórico, biográfico ou externo a ele. A
obra é próprio testemunho do autor. O crítico se
aproxima do texto buscando compreender o seu
elemento conceitual e denotativo, mais próximo da
linguagem referencial, da prosa ou da razão,
somado ao elemento conotativo, linguagem
emotiva ou textura poética, noutros termos, a
métrica, o ritmo, a prosódia, a rima.
Assim, o objetivo da nova crítica é aproximar o
crítico do texto poético e afastá-lo da interpretação
ontológica ou hermenêutica, que especula sobre a
essência, ou da interpretação sociológica ou
histórica, que extrapola os limites do texto.
47
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
1.7 Resumo
As correntes textualistas buscam compreender a
obra a partir de conceitos específicos. Vejamos um
breve resumo:
•
•
•
•
•
•
Crítica Biográfica (relação entre a obra e o
autor);
Crítica Determinista (fatores determinantes
da obra: raça, meio e momento);
Crítica Impressionista (análise subjetiva do
leitor);
Crítica Formalista (a obra como forma—
sistema
particular
de
trabalhar
a
linguagem);
Crítica Estilística (a arte como intuição,
fantasia individual);
Nova Crítica (explica a obra como
resultado lingüístico, textual).
1.8 Auto-avaliação
Caro aluno, dentre as correntes textualistas, há
alguma que você considera, atualmente,
desnecessária à análise de uma obra literária?
Explique.
1.9 Bibliografia
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
48
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
•
•
•
•
•
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
49
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE II
TEMA 2
CORRENTES ÉTICO-POLÍTICAS
E/OU SOCIOLÓGICAS
Objetivos Específicos
•
Identificar as características das correntes
ético-políticas e ou sociológicas.
50
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
2.1 Crítica Existencialista
O homem constrói o
próprio destino.
Concebe a literatura
como o desvelar do
mundo, comprometido
com um modo de
ação social, ético e
político. Baseada nos
estudos de Jean-Paul
Sartre,
a
filosofia
existencialista
acredita que o homem constrói o próprio destino.
2.2 Crítica Marxista
(Fonte da imagem:
www.cimm.ucr.ac.cr)
No seu âmbito se contam
desde simplórias apologias
de
uma
Literatura
pretensamente identificada
com
a
causa
do
proletariado, até versões
elaboradas
de
uma
concepção
sociológica
construída com base nas
noções
centrais
do
pensamento marxista, na
sua formulação clássica.
51
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
2.3 Crítica Sociológica
Entende-se por este termo todas as indagações
sobre a Literatura que têm na questão do social
seu horizonte comum, por seus compromissos
explícitos com sistemas ético-políticos bem
definidos. Convém lembrar que nela podemos
incluir hoje o importante setor de pesquisas na
área da chamada cultura de massa.
Fonte da imagem:
//www.dissonancia.com/58-04-002.jpg
2.4 Estética da Recepção
Também conhecida como Escola de Konstanz,
cidade da Alemanha Ocidental em cuja
Universidade o movimento teve início a partir de
fins dos anos 60. A Estética da Recepção se
propõe colocar no centro de suas pesquisas um
pólo negligenciado pela Teoria da Literatura: o
leitor. Não se trata de canonizar um leitor ideal,
mas de, pela análise das múltiplas interpretações
suscitadas por um texto, compreender a
diversidade das constituintes de sentido,
52
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
entendida
como
etapas
“vivência/experiência/ação”.
articuladas
de
Estética da Recepção-Propõe colocar no centro de
suas pesquisas: o leitor.
2.5 Resumo
Tais correntes têm como referencial analítico as
concepções de ação social, ética e política. Em
sua maioria lêem a obra literária como resultado
direto dessas concepções. Somente a Estética da
Recepção traz à cena dos estudos literários um
componente novo: o leitor. Compreende que a
interpretação de uma obra literária passa
necessariamente pela “vivência/experiência/ação”
do leitor, transformando-o em co-autor.
2.6 Auto-avaliação
Caro leitor, na sua opinião é possível analisar uma
obra literária tendo somente como referência os
seus aspectos sociais? Explique.
