Motricidade ISSN: 1646-107X [email protected] Desafio Singular - Unipessoal, Lda Portugal Mendonça, R.M.S.C.; Sousa, M.S.C.; Fernandes, H.M. Influência de diferentes programas de exercício físico na composição corporal e dimensões psicológicas em mulheres Motricidade, vol. 8, núm. Supl. 2, 2012, pp. 1023-1031 Desafio Singular - Unipessoal, Lda Vila Real, Portugal Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=273023568129 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto Motricidade 2012, vol. 8, n. S2, pp. 1023-1031 © FTCD/FIP-MOC Suplemento do 1º EIPEPS Influência de diferentes programas de exercício físico na composição corporal e dimensões psicológicas em mulheres Influence of different programs of physical exercise in body composition and psychological dimensions in women R.M.S.C. Mendonça, M.S.C. Sousa, H.M. Fernandes ARTIGO ORIGINAL | ORIGINAL ARTICLE RESUMO Esta investigação teve como objetivo verificar comparativamente a influência de diferentes programas de exercício sobre a composição corporal, satisfação com a aparência física, satisfação com a saúde, autoestima e depressão. A amostra foi constituída por 66 mulheres ativas e sedentárias com idades entre os 18 e 56 anos, distribuídas em quatro grupos: sedentárias (GS; n=9), praticantes de musculação (GM; n=30), dança (GD; n=12) e hidroginástica (GH; n=15). As participantes foram submetidas a medidas antropométricas de dobras cutâneas (mm), estatura (m), massa corporal (kg), e responderam a escalas de avaliação da satisfação da aparência física, satisfação da saúde, autoestima e depressão. Os resultados da MANOVA indicaram que a variável grupo de prática exerceu um efeito multivariado significativo sobre as dimensões da composição corporal (F (15,160) = 2.53, p= .002, Wilk´s Lambda= .556, η² = .18), tendo os grupos GM e GD revelado um perfil de composição corporal mais saudável. Relativamente às dimensões psicológicas, somente se verificou um efeito significativo univariado na satisfação com aparência física, revelando o grupo das sedentárias menores níveis. A análise correlacional indicou que maiores níveis de insatisfação com a imagem/aparência corporal se relacionaram positivamente com as dimensões da composição corporal. Palavras-chave: imagem corporal, saúde, composição corporal, exercício físico ABSTRACT This research aimed to compare the levels of body composition, satisfaction with physical appearance, health perception, self-esteem and depression according to different exercise programs. A sample of 66 active and sedentary women with ages between 18 and 56 years was divided into four groups: sedentary (SG; n=9), strength training (STG; n=30), dance (DG; n= 12) and hydrogymnastics (HG; n=15). Measures of skinfold thickness, height, and body mass were collected, and participants completed questionnaires of satisfaction with physical appearance, health perception, self-esteem and depression. MANOVA results indicated a significant multivariate effect for body composition variables (F (15,160) = 2.53, p= .002, Wilk´s Lambda= .556, η² = .18), with STG and DG revealing a more favorable body composition profile. Regarding the psychological dimensions, a significant univariate effect was only found for satisfaction with physical appearance, with the SG reporting lower levels. Correlational analyses revealed positive relationships between higher levels of physical appearance/ body image dissatisfaction and body composition variables. Keywords: body image, health, body composition, physical exercise Submetido: 01.08.2011 | Aceite: 14.09.2011 Rosa Maria Soares Costa Mendonça. Aluna de Doutoramento da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal. Maria do Socorro Cirilo Sousa. Universidade Federal da Paraíba, Brasil. Helder Miguel Fernandes. Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano; Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal. Endereço para correspondência: Rosa Maria Soares Costa Mendonça, Avenida Governador Silvio Pedrosa, 310, Apto 400, Areia Preta - Natal/RN, CEP: 59014-100, Brasil. E-mail: [email protected] 1024 | R.M.S.C. Mendonça, M.S.C. Sousa, H.M. Fernandes A prática da atividade física representa um relevante aspeto no comportamento das pessoas, estando associada a um vasto e e significativo conjunto de benefícios fisiológicos, psicológicos e sociais (Carvalho, 2010; Fernandes, Vasconcelos-Raposo, Pereira, Ramalho, & Oliveira, 2009; Hagger & Chatzisarantis, 2005). Apesar de habitualmente, os conceitos de atividade física e exercício físico serem assumidos como sinônimos, a atividade física apresenta uma abrangência superior, englobando o vasto espectro de comportamentos associados ao exercício físico. De modo consensual, a atividade física é conceituada como qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético maior do que o dos níveis de repouso e o exercício físico como atividade física planejada, estruturada e repetitiva (Caspersen, Powel, & Christenson, 1985). Ambos recorrentemente são investigados por diversas áreas de estudo, englobando a medicina, ciências do desporto e psicologia, justificando a sua importância na manutenção da saúde global e do bem-estar. Evidências epidemiológicas e laboratoriais convincentes mostram que o exercício físico regular protege contra o desenvolvimento e progressão de doenças crônicas, capaz de promover alterações em variáveis antropométricas, neuromotoras e metabólicas (Hagger & Chatzisarantis, 2005; Olival, 2010). Dentre as variáveis deste estudo, a composição corporal foi detalhadamente observada com o objetivo de verificar a existência ou não de diferenças entre os grupos investigados numa amostra eminentemente de mulheres. De um modo geral, parâmetros como peso corporal, quantidade de massa gorda, massa magra, perímetros cintura-abdome-quadril muito interferem na autoavaliação que as mulheres fazem de si mesmas. Uma verdadeira “cultura do magro” é o que apresenta uma série de investigações até agora realizadas, que apontam o sexo feminino como a principal “vítima”. É cada vez mais evidente que a insatisfação corporal é uma realidade para ambos os sexos e um resultado direto do não enquadramento em padrões estético-culturais. Adicionalmente, sabemos o quão importante é a aparência física particularmente para as mulheres (Alves, Pinto, Alves, Mota, & Leirós, 2009). Certas dimensões psicológicas têm sido objeto de atenção por parte dos estudos em psicologia, como a satisfação corporal, a perceção de saúde, a autoestima e a depressão. Esta última constitui uma forma de humor negativo, persistente e prolongado que interfere com vários aspetos da vida da pessoa, devendo ser entendida como uma doença de natureza multifatorial que necessita de ser diagnosticada e tratada adequadamente. A perceção da imagem corporal constitui-se como uma essencial componente do complexo mecanismo de identidade pessoal. O componente subjetivo da imagem corporal se refere à satisfação de uma pessoa com o seu tamanho corporal ou partes específicas de seu corpo (Gardner, 1996; Saur, & Pasian, 2008). No que se refere à auto-estima, a psicologia social revela que existem múltiplas e variadas terminologias, às vezes inconsistentes que se referem a construções iguais ou semelhantes e tendem a ser usadas como sinônimos: autoestima, autoconceito, autoperceção e autoimagem. Todos estes termos têm sido usados em um momento ou outro para se referir à delimitação da autoestima (Hagger & Chatzisarantis, 2005). Ainda assim, é usualmente definida enquanto dimensão avaliativa quantitativa do autoconhecimento referente à forma como um indivíduo formula apreciações acerca de si próprio, quer seja acerca da sua autoimagem, quer seja da sua prestação num dado domínio de vida (Rosenberg, 1965; Vasconcelos-Raposo, Fernandes, Teixeira, & Bertelli, 2012). Em decorrência dos posicionamentos