PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TECNOLOGIA AMBIENTAL – MESTRADO ÁREA DE CONCENTRAÇÃO EM GESTÃO E TECNOLOGIA AMBIENTAL Leonardo Amonte Anacker PROCESSO DE OBTENÇÃO DE BIOETANOL A PARTIR DE RESÍDUOS LIGNOCELULÓSICOS DA CULTURA DO TABACO Santa Cruz do Sul 2014 Leonardo Amonte Anacker PROCESSO DE OBTENÇÃO DE BIOETANOL A PARTIR DE RESÍDUOS LIGNOCELULÓSICOS DA CULTURA DO TABACO Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Tecnologia Ambiental – Mestrado, Área de Concentração em Gestão e Tecnologia Ambiental, Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Tecnologia Ambiental. Orientadores: Profa. Dra. Rosana de Cassia de Souza Schneider Prof. Dr. Valeriano Corbellini Santa Cruz do Sul, Agosto de 2014 RESUMO O consumo excessivo de combustíveis fósseis em grandes áreas urbanas resultou na geração de altos níveis de poluentes, tornando a economia mundial altamente dependente destas fontes de energia como óleo, carvão e gás natural. A produção anual destes combustíveis tenderá a diminuir nas próximas décadas. Neste cenário, os combustíveis de fontes renováveis surgem como uma nova alternativa. Dentre este grupo, os materiais lignocelulósicos possuem a grande vantagem de não competirem com a produção de alimentos. Neste estudo foi utilizado o caule de tabaco moído e seco para a produção de bioetanol em escala laboratorial, investigando assim algumas condições de pré-tratamento com ácido diluído, hidrólise enzimática e fermentação com Saccharomyces Cerevisiae. O pré-tratamento foi realizado com solução de ácido sulfúrico (2% e 3%) em autoclave por 30 a 90 min. A Hidrólise Enzimática foi realizada com duas enzimas a CTec2 a a HTec2 da Novozyme. A Fermentação foi conduzida com a melhor condição de pré-tratamento e hidrólise enzimática com Sacchromyces Cerevisiae (Safale S-04) e apresentou um rendimento de 0,338 g de etanol por g de caule de tabaco moído e seco. Com isso, os resultados demonstraram que o caule de tabaco, o qual não possui valor econômico, aparece como uma fonte de monossacarídeos para fermentação e produção de bioetanol. Palavras chaves: bioetanol, biomassa lignocelulósica, tabaco, pré-tratamento ácido, hidrólise enzimática e fermentação. ABSTRACT The excessive consumption of fossil fuels in large urban areas has resulted in generation of high levels of pollutants, forcing the world economy being highly dependent on these energy sources such as oil, coal and natural gas. The annual production of these fuels tend to decrease in the coming decades. In this scenario, the renewable fuels emerge as a new alternative. Among this group, lignocellulosic biomass have the great advantage of not competing with food production. In this study, milled and dried tobacco stalk was used to produce bioethanol in laboratory scale. It was used to investigate some pretreatment conditions with diluted acid, enzymatic hydrolysis and fermentation with Saccharomyces cerevisiae. Pretreatment was conducted with sulfuric acid solution (2% and 3%) in an autoclave within 30 - 90 min. The enzymatic hydrolysis was performed with the two enzymes CTec2 and HTec2 of Novozyme. The fermentation was conducted with the best condition of pre-treatment and enzymatic hydrolysis with Saccharomyces cerevisiae (Safale S-04) and the overall yield achieved was 0.338 g of ethanol per g of dry milled tobacco stalk. Thus, the results showed that the tobacco stalk, which has no economic value, appears as a source of monosaccharides for fermentation and production of bioethanol. Key words: bioethanol, lignocellulosic biomass, tobacco stalk, acid pretreatment, enzymatic hydrolysis and fermentation. AGRADECIMENTOS Agradeço a minha família, esposa Adriane, filho Lucas, pai Fernando e mãe Madel por entender o tempo necessário para a conclusão deste trabalho; aos professores do Programa de Pós-graduação em Tecnologia Ambiental – Mestrado pelo conhecimento transmitido; aos colegas do curso pela amizade e convívio amigável durante as aulas e práticas; em especial ao Químico Mateus Szarblewski pela adaptação dos métodos de análise que viabilizou a obtenção dos resultados deste trabalho; as bolsistas Lilian Ferreira e Franccesca Fornasier pelo apoio e ajuda durante este trabalho e, em especial aos meus orientadores Professora Rosana Schneider e Professor Valeriano Corbellini, pelo apoio, incentivo e sabedoria transmitidas. LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Cadeia do tabaco – do plantio ao consumo______________________________________________ 18 Figura 2 – Distribuição dos Resíduos de tabaco na indústria. Adaptado de relatório interno da indústria de tabaco da safra de 2012 _____________________________________________________________________ 20 Figura 3 – Rotas tecnológicas para produção de etanol de biomassa __________________________________ 21 Figura 4 – Fórmula estrutural da celulose________________________________________________________ 22 Figura 5 – Mostra uma estrutura esquemática da composição molecular de materiais lignocelulósicos. _____ 23 Figura 6 – Etapas do processo de produção de bioetanol de biomassa ________________________________ 26 Figura 7 – Esquema de reações básicas de biomassa lignocelulósica em meio ácido______________________ 31 Figura 8 – Modelo esquemático de colonização de fungos da podridão marrom _________________________ 34 Figura 9 – Mecanismo de ação da celulase sobre a celulose _________________________________________ 35 Figura 10– Processo de fermentação – via de Embden-Meyerhof _____________________________________ 41 Figura 11– Processo de sacarificação e fermentação simultâneos visando a produção de etanol (SSF) _______ 42 Figura 12 – Processo de sacarificação e fermentação simultâneos com diferentes temperaturas ___________ 43 Figura 13 – Fluxograma da Metodologia ________________________________________________________ 45 Figura 14 – Fluxograma simplificado das etapas de produção experimental de bioetanol e análises de açúcares _________________________________________________________________________________________ 46 Figura 15 – Esquema de determinação de açúcares totais pelo método DNS adaptado de Saqib (2011) ______ 51 Figura 16 - Curva analítica para a determinação de Açúcares Redutores Totais pelo método DNS __________ 52 Figura 17 – Análise concentração de Açúcares adaptado de Erich,2012 ________________________________ 53 Figura 18 - Curva analítica para a determinação de glicose por CLAE __________________________________ 54 Figura 19 - Curva analítica para a determinação de arabinose e xilose por CLAE_________________________ 55 Figura 20 - Curva analítica para a determinação de etanol por Cromatografia Gasosa ___________________ 56 Figura 21 – Gráficos de dispersão dos resultados de concentração de açúcares no hidrolisado _____________ 60 Figura 22 - Gráficos de dispersão dos resultados de Eficiência de Pré-tratamento Ácido __________________ 61 Figura 23- Gráficos comparativos entre CTec2 e HTec2 por condição de Pré-tratamento __________________ 63 Figura 24 – Taxa de produção de ART durante Hidrólise enzimática. __________________________________ 64 Figura 25 – Evolução do percentual de ART no hidrolisado com Enzima CTec2. __________________________ 64 Figura 26 – Comparação entre ART e glicose da evolução durante a Hidrólise Enzimática com CTec2 ________ 65 Figura 27 – Evolução da concentração de etanol durante a Fermentação ______________________________ 66 Figura 28 – Esquema de funcionamento do sistema de produção de etanol ____________________________ 67 Figura 29 - Corte transversal do reator __________________________________________________________ 68 Figura 30 - Desenho esquemático do aquecedor de água ___________________________________________ 70 LISTA DE TABELAS Contents __________________________________________________________________________________ 11 Tabela 1 – Evolução da fumicultura sul-brasileira conforme dados de produção _________________________ 17 Tabela 2 - Composição química de algumas biomassas utilizadas como fonte para obtenção de bioetanol ___ 25 Tabela 3 – Tipos de pré-tratamento em função da natureza da biomassa ______________________________ 28 Tabela 4 – Parâmetros de Pré-tratamento para diferentes biomassas _________________________________ 30 Tabela 5 – Condições de sacarificação por diferentes tipos de biomassa _______________________________ 37 Tabela 6 – Soluções ácidas ___________________________________________________________________ 47 Tabela 7 – Condições do experimento de otimização do pré-tratamento ácido do caule de tabaco __________ 48 Tabela 8 – Comparação entre as enzimas CTec2 e HTec2 ___________________________________________ 49 Tabela 9 – Parâmetros limites para dimensionamento do reator _____________________________________ 57 Tabela 10 – Estimativa da Produção de Caule de Tabaco por hectare _________________________________ 58 Tabela 11 – Estimativa de geração de caule de tabaco e celulose na Região Sul do Brasil _________________ 58 Tabela 12 – Resultados de concentração de açúcares por condição de tratamento ______________________ 59 Tabela 13- Eficiência do Pré-tratamento Ácido na Hidrólise de Caule de Tabaco _________________________ 61 Tabela 14 – Resultados de ART durante a Hidrólise Enzimática ______________________________________ 62 Tabela 15 – Resultados de Concentração de Glicose durante a Hidrólise Enzimática (g L -1) ________________ 65 Tabela 16 – Estimativa de necessidade de vapor para pré-tratamento ________________________________ 71 Tabela 17 - Proporção de caule de tabaco em relação as folhas ______________________________________ 83 Tabela 18 - Estimativa de geração de caule de tabaco e etanol no Brasil em 2013 _______________________ 83 LISTA DE ABREVIATURAS FPU Filter Paper Unit - está relacionado com a quantidade de açúcar liberado pelo ataque enzimático sobre a celulose. ART Açúcares Redutores Totais EPA Eficiência de Pré-tratamento CLAE Cromatógrafo Líquido de Alta Eficiência CGEE Centro de Gestão e Estudos Estratégicos GRFA Global Renewable Fuels Alliance DNS ácido 3,5-dinitrossalicílico PABA ácido p-aminobenzóico SUMÁRIO Contents 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................... 13 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .................................................................................... 16 2.1 2.1.1 2.1.2 Produção de bioetanol no Brasil.................................................................................. 20 2.3 Etanol Lignocelulósico................................................................................................. 22 2.4 Etapas da produção de bioetanol de material lignocelulósico ...................................... 25 Pré-tratamento .............................................................................................................................. 26 Hidrólise enzimática ...................................................................................................................... 34 Fermentação .................................................................................................................................. 39 Separação ou Destilação................................................................................................................ 44 METODOLOGIA ........................................................................................................ 45 3.1 Delineamento experimental ....................................................................................... 45 3.2 Reagentes e enzimas .................................................................................................. 46 3.3 Geração de Caule........................................................................................................ 47 3.4 Pre-tratamento ácido ................................................................................................. 48 3.5 Hidrólise Enzimática ................................................................................................... 49 3.6 Fermentação .............................................................................................................. 50 3.7 Determinação de Açúcares ......................................................................................... 51 3.7.1 3.7.2 4. Produção do tabaco....................................................................................................................... 18 Resíduos da cultura do tabaco ...................................................................................................... 19 2.2 2.4.1 2.4.2 2.4.3 2.4.4 3. Cultura do Tabaco ...................................................................................................... 16 Método DNS .................................................................................................................................. 51 Método PABA ................................................................................................................................ 52 3.8 Determinação de Etanol ............................................................................................. 55 3.9 Projeto do equipamento piloto ................................................................................... 56 RESULTADOS E DISCUSSÕES ..................................................................................... 58 4.1 Produção de Caule ...................................................................................................... 58 4.2 Pré-tratamento ácido da biomassa.............................................................................. 59 4.3 Hidrólise Enzimatica ................................................................................................... 61 4.4 Fermentação .............................................................................................................. 65 4.5 Proposta de Equipamento em Escala Piloto ................................................................. 67 4.5.1 4.5.2 4.5.3 Reator ............................................................................................................................................ 68 Aquecedor de água ........................................................................................................................ 70 Caldeira .......................................................................................................................................... 70 5. CONCLUSÕES ........................................................................................................... 72 6. SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS .................................................................. 73 7. REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 74 8. ANEXO ..................................................................................................................... 81 Anexo 1 - Levantamento fotográfico da lavoura de tabaco (próprio autor) .............................. 