53
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
2.7 Bibliografia
•
•
•
•
•
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
54
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE II
TEMA 3
A TEORIA LITERÁRIA COMO CIÊNCIA
Objetivos Específicos
•
Reconhecer a importância da Teoria Literária
como Ciência.
55
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
3.1 A Teoria Literária constitui
ou não uma ciência?
Conforme vimos demonstrando, a Teoria da
Literatura não é uma espécie de enciclopédia dos
estudos literários, mas uma das disciplinas
desenvolvidas no âmbito dos estudos literários.
Ela se apresenta como a primeira realização
verdadeiramente científica no campo dos estudos
literários, na medida em que pretende dispor de
um objeto claramente constituído, de um aparato
específico de conceitos, de métodos e de técnicas
analíticas.
Mas isso não indica que a Teoria da Literatura
possua eficácia tecnológica, o que muitas vezes
acontece com as propostas escolares, pois a
Teoria da Literatura não é o projeto de uma
máquina que, uma vez montada, venha a produzir
análises literárias em série, principalmente porque
a literatura trabalha com a palavra, um objeto
gráfico pleno de sentidos, variável dentro de uma
escala complexa de valores — um ícone.
Vejamos o poema abaixo e possíveis leituras:
Tecendo a Manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
56
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(MELLO NETO. João Cabral de. Poesias Completas.
3. ed. Rio de Janeiro. J. Olympio, 1979. p.19-20)
Pelas correntes descritas acima, deduzimos que
existem vários planos de leitura. Se quiséssemos
priorizar a Crítica Formalista (Unidade II - Tema 1
– Correntes Textualistas - Crítica Formalista)
estabeleceríamos prioritariamente os planos
morfossintático e fônico. Por exemplo, na primeira
estrofe, podemos observar que no tocante aos
elementos mórficos e à estrutura sintática
ocorrem:
1. Nas duas primeiras orações: “Um galo sozinho
não tece uma manhã: ele precisará sempre de
outros galos.” (são coordenadas entre si e
categoricamente afirmativas);
2. As orações entre o verso 3 e o 10 podem ser
divididas em 3 blocos separados um do outro por
ponto-e-vírgula;
3. Os dois primeiros blocos (verso 3 até a metade
do 6) possuem uma estrutura sintática
perfeitamente simétrica;
4. A palavra “galo” principia e encerra a primeira
estrofe. Além disso, “galo” (singular) alterna com
“galos” (plural), constitui o sujeito de todas as
orações dessa estrofe e se distribui por toda ela,
57
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
ocupando lugares variados de modo a configurar
um
esquema
de
entrecruzamentos:
galo>galos>galos>galos>galo.
No nível sonoro, a primeira observação é o
destaque da vogal tônica a da palavra “galo”, que
se distribui por toda a estrofe; além dela, ocorrem
outras vogais tônicas abertas com certa
freqüência; as consoantes oclusivas (/k/, /g/, /t/,
/p/), ocorrem com alta freqüência em toda primeira
estrofe; a partir do verso 3, o final de cada verso
se encadeia no verso seguinte e se completa nele;
a leitura vai ganhando velocidade e sofrendo
menos cortes à medida que a estrofe vai se
aproximando do final.
Mas se quiséssemos priorizar outros planos de
leitura, como as Correntes ético-políticas e/ou
sociológicas ou a Estética da Recepção
devemos compreender que há uma elaboração de
produtos concretos como “Fios”, “tecer”, “tela”,
“tenda”, “toldo”. Acrescidos a eles aparecem dois
termos: “luz” e “manhã”. Luz é esclarecimento,
ilustração, saber. É o produto intelectual. O verbo
“tecer” tem como objeto um nome designativo de
produto
do
intelecto,
significa
“compor”,
“engendrar”. Isso nos permite interpretar o poema
como o processo de fabricação dos bens culturais.
Do conjunto de vozes emerge a obra cultural de
uma época,que não é solitária (um fio), mas uma
obra solidária (uma trama de fios).
O nível fundamental que o poema trabalha são as
duas oposições: individualidade x coletividade;
dependência
x
autonomia.