anteriores, observa-se que a participação no exercício físico regular é um fator determinante de uma série de variáveis psicológicas. Neste sentido apesar de a literatura recair sobre estes temas com certa abundância, não se verifica estudos que relacionem todos estes constructos de uma forma conjunta e em articulação com outras Exercício físico, composição corporal e dimensões psicológicas em mulheres | 1025 dimensões de natureza física/fisiológica; pelo contrário, grande parte das pesquisas aborda de forma isolada, restringindo a possibilidade de realizar análises de maior poder científico (Carvalho, 2010). Para além disto, o conhecimento diferenciador de diferentes tipos de atividade física é ainda limitado, o que justifica o interesse em conhecer a influência da prática de diferentes tipos de exercício (hidroginástica, dança ou treino de força) em dimensões físicas e psicológicas. Deste modo, a presente investigação possui os seguintes objetivos: (a) comparar o perfil antropométrico e psicológico de mulheres fisicamente ativas (praticantes de musculação, dança ou hidroginástica) e sedentárias; e (b) verificar relações entre perfil antropométrico, satisfação da aparência física, satisfação da saúde, autoestima e depressão. MÉTODO O presente estudo é de natureza descritiva e transversal, uma vez que a coleta de dados foi realizada num único momento. A investigação apresenta um desenho quase-experimental com a amostra constituída de um grupo sedentário (GS); e três grupos praticantes: treino de força - musculação (GM), dança (GD) e hidroginástica (GH). A constituição de grupos teve por base a indicação de modalidades praticadas pelas participantes, não se verificando uma randomização prévia da amostra. Amostra A amostra foi constituída por 66 sujeitos do sexo feminino, com idades entre os 18 e os 56 anos (34.65±9.87 anos). Quanto à distribuição entre os grupos de prática e não prática, esta foi de 9 sujeitos do grupo sedentário, 30 no grupo de musculação, 12 no grupo de dança e 15 no grupo praticante de hidroginástica. Na sua grande maioria o estado civil dividiu-se entre “casada” (62.2%) e “solteira” (33.3%), com apenas (4.5%) representadas como “viúva” ou “divorciada”. Ao nível de escolaridade, a maioria se situou entre 10 e 12 anos de estudos (45.5%) equivalentes ao ensino médio completo e (31.8%) a mais de 12 anos de estudos correspondendo ao ensino superior. Cerca de vinte e três por cento da amostra apresentou escolaridade inferior a 10 anos de estudos, ou seja, ensino fundamental e médio incompletos. Quanto à classificação socioeconômica, a maior proporção integrou-se nas classes B (57.6%) e C (31.8%). Apenas 10.6% se enquadrou nas classes A e D. Instrumentos Foi usada uma anamnese elaborada pelos pesquisadores para o efeito de averiguar dados relativos à idade, profissão, tempo de prática de atividades físicas, completando também o questionário Critério de Classificação Econômica Brasil - CCEB, para identificação do nível de escolaridade e nível socioeconômico. Este questionário enfatiza sua função de estimar o poder de compra das pessoas e famílias urbanas, abandonando a pretensão de classificar a população em termos de “classes sociais”. A divisão de mercado definida é de classes econômicas. Uma comprovação adicional da conveniência do CCEB é sua discriminação efetiva do poder de compra entre as diversas regiões brasileiras, revelando importantes diferenças entre elas. A renda familiar por classes apresentou uma variação com valor máximo de R$ 14366.00 e o mínimo de R$ 403.00, correspondentes à descrição das classes A1, A2, B1, B2, C1, C2, D e E (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa - ABEP, 2008). Para análise da composição corporal foi utilizado o protocolo proposto por Jackson, Pollock e Ward (1980). As medições de peso e estatura permitiram o cálculo do índice de massa corporal (IMC), sendo também mensurados o percentual de gordura (%G), relação cintura-quadril (RCQ), e perímetro abdominal (PA). A satisfação corporal foi mensurada através da questão: "De 1 a 10, indique o quão satisfeita se sente com o seu corpo/ aparência?", sendo que o valor 1 se referia a "Nada satisfeita" e o valor 10 a "Muito satisfeita" (Carvalho, 2010). 