XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 ANÁLISE DA ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DE UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO Angelo Marcio Oliveira Sant Anna (UFRGS) [email protected] Danilo Marcondes Filho (UNISINOS) [email protected] Cláudio José Müller (UFRGS) [email protected] O objetivo de uma cooperativa de crédito é propiciar crédito e prestar serviços de modo mais simples e vantajoso às empresas associadas, proporcionando estabilidade no ambiente de negócios. O planejamento estratégico pode ser utilizado comoo uma ferramenta gerencial capaz de auxiliar as empresas a tomarem decisões em um ambiente dinâmico e mutável. O planejamento é útil para conduzir as atividades da empresa com vistas a atingir seus objetivos. O presente artigo visa analisar uma cooperativa de crédito sediada no estado do Rio Grande do Sul sob a ótica do planejamento estratégico. A análise da organização é realizada segundo os aspectos: identidade organizacional, análise dos ambientes externos e internos, concorrência e portfólio de produtos, apontando às ameaças, oportunidades, pontos fortes e fracos da organização. Ao final são sugeridas ações para o desenvolvimento da organização. Palavras-chaves: Estratégico, Análise organizacional e Cooperativa de crédito. XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 1. Introdução Atualmente, o setor financeiro é o setor mais atrativo da economia nacional. Quando ocorre elevação da taxa de juros de um país, as maiores beneficiadas são as instituições financeiras. Há no setor financeiro uma concorrência bastante acirrada, pois as organizações buscam uma fatia cada vez maior no mercado, devido à alta lucratividade. As cooperativas de crédito são um importante instrumento alternativo no desenvolvimento de um país. A ampliação da oferta de crédito e prestação de serviços financeiros para empresas é indispensável à promoção de políticas de desenvolvimento sustentável em diversos segmentos econômicos, permitindo fortalecer e expandir o número de micro e pequenas empresas. Para auxiliar as empresas a tomarem decisões nesse ambiente dinâmico e mutável em que se encontram, o planejamento estratégico se faz uma ferramenta gerencial valiosa. A importância do planejamento, segundo Santos (1992), reveste-se da necessidade de que os pontos de vista, os hábitos e as atitudes, podem estar sendo tomadas sob um único aspecto e uma única direção, que conduzirá aos objetivos desejados. Mintzberg et al. (2000) advogam que as organizações devem planejar para coordenar suas atividades; para assegurar que o futuro seja levado em consideração; para ser racional; e até mesmo para exercer a função de controle. O presente artigo visa analisar uma cooperativa de crédito sediada no estado do Rio Grande do Sul sob a ótica do planejamento estratégico. 2. Referencial Teórico 2.1. Cooperativas de Crédito As primeiras cooperativas de que se tem notícia surgiram na França e na Inglaterra, entre 1820 e 1840. No início, além de suas funções econômicas, a cooperativa desempenhava o papel de sociedade beneficente, de sindicato e até de universidade popular. Foi a partir do fim do século XIX que o movimento cooperativista envolveu novos setores, como agricultura, comércio varejista, pesca, construção e habitação (PINHEIRO, 2006). Segundo Schardong (2002), o cooperativismo de crédito foi introduzido no Brasil em 1902, no município de Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul. Desde então, o sistema de crédito cooperativo foi ampliando-se e muitas organizações foram se unindo em torno de um mesmo ideal. Segundo Assaf (2001), apesar do crescimento do segmento no Brasil, nota-se o grande desconhecimento sobre cooperativas no Brasil. No Brasil há três grandes sistemas cooperativos, o Sicredi, o Sicoob e a Unicred, e outros dois sistemas menores Cresol e Ecosol. O sistema Sicredi é composto de uma confederação, o banco Bansicredi e 5 centrais; o sistema Sicoob, de uma confederação, o banco Bancoob e 14 centrais; e o Sistema Unicred, de uma confederação, o banco UnicredBrasil e 9 centrais. Em 1996 foi fundado o primeiro banco cooperativo privado do Brasil, o Bansicredi, cujos acionistas são as cooperativas de crédito. A criação de um banco possibilitou o acesso a produtos e serviços bancários vedados às cooperativas pela legislação vigente, e também a administração de seus recursos financeiros em escala. No ano seguinte, foi fundado o segundo banco cooperativo, o Bancoob, sendo o Unicred criado cindo anos depois (PINHEIRO, 2006). 