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DESEMPENHO DE
COOPERATIVAS:
MEURER,
S. & MARCON, R.O CASO DE UMA
COOPERATIVA DE CRÉDITO RURAL
Perfomance of cooperatives: the case of a rural credit cooperative
Simplício Meurer1, Rosilene Marcon2
RESUMO
Cooperativa é uma forma organizacional, de propriedade coletiva e que obedece a uma série de princípios universais, norteadores das
ações da administração. A incompleta separação entre propriedade e controle e o difícil acesso aos resíduos gerados, resultam em
problemas específicos e dificultam a ação dos gestores. O presente artigo, pelas lentes da Teoria da Agência, discute a relação entre o
desempenho de uma forma organizacional que, por força de princípios precisa atuar no desenvolvimento social e ao mesmo tempo
manter-se viável economicamente ao competir com organizações com orientação para o mercado e com as expectativas de seus
associados. Desenvolveu-se um questionário que foi aplicado a associados de uma cooperativa de crédito rural. As respostas foram
tratadas com análise fatorial, onde identificaram-se fatores de interesse dos associados. Eles foram comparados com o desempenho da
cooperativa. Concluiu-se de que o associado espera por retorno sobre o capital social aplicado na cooperativa, ao mesmo tempo em
que espera um serviço de qualidade superior ou a um preço inferior ao do mercado. Percebe-se que há motivação mista nas expectativas
dos associados, que atuam sob a lógica de investidor e usuário. A cooperativa, conforme o desempenho identificado, mostra evolução
significativa nos indicadores o que permite deduzir o atendimento das expectativas.
Palavras-chave: teoria da agência, cooperativas, desempenho.
ABSTRACT
Cooperative is an organizational form of collective property which obeys a series of universal principles for leading the administration.
The incomplete separation between property and control and the difficult access to the generated residues result in specific problems
and hinder managerial action. The present article, according to the Theory of the Agency, discusses relation between the performance
of an organizational form that, by means of the power of the principles need to act into the social development whereas keeping itself
economically viable when competing with market oriented organizations and with the expectations of their associates. A questionnaire
was developed and applied to the associates of a rural credit cooperative. The answers were treated according to the factorial analysis,
which identified associates interest factors. Those factors of interest were compared with the cooperative performance. It was
concluded that the associate expects the return on the social capital applied in the cooperative together with a superior quality service,
or at an inferior market price. It is understood that there is mixed motivation in the associates expectations, which acts under investor
and user logic. The cooperative, according to the identified performance, has shown significant evolution in the indicators that allows
deducing the expectations attendance.
Key words: agency theory, cooperatives, performance.
1 INTRODUÇÃO
A avaliação do desempenho organizacional é tarefa
complexa. Duas correntes principais de orientação absorvem
o esforço organizacional. Na visão financeira tradicional,
qualquer empresa deve buscar priorizar os shareholders e
buscar a maximização do retorno aos acionistas
(FRIEDMAN, 1970; JENSEN, 2001; SILVEIRA, 2004). Numa
visão moderna, as organizações estão inseridas num contexto
social que envolve diversos stakeholders, entendidos como
grupos ou indivíduos com os quais a organização interage
ou possui interdependência, ou ainda, qualquer indivíduo
ou grupo que pode afetar ou ser afetado por ações, decisões,
políticas, práticas ou objetivos alcançados pela organização
(CHAKRAVARTHY, 1986; FREEMAN, 1970; ULRICH et al.,
2000).
Sendo a organização na forma cooperativa, entendida
como uma sociedade civil com fins econômicos, mas não
lucrativos, com a finalidade de desenvolver economicamente
suas comunidades (BIALOSKORSKI NETO et al., 2002),
como medir seu desempenho? Será que as formas utilizadas
para medir desempenho estão em consonância com o que o
associado deseja da sua cooperativa?
1
Graduado em Administração (UNOESC), mestre em Administração, com ênfase em Finanças. Professor Titular da FAI – Faculdade de Itapiranga.
Tem experiência na área de Administração, cooperativa de crédito e agropecuária. End.: Rua 1 de Maio, 360-Bairro Jardim Bela Vista, ItapirangaSC – CEP: 89896-000 - [email protected]
2
Economista (UFSC), mestre e doutora em Engenharia de Produção (UFSC). Professora Titular da UNIVALI - Universidade do Vale do Itajaí/
Programa de Pós-Graduaçao em Administração e Turismo. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Finanças. End.: Rua Felipe
Schimidt 1210/402, Centro, Florianópolis-SC – CEP: 88.010-002 - [email protected]
Organizações Rurais & Agroindustriais,
Lavras,
v. 9, n. 3, p.e334-348,
2007
Recebido
em 16/02/2007
aprovado
em 20/08/2007
Desempenho de cooperativas: o caso de uma cooperativa ...
O assunto tem merecido a atenção de pesquisadores
de estudos organizacionais a mencionar o trabalho de
Bialoskorski Neto (2002), Pinho (1986) e Silva Filho (2002)
defendendo o uso dos tradicionais indicadores de
desempenho econômico-financeiro, para mensurar o
desempenho de cooperativas.
Em via contrária, os trabalhos de Bialoskorski Neto
et al. (2002), Menegário (2000), Pinho (1986), Porto (2002) e
Yaron (1994) recomendam o uso de outros indicadores com
base nos aspectos sociais, além dos tradicionais
indicadores econômico-financeiros.
Contudo, os trabalhos já realizados limitam-se à
discussão teórica sobre a aplicação de indicadores
tradicionais ou não. Este artigo, ao encontro com a
recomendação de Eisenhardt (1989), se propõe, sob as
lentes da teoria da agência, a identificar os interesses de
associados de uma cooperativa de crédito e relacionar seu
desempenho, com os interesses identificados. Procura-se
agregar conhecimento aos estudos organizacionais ao
tentar desenvolver e propor uma metodologia de análise
do desempenho de cooperativas, uma forma organizacional
com estrutura de capital e governança diferente das
empresas de capital.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Sob o enfoque da teoria da agência, a organização
é vista como um conjunto de relações contratuais que
comandam as ações da firma. Essa teoria teve impulso com
Jensen & Meckling (1976) que definiram a relação de Agency
como um contrato entre uma ou mais pessoas (o principal)
que agencia (m) outra pessoa (agente), a prestar serviços
mediante a delegação de autoridade. Uma parte, chamada
de principal (acionista ou proprietário dos recursos
econômicos), contrata outra parte, chamada de agente
(gerente que administra o negócio para os proprietários),
para atuar em seu interesse recebendo em troca uma
compensação.
Contudo, em suas ações, prioritariamente, agente e
principal, atenderão a interesses próprios e provavelmente
não equivalentes. Então, “se ambas as partes da relação
são maximizadoras de utilidade, existe uma boa razão para
acreditar-se que o agente não atuará sempre nos melhores
interesses do principal” (JENSEN & MECKLING, 1976, p.
309). Nesse caso, surge a necessidade do principal implantar
mecanismos de controle das atividades do agente, que
gerarão custos, denominados de custos de agência.
Para Borgen (2004), nas relações contratuais há três
situações conflituosas: quando interesses entre principal
335
e agente são divergentes; quando o principal não consegue
perfeitamente e, a um custo aceitável, monitorar as ações
do agente; e, quando o principal não consegue, e a um
custo aceitável, monitorar e adquirir informações
disponíveis ou de posse do agente.
Os problemas no estabelecimento, manutenção
dos contratos e suas relações estão na observação e
julgamento do comportamento do agente, inserido num
contexto de Perigo Moral e Seleção Adversa. Esses
geram direitos residuais de propriedade e controle.
