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LEITURA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: A QUESTÃO DOS OBJETIVOS DE
ENSINO
Cristiane Maria Barros1
Edna Gonçalves dos Santos2
Maria Lúcia Ferreira de Figueiredo Barbosa3
RESUMO: A proposta deste artigo é analisar o ensino de leitura na Educação
Infantil buscando verificar principalmente os objetivos desse ensino, bem como
os textos utilizados e a importância do papel do professor no trabalho com a
leitura. Para isso adotamos uma abordagem qualitativa de cunho etnográfico.
Observamos uma professora de educação infantil do grupo V em sua sala de
aula e realizamos uma entrevista com a mesma. Os resultados indicam que o
ensino de leitura praticado pela professora observada partia da concepção de
leitura como atividade interativa, com base em objetivos e finalidades que se
constituíam em elementos que possibilitaram aos alunos um contato lúdico,
prazeroso e contribuiu significativamente para o aprendizado dos mesmos.
Palavras-Chaves: Leitura, objetivos de ensino, diversidade textual, papel
do professor.
INTRODUÇÃO
Numa sociedade em que a leitura e a escrita estão presentes com
muita intensidade é bastante comum, principalmente nos espaços urbanos, nos
depararmos o tempo todo com palavras e textos, ou seja, com algum tipo de
escrita, cuja leitura se faz necessária à sua interpretação. Sem dúvida, a leitura
é importante para a vida e para a formação intelectual dos indivíduos na
sociedade. A escola nesse contexto tem a função de criar condições e intervir
para que os alunos se tornem bons leitores, a fim de torná-los capazes de ler
1
Aluna da disciplina TCC2 (Trabalho de Conclusão de Curso), do Centro de Educação –
UFPE.
2
Aluna da disciplina TCC2 (Trabalho de Conclusão de Curso), do Centro de Educação –
UFPE.
3
Orientadora deste trabalho, professora de Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa do
Centro de Educação – UFPE.
para buscar informação, ler para se divertir, ler para aprender, dentre outros
objetivos.
Observamos em nosso contato durante a disciplina Pesquisa e Prática
Pedagógica, com a educação infantil, mais especificamente com o grupo
infantil V, que a leitura era realizada diariamente e existia uma diversidade de
livros, clássicos da literatura infantil. No momento da leitura a professora, da
escola observada, sugeria que os alunos escolhessem a história que gostariam
de ler.
No entanto, percebemos que essa prática não se voltava para o ensino
de leitura, mas a nosso ver, para cumprir uma rotina de sala de aula. Apesar de
haver uma boa quantidade de livros, estes se restringiam a um único gênero.
A leitura dos textos não era trabalhada em atividades posteriores e os livros
eram pequenos resumos de clássicos infantis.
Diante desse fato, nos questionamos sobre como o ensino da leitura
pode contribuir para que uma pessoa possa se inserir em uma sociedade,
cujas marcas escritas estão presentes em toda parte e influenciam nossas
vidas nos diversos espaços, os quais freqüentamos cotidianamente, bem como
nos colocam tanto diante de uma situação simples como ler uma placa
informativa como em atividades em que precisamos agir de uma forma mais
crítica.
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 1997), a leitura
tem como finalidade a formação de leitores competentes, que a nosso ver
podem ser entendidos como leitores que fazem uso desse artifício para atender
a uma simples necessidade ou exercer atos complexos de cidadania.
Partimos do pressuposto de que a leitura é importante e as crianças
têm acesso a ela antes de entrarem na escola, antes mesmo de entrarem nas
salas de alfabetização. Quanto mais cedo se iniciar o aprendizado da leitura,
maior a possibilidade de termos um leitor assíduo. Então nos questionamos
como a prática de leitura nas classes de Educação Infantil, do grupo cinco,
pode contribuir desde essa faixa etária para formar o leitor competente diante
dos diversos escritos cujos alunos têm acesso dentro da escola e, muito antes,
fora dela.
Ressaltamos aqui a importância de utilizar uma diversidade de textos
nessas classes do grupo infantil, considerando que, a todo tempo, as crianças
2
têm acesso a uma infinidade de escritos, que não se limitam apenas a
clássicos da literatura infantil, mas se estendem a uma diversidade de gêneros
textuais, os quais aproximam cada vez mais as crianças de textos reais que
estão presentes em seu cotidiano.
Levando em consideração o que expomos aqui, esse estudo pretende
analisar como estar se dando a prática de ensino de leitura em classes de
Educação Infantil com crianças do grupo V, com o propósito, sobretudo de
saber quais são os objetivos desse ensino; quais são os textos utilizados na
educação infantil; e como a postura do professor pode influenciar no processo
de leitura para que o mesmo possa ter uma função significativa no aprendizado
do aluno.