2.2. Planejamento Estratégico As cooperativas de crédito objetivam propiciar crédito e prestar serviços de modo mais 2 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 simples e vantajoso às empresas associadas, proporcionando estabilidade no ambiente de negócios. O planejamento estratégico pode ser utilizado como uma ferramenta gerencial capaz de auxiliar as organizações financeiras a tomarem decisões em um ambiente dinâmico e mutável. Segundo Barcellos (2002), uma organização empresarial que deseja se manter no mercado deve considerar a estratégia como importância vital no embate da concorrência. A estratégia de uma empresa implica na capacidade de raciocínio lógico, habilidade de previsão e ações empreendedoras. O conceito de estratégia nos negócios pode ser relacionado ao de operações militares, por consistir em elementos como: recursos limitados, incerteza do potencial dos adversários e do controle da situação e ações precisas. Para Oliveira (1999), a estratégia é o procedimento mais adequado a fim de alcançar os objetivos e metas gerenciais. Segundo Müller (2003), uma organização empresarial que realiza um planejamento estratégico não pretende adivinhar o futuro, mas estabelecer objetivos e ações que possibilitem um futuro desprovido de incertezas do amanhã. Robert (1998) apresenta três questionamentos sobre estratégia, discutindo suas vantagens e desvantagens: a) “A estratégia fixa a direção”. − Vantagem: mapeará o curso da organização. − Desvantagem: manter sempre o mesmo curso pode ocultar perigos em potencial. b) “A estratégia focaliza o esforço”. − Vantagem: faz com que as pessoas puxem em uma mesma direção, promove a coordenação das atividades. − Desvantagem: pode não haver visão periférica para abrir outras possibilidades. c) “A estratégia define a organização”. − Vantagem: provê significado e uma forma conveniente para se entender o que faz a organização. − Desvantagem: defini-la com excesso de simplicidade pode não considerar questões amplas. Planejamento estratégico é o processo administrativo que desenvolve e mantém uma ligação estratégica entre a organização e suas oportunidades de mudança mercadológica. Este processo é realizado com o desenvolvimento de uma missão clara da empresa, objetivo e metas, estratégia de crescimento, e planejamento do portfólio do produto (KOTLER, 1991). Segundo Fischmann & Almeida (1993), as etapas para implantação do planejamento estratégico são: a avaliação da estratégia vigente; a avaliação do ambiente interno (pontos fortes e fracos) e externo (oportunidades e ameaças); a direção para o futuro; a viabilidade dos objetivos e a finalização do plano estratégico. De acordo com Oliveira (2001), no processo de implementação do planejamento estratégico, as empresas habitualmente cometem falhas, tais como: a estruturação inadequada do plano, não envolvimento dos níveis hierárquicos, displicência do processo de inovação ou baixa credibilidade ao planejamento e inadequada interação entre os responsáveis. 3 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 3. Método O estudo realizado na empresa ocorreu com a participação dos integrantes dos setores administrativo e comercial. Os processos de planejamento estratégico e produção foram investigados. Utilizou-se o instrumento de entrevistas e num segundo momento um roteiro de questões abertas direcionadas a obter uma visão detalhada dos processos e identificação de particularidades da organização. 3.1. Descrição da Empresa Municipal Estadual Federal A empresa pode ser considerada de grande porte, com produtos e serviços de alta qualidade objetivando a satisfação dos seus colaboradores e associados. A organização da cooperativa de crédito pesquisada é composta por: uma confederação, um banco cooperativo e cinco centrais, sendo: uma administradora de bens, uma administradora de consórcios, uma administradora de cartões de crédito, uma corretora de seguros, e uma fundação, além de uma empresa de sistemas (ver Figura 1). Figura 1 – Estrutura organizacional da Cooperativa de crédito A estrutura organizacional da empresa pode ser vista com poucos níveis hierárquicos. A adoção deste tipo de estrutura permite redução dos custos administrativos. O processo decisório é descentralizado. As inovações são incentivadas a todos os organismos e setores da empresa. Há uma busca constante por inovações e pede-se o uso da criatividade aos seus profissionais. A empresa conta com seus colaboradores e associados para continuar crescendo e se desenvolvendo cada vez mais, a fim de potencializar frente à competitividade de instituições financeiras. Para tanto, possui a estrutura apresentada Figura 1 visando valorizar e destacar seu diferencial competitivo, o fato de ser cooperativa. Pode-se dizer que as cooperativas são sociedades de pessoas, enquanto instituições financeiras são sociedades de capital. Por isso há uma valorização muito grande para as pessoas, sejam elas colaboradores, diretores ou conselheiros. 