R&C Trendwatch Setembro/2013 As incertezas da globalização Sumário executivo Introdução • Várias empresas de varejo e produtos de consumo estão envolvidas em estratégias de globalização, mas a política nos mercados emergentes interfere cada vez mais em suas atividades. Os setores de varejo e produtos de consumo são indústrias globais. Nos últimos anos, mais de 20% das receitas das 250 maiores varejistas do mundo tiveram origem em operações internacionais. E, em muitos casos, elas vieram de mercados emergentes. A 16ª Pesquisa Anual Global com CEOs da PwC revelou que cinco dos sete principais países que os líderes executivos do ramo de varejo e produtos de consumo identificam como mais importantes para suas perspectivas de crescimento são mercados emergentes, sendo que a China encabeça a lista. • Governos mais preocupados com o mercado interno podem restringir a atuação de multinacionais de varejo e produtos de consumo para impulsionar negócios locais e satisfazer públicos internos. A marcha para novos mercados é inevitável, mas a tensão política crescente em muitos países emergentes significa que as empresas globais de varejo e produtos de consumo podem enfrentar mais resistência dos governos. Empresas desse segmento geralmente não precisaram enfrentar os riscos políticos extremos encontrados pelas que operam em setores mais estratégicos – como petróleo e gás. Mas isso talvez esteja mudando. • Estar ciente dessas mudanças políticas permite desenvolver estratégias de investimento mais sutis. “No passado, alguns produtos, como refrigerantes, podiam ser vendidos em praticamente qualquer lugar. Outros, como aviões-caça e armas pesadas, eram negociados diretamente com os governos. Hoje, entre esses dois extremos existe uma variedade de produtos e serviços em rápida expansão que estão atraindo novos níveis de escrutínio dos governos ao redor do mundo.” — Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group Esta publicação é produzida em colaboração com o Eurasia Group (www.eurasiagroup.net), uma empresa de consultoria e pesquisa sobre risco político. As incertezas da globalização 1 Cresce a intervenção do governo em resposta a novos desafios O capitalismo estatal existe quando um governo administra e manipula ativamente a economia por motivos políticos. Ele está se tornando mais predominante em mercados emergentes. Por que isso está acontecendo? A primeira razão é a desaceleração do crescimento econômico. Depois de experimentar taxas médias de crescimento anual de 6,1% na década encerrada em 2011, as economias emergentes cresceram apenas 4,9% em 2012 e devem se expandir cerca de 5% este ano. Esse crescimento é mais forte do que o observado nos países de mercados desenvolvidos, mas a desaceleração impõe desafios econômicos e políticos. Ela abala as perspectivas para as empresas locais, pressiona os mercados de trabalho domésticos e reduz a receita do governo. Além disso, alguns governos de mercados emergentes – como a China – se basearam no crescimento econômico para obter legitimidade política. A segunda razão é a ascensão da nova classe média. A parcela da população nos mercados emergentes que vive com menos de US$ 2 por dia caiu de 65% em 1990 para 41% em 2010. À medida que mais cidadãos dos mercados emergentes entram na classe média, cresce a demanda por melhores 2 “Muitos mercados emergentes são voláteis internamente. Riyadh observa a Primavera Árabe com cautela, enquanto a Rússia enfrenta um movimento florescente de protesto nacional. A governança indiana é ao mesmo tempo esclerosada e caótica, sendo que o Partido do Congresso, atualmente no poder, depende de parceiros de coalizão instáveis para se manter no governo. Tudo isso alimenta um foco doméstico entre as potências em ascensão, mais preocupadas com os problemas internos do que com os que afligem o mundo.” —Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group serviços públicos, como eletricidade, saúde e educação – e também por governos mais responsáveis. E como demonstram os recentes protestos no Brasil e na Turquia, há consequências políticas quando essas demandas não são atendidas. Essas duas macrotendências estão se combinando para impelir os governos de países emergentes a desviar seu foco