1026 | R.M.S.C. Mendonça, M.S.C. Sousa, H.M. Fernandes A perceção da imagem corporal foi mensurada através da escala de Stunkard, Sorenson e Schlusinger (1983), que consiste num conjunto de nove silhuetas com variações progressivas na escala de medida, sendo o valor 1 da silhueta mais magra com um IMC médio de 17.5 kg/m² e o valor 9 da silhueta mais larga com IMC médio de 37.5 kg/m² (Kakeshita & Almeida, 2006). Foram apresentadas duas perguntas: 1) "Qual é a silhueta que melhor representa a sua aparência física atualmente?" e 2) "Qual é a silhueta que você gostaria de ter?". O nível de insatisfação corporal foi calculado pela diferença entre a silhueta atual (SA) e silhueta ideal (SI), apontadas pelas mulheres. A perceção de saúde geral englobou um item com o objetivo de averiguar a saúde geral da pessoa o qual continha a seguinte questão: "De 1 a 10, indique o quão saudável se considera?", sendo que o valor 1 se referia a "Nada saudável" e o valor 10 a "Muito saudável" (Carvalho, 2010). Para avaliação do sentimento de autoestima foi utilizada a Rosenberg Self-Esteem Scale RSES, validada para versão portuguesa por Vasconcelos-Raposo et al. (2012). Esta é composta por 10 itens com conteúdos relativos aos sentimentos de respeito e aceitação de si mesmo. Metade dos itens está enunciada positivamente e a outra metade negativamente. Para cada afirmação existem quatro opções de resposta (4 = concordo totalmente, 3 = concordo, 2 = discordo e 1 = discordo totalmente). Depois das devidas inversões dos itens negativos, a soma dos 10 itens dá-nos um escore da escala cuja pontuação total oscila entre 10 e 40. A obtenção de uma pontuação alta reflete uma autoestima elevada. Com o objetivo de averiguar a presença ou não de sintomas depressivos foi usado o BDI Beck Depressive Inventory (Beck, Ward, Mendelson, Mock, & Erbaugh, 1961) na adaptação de Gorenstein e Andrade (1998). Esta versão consiste em 21 itens respondidos numa escala ordenada de 4 pontos (0 – “nunca” a 3 – “sempre”), em que o sujeito deverá cotar o quanto manifesta a sintomatologia expressa na afirmação, considerando a referência temporal alusiva à última semana. Quando feito o somatório dos itens constituintes desta escala, pode-se considerar distintos pontos de corte: até 11 pontos determina ausência de depressão; de 12 a 19 pontos, depressão leve a moderada; de 20 a 35 pontos, depressão moderada a grave; e de 36 a 63, depressão grave (Cunha, 2001). Os itens descrevem manifestações comportamentais cognitivas afetivas e somáticas da depressão que são o humor, pessimismo, sentimentos de fracasso, insatisfação, sentimento de culpa, sentimentos de punição, autodepreciação, autoacusação, desejo de autopunição, crises de choro, irritabilidade, isolamento social, indecisão, inibição no trabalho, distúrbios do sono, fatigabilidade, perda de apetite, perda de peso, preocupação somática e perda da libido (Carvalho, 2010). Consoante os objetivos e desenho do estudo, as variáveis foram classificadas em i) variáveis independentes: idade, gênero sexual, estado civil, escolaridade, nível socioeconômico e o grupo (sedentário, musculação, dança e hidroginástica) e ii) variáveis dependentes: composição corporal, satisfação corporal, perceção da imagem corporal, a perceção de saúde geral, autoestima e depressão. Procedimentos Os dados foram recolhidos na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, Nordeste do Brasil. Após visita aos locais onde se encontravam os grupos foi explicado a todos os sujeitos os procedimentos e os objetivos do estudo, possibilitando deste modo, seu questionamento e esclarecimento de