3.2 Aplicação do Planejamento Estratégico Em virtude da implementação ser recente na empresa, a falta de experiência dos gestores tem 4 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 fornecido resultados restritos em relação à potencialidade do planejamento estratégico. Além disso, os gestores não consideram os estudos técnicos na projeção do comportamento das variáveis relevantes, como análise de tendências. Além disso, percebeu-se que a empresa dispõe apenas de vagas informações sobre os concorrentes. Deve-se ressaltar que conseguir informações precisas sobre os concorrentes é uma tarefa difícil, em particular, por possuir produtos e serviços diversificados. Contudo, deve-se buscar informações adicionais para aumentar a precisão do diagnóstico interno (identificação dos pontos fortes e fracos da empresa), aumentando a credibilidade do planejamento estratégico. A análise da estrutura organizacional realizada neste trabalho seguiu as orientações propostas por Müller (2003), consistindo em descrever as fases contidas no método, que são: Identidade organizacional, Análise do ambiente e Delineamento das estratégias, conforme a Figura 2. Fonte: Müller (2003) Figura 2 – Método de orientação de implantação do Planejamento Estratégico 3.2.1 Identidade Organizacional Esta fase fornece uma visão de quem é a empresa em termos de segmento e propósito. Negócio: Cooperativismo de crédito. Missão: Valorizar o relacionamento, oferecer soluções financeiras para agregar renda e contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos associados e da comunidade. Princípios e Valores: − − − − − − Preservação irrestrita da natureza cooperativa do negócio. Respeito à individualidade do associado. Valorização e desenvolvimento das pessoas. Preservação da instituição como sistema. Respeito às normas oficiais e internas. Transparência na gestão. 5 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 Visão de Futuro: Manter-se como um sistema de crédito cooperativo de referência em qualidade e eficiência em cooperativismo de crédito no Brasil. 3.2.2 Análise do Ambiente Esta fase ressalta o comportamento estratégico da empresa, níveis de turbulência e agressividade e as potencialidades com foco no futuro. Buscou-se estudar as Áreas Estratégicas de Negócio da cooperativa de crédito em pesquisa a partir da análise dos ambientes interno e externo. Para o ambiente interno, a análise foi realizada através da identificação das forças e fraquezas da organização para revelar importantes características e relações futuras. Para o ambiente externo fez-se a identificação das ameaças e oportunidades; a análise de Porter (Cinco forças competitivas); e a Matriz SWOT para definição de ações estratégicas. O resultado destas análises pode oferecer novos subsídios e apontar ações estratégicas alternativas para a empresa. 3.2.2.1 Análise do Ambiente Interno Destacam-se como forças para a empresa cooperativa de crédito os serviços oferecidos com alto valor agregado. Por exemplo, o valor monetário – cobrando tarifas menores que a média de mercado e as sobras revertem em favor do associado (cooperado). Bem como, o relacionamento humano com o associado (dono do negócio). Observaram-se as principais atividades da cooperativa, destacando as mais significativas, como: captação de recursos, concessão de crédito, comercialização de seguros, comercialização de cartões de crédito e débito e realização de cobrança bancária. Os pontos fortes identificados são: − − − − Ser cooperativa (Fo1); Atendimento personalizado (Fo2); Baixo custo operacional (Fo3); Programas de Capacitação (Fo4); Já os pontos fracos identificados são: − Alto grau de imobilização (avanços tecnológicos) (Fr1); − Conservadorismo (cautela) (Fr2). A partir da análise do ambiente interno, sugere-se que a estratégia genérica da empresa esteja na valorização e exploração de seu diferencial competitivo: SER COOPERATIVA. Para isso, é essencial divulgar e expandir informações e capacitação a associados em potencial. 