81 8.1.1 8.1.2 8.1.3 8.1.4 Antes da Colheita ........................................................................................................................... 81 Após a Colheita (Fazenda experimental: EXPOAGRO AFUBRA/Brasil) .......................................... 81 Após a Colheita (Fazenda Mponela – Malaui/Africa) .................................................................... 81 Após a Colheita (Fazenda Lucas – Moçambique/Africa) ............................................................... 82 8.2 Anexo 2 – Estudo de Relação Caule Folha de Tabaco (Suggs, 1984) ............................... 83 8.3 Anexo 3 - Projeto do Sistema - Visão Geral e Vista Explodida do Reator ...................... 84 8.4 Anexo 3 - Projeto Elétrico do Sistema - Diagrama Geral de Força Elétrica..................... 86 8.5 Anexo 4 - Projeto Elétrico do Sistema – Painel Elétrico ................................................ 88 8.6 Anexo 5 - Projeto do Sistema – Lista de Materiais ....................................................... 90 1 INTRODUÇÃO A economia mundial é altamente dependente de fontes fósseis de energia, como óleo, carvão, gás natural, entre outras utilizados para produção de combustíveis, eletricidade e produtos em geral e resulta em altos níveis de emissão de gases do efeito estufa (Sarkar, 2012). A diminuição da produção global de combustível de origem fóssil aliada ao possível crescimento do consumo dos mesmos em médio prazo faz surgir fontes renováveis de energia como alternativa ao déficit energético que se avizinha. Neste contexto, vários países, inclusive o Brasil, introduziram programas voltados para o consumo de biocombustíveis em veículos, seja incentivando a produção e o consumo interno com acordos internacionais. O consumo de combustíveis derivados de resíduos fósseis pela humanidade tem produzido, desde a civilização moderna, emissões de dióxido de carbono (CO2) que resultaram na condição atual de alterações climáticas (Buckeridge, 2009). Os principais países produtores de petróleo no mundo, países do Oriente Médio, em constante instabilidade política provocam alterações imprevisíveis nos preços do petróleo. Baseado nisso, muitos países têm desenvolvido políticas de uso de biocombustíveis. A introdução de políticas de favorecimento do uso de biocombustíveis provoca uma enorme pressão nas culturas agrícolas, principalmente nas safras que concorrem com a produção de produtos para alimentação humana. Em 1970, o Brasil iniciou um programa para substituir gasolina por etanol com o objetivo de reduzir a dependência política e econômica para futuros períodos. Entretanto, o uso de culturas alimentares como milho e beterraba para a produção de bioetanol causa conflito com a produção destes alimentos. A produção de bioetanol a partir do bagaço da cana-de-açúcar é uma alternativa que possui a vantagem sobre os demais produtos, porque utiliza resíduos da produção de açúcar que poderiam causar problemas ambientais. O Brasil foi o maior produtor mundial de cana-de-açúcar e o segundo maior produtor de etanol em 2007, atingindo o volume de 22,6 GL (Gigalitros), segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A produção de etanol atingiu seu pico máximo em 2010 com quase 28 GL. 13 Para atingir a demanda prevista para 2025 será necessária uma redução nos custos de produção para compensar o transporte de regiões mais remotas do país. Além disso, a introdução de tecnologias mais avançadas e uma produtividade maior por hectare devem ser introduzidas na produção de cana-de-açúcar, principal fonte para a produção de bioetanol. Atualmente, cada hectare plantado de cana-de-açúcar pode produzir 6000 litros a um custo que varia entre US$ 0,25 a US$ 0,30 por litro (Soccol, 2010). Além disso, desenvolvimentos tecnológicos também reduziriam o impacto ambiental da produção de bioetanol e diminuiriam o preço do mesmo. Pesquisas têm concentrados seus esforços, segundo Siqueira et al (2008), no desenvolvimento de organismos fermentativos mais eficientes, substratos de fermentação mais baratos e condições de fermentação otimizadas. Segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), fatores como o constante aumento de preço do petróleo, a necessidade de redução de emissão de gases do efeito estufa, a possibilidade de utilizar-se 10% de bioetanol na gasolina veicular, redução de barreiras protecionistas em países industrializados podem favorecer um projeto de desenvolvimento da produção de bioetanol no Brasil. Além destes fatores, a National Energy Information Center (NEIC) dos EUA projeta um aumento da demanda mundial de gasolina em 48% de 2005 para 2025, podendo variar 5% para mais ou para menos, dependendo da adoção de novas tecnologias. A previsão é atingir 1,7 trilhões de litros de gasolina consumida em veículos leves. Sabendo-se que o poder calorífico do bioetanol é menor que o da gasolina, a quantidade de bioetanol para substituir 10% de toda a gasolina necessária para veículos leves em 2025 seria de 205 bilhões de litros, requerendo uma área plantada de cana-de-açúcar de 30 Mha. De acordo com a Petrobrás Biocombustíveis, a produção de bioetanol pode triplicar de 2010 até 2020, atingindo 70 bilhões de litros. As plantações de cana-deaçúcar ocupam apenas 0,90% das áreas que podem ser cultivadas e a produção de alimentos 15,98%. Assim, o Brasil tem espaço territorial suficiente para elevar significativamente a produção de alimentos e, também, os biocombustíveis. A produção de bioetanol consiste basicamente da hidrólise química/enzimática da biomassa com o objetivo de sacarificação da mesma para em seguida sofrer um ataque de micro-organismos capazes de fermentá-lo e produzir etanol. 14 Neste contexto, basicamente todo resíduo vegetal com concentração elevada de celulose poderia ser um substrato para a produção de bioetanol. Analisando-se a produção de tabaco, observa-se um grande potencial para a produção de bioetanol, visto que, este cultivo utilizou 324,6 mil hectares de área plantada em 2011/2012 e produziram 727,5 mil toneladas (Ribeiro, 2012). As lavouras de tabaco concentram-se 98% no sul do país, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, totalizando 652 municípios e 165,1 mil produtores, caracterizando-se por minifúndios (Ribeiro, 2012). A colheita das folhas de tabaco ocorre de maneira gradativa, iniciando-se nas folhas mais baixas e concluindo-se nas superiores. Com isso, após a colheita da última folha de tabaco, sobra na lavoura o caule central da planta de tabaco, que é formado basicamente de celulose. Atualmente, este material é cortado e deixado na lavoura, sem aproveitamento para o solo ou para a próxima safra (Collins, 1993). Desta forma, o aproveitamento destes caules pode ser de interesse para a agricultura e indústria, uma vez que, para a produção de tabaco são utilizados 327,9 mil hectares, nos quais ficam todos os caules na lavoura após a colheita (Ribeiro, 2012). Assim, objetivou-se a produção de bioetanol a partir do caule de tabaco remanescentes na lavoura após a colheita das folhas propondo um sistema em escala piloto com especificação de materiais e equipamentos capaz de produzir bioetanol de materiais lignocelulósico. O processo de obtenção de bioetanol segue sequência operacional descrita por Hamelinck (2005), sendo pré-tratamento com ácido sulfúrico diluído, hidrólise enzimática e fementação com Saccharomyces cerevisiae. Concomitantemente, busca-se investigar a influência da concentração do ácido e o tempo de pré-tratamento, a eficiência de hidrólise de dois tipos de enzimas (CTec2 e HTec2) além de determinar quantidade de produção de bioetanol por kg de caule de tabaco. 15 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Cultura do Tabaco A produção de tabaco é difundida em mais de 130 países, sendo a maior cultura agrícola não-alimentícia do mundo (ITGA, 2014) e segundo a AFUBRA (2014) o Brasil foi responsável por 11,4% do volume total de tabaco cru processado no mundo na safra 2011/2012. As empresas situadas na região sul do Brasil beneficiam tabaco em folhas proveniente da espécie Nicotiana tabacum L., que são curados após a colheita, beneficiados e embalados para a fabricação de cigarros. O tabaco produzido nos três estados do Sul do Brasil é dividido em três grupos: Virginia, Burley e Comum. O tabaco tipo Virginia é um tabaco claro curado em estufas com temperatura e umidade controladas, durante cinco a sete dias. O tabaco Burley ou Galpão Comum são folhas escuras curadas em galpões ventilados naturalmente, durante cerca de quarenta dias, segundo dados do Sinditabaco (2013). A evolução da fumicultura no Brasil é mostrada na tabela 1, onde se observa um incremento significativo na área cultivada até 2005. Após este ano houve um declínio gradativo acompanhado da redução de famílias produtoras e uma estabilização da produtividade agrícola (kg ha-1). A estimativa de produção de tabaco embalado na Região Sul do Brasil, conforme dados do Anuário Brasileiro do Tabaco (2012) é de 674.320 toneladas, sendo 85,8% do tipo Virginia, 12,3% do tipo Burley e 1,9% do tipo Galpão Comum. Para a produção desta quantidade de tabaco são utilizados 327,9 mil hectares de área plantada. 16 Tabela 1 – Evolução da fumicultura sul-brasileira conforme dados de produção Famílias Hectares Produção de Produtoras plantados tabaco (ton) 1995 132.680 200.830 348.000 1.733 2000 134.850 257.660 539.040 2.092 2005 198.040 439.220 842.990 1.919 2006 193.310 417.420 769.660 1.844 2007 182.650 360.910 758.660 2.102 2008 180.520 348.720 713.870 2.047 2009 186.580 374.060 744.280 1.990 2010 185.160 370.830 691.870 1.866 2011 186.810 372.930 832.830 2.233 2012 165.170 324.610 727.510 2.241 2013 159.595 313.675 712.750 2.272 Safra Kg ha-1 Fonte: adaptado de AFUBRA, 2013 O processo de cultivo do tabaco inicia-se pela germinação do tabaco em bandejas flutuantes em água. Após a germinação e crescimento inicial, a planta é transplantada para a área de cultivo. Durante o período de desenvolvimento da planta, a flor do tabaco é podada fomentando seu crescimento e aumentando o número de folhas por pé e seu tamanho. Após o período de colheita das folhas de tabaco, parte da planta com valor comercial, o caule central é deixado na lavoura. A concentração de celulose e hemicelulose comparável com o percentual médio destes compostos na cana-deaçúcar e o percentual reduzido de lignina sugerem este material como uma fonte alternativa para a produção de bioetanol (Martin, 2008). A dinâmica da produção do tabaco implementada pela empresa Souza Cruz, subsidiária da BAT (British American Tobacco) no Brasil tem mais de 90 anos e caracteriza-se por um sistema integrado de produção. A Figura 1 mostra toda a cadeia produtiva do tabaco. Neste sistema, agricultor e indústria firmam um contrato de deveres e obrigações, onde a indústria financia o produtor com insumos (sementes, lenha, fertilizantes, etc) e suporte com recomendações técnicas para manuseio aplicação e descarte de embalagens de agrotóxicos (produção de sementes, fornecimento de fertilizantes e pesticidas). O produtor é responsável pela plantação, 17 cuidados e cura do tabaco até a sua venda na indústria. Neste momento os insumos são cobrados do produtor, que deve liquidar sua dívida. Produção de Sementes Plantação/cultivo Cura Venda/Compra Blending (Mistura) Armazenagem Produção de Cigarros Distribuição/ Venda Consumo Fertilizantes/ Pesticidas Processamento Figura 1 – Cadeia do tabaco – do plantio ao consumo Fonte: Souza Cruz, 2013. A compra do tabaco segue a Instrução Normativa Número 10 do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) de abril de 2007 que define as características de identidade, qualidade, embalagem, marcação e apresentação do tabaco em folha curado. Após a compra na indústria, o tabaco classificado é misturado de acordo com as características desejadas pelo cliente final. O processamento tem por objetivo a separação do talo e folha de tabaco assim como sua classificação granulométrica entre resíduo e tabaco. Após um período de armazenagem, este tabaco e os resíduos do processamento são novamente misturados na proporção desejada para a composição do cigarro. Este por sua vez, é distribuído e vendido ao consumidor. 2.1.1 Produção do tabaco A planta ou o pé de tabaco cresce a partir da semente, que é germinada, em maio, em bandejas sob um leito de água, sistema de “floating”. Quando a planta atinge cerca de 15 cm de altura, é transplantada para o local definitivo de crescimento, entre agosto e setembro. A altura final de uma planta madura é atingida em cerca de 60 dias após o transplante e geralmente está entre 1,2 m e 1,8 m. Durante o processo de crescimento a flor é removida para a produção de folhas maiores, com mais peso e de melhor qualidade. As folhas de tabaco podem ser colhidas folha a folha, da posição mais baixa para a mais alta no pé ou todo o pé de uma vez. Após a colheita a folha deve ser pendurada 18 permitindo que murche e morra lentamente em condições úmidas permitindo que a clorofila verde seja quebrada, neste passo a folha passa do verde ao amarelo e/ou marrom. Este processo leva algumas semanas. Após essa etapa de cura, a folha é envelhecida e suas enzimas naturais se transformam tornando-a fumável. O processo de envelhecimento pode ser encurtado até cerca de um mês, utilizando calor e umidade controlada (em estufas). Cada planta poderá produzir entre 100 e 200 cigarros, a variação dependerá do tipo de tabaco. A posição da folha no pé define suas características químicas e organolépticas (FTT, 2013; Deser, 2010). As folhas colhidas na lavoura são curadas enquanto o caule principal do pé de tabaco é deixado na lavoura (Alkipnar, 2010). Diferentes variedades de tabaco apresentam variações nos teores de nicotina e açúcares, esta diferença está relacionada com fatores genéticos, práticas agrícolas, fertilização, condições climáticas, entre outras (Leffingwell, 2001). 2.1.2 Resíduos da cultura do tabaco A cultura do tabaco é bastante produtiva em relação aos seus resíduos, ou seja, praticamente toda a folha é convertida em um material de utilidade na fabricação de cigarros, charutos e seus derivados. Os resíduos vegetais podem ser divididos quanto a geração em dois tipos na lavoura e na indústria. Na lavoura, os resíduos são o caule e as raízes do pé de tabaco. A destruição dos restos de cultura (raízes e caule) da lavoura é uma prática cultural executada para evitar proliferação de doenças (Collins, 1993; Todd, 1981). Não serão discutidos neste trabalho os resíduos de embalagens de agrotóxicos e demais materiais utilizados na lavoura que devem seguir legislação adequada. 