possíveis dúvidas. A informação de que o preenchimento do questionário era anônimo foi informado e garantido, pelo que todos os dados obtidos seriam confidenciais e para efeito de investigação, sendo solicitada respostas de forma sincera e atenta. Em seguida e de livre vontade, os sujeitos da amostra assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e foram incluídos na amostra Exercício físico, composição corporal e dimensões psicológicas em mulheres | 1027 do presente estudo. As participantes foram orientadas a responder os questionários ou fazer as medições corporais na seguinte sequência: perceção da imagem corporal, escala de autoestima, inventário de depressão, e critério socioeconômico, deixando por último as questões contidas no questionário da composição corporal juntamente com a mensuração de medidas antropométricas realizadas pelo primeiro pesquisador. As medidas englobara a estatura, peso corporal, perímetros de ombro, tórax, cintura, abdome, quadril, coxas, panturrilhas, braços relaxados e contraídos, dobras cutâneas triciptal, suprailíaca e coxa. Utilizou-se um estadiômetro personal caprice Sanny, uma balança Plenna modelo MEA-07420, uma trena para medidas corporais T-87 Wiso e um adipômetro Cescorf. O presente estudo de natureza transversal faz parte um projeto de investigação de natureza longitudinal, atualmente em curso. Análise Estatística Utilizou-se a versão 17.0 do SPSS para construção da base de dados e posteriores análises estatísticas. Procedeu-se com análise de estatística descritiva de tendência central para cálculo da média e o desvio padrão, bem como MANOVA seguida de ANOVA one-way para comparação das médias das variáveis dependentes em função das variáveis independentes. Por fim, aplicou-se o coeficiente de Pearson para analisar as correlações entre variáveis. RESULTADOS Os resultados referentes à análise estatística descritiva da idade, estatuto socioeconómico e dimensões antropométricas são apresentados na Tabela 1, em função dos grupos analisados. A análise comparativa da idade indicou diferenças significativas entre o GH e os grupos GM e GD. Os resultados da MANOVA indicaram que a variável grupo de prática exerceu um efeito multivariado significativo sobre as dimensões da composição corporal (F (15,160) = 2.53, p= .002, Wilk´s Lambda= .556, η² = .18). De um modo geral, os grupos GM e GD revelaram um melhor perfil de composição corporal do que os grupos GH e GC. A análise post-hoc com o teste Bonferroni indicou um maior efeito discriminador destes grupos para as variáveis relação cintura-quadril e perímetro abdominal. Os resultados da Tabela 2 indicam que não houve um efeito multivariado significativo da variável grupo de prática sobre as dimensões psicológicas (F (15,152) = 1.20, p = .281; Wilk´s Lambda = .735; η² = .10). Contudo, a análise univariada indicou um efeito significativo na dimensão satisfação com aparência física, revelando o grupo de sedentárias menores níveis. Embora sem efeito significativo (p < .05), denotaram-se tamanhos de efeito (effect sizes) consideráveis para as dimensões satisfação com a saúde (η² = .10) e níveis de depressão (η² = .08), verificando-se melhores níveis por parte de grupos praticantes (GH e GM). Tabela 1. Médias e desvios-padrão das variáveis independentes relativas à idade e composição corporal dos grupos praticantes (GM, GD e GH) e do grupo sedentário (GS) (n=66) GM (n=30) M±DP GD (n=12) M±DP GH (n=15) M±DP GS (n=9) M±DP Idade 29.57±8.36 34.67±7.45 43.47±10.48 36.89±4.73 9.43** Índice de Massa Corporal (IMC) 25.15±5.05 24.29±3.35 29.99±4.80 27.39±6.27 4.16** Percentual de Gordura (%MG) 25.93±6.42 27.20±5.14 35.00±4.54 30.81±6.37 8.76** Relação Cintura-quadril (RCQ) 0.75±0.05 0.74±0.06 0.82±0.08 0.82±0.08 6.81** Perímetro Abdominal (PA) 86.33±8.33 85.31±8.52 95.85±9.86 92.59±11.24 4.77** Nota: * p < .05, ** p < .01 F 1028 | R.M.S.C. Mendonça, M.S.C. Sousa, H.M. Fernandes Tabela 