QUÍMICA ANALÍTICA A avaliação de incerteza na gravimetria, espectrometria e cromatografia líquida Como demonstrar metrologicamente, via avaliação de incerteza, quando se deve corrigir o teor do analito com a recuperação e como considerar esta fonte de incerteza [Elcio Cruz de Oliveira] N os últimos anos, a disciplina avaliação incerteza em Química Analítica tem gerado um significativo nível de interesse e suscitado muita discussão, tanto no meio acadêmico, quanto profissional. O Guia para a Expressão da Incerteza de Medição (GUM) compilado pela ISO estabelece regras gerais para avaliação e expressão da incerteza de uma vasta gama de medições [1]. A fim de cobrir o campo da Química Analítica, a Eurachem em 1995 publicou um documento específico para área. A abordagem descrita no GUM requer a identificação de todas as fontes de incerteza, a combinação destas incertezas individuais – incerteza padrão combinada e finalmente ao se aplicar um fator de abrangência e um nível de confiança apropriado, a incerteza expandida. Os princípios do GUM são mais voltados às grandezas físicas; sendo significativamente diferentes dos métodos usados atualmente em Química Analítica, que geralmente fazem uso de parâmetros de desempenho, como precisão e recuperação, provenientes de estudos de validação durante o desenvolvimento do método e estudos colaborativos. Apesar de a recuperação ser uma característica de desempenho largamente avaliada durante a validação do método, ainda existe muita dúvida em como ser tratar a estimativa da incerteza associada com esta característica de desempenho. Este trabalho discute metrologicamente a recuperação e sua incerteza associada, utilizando exemplos de gravimetria, espectrometria de fluorescência de raios-X e HPLC. A recuperação é definida pela relação cobs/cref, entre a concentração observada, cobs, e a concentração de referência, cref, para um material analisado [2]. Se conhecida, a recuperação pode ser utilizada para corrigir uma observação em um escala de referência apropriada. Quando esta correção é efetuada, é evidente, que passamos a ter uma nova contribuição de incerteza: a incerteza da recuperação. Testes de recuperação nem sempre são viáveis. Algumas vezes, a recuperação é estimada indiretamente. 60 • www.banasmetrologia.com.br • Janeiro • 2011 Barwick e Ellison descrevem várias possibilidades para estimar a incerteza relativa à recuperação, incluindo a análise de materiais de referência certificados (MRC), fortificação (spiking) e comparação com um método de referência. Neste trabalho, apenas a abordagem da utilização de MRC será discutida. A recuperação média do método, , é dada por: (1) é a média dos resultados obtidos usando o métoOnde do em questão e é o resultado proveniente do certificado do material de referência. A incerteza na recuperação, , é dada por [3]: (2) é o desvio padrão de resultados obtidos usando Onde o método, n é número de replicatas e é a incerteza padrão associada ao MRC. A incerteza padrão do MRC é utilizada como desvio padrão. Se a recuperação é significantemente diferente de 1, este fator para corrigir o resultado de medição deve ser utilizado. A recuperação é frequentemente verificada para evidenciar se há diferença significativa de 1 ou 100%. Em tais circunstâncias, a contribuição da recuperação e sua incerteza para a incerteza total do método vão depender se o valor encontrado é metrologicamente diferente de 1. Em seguida, se deve avaliar se a correção deve ser feita ou não. Em condições ideais, a recuperação deveria ser exatamente a unidade. Em condições reais, a recuperação se distancia da unidade. O teste se baseia na significância do afastamento da recuperação da unidade. Este teste se baseia no teste t [4], onde através de n observações, é possível avaliar se uma média destes resultados pertence à população, conhecendo-se o valor verdadeiro. QUÍMICA ANALÍTICA (3) (4) Neste trabalho, µ assume o valor da unidade e , a recuperação ( ). Se MRC é utilizado para avaliar a incerteza da recuperação e se esta deve ser corrigida no resultado analítico. Determinação de enxofre por espectrometria de fluorescência de raios-X O teor de enxofre em óleo diesel é determinação por espectrometria de fluorescência de raios-X e um MRC de Conostan é utilizado para avaliar a recuperação analítica. (5) (6) , a recuperação não difere significativa- mente da unidade e se aceita a igualdade dos resultados, para um nível de confiança especificado; caso