Por tudo isso, acreditamos que este estudo é relevante para apontar a
importância de atividades de leitura que façam sentido desde as classes de
educação infantil, as quais deixem os alunos mais familiarizados com textos,
assim como contribuam de forma efetiva quando os aprendizes estiverem nas
classes de alfabetização. Pensamos também que o trabalho possa apontar a
importância do papel do professor como um leitor ativo, que considere a leitura
um instrumento fundamental para a formação de um cidadão crítico dentro da
sociedade.
A leitura como uma atividade interativa
Na sociedade contemporânea, a leitura tem um papel fundamental na
vida do indivíduo a ponto de ser considerada uma das principais preocupações
e prioridades do ensino fundamental. Dados do Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Básica (SAEB), atual Avaliação Nacional do Rendimento Escolar
(ANRESC)
4
mostram que o não aprendizado da leitura tem acarretado
grandes dificuldades no desenvolvimento das crianças ao longo do ensino e
gerando como conseqüência um número elevado de repetência e evasão
escolar.
Ao contrário do que se costumava pensar, em décadas passadas, a
leitura está presente na vida das crianças muito antes de entrarem na escola,
4
Fonte: INEP, Base de Dados do SAEB 2003.
3
pois a todo tempo elas estão se defrontando com os escritos que a cercam.
Nas últimas décadas, observam-se mudanças nas concepções sobre leitura,
dentre as quais podemos destacar a mudança no conceito de leitura como
decodificação do texto para o conceito de leitura como atividade interativa na
qual se faz importante tanto o texto quanto o leitor. Adotamos neste estudo o
conceito de leitura como interação, entendendo que não há assim uma
separação entre a leitura e o leitor, levando-se em consideração que se faz
necessário ativar os conhecimentos prévios que este tem do texto.
É importante ressaltar também que a criança é hoje vista como sujeito
de direitos abrangidos desde o direito à vida ao direito à liberdade, o que leva a
pensar uma educação que favoreça esses direitos com bases em fundamentos
precisos, que contribua para o desenvolvimento físico, mental e social das
crianças, da melhor maneira possível, pois como é citado no Plano Nacional de
Educação (1997, apud, RECIFE, 2004):
“A educação infantil cumpre um papel sócio-educativo, próprio
e indispensável ao desenvolvimento da criança valorizando as
experiências e os conhecimentos que ela já possui e criando
condições
para
que
socialize
valores,
vivencias
representações, elaborando identidades étnicas, de gênero e
de classe.”
As situações de aprendizagem de leitura na fase que antecede a
alfabetização, quando os alunos ainda não lêem de forma autônoma, são ricas
em diversos fatores como diz (CAVALCANTI 1997 p. 27):
“Ler antes de saber ler é um convite à interpretação de sinais
gráficos, a partir do conhecimento prévio do aluno a leitura
convencional também é uma interpretação de sinais gráficos
realizados a partir de nosso conhecimento anterior. Portanto,
quando se pede que o aluno leia antes de saber fazê-lo
convencionalmente, está-se na verdade convidando o aluno a
ocupar o lugar de um leitor potencial”.
Dessa forma não é preciso esperar que o aluno entre nas classes de
alfabetização para oportunizá-lo com as praticas de leitura, para que ele seja
um leitor competente que consiga agora e no futuro selecionar os materiais que
queira ler, para assim atender a seus objetivos de leitura.
SOLÉ (1998, p.122), define a leitura como “Um processo de interação
entre o leitor e o texto e neste processo, tenta-se satisfazer os objetivos que
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guiam à leitura”. Isso implica dizer que a leitura é uma atividade ativa não é
neutra, por este motivo requer uma interação entre o leitor e o texto, de forma a
possibilitar àquele um contato significativo com este, levando-o à compreensão
leitora.
Dentro dessa perspectiva podemos situar a atividade da leitura, de
forma mais complexa, por meio da qual não se tratará apenas de levar os
indivíduos a aprenderem letras, palavras e frases, de maneira desconexa, mas
sim de levá-los, a partir desse contato com o texto, a fazer uma articulação
entre a decodificação desses escritos e a possibilidade de poder interpretá-los,
percebendo o que eles querem dizer, de maneira que tenham sentido para
quem os está lendo.