de atenção para o mercado interno e intervir mais diretamente na economia a fim de satisfazer as demandas de curto prazo por produtos de consumo baratos, alta taxa de emprego e empresas locais fortes. Essa dinâmica leva a mais intervenção do governo no setor de varejo e produtos de consumo, inclusive com restrições sobre investimentos diretos estrangeiros, exigências de contratação de fornecedores domésticos e controle de preços. Podemos esperar que isso continue nos próximos anos. As empresas enfrentam uma gama de possíveis restrições Os governos que se concentram nas questões domésticas geralmente adotam restrições para os investimentos estrangeiros, com a finalidade de angariar apoio de líderes empresariais locais, funcionários de empresas locais e nacionalistas de todos os matizes. A Índia e a Indonésia, por exemplo, estão tentando impor exigências de fornecimento local. Na Índia, as restrições são tão abrangentes que nenhum varejista multimarcas internacional entrou no mercado desde que o governo anunciou que autorizaria 51% de participação estrangeira no segmento de varejo multimarcas, em setembro de 2012. A Indonésia também tem rígidas regulamentações para franquias. R&C Trendwatch Governos também podem impor medidas protecionistas para conquistar apoio interno. Por exemplo, embora a Rússia tenha ingressado na OMC há um ano, o governo continua a sancionar medidas protecionistas. Sua postura agressiva em resposta a uma queixa da UE relacionada a um imposto de descarte sobre veículos importados pode indicar futuros problemas de conformidade para outras indústrias. Alguns governos recorreram, por sua vez, a controles de preços. Em abril, o governo da Argentina congelou preços de artigos vendidos pelos maiores varejistas de alimentos e por lojas de eletrodomésticos – tanto estrangeiras como nacionais – para manter os consumidores satisfeitos diante da inflação alta. A medida provavelmente aumentará a corrupção e a atividade no mercado negro, ao qual costumam recorrer fornecedores e atacadistas em busca de cobrir seus custos de produção. Nos Emirados Árabes Unidos (EAU), o governo – preocupado com a agitação causada pela Primavera Árabe – adotou um sistema eletrônico para monitorar os preços de 200 commodities básicas do setor de alimentos e assegurar que o varejo obedeça aos controles de preços do governo. Alguns governos de mercados emergentes também estão impondo regulamentações mais rígidas sobre a segurança e a qualidade dos produtos em resposta a demandas da nova classe média. O exemplo de maior destaque vem da China, onde as recentes investigações anticorrupção As incertezas da globalização e antitruste sobre empresas farmacêuticas estrangeiras provavelmente se expandirão por mais setores. O principal fator por trás desse movimento é a necessidade do governo de demonstrar seu compromisso com o combate à corrupção e com a proteção dos consumidores. Nem todos os governos respondem da mesma forma Felizmente, nem todos os governos de mercados emergentes estão respondendo ao duplo desafio de desaceleração econômica e aumento das demandas da classe média com maior intervenção estatal. Alguns, na verdade, estão abrindo os mercados para maior concorrência. Os governos do Brasil e da Turquia estão liberalizando as regulamentações do setor de varejo e produtos de consumo, embora, em ambos os casos, essas reformas não tenham produzido resultados de forma rápida o suficiente para evitar protestos da classe média em larga escala. No Brasil, o governo começou a reverter os aumentos de tarifas aplicados em outubro de 2012 para proteger a indústria nacional depois de alguns meses, reduzindo tarifas de importação sobre uma variedade de produtos. Essa mudança foi feita para manter os preços baixos e reduzir o impacto da alta inflação para os consumidores de classe média. Na Turquia, o governo anunciou um pacote de incentivos, em abril de 2012, incluindo um componente que estimula investimentos – tanto nacionais como internacionais – feitos em áreas subdesenvolvidas do país. Os incentivos também estão disponíveis para todos os investimentos acima de US$ 28 milhões. No entanto, o ambiente de investimento deteriorou-se desde então, depois que as autoridades passaram a