3.2.2.2 Análise do Ambiente Externo Entre as ameaças e oportunidades identificadas para a cooperativa de crédito em pesquisa, destacam-se as potencialidades dos concorrentes (Ameaças): − Alta tecnologia. (A1) − Auto-atendimento. (A2) − Agressividade no crédito. (A3) E as fragilidades dos concorrentes (Oportunidades): 6 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 − Atendimento automatizado (O1); − Despreparo e falta de interesse em operar com micro-crédito (O2); Destaca-se ainda algumas ameaças e oportunidades segundo as tendências de mercado para a empresa cooperativa de crédito, conforme Figura 3 e Figura 4. Fatores do ambiente Político Econômico Político e Econômico Político e Econômico Jurídico (lei) Sócio-cultural Demográfico Tecnológico Evidência (descrição da importância/impacto para o setor) - Mudança de governo com perfil para a recessão direciona para a estagnação da economia como fator de segurança. - Renovação dos quadros políticos, onde existam radicais contra o sistema financeiro. - Alterações na taxa de câmbio e variações nos indicadores econômicos afetam diretamente o setor financeiro. Diminuição do poder aquisitivo da população. - Alterações na legislação tributária (ex. aumento da carga tributária), com isso haverá menos moeda em circulação. - Reformas no setor previdenciário (ex. aumento da alíquota de contribuição), geram diminuição do poder aquisitivo do trabalhador. - Alterações na legislação podem beneficiar os consumidores. - Mudança nos hábitos do público-alvo (aumento da demanda em investir em bens de consumo). - O nível de escolaridade afeta diretamente o nível de investimento, pessoas melhores informadas tendem a investir mais. - Diminuição do mercado potencial da terceira idade. - Ausência de inovações tecnológicas e de atualização dos sistemas de segurança. Figura 3 – Algumas ‘Ameaças’ identificadas Fatores do ambiente Político Econômico Político e econômico Sócio-cultural Demográfico Tecnológico Evidência (descrição da importância/impacto para o setor) - Mudança de governo com perfil para o desenvolvimento, reformas no sistema produtivo. - Alterações na taxa de câmbio e variações nos indicadores econômicos afetam diretamente o setor financeiro. Aumento do poder aquisitivo da população. - Alterações na legislação tributária (redução do depósito compulsório). Reformas no setor previdenciário. - Mudança dos hábitos do público-alvo (aumento da demanda por serviços do sistema financeiro). Nível de escolaridade. - Aumento do poder aquisitivo do público feminino. - Aumento do mercado potencial da terceira idade. - Inovações tecnológicas, novos serviços e atualização dos sistemas de segurança. Figura 4 – Algumas ‘Oportunidades’ identificadas 3.2.2.3 Forças Competitivas de Porter Complementa-se a análise feita do ambiente externo da empresa, utilizando o modelo proposto por Porter (1997), composto de ‘cincos forças competitivas’ que exercem influência sobre uma organização (MÜLLER, 2003, p.56). 7 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 A Figura 5 mostra a importância que as cincos forças competitivas: fornecedores, clientes, novos entrantes, substitutos e concorrentes, possibilitam em perspectivas futuras à organização. Força competitiva Fornecedores Clientes Novos Entrantes Produtos substitutos Concorrentes no setor Evidência (descrição da importância/impacto para o setor) - Melhorar o poder de barganha junto aos fornecedores. - Manter atualizado os sistemas operacionais e de segurança. - Expandir o número de investidores. - Serviços personalizados para determinado nicho de mercado. - Falhas no atendimento por desqualificação da mão de obra. - Barreiras e novos entrantes. - Bancos virtuais. - Cooperativas de crédito segmentadas. - Cooperativas de micro-crédito. - Lançamento de novos produtos/serviços. - Diminuição de tarifas para ganhar competitividade. - Facilidade de obtenção de crédito nas financeiras. - Concentração de empréstimos em um mesmo setor. Figura 5 – ‘Forças de Porter’ identificadas Descrição das forças competitivas de PORTER a) Fornecedores As empresas do setor financeiro, na maioria das vezes, detêm a concentração do poder de negociação frente aos fornecedores. Quando são adquirentes de hardware, software e outros materiais são visados pelos fornecedores porque são grandes as quantidades consumidas pelo setor. Os aplicadores de dinheiro também são fornecedores para o setor financeiro, pois eles é que depositam o dinheiro com o qual o setor realiza as transações financeiras com seus clientes. Neste caso, os fornecedores passam a ter o poder de negociação, porque todas as instituições financeiras estão dispostas a adquirir o depósito. Portanto, as empresas do setor financeiro