Assim, surge a necessidade de estabelecer-se no
relacionamento contratual, um nível mínimo de Perigo
Moral, Seleção Adversa a um também nível mínimo de
custos de agência, envolvidos no seu controle (SILVA,
2003).
Os estudos de agenciamento tem-se focalizado
especialmente nas relações contratuais estabelecidas entre
agente e principal e nos mecanismos utilizados para reduzir
os conflitos dele resultantes (DALMACIO & NOSSA,
2003; MONSMA, 2003; OKIMURA, 2003; OKIMURA et
al., 2004; OLIVEIRA & JESUS, 2004; SILVA, 2003).
Especificamente em cooperativas, diversos pesquisadores
têm envidado esforço em estudar a forma organizacional
com essa teoria. Destacam-se os trabalhos de Bialoskorski
Neto (1998, 2001), Bialoskorski Neto et al. (2002), Borgen
(2004), Cook (1995), Jansson et al. (2003), Krahnen &
Schmidt (1997), Lamb (2003), Menegário (2000), Porto
(2002), Silva Filho (2002), Vitalino (1983), Williams &
Andersen (1986) e Zylbersztajn (1994).
2.1 O desempenho em cooperativas
Para Silva Filho (2002) a expressão desempenho
pode assumir diversos significados, relativos ao seu
contexto. No contexto empresarial, pode assumir diversas
dimensões, como a empresa em sua totalidade, suas áreas,
funções ou cargos ou mesmo aspectos operacionais,
econômicos ou financeiros das atividades realizadas ou
planejadas, influenciando os gestores na tomada de
decisões.
Os interesses heterogêneos dos acionistas, clientes,
fornecedores, proprietários e empregados apresentam
diferentes demandas que necessitam ser atendidas. Ulrich
et al. (2000) vêem o equilíbrio dos resultados para os
stakeholders, como papel primordial da organização.
Na contramão de uma atuação em função de
objetivos amplos, para Jensen (2001) é impossível a
empresa ter sucesso perseguindo diversos objetivos, pois
fatalmente acabará não os alcançando. A dispersão de
atenção requerida pelos diversos objetivos causará
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
336
MEURER, S. & MARCON, R.
conflitos ao gestor quanto à definição dos trade-offs para
a tomada de decisões o que deixará a empresa, no final,
sem qualquer objetivo. Em resumo afirma que “múltiplos
objetivos significa não ter objetivos” (JENSEN, 2001, p.
10). A alternativa apontada para resolver esse dilema seria
o estabelecimento de função-objetivo que, mesmo
apresentando limitação quanto à consecução da função,
ao menos orientará as ações para uma direção só,
minimizando a existência de conflitos através do
fornecimento de critérios lógicos para as decisões. A
alternativa apontada por Jensen (2001) não sugere o
envolvimento de um grupo restrito nas discussões. Sua
ênfase está na necessária clareza de definição para evitar
duplicação de esforços e direções incongruentes.
De acordo com a teoria financeira tradicional,
assume-se que a organização deve atender aos objetivos
dos seus shareholders (FRIEDMAN, 1970; JENSEN, 2001;
SILVEIRA, 2004). No caso de cooperativas os shareholders
são os associados. Assume-se dessa forma que a
organização cooperativa, deve atender aos interesses de
seus associados. Como o desempenho significa a
maximização da orientação do grupo, a estrutura de
propriedade difusa de uma cooperativa, em contraste com
uma corporação com direito de propriedade bem definida,
revela a avaliação do desempenho de uma cooperativa
como uma tarefa ainda mais complexa.
Alguns trabalhos se propõem a medir o
desempenho de cooperativas, entre os quais destacam-se
alguns: os de Bialoskorski Neto et al. (2002), Jansson et al.
(2003), Krahnen & Schmidt (1997), Menegário (2000), Porto
(2002) e Silva Filho (2002).
O desempenho da cooperativa não pode restringirse ao desempenho econômico, mas deve relevar o seu
desempenho social. Há uma lógica diferente no
funcionamento. O fato de não ter a finalidade de lucro,
pode reverter na opção de oferecer produtos e serviços
ao melhor preço possível ao associado ou ainda no melhor
nível em termos de qualidade de produtos e serviços. A
partir daí não estariam sendo gerados resultados para a
cooperativa, mas sim diretamente nas atividades
econômicas dos seus associados. A evolução da atividade
econômica dos associados e a organização do quadro
social são importantes padrões de desempenho e
eficiência.
2.2 A forma organizacional cooperativa
A forma organizacional cooperativa obedece a uma
série de princípios que norteiam as ações da administração.
A Aliança Cooperativa Internacional, em seu congresso
em Manchester, em setembro de 1995, adotou uma
declaração sobre a Identidade Cooperativa. Nessa
declaração, conforme MacPherson (2003), inclui-se uma
listagem de valores-chave do movimento e um conjunto
revisado de princípios pretendidos para orientar as
organizações cooperativas, no século XXI. Os princípios
então constituídos são: Adesão livre e Voluntária, Controle
Democrático, Participação Econômica, Autonomia e
Independência, Educação, Formação e Informação,
Intercooperação e Preocupação com a Comunidade.
Esses princípios refletem-se em problemas
apresentados entre os quais Bialoskorski Neto (2001),
Vitalino (1983) e Zylberstajn (1994) e citam a incompleta
separação entre propriedade e controle e o difícil acesso
aos resíduos gerados pelas atividades da organização.
A incompleta separação entre a propriedade e o
controle pode gerar ações oportunistas de determinado
grupo de associados, ou em favorecendo um determinado
grupo dentro da coalizão de interesses ou em vendo seu
direito limitado procurem outra via de transação, em
detrimento da cooperativa (WILLIAMS & ANDERSEN,
1986). O difícil acesso aos resíduos, na cooperativa, pode
elevar as diferenças nas preferências de vários subgrupos,
baseados no tempo em que suas reivindicações eram
atendidas, com uma tendência geral de favorecer decisões
que aumentem as sobras operacionais. A causa disso é
que membros individuais nas cooperativas não têm
controle sobre a sua respectiva parte do capital. As
conseqüências negativas da propriedade comum, segundo
Borgen (2004), são a ineficiência e o baixo comprometimento
dos cooperados.
Desses aspectos emergem diversos problemas,
classificados por Borgen (2004) e Fama & Jensen (1983) em
duas categorias: a categoria investimentos e do processo
decisório. Eles relacionam três problemas de incentivo
relacionados a investimentos em função da propriedade
comum: O problema do caroneiro; o problema do horizonte
e o problema do Portfólio. Com relação aos contratos de
decisão apresentam quatro problemas mais relacionados
com o problema de agência: o monitoramento; a
manutenção, os custos e os problemas relacionados ao
processo de decisão (Quadro 1).
Os problemas relacionados a investimentos são
analisados sob a perspectiva da Teoria dos Direitos de
Propriedade. Os direitos de propriedade estão relacionados
com o acesso aos resíduos e à influência no processo
decisório.
O problema da propriedade comum (common
property) é concebido por Vitalino (1983) replicado por
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
Desempenho de cooperativas: o caso de uma cooperativa ...
Borgen (2004) e Cook (1995). Esse problema resulta da
disparidade entre a contribuição dos membros para o
financiamento dos investimentos e a distribuição dos
benefícios resultantes desses investimentos. A disparidade
entre a participação no capital e os benefícios é gerador do
comportamento do free-rider (caroneiro) entre associados
e não-associados, e entre associados e associados
entrantes. Um associado novo, ao ser admitido, adquire
os mesmos direitos aos fluxos de caixa residuais e os
mesmos direitos de participar do processo decisório àquele
assegurado a associados já existentes. Raramente lhe é
solicitada a integralização de capital ou o pagamento de
taxas equivalentes aos benefícios adquiridos.
