COOPERATIVISMO HABITACIONAL EM METRÓPOLES BRASILEIRAS: A PRODUÇÃO EM SÃO PAULO E PORTO ALEGRE Joisa Maria Barroso Loureiroi RESUMO O presente trabalho pretende relatar, com dados e informações, o andamento do meu projeto de pesquisa sobre a produção de moradia através do cooperativismo habitacional realizado por movimentos sociais organizados nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. A pesquisa tem como objetivo verificar de que forma experiências desta natureza avançaram no sentido de romper com as relações de trabalho subordinadas à lógica do capitalismo, de produzir uma moradia que garanta a dignidade e o bem-estar das pessoas segundo padrões construídos coletivamente e de contribuir na luta pela predominância do significado do ambiente construído como um conjunto de valores de uso. A pesquisa será qualitativa baseada em estudos de casos. Sendo que o presente trabalho não se propõe a esgotar nenhuma das questões propostas pela pesquisa, nem mesmo apresentar resultados preliminares. A proposta é fazer um relato do andamento da pesquisa, indicando as estratégias metodológicas utilizadas e os redirecionamentos. A princípio será detalhada a proposta da pesquisa, objetivos, questões, hipóteses e aspectos metodológicos, para daí proceder ao desenvolvimento da problemática feito a partir das primeiras pesquisas bibliográfica e documental. Ao final a descrição experiências visitadas na pesquisa de campo, iniciada em Maio do corrente ano. 1. A PESQUISA E SUAS QUESTÕES NORTEADORAS O presente trabalho trata da produção de moradia através do cooperativismo autogestionário realizado por movimentos sociais organizados nas cidades de São Paulo, Porto Alegre e Montevídeo. São cidades, cujas experiências tem se mostrado, a princípio bastante exitosas (BARAVELLI, 2006; FRUET, 2004; GOBBI, 2005; MORAIS, 2004), e que nos motivam a buscar respostas a cerca de como os sentidos dados a moradia repercutem na forma como são aspirados e pensados os projetos de cidade que hoje se encontram em disputa nas muitas realidades urbanas latino-americanas. Serão estes projetos reunidos que de certa forma materializarão a utopia de uma cidade mais includente e menos desigual? Promoverão algum tipo de emancipação do trabalhador e de superação da sua exploração pelo capital? Contribuirão para a dissolução da idéia da moradia e do trabalho, como mercadorias ou fonte de mais valia? Qual o real alcance desses “projetos”? O que em seu conteúdo contribui para uma mudança de racionalidade? Para outro tipo de desenvolvimento, centrado no ser humano e não no dinheiro? Toda a discussão proposta sobre o cooperativismo habitacional e autogestão parte do questionamento sobre qual o tipo de racionalidade (política e sócio-econômica) será necessária na América Latina para o surgimento e materialização de projetos efetivamente contra-hegemônicos de cidade e, mais especificamente, de moradia. Isto porque o processo de elaboração de visões de futuro para as cidades latino-americanas enquanto um processo reflexivo próprio e que culmine em projetos dessa natureza, “esbarra” na racionalidade capitalista vigente, fortalecida pela globalização. Uma racionalidade que é causa/conseqüência de uma sociedade onde a existência tem se limitado muitas vezes ao espaço da rotina e da violência, numa realidade que não motiva o “pensamento”. Ela por 1 vezes compromete o movimento do pensamento, num imobilismo também “rotineiro e violento”. Um imobilismo que nos leva ao imediato, ao imediato de um futuro “achatado” pela unicidade característica da globalização. É o que Santos (2002) coloca como o fenômeno do presente ampliado, onde o que era futuro se presentificou, levando ao alargamento e complexificação das arenas produtivas e dos universos relacionais. Além desses pressupostos, tem-se também que a constituição desse “presente” não se deu sem “resistências”, momentos, espaços onde projetos coletivos possibilitaram-nos vislumbrar alternativas e até mesmo materializá-las. O surgimento do cooperativismo foi um desses momentos. Um momento de complexificação como nos fala Santos (IBID), mas cujos desdobramentos nos trás possibilidades, encerra potencialidades. Isto, porque também é certo que a qualidade de vida no urbano e a redução dos seus impactos sócio-ambientais da urbanização dependem da forma como enfrentamos, dentre outras, a questão da moradia e do trabalhoii. Outro pressuposto importante é o de que a noção de bem-estar relaciona-se ao cumprimento de direitos básicos, dentre eles, destacamos, o direito à cidade e a moradia, onde além de uma casa adequada às necessidades da família e cercada de toda infra-estrutura, tenham os membros dessa família acesso efetivo a todos os equipamentos e serviços de cultura e lazer, e ao trabalho e a renda. Como objeto da pesquisa tem-se o cooperativismo habitacional autogestionário no Uruguai (Montevídeo) e no Brasil (Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre); verificando de que forma experiências desta natureza avançaram no sentido de romper com as relações de trabalho subordinadas à lógica do capitalismo, de produzir uma moradia que garanta a dignidade e o bem-estar das pessoas segundo padrões construídos coletivamente e de contribuir na luta pela predominância do significado do ambiente construído como um conjunto de valores de uso. 1.1 Algumas hipóteses Como detalharemos a seguir, verifica-se que o movimento cooperativista surge na Europa em fins do século XVIII, em contraponto às formas de exploração do trabalhador, constituindo, segundo Engels, um ideário relacionado a uma “utopia do trabalho” de forte tendência socialista. E que os princípios formulados por Robert Owen são utilizados como base para a nomeação da prática cooperativista até os dias atuais. A presente pesquisa deverá então, considerar como o cooperativismo na produção habitacional em cidades latinoamericanas, como Montevídeo, São Paulo e Porto Alegre, incorporaram esse ideário e esses princípios. Afinal as cooperativas habitacionais de ajuda mútua uruguaias promoveram experiências de autogestão bem próximas ao ideário cooperativista original. Experiências onde se verifica como principal elemento “revolucionário” o da manutenção da propriedade coletiva do espaço/comunidade produzida. E que tomaram uma dimensão política e sócioeconômica importante na conformação do espaço urbano uruguaio. Os princípios destas experiências se transformaram em bandeiras de luta para segmentos importantes da sociedade civil deste país. No Brasil há, dentre outras, limitações legais a reprodução deste tipo de experiências. Será, portanto, fundamental avaliar no contexto brasileiro, quais as dimensões que as nossas experiências de cooperativismo habitacional autogestionário assumiram e quais as tendências das práticas atuais. Outra hipótese da pesquisa é a de que o cooperativismo é uma doutrina que, fazendo uso das cooperativas, tem por objeto a correção do social pelo econômico. Mas fica claro que praticamente todas as cooperativas, independente do porte alcançado, tem que lidar com a ambivalência de ser um empreendimento econômico e ter que, ao mesmo tempo, defender um discurso e uma ação política e moral de confrontação da lógica capitalista. Propõe-se então verificar de que forma as cooperativas habitacionais autogestionárias promovidas por movimentos sociais organizados tem lidado ou superaram essa ambivalência. 