A leitura é uma atividade complexa que faz amplas solicitações ao
intelecto e às habilidades cognitivas superiores da mente: reconhecer,
identificar, agrupar, associar, relacionar, generalizar, abstrair, comparar,
deduzir, inferir, hierarquizar. (SOLÉ, 1998)
Espera-se que a leitura seja ensinada dessa forma nas instituições
escolares podendo contribuir de maneira efetiva na formação do aluno para
que este possa ser considerado um leitor competente. O que estamos
chamando aqui de leitor competente é o individuo capaz de alcançar em um
texto os objetivos/finalidades da sua leitura. Compartilhamos a idéia de leitor
competente com a que vem expressa nos PCN:
“Um leitor competente é alguém que por iniciativa própria é
capaz de selecionar, dentre os trechos que circulam
socialmente, aqueles que podem atender a uma necessidade
sua. Que consegue utilizar estratégias de leitura adequada para
abordá-los de forma a atender essa necessidade.” (1997, p.54).
Levando em consideração que é na escola onde o indivíduo deve
aprender a ler de forma autônoma, SOLÉ (1998) atenta para o fato de que
muitas vezes o problema de ensinar leitura na escola não está no método, mas
na própria concepção do que é leitura.
Com essa afirmação, percebemos que o problema pode concentrar-se
na concepção de leitura que muitas vezes se encontra desvinculada de um
contexto mais amplo. Um contexto significativo seria aquele que leva o leitor a
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se situar em uma perspectiva de interação em que a leitura assume um
sentido, passando o texto a ser interpretado, apreendido e compreendido.
Ao considerarmos a leitura como prática social que está vinculada a
objetivos e finalidades, envolvendo uma diversidade de fatores, perceberemos
que uma leitura eficaz não se limita apenas a ler palavras ou frases isoladas,
mas que propicia uma leitura do que essas palavras e frases querem dizer. É
responsabilidade da escola propiciar essa leitura significativa.
O professor como leitor
Como afirmamos, nas classes de Educação Infantil, o professor tem
papel fundamental no trabalho de leitura. As crianças entre cinco e seis anos
ainda não são, em sua maioria, leitoras. Isso significa que o professor será o
leitor e o mediador nas diversas situações de leitura que ocorrem dentro da
sala de aula.
Dentro desse contexto, a responsabilidade de tornar a atividade de
leitura atrativa e significativa para as crianças torna-se um desafio, que exige
do professor que ele faça uso de diversos mecanismos para realização das
atividades de leitura.
TEBEROSKY e COLOMER (2003, p.126) chamam a atenção para o
fato de que ouvir ler não é algo passivo. Isso implica dizer que os alunos lêem
à medida que ouvem a leitura e fazem interpretações, assim como interagem,
construindo hipóteses, organizando suas idéias, colocando em funcionamento
a imaginação acerca do que está sendo lido pelo professor.
Nesse caso é de fundamental importância que o docente exerça papel
de leitor ativo buscando através de suas atitudes, no momento de leitura,
mostrar seu interesse pelo que está lendo, pois segundo o RECNEI (1998,
p.143):
“A intenção de fazer com que as crianças, desde cedo,
apreciem o momento de sentar para ouvir histórias exige que o
professor, como leitor, preocupe-se em lê-la com interesse
criando um ambiente agradável e convidativo à escuta atenta,
mobilizando a expectativa das crianças, permitindo que elas
olhem o texto e as ilustrações enquanto a história é lida.”
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Os objetivos da leitura na educação infantil
A Educação Infantil tal como a conhecemos hoje é um fato recente. As
instituições de educação infantil foram por muito tempo concebidas como locais
de abrigos a crianças carentes e tendo um papel meramente assistencialista.
(BUJES, 2001)
No entanto sabemos que atualmente o contexto da educação infantil
envolve diversos fatores por passar a conceber as crianças como sujeitos que
interagem com tudo e com todos que estão ao seu redor deixando de ser vistas
como meras receptoras de cuidados e instruções e como um adulto em
miniatura.
O desafio das instituições infantis hoje é oferecer as crianças um
ambiente educativo que possa favorecer o seu desenvolvimento dentro de
diversas perspectivas como a afetiva, a cognitiva e a motora, por exemplo,
envolvendo nesse contexto atividades que não se limitem apenas a cuidar, mas
também abranjam o educar de forma que possam atender às necessidades
das crianças, sem que com isso tratem-nas como incapazes de desenvolver
atividades. Esse ambiente alfabetizador propicia contato com os objetos
materiais da cultura escrita e prepara as crianças para o processo de
alfabetização.