QUADRO 1 – Problemas de agência em cooperativas.
Categorias
Investimentos
Processo
decisório
Problemas relacionados
Problema do caroneiro (free rider
problem)
Problema do horizonte (horizon
problem)
Problema da Carteira de Negócios
(portfólio problem)
Monitoramento
Coordenação
Influência dos custos
Processo de decisão
Fonte: Desenvolvido a partir de Borgen (2004) e Fama & Jensen
(1983).
O problema do horizonte (horizon problem) surge
quando os direitos residuais gerados por um recurso são
maiores que o tempo de permanência como associado.
Vitalino (1983) relata que as implicações do problema do
horizonte, numa organização cooperativa, resultam do fato
de que cooperados podem capturar benefícios de
investimentos somente pelo período de tempo em que
fizerem parte da mesma. Borgen (2004) e Cook (1995)
salientam que esse problema nasce em função da
interrupção do acesso aos benefícios residuais por ocasião
da saída da sociedade. É causado por restrições na
transferência de direitos residuais, e a falta de liquidez para
a transferência de tais direitos. Isso pressiona gestores a
incrementar a proporção do fluxo de caixa para pagamentos
correntes. Como conseqüência, espera-se preocupação
com perspectivas míopes, em detrimento da adoção de
uma estratégia de longo prazo.
O problema da carteira de negócios (portfolio
problem) surge em função de diferentes preferências de
337
risco recompensa. A baixa transferibilidade, a baixa liquidez
e os limitados mecanismos de avaliação previnem os
gestores a ajustar a carteira de negócios à sua própria
preferência de riscos. Então os membros escolhem opções
subotimizadas e quem é forçado a aceitar mais risco que
sua preferência, pressiona os demais a escolherem opções
que o reduzam até seu nível de tolerância, mesmo que isso
reduza a expectativa de sobras operacionais. Para Vitalino
(1983) a restrição do acesso aos resíduos priva os
cooperados da oportunidade de diversificar o risco através
da aquisição de direitos sobre outras companhias
diretamente, ou por fundos de ação mútua.
O problema do monitoramento está ligado ao fato
de que decisões administrativas são alocadas a
especialistas que não têm acesso a resíduos. Daí decorre
que agentes podem tomar decisões direcionadas a diminuir
o valor dos resíduos da firma, o que representa custos de
agência. Os tipos de problemas são muitos, estimulados
pelo fato de os membros não arcarem com a totalidade dos
efeitos das suas decisões e ações (BORGEN, 2004).
O problema da coordenação ocorre quando muitos
membros, cada um incapaz de influenciar significativamente
o processo decisório ou a supervisão da administração,
individualmente somente captura pequena fração dos
benefícios potenciais de tais atividades.
O problema da influência nos custos ocorre quando
diferentes grupos de associados, com interesses opostos,
se empenham na distribuição de benefícios e se engajam
na mobilização interna para promover o atendimento de
seus próprios interesses.
O problema da decisão é refletido pelo fato de num
grupo grande e heterogêneo de associados, relevar as
diferentes opiniões constitui-se num desafio para a
administração (HANSMANN, 1996). Para Borgen (2004),
problemas de incentivo podem aparecer de forma mais ou
menos problemática em cooperativas, dependendo do grau
de homogeneidade dos objetivos de seus membros, o
montante de contribuição financeira de seus membros, o
grau de congruência entre os objetivos dos membros e os
objetivos da cooperativa, bem como o grau de
envolvimento do associado com sua cooperativa
(BORGEN 2004).
3 METODOLOGIA
A organização pesquisada é uma cooperativa de
Crédito Rural, localizada na região do Extremo Oeste do
Estado de Santa Catarina. Essa pesquisa caracteriza-se
como teórico-empírica. Quanto à abordagem do problema
classifica-se como pesquisa qualitativa e quantitativa.
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
338
MEURER, S. & MARCON, R.
Quanto aos objetivos propostos, classifica-se como
pesquisa exploratória, através das técnicas de
levantamento e pesquisa documental.
Para a aplicação do questionário adotou-se uma
amostragem por conveniência e não-probabilística. Para
uma população de 7.819 associados, distribuiu-se um total
de 600 questionários na AGO de 26 de janeiro de 2006, dos
quais houve um retorno de 117 instrumentos válidos. Com
essa amostra, assume-se um erro amostral de 9,25%, de
acordo com Barbetta (2003).
As assertivas do questionário foram desenvolvidas
no modo qualitativo categórico ordinal, de modo a permitir
a medição da concordância em relação às variáveis
propostas através de uma escala de Likert, com valores entre
1 e 5 (PEREIRA, 2004). Assim sendo, para cada assertiva o
respondente teve a liberdade de escolher entre os valores 1
(um) para discordo totalmente; 2 (dois) para discordo
parcialmente; 3 (três) para não discordo nem concordo; 4
(quatro) para concordo parcialmente e 5 (cinco) para
concordo totalmente, com a finalidade de medir o seu grau
de concordância com as assertivas propostas, formuladas a
partir das variáveis selecionadas para o estudo.
Para permitir conclusões com mais acurácia, as
assertivas foram classificadas em dimensões. A cada
dimensão foram atribuídas variáveis identificadas e
selecionadas na revisão bibliográfica de forma que cada
dimensão contemplasse variáveis que evidenciem um
interesse de associado de cooperativa. A seguir,
apresentam-se as dimensões elaboradas, bem como seus
principais defensores.
A dimensão REF (resultados econômicofinanceiros) foi desenvolvida a partir de Bialoskorski Neto
(2002), Pinho (1986) e Silva Filho (2002). As cooperativas,
por atuarem no mesmo mercado, competindo por recursos
comuns, precisam priorizar a sua eficiência econômicofinanceira. Optou-se para incluir nessa dimensão, variáveis
que pudessem evidenciar interesse pelo retorno
econômico-financeiro. O desempenho da cooperativa,
nessa dimensão, será medido através dos indicadores de
rentabilidade ROA e ROE.
A dimensão S (serviços melhores ou mais baratos)
foi extraída a partir de Bialoskorski Neto et al. (2002) e
Krahnen & Schmidt (1997). Do ponto de vista dos sócios,
o recebimento de um produto ou serviço melhor ou mais
barato, é, na maioria dos casos, a principal razão para a
formação de uma cooperativa de crédito e que se constitui
numa forma indireta de distribuição dos lucros. Nessa
dimensão o desempenho será avaliado através da evolução
dos preços praticados pelos serviços oferecidos. Se a
prioridade do Conselho de Administração é gerar um maior
montante de sobras no final do exercício, provavelmente
irá atribuir preços de mercado aos serviços oferecidos.
A dimensão C (ganhos em escala via cooperação) é
defendida por Borgen (2004), Menegário (2000), Pinho (1986),
Yaron (1994) e Silva Filho (2002), que sugerem que a
cooperativa deve buscar agregar valor coletivamente a seus
membros. O motivo subjacente de um membro associar-se à
cooperativa está na redução de incertezas relacionadas ao
acesso a mercados. Agindo coletivamente, associados
tendem a obter vantagens tanto no acesso aos mercados
quanto na escala do acesso. Entende-se que um associado
comprometido com a cooperativa participa das AGOs, seja
para fiscalizar os atos da administração, seja para participar
do processo decisório, além de usufruir dos serviços
oferecidos. Assim, adota-se a evolução na participação nas
AGOs e a proporção de associados ativos como indicadores
para medir o desempenho nesta dimensão.