2. Médias e desvios-padrão das variáveis dependentes relativas às dimensões psicológicas dos grupos praticantes (GM, GD e GH) e do grupo sedentário (GS) (n=66) GM (n=30) M±DP GD (n=12) M±DP GH (n=15) M±DP GS (n=9) M±DP F Satisfação com aparência física 6.54±1.92 5.83±1.90 6.29±1.07 4.44±1.19 3.20* Perceção da imagem corporal 1.29±1.27 1.17±1.03 1.80±0.90 1.17±1.50 0.87 Satisfação com a saúde 7.82±2.13 6.67±1.78 7.50±1.23 6.00±2.92 2.27 Autoestima 31.75±4.33 32.33±3.99 32.29±3.63 29.33±6.33 1.00 Depressão 11.79±6.94 13.58±6.88 8.64±6.86 15.18±15.28 1.76 Nota: * p < .05, ** p < .01 Tabela 3. Coeficiente de correlação “r” de Pearson entre variáveis psicológicas e componentes de composição corporal nos grupos de atividade física e controle (n=66). Satisfação com a Perceção da Satisfação com a aparência física imagem corporal saúde IMC −.282* .597** −.006 Autoestima Depressão −.065 .115 %MG −.235* .569** −.057 −.044 .131 RCQ −.084 .281* −.008 −.135 −.092 PA −.256* .562** .030 −.074 .166 Nota: * p < .05, ** p < .01 A um nível descritivo, o grupo sedentário revelou menores níveis de satisfação com a aparência, com a saúde e autoestima, e maiores níveis de depressão. A tabela 3 demonstra que a perceção de insatisfação com a imagem corporal (PIC) se relacionou positivamente com todas as dimensões da composição corporal, indicando que maiores níveis de insatisfação com a imagem estão associadas ao maiores níveis de IMC, %MG, RCQ e PA, ou vice-versa. Por sua vez, a satisfação com aparência física relacionou-se negativamente com o IMC, %MG e PA, indicando uma associação inversa. DISCUSSÃO O presente estudo pretendeu investigar se diferentes tipos de programa de exercício físico influenciam a composição corporal e dimensões psicológicas de mulheres, através da constituição de diferentes grupos de prática (musculação, dança ou hidroginástica) ou sedentárias, baseados nos seus autorrelatos. Os resultados da análise comparativa indicaram que mulheres pertencentes aos grupos praticantes de musculação e dança revelaram melhores níveis de composição corporal e, igualmente, melhores níveis de satisfação com a aparência física. O estudo de Damasceno, Lima, Vianna, Vianna e Novaes (2005) objetivando quantificar o tipo físico ideal e verificar o nível de insatisfação com a imagem corporal de 87 mulheres (idade = 28.70 ± 12.6 anos, estatura = 161.6 ± 6.2 cm, massa corporal = 58.9 ± 12.0 kg e % gordura = 25.7 ± 7.8 G%) de acordo com a silhueta atual e qual gostariam de atingir, encontraram que apenas 24% das mulheres estavam satisfeitas. A silhueta 3 foi apontada como ideal a ser atingida por 55% das mulheres (silhueta 2 = 18% e 4 = 21%). A silhueta 3, de acordo com os resultados deste estudo, correspondia ao %G de 20.5 ± 0.9% e a um IMC de 20.0 ± 0.3 kg/m², tendo os autores concluído existir um tipo físico ideal para as mulheres caracterizado como magro e Exercício físico, composição corporal e dimensões psicológicas em mulheres | 1029 menos volumoso. Como poucas mulheres possuem corpos com tais dimensões, sendo esse ideal muitas vezes "inatingível", é compreensível que a maioria das mulheres se percecione como insatisfeita com a sua imagem corporal. Esta evidência empírica foi corroborada pelos resultados da presente pesquisa. Diversos estudos verificaram que a prática de exercício físico influencia certas dimensões psicossociais. Fernandes et al. (2009), objetivando estudar os níveis de atividade física de adultos com idades compreendidas entre os 60 e os 95 anos (M = 72.06, DP = 6.83) e a sua influência nos domínios da satisfação com a vida, autoestima e crescimento pessoal verificaram que um aumento dos níveis de prática de atividade física se traduzia em níveis superiores de satisfação com a vida, autoestima e crescimento pessoal, sendo esse efeito superior nos idosos que praticavam pelo menos 30 min de atividade física aeróbia moderada durante cinco ou mais dias da semana. No