investigar indivíduos e empresas suspeitas de terem apoiado ou se beneficiado dos recentes protestos. As empresas estrangeiras podem ser denunciadas, mas novas restrições sobre investimento estrangeiro são improváveis, e essa explosão de nacionalismo populista não deve sobreviver por muito tempo, porque a economia precisa de financiamento externo e o governo deve a sua estabilidade política ao crescimento econômico sustentado. As autoridades do governo da Nigéria também estão em busca de investimentos estrangeiros diretos, embora, nesse caso, o foco seja a indústria e o comércio de vestuário. O objetivo é atender à demanda crescente dos consumidores e criar empregos para os nigerianos. 3 4 Trajetória das políticas Melhorando Baixo “Impulsionar o crescimento no ambiente de negócios atual significa ter a estratégia correta para explorar os riscos e a incerteza associados à entrada em um novo mercado, mas também ser capaz de criar e manter uma vantagem competitiva sustentável.” —Miles Everson, Líder de Advisory da PwC nos EUA Depois de avaliar a abertura das políticas governamentais atuais e qualquer indicação do seu rumo futuro, as empresas podem começar a desenvolver a gestão de riscos e as estratégias de mitigação. Embora os resultados dessas avaliações possam variar – um fabricante de artigos de luxo e um varejista de artigos de baixo custo talvez tenham preocupações e tolerâncias de risco diferentes – o processo de planejamento será o mesmo. Políticas governamentais para o setor de varejo e produtos de consumo Moderado Empresas de varejo e bens de consumo devem planejar cuidadosamente sua entrada no mercado e, pelo menos, ajustar o planejamento a um ambiente de maior risco. Para as empresas de varejo e produtos de consumo, convém avaliar quais governos têm mais tendência ao ativismo e considerar questões geopolíticas específicas ao planejar a entrada em um mercado. O gráfico a seguir dá uma visão geral da situação de risco atual e das perspectivas de futuro em 15 mercados emergentes. Estável Piorando Quênia México EAU Brasil Holanda África do Sul Turquia Nigéria Índia Indonésia Rússia Arábia Saudita Argentina Egito Alto O duplo desafio de vencer a atividade econômica declinante e atender às demandas da nova classe média é bastante disseminado pelos mercados emergentes, mas não as respostas dos governos para esses problemas, como mostram os exemplos anteriores. Estratégias para evitar riscos: como selecionar mercados de baixo risco Nível de risco das políticas Estratégias de adaptação ao novo ambiente Essa análise permite que as empresas de varejo e produtos de consumo determinem onde é maior a chance de enfrentarem o crescente capitalismo estatal nos mercados emergentes. Por exemplo, Quênia, México e EAU (Emirados Árabes Unidos) oferecem um risco comparativamente menor, enquanto Argentina, Egito e China podem representar mais desafios Mesmo que o ambiente político China talvez seja mais complicado, as tendências demográficas e de gastos em alguns mercados ainda oferecem oportunidades promissoras. Por exemplo, embora as empresas que operam na China possam enfrentar riscos regulatórios maiores, o gráfico na próxima página mostra que o país representa um imenso mercado consumidor, com forte crescimento e poder de consumo, especialmente em áreas urbanas. R&C Trendwatch Dinâmica de mercado que afeta o setor de varejo e produtos de consumo PIB (PPP US$ bilhões) Crescimento do PIB Inflação População (milhões) População urbana (% total) PIB per capita (PPP US$) 2013 2013 2013 2013 2012 2013* África do Sul 609 2,8% 5,8% 51,8 62,4% 11.750 Arábia Saudita 962 4,4% 3,7% 29,6 82,5% 32.469 Argentina 776 2,8% 9,8% 41,5 92,6% 18.709 Brasil 2.467 3.0% 6,1% 199,9 84,9% 12.340 China 13.623 8,0% 3,0% 1.360,8 51,8% 10.011 EAU 284 3,1% 1,6% 5,7 84,6% 49.884 Egito 560 2,0% 8,2% 84,2 43,7% 6.653 Índia 5.032 5,7% 10,8% 1.239,3 31,7% 4.060 Indonésia 1.315 6,3% 5,6% 248,0 51,4% 5.302 México 1.848 3,4% 3,7% 116,0 78,4% 15.932 Nigéria 488 7,2% 10,7% 169,3 50,2% 2.883 Polônia 825 1,3% 1,9% 39,3 60,8% 21.005 Quênia 82 5,9% 5,2% 43,3 24,4% 1.885 Rússia 2.641 3,4% 6,9% 141,4 74,0% 18.671 Turquia 1.181 3,4% 6,6% 75,8 72,3% 15.578 Fontes: FMI (World Economic Outlook), Banco Mundial (World