A dimensão PC (acesso à propriedade comum) é
apresentada por Borgen (2004), Cook (1995) e Vitalino (1983),
quando reiteram que produtores individuais necessitam
de mecanismos institucionais sob seu controle para se
protegerem da volatilidade de preços e do oportunismo de
mercado. A reação coletiva é comum quando preços estão
depreciados ou os mercados estão difíceis. Todavia decorre
daí o comportamento oportunista denominado de free-rider
(caroneiro), revelado a partir da constatação de que
associados novos têm acesso facilitado a recursos gerados
por outros membros. Busca-se nessa dimensão explorar
variáveis que possam caracterizar o comportamento freerider. Cada associado, no momento do seu ingresso na
sociedade, integraliza determinado valor como capital social
da sociedade cooperativa, o que em tese o habilita a usufruir
da estrutura construída por outros associados. Então
busca-se estabelecer através da relação entre associados
entrantes e a evolução no capital social se há favorecimento
a associados entrantes.
A dimensão IC (investimentos coletivos e seu
horizonte de uso) foi extraída de Bialoskorski Neto (2001),
Borgen (2004), Cook (1985) e Vitalino (1983), que sugerem
que, em função da impossibilidade de negociar o direito
sobre o capital, há uma preocupação maior dos cooperados
com resultados de curto prazo, desestimulando o
envolvimento em investimentos de longo prazo. O Horizon
problem nasce a partir da possibilidade dos direitos
residuais, gerados por um recurso, serem potencialmente
maiores que o tempo de permanência como associados.
Nessa dimensão procura-se explorar esse aspecto. Por
opção dos associados, a cooperativa poderia estar fazendo
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
Desempenho de cooperativas: o caso de uma cooperativa ...
investimentos míopes em detrimento de opções mais
rentáveis. O desempenho da cooperativa será avaliado
através da evolução das contas patrimoniais Investimento
e Imobilizado.
A dimensão CP (Carteira de negócios voltados ao
auto-interesse) é apresentado por Borgen (2004) e Vitalino
(1983) como um problema com origem nas diferentes
preferências da relação risco recompensa, oriunda da baixa
transferibilidade, baixa liquidez e limitados mecanismos de
avaliação relativos aos investimentos e direitos residuais
em cooperativas. Nessa dimensão busca-se avaliar a
evolução do número de associados, número de associados
tomadores de empréstimos, número de poupadores e
número de associados beneficiados com recursos oficiais
para identificar esse comportamento adverso.
Os resultados do questionário foram tratados com
Análise Funcional de Intercorrelações – matriz rodada,
também chamada de VARIMAX com Normalização de
Kaiser, utilizando-se do software Statistica 6.0. Com esse
método buscou-se o conjunto menor possível de
correlações estatísticas, com vistas a fazer julgamentos de
aspectos que têm a mesma relevância frente ao conjunto
de assertivas.
Os dados secundários utilizados para a avaliação
do desempenho foram obtidos em documentos contábeis
e administrativos da cooperativa, no período compreendido
entre 2000 e 2005.
No Quadro 2 pode-se visualizar os indicadores
adotados para medir o desempenho nas respectivas
dimensões.
O desempenho obtido através desses indicadores
será comparado com os interesses dos associados,
identificados no questionário, cujas respostas foram
tratadas com análise fatorial.
339
4 TRATAMENTO DOS DADOS E RESULTADOS
Aplicou-se a Rotação Varimax, e consideraram-se
somente as variáveis com carga fatorial superiores a 0,6,
valor adotado como corte mínimo aceitável em termos de
correlação.
Das 35 variáveis medidas, onze não foram
selecionadas ou agrupadas num dos diferentes fatores. O
número de fatores gerados foi de doze, compostos por
um número diferente e por diferentes variáveis
explicativas.
Para a seleção dos fatores adotou-se o critério de
Kaiser (1960) que preconiza a seleção dos fatores com
eigenvalues3 superiores a 1. A análise fatorial identificou
doze fatores, com uma variação no número das variáveis
que as compõe, desde um mínimo de uma variável, até um
máximo de três variáveis componentes de um mesmo fator.
Com esse critério, os fatores, em conjunto, explicam
71,85% da variância acumulada dos interesses dos
associados na cooperativa. Para Pereira (2004) embora
seja desejável a explicação de, pelo menos 60% da
variância total, não há um valor crítico. “O pesquisador
deverá ajuizar a complexidade dos dados que está
tratando e a necessidade de obter medidas sintéticas”
(PEREIRA, 2004, p. 128).
Apresenta-se na Tabela 1 a porcentagem da variância
que é explicada por cada um dos doze fatores, sendo que o
fator 1 explica a maior proporção, 15,7 % das variações das
medidas originais. Sucessivamente, os outros fatores
3
É a medida de quanto da variância total das medidas realizadas
pode ser explicado pelo fator. Avalia a contribuição do fator
construído pela análise fatorial.
QUADRO 2 – Os indicadores e respectivas dimensões.
Dimensões
Resultados econômico-financeiros (REF)
Serviços melhores ou mais baratos (S)
Ganhos em escala via Cooperação (C)
Indicadores
ROE e ROA.
Evolução do preço dos serviços oferecidos.
Participação nas assembléias gerais, proporção de
associados ativos.
Acesso à Propriedade Comum (PC)
Evolução do número de associados e do capital social.
Investimentos coletivos e seu horizonte de uso (IC) Evolução das contas patrimoniais Investimento e
Imobilizado.
Carteira de produtos voltados ao auto-interesse (CP) Número de associados, número de associados tomadores de
empréstimos, número de poupadores e número de
associados beneficiados com recursos oficiais.
Fonte: Elaboração própria.
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
340
MEURER, S. & MARCON, R.
TABELA 1 – Porcentagem da variância total explicada por fator e seu peso relativo.
Fator
Eigenvalue
% da Variância
% de Variância
acumulada
Pesos relativos
Pesos relativos
acumulados
1
5,494
15,698
15,698
21,85
21,85
2
2,720
7,772
23,470
10,82
32,66
3
2,546
7,275
30,745
10,12
42,79
4
2,157
6,163
36,908
8,58
51,36
5
1,988
5,680
42,587
7,90
59,27
6
1,866
5,330
47,917
7,42
66,69
7
1,820
5,201
53,118
7,24
73,92
8
1,619
4,625
57,743
6,44
80,36
9
1,432
4,092
61,836
5,70
86,06
10
1,232
3,520
65,356
4,90
90,95
11
1,179
3,369
68,725
4,69
95,64
12
1,096
3,131
71,856
4,36
100,00
Fonte: Elaboração própria.
explicam em escala descendente essas variações. Assim o
fator 1 representa um peso relativo de 21,85% sobre o total
dos fatores desagregados e o fator 12 é o que menos explica,
com 3,131% e que representa 4,36% do valor explicativo
da variância.
No Quadro 3 visualizam-se os fatores gerados, as
variáveis selecionadas e a dimensão na qual a variável foi
classificada.
O Quadro 3 permite visualizar que alguns fatores
selecionaram variáveis de mais de uma dimensão. O fator 1
está composto pelas variáveis: Sobras para distribuição e
investimentos coletivos para promover crescimento. Essas
variáveis estão relacionadas com as dimensões REF
(Resultados Econômico Financeiros) e CP (Carteira de
produtos voltados ao auto-interesse). Nota-se que as
variáveis não se ajustam a uma só dimensão, conforme
classificação anterior. Contudo, assume-se que essas duas
variáveis, ligadas às duas dimensões retratadas, explicam
sozinhas 15,7% da variância total. Pode-se deduzir, a partir
desses dados, que as sobras para distribuição e os
investimentos coletivos para gerar crescimento estão no
topo da hierarquia de uma escala de interesses por parte
dos associados.