Com isso é válido ressaltar que nesse processo deve prevalecer a
busca pela aprendizagem em um ambiente que favoreça o lúdico, o prazer por
aprender, o respeito às crianças e as suas fases de desenvolvimento, o
cuidado que deve está lado a lado com o educativo, pois como é citado no
RECNEI (1998, p.17):
“Educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados,
brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que
possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de
relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude
básica de aceitação, respeito e confiança, e o acesso pelas crianças,
aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. Nesse
processo, a educação poderá auxiliar o desenvolvimento das
capacidades de apropriação e conhecimento das potencialidades
corporais, afetivas, estéticas e éticas, na perspectiva de contribuir para
formação de crianças felizes e saudáveis.”
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O ensino na educação infantil como sabemos não apresenta caráter
classificatório, mas isso não significa que o professor não deva atentar para
certas competências que o aluno deve atingir durante esta etapa. O Referencial
Curricular Nacional para a Educação Infantil (RECNEI), dentro do eixo
linguagem oral e escrita, apresenta objetivos, conteúdos e fornecem
orientações didáticas para que o ensino de leitura atenda às expectativas
esperadas nesta faixa etária chamando atenção para o fato que ensinar a ler
em classes de educação infantil não é necessariamente instituir classes de
alfabetização para ensinar a ler e a escrever. E afirmam que ensinar a ler e a
escrever fazem parte de um longo processo ligado à participação em práticas
sociais de leitura e escrita. (1998, p.123)
Ainda segundo os Referencias Curriculares Nacionais para a
Educação Infantil, os objetivos que regem o trabalho com a leitura são, dentre
outros, os seguintes:
• Ampliar
gradativamente
suas
possibilidades
de
comunicação
e
expressão, interessando-se por conhecer vários gêneros orais e escritos
e participando de diversas situações de intercâmbio social nas quais
possa contar suas vivências, ouvir as de outras pessoas, elaborar e
responder perguntas;
• Familiarizar-se com a escrita por meio de manuseio de livros, revistas e
outros portadores de texto e da vivencia de diversas situações nas quais
seu uso se faça necessário;
• Escutar textos lidos, apreciando a leitura feita pelo professor;
• Escolher os livros para ler e apreciar. (1998, p.131).
Além disso, é preciso deixar aqui exposto que juntamente com o
trabalho de leitura estão presentes outros eixos de ensino que permeiam a
educação infantil e que de forma alguma deve ser concebido como trabalhos
isolados, mas pelo contrário estão relacionados entre si e propiciam melhor
desenvolvimento das crianças como é o caso do trabalho com música e com
artes visuais, por exemplo.
Ao longo desta pesquisa nos preocupamos em mostrar a leitura como
atividade interativa, que pode ser trabalhada com crianças do grupo V da
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Educação Infantil. Essa leitura interativa supõe que o leitor seja levado a
interagir com o texto de forma significativa e diversificada devendo a escola
propiciar aos alunos uma diversidade de textos para possibilitar essa
aproximação.
Quando a escola, já na educação infantil, propicia esse contato com
diversos textos leva os alunos a aumentar seu repertorio discursivo,
promovendo dentre outros aspectos um aumento em seu vocabulário
(TEBEROSKY e COLOMER, 2003). É preciso então que essa diversidade de
textos já esteja presente, pois como mostram TEBEROSKY e COLOMER
(2003):
“A escrita costuma aparecer sob formas de outros objetos em
diferentes portadores de texto. Esses portadores e suportes
representam tipos de escritos: rótulos, cartazes, placas, livros, jornais,
dicionários, cartas, enciclopédias, etc. Esses tipos de escrito
apresentam, por sua vez, diferentes tipos de textos: contos, notícias,
instruções, definições, identificações, etc. Precisamente por esse
motivo, o material da escola infantil não deve limitar-se aos escritos
escolares, mas deveria explorar os espaços escritos nas ruas e nos
bairros, os espaços domésticos e familiares, que permitem uma
primeira iniciação às diversas funções da escrita. (...) A iniciativa de
deixar entrar os escritos não (tradicionalmente) escolares facilita não
apenas a contextualização da aprendizagem, mas favorece um
movimento inverso: a participação infantil, fora da escola no mundo da
escrita.” (2003, p.84-85)
Essa idéia de TEBEROSKY e COLOMER está de acordo com
MARCUSCHI (2002, p.22), quando este autor afirma que: “a comunicação
verbal só é possível por algum gênero textual”. Isso implica dizer que qualquer
atividade comunicativa seja ela oral ou escrita se dá por meio de um gênero
textual. Em uma conversa face a face, ou ao telefone, em um bate-papo na
internet ou em uma leitura de um poema, por exemplo, há a realização de
atividades comunicativas por meio de gêneros textuais.