Nega-se
a
individualidade (“Um galo sozinho não tece uma
manhã”), afirma-se a coletividade (“ele precisará
sempre de outros galos”).
58
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
3.2 Resumo
A Teoria da Literatura constitui-se como Ciência
por estar alicerçada em conceitos, métodos e
técnicas analíticas, no entanto, isso não significa
que possa ser utilizada com eficácia tecnológica,
pois a análise literária é o esforço do leitor por
superar as barreiras interpostas naturalmente pelo
texto.
3.3 Auto-avaliação
De acordo com a afirmativa “... a literatura
trabalha com a palavra, um objeto gráfico pleno de
sentidos”, como podemos analisar o poema
abaixo:
O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão.
Não era um gato.
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
(Bandeira, Manuel. Estrela da vida inteira. 4.ed. Rio de
Janeiro. J.Olympio, 1973. p.196.)
59
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
3.4 Bibliografia
•
•
•
•
•
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
60
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE II
TEMA 4
A CONTRIBUIÇÃO DE ROLAND BARTHES
Objetivos Específicos
•
Analisar as idéias inovadoras de Roland
Barthes no que diz respeito ao conceito de
obra e texto.
61
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
4.1 O Prazer do Texto –
Obra e Texto
Barthes em seu artigo publicado na Revue
d’Esthétique em 1971, “Da obra ao texto”,
sintetizou as idéias que estariam detalhadamente
desenvolvida no Prazer do Texto. O que é
fundamental neste artigo é oposição entre a noção
de obra e texto. Barthes contrapôs as diferenças
em sete itens:
1. A obra é um fragmento de substância, ocupa
uma porção do espaço dos livros (por exemplo,
numa biblioteca); já o Texto é um campo
metodológico. A obra segura-se na mão, o Texto
mantém-se na linguagem;
2. O Texto é sempre paradoxal;
3. O Texto pratica o recuo infinito do significado,
do jogo;
4. O texto é plural, pois realiza-se em travessia de
significados (etimologicamente, texto é tecido);
5. A obra tem filiação; o Texto é uma rede de
efeito combinatório;
6. A obra é objeto de consumo; o Texto é prática,
produção, trabalho;
7. O texto está ligado ao prazer, pois participa a
seu modo de uma utopia social.
Vejamos na prática o que Roland Barthes teoriza:
Eu Sou Trezentos
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
62
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios
beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
(Poesia Completas. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.
p.189)
Mário de Andrade produziu muito durante sua
vida. Nasceu no dia 9 de Outubro de 1893 em São
Paulo. Tem marcado seu nome em inúmeras
obras em prosa, poesia e teatro, como —
Memórias sentimentais de João Miramar
(Romance), Serafim Ponte Grande (Romance), O
homem e o cavalo (Teatro), Há uma gota de
sangue em cada poema (Poesia), Amar, verbo
intransitivo (Romance), Macunaíma (Rapsódia)
etc.
As obras, segundo Barthes são representadas
pelo objeto em si, constituem a parte física de
todos os textos que Mário escreveu. O texto
estabelece o tecido das idéias há muito
acumuladas pelas leituras, pela vivência, pelas
viagens, pelas culturas locais e universais,
estabelecendo o efeito combinatório. [
As obras, segundo Barthes são representadas
pelo objeto em si, constituem a parte física de
todos os textos que Mário escreveu. O texto
estabelece o tecido das idéias há muito
acumuladas pelas leituras, pela vivência, pelas
63
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
viagens, pelas culturas locais e
estabelecendo o efeito combinatório.
universais,
Mário de Andrade
Mário brinca com as palavras, realiza o jogo que
Barthes fala, pois traz a linguagem própria do
povo, realizando a aproximação do formal ao
coloquial. Mas tudo isso, leva-o a trilhar os
caminhos da própria identidade. O texto plural,
preso à linguagem, eterniza-se pelo prazer da
própria existência e pela obra filiada ao nome de
Mário de Andrade.