Development Indicators) *Obs.: Dados de 2013 são previsões As incertezas da globalização 5 Estratégias para mitigação de riscos: como operar nos novos mercados Uma vez tomada a decisão sobre os mercados a serem explorados, ou no caso de empresas já instaladas nesses mercados, quatro estratégias podem ser empregadas para mitigar os riscos de ações negativas dos governos. • Parceria com firmas locais: Quando se entra em novos mercados, a parceria com firmas locais pode ser uma importante vantagem, especialmente quando o governo está empenhado em desenvolver a indústria local. Ter um sócio local torna mais fácil identificar e gerenciar as peculiaridades da operação no novo ambiente, além de mitigar o risco de ser tratado como um agente estrangeiro no futuro. A Marks & Spencer, varejista britânica, empregou uma estratégia de franquia em mercados com maior risco de interferência do governo; na Índia, a empresa tem uma joint venture com a Reliance Retail, baseada em Mumbai, desde 2007. Seis novas lojas foram abertas no país apenas em 2012. • Contratar e/ou buscar fornecedores localmente: Quando uma empresa estrangeira contrata funcionários ou fornecedores locais, ela parece menos estrangeira para os governos e as populações locais. Isso reduz o risco de que ela seja escolhida pelos governos para ser vítima de investigações minuciosas 6 ou sofrer a aplicação de uma forte regulamentação. Para expandir seus negócios no Quênia, a empresa internacional de bebidas alcoólicas Diageo desenvolveu uma bebida barata para o mercado doméstico. A Diageo usa cevada produzida no Quênia e mão de obra local em uma cervejaria instalada no país. Essa tática não só forneceu à Diageo insumos baratos, mas também conquistou a boa vontade dos governos locais por criar empregos e reativar um setor agrícola importante, mas que, de outra forma, estaria estagnado. • Ajudar o governo a definir e aplicar normas e diretrizes: Como demonstra o colapso de uma fábrica em Bangladesh no início de 2013, é essencial que as empresas de varejo e produtos de consumo possam acreditar que os fornecedores manterão a segurança no local de trabalho e respeitarão as normas trabalhistas. As empresas podem trabalhar com os governos em mercados importantes para definir e aplicar essas normas a fim de evitar os riscos políticos e reputacionais decorrentes de condições regulatórias inadequadas. Em Bangladesh, as organizações de varejistas europeus Accord on Fire e Building Safety, além da Alliance for Worker Safety, de varejistas americanos, têm planos para trabalhar em conjunto com o governo do país para melhorar as normas de segurança das fábricas e também sua aplicação. • Trabalhar com o governo para alcançar metas sociais: Empresas de varejo e produtos de consumo e os governos dos países nos quais elas operam geralmente têm objetivos complementares. Identificar esses objetivos e formar parcerias com os governos para alcançá-los pode ser uma estratégia ganha-ganha. Um bom exemplo é o Programa Children’s Safe Drinking Water, da P&G, que atua para fornecer água potável em mercados emergentes e inexplorados de todo o mundo. Esse esforço não só promove a saúde pública, como também cria consumidores leais. R&C Trendwatch As incertezas da globalização 7 Recursos Ricardo Neves Sócio líder de varejo e consumo + 55 11 3674 3699 [email protected] Jorge Inafuco Expert em varejo e consumo + 55 11 3674 3753 [email protected] Siga-nos Eurasia Group Courtney Rickert McCaffrey Analista Sênior, Análise Comparativa Nova York 149 Fifth Avenue, 15th Floor New York, NY 10010 +1 212 213 3112 Twitter@PwCBrasil facebook.com/PwCBrasil www.pwc.com.br © 2013 PricewaterhouseCoopers Serviços Profissionais Ltda. Todos os direitos reservados. Neste documento, “PwC” refere-se à PricewaterhouseCoopers Serviços Profissionais Ltda., a qual é uma firma membro do network da PricewaterhouseCoopers, sendo que cada firma membro constitui-se em uma pessoa jurídica totalmente separada e independente. O termo “PwC” refere-se à rede (network) de firmas membro da PricewaterhouseCoopers International Limited (PwCIL) ou, conforme o contexto determina, a cada uma das firmas membro participantes da rede da PwC. 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