possuem oportunidades diversas frente aos fornecedores. Por outro lado, está sempre ameaçada, ou de certa forma insegura, se caso os serviços prestados pelos fornecedores não possuem a qualidade e segurança necessária, como por exemplo, a manutenção de banco de dados de uma instituição financeira. b) Clientes O setor financeiro está em expansão na qualidade e diversidade de produtos e serviços oferecidos aos clientes. Entretanto, o poder de negociação frente aos compradores é muito relativo. Este setor tem a vantagem de expandir seus negócios, pois o seu campo de atuação é muito grande. Observa-se que dificilmente uma pessoa ou empresa não precisa de algum serviço prestado por uma instituição financeira. Esta é uma oportunidade do setor, que por esse motivo capta novos clientes e depois pode oferecer uma enorme quantidade de produtos e serviços para eles. Para fidelizar esses clientes, o setor precisa estar atento às tendências de mercado, oferecendo produtos novos e que realmente interessam ao público-alvo. São feitos também convênios com empresas interessadas a fim de oferecer facilidades e descontos aos clientes. Mas em contrapartida, sempre existem ameaças que fazem o setor financeiro reavaliar a 8 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 viabilidade do negócio. Os clientes têm chance de escolher a instituição com a qual se identificam, onde lhes é oferecido o serviço com o melhor custo-benefício. Dos problemas que ocorrem e influenciam diretamente no sucesso do setor, está a qualidade da mão-de-obra oferecida (pode causar descontentamento), a baixa concentração de renda da região (gera inadimplência), entre outros. c) Novos Entrantes A participação de novos entrantes no setor financeiro é algo que não incomoda muito as instituições já instaladas no mercado, quando se trata de constituição de novos bancos, pois para surgirem, é necessário que superem barreiras muito difíceis, como por exemplo, volume de capital necessário e restrições legislativas para constituição da organização. Já quando o assunto são cooperativas de crédito, os novos entrantes preocupam muito, pois o governo estimula sua propagação, sem se preocupar com a gestão. Mas já são observados bancos virtuais oferecendo taxas de retorno maiores para os clientes que investem seu dinheiro com os mesmos. Este tipo de organização virtual pode pagar mais, pois não possuem gastos fixos de instalação, entre outros. Estas organizações estão começando a incomodar o setor financeiro, pois acabam adquirindo uma fatia do mercado de investidores (poupadores), que antes levavam seus recursos excedentes para uma instituição de instalações fixas de sua preferência. d) Produtos substitutos Como o mercado atual deseja sempre experimentos novos, as empresas do setor financeiro não podem ficar para trás. Para isso, é necessário um direcionamento ao mercado, para poder identificar novas oportunidades, e assim, oferecer produtos e serviços aos clientes baseados em novas tendências e necessidades. No momento em que as instituições financeiras conseguem aos poucos oferecer algo de novo para os seus clientes, há uma chance maior de conseguir fidelizá-lo, e ainda, se destaca como uma organização preparada para o mercado atual, fixando desta forma a sua marca. Portanto, é relevante que a empresa invista em programas de Pesquisa e Desenvolvimento (P & D), para poder lançar, em curto espaço de tempo, produtos e serviços novos ou pelo menos conseguir acompanhar as novidades do mercado, pois não fazendo rapidamente, serão absorvidos pela concorrência por não atender às expectativas do mercado consumidor. e) Concorrentes no setor No setor financeiro a concorrência é altamente acirrada, com grande oferta de produtos e serviços. Há uma busca por fatias cada vez maiores no mercado, visando ganho de escala, o que traz como conseqüência a redução nos custos e o aumento da lucratividade. No sistema financeiro convencional os fins (lucro) justificam os meios. O porte da empresa não é garantia de sucesso. O diferencial é a agilidade, a resposta, a reação às necessidades e oportunidades do mercado. É importante a segmentação em públicos-alvos distintos (diferentes market-share) dos produtos e serviços oferecidos pelos integrantes do setor. Esta segmentação procura atingir o equilíbrio entre diversos setores na sua carteira de clientes, evitando a fragilidade numa crise de algum segmento específico. Na cooperativa de crédito, há serviços bancários, de seguros e 9 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 administração de crédito e débito, dentre outros. Devido à competitividade, é necessário encontrar alternativas que possam trazer alguma vantagem mercadológica. Por exemplo, com freqüentes queixas de clientes do sistema financeiro, que pode ser considerado como ameaças, surgem oportunidades no atendimento, ou seja, ter velocidade de resposta às necessidades dos clientes pode ser considerado uma vantagem competitiva. 