19 100.0 % 23.5 % 1.3 % Tabaco Talo resíduos de lâmina 8.5 % Resíduos não aproveitáveis 0.7 % 66.0 % Perdas não contabilizadas Folha de tabaco Figura 2 – Distribuição dos Resíduos de tabaco na indústria. Adaptado de relatório interno da indústria de tabaco da safra de 2012 Na indústria praticamente toda folha de tabaco curado é convertido em um material aproveitável na produção de cigarros. A Figura 2 mostra que 90,8% do material recebido pela indústria é convertido em material utilizável na produção de cigarros (66% é lâmina, 23,5% é talo e 1,3% é resíduos de lâmina), 9,2% são resíduos não aproveitáveis, dentre eles estão areia e pó. 2.2 Produção de bioetanol no Brasil Os combustíveis fósseis podem ser substituídos por combustíveis de biomassa renováveis como o bioetanol, biodiesel, biohidrogênio, etc. oriundos de cana-deaçúcar, oleaginosas, gramíneas, algas, etc. Vários países desenvolveram políticas com o objetivo de aumentar a utilização de biomassa para atingir demandas futuras de energia e níveis de redução de dióxido de carbono estipulados no Protocolo de Kyoto. Neste sentido o etanol é um dos principais e já desenvolvido combustível (Sarkar, 2012). O bioetanol pode ser produzido de qualquer polissacarídeo que contenha açúcares ou amidos, mesmo que em estruturas associadas. A Figura 3 mostra opções de biomassas para a produção de bioetanol. 20 Biomassa açucarada (Cana e beterraba) Extração por pressão ou difusão Biomassa amilácea (Milho, trigo, mandioca) Biomassa celulósica (em desenvolvimento) Trituração Trituração Hidrólise enzimática Hidrólise ácida ou enzimática Solução açucarada fermentável Fermentação Destilação Etanol Figura 3 – Rotas tecnológicas para produção de etanol de biomassa Fonte: CGEE, 2008 Materiais amiláceos (milho, trigo) produzem bioetanol a partir da separação, limpeza e moagem do grão. A etapa de moagem pode ser úmida ou seca, na primeira, o grão é embebido e fraccionado antes da reação de conversão de sacarificação (conversão do amido em açúcares menores). Na segunda, moagem seca, a reação é feita durante o processo de moagem. A sacarificação é realizada em ambos os processos por enzimas a altas temperaturas. A fermentação dos açúcares por leveduras deve ser destilada para purificar o bioetanol (CGEE, 2008). A produção em larga escala de bioetanol utiliza o açúcar da cana-de-açúcar no Brasil e o amido do milho nos Estados Unidos. Em vários países, incluindo o Brasil, existem alternativas para o uso de outras matérias-primas. Como, por exemplo, na China (terceiro maior produtor mundial de biocombustível) onde utiliza-se mandioca, batata doce e sorgo e na Índia, o melaço de cana (GRFA, 2014). A utilização de resíduos agrícolas lignocelulósicos que não concorrem com a alimentação humana, conforme os citados acima, poderia atingir a produção de 491 bilhões de litros de bioetanol por ano. Esta quantidade é cerca de 16 vezes a produção mundial de 2004 (Kim, 2004). As maiores variedades de biomassa disponíveis são: palha de arroz (El-Tayeb, 2012), palha de trigo (Saha, 2013; Salvachúa, 2011; Talebnia, 2010), palha de milho (Saha, 2013) e bagaço de cana-de-açúcar (Rocha, 2011). Alguns estudos apresentam 21 fontes alternativas como o caule da planta do café (Triana, 2010), serragem (Kim, 2013), resíduos de jornal (Park, 2010), entre outros. A composição de cada biomassa varia entre os diversos estudos, em função de origens de cada matéria-prima, composição e estrutura. As matérias-primas lignocelulósicas são complexos polímeros de carboidratos de celulose, hemicelulose e lignina, onde a celulose e a hemicelulose compreendem aproximadamente 60% da sua composição (Limayem, 2012). 2.3 Etanol Lignocelulósico A principal estrutura polimérica das fibras celulares utilizadas para bioetanol é a celulose. A celulose é um polímero linear e cristalino, formado por repetidas unidades de glicose unidas por ligações β-D-1-4 glicosídicas (Figura 4). Figura 4 – Fórmula estrutural da celulose Fonte: Adaptado de Morais, 2005 A hemicelulose é a parte amorfa da parede celular, caracterizado por um polímero curto e muito ramificado, formado por D-xilose, D-arabinose, D-glicose, D-galactose e D-manose. Esta variedade de polímeros de açúcar agrega complexidade à parede celular e requer quantidade excessiva de enzimas para a conversão em açúcares 22 fermentescíveis. Além disso, xilo-oligossacarídeos produzidos pela hidrólise da hemicelulose podem ser inibidores da ação de enzimas celulases (Limayem, 2012). O terceiro componente lignocelulósico é a lignina, um polímero aromático tridimensional de p-hidroxifenil propenila, hidrofóbico e fortemente vinculado aos dois carboidratos (celulose e hemicelulose), por ligações covalentes e hidrogeniônicas, tornando a estrutura robusta e resistente a ataques microbianos (Sarkar, 2012). A estrutura do material lignocelulósico pode ser observado na Figura 5. Figura 5 – Mostra uma estrutura esquemática da composição molecular de materiais lignocelulósicos. Diagrama adaptado de UCANR, 2013 e Vancov, 2008 A lignina está presente em todas as biomassas lignocelulósicas, com isso toda produção de bioetanol terá lignina como um resíduo. A lignina, pela sua composição, encrusta as paredes celulares e une as células, possibilitando que somente alguns organismos sejam capazes de degradá-la. A lignina quando degradada produz 23 somente alguns produtos de valor comercial como ácidos orgânicos, fenóis, entre outros, estes subprodutos podem aumentar a competitividade da produção de etanol (Hamelinck, 2005). A combinação de lignina e hemicelulose forma um invólucro protetivo em torno da celulose. Esta proteção deve ser modificada ou removida para uma eficiente hidrólise da celulose. Após a hidrólise da celulose e hemicelulose, o processo de produção de bioetanol é seguido por fermentação dos açúcares em álcool e purificação (Alvira, 2009, El-Zawawy, 2011). Resíduos lignocelulósicos (tabela 2) são materiais recalcitrantes que requerem árduo trabalho e altos custos de processamento para liberar a celulose, fonte de açúcar fermentável. O reagente utilizado na decomposição ácida ou a levedura utilizada na decomposição enzimática dos resíduos lignocelulósicos deve considerar que D-xilose é um dos componentes principais da hemicelulose, pois a maioria das leveduras converte somente hexoses, como glicose (Limayem, 2012; Hamelinck, 2005). Segundo Limayem e Ricke (2012), os percentuais de cada componente variam entre os estudos, em função de origens de cada matéria-prima, práticas agrícolas e fertilização. O percentual de celulose e hemicelulose do caule do tabaco (Tabela 2) é comparável com os percentuais médios da cana-de-açúcar e sugerem que o mesmo pode ser uma fonte alternativa para a produção de bioetanol, outra importante característica deste material é o menor teor de lignina quando comparado com bagaço de cana-de-açúcar. 24 Tabela 2 - Composição química de algumas biomassas utilizadas como fonte para obtenção de bioetanol Celulose Hemicelulose Lignina Proteína Cinza Outros (%) (%) (%) (%) (%) (%) Palha de arroz 32 - 47 19 – 27 5 – 24 - 12,4 - Palha de Trigo 35 – 45 20 – 30 8 – 15 3,1 10,1 - Palha de Milho 42,6 21,3 8,2 5,1 4,3 - 18,4 3 2,4 - Substrato Bagaço de Canade-açúcar Caule do Tabaco sem tratamento 65 (total de carboidratos) 35,7 21,8 14,1 - - 17,5 68,3 6,3 11,4 - - 10,7 Caule do Tabaco pre-tratado com oxidação úmida (porção sólida) Fonte: Sarkar, 2012; Martín, 2008 Portanto, as ligações entre a lignina e hemicelulose devem ser modificadas ou removidas antes da hidrólise da celulose para um processo eficiente de produção de bioetanol. Com isso, resíduos lignocelulósicos para produção de bioetanol requerem 3 etapas: pré-tratamento (1) para a delignificação e hidrólise da hemicelulose, tornando a celulose disponível para a hidrólise enzimática. Uma segunda etapa (2) que visa hidrolisar estas substâncias em açúcares fermentescíveis e por fim, a fermentação (3) dos açúcares em etanol. 2.4 Etapas da produção de bioetanol de material lignocelulósico Biomassa lignocelulósica pode ser transformada em etanol por dois diferentes tipos de processos: conversão bioquímica e termoquímica. Ambos os processos de conversão consideram a degradação da parede celular em lignina, hemicelulose e celulose. Estes polissacarídeos são hidrolisados em açúcares e após convertidos em etanol (Limayem, 2012). 25 A figura 6 mostra um processo simplificado de produção de bioetanol integrado à produção de energia. Biomassa Pretratamento Hidrólise Enzimática Etanol Fermentação Purificação Resíduo líquido Resíduos sólidos Geração de Energia Eletricidade Figura 6 – Etapas do processo de produção de bioetanol de biomassa FONTE: Adaptado de Hamelinck, 2004 Dependendo do tipo de material utilizado para a produção de bioetanol, será definido o tratamento mais adequado. Resumidamente, são três as operações unitárias que formarão o bioetanol. A primeira etapa consiste da redução do tamanho e pré-tratamento, que torna a hidrólise do material lignocelulósico possível, após o pré-tratamento ocorre a hidrólise enzimática ou ácida, que libera os açúcares para a etapa subsequente de fermentação por leveduras ou bactérias. Após a fermentação, o etanol produzido deve ser concentrado por destilação ou filtração (Vancov, 2008). 2.4.1 Pré-tratamento O pré-tratamento é a operação unitária mais importante para a produção de bioetanol de material lignocelulósico, sendo a biomassa lignocelulósica composta basicamente de lignina, hemicelulose e celulose. O pré-tratamento obrigatoriamente, tem que solubilizar e separar um ou mais componentes da biomassa, ou seja, esta etapa do processo deve destruir a cadeia de hemicelulose que liga a lignina e a celulose, reduzindo a cristalinidade da celulose e aumentando a porção amorfa que é a mais suscetível ao ataque enzimático (Yang, 2007). Esta etapa inclui processos físicos, para redução do tamanho da biomassa, e termoquímicos para rompimento do material recalcitrante da biomassa. Assim, a porosidade será aumentada, redistribuindo a lignina e favorecendo a ação das enzimas celulases sobre a celulose e atingindo uma hidrólise efetiva (Harmsen, 2010). 26 Segundo Limayem (2012), o pré-tratamento difere para cada tipo de biomassa. Resíduos agrícolas requerem menos ações termoquímicas do que biomassa lenhosa, pela sua composição menos densa. Um efetivo pré-tratamento deve, segundo Galletti (2011), atingir os seguintes resultados: destruir a estrutura tridimensional da biomassa lignocelulósica, possibilitar altos rendimentos em açúcares e gerar sólidos pre-tratados e digeríveis, evitar a degradação de carboidratos, evitar a formação de subprodutos tóxicos, permitir a recuperação de lignina e a geração de co-produtos, ser efetivo com relação a custos, envolvendo tamanho razoável do reator, com baixo desperdício e baixo consumo energético. O tipo de pré-tratamento a ser utilizado para remover o material recalcitrante da parede celular da biomassa lignocelulósica dependerá do material bruto de onde está sendo extraído. Como diferentes substratos possuem diferentes características físicoquímicas, o pré-tratamento mais adequado dependerá das propriedades da biomassa lignocelulósica. O pré-tratamento terá um impacto significativo nas etapas subsequentes de produção de bioetanol, podendo influenciar na degradação da celulose, na produção de componentes tóxicos e inibidores de levedura, nos requerimentos de energia e agitação além de demanda de tratamento de resíduos líquidos (Alvira, 2009). Pesquisas recentes sobre pré-tratamentos de biomassa lignocelulósica concentraram seus esforços na identificação do primeiro tratamento da biomassa antes da hidrólise enzimática com o objetivo de redução das dosagens de enzimas e diminuição do tempo de conversão (Brodeur, 2010). A tabela 3 mostra alguns métodos de pré-tratamento empregados para diferentes matérias-primas. 27 Tabela 3 – Tipos de pré-tratamento em função da natureza da biomassa Tecnologias de Pre-tratamento Tipo de Pretratamento Físico Moagem Químico Ácido concentrado Ácido diluído Alcalino Físico-Químico Explosão de vapor Explosão de amônia Água quente Oxidação úmida Biológico Fúngico Característica (Harmsen, 2010)(Limayen,2012) (Conde-Mejia,2012) (Binod, 2010) (Wan, 2012) Normalmente a primeira etapa, utilizado para aumentar a area superficial e reduzir a o tamanho das partículas. - Tóxico, corrosivo, formação de inibidores e resíduos. -Técnica simples, baixo consumo de energia térmica. - Afeta mais a hemicelullose com pouco impacto na degradação da lignina(Binod, 2010) Alta eficiência de açúcares totais (Pentoses e hexoses). Eficiente para resíduos agrícolas e lenhosos. Requer condições menos severas de temperaturas e pressões - efetivo com resíduos agrícolas e lenhosos pesados - Alta capacidade de remover hemicelulose - Não efetivo com resíduos de madeiras macias (Pinos e pinhos) Eficiente para resíduos agrícolas, principalmente com palha de milho, não produz co-produtos tóxicos. Não é adequado para biomassas com alto percentual de lignina. Necessita recuperação de amônia - A maior parte da Hemicelulose pode ser dissolvida - Não produz produtos químicos ou inibidores - A carga de sólidos é mediana - baixos rendimentos para madeiras macias (Pinos e Pinho) - A combinação de oxigênio, água, Alta temperatura e alcaloide reduz A formação e inibidores - Alta delignificação e solubilização do material celulósico - Baixa hidrólise dos Oligomeros. - Baixo consumo de energia, baixa taxa de hidrólise, resíduos por degradação. - Maior tempo de tratamento Tipo de Biomassa (Binod, 2010; Ibrahim, 2012; El-Tayeb,2012; Triana, 2011; Corredor, 2011; Rocha, 2011; ElZawawy, 2011; Rabelo, 2009; Chundawat, 2010; Patni, 2013; Martín, 2008; Patel, 2007; Salvachúa, 2011) - Palha de arroz - Palha - Resíduos de beterraba - Talo de café - Farelo de soja - Bagaço de Cana -Palha de arroz - Bagaço de Cana-de-açúcar - Palha de arroz - Sabugo de milho - Farelo de soja - Palha de Milho - Grãos de trigo - Resíduos de laranja e Caule do Tabaco - Palha de trigo Embora todos os pré-tratamentos são capazes de liberar hemicelulose e celulose, alguns ainda são economicamente inviáveis devido a problemas técnicos. Para biomassa lignocelulósica a associação de pré-tratamentos citados na tabela 2 é uma possibilidade (Alvira, 2009). 2.4.1.1 Pré-tratamento ácido O pré-tratamento com ácido utiliza ácidos diluídos ou concentrados. Este método geralmente fornece alta eficiência de conversão em menor tempo (Harmsen, 2010). A concentração do ácido empregada no pré-tratamento varia entre 0,2% e 2,5% (m/m) combinado com elevação da temperatura entre 121ºC e 210ºC. Com isso, o pré-tratamento ácido pode ser dividido em dois grupos: ácido diluído e alta temperatura ou ácido concentrado e baixa temperatura (Alvira, 2009; Hamelinck, 2005; Limayem, 2012). 28 Entre os ácidos empregados no pré-tratamento o ácido sulfúrico é o mais utilizado (tabela 4), entretanto, outros ácidos também apresentam bons resultados como ácido clorídrico, ácido nítrico e ácido fosfórico (Sarkar, 2012). O pré-tratamento com ácido diluído geralmente ocorrem de duas maneiras (Harmsen, 2010): Alta temperatura, maior que 160ºC, e fluxo contínuo para substrato com baixa carga de sólidos, 5 a 10% (m/m). Baixa temperatura, menor que 160ºC, e processo em batelada para substrato com alta carga de sólidos, entre 10 a 40% (m/m). O meio ácido provoca a ruptura das ligações entre os monómeros de açúcar nas cadeias poliméricas da hemiceluloses e celulose. A quebra dessas ligações libera diversos compostos, conforme mostrado na Figura 7, dentre os principais estão: xilose, glicose e arabinose (Aguilar, 2002). Alem disso, no pré-tratamento a ligação éster-éter entre a lignina e hemicelulose é rompida, favorecendo a acessibilidade enzimática na etapa posterior (Chundawat, 2010). O processo de ataque ácido ocorre em duas etapas subsequentes, primeiramente a despolimerização da hemicelulose, especialmente xilose (Hendricks, 2009), a temperatura ambiente, com o objetivo de evitar a formação de componentes furanos e ácidos carboxílicos. Logo após, utilizando-se altas temperaturas, a estrutura cristalina da celulose é degrada facilitando a etapa posterior da hidrólise (Saha, 2005). 