Desse modo, quando limitamos o trabalho de leitura em classes de
Educação
Infantil
a
apenas
clássicos
da
literatura
infantil
estamos
desperdiçando uma valiosa oportunidade de aproximar as crianças de leituras
diversificadas e significativas. Contudo, não estamos negando a importância de
trabalhar com textos literários, como as histórias infantis, por exemplo.
Diante deste fato, os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) e o
Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) também
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apontam a importância da utilização de uma diversidade de gêneros no
trabalho com o ensino da leitura como condição essencial para a formação de
leitores competentes, bem como para a ampliação do universo discursivo das
crianças.
Mencionamos também ao longo deste artigo que a leitura está ligada a
objetivos e finalidades e que um leitor competente faz uso de “estratégias” para
chegar ao objetivo de sua leitura. SOLÉ (1998) define essas estratégias como
procedimentos de ordem elevada que envolve o cognitivo e o metacognitivo e
que, quando ensinadas, podem tornar-se instrumentos importantes que
facilitarão a compreensão da leitura, além de contribuir para dotar os alunos
dos recursos necessários para aprender a aprender.
No entanto, essas estratégias não devem ser concebidas como uma
lista de ações nas quais os alunos devem se guiar de forma exaustiva. As
estratégias de leitura devem ser ensinadas de forma que possam contribuir
para que o aluno se aproxime da compreensão do que se lê e com isso
mobilize as estratégias sempre que necessário.
No que diz respeito aos objetivos que guiam à leitura, é importante
ressaltar que estes são inúmeros, pois como é citado em SOLÉ (1998) haverá
tantos objetivos quantos leitores sendo impossível esgotá-los em uma lista. Na
escola esses objetivos e finalidades de leitura podem ser ensinados de forma
que os alunos possam perceber a importância do ato de ler e que ao aprender
esses objetivos possam futuramente se posicionar diante dos textos, tendo
liberdade de escolha diante da infinidade de textos que circulam socialmente.
Dentro desse contexto, também é importante que os alunos saibam
com quais finalidades farão à leitura, pois esta pode determinar a forma como o
aluno vai interagir com o texto e pode constituir-se em um elemento a mais
para a aprendizagem, visto que essas finalidades variam conforme o texto lido.
Havendo momentos em que a leitura assume uma função de deleite como na
leitura de uma poesia, uma função instrucional como na leitura de receitas ou
de manuais de instruções, uma função de busca de informação como na leitura
da notícia
ou uma função de aprendizagem como na leitura de um texto
didático, dentre outros objetivos.
Esse artigo tem como finalidade analisar os objetivos de ensino de
leitura de uma professora da Educação Infantil. Chama a atenção também
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para os objetivos e finalidades da leitura dos alunos observados na prática de
ensino da docente pesquisada.
Metodologia
Para alcançarmos os objetivos do nosso estudo desenvolvemos uma
pesquisa qualitativa, de cunho etnográfico, por se tratar de um estudo onde são
observadas as ações dos sujeitos dentro de seu campo de atuação
profissional. A escolha por este método ligou-se ao fato de ser a pesquisa
qualitativa um meio de nos manter próximos do mundo empírico, por estarmos
confrontando dados obtidos com o que sabemos e com que pensamos sobre
os mesmos.
Supomos que por estarmos lidando com sujeitos que têm seus próprios
modos de pensar e viver no mundo não podemos considerar os métodos como
regras pré - estabelecidas, mas como fatores que podem ser ajustados
conforme observação e dados obtidos (GONZAGA,2006).
Tomamos como base a pesquisa de cunho etnográfico por se tratar de
uma pesquisa onde serão utilizadas como recursos a observação participante e
a entrevista semi-estruturada que são meios próprios do método etnográfico.
Além disso, a pesquisa etnográfica apresenta três características que parecem
fundamentais para uma pesquisa na qual será avaliada o campo educacional,
que são: um contato direto e prolongado do pesquisador com a situação e as
pessoas ou grupos selecionados; a obtenção de grande quantidade de dados
descritivos, utilizando principalmente a observação e por fim a existência de um
esquema aberto e artesanal do trabalho que permite um transitar constante
entre a observação e análise, entre teoria e empiria. (ANDRÉ, 2002 p.38-39)
Frente ao exposto a pesquisa foi desenvolvida a partir das seguintes
etapas:
No primeiro momento, delimitamos o tema, seguido da pesquisa
bibliográfica para o seu estudo e construção da fundamentação teórica.
Escolhemos como campo de observação duas escolas da rede municipal do
Recife que tinham classes de Educação Infantil, grupo V, e que tinham
professores que trabalhavam com leitura freqüentemente.