2 1.2 Aspectos metodológicos A pesquisa foi iniciada por revisão bibliográfica e documental sobre o tema do cooperativismo e a sua inserção em países latino-americanos. Foram pesquisados publicações, sites, teses e dissertações. As informações subsidiaram principalmente a elaboração da problemática para o projeto de qualificação. A proposta agora é: continuar está pesquisa, principalmente através das indicações/referências indicadas por alguns dos entrevistados na pesquisa de campo; e iniciar revisão bibliográfica para discussão teórica a cerca da questão da Moradia e Trabalho na construção de cidades latino americanas. Objetivando a busca de elementos teóricos que orientem a análise do objeto, considerando a evolução teórica das categorias „moradia digna‟ e „qualidade de vida‟ a partir do surgimento do capitalismo na América Latina (do projeto burguês de cidade, construído nos países avançados); e as alternativas históricas que marcaram a urbanização latino-americana. Num segundo momento, onde trataremos mais diretamente do cooperativismo e da produção habitacional autogestionária na América Latina, ter-se-ão além da pesquisa bibliográfica e documental, entrevistas com representantes de governo, lideranças comunitárias e de movimentos sociais, professores universitários de núcleos de pesquisa em áreas afins, mapeamento de experiências e seleção de experiências que alcançaram resultados inovadores em termos sociais, políticos e tecnológicos. Outra etapa importante será a que tratará do funcionamento e gestão das experiências selecionadas para estudo de casos. A partir de pesquisa de campo (in loco), pesquisa documental, buscar-se-á a sistematização das experiências selecionadas, realização de novas entrevistas para construção do perfil social dos moradores e análise dos projetos e das formas, dos instrumentos de gestão, avaliando/qualificando-se: (i) as formas de mobilização e organização do trabalho; (ii) a racionalidade do processo construtivo e a introdução de inovações tecnológicas; (iii) padrão construtivo; o projeto; legalidade do empreendimento; (iv) as regras de financiamento e as formas de acesso e gestão dos recursos; (v) a assistência/assessoria técnica nas experiência, considerando dentre outros aspectos, a sua evolução, a forma como as experiências foram transmitidas entre países latino-americanos; o peso das diferenças sócio-culturais e técnicas; e principalmente a relação destes profissionais Propõe-se que a análise dos casos/experiências selecionadas não seja comparativa. A proposta será identificar nestas experiências, subsidiada pelos elementos teóricos e pelas conclusões obtidas nas duas primeiras partes da pesquisa as formas de articulação entre as cooperativas habitacionais pesquisadas e os diferentes „projetos de cidade‟ em disputa nos países pesquisados; as correlações envolvidas na disputa; as formas como os promotores dos projetos habitacionais pesquisados se relacionam com os movimentos sociais organizados; os aspectos da gestão dos projetos de construção das moradias e as possibilidades sócio-econômicas e políticas da prática cooperativada em romper com as relações de subordinação à lógica capitalista, observando os elementos caracterizam a qualidade de tal moradia, com destaque para a sua localização. Saliento que serão elementos fundamentais na análise dos casos: as estratégias utilizadas em questões relativas ao acesso à terra urbanizada, à propriedade coletiva das moradias produzidas e à gestão após a conclusão das obras; e as condições e as barreiras para a difusão de formas de produção habitacional autogestionárias das cooperativas populares na América Latina. 2. A PROBLEMÁTICA 2.1 O cooperativismo na América Latina 3 Em muitos dos países latino-americanos, as primeiras cooperativas urbanas surgiram como formas de combate ao habitual problema da carestia dos alimentos, principalmente dos gêneros de primeira necessidade. Esta carestia adivinha da então crescente problemática de abastecimento, que no Brasil, assume contornos de crise a partir das últimas décadas do século XIX, com o crescimento dos centros urbano-industriais. Sendo que somente na década de 1930 o movimento cooperativista cresce, tutelado pelo Estado que vê na sua prática um potencial político-reformista que resolveria tanto a crise de abastecimento como também seguraria as também crescentes exigências pela reforma agrária. Na Argentina, no espaço rural, as primeiras cooperativas foram de laticínios e também surgiram enquanto canais alternativos para a comercialização dos produtos de abastecimento. Em 1905 dá-se a constituição de uma das primeiras cooperativas habitacionais no continente. A cooperativa El Hogar Obrero tinha como objetivo principal construir casas populares, tornando-se uma grande sociedade de habitação, consumo e crédito na capital federal, e sendo exemplo para a implantação de diversas outras cooperativas habitacionais em Buenos Aires e outras cidades argentinas. Vale salientar como acontecimento significativo para a consolidação do movimento no continente, a constituição da Organização das Cooperativas da América, em 1963. A organização tinha como objetivos principais: propagar e defender os princípios e os métodos de cooperação livre, promover a formação e o desenvolvimento de organismos cooperativos, em seus distintos graus, assim como instituições auxiliares que lhes sejam necessárias, entre outros. 2.2 O que diz a constituição de alguns países A partir de um primeiro levantamento documental verificamos como é tratada a matéria do cooperativismo nas constituições de Cuba, Venezuela, Peru e Brasil. Em Cuba o tema é tratado no capítulo primeiro da Constituição (1976) num artigo que trata dos Fundamentos Políticos, Sociais e Econômicos do Estado. Nele o Estado reconhece a propriedade dos agricultores pequenos sobre suas terras e outros meios e instrumentos de produção, e conforme estabelece a lei, eles têm direito a associar-se entre si, na forma e com os requisitos que estabelece a lei, tanto aos fins da produção agropecuária como aos de obtenção de créditos e serviços estatais. O Estado autoriza a organização de cooperativas agropecuárias nos casos e na forma que a lei estabelece, indicando que a propriedade cooperativa é uma forma de propriedade coletiva dos campesinos integrados nelas. Além da questão da propriedade coletiva, na constituição é reconhecido o direito da produção cooperativa, sendo que o Estado é autorizado a incorporar os agricultores pequenos, de forma voluntária e livremente aceita por estes, aos planos e unidades estatais de produção agropecuária. A exemplo de Cuba, a Venezuela também trata do tema na Constituição (1961), no Título “Dos Deveres, Direitos e Garantias”, Capítulo IV – “Direitos Sociais”, art. 72. Nele é determinado que o Estado proteja as associações, corporações, sociedades e comunidades que tenham por objeto o melhor cumprimento dos objetivos da pessoa humana e da convivência social, e fomentará a organização de cooperativas e demais instituições destinadas a melhorar as condições de economia popular. No Peru, o Estado é autorizado a promover e proteger o livre desenvolvimento do cooperativismo e a autonomia das empresas cooperativas; a estimular e amparar o desenvolvimento das empresas autogestionárias, comunitárias e demais formas associativas. Neste país a matéria também é constitucional, sendo colocada no título do “Regime Econômico” art. 116 e no Capítulo VII – “Do Regime Agrário”, art. 159, no qual dispõe que o Estado deve apoiar o desenvolvimento de empresas cooperativas e outras