3.2.3. Delineamento de Estratégias A identificação e análise do ambiente externo (ameaças e oportunidades) e interno (pontos fortes e fracos) permitem realizar uma combinação entre os ambientes a fim de derivar as ações estratégicas e metas para a organização. Segundo Müller (2003), as alternativas estratégicas que resultam das ameaças e oportunidades combinadas com a capacidade corporativa são denominadas de estratégias potenciais. A seguir destaca-se os pontos que definem a cooperativa de crédito, a partir de uma matriz SWOT, relacionando as ameaças, as oportunidades, seus pontos fortes e fracos. A combinação das ameaças com os diferentes pontos fortes da organização é apresentada na Figura 6. A Figura 7 confronta as oportunidades com os pontos fortes identificados na corporação. O relacionamento das ameaças e oportunidades com as fraquezas da organização é mostrado na Figura 8. Pontos FORTES Fo1 Fo2 Ser Cooperativa Atendimento Personalizado Fo3 Baixo custo operacional Fo4 Programas de capacitação AMEAÇAS A1 – Alta tecnologia A2 – Auto-atendimento A3 – Agressividade no crédito Como a cooperativa de crédito está impossibilitada de competir com a mesma tecnologia, ficando um pouco atrás, desenvolve um trabalho muito forte com seus associados, valorizando-os e tornando-os fiéis à cooperativa. Para suprir a deficiência tecnológica treina-se os colaboradores para prestarem um serviço personalizado, onde cada associado tem desejos e necessidades diferentes. A agressividade da concorrência no crédito também é combatida com o comprometimento dos associados com a cooperativa. As inovações tecnológicas têm um custo de implantação muito elevado. Como a cooperativa em estudo está um pouco atrasado, em suas implantações, quando as realiza, o faz com custos inferiores, pois os testes e ajustes necessários ao hardware e software já foram realizados. Isto possibilita trabalhar-se com custo operacional inferior. A implantação do cooperativismo e associativismo em sala de aula é uma forma de preparar os futuros associados. Além de responsabilidade social o programa implanta o Para combater a agressividade no crédito, com liberações sem uma análise profunda, a empresa atende cada associado de uma maneira diferente, encontrando a maneira ideal de satisfazer suas necessidades, muitas vezes não da maneira que o associado pretendia inicialmente. O baixo custo operacional permite a cooperativa operar com taxas menores na carteira de crédito que a concorrência, fazendo o contraponto com a agressividade da concorrência. A inadimplência começa na liberação errada do crédito. Programas de capacitação e aperfeiçoamento visam preparar o associado do futuro. 10 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 cooperativismo nos costumes dos associados. Figura 6 – Combinação dos pontos ‘Fortes’ versus ‘Ameaças’ identificadas OPORTUNIDADES O1 – Atendimento automatizado O2 – Despreparo e falta de interesse em operar com micro-crédito Pontos FORTES Fo1 Ser Cooperativa Fo2 Atendimento Personalizado Fo3 Baixo custo operacional Fo4 Programas de capacitação A prática do cooperativismo supre necessidades do auto-atendimento. as O atendimento personalizado pode ter desvantagens, como a perda de agilidade em relação ao atendimento automatizado. Mas a maioria das pessoas prefere ser atendida com diferencial. O baixo custo operacional deve-se, em parte, ao investimento menor em avanços tecnológicos. Operar com custos menores significa poder oferecer taxas mais atraente aos associados. O programa de capacitação estimula os associados desde cedo a trabalharem de forma cooperativa. Estarão preparados para o futuro com a filosofia cooperativista em mente. O fato de ser cooperativa faz com que os associados tenham em mente a necessidade pela ajuda mútua. O micro-crédito serve para ajudar os mais necessitados, mas com o mesmo poder de decisão dentro da cooperativa como qualquer outro. O atendimento personalizado aos associados de pequeno porte é idêntico àquele de grande porte. Portanto o atendimento personalizado é uma prática diária nas cooperativas. O baixo custo operacional viabiliza a prática do micro-crédito, praticando as