4.2 Resumo
Barthes em sua obra O Prazer do texto conduznos a uma nova perspectiva sobre a compreensão
dos conceitos obra e texto. Possibilitando a novos
entendimentos acerca da análise literária.
64
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
4.3 Auto-avaliação
Caro aluno, as assertivas de Barthes, no que diz
respeito ao Texto, comungam com o que Massaud
Moisés diz: “Toda análise textual é contextual”?
Explique.
4.4 Bibliografia
•
•
•
•
•
•
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
65
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
UNIDADE II
TEMA 5
OS CAMINHOS DA CRÍTICA BRASILEIRA
Objetivos Específicos
•
Reconhecer, por meio de um breve
histórico, o processo de construção da
crítica brasileira.
66
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
5.1 Breve Histórico
A consciência da busca da autonomia literária
informou também a melhor crítica brasileira que, a
partir do trabalho dos críticos românticos europeus
que nos visitaram, seguido do esforço de
historiadores como Silvio Romero e José
Veríssimo (contemporâneos de Machado de
Assis), da abertura de horizontes praticada pelos
modernistas, como Mário de Andrade entre outros,
e do trabalho de sistematização organizado pelos
críticos mais recentes, já de formação
universitária, acabou por moldar uma história da
literatura brasileira.
Em 1959, Antônio Cândido acentua e identifica o
seu eixo analítico com a obra Formação da
Literatura Brasileira. Momentos Decisivos (17501880). Não utilizou a literatura como veículo de
uma interpretação cultural, respeitando a sua
autonomia como obra de arte. Entre o juízo e o
gosto estava a análise. O livro de Cândido trouxe a
leitura fortemente analítica e judicativa.
Assim procederam em 1960, Augusto e Haroldo
de Campos e Décio Pignatari com a reflexão
histórico-crítica de Antônio Cândido. Já em 1970,
Alfredo Bosi, com a História Concisa da Literatura
Brasileira, e em 1983-86, Massaud Moisés com a
História
da
Literatura
Brasileira,
embora
assumindo uma posição conservadora quanto aos
métodos histórico-literários, aqui e ali conseguiram
escapar da repetição e do lugar-comum
historiográfico.
67
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
5.2 Resumo
O percurso histórico na construção da crítica
brasileira teve seu nascedouro com os
historiadores europeus. Posteriormente, Silvio
Romero e José Veríssimo tiveram importância
decisiva quanto ao estabelecimento e definição da
nossa literatura. Somente a partir da contribuição
Mário de Andrade, com Antônio Cândido, a crítica
brasileira acentuou o eixo analítico, respeitando a
autonomia da obra de arte e prosseguindo com os
concretistas Augusto e Haroldo de Campos; e
mais recentemente com Alfredo Bosi e Massaud
Moisés.
5.3 Auto-avaliação
De acordo com o estudo de todo o módulo, a qual
ou quais conclusões você, caro aluno, pôde
chegar? Baseie suas reflexões no pensamento de
Antônio Cândido: “A base do trabalho foram
essencialmente os textos, a que se juntou apenas
o necessário de obras informativas e críticas, pois
o intuito foi não à erudição, mas a interpretação,
visando o juízo crítico, fundado sobretudo no
gosto”. (apud BARBOSA, João Alexandre. 1995
p.34).
5.4 Bibliografia
•
AGUIAR, Flávio. Panorama da Literatura.
São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988.
68
APLICAÇÃO DA TEORIA LITERÁRIA
•
•
•
•
•
•
BARBOSA, João Alexandre. “A biblioteca
imaginária, ou o cânone na história da
literatura brasileira”. In: A Biblioteca
Imaginária. SP: Ateliê, 1995.
PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto.
São Paulo. Ed. Ática, 2003.
MOISÉS. Massaud. Guia Prático de Análise
Literária. São Paulo: Ed. Cultrix, 1988.
SAMUEL, Roger. Manual de Teoria Literária.
R.J.:Vozes, 1989.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São
Paulo. Ed. Ática, 1993.
Souza, Roberto Acízelo de. Formação da
Teoria da Literatura. Niterói: Editora
Universitária: EDUFF, 1987.
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