formas associativas, 4 livremente constituídas, de produção, transformação, comércio e distribuição de produtos agrários. Além de associar o cooperativismo a questão da reforma agrária, tem-se ainda na constituição a repetição do tema no Capítulo VIII – “Das Comunidades Camponesas e Nativas”, art. 162 (no mesmo título): “O Estado promove o desenvolvimento integral das Comunidades Camponesas e Nativas. Fomenta as empresas comunitárias e cooperativas.” No Brasil, a Constituição Federal de 1988, dispõe sobre a autonomia das cooperativas, Art. 5º “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XVIII – a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, vedada a interferência estatal em seu funcionamento”. Estabelece mais detalhadamente algumas instruções a cerca da atividade garimpeira em cooperativas. Sobre a questão da tributação, desloca para lei complementar o objetivo de estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária para as associações cooperativas. E enquanto atividade econômica será, estimulada, fiscalizada e planejada pelo Estado. Dentro do artigo que trata do sistema financeiro, o cooperativismo entra nas orientações para a lei complementar que regulará o sistema: “funcionamento das cooperativas de crédito e os requisitos para que possam ter condições de operacionalidade e estruturação próprias das instituições financeiras”. Na constituição anterior, de 1967, não ocorre menção do termo cooperativismo. Verifica-se apenas no Capítulo V - Do Estado de Sítio, no Título III - Da Ordem Econômica e Social, a orientação de que às empresas privadas compete preferencialmente, com o estímulo e apoio do Estado, organizar e explorar as atividades econômicas. O Estado entraria como uma gestão suplementar às empresas. E poderia adquirir a forma de empresas públicas, autarquias ou sociedades de economia mista regidas pelas normas aplicáveis às empresas privadas, inclusive quanto ao direito do trabalho e das obrigações. E a empresa pública que explorasse atividade não monopolizada estaria sujeita ao mesmo regime tributário aplicável às empresas privadas. Verifica-se numa análise preliminar que o “lugar” do tema em cada texto constitucional difere: em Cuba localiza-se nos fundamentos do Estado; Na Venezuela no capítulo que trata dos direitos e deveres, e no Peru, nos capítulos do regime econômico e do agrário. Enquanto apenas constituição cubana estabelece a propriedade cooperativa e o que é produzido como bens coletivos, o Brasil deixa clara a inviolabilidade do direito de propriedade para depois tratar das cooperativas. Na Venezuela a constituição compromete o Estado a fomentar as cooperativas, não deixando claro o nível de controle; o mesmo se dá na constituição peruana que fala da autonomia, não especificando o grau desta autonomia frente o apoio estatal. Essa constituição é a única que associa cooperativismo à questão da reforma agrária. No Brasil a criação e o funcionamento de cooperativas independem da interferência estatal, mas enquanto atividade econômica a mesma constituição determina a ocorrência de fiscalização e o planejamento por parte do Estado. Percebe-se aqui certa incoerência, algo a ser esclarecido. Elementos estratégicos para a conformação do caráter das cooperativas, como a questão da tributação, e do funcionamento do crédito são colocados para regulamentação por lei complementar. Sendo que a forma como as legislações complementares evoluíram em torno desta temática é outro ponto a ser mais bem investigado tanto a nível de Brasil como a nível de outros países latino-americanos no decorrer da presente pesquisa. 2.4 O cooperativismo no Uruguai e no Brasil: o cooperativismo habitacional enquanto potencialidade Vale salientar que para Keil e Monteiro (1982), as experiências do cooperativismo europeu, principalmente a da cooperativa de Rochdale chegaram a América Latina como um 5 exemplo de sucesso, sem que os contextos destas experiências fossem devidamente explicados, o que fez com que muitas vezes seus princípios, o princípios que caracterizam o cooperativismo até hoje, fossem apresentados de forma simplista. Daí o dogmatismo do cooperativismo ou sua transformação em um instrumento de manipulação social. Ainda segundo esses autores a transferência do mito de Rochdale para a América Latina ocorre quando o cooperativismo dos socialistas utópicos (dos Pioneiros) já havia sido instrumentalmente dilapidado de seus aspectos contestatórios, não representando mais ameaça a economia capitalista liberal, mas pelo contrário, complementando-a, pois serviu para a conservação da América Latina como uma região dependente, exportadora de matérias-primas e atualmente, local de exploração de mão-de-obra de baixo preço e exploradora de capitais. Se a forma como o capital interpretou e instrumentalizou os princípios cooperativistas aqui na América Latina foi simplista, simplista não foi a forma como o cooperativismo se desenvolveu em todos os países do continente. O cooperativismo enquanto possibilidade, e até mesmo projeto concreto, de contraponto à lógica capitalista de produção e consumo também se fez realidade em alguns países ou cidades latino-americanos, na maioria das vezes implementado por movimentos sociais ou organizações ligadas a um pensamento de esquerda/socialista. Como já falado anteriormente a presente pesquisa se propõe a investigar exatamente experiências dessa natureza, isso dentro de um segmento específico do cooperativismo, o habitacional. E dentro deste, a partir de um primeiro mapeamento, selecionamos o Uruguai e o Brasil como aqueles países latino-americanos, com experiências significativas na busca por algumas das respostas às nossas questões principais. No Uruguai são identificados antecedentes do cooperativismo desde o ano de 1870, quando chegam as primeiras levas de imigrantes europeus (BERTULLO, ISOLA, CASTRO et. AL, p. 05, 2003). É desse período as primeiras organizações coletivas, onde os princípios cooperativos ainda se confundiam com os de ajuda mútua. Sendo que em 1889 se reconhece a primeira cooperativa de consumo do Uruguai. Nesta primeira etapa do cooperativismo uruguaio não foram muitas as experiências, mas as poucas que aconteceram foram impactantes. Vale também ressaltar que neste período o país passava por momento de transformação e de muita discussão em torno de questões como a organização sindical e a formação institucional do país. As primeiras cooperativas propriamente ditasiii surgiram apenas em 1920. E somente na década de 1940 surgem as primeiras legislações, sempre voltadas para o cooperativismo rural. Mas as demais modalidades logo se organizaram e ao final da década de 1970, muitas legislações específicas já haviam sido elaboradas, regulamentando e definindo quase todas as modalidades de cooperativismo; inclusive a de produção habitacional (Lei No. 13728, de 1968). Ao final da década de 1950 o PIB per capita do Uruguai atinge um dos valores mais elevados do mundo, sendo o país, relativamente pequeno, o maior exportador de produtos derivados da criação de gado. E foi o sucesso comercial da pecuária que, ao empregar pouca mão-de-obra no campo e necessitar de muito beneficiamento, promoveu a urbanização precoce do país (RIAL; KLACZKO, 1981 in BARAVELLI, 2006). Precoce, por que aconteceu antes dos demais países latino-americanos, apesar de acompanhada de um crescimento populacional lento: em 1908, viviam em Montevidéu 30% dos uruguaios e, em 1970, 80% da população do país já residia em áreas urbanas. A