Quando o fator estiver composto com variáveis de
mais de uma dimensão, será denominado de “fator misto”
como é o caso do fator 1. Caso contrário, quando um fator
selecionar variáveis de uma mesma dimensão será
denominado de “fator puro”. O fator 2, por exemplo,
selecionou as variáveis: acesso a grandes mercados, acesso
a recursos mais baratos, fortalecimento em épocas de crise
que se ajustam à dimensão C (ganhos em escala via
cooperação), portanto, a uma só dimensão. Esse será
considerado um “fator puro”.
O Quadro 3 permite deduzir que, dos 12 fatores
gerados pela análise fatorial, 7 podem ser considerados
fatores puros e 5 podem ser considerados fatores mistos.
Os fatores puros explicam 40,6 % da variância total, com
um peso relativo de 56,3% sobre o total explicado pela
variância. Os 5 fatores mistos explicam em conjunto 31,4%
da variância total com um peso relativo de 43,7%. Todas as
dimensões estudadas foram selecionadas em um ou mais
fatores, de forma isolada ou agrupada com variáveis de
outra dimensão.
O fator 1, conforme já exposto, revela uma
preocupação com relação às sobras geradas e distribuídas,
além de evidenciar preocupação com os investimentos
coletivos para a promoção do crescimento da sociedade.
Esse fator misto, hierarquicamente o que mais explica, e
portanto o mais importante na escala de interesses dos
associados da cooperativa, revela estar submetido ao que
Borgen (2004) classifica como lógica de investidor. Com
base na informação obtida, não há como enfatizar aqui que
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
Desempenho de cooperativas: o caso de uma cooperativa ...
341
QUADRO 3 - Fatores explicativos das expectativas dos associados em relação à cooperativa.
Fator
Variáveis do Fator
1 Sobras para distribuição, investimentos coletivos para promover crescimento.
2 Acesso a grandes mercados, acesso a recursos mais baratos, fortalecimento em épocas de
crise.
3 Aversão à taxação dos serviços.
4 Acesso à estrutura comum construída por sócios mais antigos
5 União de forças e recursos, cooperação. Retorno rápido dos investimentos.
6 Financiamentos mais baratos ao invés de sobras
7 Associados novos devem poder usar estrutura coletiva da mesma forma que associados mais
antigos.
8 Compensação financeira para o capital social, retorno financeiro.
9 Não associados devem pagar para usar recursos coletivos.
10 Juros mais altos nas aplicações a sobras. Aversão a investimentos de longo prazo.
11 Serviços mais baratos a sobras, uso de estrutura coletiva.
12 Sobras representam as sobretaxas dos serviços. Uso particular de investimentos coletivos.
Dimensão
REF e CP
C
S
PC
C e IC
S
PC
REF
PC
S e IC
S e PC
S e IC
Fonte: Elaboração própria.
o associado investe na cooperativa para obter retorno
sobre o capital, como preconiza a visão financeira
tradicional. Até porque, o investimento em capital social
na cooperativa acabaria interferindo diretamente nas
atividades econômicas desenvolvidas por cada associado,
em particular. Talvez transpareça uma preocupação com o
uso eficiente dos recursos da cooperativa (KRAHNEN &
SCHMIDT 1997).
O fator 2, identifica o acesso a grandes mercados, o
acesso a recursos mais baratos, e o fortalecimento em
épocas de crise como variáveis, todas da dimensão
classificada como C (Ganhos em escala via cooperação).
Esses aspectos são defendidos por Borgen (2004),
Menegário (2000), Pinho (1986), Silva Filho (2002) e Yaron
(1994), que sugerem que a cooperativa deve buscar agregar
valor coletivamente a seus membros. Esse fator, segundo
na hierarquia, evidencia com 7,78% da explicação da
variância. Presume-se, então, que há uma preocupação por
parte dos associados em conseguirem, via cooperativa,
atender à demandas específicas, como juros mais baratos
em empréstimos, acesso a mercados inacessíveis
individualmente, bem como com o zelo pelo esforço
coletivo em função de eventuais crises.
O fator 3 resgata a variável, aversão à taxação dos
serviços. Outro fator considerado puro, por relevar
somente a dimensão classificada como S (Serviços
melhores ou mais baratos). Defendida por Bialoskorski
Neto et al. (2002) e Krahnen & Schmidt (1997) essa dimensão
revela a lógica classificada como lógica de usuário por
Borgen (2004). A cooperativa, pode, durante o exercício
fiscal, optar por oferecer um serviço de qualidade superior
ao do mercado ao mesmo preço, ou ainda, fornecer algum
serviço com o mesmo nível de qualidade a um preço
inferior ao do mercado, ao invés de enfatizar a busca de
resultados econômico-financeiros. Este fator sugere com
7,3% da variância, que associados atuam na visão de que
os serviços oferecidos aos associados devem ser
gratuitos.
O fator 4 revela a variável acesso a estrutura comum
construída por outros, da dimensão classificada como PC
(acesso à propriedade comum), e classificada a partir de
Borgen (2004), Cook (1995) e Vitalino (1983), quando
reiteram que produtores individuais necessitam de
mecanismos institucionais sob seu controle, para se
protegerem da volatilidade de preços e do oportunismo de
mercado. A reação coletiva é comum quando preços estão
depreciados ou os mercados estão difíceis. Esse fator,
explicando 6,16% da variância, revela que associados têm
ciência de que associados entrantes usam recursos
coletivos da mesma forma que associados mais antigos,
sem contudo, revelarem alguma aversão em relação a esse
aspecto. Esse fator parece caracterizar que os associados
têm preocupação com a coletividade, representada através
da cooperativa.
O fator 5 por sua vez, evidencia novamente variáveis
da dimensão classificada como C (ganhos em escala via
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
342
MEURER, S. & MARCON, R.
cooperação) defendida por Borgen (2004), Menegário
(2000), Pinho (1986), Silva Filho (2002) e Yaron (1994), e
uma variável da dimensão IC (Investimentos coletivos e
seu horizonte de uso) extraída de Bialoskorski Neto (2001),
Borgen (2004), Cook (1985) e Vitalino (1983). Esse fator
misto associa, ao mesmo tempo, duas variáveis de uma
dimensão que se caracteriza por retratar a essência do
cooperativismo que é a cooperação, e outra variável que
solicita um retorno rápido dos investimentos efetuados,
considerado um problema relacionado a investimentos em
cooperativas. Esse fator permite deduzir que os associados
não classificaram suas opções a partir de um só critério.
Quer dizer que ao mesmo tempo, relevam a cooperação e
um comportamento adverso a investimentos de longo
prazo.
O fator 6 revela a variável acesso a financiamentos
mais baratos novamente da única dimensão S (Serviços
melhores e mais baratos). Há expectativa por acesso a
recursos financeiros com juros menores, nesse caso
representado por empréstimos subsidiados, ou então
lastreados com recursos próprios da cooperativa, em
detrimento de resultados econômico-financeiros.
O fator 7 destaca o acesso irrestrito de associados
novos aos investimentos e no mesmo fator a variável de
que devem pagar pelo uso. Mesmo sendo da mesma
dimensão classificado como PC (acesso à propriedade
comum), esse fator destaca o interesse para com que os
associados novos também usufruam da estrutura da mesma
forma que os associados mais antigos, mas que carreguem
o ônus relativo a esse uso. Quer dizer, associados novos
podem usar os recursos, mas devem pagar pela respectiva
fruição.