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Os sujeitos da pesquisa seriam escolhidos entre professores que
trabalhassem há pelo menos dois anos com classes do grupo infantil V, os
quais tivessem formação acadêmica e trabalhassem a leitura com freqüência.
Nossos instrumentos de pesquisa foram um roteiro de observação
(anexo1), uma entrevista semi-estruturada realizada com as professoras
(anexo2), um diário de campo onde foram anotadas as observações das aulas.
Após este momento de observação fizemos um levantamento de dados para
constituição do corpus, seguido da criação das categorias de estudo. E por fim,
fizemos a análise dos dados e a discussão dos resultados, os quais
apresentamos seguir.
Em nossa pesquisa observamos quatro aulas de uma professora que
trabalhava com o grupo V, da Educação Infantil, com formação acadêmica em
pedagogia e que trabalhava leitura com freqüência. Vale ressaltar que a
docente trabalhou por quinze anos com turmas de alfabetização o que não a
deixou tão distante das classes de Educação Infantil - grupo V - visto que esta
antecede a alfabetização.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Tendo em vista o objetivo deste estudo que consistiu em observar e
discutir o ensino de leitura em classes de Educação Infantil, com vistas a
conhecer os objetivos de ensino da leitura em uma sala de aula do Grupo V,
assim como os textos que seriam trabalhados com esse grupo, e a forma como
o professor interferiria nesse processo, apresentamos aqui os resultados
obtidos nas observações das aulas e na entrevista com a professora
pesquisada.
Ao longo de nosso artigo, apresentamos a leitura como um processo de
interação entre o leitor e o texto em busca de alguma finalidade, idéia esta
defendida por SOLÉ (1998). Durante nossas observações, tivemos como
propósito observar os objetivos de ensino de leitura em uma classe de
educação infantil - Grupo V, bem como o que os alunos liam, e a importância
do papel da professora na condução da leitura.
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Iniciamos nossa análise buscando responder os objetivos do ensino de
leitura que pudemos observar durante as aulas levando em consideração
fatores como as estratégias utilizadas, as atividades desenvolvidas, a
compreensão leitora, a oralidade.
Constatamos a partir dos dados que registramos em nosso diário de
campo, que o trabalho de leitura desenvolvido pela professora observada, em
sua classe, buscou, sobretudo alcançar objetivos mais amplos.
No primeiro dia de observação a professora mencionou para nós que a
escolha do texto a ser lido tinha como um dos objetivos trabalhar com os
alunos a noção de responsabilidade, pois a mesma verificou ao longo das
aulas que seus alunos não se importavam com seus objetos pessoais nem
tampouco com o de seus colegas e isso levou-a a planejar uma aula em que o
texto escolhido pudesse ajudá-la a alcançar um objetivo atitudinal.
Vale ressaltar que a professora nessa aula trouxe não apenas o livro
para contar história, mas também o “personagem” da história para que os
alunos o tivessem como mascote. A cada dia um aluno poderia levá-lo para
casa e cuidar dele.
A professora inicia o momento de leitura buscando ativar nos alunos
seus conhecimentos prévios sobre o livro que tinha como título “O Príncipe
Sapo” (um conto de C. Perrault extraído do livro O Príncipe Sapo) e fazendo
uso de estratégias para antecipar a leitura. Os alunos foram bastante
participativos e responderam aos questionamentos levantados pela professora
acerca do texto. A docente também abriu espaço, durante a leitura, para que os
alunos interagissem com o material lido.
As três aulas seguintes, observadas, tiveram textos escolhidos que
estivessem relacionadas ao planejamento para o dia das crianças e
percebemos que a segunda e a terceira leituras tiveram como objetivo propiciar
o deleite do texto, o ler pelo prazer de ler. Os livros lidos na segunda e terceira
aula foram A fantástica máquina dos bichos e Eu gosto muito, respectivamente,
tratavam-se de duas histórias infantis, ambas de Ruth Rocha.
A professora mencionou que o trabalho com a leitura dos alunos
geralmente teria algum objetivo. A leitura deleite tinha espaço reservado como
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pudemos constatar nos dois textos escolhidos para a segunda e a terceira
aulas observadas.
Em ambas as aulas os alunos se divertiram durante a leitura realizada e
participavam naturalmente, respondendo aos questionamentos levantados pela
professora, bem como se identificando com as situações presentes em um dos
textos lidos. Nesse momento os alunos ficaram mais a vontade em responder
aos questionamentos realizados e até mesmo expressaram suas opiniões em
momentos em que a professora não havia feito questões. Percebemos que
predominava um clima de diversão entre eles.