duplicação da população residente nas cidades uruguaias entre 1920 e 1960 é acompanhada da quadruplicação do estoque de imóveis no mesmo período (TERRA, 1969 in Baravelli, 2006). A partir de então, a curva de crescimento da urbanização uruguaia começa a ser menos acentuada. Segundo dados de 2005, da Comissão Social Consultiva da Universidade da República, o desemprego e a queda de renda elevaram, em quarenta anos, o déficit habitacional quantitativo do país (que não contabiliza a necessidade de reformas no seu 6 envelhecido estoque habitacional) para 82 mil unidades habitacionais. Vale aqui ressaltar o papel das cooperativas no período ditatorial uruguaio (1973 a 1984), quando, las cooperativas em todas sus formas sufrieron daños, ya sea por la obstaculización a su desarrollo, como por la persecución o la violencia a la que fueron sometidos los cooperativistas. No obstante para el movimiento cooperativo existe un balance favorable en el sentido que se logró uma acumulación de fuerzas, que permitió que estas organizaciones fueran verdaderas islas de libertad en plena dictadura, aportando en muchos casos propuestas autónomas y ejerciendo formas de organización y poder popular (BERTULLO, ISOLA, CASTRO et. al, 2003). Segundo Baravelli (2006, p. 66), no que tange o cooperativismo habitacional, em 1975, metade das solicitações de financiamento feitas ao Banco Hipotecário Uruguaio correspondiam ao sistema cooperativo, 70% delas para a formação de cooperativas habitacionais por ajuda mútua. Sendo que a disputa em torno dos fundos públicos de habitação que estes empreendimentos mantiveram contra o centralismo estatal atravessou toda história subseqüente desta modalidade no Uruguai. É fato que, com a ditadura o ritmo de construção, que foi crescente desde as primeiras cooperativas habitacionais, diminuiu vertiginosamente e o governo civil de Sanguinetti deixou de conceder “personerías jurídicas” as cooperativas de habitação por treze anos entre 1976 e 1989, impedindo assim a formalização de financiamento a milhares de pessoas. Esta suspensão das concessões acaba em 1989 depois que a Federação de Cooperativas de Viviendas por Ajuda Mútua - FUCVAM apoiou diversas ocupações de terra por parte de cooperativas sem registro (SOTO; ALAGGIA, 2004 in BARAVELLI, 2006). Na somatória da produção realizada desde as primeiras experiências de 1966 até aproximadamente o ano de 2006, as cooperativas por ajuda mútua construíram pouco mais de dezesseis mil unidades habitacionais, e as de poupança prévia, semelhantes às cooperativas brasileiras, quatro mil unidades (BARAVELLI, 2006). Isto significa um número de residentes em torno de 60 mil pessoas, o que é menos de 2% da população do Uruguai. Trazendo esses números, em termos absolutos, para o Brasil, verificamos o quanto é pequena a produção, e mesmo em termos relativos continua sendo, apesar da precariedade ainda maior da implementação do cooperativismo habitacional brasileiro. Uma precariedade advinda principalmente da forma como está regulamentada na Lei Federal 5.764 de 1971, que “institui o regime jurídico das sociedades cooperativas”. Esta lei sancionada em pleno regime militar impôs uma grande quantidade de controles para o funcionamento econômico das cooperativas. E para Gediel (2005), os instrumentos normativos criados foram inadequados para orientar a vida das cooperativas populares, principalmente as urbanas e de trabalho. Instrumentos destinados principalmente ao cooperativismo agrícola, orientados, como vimos anteriormente, por uma visão empresarial e agroexportadora, e baseada na política internacional e nacional da década de 1960, que objetivava impedir o desenvolvimento de propostas do cooperativismo agrícola popular e da reforma agrária, concentrando as cooperativas nas mãos dos grandes produtores e industriais. Vale ressaltar que as formas de controle da Lei 5.764 também contribuíram para a formação aqui no Brasil de um sistema (quase único) de representação obrigatória para as cooperativas, a Organização das Cooperativas Brasileiras - OCB, entidade com origens no agronegócio e que hoje se constituí enquanto órgão técnico-consultivo do governo federal no modelo dos conselhos profissionaisiv. Atualmente a filiação de toda cooperativa brasileira às instâncias de representação oficializadas na Lei 5.764 não é mais obrigatória. Isso desde a Constituição de 1988, quando passou a vigorar o preceito de que “a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independe de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento” (CF, Artigo 5º, XVIII), já que “ninguém poderá ser compelido 7 a associar-se ou a permanecer associado” (CF, Artigo 5º, XX). Segundo dados de 2008, a Organização possuí atualmente, cerca de 7.682 cooperativas e 7.887.707 associados; um total de 254.556 empregados contratados pelas cooperativas; e o faturamento das cooperativas chegou a R$ 84,9 bilhões em 2008, ou aproximados 18% sobre os R$ 72 bilhões registrados no ano anterior. Destas cooperativas cerca de 20% é agrícola, o que representa, 1.611 cooperativas associadas, 968.767 associados e 134.579 empregos diretos. Uma participação de 38,4% no PIB Agropecuário. Obviamente houve movimentos de contraponto a essa lógica de organização do cooperativismo no Brasil. Foi este o caso da ANTEAG (Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária), fundada em 1994 e que se constitui hoje, como uma das mais abrangentes entidades de apoio às cooperativas que atuam fora do recorte das cooperativas formadas a partir de empresas falidas ou préfabricadas. A ANTEAG juntamente com a rede universitária de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares e outras têm consolidado uma nova estrutura de representação e apoio. Hoje é comum, tanto a nível nacional com internacional, a utilização do termo “cooperativas populares” para nomear essa nova proposta de cooperativas, que segundo Baravelli (2006), constituem-se como empreendimentos solidários radicados na produção autogestionária e que não mantêm relações de trabalho heterônomas (sendo o assalariamento a mais branda delas) no exercício das atividades que compõem sua finalidade comercial, sejam “internas” ou “externas”. No que tange ao cooperativismo habitacional brasileiro esses focos de resistência também tiveram que se estabelecer, a medida que as legislações anteriormente mencionadas tiveram um impacto de institucionalização e controle estatal ainda mais forte e decisivo. Destaca-se aqui o Decreto No. 58.377 de 1966 que submete as cooperativas ao consumo financiado pelo Sistema Financeiro Habitacional (SFH); e o Decreto-lei No. 59/66 que dá ao BNH o poder de "conceder autorização ou cancelá-la, baixar e ampliar normas disciplinadoras da constituição, funcionamento e fiscalização, além de fixar e aplicar penalidades e definir os casos de intervenção". O BNH cria o Instituto de Orientação à Cooperativas Habitacionais (INOCOOP), responsável direto pela fiscalização de todas as etapas do processo; era dele também a responsabilidade de “liquidação” das cooperativas. Esta liquidação acontecia quando do descumprimento das normas e quando, ao final do empreendimento, as unidades habitacionais construídas eram repassadas aos seus respectivos proprietários. No Brasil, as moradias produzidas pela cooperativa eram de propriedade individual e não coletiva, da cooperativa, como era o caso de muitas das cooperativas (de ajuda mútua) do Uruguai. Lá [no Uruguai], um plano e uma lei que regula a produção