29 Tabela 4 – Parâmetros de Pré-tratamento para diferentes biomassas Concentração do ácido Tempo (min) Rotação (rpm) Intervalo de Temperatura (C) Referência 1% v/v 1% w/v H2S04 1% w/v Ácido Acético 10 50 140 - 200 Saha, 2013 10 - 190 Rocha, 2011 ácido sulfúrico 1% m/m 5 misturador 120 - 160 Zheng, 2013 Casca de Arroz ácido sulfúrico 0,3 a 2,4 g/100 ml Oct-50 - 152 Dagnino, 2013 Fibra, palha e sabugo de milho ácido sulfúrico 2% 10 300 140 Eylen, 2011 Caules de Girassol ácido sulfúrico 0,2 - 1,25 % v/v 5 300 139,6 - 210,4 Ruiz, 2013 Serragem Gramínea (Panicum virgatum ) - Grama de crescimento rápido ácido sulfúrico 0,5 - 7% w/v 10 60 160 - 185 Kim, 2013 ácido sulfúrico 1% 0 - 60 200 140 - 180 Shi, 2011 Parte aérea da cana de açúcar ácido sulfúrico 1 - 5% 30, 60 e 90 - - Sindhu, 2011 Palha de Canola Ácido Fosfórico 0,32% 5 - 202 Lópes-Linares, 2013 Cana-de-açúcar Ácido Fosfórico 0,05% - 0,20% m/v 8 - 24 - 144 - 186 Vasconcelos, 2013 Capim Gigante (Miscanthus gigantueus ) Ácido Oxilálico 2 - 8% m/m 10 - 40 - 150 - 190 Scordia, 2013 Biomassa Palha de Milho (10% m/v a 7,4% umidade) Bagaço de Cana (umidade 12%) Polpa de Beterraba sacarina (SBP) Umidade 78% Ácido Ácido Sulfúrico ácido Sulfurico e ácido acético 30 Alguns inibidores de crescimento de micro-organismos podem ser produzidos neste processo. Devido a composição polimérica são formados ácido acético, furfural (oriundo da degradação acentuada da xilose contida na hemicelulose) e 5-hidroxi metil furfural (HMF) (Sarkar, 2012). Figura 7 – Esquema de reações básicas de biomassa lignocelulósica em meio ácido Fonte: Adaptado de Rasmussen, 2014 A hidrólise com ácidos concentrados, como o ácido sulfúrico ou clorídrico, é aplicada pela sua capacidade de degradação da celulose e também não requerem ação enzimática posterior. A vantagem deste método em relação à hidrólise com ácido diluído é o alto rendimento de açúcares, temperaturas mais baixas e a possibilidade de utilizar-se biomassa com qualquer percentual de lignina. A desvantagem é a 31 necessidade de recuperar o ácido para redução dos custos e evitar a corrosão dos equipamentos (Harmsen, 2010). Portanto, o pré-tratamento com ácido diluído predominantemente solubiliza a hemicelulose, quebra a estrutura cristalina das fibras da celulose e solubiliza suavemente a lignina. A porção líquida chamada de hidrolisado é composta de pentoses e hexoses e podem corresponder a 60% do total de açúcares da biomassa lignocelulósica (Vancov, 2008). Em meio ácido, as hemiceluloses amorfas da biomassa lignocelulósica hidrolisam mas rapidamente que a celulose produzindo açúcares solúveis e alguns oligômeros especialmente em condições mais brandas, através da ruptura das ligações xilosídicas e da clivagem de grupos acetil-éster. O invólucro de lignina é degradado através de reações de substituição acompanhadas por reações de condensação que impedem dissolução. Por último, baixas concentrações de ácidos (<1% m/v de ácido sulfúrico ou fosfórico) liberam nutrientes essenciais, como enxofre e fósforo que favorecerão a fermentação (Edem, 2013). 2.4.1.2 Pré-tratamento biológico Este método recebe especial atenção pelo aspecto ambiental positivo quando comparado com outros pré-tratamentos. O baixo consumo energético e as condições operacionais moderadas são as grandes vantagens deste método. Entretanto, a eficiência de hidrólise é baixa, requerendo na maioria das vezes altos tempos de residência (Harmsen, 2010). Neste pré-tratamento, micro-organismos como fungos da podridão branca e fungos da podridão marrom podem ser empregados para degradar a hemicelulose, a lignina e muito pouco a celulose. As enzimas responsáveis pela degradação da lignina são peroxidases e laccases contidas principalmente nos fungos da podridão branca como Phanerochaete chrysosporium, Ceriporia lacerata, Cyathus stercolerus, Ceriporiopsis subvermispora, Pycnoporus cinnarbarinus e Pleurotus ostreaus que apresentam alta eficiência de delignificação (Alvira, 2009). Alguns fungos da podridão branca (Dichomitus squalens, Ceriporiopsis subvermispora, Pleurotus ostrea e Coriolus versicolor) foram testados com solventes orgânicos para simultaneidade da sacarificação e fermentação (Itoh, 2003). 32 Uma vantagem da utilização de micro-organismos no pré-tratamento é mencionada em estudos com produção de bioetanol a partir da palha de trigo, onde ocorre alta degradação da lignina e baixa degradação da celulose, resultando na redução da acidez da biomassa e na concentração de inibidores. Em contrapartida, a desvantagem está associada a baixa taxa de hidrólise obtida quando comparada aos outros métodos. Uma alternativa para pré-tratamento biológico pode ser a utilização de fungos basidiomicetos devido a sua capacidade de delignificar mais rápida e eficientemente materiais lignocelulósicos (Alvira, 2009). Fungos da podridão branca reagem diferentemente de fungos da podridão marrom, enquanto, a degradação da lignina pelos primeiros é altamente oxidativa, podendo envolver oxidantes químicos como oxigênio atômico e radical hidroxila, através de reações de desmetilação com oxidação e clivagem do radical propil na cadeia lateral, os fungos da podridão marrom são capazes de ultrapassar a barreira de lignina, sem modificá-la significativamente, e remover somente celulose e hemicelulose (Wan, 2012). Fungos da podridão marrom podem degradar celulose e hemicelulose, o início desta degradação causa rápida despolimerização destes, onde as hifas do fungo crescem no lúmen celular degradando os polímeros de carboidratos a uma certa distância do ponto de contato (Figura 8). Como a celulose e hemicelulose são despolimerizadas mais rápido os produtos de degradação são consumidos pelos fungos da podridão marrom, isto sugere que este processo não é controlado enzimaticamente. Observa-se também que as menores enzimas celulases são muito grandes para penetrar nos poros das paredes celulares. Uma hipótese é associada a espécies reativas com oxigênio, que seriam responsáveis pelo ataque ao complexo lignocelulósico através do radical hidroxila (-OH), o qual pode ser produzido através da reação de Fenton (Ray, 2010). H2O2 + Fe2+ + H+ H2O + Fe3+ + OH- Equação 1 Outro mecanismo reacional sugerido está associado a ácidos orgânicos e oxálicos segregados pelos fungos da podridão marrom que poderiam reduzir o pH e despolimerizar a celulose e hemicelulose pela hidrólise ácida, contribuindo para o aumento da porosidade da parede celular. Independentemente dos mecanismos 33 sugeridos acima, a difusividade dos componentes extracelulares pode oferecer um benefício para a sacarificação enzimática visando à produção de biocombustíveis (Ray, 2010). Figura 8 – Modelo esquemático de colonização de fungos da podridão marrom Fonte: Ray, 2010 2.4.2 Hidrólise enzimática A hidrólise dos polissacarídeos da biomassa em açúcares fermentescíveis utiliza tecnologias complexas e multifásicas, com base no uso de rotas ácidas e/ou enzimáticas para a separação dos açúcares e remoção da lignina (CGEE, 2008). Algumas vezes, para viabilização econômica, faz-se necessário uma diminuição na severidade do pré-tratamento. Esta redução implicará na diminuição da quantidade 34 de açúcar disponível e por consequência irá requerer maiores quantidades e variedades de enzimas para igual eficiência de produção de açúcar oriundos da celulose e hemicelulose (Alvira, 2010). A hidrólise enzimática é a segunda etapa do processo de produção de bioetanol de materiais lignocelulósicos, envolvendo a decomposição de polímeros da celulose e hemicelulose pelo ataque enzimático. A celulose usualmente contém somente glicanos, enquanto a hemicelulose é formada por vários polímeros como manano, xilano, glicano, galactano e arabinano. Com isso, o produto da hidrólise da celulose será basicamente a glicose, ao passo que a hidrólise da hemicelulose produzirá vários tipos de pentoses e hexoses (Binod, 2010). Esta hidrólise consiste de três etapas: adsorção da enzima celulase na superfície da celulose, produção de açúcares fermentescíveis e dessorção da celulase. (Talebnia, 2010). O principal grupo de enzimas utilizadas nesta hidrólise são as classificadas como celulases. Pela sua capacidade de hidrolisar a celulose, a celulase age numa ação sinérgica de três tipos distintos de enzimas (Figura 9): endoglucanases (EGs) – que hidrolisam as ligações internas β-D-1,4-glucosidica formando oligossacarídeos; exoglucanases – hidrolisam as ligações de oligossacarídeos pela sua extremidade, formando a celobiose; β-glucosidases (BG) hidrolisam celobiose produzindo glicose, também podem romper ligações de oligossacarídeos (Binod, 2011). Celulose Oligossacarídeos Celobiose Glicose Endo-glucanase Exo-glucanase β-glucosidase Figura 9 – Mecanismo de ação da celulase sobre a celulose 35 Fonte: (Binod, 2011). Conforme mostrado na Figura 9, a endo-glucanase ataca a região de baixa cristalinidade na fibra de celulose e cria uma cadeia aberta, abrindo acesso para a exo-glucanase degradar a molécula e produzir celobiose, um dissacarídeo. Assim, a β-glucosidase pode acessar a celobiose e produzir a glicose (Talebnia, 2010). As enzimas podem ser produzidas por fungos como Trichoderma reesei e Aspergillus niger e/ou bactérias como Clostridium cellulovorans. Endo-glucanase, exo-glucanase e β-glucosidase são os três principais grupos de enzimas que atuam sinergicamente. Cellulomonas, Thermonospora, Bacillus, Bacteriodes, Ruminococcus, Erwinia, Acetovibrio, Microbispora, Streptomyces também são capazes de produzir enzima celulase, assim como fungos Penicillium, Fusarium, Phanerochaete, Humícola, Schizophilium sp (Sarkar, 2012). Com o objetivo de aumentar a eficiência da hidrólise enzimática os estudos estão concentrados na otimização do processo de hidrólise e no incremento da atividade da celulase (Sun, 2002). Os principais fatores que afetam a hidrólise enzimática da celulose de biomassa lignocelulósica podem estar associadas à enzima ou ao substrato, ou a uma associação de ambos (Alvira, 2009). Algumas iniciativas de otimizar a sacarificação de resíduos empregando a hidrólise enzimática estão apresentados na tabela 5. O grau de polimerização e a cristalinidade da celulose são fatores importantes para determinar a taxa de hidrólise, mas não os únicos responsáveis por uma boa hidrólise. O pré-tratamento favorece a hidrólise enzimática da biomassa lignocelulósica, mas em alguns casos aumenta o índice de cristalinidade, devido à remoção ou redução da parte amorfa da celulose. Por outro lado, pré-tratamento com pH alto tem menos efeito e até mesmo reduz a cristalinidade da celulose. Muito embora a influência do comprimento da cadeia de glucanos sobre a hidrólise enzimática não seja totalmente conhecida, existe suposição que afete negativamente a mesma (Alvira, 2010). 36 Tabela 5 – Condições de sacarificação por diferentes tipos de biomassa Biomassa Palha de Milho (10% m/v a 7,4% umidade) Bagaço de Cana (umidade 12%) Polpa de Beterraba sacarina (SBP) Umidade 78% Enzima Celulase, xilanase e B-glucosidase Celluclast 1.5 L (65 FPU/mL and 17 IU/mL of b-glucosidase) e Novozym 188 (376 IU/g of b-glucosidase) Celluclast 1.5L - 82 FPU Novozyme 188 - 330 cellobiase units [CBU]/mL. Pectinase from Aspergillus aculeatus (Pectinex Ultra SPL) 9500 polygalacturonase units of activity (PGU)/mL. Tempo (h) Temperatura (C) 72 45 72 - 72 50 48 50 48 50 Fibra, palha e sabugo de milho Cellic CTec2 - (117 mg ´protein/ml) Caules de Girassol 72 50 Celluclast 1.5 L - 15 FPU ß-glucosidase - 15 UI/g de solido pretratado Serragem 48 50 72 50 Celluclast 1.5 L - 30 FPU Novozyme 188 - 70 pNPG/g de enzima de celulose Gramíneas (Panicum virgatum ) Grama de crescimento rápido CP cellulase - 82 mg proteína/ml, specific activity 0.76 FPU/mg Novozyme 188 - b-glucosidase - 67 mg proteína/ml, specific activity 9.93 CBU/mg) Razão 1:2 Parte Aérea da cana de açúcar cellulase comercial - 60 FPU/g boimassa pre-tratada Tween-80 (Surfactante) - 0,1% w/w Solução Antibiotica (Peniciliun Strreptomycin cocktail) - 200 microl rotação (rpm) 5 Casca de Arroz Endoglucanases (NS 50013 Product) and cellobiases (NS 50010 Product) were provided by Novozymes S.A pH 48 50 135 5 (Com Tampão Acetato) 4,8 (Com solução tampão de citrato de sódio 0,5 M) 4,8 (Com tampão Acetato de Sódio) 5 (Com Hidróxido de sódio 10 M) 4,8 (com solução tampão de citrato de Sódio 0,05M) 4,8 (com solução tampão de Citrato de Sódio 0,1 M) 4,8 (com solução tampão de Citrato de sódio 0,05 M) 4,8 (com solução tampão de Citrato de sódio 0,1 M) Concentração Enzimática celulase - 15 FPU B-glucosidase 9 U/ g glucano xylanase 1578 U/ g hemicelulose Biomassa lavada- 10 g Celliclast 1.5L - 2,32 g Novozym 188 - 0,52 g 2% (W/W) 140 450 40 FPU/g de celulose relação entre endoglucanase e celobiose 10:1 Observação Razão Sólido:Líquido 1:10 1 1.5:10 76% Conversão Azida Sódica (0,3% v/m) para evitar contaminação microbiológica Excesso de enzima para evitar falta de material Referência Saha, 2013 Rocha, 2011 Zheng, 2013 Dagnino, 2013 0,5 % proteína Base seca 15 FPU/g de solidos Eylen, 2011 5% m/v de material pre-tratado 150 Ruiz, 2013 15 a 45 FPU/g de celulose 120 - - - Kim, 2013 - Shi, 2011 7% m/m biomassa 120 - Sindhu, 2011 37 Além disso, sendo a celulose formada por moléculas de glicose, com seis carbonos, e a hemicelulose por uma cadeia principal de xilose, com ligações β1-4 e ramificações de manose, arabinose, galactose, ácido glicurônico, etc; a hemicelulose é mais facilmente hidrolisável. Em contrapartida, a lignina é um polímero complexo composto por grupos metoxi e fenilpropânicos, que enrijecem e mantém as células unidas. Devido a isso, após o pré-tratamento a enzima ainda poderá ter dificuldade de acessar a celulose durante a hidrólise enzimática, consequentemente reduzindo a eficiência de produção de hexoses (CGEE, 2008). Segundo Kumar (2009), pré-tratamentos que removem xilano de resíduos sólidos produzem melhores graus de despolimerização enzimática que os que removem lignina. A lignina faz uma ligação com a celulose, formando uma ligação não produtiva, algumas alternativas podem ser aplicadas para desfazer esta ligação como a adição de aditivos alcalinos, proteicos ou polietilenoglicol (Zhang, 2004). A ligação considerada não produtiva entre enzimas e lignina é também influenciada pela natureza do substrato. Enquanto várias celulases são inibidas pela lignina, as xilanases e glucosidases são menos afetadas (Berlin, 