Vale ressaltar que apesar de estarmos sempre nos referindo aos
questionamentos para antecipar a leitura, os mesmos ocorreram também
durante a leitura e não se deram de maneira desenfreada a ponto de
interromper gratuitamente a leitura, mas, pelo contrário, se fizeram pertinentes
auxiliando na construção de hipóteses. Como mencionam BRANDÃO e ROSA,
(2005, p. 57):
“Embora por motivos óbvios, não seja aconselhável quebrar o
texto a todo momento para fazer perguntas, consideramos
que, às vezes, vale a pena interrompê-lo para uma ou duas
questões desse tipo. Tais questões quando formuladas durante
a leitura podem ajudar as crianças a reunir pistas e
informações que o texto reuniu até ali, permitindo a elaboração
de hipóteses sobre o que virá em seguida”.
Porém, no geral, a professora não ajudava os alunos a perceberem um
objetivo para as suas leituras, o que poderia constituir-se um estímulo a mais
para os aprendizes, exceto na última aula observada quando ela disse que os
discentes iriam ler um texto que os ajudariam na confecção de um cata-vento,
brinquedo para o dia das crianças. O texto era um poema (extraído do livro O
baú de brinquedos, de Edmilson Lima). Foi possível perceber que os alunos
atingiram os objetivos que lhes foram colocados.
Na primeira aula os aprendizes demonstraram através de discussão
realizada na sala que deveriam ser responsáveis com seus objetos e com o
dos colegas e se propuseram a cuidar bem do mascote levado pela professora.
Divertiram-se com os textos trazidos pela docente na segunda e na terceira
aulas, observadas, participando de forma espontânea e visivelmente prazerosa
durante a leitura. E por fim, quando o objetivo foi exposto, no caso do texto
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instrucional, no sentido da construção do cata-vento, eles conseguiram
participar de maneira efetiva da elaboração do texto.
É importante frisar que todas as leituras realizadas foram seguidas de
atividades onde os alunos de certa forma precisariam fazer uso do que leram
para realizá-las. Na primeira atividade os alunos receberam uma folha onde
estava escrito uma quadrinha que falava sobre o sapo, os alunos deveriam
circular a palavra sapo, além de ter sido proposto que eles identificassem
letras, quantidade de letras presentes nas palavras, todas extraídas da
quadrinha lida com os aprendizes. Foi possível perceber que alguns alunos
“liam” a quadrinha em voz baixa, pois como haviam decorado os trechos eles
conseguiam fazer a “leitura” sem grandes dificuldades. Na segunda leitura que
dissemos ter como objetivo a leitura deleite a professora propôs que os
discentes desenhassem um animal que tivesse as características do texto que
eles haviam lido, ou seja, que fosse dois animais em um, pois a leitura do livro
A fantástica maquina dos bichos trazia a história de uma máquina que
misturava parte de dois animais diferentes transformando-os em um só.
Também sugeriu que os alunos dessem nome aos animais que criassem e
escrevessem os seus nomes da forma que sabiam o que foi bem aceito pelos
alunos. Na terceira aula estes deveriam desenhar e “escrever” o nome dos
brinquedos que gostariam de ganhar no dia das crianças além de ajudar a
professora a escrever uma carta para os “padrinhos”, os quais seriam alunos
de uma escola particular, que proporcionariam os brinquedos que as crianças
pediram. No entanto, não deu tempo de essa carta ser construída nessa aula
que observamos. E na quarta aula, como já dissemos, houve a construção de
um texto instrucional a partir de um poema sobre o cata-vento e antes disso a
professora propôs que os alunos formulassem uma lista do material que seria
necessário para construção do brinquedo, bem como desenhassem o mesmo.
Apesar de percebermos que os alunos já se encontravam bastante
acostumados com as atividades que seguiam a leitura, acreditamos que essas
atividades poderiam ser guiadas por objetivos de leitura explicitados para os
alunos, podendo ser anunciados pela docente antes da leitura, fazendo com
que eles percebessem a finalidade daquele ato de ler.