autogestionária de moradia em todo o país; aqui, programas que não compõem sequer uma política habitacional local. Lá, cooperativas que, juridicamente, permitem o mútuo coletivo, a propriedade comum e sua comercialização regulada; aqui, associações comunitárias que mal e mal mantêm sua condição como agente promotor que apenas atua como mediador temporário entre o agente financeiro e o mutuário final (LOPES; RIZEK, 2005: 13 in BARAVELLI, 2006). Novamente ressaltamos os momentos de resistência, onde movimentos populares constituíram estratégias para “contornar” a proposta do INOCOOP de transformar as associações comunitárias de construção em simples associações de construção, e as cooperativas habitacionais em meros “agentes promotores” da política promovida pelo governo (na época, militar). Um desses momentos, segundo Bonduki (1992), foi o 1º Encontro dos Movimentos de Moradia em São Paulo no ano de 1984. Este encontro consolida o processo de intercâmbio técnico e político que vinha se constituindo entre os movimentos sociais brasileiros e uruguaios. Esse processo tem como frutos, experiências cooperativistas e autogestionárias bastante avançadas, tanto em termos de qualidade das moradias produzidas, 8 como em termos de organização comunitária e política. Este momento de inflexão na história do cooperativismo latino americano, e principalmente brasileiro, nos impõe lembrar que a prática cooperativista também se constituiu como uma prática de militantes e governantes ditos de esquerda ou socialistas. Neste período, a orientação principal é que se organizassem “associações comunitárias de construção” e não cooperativas, a fim de “fugir” do controle estatal do INOCOOP. Mas uma grande maioria se submeteu, visto que como associações sem fim lucrativo, não constituíam capital social, o que de imediato as excluíam da obtenção de crédito financeiro privado. E sendo as casas produzidas, propriedade da associação, não se garantia também a propriedade do morador, pois, por lei, em caso de extinção da associação seus bens são doados a outras associações. Não entraremos aqui no mérito desta questão visto que um dos objetivos da presente pesquisa é o de se analisar as estratégias criadas pelos movimentos sociais para a implementação de projetos habitacionais sob a lógica dos princípios cooperativistas (e da auto-gestão), sendo um deles o da gestão e propriedade coletiva (das moradias). É certo que a produção habitacional para a população de baixa renda se deu de várias formas no Brasil, e na América Latina, e em termos quantitativos, a produção cooperativada (autogestionária ou sob controle estatal) não foi talvez significativa, mas não se pode ignorar a qualidade técnica e organizativa de muitas das experiências. Salientamos também que o cooperativismo habitacional brasileiro, a exemplo de outros países latino americanos, além de todas as questões legais e burocráticas de funcionamento, tem enfrentado também todos os problemas inerentes à questão da produção habitacional de interesse social. Dentre estes problemas destaco: a questão fundiária, no que tange a dificuldade de acesso à terra urbana legalizada e com todas as infra-estruturas básicas e de serviço; e a questão do acesso ao crédito e aos recursos públicos pelas associações e cooperativas populares. Isso persiste, apesar dos avanços conquistados com as recentes mudanças implementadas pelo Governo Federal a partir do início da Administração do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 2003. O cooperativismo habitacional e a autogestão, apesar das dificuldades resistem enquanto prática de muitos movimentos sociais organizados, seja no ambiente urbano, seja no rural. Basta ver a participação das cooperativas habitacionais no Programa Crédito Solidáriov do Governo Federal: Quadro I – Participação das cooperativas habitacionais no Programa Crédito Solidário (Governo Federal) no Período de Julho/2005 a Abril/2009. Região Quantidade de projetos de cooperativas contratados % sobre o total de contratos Quantidade de Unidades Habitacionais contratadas % sobre total de UH‟s contratadas Quantidade de Unidades concluídas até 04/2009 % sobre o total da região Centro-Oeste 07 6,06 525 10,86 297 56,57 Nordeste 08 7,54 1.008 20,85 150 1,49 Norte 03 2,83 528 10,92 - - Sudeste 07 6,06 330 6,82 30 9,09 Sul 81 77,51 2.443 50,55 1469 60,13 Total 106 31,55 4.834 36,13 1.946 - Dos 336 projetos contratados a partir de julho de 2005, 31,55% (106) possuem como agente organizador “cooperativas” (pessoa jurídica), propondo a construção de 4.834 9 unidades habitacionais (UH‟s), 36,13% do total de unidades contratadas ao Programa, 22,78% do montante total de recursos solicitados; Destas 4.834 UH‟s, até Abril de 2009, foram concluídas 56%, aproximadamente 1.946 UH‟s. Deste total, 75,48% são de cooperativas da Região Sul, principalmente do estado do Rio Grande do Sul. Do total de UH‟s contratadas, 31,73% estão localizadas neste estado; Nenhum dos contratos na Região Norte foram concluídos até Março de 2009, sendo que dos 03 contratos, 02 estão atrasados e apenas 01 segue normalmente o cronograma físicofinanceiro, o projeto da Cooperativa no estado de Belém, 128 UH‟s. Na Região Sudeste, o estado do Rio de Janeiro possuí apenas um projeto por cooperativo aprovado, 100 UH‟s, no município de Paraíso do Tanguá, em andamento considerado NORMAL. As demais unidades contratadas na região localizam-se em São Paulo, distribuídas entre os municípios de São Paulo capital e Campinas; No Rio Grande do Sul a cidade com o maior número de UH‟s contratadas é Sapiranga, 361 UH‟s, mas destas apenas 35 foram concluídas até abril de 2009. O segundo em número de UH‟s contratadas está em Viamão, com 205 UH‟s (a maioria já concluídas); o mesmo se aplica às 200 UH‟s construídas em Eldorado do Sul. Em Porto Alegre das 129 UH‟s, grande parte encontrava-se com as obras atrasadas. O restante dos projetos da região são projetos pequenos, no sentido que pouquíssimo ultrapassam 100 UH‟s. De um modo geral a maioria das obras concluídas foram contratadas nos anos de 2006 e 2007; Dos 106 projetos com cooperativas, 41,12% (44) estão na modalidade: aquisição de terreno e construção; 25,23% (27) são construção em terreno próprio; 16,82 (18) trata-se de conclusão/ampliação/reforma. Sendo que a maior parte dos projetos concluídos são da modalidade “aquisição de terreno e construção”. Sobre a renda média de cada família, todos os contratos não ultrapassam os 03 salários mínimos (SM). Apenas um projeto em Nova Gama (GO), com 30 UH‟s, possuí como renda média de cada família contratada, 05 SM. 58 contratos são para o atendimento de famílias com renda média de 03 SM, e apenas 13 tratam de famílias com renda média de 01 SM. Nesse caso são 709 UH‟s. Dos 13 empreendimentos para famílias com renda média de 01 SM, quase todos estavam dentro do prazo ou concluídos, apenas um está atrasado (Cidade Ocidental/GO). Na Região Nordeste prevalece a renda média familiar de 03 SM, sendo que dos 08 contratos, 03 haviam sido concluídos até Abril de 2009. Analisar essa amostragem de experiências, principalmente, onde bem sucedidas, é fundamental aos que, na academia ou fora dela, se propõem a contribuir na produção de informações e conhecimento sobre a questão habitacional e urbana na América Latina. O cooperativismo e, sobretudo, o cooperativismo habitacional persistem na prática de segmentos sociais importantes, como os movimentos sociais organizados. Compreender e problematizar a base ideológica, política, sócio-econômica e técnica das experiências nos possibilitará identificar as possibilidades/potencialidades do cooperativismo habitacional em concretizar-se numa alternativa eficaz de produção de moradias para as populações de baixa renda, e principalmente, de acesso destas populações à todas as infra-estruturas e serviços sociais e culturais necessários a reprodução de suas vidas e ao trabalho. Um trabalho não definido apenas pelo recebimento de um salário ou uma renda, mas definido pela sua capacidade de promover a emancipação deste trabalhador frente o capital. Um trabalho não alienado, não visto como algo intrínseco apenas a formação do valor, mas também a formação do lugar de morada e da cidade. 