2006). Conforme apresentado anteriormente, a remoção de hemicelulose durante o prétratamento aumenta a porosidade do substrato e facilita o acesso à celulose e por consequência sua hidrólise. No entanto, o grau de acetilação da hemicelulose é também um fator importante para o acesso da enzima a celulose porque a lignina e grupos acetil estão ligados à matriz da hemicelulose e dificultam a hidrólise (Alvira, 2010). Com isso, a taxa de reação de hidrólise está diretamente relacionada com o tipo de substrato e com a proporção entre substrato e solução de enzima (Taherzadeh, 2007). Assim, a susceptibilidade do substrato celulósico à celulase depende das características estruturais do mesmo e está relacionada, conforme mencionado anteriormente com a cristalinidade da celulose, grau de polimerização, área superficial e conteúdo de lignina (Sun, 2002). Por outro lado, o aumento da dosagem de celulase ao mesmo tempo em que aumenta a eficiência da hidrólise, aumenta o custo de produção. A dosagem de celulase de 10 FPU por grama de celulose é frequentemente aplicada em escala 38 laboratorial por produzir alta eficiência entre 48 e 72 horas. Normalmente a dosagem de celulase varia entre 7 e 33 FPU por grama de substrato (Sun, 2002). Para melhorar a atividade da enzima, o uso de surfactante no meio é uma opção, pois a atividade da celulase diminui durante a hidrólise pela adsorção irreversível da celulase sobre a celulose. A adição de surfactantes pode modificar a superfície da celulose e assim, minimizar a ligação da celulase sobre a celulose. Surfactantes nãoiônicos foram observados como mais eficientes para incremento da eficiência da hidrólise (Talebnia, 2010). A inibição da ação da celulase também ocorre pela presença de celobiose (polímero linear do dímero glicose-glicose) e de glicose. Alternativas para reduzir o efeito inibidor estão relacionadas com o aumento da concentração de enzimas, introduzindo a β-glucosidase durante a hidrólise e da remoção de açúcares por ultrafiltração ou sacarificação e fermentação simultâneos (Binod, 2011 – Livro Biofuels). A sacarificação e fermentação simultâneas frequentemente utilizam fungos T. reesei e leveduras S. cerevisiae em condições intermediárias entre a hidrólise (45 a 50ºC) e a fermentação (30ºC). Com o objetivo de aumentar a hidrólise, leveduras termotolerantes têm sido utilizadas para poder aproximar-se das condições ótimas de hidrólise. Aumento da taxa de hidrólise, redução de tempo de processo são as principais vantagens da execução da sacarificação e fermentação simultâneas Desvantagens estão relacionadas com a inibição da ação da celulase pela produção de etanol, diferenças de temperatura ótimas entre hidrólise e fermentação e uso de micro-organismos intolerantes ao bioetanol (Sun, 2002). A maioria das enzimas celulases terão sua atividade otimizada em condições de temperatura entre 45 e 55C e pH entre 4 e 5 (Talebnia, 2010). Em resumo vários fatores influenciam a produção de monômeros de açúcar de biomassa lignocelulósica, entre eles: temperatura, pH, taxa de homogeneização, concentração e tipo de substrato, carga de enzimas celulases e adição de surfactante (Sarkar, 2012). 2.4.3 Fermentação As etapas anteriores de pré-tratamento e hidrólise ocorrem para aperfeiçoar o processo de fermentação. Este processo natural requer determinadas condições e 39 presença de micro-organismos específicos para fermentar açúcar resultando em álcool, ácido lático e outros produtos (Limayem, 2012). Considerando a estequiometria reacional da fermentação de açúcares com seis carbonos e que a máxima eficiência de conversão é 0,51 kg de etanol por kg de açúcar tem-se as equações (2) e (3) (Polycarpou, 2009). 3C5H10O5 5C2H5OH + 5 CO2 Equação (2) C6H12O6 2C2H5OH + 2 CO2 Equação (3) Todos os micro-organismos possuem limitações para processar concomitantemente pentoses (C5) e hexoses (C6), pela baixa produção de etanol ou pelo alto custo. Além disso, a necessidade de condições livres de oxigênio lentamente diminui a população dos micro-organismos. A engenharia genética e novas tecnologias de seleção de bactérias e leveduras possibilitaram a produção de microorganismos capazes de fermentar glicoses e xiloses (Hamelinck, 2005). Os melhores micro-organismos para fermentação de hexoses são a levedura Saccharomyces cerevisiae e a bactéria Zymomonas mobilis, que podem atingir uma eficiência de fermentação de 90 a 97% do teórico. Eficiências maiores podem ser obtidas com cepas nativas de Saccharomyces cerevisiae, com a desvantagem que cepas nativas não possuem capacidade de fermentar xiloses, que é o principal açúcar, com cinco carbonos, derivados da hidrólise da hemicelulose (Talebnia, 2010). A fermentação de hexoses em etanol pela levedura S. cerevisiae, principalmente glicose, em etanol, utiliza a via Embden-Meyerhof sob condições anaeróbicas e temperatura controlada. A fermentação à base de levedura é sempre acompanhada pela formação de CO2 como subproduto e suplementada por nitrogênio para acelerar a reação. Esta cepa convencional é ótima a uma temperatura de aproximadamente 30ºC e resiste a pH baixos (4,0) e produtos inibidores (Limayem, 2012). A via de Embden-Meyerhof, mostrada na Figura 10, é a mais familiar para bioquímicos e biólogos, bem como, cervejeiros e panificadores, operada pela Saccharomyces para a produção de etanol e gás carbônico. Esta via de fermentação produz 2 moles de produto final (álcool) e 2 moles de ATP por 1 mol de glicose. A conversão de ácido pirúvico em etanol e recuperação de NADH2 requer a ação de duas enzimas, primeiramente ocorre a descarboxilação para acetaldeído (piruvato 40 descarboxilase) e posteriormente o acetaldeído é oxidado a etanol (álcool desidrogenase). Parede Celular Glicose Frutose di-fosfato 2 ATP 2 ADP 2 ácido fosfoglicérico 2 ADP 2 triose fosfato 2 NADH2 2 ácido piruvico 2 ATP 2 NAD 2 álcool Aceto-aldeído 2 gás carbônico Figura 10– Processo de fermentação – via de Embden-Meyerhof Fonte: adaptado de Olofsson, 2008 A fermentação alcoólica permite que as células produzam ATP através da fosforilação, entretanto provoca acumulação de produtos tóxicos, etanol, que reduzirão a atividade celular com o aumento da concentração (OLOFSSON, 2008). 2.4.3.1 Equipamentos para Hidrólise e Fermentação O processo de fermentação de biomassa lignocelulósica hidrolisada, normalmente considera ou a sacarificação e fermentação simultâneas, chamado SSF (Simultaneous Saccharification and Fermentation), ou subsequentes, chamada de SHF (Separate Hidrolysis and Fermentation) (Sarkar, 2012). A vantagem do processo em separado é possibilitar que a hidrólise (45 e 50C) e a fermentação (30 e 37C) ocorram em condições ideais. A desvantagem está relacionada com a liberação de inibidores como açúcares e celobiose. Com uma concentração de 6 g L-1 de celobiose a atividade da celulase diminui 60%, a glicose possui uma inibição mais branda para a celulase. Contudo, a celulose é um forte inibidor da β-glicosidase. Com concentração de 3 g L-1 de glicose, a atividade da βglicosidase é diminuída em 75%. A longa duração da hidrólise neste método aliado a baixa concentração de açúcar pode produzir crescimento microbiológico. Uma fonte de contaminação pode ser a própria enzima, que se esterilizada em autoclave torna41 se inativa e se filtrada o processo torna-se economicamente inviável em larga escala (Taherzadeh, 2007). A simultaneidade da hidrólise e fermentação (Figura 11) reduz custos de investimentos além de apresentar maior eficiência de produção e etanol que o SHF pela redução da geração de inibidores. Comparativamente com o SHF, o método de hidrólise e fermentação simultâneas apresentará dificuldades relacionadas com as temperaturas ótimas para cada processo. Esta dificuldade poderá ser superada pela utilização de micro-organismos termotolerantes para a fermentação, como por exemplo: Kluyveromyces marxianus, Candida lusitaniae e Zymomonas mobilis ou a mistura de culturas de alguns micro-organismos como: Brettanomyces clausenii e Saccharomyces cerevisiae (Binod, 2010). Micro-organismos de Fermentação de Hexoses Reator SSF Nutrientes e antiespumante CO2 (Para lavador de gases) Sólido Pre-tratado Enzima Celulase Entrada de Água Gelada Saída de Água Gelada Resíduo Sólido (Principalmente Lignina) Para Destilação do Etanol Centrífuga Figura 11– Processo de sacarificação e fermentação simultâneos visando a produção de etanol (SSF) Fonte: adaptado de Taherzadeh, 2007 Neste método, a glicose é hidrolisada por enzimas e consumida imediatamente pelos micro-organismos responsáveis pela fermentação contidos na cultura. Com isso, a baixa concentração de açúcares evita a inibição da ação enzimática, 42 produzindo uma maior eficiência de produção de bioetanol e menor quantidade de enzimas requeridas (Talebnia, 2010). Um inibidor que surge neste método é o próprio etanol, que em concentração de 30 g L-1 reduz 25% a atividade enzimática. Mesmo assim, SSF é preferido para estudos laboratoriais e em escala piloto (Taherzadeh, 2007). Uma variante para o processo SSF é a utilização da Hidrólise (Sacarificação) e Fermentação Simultâneas com diferentes temperaturas. Neste processo, a sacarificação e a fermentação ocorrem simultaneamente em reatores diferentes e em temperaturas diferentes (Figura 12). Figura 12 – Processo de sacarificação e fermentação simultâneos com diferentes temperaturas Fonte: adaptado de Taherzadeh,M. 2007 A biomassa é retida no reator de hidrólise após o pré-tratamento e hidrolisado a temperatura ideal para a ação enzimática (por exemplo 50C). O efluente é recirculado para um reator de fermentação a temperatura ótima (por exemplo 30C) para a levedura, o aumento de 20C aumenta a atividade da celulase de 2 a 3 vezes quando comparado com o SSF e reduz a necessidade de enzimas em até 40%, melhora a produtividade de bioetanol e reduz o tempo significativamente de 4 dias no SSF para 40 horas (Taherzadeh, 2007). 43 2.4.4 Separação ou Destilação Após a hidrólise e fermentação o bioetanol obtido necessita ser separado e purificado do líquido. Destilação fracionada é o processo utilizado para separar o etanol da água pelos diferentes pontos de ebulição. A concentração do etanol neste processo pode chegar a 95%. Processos industriais de purificação utilizam colunas de destilação contínuas de vários estágios (Limayem, 2012). Outros métodos de separação podem ser considerados para remoção contínua do etanol: Remoção com vácuo – uma câmara de vácuo é acoplada ao tanque de fermentação e o etanol mais volátil é removido; Remoção com corrente de gás (dióxido de carbono) – parte do caldo da fermentação passa por uma coluna de separação em contra-corrente com o dióxido de carbono que removerá o etanol, condensando-o posteriormente; Remoção por membranas – utilizando-se membranas cerâmicas para separar o etanol da biomassa fermentada (somente para escala laboratorial); extração com líquido- um solvente passa pelo tanque de fermentação e extrai o etanol, para posterior ser decantado separadamente (Cardona, 2007). 44 3. METODOLOGIA 3.1 Delineamento experimental A metodologia de pré-tratamnento e hidrólise foi definida a partir de estudos realizados com outros matérias lignocelulósicos (Kim, 2013; Rocha, 2011; Saha, 2013; Vancov, 2008; Vasconcelos, 2013) e outros realizados com o próprio caule do tabaco como fonte de celulose para a indústria papeleira (Shakhes, 2011; Gao, 2011), como fonte de lipídeos (Andrianov, 2009), com pré-tratamento alcalino de caule de tabaco oriental para a produção de oligossacarídeos (Akpinar, 2010) ou oxidação úmida (Martin, 2008). A metodologia empregada neste estudo foi dividida em duas etapas, conforme se pode observar na figura 13. A primeira etapa do experimento consistiu na coleta de amostra de uma plantação experimental na Expoagro AFUBRA, no município de Rio Pardo, estado do Rio Grande do Sul, Brasil, onde após colheita das folhas de tabaco, o caule central foi cortado aleatoriamente. O registro fotográfico está no Anexo 1. A amostra de caule de tabaco foi processada em escala laboratorial. Com os dados obtidos durante esta etapa, iniciou-se a segunda etapa de caracterização do equipamento. Coleta da Amostra Preparação Amostra Pre-tratamento ácido Hidrólise Enzimática Caracterização do Equipamento piloto Fermentação Figura 13 – Fluxograma da Metodologia 45 O caule do tabaco colhido do campo, após fragmentação grosseira foi seco a 50ºC em estufa, e moído em moinho de facas com tela de 10 mm. Um segundo processo de moagem foi realizado em outro moinho de facas porém com tela 20 mesh. Após a moagem secundária, a amostra foi peneirada entre 20 e 80 mesh. Este material foi armazenado para ser utilizado nas etapas subsequentes de tratamento. A figura 14 mostra um detalhamento das etapas de produção experimental de etanol a partir do caule do tabaco. 10 g Ácido Caule Moído Tempo e Concentração variável Pre-tratamento 90 ml Filtração Fase Líquida Ajuste pH Análise Química NaOH (10%) até pH entre 4 e 7 Glicose, Xilose, Arabnose Fase Sólida Melhores relações Concentração de ácido e tempo Enzima Hidrólise Enzimática Buffer (controlar pH) Fase Sólida Melhor relação Enzima e açúcares Levedura Análise Química Açúcares Totais Glicose, Análise Química Etanol, açúcares totais Tipos de Enzimas e tempo de reação. Descartada Fermentação Separação Figura 14 – Fluxograma simplificado das etapas de produção experimental de bioetanol e análises de açúcares 3.2 Reagentes e enzimas Ácido Sulfúrico - O ácido sulfúrico utilizado foi da Marca Synth, com validade até 23/04/2017 e concentração de 95-98%. As soluções ácidas seguiram a diluição da tabela 6. 46 Tabela 6 – Soluções ácidas Volume H2SO4 p.a. Volume H2O (mL) (mL) H2SO4 – 1% 6 594 H2SO4 – 2% 6 294 H2SO4 – 3% 18 582 Solução ácida Enzimas – Cellic CTec 2, batch VCNI0013 e Cellic HTEC2, batch VHN00003 fornecidas por Novozymes ambas oriundas de cepas de Trichoderma reesei. Ambas enzimas com concentração de 0,11 FPU por L. Solução de DNS – a solução derivatizante utilizou 2 g de ácido 3,5-dinitrossalicílico e 60 g de tartarato de sódio e potássio (Sal de Rochelle) diluído em 80 mL de hidróxido de sódio 0,5 mol L-1. Solução ácido para-aminobenzóico – concentração de 0,35 mol L-1 em DMSO/ácido acético (70/30 v/v). 