Literacura? Psicanálise como forma literária
Fernanda Sofio Woolcott
Universidade de São Paulo
[email protected]
Organiza
Federación Psicoanalítica de America Latina
Septiembre 23 AL 25 de 2010
Bogotá - Colombia
RESUMO
O presente trabalho tem por finalidade reunir alguns achados interpretativos que
vêm sendo trabalhados na direção da composição de minha tese de
doutoramento, em particular referente às idéias de ficção literária e cura
psicanalítica. Para tal, o termo “literacura” foi tomado emprestado de Herrmann
(2002: 112), por considerar-se que condensa muito precisamente o núcleo da
tese. Trata-se da idéia de que Psicanálise, enquanto método psicanalítico, cujo
reino análogo é a literatura de ficção, pode ser tomada como forma literária.
Descritores: forma literária, método psicanalítico, Teoria dos Campos, reino
análogo.
Literacura? Psicanálise como forma literária
Eixo temático: estudos em andamento sobre temas específicos ou tema-livre
Porque “literacura”? O termo sintetiza a idéia de um casamento interpretativo entre
literatura de ficção e cura analítica, tendo em vista o método da Psicanálise. Ou
seja, o termo nasce da teoria do análogo, pela qual Herrmann (2006) propõe que,
ao organizar seus conhecimentos ou descobertas, todo homem de ciência retirase
para um reino outro do pensar, respectivo a seu campo científico. Nesse
sentido, o físico teoriza a partir do reino da matemática, diz ele, e o cientista social
ou humano, a partir do da literatura de ficção. Por exemplo, o historiador recria a
1
história via literatura de ficção, ao propor uma interpretação do mundo e da
história. O análogo da Psicanálise é o mesmo das ciências sociais e humanas
segundo esse pensamento, ou seja, a literatura de ficção.
Aqui, o ponto de inflexão é o do parentesco intrínseco entre literatura de ficção e
Psicanálise. A partir da teoria do análogo, a literatura de ficção não está mais para
a Psicanálise apenas como simulacro ou ilustração, conforme vêm trabalhando
diversos autores que pensam a interface literatura e Psicanálise. 1 Também, mas
não só. Tomando-se em consideração esta visada, torna-se peculiar o papel da
ficção literária no engendramento das construções teórico-clínicas psicanalíticas, e
o papel da literatura de ficção é, nesse sentido, como uma espécie de matéria
prima para a clínica e a teoria. Dessa forma, a literatura de ficção está para a
Psicanálise como inextricável. Portanto, a teoria do análogo rompe o campo da
relação conhecida entre literatura e Psicanálise e constitui um divisor de águas
nesse sentido.
Pode-se, inclusive, interpretar, que a proposta de Herrmann traz alguma luz ao
questionamento freudiano de 1907, quando ele indagava: “Como chegou o poeta
ao mesmo saber que o médico (...)?”2 Se o fazer de um e de outro usa da
interpretação, não tomam a verdade como fato, a pergunta deixa de causar
espanto. Nem é retórica a pergunta de Freud, porque tem como suposto que
1
2
Por exemplo, Sampaio (2000) e Kon (2003) .
Tradução livre do espanhol.
2
ambos chegam ao conhecimento pela a interpretação, isto é, pela trilha da
literatura.
Nesse sentido, as próprias teorias freudianas são ficções literárias. E é por isso
que os historiais clínicos de Freud têm, por assim dizer, a cara de pacientes, não
das teorias científicas vigentes à época. O próprio Freud relata que os
atendimentos se desenrolaram como breves novelas. Contam uma história, não
defendem uma teoria. Escreve ele:
“(...) resulta-me singular que os historias por mim escritos sejas lidos como breves
novelas, e que deles esteja ausente, por assim dizer, o selo de seriedade que leva
estampado o científico. Por isso tenho que me consolar dizendo que a
responsável por esse resultado é a natureza do assunto, mais do que alguma
predileção minha; é que o diagnóstico local e as reações elétricas não cumprem
maior papel no estudo da histeria, enquanto que uma exposição em profundidade
dos processos anímicos como a que estamos habituados a receber do poeta me
permite, mediando à aplicação de umas poucas fórmulas psicológicas, obter uma
sorte de intelecção sobre o desenrolar de uma histeria.”3 (FREUD, 1895: 174).