10 3. COOPERATIVISMO E AUTOGESTÃO EM SÃO PAULO, PORTO ALEGRE E MONTEVÍDEO Atualmente esta pesquisa encontra-se na etapa de trabalho de campo, o qual, à princípio, se subdivide em duas fases: i) viagens/visitas às regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre para reconhecimento de experiências e para recolhimento de dados e informações através de entrevistas também abertas/semi-estruturadas (com representantes das cooperativas/associações, lideranças de movimentos sociais organizados, professores universitários, assessores, funcionário da CAIXA, etc.) a cerca da evolução da prática cooperativista autogestionária para produção de moradia popular no município e no país em questão; ii) análise dos dados e informações para escolha dos estudos de caso; para daí proceder novas visitas aos casos selecionados com aplicação de novo roteiro de questões aos moradores e demais atores envolvidos nas experiências. Talvez aqui promover reflexões de cunho teórico-metodológico visando redirecionamentos e ajustes necessários ao alcance dos objetivos propostos. Estas reflexões acontecerão em diálogo com o projeto do Observatório das Metrópolesvi a qual esta pesquisa faz parte. Nesta primeira fase do trabalho de campo foram visitadas até o presente momento de finalização deste artigo, experiências em São Paulo, Porto Alegre e Montevídeo. Obtendo-se o seguinte quadro de experiências visitadas no Brasil: Quadro II – Panorama das experiências visitadas em São Paulo e no Rio Grande do Sul Nome Tipologia São Marcos (Zona Leste/SP) Casa/duplex geminada Área (m2) No. famílias 6 0 104 Início Andamento Assessoria Origem dos recursos 1990 Concluído em 1994 Oficina de Habitação Secretária Municipal de Habitação/SP Ambiente Governo Federal/ Crédito Solidário Usina COHAB/SP Ambiente Governo Federal/ Crédito Solidário Reginaldo Ronconi COHAB/SP Pequena empreiteira Governo Federal/ Crédito Solidário Pequena empreiteira Governo Federal/ Crédito Solidário Pequena empreiteira Governo Federal/ Crédito Solidário Colinas da Oeste (Zona Leste/SP) Apartamento 45 200 2007 Paulo Freire (Zona Oeste/SP) Apartamento 55 100 2003 Vale das Flores (Zona Leste/SP) Casa/duplex geminada - - - Vila Verde (Zona Leste/SP) Apartamento - 256 1990 Vivendas São Tomé (Viamão/RS) Casa isolada no lote 42,90 204 2006 UAMA I (Alvorada/RS) Casa isolada no lote 42,90 60 2005 Condomínio COOHRREIOS (Esteio/RS) Casa isolada no lote 42 36 2008 Em andamento; previsão p/ 2010 Em andamento; previsão p/ 2010 Em andamento; previsão p/ 2011 Concluído Em andamento; previsão p/ 2011 Concluído em 2008 Em andamento; previsão p/ 2010 11 Foto 1/2 - Conjunto São Marcos/SP Foto 9/10- Conjunto Colinas da Oeste/SP Foto 3/4 - Paulo Freire/SP 12 Foto 11/12 - Vale das Flores/SP Foto 5/6 - Vila Verde/SP Foto 7/8 - UAMA I (Alvorada/RS) Foto 13/14 - Vivendas São Tomé/RS Foto 15/16 - Condomínio COOHRREIOS (Esteio/RS) 13 Foto 17/18 – Complexo Habitacional Jorge Pedro Varela/CONVIADEOM/CONVISUCA Uma das primeiras experiências de cooperativismo habitacional por ajuda mútua em Montevídeo Foto 19/20 – Complexo Habitacional Jorge Pedro Varela Zona 03 A aproximadamente 20 minutos do Centro de Montevídeo, reúne 08 cooperativas Foto 21/22 Foto 23/24 14 Sobre a forma de organização Em São Paulo todas as experiências são de associações (algumas organizadas em cooperativas) filiadas à União Nacional por Moradia Popular, movimento social organizado, parte dos quatro movimentos nacionais que compõem o Fórum Nacional de Reforma Urbana. E que tem feito parte do Conselho Nacional das Cidades. O Loteamento Vivendas São Tomé e o Condomínio COOHRREIOS são projetos da Cooperativa Habitacional dos Empregados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos do Estado Rio Grande do Sul Ltda. O Vivendas conta com a participação de mais três cooperativas: a Cooperativa Habitacional dos Trabalhadores em Educação Pública/Privada do RS - COOHATERRA/ANATERRA; a Cooperativa Habitacional Giuseppe Garibaldi – COOHAGIG; e Cooperativa Habitacional Bonsucesso Ltda. – COOPHABON. As duas últimas ligadas a associações comunitárias. As cooperativas por ajuda mútua no Uruguai surgiram a partir dos sindicatos e se organizaram logo a princípio em uma federação, a FUCVAM. As cooperativas foram a estratégia dos trabalhadores sindicalizados para a obtenção de moradias. Hoje, com o enfraquecimento dos sindicatos, a organização parte da FUCVAM que é procurada tanto pelos sindicatos como por trabalhadores não sindicalizados, autônomos e pessoas de diferentes origens e situações sócio-econômicas. Sobre a autogestão e o mutirão Nos projetos da União verificou-se que AUTOGESTÃO das famílias acontece por meio de comissões. Quase todas as famílias participam de alguma comissão. Há projetos, como o Colinas, com 17 comissões, que vão desde comissão para compra de material até a comissão da cozinha coletiva para a alimentação nos dias de canteiro e outros eventos por eles promovidos. Nos projetos do Rio Grande do Sul, têm-se no máximo três comissões, e sem rotatividade dos participantes, as famílias que iniciam participando destas comissões, nelas permanecem até o final das obras. Com relação ao sistema de MUTIRÃO, este não acontece nos projetos do Rio Grande do Sul. E em São Paulo acontece da seguinte forma: os participantes se dividem em grupos de trabalho, 3 ou 4, dependendo do número de famílias; os grupos se revezam entre os sábados de mutirão e os domingos de atividades sócio-culturais de integração(palestras, confraternizações, formação técnica ou política sobre algum tema etc.). Desta forma as famílias não trabalham todo final de semana. Sendo que o trabalho de mutirão consiste na realização de trabalhos auxiliares ao pedreiro contratado (pequenas empreiteiras): trabalhos de limpeza do canteiro, organização e transporte de material para o pedreiro, pequenas escavações e pinturas/acabamentos. O grupo que não trabalhou no sábado, organiza a atividade do domingo. Este sistema de trabalho, chamado por eles de mutirão, pode parecer “pouco”, mas quando questionados sobre o impacto desse “pouco” na obra, a maior parte dos entrevistados afirmaram sua importância no que tange a economia de mão-de-obra. Alguns, dentre eles, moradores/lideranças ligadas à União, indicaram além do ganho econômico os ganhos sociais e políticos. Sempre que necessários as famílias são mobilizadas a participarem dos eventos de reivindicação/protesto da União (passeatas, ocupações de órgãos públicos, atos etc.) sendo prerrogativa a permanecer no processo, que eles também participem deste tipo de atividade. O conjunto São Marcos, Zona Leste de SP, foi, de todas as experiências visitadas, a única onde o mutirão foi diferente. Neste projeto, todas as famílias atuaram na construção quase que completa