3.3 Geração de Caule A quantidade gerada do caule de tabaco durante a safra depende de região para região em função de práticas agrícolas, características de solo e, sobretudo, rendimento de tabaco por hectare plantado. Essa quantidade gerada não é registrada pelas entidades que gerenciam a produção de tabaco, uma vez que o mesmo é deixado no campo após a colheita das folhas de tabaco. A metodologia para estimar-se a quantidade de caule de tabaco gerada consistiu da coleta de 50 caules de tabaco em 4 áreas diferentes de uma lavoura de plantação de tabaco de uma empresa fumageira no território nacional. Estes caules foram pesados e secos ao ar por 30 dias para medir-se a umidade. Com o peso médio do caule seco e sabendo-se que em média um produtor de tabaco na região sul do Brasil planta 14.000 pés de tabaco por hectare (Mendes, 2014), podemos estimar com a área plantada a quantidade de caule gerada na região sul do país. 47 3.4 Pre-tratamento ácido O pré-tratamento com ácido sulfúrico foi otimizado para definir as melhores condições reacionais para a produção de açúcares. A definição das condições para o pré-tratamento ácido basearam-se na amplitude apresentada pela bibliografia descrita no capítulo 2.4.1.1 – Pre-tratamento. As variáveis testadas estão organizadas em um planejamento fatorial 22, apresentado na tabela 7. Tabela 7 – Condições do experimento de otimização do pré-tratamento ácido do caule de tabaco Experimento Concentração H2SO4 (% m/m) Tempo (min) 1 + 3,0 + 90 2 - 1,0 + 90 3 + 3,0 - 30 4 - 1,0 - 30 5 +/- 2,0 +/- 60 Com isso, a concentração do ácido utilizada nos experimentos foi de 1% (-), 3%(+) e 2% (+/-), e o tempo do pré-tratamento de 30(-), 90(+) e 60(+/-) minutos. Todas as condições foram testadas em triplicata. Amostras de caule de tabaco foram tratadas com solução ácida a 10% m/v em um recipiente de vidro borossilicato resistente a altas temperaturas, em autoclave a 121C pelo período correspondente a cada experimento. Após a conclusão do prétratamento as amostras foram filtradas e o sólido pesado. Com o objetivo de mensurar a diferença de eficiência entre as cinco condições de pré-tratamento, analisou-se a concentração de arabinose/xilose e glicose na parte líquida, conforme descrito na seção 3.7.2. Para análise da eficiência do pré-tratamento (EPA) empregou-se a equação 4, adaptada de Unhasirikul, Naranong e Narkrugsa (2012). Nesta equação avalia-se a redução de massa da biomassa após hidrólise da hemicelulose pelo pré-tratamento 48 ácido, com isso, a eficiência do pré-tratamento será diretamente relacionada com o valor de EPA. 𝐸𝑃𝐴( %) = MC𝑇𝑎𝑝𝑎 −MC𝑇𝑝𝑝𝑎 MC𝑇𝑎𝑝𝑎 ∗ 100 Equação (4) EPA é Eficiência do Pré-tratamento Ácido, MCTapa é a massa do caule de tabaco antes do pré-tratamento ácido e MCTppa a massa do caule de tabaco posterior ao pré-tratamento ácido. Outro parâmetro de avaliação de eficiência do pré-tratamento é a relação entre concentração de arabinose/xilose e glicose na parte líquida, onde quanto maior a relação mais eficiente foi o pré-tratamento, assim o ácido hidrolisou a hemicelulose e não a celulose. 3.5 Hidrólise Enzimática Na sequência deste processo, os solutos selecionados na etapa anterior pelas melhores eficiências reacionais foram inoculados com dois tipos de enzimas para a hidrólise enzimática. As enzimas Cellic CTec2 batelada VCNI0013, uma celulase e a Cellic HTEC2 batelada VHN00003, ambas foram fornecidas pela Novozymes. A tabela 8 mostra um comparativo entre ambas as enzimas. Tabela 8 – Comparação entre as enzimas CTec2 e HTec2 Produto Cellic CTec2 Cellic HTec2 Especificação e - Complexo de Celulase para degradar celulose em açúcar fermentáveis - Uma mistura de celulases agressivas, alto percentual de β-glucosidase e hemicelulase - Alta eficiência de conversão - Eficiente para alta concentração de sólidos - Tolerante a inibidores - Compatível com vários tipos de biomassa e pré-tratamentos - Alta concentração e estabilidade Endoxilanase com alta especificidade para hemicelulose solúvel. - Percentual de Celulase - Pode ser combinada com CTec2 para aumentar hidrólise da celulose - Favorável para substratto com pré-tratamento ácido ou alcalino - Converte hemicelulose em açúcares fermentáveis - 20% menos enzima requerida Descrição Características Benefícios - Até 50% menos de dosagem de enzima Fonte: adaptado de Novozymes 49 As três amostras do material hidrolisado do pré-tratamento das melhores condições reacionais foram misturadas separadamente em quantidades iguais, 3 g de cada, com um auxílio de um misturador (Mixer Black&Decker) em um Becker de 100 mL. Após homogeneização, foram pesadas 0,5 g em um erlenmeyer para hidrólise enzimática. Adicionou-se 10 mL de uma solução de 30 mL de Citrato de sódio 1M e 1090 L de enzima atingindo uma proporção de 40 FPU por amostra. Os ensaios de cada condição de hidrólise foram feitos em triplicata. Os erlenmeyers contendo enzima, solução tampão e biomassa foram incubados numa Incubadora Shaker MA420, marca Marconi a 50ºC, 300 RPM de agitação por 74 horas. Amostras de 0,5 mL foram coletadas durante este período (0, 24, 43, 60 e 74 horas) para análise de açúcares. Para análise da Hidrólise Enzimática ao longo do período, utilizou-se a Eq.5, adaptada de El-Zawawy (2011): 𝑇𝑎𝑥𝑎 𝑑𝑒 𝐻𝑖𝑑𝑟ó𝑙𝑖𝑠𝑒 (𝑚𝑔 𝑚𝐿−1 ℎ−1 ) = 𝐴𝑅𝑇𝑡𝑖 −𝐴𝑅𝑇𝑡𝑖−1 𝑡𝑖 −𝑡𝑖−1 Equação (5) Onde a ARTti é a concentração de açúcares redutores totais no tempo em análise (ti) e ARTti-1 é a concentração de açúcares redutores no período anterior (t i -1). 3.6 Fermentação Para início da fermentação o processo foi desenvolvido a partir das melhores condições de pré-tratamento ácido e hidrólise enzimática. Após a sacarificação da celulose em glicose durante a hidrólise enzimática, a fase líquida foi fermentada com Saccharomyces cerevisiae para produção de álcool. O hidrolisado foi centrifugado e filtrado para separação dos sólidos imiscíveis. Em um erlenmeyer de 125 mL foram adicionados 50 mL do hidrolisado, 0,3g de Fosfato monopotássico 0,15g sulfato de magnésio, 0,75g de extrato de levedura. Esta mistura foi autoclavada a 121oC por 30 minutos. Após resfriamento, adicionou-se ao hidrolisado estéril 0,75g de levedura (Safale S-04, alta fermentação). Esta mistura foi incubada numa incubadora Shaker MA420, marca Marconi a 30ºC, 100 RPM de agitação por 28 horas. Amostras de 2 mL foram coletadas durante este período em intervalos de 1 hora para avaliar-se a concentração de álcool. A fermentação foi conduzida até estabilização da concentração de etanol, relacionada com redução da taxa de produção horária do mesmo. 50 3.7 Determinação de Açúcares Para a identificação das melhores condições reacionais para o experimento foram utilizados dois métodos analíticos com objetivos complementares: Determinação de açúcares redutores totais (ART), pelo método DNS adaptado de Saqib, 2011 e determinação de açúcares específicos (Glicose, Arabinose e xilose) por derivatização por PABA, utilizando método adaptado de Erich, 2012. 3.7.1 Método DNS A determinação de açúcares totais utilizou a metodologia descrita na figura 15, onde o DNS altera sua coloração dependendo da quantidade de açúcares presentes na solução, através da reação de redução do ácido 3,5 dinitrosalicílico (DNS) em ácido 3-amino, 5-nitro salicílico e oxidação do grupo aldeído dos açúcares no respectivo ácido carboxílico. Para tal, a fase líquida neutralizada do pré-tratamento é derivatizada com solução DNS, levada a ebulição e após 5 minutos esfriando, a amostra, em temperatura ambiente e é avolumada a 10 mL para diluição, filtrada e medida a absorbância a 540 nm no espectrofotômetro visível 325-1000 nm v-1200 Pró-Análise. 40 L 40 L Curva Analítica Solução de glicose 2 g L-1 Fase Líquida (Neutralizada) Tubo de ensaio de 4 mL 1 mL Derivatizante (DNS) Ebulição por 5 min Resfriar temperatura ambiente Diluição até 10 mL Espectofotometro Água (540 nm) Açúcares Redutores Totais Figura 15 – Esquema de determinação de açúcares totais pelo método DNS adaptado de Saqib (2011) 51 A solução de glicose a 2 g L-1, descrita na figura 15, foi a base para diversas diluições com o objetivo de estabelecer-se a curva analítica e validar o método. A Figura 16 evidencia a excelente correlação entre concentração de glicose e a absorbância, com R2 = 0,9994. Figura 16 - Curva analítica para a determinação de Açúcares Redutores Totais pelo método DNS 3.7.2 Método PABA Conforme descrito na revisão bibliográfica, a concentração de açúcares totais não é parâmetro suficiente para definir a melhor condição do pré-tratamento, a determinação de alguns dos componentes desta totalidade de açúcares é fundamental para avaliar-se a eficiência do ataque ácido, verificando o alcance de degradação da hemicelulose, e impacto na celulose, além de determinar a eficiência da hidrólise enzimática. Para esta análise utilizou-se uma adaptação do método descrito por Erich (2009). Uma solução de ácido p-aminobenzóico (PABA) como derivatizante e Sulfato de Hidrogênio tetrabutilamônio (TBHSO 4) como fase móvel, sem metano em Cromatógrafo Líquido de Alta Eficiência no UFLC Shimadzu L202346 (Tóquio Japão) com um amostrador automático SIL 10, módulo de controle CBM-20ª, bomba de gradiente LC 20AT, detector de UV SPD-M20A, com comprimento de onda de 303 nm e módulo de degaseificação DGU-20A. Os dados foram coletados através do software LC Solution (Shimadzu) e posteriormente tratados no software OriginPro 8.5. O esquema do método está descrito na Figura 17. 52 500 L Derivatizante (PABA) Eppendorf 2mL 10 mg Fase Líquida (Neutralizada) 50 L NaBH3CN 50 L Aminação Redutiva Solução de glicose - 20 a 120 g L-1 Agitação - Vortex Banho-maria a 60◦C (15 minutos) Resfriar a -4◦C (10 minutos) Deixar estabilizar a temperatura ambiente 400 L Preparação 600 L Fase Móvel B (TBHSO4) CLAE % Glicose; % Arabinose e % Xilose Figura 17 – Análise concentração de Açúcares adaptado de Erich,2012 Após a adição da fase líquida das amostras pré-tratadas em um microtubo de 2mL contendo 500 L de PABA e 10 mg de NABH3CN, esta mistura foi agitada num vortex. A solução permaneceu por 25 minutos em banho-maria antes de ser resfriada a -4ºC por 10 minutos. Uma vez estabilizada a temperatura ambiente, uma alíquota de 400 L foi misturada com 600 L da fase móvel B antes de ser injetada no cromatógrafo. O processo cromatográfico foi realizado a temperatura ambiente (25ºC), com coluna RP-C18 Micropac. A fase móvel A utilizou 20 mmol L-1 de TBAHSO4 em tampão fosfato (0,1 mol L-1, pH 6,5) com metanol (50:50 (v/v)). O pH foi ajustado adicionandose ácido ortofosfórico. A fase móvel B foi confeccionada adicionando-se 20. mmol L-1 de TBHSO4 em um tampão fosfato (0,05 mol L-1, pH 6,5). O ajuste de pH utilizou ácido 53 ortofosfórico. O gradiente de injeção utilizou uma variação de composição entre a Fase A e B que variou de 100% de A nos primeiros 20 minutos, 25% de B e 75% de A nos 7 minutos seguintes e após 100% de A até o final das corridas que forma de 30 minutos. O volume injetado de cada amostra foi 10 μL, o fluxo total da fase móvel 0,8 mL min-1. A detecção foi conduzida entre 210 a 400 nm, posteriormente selecionandose o comprimento de onda em função da seletividade e maior absorbância para o produto de derivatização dos açúcares presentes nas amostras. A curva analítica utilizou diferentes volumes de uma solução de glicose 2 g L-1, conforme demonstrado na Figura 17 com linhas pontilhadas, ou seja, a parte pontilhada do esquema foi utilizada somente para a confecção da curva analítica e a fase líquida neutralizada foi utilizada para análise das concentrações de açúcares nos diferentes experimentos. Figura 18 - Curva analítica para a determinação de glicose por CLAE Devido à proximidade do tempo de retenção entre arabinose e xilose, produzindo picos cromatográficos sobrepostos, os tempos de retenção foram próximos dificultando a determinação das áreas individuais, para este estudo utilizou-se somente a curva analítica de Arabinose para determinação destes açúcares (Arabinose e Xilose) nas amostras neutralizadas. Esta situação foi também evidenciada por He et al (2003) e Kwon e Kim (1993). 54 Figura 19 - Curva analítica para a determinação de arabinose e xilose por CLAE Com isso as equações para determinação das concentrações de açúcares redutores totais (Método DNS), glicose e arabinose (Método PABA), são mostrados abaixo: Método Equação −1 DNS 𝐴𝑅𝑇 (𝑚𝑔 𝐿 ) = 14,493 ∗ 𝐴𝑏𝑠𝑜𝑟𝑏â𝑛𝑐𝑖𝑎 + 0,1014 Equação (5) PABA 𝐶. 𝐺. (𝑚𝑔 𝐿−1 ) = 11,90 ∗ 10−6 ∗ 𝐴𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑜𝑠 𝑝𝑖𝑐𝑜𝑠 (𝑢. 𝑎. ) + 0,0947 Equação (6) PABA 𝐶. 𝐴. (𝑚𝑔 𝐿−1 ) = 1,23 ∗ 10−5 ∗ 𝐴𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑜𝑠 𝑝𝑖𝑐𝑜𝑠 (𝑢. 𝑎. ) + 1,90 Equação (7) Legenda: ART – concentração de açúcares redutores C.G – concentração de glicose C.A. concentração de arabinose e xilose 3.8 Determinação de Etanol A determinação da concentração de etanol durante a fermentação foi realizada através de cromatografia gasosa, em Cromatógrafo Gasoso Shimadzu QP2010 Plus, usando coluna ZB5-ms (60m x 0,25 mm x 0,25 m) com detector de ionização de chama a temperatura de 325/350oC. A curva analítica foi desenvolvida a partir de uma solução de 4,21 g de álcool comercial a 95o avolumada a 100 mL com água padrão mili-Q. Esta solução e outras 3 diluições de 50%, 25% e 12,5% foram analisadas no 55 cromatógrafo sob as mesmas condições citadas anteriormente para confecção da curva analítica (Figura 20). Concentração de Etanol (g . 100 mL-1) 4.50 y = 0.0749x - 0.2143 R² = 0.99 4.00 3.50 3.00 2.50 2.00 1.50 1.00 0.50 0.00 0 10 20 30 Unidade de área x 10 40 50 60 6 Figura 20 - Curva analítica para a determinação de etanol por Cromatografia Gasosa Equação −1 𝐶. 𝐸. (𝑚𝑔 100𝑚𝐿 ) = 0,0789 ∗ 106 ∗ 𝐴𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑜𝑠 𝑝𝑖𝑐𝑜𝑠 (𝑢. 