Freud construiu teorias, sim. Muitas vezes as reencontrou em seus pacientes, sim.
Mas, quando não as encontrou, como no caso Schreber, não se acovardou, foi fiel
ao método da Psicanálise, e construiu uma nova teoria. É possível interpretar que
3
Tradução livre do espanhol.
3
o depoimento freudiano demonstra, já no nascimento da Psicanálise, o casamento
inseparável da literatura de ficção com método interpretativo.
Em “Ficção freudiana” (2002: 9-20), Herrmann constata que certo pensamento por
escrito, próprio do literato, encontra-se tanto na obra escrita freudiana, como há de
haver-se encontrado em sua forma clínica, pois “seria impossível para Freud
trabalhar de uma maneira e escrever de outra (...). Freud devia tratar seus
pacientes como escrevia, como literato.” (p. 13) Freud, quem escrevia o tempo
todo, desenvolveu um “pensamento por escrito, próprio da literatura” (p. 12). Ele
cria essa ciência da psique já instalado o que Herrmann considera seu reino
análogo. Ao mesmo tempo que inventa, Freud é tomado pelo método
psicanalítico,
tornando
clínica
e
teoria
indistinguíveis
em
sua
escrita,
contrariamente ao modelo médico.
Na literatura de ficção, bem como na Psicanálise, é na verossimilhança, e não no
fato, que a verdade tem lugar. Já para Aristóteles 4 (in: Fergusson, 1961), a obra
literária criava um mundo ao lado do mundo, nesse sentido, visto que o mundo da
obra é regido pelas leis que o organizam e não, por exemplo, pelas do leitor. Obra
literária e Psicanálise não vão à caça da verdade factual, mas dela se aproximam
pelo que se denomina verossimilhança. O analista narra a história de seu
paciente, como o faz o literato, interpretando e mimetizando a realidade do
paciente e do processo analítico, expressadas como verossimilhança. Nesse
sentido Herrmann (inédito) escreve: “Nisso consiste, diga-se de passagem, a
4
Em aproximadamente 330 A.C.
4
verdade última do psiquismo, do ponto de vista da clínica: a verdade dos
possíveis. Este é o caminho da cura analítica, a ruptura de cada campo
aprisionador da experiência de ser.” A verdade dos possíveis, a verossimilhança,
em oposição à verdade factual pura e simplesmente.
A partir desta idéia, explorando esta sua interpretação, Herrmann (2007) levanta
uma questão – ser possível tomar Freud como literato significa que é verdade?
Responde com um peremptório “não”. Explica: “(...) teríamos de nos deparar com
o mesmo gênero de objeção que se faz (...) ao autor que decide ver em Freud um
filósofo dialético, quando decidimos, nós mesmo, a nele ver um ficcionista, tanto
nos casos, quanto nas teorias. Vale (...) a objeção: será verdade? Não, não é
verdade, lá como cá (...).” (p. 17) A natureza do argumento em Psicanálise é,
sempre, interpretativa e, portanto, verossímil, nunca verdadeira.
Qual a diferença, então, entre literatura de ficção e Psicanálise? A diferença está,
conforme acima afirmado, no comprometimento da Psicanálise com o método
psicanalítico e, portanto, com a cura psíquica. Nesse sentido, perguntado sobre “o
que a terapia faz que a medicação não faz?”, Herrmann (2000) responde: “a
psicanálise cura.” A medicação sara (age sobre o sintoma), explica Herrmann, e a
Psicanálise cura. Em suas palavras: “o que sara sem curar, volta pior ...”. (p. 426)
Psicanálise: o casamento da literatura de ficção com a cura analítica, ou seja, com
o método analítico. Sua forma de expressão, tanto na clínica quanto na escrita, é
literária. Psicanálise, uma literacura.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SAMPAIO, C.P. Ficção literária: terceira margem na clínica psicanalítica. Tese
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