O fator 8 revela a expectativa pela compensação
financeira do capital social e o retorno financeiro, variáveis
classificadas na dimensão REF (Resultados econômicofinanceiros). Esse fator revela preocupação com o retorno
sobre investimento na cooperativa. Novamente, e com mais
ênfase aparece a lógica de investidor caracterizada por
Borgen (2004). Esse fator, embora com 4,6% da explicação
da variância revela que o associado quer da cooperativa,
acima de tudo, uma compensação pelo seu capital, além de
retorno financeiro. Deixa claro que investe na cooperativa
para obter retorno.
O fator 9 destaca a preocupação com relação ao
uso gratuito de recursos por não associados, variável
classificada na única dimensão PC (acesso à propriedade
comum). Enquanto se permite que membros da sociedade
usufruam de benefícios coletivos, a mesma permissão não
é concedida para não-associados.
O fator 10 resgata a variável preferência por juros
mais altos nas aplicações que sobras no final do exercício,
classificada na dimensão S (serviços melhores ou mais
baratos) e a variável sou contra investimentos de longo
prazo classificado como dimensão IC (Investimentos
coletivos e seu horizonte de uso). Novamente, um fator
misto, explicando 3,5% da variância destaca uma
preocupação com a fruição de benefícios durante o exercício
fiscal. Adiciona-se à aversão a investimentos de longo
prazo, um problema relacionado com investimentos em
cooperativas.
O fator 11 indica preocupação com relação a um
serviço mais barato em relação à distribuição de sobras no
final do período, resgatando mais uma variável da dimensão
S (serviços melhores ou mais baratos) A outra variável
selecionada refere-se à decisão de associar-se à cooperativa
por haver interesse em utilizar-se da estrutura existente.
O fator misto 12, com explicação de apenas 3,1 % da
variância, revela as variáveis não gosto de sobras, pois
representam o que paguei a mais pelos serviços e produtos
durante o ano, também classificada como dimensão S
(Serviços melhores ou mais baratos) e a saída da sociedade
quando estiver esgotada vida útil de determinado
investimento sobre o qual houve participação, classificada
na dimensão IC (Investimento coletivo e seu horizonte de
uso). Esse fator revela uma aversão às sobras e,
reconhecendo as mesmas como resultado de sobretaxas
praticadas durante o exercício. Como salientam Bialoskorski
Neto et al. (2002) o fato da cooperativa não ter a finalidade
de gerar lucro, pode reverter na opção de oferecer produtos
ou serviços ao melhor preço possível, ao associado ou
ainda no melhor nível em termos de qualidade de produtos
e serviços. Nessa lógica, não estariam sendo gerados
resultados para a cooperativa, mas sim diretamente nas
atividades econômicas de seus associados. Nesse fator o
associado reconhece as sobras como resultado do
sobretaxamento dos produtos e serviços oferecidos.
Igualmente importante manifesta-se o problema do
horizonte quando há a manifestação do desejo de sair da
sociedade quando determinado investimento estiver com
a vida útil esgotada.
No Quadro 4 mostra-se a evolução do desempenho
nos diversos indicadores usados nesse trabalho. Ressaltase que não foi possível recuperar dados sobre a evolução
do número de associados com empréstimos, associados
beneficiados com recursos oficiais e associados
poupadores até o ano de 2002; o preço praticado pelos
serviços prestados manteve-se estável desde o ano de
2000.
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
Desempenho de cooperativas: o caso de uma cooperativa ...
343
QUADRO 4 – Evolução do desempenho da cooperativa.
Indicadores
Anos
ROE
ROA
Número de associados
Participação nas AGO
Capital social (em mil)
Investimentos*
Imobilizado**
Associados com empréstimos
Beneficiados com recursos oficiais
Associados poupadores
2000
2,55
0,31
3.267
244
549
144.872
324.744
-
2001
4,41
0,51
3.717
187
664
185.111
334.928
-
2002
9,49
0,85
4.557
305
811
233.207
361.744
-
2003
16,81
2,97
5.199
549
1.062
407.987
406.573
1.153
258
2.263
2004
16,56
3,05
6.283
775
1.740
517.980
420.805
1.132
231
2.504
2005
18,73
3,80
7.819
900
2.338
664.728
429.290
1.424
250
2.667
* O grupo investimentos teve o incremento às participações em coligadas e controladas a partir de 1999, representado pelos
investimentos no Sicoob Central e Bancoob.
** Do grupo imobilizado já está descontado o valor relativo à depreciação. Em 2000 foi feita a reavaliação do ativo imobilizado.
4.1 Relação entre objetivos dos associados e o desempenho
da cooperativa
A classificação dos potenciais objetivos em
dimensões permite uma análise mais acurada da relação
com o desempenho. Os fatores gerados selecionaram
variáveis de todas as dimensões.
A dimensão REF (Resultados econômicofinanceiros) foi selecionada nos fatores 1 e 8. No fator 1,
foi selecionado também a dimensão CP (carteira de
produtos voltados ao auto-interesse). Já no fator 8, foram
selecionadas variáveis somente da dimensão REF. Não há
como separar claramente no fator 1, a proporção da variância
explicada pela dimensão REF. Contudo, o fato de ter sido
selecionada, a revela no topo da hierarquia dos interesses.
Assim sendo, verifica-se que essa dimensão contribui para
a explicação de 20,32% da variância.
O desempenho nessa dimensão representado pelos
indicadores ROA - Retorno sobre o Ativo e ROE – Retorno
sobre o Patrimônio Líquido mostra uma evolução
significativa. Se o associado quer sobras, como sugere o
fator 1, ele as tem. Em todos os anos avaliados, a
cooperativa apresentou sobras. Se ele quiser retorno
financeiro, conforme o fator 7, cabe a cada associado
verificar o seu custo de oportunidade e avaliar a viabilidade
desse retorno. Embora não consiga usufruir do capital
social a qualquer tempo, pois para resgatá-lo é preciso sair
da sociedade e se quiser voltar a ela terá que capitalizar o
mesmo valor, um ROE de 18,73% representa um retorno
considerável. Acredita-se que, embora com restrições, como
a inacessibilidade ao capital enquanto sócio, nessa
dimensão a cooperativa esteja atingindo os interesses do
associado.
A dimensão S (Serviços melhores ou mais baratos),
teve variáveis relacionadas a ela, selecionadas nos fatores
3 e 6 de forma isolada, e nos fatores 10, 11 e 12 agrupado
com as dimensões IC, e PC. Assim, explica-se isoladamente
12,06% da variância e de forma agrupada mais 10,02%.
Então, essa dimensão participa diretamente, de forma
isolada ou agrupada, da explicação de 22,63% da variância
total do que os associados esperam da cooperativa.
O desempenho nessa dimensão ficou restrito ao
levantamento da evolução das taxas cobradas pelos serviços.
No levantamento de dados verificou-se que não houve
reajuste de preço desde o ano de 2000. A evolução positiva
dos resultados, portanto, não pode ser vinculada à majoração
do preço das taxas. No aspecto qualidade do serviço, não foi
possível estabelecer um desempenho, já que envolve uma
série de variáveis que fogem do escopo desse trabalho.
A dimensão C (Ganhos em escala via cooperação),
foi selecionada pelo fator 2 de forma isolada e pelo fator 5
de forma agrupada com a dimensão IC. Essa dimensão
explica isoladamente 7,77% da variância e de forma
agrupada mais 5,68%. Tem participação direta, de forma
isolada ou agrupada, na ordem de 13,45% na explicação da
variância. Nessa dimensão, o desempenho foi determinado
a partir da participação nas assembléias gerais, proporção
de associados ativos. A cooperativa, considera como
associado ativo todo aquele que integralizou capital social.