entanto, no caso das variáveis da composição corporal, denotou-se que o grupo de mulheres praticantes de hidroginástica revelou um perfil antropométrico mais próximo do grupo de sedentárias (maiores níveis de IMC, %G, RCQ e perímetro abdominal). Embora outros fatores possam contribuir para esta explicação, consideramos que uma possível justificação poderá residir no fato desta amostra revelar uma idade superior (43.47 ± 10.48 anos) em relação aos outros grupos praticantes. A literatura revela um perfil dinâmico da composição corporal ao longo do envelhecimento (Guo, Zeller, Chumlea, & Siervogel, 1999), traduzido essencialmente por um aumento do peso, percentual de gordura, IMC e menor percentual de massa magra. Como tal, sugere-se que embora a prática de atividade física possa não ser um mecanismo eficaz para promover uma composição corporal mais saudável, esta constitui um mecanismo promotor de benefícios psicológicos neste grupo de mulheres praticantes, traduzindo por menores níveis de depressão e níveis superiores de satisfação com a aparência e com a saúde. Por sua vez, o presente estudo suportou a relação entre certas dimensões psicológicas (especialmente associadas à aparência física) e as variáveis da composição corporal. Koyuncu, Tok, Canpolat e Catikkas (2010) comprovaram esta relação em um estudo com 290 mulheres praticantes e não-praticantes de exercícios físicos com idades entre 18 a 60 anos quando buscou determinar a relação entre a ansiedade física social, insatisfação da imagem corporal, autoestima, e a proporção de gordura corporal. A correlação mais forte entre estas variáveis foi observada na amostra de mulheres atletas, porque a aparência física tem demonstrado ter um papel importante na vida delas. Estas correlações foram ainda mais evidentes entre a satisfação com a imagem corporal e autoestima na amostra das atletas demonstrando uma alta sensibilidade quando tratam da aparência física, distúrbios da imagem corporal e aos estados emocionais, após sua carreira. Um estudo de Almeida, Loureiro e Santos (2002) objetivando avaliar a autoimagem comparando 30 mulheres com obesidade mórbida e 30 não obesas encontraram que os grupos diferiram significativamente, sugerindo a presença de indicadores de depreciação e distorção da imagem corporal entre as obesas que indicam sentimentos de inferioridade, descontentamento e preocupação com o corpo e a beleza. Estas conclusões são corroboradas pelos resultados do presente estudo, na medida em que se obtiveram correlações elevadas entre a insatisfação com a imagem corporal (PIC) e as várias dimensões da composição corporal. CONCLUSÕES Os resultados do presente estudo indicaram que a variável grupo de prática exerceu um efeito multivariado nas dimensões da composição corporal, tendo os grupos GM e GD revelado um perfil de composição corporal mais saudável do que os grupos GH e GC. Relativamente às dimensões psicológicas, somente se verificou um efeito significativo univariado na satisfação com aparência física, revelando as sedentárias menores níveis. 1030 | R.M.S.C. Mendonça, M.S.C. Sousa, H.M. Fernandes A análise correlacional indicou que maiores níveis de insatisfação com a imagem/aparência corporal se relacionaram significativamente com as dimensões da composição corporal. Sugere-se que futuros estudos aprofundem a pesquisa centrada no efeito conjunto de diferentes programas/tipos de atividade física nas dimensões físicas e psicológicas, utilizando um delineamento longitudinal que permita esclarecer o sentido destas associações, assim como, uma randomização dos grupos amostrais. Agradecimentos: Nada a declarar. Conflito de Interesses: Nada a declarar. Financiamento: Nada a declarar. REFERÊNCIAS Almeida, G. A. N., Loureiro, S. R., & Santos, J. E. (2002). A imagem corporal de mulheres morbidamente obesas avaliada através do desenho da figura humana. 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