contrário, rejeita-se a igualdade indicando deste modo a evidência de erros sistemáticos [5]. Estudos de caso Determinação do teor de CaO em cimento pelo método gravimétrico O teor de CaO no cimento é determinado pela precipitação de Ca por oxalato de amônio e posterior ignição a 1200 ºC. Um Determinação de íon amônio por HPLC A determinação de íon amônio em fumaças de cigarros pode ser realizada por cromatografia líquida, utilizando um padrão interno de césio. Neste trabalho, um cigarro monitor padrão é utilizado para corrigir o valor dos resultados para o valor verdadeiro. Em Química Analítica, esta operação pode ser entendida como recuperação, que a referência [6] a nomeia de fator de correção de tendência e avalia a incerteza desta contribuição. Resultados e discussão Determinação do teor de CaO em cimento pelo método gravimétrico O valor certificado e o desvio padrão de CaO no MRC são 62,34% e 0,13%, respectivamente. Os resultados de recuperação se encontram na Tabela 1. www.banasmetrologia.com.br • Janeiro • 2011 • 61 QUÍMICA ANALÍTICA Tabela 1. Dados experimentais do estudo de recuperação Experimento %CaO 1 62,20 2 62,38 3 62,32 4 62,36 5 62,30 6 62,38 7 62,24 8 62,40 9 62,31 Experimentalmente, o desvio padrão e a média das replicatas do MRC são 0,065% e 62,31%, respectivamente. Utilizando, as equações (1), (2) e (6) respectivamente: O ttabelado para 95% de confiança e 8 graus de liberdade é 2,31. Como o ttabelado, 0,23, é menor do que o ttabelado, somente observa-se a presença de erros aleatórios e nenhuma correção é aplicada, pois a recuperação é metrologicamente igual a 1. Determinação de enxofre por espectrometria de fluorescência de raios-X O valor certificado e a incerteza padrão de enxofre no MRC são 0,500% e 0,0025%, respectivamente. Através da leitura de 3 replicatas na curva de calibração, foram encontrados, a concentração do MRC de 0,524%, com um desvio padrão de 0,0061%. Utilizando, as equações (1), (2) e (6) respectivamente: O ttabelado para 95% de confiança e 2 graus de liberdade é 4,30. 62 • www.banasmetrologia.com.br • Janeiro • 2011 QUÍMICA ANALÍTICA Como o ttabelado, 5,46, é maior do que o ttabelado, observa-se a presença de erros sistemáticos e a correção da recuperação se faz necessária, além de ser considerada como fonte de incerteza, como observado na Tabela 1. Esta contribuição chega a quase 10% da incerteza total. Determinação de íon amônio por HPLC Os valores adaptados da referência [6] são: • Valor certificado e a incerteza padrão de íon amônio no cigarro monitor são 10,5% e 0,25%, respectivamente; • 5 replicatas deste cigarro monitor geram uma concentração de 10,91%, com um desvio padrão de 0,225%. Utilizando, as equações (1), (2) e (6) respectivamente: O ttabelado para 95% de confiança e 4 graus de liberdade é 2,78. Como o ttabelado, 1,48, é menor do que o ttabelado, somente observa-se a presença de erros aleatórios e nenhuma correção precisaria ser aplicada. Entretanto, resolveu-se corrigir o analito pela recuperação e consequentemente, considerar esta fonte de incerteza, que neste caso ultrapassa 15% da contribuição total, sendo a segunda maior fonte de incerteza (Tabela 2). A incerteza de medição se mostrou como uma ferramenta poderosa para avaliar a recuperação analítica. É possível, pela metodologia discutida, se ter um entendimento metrológico de quando se deve corrigir o resultado final pela recuperação e a contribuição desta fonte na incerteza total. Referências [1] ISO, Guide to the Expression of Uncertainty in Measurement, International Standards Organisation, Geneva, 1993. [2] V. J. Barwick, S. L. R. Ellison,“Measurement uncertainty: Approaches to the evaluation of uncertainties associated with recovery”, The Analyst, vol. 124, pp. 981-990, 1999. [3] M. Gluschke, J. Wellmitz, P. Lepom, “A case study in the practical estimation of measurement uncertainty”, Accreditation and Quality Assurance, vol. 10, pp. 107-111, 2005. [4] J. N. Miller, J. C. Miller,“Statistics and Chemometrics for Analytical Chemistry”, Prentice Hall, U. K., 2000. [5] D. L. Massart et al, “Handbook of Chemometrics and Qualimetrics, Part A.”, Elsivier, Amsterdam, 1997. [6] E. C. Oliveira et al., “Internal standard versus external standard calibration: An uncertainty case study of a liquid chromatography analysis”, Química Nova, vol. 33, 984-987, 2010. Elcio Cruz de Oliveira trabalha na Petrobras Transporte (Transpetro) [email protected] www.banasmetrologia.com.br • Janeiro • 2011 • 63