Quer dizer, que, durante determinado período, o associado
não utilize nenhum serviço ou não se utilize da estrutura
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
344
MEURER, S. & MARCON, R.
da cooperativa, mas o fato de ter esse serviço à sua
disposição classifica-o como associado ativo. Em virtude
desse aspecto, cem por cento dos associados da
cooperativa são associados ativos. Já a participação nas
Assembléias Gerais Ordinárias apresenta uma evolução
significativa. Em 2000 foi registrada a presença de 244
associados contra 900 em 2005. Proporcionalmente, a
evolução mostra uma proporção de 7,5% dos associados
participando da AGO de 2000 contra 11,51% em 2005. O
interesse crescente pela participação na gestão e também
no conhecimento dos resultados, ações e metas da
cooperativa é refletido nesse indicador.
A dimensão PC (Acesso à propriedade comum) teve
variáveis selecionadas pelos fatores 4, 7 e 9. Nota-se que
variáveis dessa dimensão não foram selecionadas de forma
agrupada com variáveis de outra dimensão. O conjunto
dos três fatores explicam de forma isolada, 15,46% da
variância. Os indicadores usados para medir o desempenho
dessa dimensão são: a evolução do número de associados
e a evolução do capital social da cooperativa. O número de
associados teve um crescimento proporcional, no período
entre 2000 e 2005, na ordem de 139,33%. O capital social
teve um o incremento de 326,22%. O incremento
significativo no número de associados reflete uma busca
de filiação à cooperativa. A preocupação com o
comportamento free rider evidenciado por esses fatores,
imprimem uma preocupação com relação ao acesso à
propriedade comum. O crescimento do capital social, que
poderia refletir algum pagamento relativo ao acesso, teve
um incremento bem superior ao número de associados. É
importante, contudo, ressaltar que durante os exercícios
fiscais envolvidos, toda a sobra gerada foi adicionada ao
capital social. Quer dizer, o incremento da conta capital
social não se deu somente em função das novas
associações, e por isso não há como afirmar se os
associados novos, no momento de se associarem-se à
cooperativa, pagam um valor adicional, para obterem o
direito de usar a propriedade coletiva construída pelos
outros associados mais antigos.
A dimensão IC (Investimento coletivos e seu
horizonte de uso) ficou evidenciada, de forma agrupada,
nos fatores 5, 10 e 12. Em conjunto e de forma agrupada
essa dimensão explica 12,33% da variância. Os
investimentos na cooperativa de crédito podem ser
representados pelas contas patrimoniais Imobilizado e
Investimentos. A conta Imobilizado teve um incremento
de 32% no período. É importante ressaltar que a atividade
da cooperativa restringe-se à prestação de serviços
financeiros. A estrutura para essa prestação de serviços
demanda os móveis, utensílios e equipamentos de
informática, softwares necessários à prestação desses
serviços e, em geral, tem um custo baixo se comparados
com a necessidade de estrutura de organização com
atividade industrial por exemplo. Já a conta Investimentos,
recebeu incremento significativo por haver norma legal de
integralização de 15% do Patrimônio Líquido da cooperativa
singular na cooperativa central. Essa conta teve um
incremento na ordem de 359%. Nos dois grupos de contas
não há como estabelecer o horizonte de uso. Os
investimentos são feitos na Cooperativa Central e no Banco
de Crédito Cooperativo, com vistas a viabilizar essas
instituições e, a partir daí, usufruir dos seus serviços. Os
benefícios são acessíveis a todos os associados e por
tempo indeterminado.
A dimensão CP (Carteira de produtos voltados ao
auto-interesse) teve variáveis selecionadas no fator 1 no
qual explica de forma agrupada 15,70 % da variância. Nessa
dimensão, o desempenho mostrado pela variação no
número de associados, número de associados tomadores
de empréstimos, número de poupadores e número de
associados beneficiados com recursos oficiais, mostra uma
variação não equivalente. Para esses indicadores foi
possível obter dados a partir de 2003. A comparação desses
dados indica que, entre 2003 e 2005, o número de associados
cresceu em 50,39% enquanto que o número de tomadores
de empréstimo cresceu em 23,50 %, o número de poupadores
cresceu em 17,85% e o número de beneficiados com recursos
oficiais teve um decréscimo na ordem de 3,2%.
Transparecem evidências de que as novas associações
não estão ocorrendo em função do acesso às principais
carteiras de produtos oferecidas.
No geral, nota-se que há uma preocupação com os
resultados econômico-financeiros gerados. Os associados
esperam que a cooperativa consiga gerar sobras que
compensem os investimentos feitos. Por outro lado,
transparece a expectativa por serviços bons e baratos. O
associado espera ser atendido de forma diferenciada, tanto
pelo critério preço quanto pelo critério qualidade na sua
cooperativa. Nota-se um comprometimento dos associados
para com a coletividade. Percebe-se que não há objeção
quanto ao acesso à estrutura disponibilizada desde que
haja a assunção dos ônus relativos.
A evolução do desempenho nos indicadores
selecionados permite deduzir que a cooperativa atinge os
anseios do associado. A notar pelo incremento significativo
do número de associados e dos resultados gerados a partir
das atividades da cooperativa, sem haver variação no valor
das taxas cobradas pelos serviços oferecidos.
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
Desempenho de cooperativas: o caso de uma cooperativa ...
4.2 Discussão dos Resultados
A preocupação com relação às sobras geradas e
distribuídas, evidenciada no tratamento das respostas
obtidas no questionário, transparece preocupação com o
uso eficiente dos recursos disponibilizados (KRAHNEN
& SCHMIDT, 1997). Os resultados econômicos são
necessários, mas deverão ser conseqüência da plena
realização do potencial criativo das pessoas envolvidas
(RICCIARDI & LEMOS, 2000). Para que essas funções
sociais possam ser exercidas tem-se que coordenar a
organização cooperativada de modo economicamente
eficiente, isto é, se não existir eficiência econômica também
não existirá geração de renda e, portanto, não haverá
prestação de serviços e distribuição de renda. Para alcançar
a eficácia social a cooperativa deve ser economicamente
eficiente (BIALOSKORSKI NETO, 2004). A cooperativa
tem que agir com a lógica econômica ‘para fora’ e também
‘para dentro’. Não deve ser entendida como uma
associação de egoísmos individuais, sem divisão entre a
propriedade e o controle a serviço da maximização do lucro
do associado individual. Deve, antes, ser entendida como
uma empresa que deve gerar benefícios, a partir da coalizão
econômica eficiente, através do mutualismo e da
cooperação intersetorial como uma forma da ‘distribuição’
do ‘bem estar’ (BIALOSKORSKI NETO, 1998).
Dentro da lógica de usuário, mostrada por Borgen
(2004) a preferência por serviços melhores ou mais baratos,
aparece em 5 dos 12 fatores gerados. As variáveis
selecionadas refletem preocupação com o custo dos
serviços. Pode-se reconhecer nessa dimensão que
conforme Krahnen & Schmidt (1997) o recebimento de um
empréstimo barato pode ser a razão principal para a
formação de uma cooperativa de crédito, e que se constitui
numa forma indireta de distribuição de lucro. Ou conforme
Bialoskorski Neto et al. (2002) o fato da finalidade da
cooperativa não ser a geração de lucros pode reverter na
opção de oferecer serviço num preço melhor ou de melhor
qualidade. Assim poderiam estar sendo gerados resultados
diretamente nas atividades econômicas dos associados
ao invés de para a cooperativa.