das casas. Limparam terreno, escavaram e ajudaram nas fundações, levantaram paredes, fizeram emboço, telhado, instalações e 15 acabamento. Havia mão-de-obra especializada contratada, mas em número pequeno, aproximadamente 15% do total. Muitos saíram como profissionais do ramo. Estas famílias se organizaram em Associação, que é responsável pelo conjunto até hoje. Suas lideranças foram responsáveis pela criação da União Nacional por Moradia Popular. Como falado anteriormente todo o modelo organizativo utilizado pela União em seus projetos foram baseados no que é feito pela FUCVAM (Federação Uruguaia de Cooperativas de Vivenda por Ajuda Mútua). Tanto para a autogestão (famílias divididas em comissões) como para o trabalho das famílias no canteiro. Em Montevídeo o trabalho em mutirão é o que denominam “ajuda mútua”. E todas as cooperativas desta modalidade tem que implementar essa proposta, onde as famílias trabalham nos finais de semana e feriados, tendo que cumprir uma carga horária de 20 horas semanais. O tipo de trabalho feito varia de cooperativa para cooperativa, apesar de que todas só podem contratar uma porcentagem (aproximadamente 20%) de mãode-obra qualificada. Também a exemplo do que é feito em São Paulo, são realizadas atividades de cunho político/cultural e as famílias devem participar e ajudar a organizar. Sobre a relação com a assessoria Os projetos de São Paulo são todos assessorados por escritórios de arquitetura e contam com estes para a elaboração do projeto, organização e fiscalização dos trabalhos feitos pelas pequenas empreiteiras contratadas. Por todos os entrevistados verificou-se uma boa relação com as assessorias, as quais procuraram envolver, de formas distintas, as famílias na definição dos projetos. Nos projetos mais antigos como o São Marcos e o Vila Verde/Paulo Freire, o trabalho social foi implementado pelas assistentes sociais da Prefeitura e da COHAB, respectivamente. Nos mais recentes, como o Colinas e Vale das Flores, os profissionais da áreas social foram contratados pelas cooperativas com recursos do projeto (o que representa 2% do valo da obra). Nos conjuntos das cooperativas do Rio Grande do Sul não verificou-se a assessoria de profissionais de engenharia e arquitetura. Os projetos das unidades são “dados”, muitas vezes, por prefeituras, não ficando claro quem elabora os demais projetos de implantação e infra-estrutura. Ou seja, são projetos arquitetônicos que se repetem em conjuntos distintos. O trabalho social também é executado por assistentes sociais contratadas pelas próprias cooperativas. No Uruguai, a Lei Nacional 13.728 de 1968 que instituiu o Plano Nacional de Moradia, traz a criação dos Institutos de Assistências Técnica, que são entidades sem fins lucrativos destinadas a prestar serviço de assessoria jurídico, financeira/contábil e social a cooperativas, podendo incluir serviços técnicos e de gestão de projetos de construção. O valor total dos honorários técnicos não pode ser superior a 7% do valor total cobrado pelo projeto. Sendo 60% dos honorários pagos no 1º mês e o restante no decorrer da obra. Para início dos trabalhos há casos de até 8 anos de espera. Pelo verificado nas entrevistas a relação dos IAT‟s com as cooperativas é complexa, mas a existência destes institutos tem garantido a alta qualidade dos projetos e das moradias produzidas. Sobre a localização (acesso ao terreno) Todos os projetos visitados se localizam em bairros nos limites de cada município. Naquilo que para muitos pode ser chamado “bairros periféricos”. Deve-se considerar, porém, é que para cada realidade visitada o peso desta localização é diferente. Isto 16 porque em São Paulo, tanto nos projetos da Zona Leste, como da Zona Oeste verificou-se uma configuração de “periferia” bem diferente daquela onde se localizam os projetos de Viamão, Esteio e Alvorada. E este, dentre outros aspectos, deverá ser considerado nas análises elaboradas a posteriore. Não se poderá fazer uma comparação entre as experiências de forma a desconsiderar diferenças como estas. Assim, saliento que as informações acima correspondem a uma pequena amostra das muitas informações até aqui coletadas. Isto porque não havia a intenção de neste artigo esgotar nenhuma das questões propostas, nem mesmo apresentar resultados preliminares. A proposta é de trazer á tona na discussão nacional da produção de moradia de interesse social algumas questões antigas e novas que estão atreladas ao cooperativismo e a autogestão. Tudo está apenas começando. Em Montevídeo o acesso a terra infra-estruturada possuí complexidades, apesar da pouca densidade populacional. Os primeiros conjuntos cooperativados se localizaram na periferia da cidade, onde não havia quase nenhuma infra-estrutura básica, e o acesso era bastante precário. Em todos os casos, primeiro vieram os conjuntos para daí se chegar o restante, sendo que as cooperativas foram responsáveis diretas pelas melhorias e pela consolidação de bairros inteiros. Há casos de cooperativas de ajuda mútua no Centro de Montevídeo, naquilo que eles chamam projetos de reciclagem. São prédios antigos que foram reformados e transformados em prédios residências. Hoje existe a Carta de Terras onde o Estado compra terras para vender em comodato as cooperativas. O programa ainda não adquiriu uma quantidade significativa de terra, principalmente na zona central, mas é uma conquista importante dos movimentos locais e que deverá ser ampliando a nível de política nacional. Sobre a pós-ocupação Ao se falar de pós-ocupação a realidade é basicamente a mesma em quase todas as experiências visitadas em São Paulo e Porto Alegre. As moradias produzidas são propriedades dos moradores. Nas experiências mais recentes, como o Colinas e Vale das Flores, e todos do Rio Grande, os contratos são individuais com a CAIXA, órgão financiador e tem devem ser até registrados em cartório, escriturados. A cooperativa ou associação fica responsável por evitar a inadimplência no período do financiamento. Pode ser uma forte tendência a dissolução da cooperativa com a quitação de todos os contratos. E sua substituição pela figura do “condomínio”. Tudo dependerá do trabalho dos movimentos sociais, responsáveis diretos ou indiretos por estas cooperativas/associações, de incutir nessas famílias novos valores e novas perspectivas que superem o modelo capitalista de morar e conviver na cidade. No Uruguai, as moradias produzidas são propriedades da cooperativa, mesmo após a finalização da obra e quitação. Isso tanto nas cooperativas de ajuda mútua como nas de poupança (ahorro) prévia. Daí a necessidade de uma federação. As cooperativas habitacionais no Uruguai se tornaram agentes importantes na conjuntura política nacional. E mesmo com a possibilidade de se migrar para a propriedade privada (lei de 2008), segundo dirigentes da FUCVAM, não houve mudanças por parte de seus associados. A propriedade coletiva não é questionada talvez pela qualidade das habitações e até por suas localizações. Para alguns entrevitados, nunca teriam acesso, pelo mercado ou pelo Estado, a uma casa com aquela qualidade. Inclua também o fato de que como cooperado, o morador se vê como proprietário, com garantias legalmente respaldadas. Sobre a qualidade da moradia produzida Nos projetos de São Paulo e Porto Alegre as moradias são em sua maioria de dois 17 quartos. Principalmente nos projetos do Rio Grande, são verificados pouquíssimos casos de moradias com três quartos. Algo de certa forma “amenizado” pelo fato