𝑎. ) − 0,2255 Equação (9) Legenda: C.E – concentração de etanol 3.9 Projeto do equipamento piloto A sequência reacional para obtenção de bioetanol de caule do tabaco descrito neste estudo percorre uma série de etapas e condições específicas para rendimento aceitável em escala laboratorial. A partir deste momento estas condições foram avaliadas para propor o projeto de um equipamento capaz de extrapolar as condições laboratoriais em uma escala piloto, além de possibilitar a investigação de biomassas alternativas. Não foi descrito neste estudo equipamento de fragmentação física da biomassa como moinho. Considera-se para fins de projeto do reator que a biomassa já está pronta para pré-tratamento. A primeira etapa no dimensionamento do equipamento tratou de definir se o processo seria contínuo ou em batelada. Segundo Degenstein (2011), o processo 56 contínuo, além de incrementar o custo, possui algumas dificuldades operacionais como a movimentação de biomassa, e manutenção de temperatura e pressão ao longo do processo. Por outro lado o processo em batelada apresenta uma precisão maior dos resultados de rendimentos obtidos pela facilidade de controlar as quantidades que entram no reator e as finais. Portanto, este trabalho descreve um reator em batelada capaz de realizar o pré-tratamento de material lignocelulósico dentro das condições expostas no capítulo 3. Após definição do tipo de processo, tratou-se de definir parâmetros limites de operação. Com base na tabela 4 e tabela 5, onde são mostradas várias condições de processamento para obtenção de bioetanol de diferentes biomassas, os limites de operação para dimensionamento do sistema foram definidos conforme mostra a tabela 9. Onde os parâmetros do pré-tratamento (pressão, temperatura e meio ácido) foram os principais norteadores da especificação do sistema. Tabela 9 – Parâmetros limites para dimensionamento do reator Etapa Temperatura Pressão Agitação Meio Pré-tratamento Até 160 oC Até 6 kgf cm-2 450 rpm Ácido (pH< 2) Hidrólise Enzimática Até 50 oC Atmosférica 300 rpm pH>5 Fermentação Até 35 oC Atmosférica 100 rpm Neutro O desenvolvimento do projeto partiu da confecção de um diagrama esquemático de bloco onde descreveu-se a interligação entre os equipamentos capazes de gerar energia suficiente para manter condições propostas acima. As características para dimensionamento do reator levaram em consideração os resultados dos experimentos práticos, comparação com outros equipamentos e definições em literatura (Silva, 2009; Degenstein, 2011; Binod, 2011) analisando-se: dimensões, capacidade de carga, temperaturas, isolamento térmico, agitação, vedação e filtração. Utilizou-se para confecção do projeto do reator o software Bentley Microstation, versão 8i. 57 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES 4.1 Produção de Caule A partir de amostras de caule de tabaco coletadas foi estimada a quantidade de caule gerada por hectare, como está apresentado na Tabela 10, onde observa-se uma geração de 1428 kg de caule seco por hectare plantado. Tabela 10 – Estimativa da Produção de Caule de Tabaco por hectare Data Amostra (no. Caules) Peso Caules Peso Caules Umidos Secos Umidade (Kg) (Kg) Plantação de Tabaco Peso Individual (kg/caule) Pés de tabaco/ha ou Caules/ha kg de Caule/ha 20/05/2014 50 32.5 5.7 82% 0.114 14000 1596 26/05/2014 50 21.6 4.3 80% 0.086 14000 1204 06/06/2014 50 31.0 5.2 83% 0.104 14000 1456 14/06/2014 50 29.6 5.2 82% 0.104 14000 1456 28.7 5.1 82% 0.102 14000 1428 Média Considerando-se que a área plantada de tabaco na Região Sul do Brasil em 2013 foi de 313.675 hectares, a quantidade estimada de caule de tabaco gerada do recente realizado corrobora os dados publicados pelo estudo foi 447.928 toneladas. Assim, admitindo-se um percentual de 35,7% de celulose teremos uma produção máxima de 159.910 ton de celulose (Tabela 11). Tabela 11 – Estimativa de geração de caule de tabaco e celulose na Região Sul do Brasil Dados Produção de tabaco Brasil (tons) Área plantadas (Hectares) Estimativa do rendimento de Caule de Tabaco (kg/hectare) Quantidade estimada de Caule (tons) % de celulose no caule Quantidade de Celulose (tons) Referência 710,500 AFUBRA, 2013 313,675 AFUBRA, 2013 1,428 447,928 35.7 Martín, 2008 159,910 58 Estudo realizado por Suggs (1984), sugere uma relação de 0,65 g de caule por cada g de folha colhida, considerando-se base seca. Sendo a umidade da folha e do caule no momento da colheita de 86% como apresentado no ANEXO A. Assim, a geração média de caule de tabaco encontrada por hectare de 1428 kg ha-1 é muito similar ao valor de Suggs (1984) de 1482 kg ha-1. 4.2 Pré-tratamento ácido da biomassa As amostras de caule de tabaco foram submetidas a cinco diferentes condições de pré-tratamento em triplicata para identificar a melhor condição reacional. Os resultados da análise de açúcares destas amostras são mostrados na tabela 12. Tabela 12 – Resultados de concentração de açúcares por condição de tratamento Amostra 1 2 3 4 5 Conc. Ácido (%) 3 1 3 1 2 Tempo (min) 90 90 30 30 60 Conc. glicose (mg mL-1) 1.99 1.97 2.07 1.26 1.09 Conc. Arabinose (mg mL-1) Relação Arabinose/Glicose ART (mg mL-1) 8.30 8.07 6.91 3.05 4.46 4.17 4.09 3.33 2.41 4.10 20.27 15.67 13.23 8.53 16.60 O pré-tratamento com ácido diluído predominantemente hidrolisa a hemicelulose e tem impacto na degradação da lignina (Binod, 2010). A hidrólise ácida da hemicelulose resulta na solubilização dos seus principais componentes: xilose, arabinose, glicose e galactose. O impacto da efetividade das condições reacionais é mostrado pelo alto percentual de arabinose e baixo percentual de glicose no hidrolisado (Avci, 2013). Os dados da tabela 12 demonstram que as condições reacionais 1, 2 e 5 apresentam uma eficiência de hidrólise maior que as demais, evidenciado pela relação entre a concentração de arabinose e glicose no hidrolisado, indicando também que a efetividade da hidrólise está mais relacionada com a concentração do ácido que com o tempo de pré-tratamento. Segundo Avci et al (2013), a formação de compostos inibidores da fermentação e da hidrólise enzimática é favorecida pelo incremento da concentração de ácido e tempo de duração do pré-tratamento, com isso, é essencial definir não somente as 59 condições que liberem açúcares fermentáveis, mas também as que produzam o mínimo de inibidores. A alta concentração de xilose e arabinose no hidrolisado com condições extremas de pré-tratamento estudadas (concentração de ácido 3% e tempo 90 minutos) em relação as demais condições de pré-tratamento evidenciam, juntamente com o não aparecimento de outros picos nos cromatogramas durante a análise, que não houve a degradação visível da xilose em Furfural, conforme descrito por Dagnino et al (2013). Alinhado com as concentrações de glicose e arabinose (Figura 21) a concentração de açúcares totais (Tabela 12) também sugere que as condições 1, 2 e 5 apresentam 16.00 4.00 14.00 3.50 12.00 3.00 10.00 8.00 6.00 4.00 Glicose (mg mL-1) Arabinose (mg mL-1) melhor hidrólise da hemicelulose. 2.50 2.00 1.50 1.00 2.00 0.50 0.00 0.00 Figura 21 – Gráficos de dispersão dos resultados de concentração de açúcares no hidrolisado A dispersão dos resultados para uma mesma condição de pré-tratamento é evidenciada para concentração mais elevada do ácido (3%), esta dispersão deve-se a dificuldade de homogeneização da biomassa, fato também reportado por Eylen et al (2011) e Triana et al (2011). A análise de eficiência do pré-tratamento deve considerar a perda de massa do sólido para o hidrolisado. A tabela 13 mostra a Eficiência do Pre-tratamento (EPA) para cada condição reacional calculada a partir da massa de caule não hidrolisada, onde se observa uma consistência com os resultados das concentrações de açúcares no hidrolisado, sugerindo como melhores condições reacionais as amostras 1, 2 e 5 pela melhor remoção de massa do caule pre-tratado. 60 Tabela 13- Eficiência do Pré-tratamento Ácido na Hidrólise de Caule de Tabaco Amostra Conc. Ácido (%) Tempo (min) EPA (%) 1 2 3 4 5 3 1 3 1 2 90 90 30 30 60 54.20 51.33 48.56 41.21 52.51 A baixa dispersão dos resultados de EPA (Figura 22) oriundos da baixa variação de massa após hidrólise ácida, aliados a maior quantidade de sólido remanescente e maior concentração de xilose e arabinose no líquido (Tabela 12) sugerem que a hidrólise da hemicelulose foi eficiente. 60.00 50.00 EPA (%) 40.00 30.00 20.00 10.00 0.00 Figura 22 - Gráficos de dispersão dos resultados de Eficiência de Pré-tratamento Ácido 4.3 Hidrólise Enzimatica As amostras pré-tratadas foram preparadas em triplicata adicionando-se a mesma proporção dos dois tipos de enzima (HTec2 e Ctec2). A curva analítica foi desenvolvida simultaneamente para determinação de açúcares redutores totais, evitando-se variações de reagentes. 61 Tabela 14 – Resultados de ART durante a Hidrólise Enzimática Tempo (h) Pre-tratamento HTEC2 CTEC2 0 24 43 60 74 0 24 43 60 74 Conc ART no Hidrolisado (g L-1) #1 2.11 3.75 4.98 4.81 4.57 3.03 5.41 6.40 7.00 6.99 #2 2.10 4.69 4.87 4.43 5.54 2.99 5.93 6.62 7.68 7.67 #5 3.17 7.15 7.49 8.72 9.26 3.18 7.73 8.74 9.06 9.83 Percentual de ART no Hidrolisado (m/m) #1 5.1 11.1 11.5 10.8 14.1 6.0 10.7 12.7 13.9 13.9 #2 5.6 9.8 11.6 12.2 12.3 5.9 11.8 13.1 15.2 15.2 #5 5.6 11.9 11.7 14.6 15.5 6.3 15.4 17.5 18.1 19.6 As condições de pré-tratramento citadas na tabela 14 referem-se as mesmas condições citadas na tabela 12 onde a condição #1 corresponde a 90 minutos e 3% de concentração de ácido sulfúrico, condição #2 a 30 minutos e 3% de concentração de ácido e condição #5 60 minutos e 2% de concentração de ácido. A tabela 14 mostra a concentração dos açúcares totais por tipo de enzima e condição de pré-tratamento ácido durante o período de hidrólise enzimática entre 0 e 74 horas. Os dados evidenciam um melhor desempenho da enzima CTec2 em relação a enzima HTec2 para uma mesma condição de pré-tratamento. Para a condição #1 a concentração de ART foi 53% maior com CTec2, para a condição #2 foi 38% e para a condição #5 foi 6%, isto deve-se a alta especificidade da enzima HTec2, que é uma endoxilanase, conforme informação do fornecedor, que provavelmente, pela análise dos resultados do pré-tratamento, foram hidrolisadas durante a etapa anterior. Além disso, a enzima CTec2, que além de ser uma celulase, apresenta percentual de βglucosidase favorecendo a hidrólise da celubiose. As comparações dos resultados para os materiais pré-tratados com ácido estão representadas na Figura 23 com os respectivos desvios. 62 Concentração ART - Pré-tratamento #1 Percentual de ART na biomassa hidrolisada (% - m/m) Percentual de ART na biomassa hidrolisada (% - m/m) 25.0 20.0 15.0 10.0 5.0 0.0 0 24 43 60 Tempo de Hidrólise (h) Concentração ART - Pré-tratamento #2 20.0 15.0 10.0 5.0 0.0 0 74 CTEC2 24 43 60 Tempo de Hidrólise (h) HTEC2 a) Percentual de ART na biomassa hidrolisada (% - m/m) 25.0 74 CTEC2 HTEC2 b) 25.0 Concentração ART - Pré-tratamento #5 20.0 15.0 10.0 5.0 0.0 0 24 43 60 Tempo de Hidrólise (h) 74 CTEC2 HTEC2 c) Figura 23- Gráficos comparativos entre CTec2 e HTec2 por condição de Prétratamento. a) Condição de Pré-tratamento 1: 90 minutos e 3% de ácido sulfúrico. b) Condição de Pré-tratamento 2: 30 minutos e 3% de ácido sulfúrico. c) Condição de Pré-tratamento 5: 60 minutos e 2% de ácido sulfúrico. O resultado comparativo entre a enzima HTec2 e CTec2 para a condição de Prétratamento 1 (Figura 23.a) apresenta a concentrações de ART similares na biomassa pre-tratada, muito provavelmente pela produção de inibidores durante o prétratamento e também pela concentração mais elevada de ácido poder hidrolisar a celulose durante o pré-tratamento evidenciado pela maior concentração de glicose (tabela 12). Este comportamento também foi mostrado por Araujo et al (2013). A Figura 23c, condição de pré-tratamento 5, representa o melhor resultado de hidrólise. A análise da taxa de produção de ART com relação ao tempo de hidrólise, mostrada da Figura 24, também evidência a melhor reação da enzima CTec2 durante o decorrer da hidrólise enzimática. Enquanto a HTec2 mesmo no período inicial de 24 horas não possui a mesma taxa de produção de ART. 63 200 Taxa de Produção de ART (mg mL-1 h-1)) Taxa de Produção de ART (mg mL-1 h-1)) 200 150 100 50 0 0 24 43 60 74 HTEC2 -50 150 100 50 0 0 -50 Tempo de Hidrólise (h) e Tipo de enzima #1 #2 24 43 60 74 CTEC2 Tempo de Hidrólise (h) e Tipo de enzima #5 #1 #2 Figura 24 – Taxa de produção de ART durante Hidrólise enzimática. O decréscimo da taxa de produção de ART após 24 horas de hidrólise enzimática evidencia a alta atividade no início e uma possível inibição da atividade enzimática pela presença de açúcares redutores (Hamelinck, 2005). Analisando somente a enzima CTec2, que apresentou a maior produção de açúcares redutores totais (ART) após o período de 74 horas de hidrólise enzimática, com relação a condição de pré-tratamento, observa-se na Figura 25 que a condição 5 apresenta a maior produção de ART em relação as demais condições. Percentual de ART na biomassa hidrolisada (% - m/m) Concentração ART - Pré-tratamento #1, #2, #5 Enzima CTec2 25.0% 20.0% 15.0% 10.0% 5.0% 0.0% 0 24 43 60 74 Tempo de Hidrólise (h) #1 #2 #5 Figura 25 – Evolução do percentual de ART no hidrolisado com Enzima CTec2. Para a próxima etapa do processo de produção de bioetanol, a fermentação, é importante a existência de glicose, assim, os resultados da concentração de glicose das triplicatas (A, B e C) durante a hidrólise enzimática para a condição de prétratamento #5 são mostrados na Tabela 15. 64 #5 Tabela 15 – Resultados de Concentração de Glicose durante a Hidrólise Enzimática (g L-1) Tempo (h) #5 - A #5 - B #5 - C Média 0 24 43 60 74 2.16 1.73 1.20 5.35 5.98 6.18 6.81 9.31 10.75 7.52 8.12 7.32 7.18 8.35 8.00 1.70 5.84 8.96 7.65 7.84 Comparando-se a concentração de açúcares totais com a concentração de glicose no hidrolisado durante a hidrólise enzimática na Figura 26, observa-se que embora a enzima CTec2 seja uma celulase, alguns outros açúcares redutores também foram formados durante a hidrólise. Concentração Açucares (g L-1) 12.00 102% 10.00 84% 80% 76% 8.00 6.00 54% 4.00 2.00 0.00 0 24 43 60 Tempo de Hidrólise enzimática (h) 74 Glicose ART Figura 26 – Comparação entre ART e glicose da evolução durante a Hidrólise Enzimática com CTec2 4.4 Fermentação O processo de fermentação foi desenvolvido com um novo hidrolisado preparado a partir da mesma biomassa lignocelulósica pré-tratada com ácido sulfúrico a 2% por 60 minutos (condição 5) seguido de hidrólise enzimática com CTec2 por 74 horas. Estas foram as condições que apresentaram melhor produção de açúcares redutores. A fermentação de 50 mL de hidrolisado enzimático foi realizada em triplicata, com concentração média de 13,42 g L-1 de açúcares redutores totais e de 8,81 g L-1 de glicose, ou seja, um total de glicose de 440,5 mg por amostra a fermentar. Ao final da 65 fermentação a concentração de etanol foi 49,36 mg.mL-1, ou seja, 2,468g (26,8.10-3 mol) em 50 ml de líquido fermentado. A Figura 27 evidencia a concentração de etanol durante as 28 horas de fermentação. A estabilização da concentração de etanol no final da fermentação foi provavelmente devido a possível evaporação ou assimilação do etanol, conforme descrito por Martin et al (2002) e Govumoni et al (2013). Concentração de Etanol (g. 100mL-1) 6.0 5.0 4.0 3.0 2.0 1.0 0.0 0 5 10 15 Tempo de Fermentação (h) 20 25 Figura 27 – Evolução da concentração de etanol durante a Fermentação O etanol foi formado a uma taxa de 3,2 mg L-1 h-1 nas primeiras 12 horas, após este período a taxa reduziu para 1,9 mg L-1 h-1 nas 6 horas seguintes e foi desprezível no período final da fermentação entre 18 e 28 horas (Figura 27). A relação estequiométrica da reação de fermentação sugeriria uma quantidade menor (0,225g) de etanol produzido, em função da existência de dissacarídeos (celobiose) no hidrolisado enzimático, não detectados, pois nas análises realizadas obteve-se uma quantidade maior deste álcool (OHARA et al, 2013). Situação similar foi apresentada por Harun e Danquah (2011) o qual mencionam que a cinética de hidrólise enzimática da celobiose é maior do que da glicose. Para evitar esta situação Sanchez e Cardona (2011) sugeriram a introdução de β-glucosidase durante a hidrólise enzimática. Apesar do mix de enzimas (CTec2) utilizadas na hidrólise enzimática conter a β-glucosidase, pelos resultados de produção de etanol, a concentração da mesma não foi suficiente para a biomassa e condições utilizadas. 66 Por outro lado, a análise do rendimento de etanol de 0,338 g por g de caule de tabaco moído e seco foi similar a rendimentos de 0,44 g de etanol por g de palha de trigo, apresentado por Govumoni et al (2013) e de 0,15 g por Passoth et al (2013). 