O acesso a grandes mercados, o acesso a recursos
mais baratos, o fortalecimento em épocas de crise ou
agregação de economias particulares, variáveis
selecionadas em um fator, facilita o relacionamento do
produtor com as estruturas de mercado oligopolizadas
trazendo economia aos negócios através das escalas de
negociação (COOK, 1995). No caso da cooperativa, em
sendo ela uma cooperativa de crédito rural, pode
345
proporcionar acesso facilitado a recursos oficiais
subsidiados, como por exemplo, os recursos do Pronaf
(Programa Nacional da Agricultura Familiar) e Proger
(Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda).
O acesso à propriedade comum efetiva a
cooperativa como um mecanismo de defesa, em que
agricultores se fortalecem perante comportamento
oportunista de empresas não agrícolas, verticalmente
integradas (BIALOSKOSRKI NETO, 2001). Embora
variáveis relativas a essa dimensão tenham sido
selecionadas em cinco fatores parece não haver restrição
em associados novos e não-associados terem acesso à
estrutura disponibilizada (comportamento free rider),
desde que paguem pelo uso desses recursos.
A cooperativa, por força do princípio da Adesão
livre e Voluntária, não veda a entrada de associados novos
desde que se enquadrem no perfil da cooperativa. Não há
também restrição a não associados em usufruírem alguns
dos serviços disponibilizados como, por exemplo: o caixa.
Já, a carteira de aplicações e a carteira de empréstimos são
acessíveis somente a associados.
A preocupação quanto à geração de investimentos
que promovam o desenvolvimento coletivo, está em
consonância com Bialoskorski Neto (1998, 2001), Borgen
(2004) e Cook (1995). Envolve também o problema do
horizonte, onde associados podem preferir, de acordo com
critérios próprios, investimentos com um horizonte de uso
adaptado à sua preferência. Nas cooperativas, o direito
sobre o capital não pode ser negociado, então há uma
preocupação maior dos cooperados com resultados de
curto prazo, desenvolvendo aversão a investimentos de
longo prazo (BIALOSKORSKI NETO, 2001; BORGEN, 2004;
COOK, 1995; VITALINO, 1984; ZYLBERSZTAJN, 1994).
A Carteira de negócios voltados ao auto-interesse
apresentada por Borgen (2004) e Vitalino (1983) como um
problema com origem nas diferentes preferências da relação
risco recompensa, oriunda da baixa transferibilidade, a baixa
liquidez e os limitados mecanismos de avaliação relativos
aos investimentos e direitos residuais em cooperativas foi
selecionada por 1 fator. O tipo de produto e serviço
oferecido pela cooperativa, ou seja, captação de recursos
e sua aplicação, enfatiza uma característica onde a
diversificação é bem vista.
5 CONCLUSÕES E LIMITAÇÕES
Uma das contribuições importantes desse trabalho
refere-se ao fato de que, com base na classificação
proposta, associados podem ter motivações mistas em
relação a cooperativas. Os dados gerados demonstram que
Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 3, p. 334-348, 2007
346
MEURER, S. & MARCON, R.
fatores mistos explicam a 31,4 da variância do que
associados procuram na cooperativa, quer dizer, podem
estar atuando ao mesmo tempo sob as lógicas que Borgen
(2004) denomina de lógica de investidor e de usuário. Quer
dizer, ao mesmo tempo associados querem serviços
melhores ou mais baratos que o mercado oferece, além de
esperar um retorno financeiro relativo a seu investimento
na cooperativa. Os fatores 1, 5, 10, 11 e 12 que revelam ao
mesmo tempo, numa mesma escala de prioridades
equivalente, expectativas mistas.
Em acordo com a teoria financeira, a expectativa
por retorno financeiro, compensação financeira do capital
social e, ao mesmo tempo da teoria cooperativa que zela
pelo atendimento diferenciado dos associados, parece
transparecer a expectativa pelo uso eficiente dos recursos
alocados às atividades produtivas. Dessa forma, serviços
melhores podem ser considerados resultado da plena
realização do potencial criativo das pessoas envolvidas.
De um modo geral, com base no crescimento
significativo do número de associados, a evolução dos
depósitos a vista e a prazo, a proporção de associados
ativos, a participação nas Assembléias Gerais Ordinárias,
o capital social e os indicadores de eficiência econômicofinanceiros evidenciam um crescimento expressivo da
cooperativa. Embora transpareça o atendimento das
expectativas dos associados, não há como afirmar se o
associado está satisfeito com esses resultados. Caberia
um outro estudo específico para verificar a que nível está
a satisfação dos associados para com a cooperativa.
A atuação simultânea sobre as lógicas de investidor
e de usuário pode estar atrelada a uma necessidade de se
obter serviços melhores e mais baratos, mas o associado
não limita a sua expectativa a isso. Espera que a
cooperativa atinja também a eficiência financeira atrelada
ao uso eficiente dos recursos disponibilizados.
A Teoria da Agência permitiu identificar
características que diferenciam as cooperativas de
empresas de capital. O difícil acesso aos resíduos, a
estrutura de capital fechado e a incompleta separação entre
propriedade e controle fazem com que o papel de agente e
principal se confundam. Na mesma relação contratual
agente e principal podem ser a mesma pessoa, e essa
característica traz à tona um terreno fértil para discussão.
De acordo com a teoria financeira tradicional,
assume-se de que a organização deve atender aos
objetivos dos seus shareholders (FRIEDMAN, 1970;
JENSEN, 2001; SILVEIRA, 2004). Conclui-se que a forma
organizacional cooperativa atribui aos seus gestores dupla
função: a de maximizar o retorno financeiro ao mesmo tempo
em que deve oferecer um serviço diferenciado no critério preço
e/ou qualidade. Embora Jensen (2001) sinalize a dificuldade
de atender a objetivos múltiplos, a forma organizacional
cooperativa, através de seus shareholders, os associados,
impõe a seus gestores a responsabilidade em rentabilizar
resultados e ao mesmo tempo distribuir benefícios na forma
de serviços melhores ou mais baratos durante as atividades.
Como limitações a essa pesquisa reitera-se que os
resultados obtidos com o estudo não permitem chegar a
conclusões sobre o poder explicativo de cada uma das 24
variáveis significativas, já que os fatores explicativos do
que os associados esperam de sua cooperativa atribuem
um peso relativo ao fator em conjunto, seja ele puro ou
misto. Dessa forma, não há como definir claramente se o
associado espera retorno financeiro de acordo com a teoria
financeira tradicional ou se busca a satisfação de
necessidades de produtos e serviços através da
mutualidade, de acordo com a filosofia cooperativa.
Outra limitação desse estudo deve-se ao fato da
pesquisa ter sido efetuada numa cooperativa específica, o
que impede a generalização dos resultados para outras
cooperativas. Além disso, a utilização de amostra não
probabilística resulta em impactos que devem limitar a
generalização das inferências (BARBETTA, 2003).
O estudo também limitou-se às variáveis
identificadas a partir de muita investigação bibliográfica, o
que não exime, porém, da possibilidade de se ter ignorado
outras variáveis igualmente importantes nesse trabalho.
Em decorrência dessas limitações sugere-se estudos
mais amplos, com amostras maiores de associados, e em
mais cooperativas, quem sabe, de algum ramo específico
para possibilitar uma generalização maior das conclusões.
Recomenda-se também uma investigação mais
ampla sobre as variáveis, objetivando identificar outros
aspectos que possam gerar variáveis complementares e
que contribuam para a ampliação das inferências.
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