taxas mais acessíveis. O programa de capacitação deixa os associados do futuro com todo o conhecimento de cooperativismo. Figura 7 – Combinação dos pontos ‘Fortes’ versus ‘Oportunidades’ identificadas AMEAÇAS A1 A2 A3 Alta tecnologia Autoatendimento Agressividade no crédito FRAQUEZAS Fr1 – Alto grau de imobilização Fr2 – Conservadorismo O alto grau de imobilização da cooperativa impossibilita o acompanhamento da evolução tecnológica na mesma velocidade da concorrência. Para tanto as inovações são feitas um pouco depois da concorrência, mas com custos reduzidos. O auto-atendimento está implantado somente nos maiores centros, pois o alto grau de imobilização não permite investimentos maiores. Nos municípios menores a procura pelo serviço de autoatendimento é menor. O alto grau de imobilização inviabiliza o investimento em software que pudesse agilizar mais a análise de uma proposta de crédito, permitindo competir melhor com a agressividade da concorrência. O conservadorismo da cooperativa de crédito também faz com que as inovações tecnológicas demorem a ser implantadas, recompensando-os com o bom relacionamento. O alto grau de imobilização que inibe novos A agilidade no atendimento da cooperativa O conservadorismo (incerteza quanto à viabilidade da instalação em cidades pequenas) também atrasa a implantação do auto-atendimento. O conservadorismo inibe uma agressividade maior de crédito. Algumas normas de segurança nas operações são extremamente rígidas, enquanto que na concorrência há maior flexibilidade. OPORTUNIDADES O1 Atendimento 11 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 O2 automatizado investimentos em tecnologia obriga a empresa a se preparar para atender de forma diferenciada seus associados. Despreparo e falta de interesse em operar com micro-crédito O alto grau de imobilização inibe o desenvolvimento de software que poderia agilizar mais s processos decisórios na cooperativa de crédito. traz uma vantagem competitiva sobre a concorrência, principalmente quando se trata de operações de crédito acima da alçada agência. O conservadorismo impede que haja ainda mais agilidade no processo decisório. Figura 8 – Combinação das ‘Fraquezas’ com as ‘Ameaças e Oportunidades’ 4. Ações sugeridas derivadas da Análise Aperfeiçoar o modelo de planejamento estratégico em virtude das informações adicionais do ambiente em que está inserida, assim como se organizar e cumprir os objetivos e estratégias desenvolvidas na fase do planejamento. Aconselha-se a cooperativa adotar também um planejamento financeiro com vistas ao longo prazo. Aprimorar os processos de desenvolvimento do plano estratégico a fim de tornar a empresa mais competitiva. Devem ser desenvolvidos em conformidade com o estratégico, o gerenciamento dos processos, indicadores de desempenho e o plano financeiro. Adoção de uma abordagem sistêmica e integrada na atividade de planejamento e controle estratégico. Elaboração de um plano estratégico bem fundamentado, tendo como base um modelo pré-existente na literatura, para servir de diretriz. Coesão na hierarquia funcional, mesmo embora envolva questões culturais da empresa cooperativa, o que talvez não seja possível mudar rapidamente. Caso não haja uma coesão, o plano estratégico não surtirá o efeito desejado. 12 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008 5. Considerações Finais Neste trabalho foi analisada a estrutura organizacional de uma cooperativa de crédito tomando como base o modelo referencial e sistêmico proposto por Müller (2003). A utilização deste modelo para análise permitiu identificar e definir a situação atual da empresa, conhecer os processos, apontar caminhos para um bom desempenho organizacional e reduzir a resistência às mudanças. O plano estratégico existente, a falta de experiência dos gestores e a rígida hierarquia funcional da cooperativa de crédito fornecem indícios de resultados restritos em relação à potencialidade da empresa para os negócios e alcance das metas. Todo planejamento estratégico deve ser revisado em um período de dois à cinco anos, de modo a verificar a funcionalidade e eficiência do plano, agregando elementos atuais do mercado. Isto permiti que o plano desenvolvido se aproxime da realidade atual do mercado. Baseado no modelo referencial é fundamental que a empresa desenvolva indicadores de desempenho interligados aos objetivos estratégicos, pois fortalece sua estrutura organizacional e monitora o comportamento e direciona as ações da empresa. Referências ASSAF, A. 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