4.5 Proposta de Equipamento em Escala Piloto A proposta de equipamento consiste de um sistema compacto para produção de bioetanol a partir de biomassa lignocelulósica do caule do tabaco que possibilita a realização sequencial do pré-tratamento, hidrólise enzimática e fermentação em um único reator. Para tanto a biomassa deverá ter sido cominuída previamente e necessitar-se-á de um equipamento adicional de separação do etanol produzido, que não faz parte do escopo deste estudo. O sistema consiste de um reator, uma caldeira e um aquecedor de água distribuída sobre uma estrutura metálica com rodízios medindo 61 cm de largura, 130 cm de comprimento e 193 cm de altura. Os rodízios possibilitam seu transporte e manuseio. O reator poderá ser alimentado com água quente ou com vapor alternadamente. A água quente e o vapor poderão ser utilizados tanto para aquecer o corpo do reator, como para aquecer a biomassa diretamente. A bomba de água será utilizada para recircular a água aquecida, retornando-a ao aquecedor. A figura 28 mostra um esquema simplificado das conexões entre os dispositivos. Bomba de água Reator Aquecedor de Água Caldeira Água Figura 28 – Esquema de funcionamento do sistema de produção de etanol O circuito elétrico é alimentado por uma tensão de 220V trifásico com uma corrente máxima de 32 A para suprir energia para o aquecedor elétrico, bomba de água, agitador e caldeira. Um esquema detalhado do circuito elétrico é apresentado no Anexos 8.4 e 8.5. 67 A lista de materiais necessária para a confecção do sistema é apresentada no anexo 8.6, distribuída em parte elétrica e mecânica. 4.5.1 Reator O reator foi concebido com o objetivo de possibilitar a avaliação em escala piloto de parâmetros reacionais para a produção de bioetanol, para tal aumentou-se em 2000 vezes a escala laboratorial. Considerando a necessidade de instalação de instrumentos para o adequado monitoramento dos parâmetros, as dimensões do reator serão: diâmetro = 40 cm, altura = 40 cm e por consequência volume aproximado de 50 litros. O reator é um vaso de pressão com uma tampa superior para alimentação da biomassa. A quantidade máxima de biomassa será de 20 kg, considerando-se que a densidade seca não ultrapasse 500 kg/m3. O corpo e a tampa do reator serão de aço inoxidável AISI 316L e espessura de 10 mm. Spray para limpeza e lavagem Carcaça do reator Revestimento externo Tela Espaço para isolante térmico Camisa para fluido de aquecimento Figura 29 - Corte transversal do reator Fonte: do autor 68 A sequência reacional para obtenção de bioetanol será realizada em etapas subsequentes, para tal, após o pré-tratamento a biomassa deve ser lavada e com o objetivo de evitar perda de biomassa, um cesto de aço inoxidável foi projetado para permanecer encaixado dentro do reator. O cesto é constituído de uma armação metálica e uma tela de 80 mesh soldada. O reator é revestido com uma camisa simples que circunda o reator. O fluido de transferência térmica (vapor durante o pré-tratamento ou água quente durante a hidrólise enzimática e fermentação) é injetado pela parte inferior do reator passando pela camisa e saindo pela parte superior. O fluido flui em torno da camisa através de um espiral ascendente. Com este espiral pretende-se distribuir o fluido ao longo de todo o reator, evitando-se pontos de sobre aquecimento e, por consequência, de caminhos preferenciais. A temperatura na camisa é controlada pela pressão de vapor da caldeira (Prétratamento) ou temperatura do aquecedor de água quente (Hidrólise enzimática e Fermentação). A temperatura da reação é monitorada com termômetro analógico posicionado na tampa do reator. A temperatura interna da camisa poderá ser visualizada em outro termômetro analógico posicionado na lateral do reator. O limite de temperatura da camisa e por consequência do reator será de 158oC, em função da máxima pressão de vapor (6 kgf cm-2) gerada pela caldeira. Um agitador elétrico será fixado junto a tampa do reator, evitando vazamentos e possível perda de pressão. A velocidade de agitação será variável entre 60 e 450 rpm e controlada por inversor de frequência posicionado dentro do painel elétrico. O agitador possuirá 1 conjunto de pás que poderá ser removível ou substituída por outro conjunto/tipo conforme análise a ser executada. A vedação da tampa do reator é feita com uma gaxeta especifica para ácido, temperatura e pressões moderadas. A tampa é fixa ao corpo do reator com tramelas rosqueáveis suportando uma pressão interna máxima de 6 kgf cm-2. Uma válvula de segurança posicionada na tampa do reator evita uma sobre pressão interna, estando regulada para abertura em 7 kgf cm-2. A camisa de vapor será revestida com uma camada de 20 mm de lã de rocha para evitar desperdício energético, como acabamento final o reator, a camisa e o isolamento térmico serão revestidos com uma chapa de alumínio. 69 4.5.2 Aquecedor de água O aquecedor de água será utilizado durante a hidrólise enzimática e fermentação, por possibilitar um ajuste preciso da temperatura, otimizando as condições ideais de cada etapa. A máxima temperatura está definida pela limitação de aquecimento do equipamento que é 85oC, temperatura na qual o equipamento desligará automaticamente. O aquecedor é composto de um tanque com resistência elétrica e termostato que regulará a temperatura conforme desejado (Figura 30). Saída Água Quente Entrada Água fria/retorno Isolamento de Poliuretano Tanque Interno 700 mm Mostrador de Nível de água Revestimento externo Resistência/ termostato Dreno Resistência Elétrica 515 mm Figura 30 - Desenho esquemático do aquecedor de água 4.5.3 Caldeira As condições de temperatura (121ºC) e pressão (1,1 kgf cm-2) analisadas neste estudo e outras sugeridas pela literatura (tabela 2) sugerem a necessidade de um equipamento gerador de vapor para garantir as condições reacionais necessárias para o pré-tratamento com ácido diluído. Para dimensionar a necessidade de vapor, considerou-se a perda de energia pela tampa do reator, pela condensação do vapor d’água na câmara formada na parte superior do reator, cerca de 20% do reator (10 litros), adicionado ao aquecimento reacional necessário para a hidrólise da hemicelulose durante o pré-tratamento. Com isso, a quantidade estimada necessária de vapor foi de 17,6 kg h-1 (Tabela 16). Com esta informação procurou-se uma caldeira capaz de gerar esta necessidade, optouse por uma caldeira comercial da marca Fulton modelo DBL012, por possuir a 70 capacidade nominal de 18 kg h-1, superior a mínima requerida pelo dimensionado apresentado, além de ser silenciosa, não necessitar de combustíveis por ser elétrica e possuir circuito e comandos independentes conforme norma ASME e ABNT (NR13). Tabela 16 – Estimativa de necessidade de vapor para pré-tratamento Identificação Valores Referência tabela de VPH Sistemas de Fluxo 493.8 (www.vph.com.br) Quantidade de calor latente (kcal kg-1) A Quantidade de vapor d'água na parte superior do reator (kg) B Volume do tanque com vapor d'água - 20% (L) C Densidade do vapor d'água a 160 ◦C (kg/m3) D Quantidade de calor latente para suprir evaporação (kcal s -1) E 2.42 = A * B Quantidade de calor latente para suprir evaporação (kcal h -1) F 8714.2 = E * 3600 Quantidade de vapor necessária (kg h-1) 0.004902 = C * D / 1000 10 Estimado 0.4902 tabela de Braga Fo (2102) 17.6 = F/A 71 5. CONCLUSÕES Resíduos lignocelulósicos surgem como uma alternativa para a produção de bioetanol, estudos em variadas biomassas sugerem estes resíduos como uma opção para substituição de combustíveis fósseis. Este trabalho mostrou a possibilidade do caule do tabaco ser uma alternativa para produção de bioetanol tanto no que se refere a conversão enzimática e fermentação quanto disponibilidade de recurso existente. O pré-tratamento da biomassa de caule de tabaco com ácido diluído apresentou rendimentos similares para condições com concentração de ácido sulfúrico de 3% e 2% independentemente do tempo, 30, 60 e 90 min. A Hidrólise Enzimática obteve melhor desempenho com a enzima CTec2 em relação a enzima HTec2, por esta possuir enzimas com alta especificidade de hemicelulose, que provavelmente, pela análise dos resultados do pré-tratamento, foram hidrolisadas durante a etapa anterior. Além disso, a enzima CTec2 apresenta alto percentual de β-glucosidase favorecendo a hidrólise da celulose Com a definição da melhor condição de pré-tratamento e hidrólise enzimática a fermentação foi conduzida com Sacchromyces Cerevisiae e apresentou um rendimento de 0,338 g de etanol por g de caule de tabaco moído e seco. A proposta de equipamento cobre a produção de bioetanol em um único equipamento limitado as seguintes condições reacionais: etapas sequenciais de processo, 6 kgf cm-2 e 160oC para o pré-tratamento, hidrólise enzimática e fermentação que poderão ser realizadas no equipamento. Com isso, os resultados demonstram que o caule de tabaco, o qual não possui valor econômico, aparece como uma fonte de monossacarídeos para fermentação e produção de bioetanol. 72 6. SUGESTÕES PARA TRABALHOS FUTUROS Este trabalho pretendeu ser um estudo inicial, mostrando um processo de obtenção de bioetanol do caule de tabaco. As sugestões de trabalhos futuros vão no sentido de buscar mais conhecimento sobre a produção de bioetanol a partir do caule do tabaco investigando outras condições reacionais, relações entre enzimas e biomassa. A proporção de enzima com relação a biomassa pré-tratada e mistura de enzimas podem ser testados para melhorar o rendimento de sacarificação. A caracterização da biomassa após cada etapa do processo de produção de bioetanol, avaliação da formação de inibidores durante o pré-tratamento e o entendimento de seus efeitos na hidrólise enzimática também podem ser mais investigados. A adição de surfactante durante a hidrólise enzimática, conforme descrito por Scheufele et al (2012), Talebnia (2010) e Saha et al (2005) como sendo um agente que evita a adsorção da enzima a celulose. A Investigação de cepas fúngicas e bacterianas capazes de hidrolisar a biomassa podem surgir como alternativa ao pré-tratamento ácido, minimizando uso de água para neutralizar hidrolisado ácido e aumentando a sustentabilidade do sistema. Estudo de ciclo de vida do processo proposta comparado com alternativas existentes como bioetanol de bagaço de cana-de-açúcar. Por outro lado, a partir da confecção do reator e aquisição de equipamentos auxiliares, bomba, caldeira, tanque de água também será possível otimizar a produção de bioetanol a partir de outras matérias-primas. 73 7. REFERÊNCIAS AFUBRA, Associação dos Fumicultores do Brasil, Evolução da Fumicultura. Disponível em http://www.afubra.com.br. Acesso em 26 de abril de 2014. AKPINAR, O.; ERDOGAN, K.; BAKIR, U.; YILMAZ, L. Comparison of acid and enzymatic hydrolisis of tobacco stalk xylan for preparation of xylooligosaccharides. LWT – Food Science and Technology, v. 43, p. 119-125, 2010. ALVIRA, P., et al. 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ANEXO Anexo 1 - Levantamento fotográfico da lavoura de tabaco (próprio autor) 8.1.1 Antes da Colheita 8.1.2 Após a Colheita (Fazenda experimental: EXPOAGRO AFUBRA/Brasil) 8.1.3 Após a Colheita (Fazenda Mponela – Malaui/Africa) 81 8.1.4 Após a Colheita (Fazenda Lucas – Moçambique/Africa) 82 8.2 Anexo 2 – Estudo de Relação Caule Folha de Tabaco (Suggs, 1984) Tabela 17 - Proporção de caule de tabaco em relação as folhas Amostras 1 2 3 4 Média Folhas (g) 131 158 164 192 161 Base Seca Caule (g) Total (g) 113 244 88 246 113 277 106 298 105 266 %Caule 46% 36% 41% 36% 39% Tabela 18 - Estimativa de geração de caule de tabaco e etanol no Brasil em 2013 Dados Produção de tabaco Brasil (tons) Área plantadas (Hectares) Rendimento de Tabaco em Folha - base seca (kg/hectare) Relação Caule/folha (kg/kg) Estimativa do rendimento de Caule de Tabaco (kg/hectare) Referência 710,500 AFUBRA, 2013 313,675 AFUBRA, 2013 2,276 AFUBRA, 2013 0.65 SUGGS, 1984 1,482 83 8.3 Anexo 3 - Projeto do Sistema - Visão Geral e Vista Explodida do Reator 84 85 8.4 Anexo 3 - Projeto Elétrico do Sistema - Diagrama Geral de Força Elétrica 86 87 8.5 Anexo 4 - Projeto Elétrico do Sistema – Painel Elétrico 88 89 8.6 Anexo 5 - Projeto do Sistema – Lista de Materiais 90 Quantidade 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 5 3 4 1 2 3 6 2 2 1 1 4 2 2 1 2 4 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 10 20 2 8 Materiais Elétricos chave seccionadora sobre carga 40A DR dispositivo tetrapolar 40A, 30mA Disjuntor motor Contatora tripolar 24VCC Contatora tripolar 24VCC Disjuntor bipolar 25A Disjuntor bipolar 4A Fonte sitop 380VCA-24VDC 5A Porta fusível comutável Fusível cartucho 10A Fusível cartucho 4A Corpo completo com contato NA Corpo completo com contato NF Corpo completo com lâmpada Botão soco vermelho emergência Bloco de contato Lampada baos 24V 2W Conector sak 6EN Conector sak 6EN - azul Conector terra ek 6/35PA Conector sak 4EN Conector sak 4EN - azul Conector sak2,5EN Conector terra ek 2,5/35PA Tampa final sak 6EN Tampa final sak 4EN Tampa final sak 2,5EN Poste.ew.35 Fecho lingueta manopla T Trilho ts35 x 15 Canaleta 40 x 60 Elemento sonoro Base Elemento luminoso Elemento luminoso Pedestal com tubo Inversor de frequencia 2,6A, 220VCA Quadro de comando CS (480x380x170) Plugue IP67, 32A Eletroduto galv. 3/4" (3 mts), 1,50m+C22m Curva 90° curta 3/4" Tampa para caixa múltipla Tampa estampadas 3/4" Caixa de derivação múltipla x 3/4" Caixa de derivação múltipla l 3/4" Fabricante Holec Siemens Telemecanique Telemecanique Telemecanique Siemens Siemens Siemens Gawe Gawe Gawe Telemecanique Telemecanique Telemecanique Telemecanique Telemecanique Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Conexel Tasco Legrand Legrand Schneider Schneider Schneider Schneider Schneider WEG Cemar Steck Carbinox Carbinox Tramontina Tramontina Tramontina Tramontina Referência S31-40/4 5SM1 344-0MB GV2M05 - 0,6 a 1A LC1.D12.10.BD LC1.D25.10.BD 5SX1 225-7 5SX1 204-7 6EP1333-3BA00 ZB4-BZ101 ZB4-BZ102 ZB4-BV6 ZB4-BT4 GV2.AE11 BA9S.24V.2W C.019326.01 C902516.61 C038340.00 C012836.01 C902513.61 C027966.01 C066106 C011796.01 C011796.01 C027956.01 C038356.00 TRILHO TS35 X 15 Elemento Sonoro 24V SUBCONJUNTO XVBC21 ELEMENTO LUMINOSO XVB.C34 LÂMPADAS 24V-5W TIPO BA.15D XVB Z02 CFW100026T2024POCLZ 902130 S5276W 56114/006 56114/016 56200/002 56200/012 91 Quantidade 1 1 1 1 10 12 4 2 3 10 1 1 1.5 2 1 13 3 1 1 1 Unidade pç pç pç pç m pç pç pç pç pç pç m m2 pç pç m pç pç m2 pç Materiais Mecânicos Fabricante Bomba para Circulação de Água Quente Texius Aquecedor Elétrico Vertical Cumulus Reator Caldeira Fulton Tubulação aço carbono Válvula de esfera tripartida MGA Rodízios giratório com freio COLSON Válvula de segurança MATRE Válvula de retenção MIPEL União ELOS Agitador com motor AGIMIX Tubos metálicos aço inox Chapa inox metálica Manômetro em Aço Inox com tubo bourbon Spirax Sarco Termometro NuovaFima Tubos metálicos industrial aço carbono Válvula de esfera em aço inox Conectfit Termometro NuovaFima Gaxeta Klinger Sil Retentor para agitador Casa das Gaxetas Referência TBHX - BR 100 W 50 litros confecção conforme modelo com Inox AISI 316L espessura 10 mm DBL 012 DIN 2440 3/4" rosca NPT Classe 300 - Bitola 3/4" DN 20 - ASME B16.34 GLP 414 PER N VS91 - Aço inox rosqueada Classe 150/300 - PN 20 - DN 20 3/4"- Aço inoxidável - Classe de pressão 3000 AGXP-E-0.5-500-F 3/4" - AISI 316 AISI 316L - 3 mm MV - Range 3 Série 06TB813 - 813 - 43M - 6 - 250 - C40 50/30 - espessura 2mm pintado 316BV3P - 3/4" Série 06TB843 - 843 - 43M - 6 - 98 - C40 C8200 SJ-1380233.XTEFLONX25X40X10XRET.ESPECIAL + ANEL 2126-V-M 92