de serem todas casas (isoladas no terreno), dando ao morador possibilidade de ampliação quando quitado o imóvel. Em São Paulo, essa realidade de um número maior de quartos e cômodos mais espaçosos, se verifica nos projetos mais antigos, como São Marcos e o Paulo Freire (ver Quadro II). Sendo que no São Marcos as casas são geminadas e no Paulo Freire são apartamentos. De uma forma geral observa-se a família tendo que se “adequar” a uma habitação com um número insuficiente de quartos, fruto de um projeto de moradia que não é pensado em função das necessidades presentes e futuras das famílias que ali habitarão por anos. Em todas as experiências visitadas no Uruguai tem-se uma situação contrária, pois se verifica uma divisão, por vezes igual do total produzido, em habitações com dois, três e até quatro cômodos. Ou seja, o projeto é pensado de acordo com as necessidades das famílias. Existe até a possibilidade de se uma família aumentar, ela se transferir para um imóvel maior que esteja vago. Tudo através da cooperativa, que faz a gestão do uso e ocupação do conjunto. Como se consegue isto: habitações com até quatro quartos, ótimo acabamento, centros comunitários, áreas de jardins e de lazer? Em algumas entrevistas obteve-se a informação de que, entre outras coisas, a economia que possibilita estes gastos é fruto do trabalho mutirante e de uma boa gestão dos recursos por cooperados bem assessorados (FUCVAM/IAT‟s). 4. CRONOGRAMA DA PESQUISA 2010 Atividades Pesquisa de Campo: RMSP, RMPOA e Montevídeo (Uruguay) Finalização da 1º Etapa da pesquisa de campo: visitas as experiências na RMRJ 1º sem Ago Set Escolha dos casos X Início da 2º Etapa da pesquisa de campo (visita aos casos selecionados, aplicação de entrevistas, pesquisa documental): X Avaliação do andamento da pesquisa e novo planejamento Nov X X Dez Jan 1º sem X X X 2º sem X X Doutorado sanduíchevii Out X Sistematização da 1º Etapa da pesquisa de campo Pesquisa bibliográfica e início da elaboração dos primeiros capítulos teóricos 2011 X X X 18 5. Referências Bibliográficas BARAVELLI, José Eduardo. O cooperativismo uruguaio na habitação social de São Paulo: das cooperativas FUCVAM à Associação de Moradia Unidos de Vila Nova Cachoeirinha. 2006. 170 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de São Paulo, 2006. BERTULLO, Jorge; ISOLA, Gabriel; CASTRO, Diego; SILVEIRA, Milton. El cooperativismo em Uruguay. Red Universitaria de las Américas em Estudios Cooperativos y Asociativismo. Servicio Central de Extensión y Actividades en el Medio (SCEAM). Universidad de la República do Uruguay, 2003. BOURDIEU, Pierre. Ofício de sociólogo: metodologia da pesquisa na sociologia. Trad.: Guilherme João de Freitas Teixeira. 6 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2007. CORAGGIO, José L. Descentralización, el dia después... Cuadernos de Posgrado; Serie Cursos y Conferencias, n. 6. Oficina de Publicaciones del CBC, Universidad de Buenos Aires. Buenos Aires, 2007. HARVEY, David. Espaços de esperança. Trad.: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 2000. KEIL, Ivete M. MONTEIRO, Silvio T. Os pioneiros de Rochdale e as distorções do cooperativismo na América Latina. São Leopoldo/RS, 1982. LEFÉBVRE, Henri. A revolução urbana. Trad.: Sérgio Martins. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. MORAIS, Maria Cristina. Cooperativa habitacional autofinanciável: uma alternativa de mercado à escassez de financiamento. 2004. 344 f. Dissertação de Mestrado. Centro de Tecnologia - Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2004. SANTOS, Milton. Por outra globalização, do pensamento único à consciência universal. 10º Ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. ________________. A natureza do espaço: técnica, razão e emoção. São Paulo: Editora da USP, 2002. TEIXEIRA, Aloísio (org.). Utópicos, heréticos e malditos: os precursores do pensamento social da nossa época. Rio de Janeiro: Record, 2002. WALLERSTEIN, Immanuel. Utopística ou decisões históricas do século vinte um. Trad.: Vera Lúcia Mello Joscelyne. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2003. i Arquiteta – Urbanista; mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA/UFC) ; doutoranda do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – IPPUR/UFRJ. ii Somente para o capital houve sentido, em separá-los, seja no processo de produção de moradia, seja nas lutas e movimentos reivindicatórios. iii Se entiende por cooperativas propiamente dichas aquellas en las que sus documentos fundacionales manifiestan coincidencia o proximidad con los principios cooperativos internacionalmente difundidos y son reflejados en la doctrina y legislación nacional de la época (Bertullo, Isola, Castro et. al, p. 06, 2003). iv Para se ter uma idéia do peso desta organização, ainda segundo Baravelli (2006), o primeiro ministro da agricultura no governo Lula, Roberto Rodrigues, é um dos maiores representantes deste cruzamento entre a 19 OCB e o agronegócio. Antes de chefiar o ministério, dirigiu a OCB por dois mandatos entre 1985/1991, sendo o primeiro não-europeu a presidir a Aliança Cooperativa Internacional. v O Programa Crédito Solidário é promovido pelo Ministério das Cidades e operado pela Caixa Econômica Federal, tem como objetivo o financiamento habitacional a famílias de baixa renda organizadas em associações, cooperativas, sindicatos ou entidades da sociedade civil organizada. As Famílias organizadas de forma associativa devem ter uma renda bruta mensal de até R$ 1.125,00. Também podem participar famílias com renda bruta mensal entre R$ 1.125,01 e R$ 1.900,00. vi O Observatório das Metrópoles (cuja coordenação nacional está no Observatório do IPPUR/UFRJ) se tornou um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia/INCT (Ministério da Ciência e Tecnologia/MCT e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq, em parceria com a FAPERJ. Dentro deste, a presente pesquisa integra o Projeto: Estudo sobre as formas de provisão da moradia e seus impactos na re-configuração espacial das metrópoles da Linha de Pesquisa II - Dimensão sócio-espacial da Exclusão/Integração nas metrópoles. vii CRONOGRAMA DE ATIVIDADES P/ DOUTORADO SANDWICH ▪ (Janeiro à Junho/2011): JANEIRO - Ampliar pesquisa bibliográfica sobre a temática da habitação e do desenvolvimento urbano em países em desenvolvimento, com foco em países da América Latina; buscar elementos teóricos que orientem a análise do objeto, esta pesquisa/revisão bibliográfica deverá considerar: (i) a evolução teórica das categorias „moradia digna‟ e „qualidade de vida‟ a partir do surgimento do capitalismo na Europa e principalmente na América Latina (do projeto burguês de cidade, construído nos países avançados); (ii) as alternativas históricas que marcaram a urbanização latino-americana. FEVEREIRO – Realizar pesquisas sobre a história do cooperativismo; problematizando os conceitos de cooperação, cooperativismo e autogestão. MARÇO ▪ ABRIL Investigar as origens do cooperativismo habitacional e da auto-gestão da produção habitacional na Europa e sua origem e evolução histórica na América Latina. Como se deu a “transferência” desta prática para realidade latino-americana, os agentes do processo, as primeiras experiências (onde e quando). MAIO ▪ JUNHO Pesquisar experiências de cooperativismo habitacional ou de auto-gestão na produção de habitação na Europa, a fim de estabelecer alguns possíveis parâmetros comparativos entre a experiência da América Latina e a européia. 20