Percebemos que no dia da leitura do poema, quando a docente falou
que o objetivo seria a construção do cata-vento os alunos criaram uma
15
expectativa ficando bastante atentos por saberem o que teriam de alcançar ao
lerem o texto. SOLÉ destaca a importância de os professores explicitarem os
objetivos da leitura para os alunos:
“O fato de saber por que fazemos alguma coisa ou saber o que se
pretende que façamos ou que pretendemos com uma ação é o que nos
permite atribuir-lhe sentido e é uma condição necessária para abordar essa
atuação com maior segurança, com garantias de êxito. No âmbito da
leitura, esse aspecto adquire um interesse inusitado, pois podemos ler com
muitos objetivos diferentes, e é bom saber disso. Por essa razão, no
âmbito do ensino, é bom que meninos e meninas aprendam a ler com
diferentes intenções para alcançar objetivos diversos. Dessa forma além
de aprenderem a ativar um grande número de estratégias, aprendem que a
leitura pode ser útil para muitas coisas”. (1998, p.42)
No que diz respeito ao trabalho com a leitura, trabalhada pela docente
observada, vários aspectos podem ser ressaltados, pela sua importância
dentro deste estudo, tais como as estratégias que foram utilizadas ao longo de
todos os textos lidos levando os alunos a participarem efetivamente do ato de
ler, respondendo aos questionamentos feitos pela professora e construindo
argumentos próprios a partir da interação com os textos, contribuindo assim
para a compreensão destes.
As atividades (Anexo03) que foram realizadas com os alunos buscavam,
como a própria professora mencionou em sua entrevista, levar os discentes a
identificarem palavras dentro dos textos, sons, quantidade de sílabas, sem que
com isso o aluno fosse obrigado a decorar sílabas ou palavras soltas, mas pelo
contrário a professora realizou leitura com gêneros orais como quadrinhas, que
são textos curtos “fáceis de decorar” (expressão utilizada pela professora) e
que por conta disso os alunos se sentiriam seguros para que, posteriormente à
leitura, tivessem uma maior facilidade em identificar as palavras presentes nas
atividades.
Os textos utilizados pela professora estavam em seus suportes textuais,
o que foi aproveitado pela professora no momento das estratégias, quando
mencionava o nome dos autores, dos ilustradores, levando os alunos a
entrarem em contato com textos autênticos, possibilitando aos mesmos que
observassem sua forma, o modo como se apresenta cada texto, facilitando a
identificação do seu contexto social por parte dos alunos.
16
Não presenciamos durante as aulas observadas um trabalho com a
intertextualidade, que envolveria o diálogo com outros textos que fizessem
parte das experiências de leitura dos aprendizes, na escola e fora dela, exceto
no dia em que vimos a aula na qual foi construído o texto com as instruções
para fazer o cata-vento, quando a professora mencionou que no dia anterior
havia trabalhado com uma música sobre o vento e neste dia trouxe um poema
que falava sobre o cata-vento. O resgate da letra da música de certa forma
dialogou com o tema do outro texto ajudando os alunos na realização da
atividade.
Sabe-se que na educação infantil, as crianças ainda não são leitoras
autônomas, o que faz necessário um trabalho efetivo com a oralidade,
permitindo que os alunos se expressem, que fiquem a vontade com as
atividades propostas auxiliando em sua compreensão. Nesse sentido, foi
possível perceber que o trabalho com a leitura propiciava a compreensão do
texto e propiciava os alunos se sentirem a vontade para expressar o que
achavam dele, bem como fazerem perguntas à professora e expressarem o
que sabiam sobre o assunto.
Pareceu-nos ser bastante importante e interessante observarmos que os
alunos em sua grande maioria, se não todos, se expressavam com facilidade,
expunham suas opiniões e respondiam aos questionamentos da professora
sem apresentar muita inibição. Como nessa faixa etária é através da oralidade
que se tem resposta dos alunos para a maioria das atividades, pensamos que
um trabalho eficaz com a oralidade se faz muito importante no trabalho com a
leitura na Educação Infantil.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais apontam o texto como a
materialização do discurso oral. Como a fala ou o aprendizado da fala precede
a leitura, podemos dizer que propiciar os alunos a se expressarem e a emitirem
sua opinião através da fala, se faz muito importante num trabalho que deve
ocorrer lado a lado com a leitura de textos na sala de aula.
A própria
professora mencionou a importância do trabalho com a oralidade na educação
infantil:
“A educação infantil ela pra mim, ela é fundamental por isso, por que
assim antes de mais nada o grande objetivo pra mim, que eu vejo na
educação infantil é desenvolver na criança a socialização e a oralidade.
17
Hoje em dia a gente encontra muitas crianças que tem medo de falar,
que tem medo de se expor, por que ou já passaram por situação de
constrangimento ou mesmo porque não foram trabalhadas nessa
questão da oralidade e diante do mundo que a gente tá vivendo hoje,
se você não for uma pessoa que sabe se colocar, que sabe se impor e
se expor no mundo você já sai perdendo, já sai em desvantagem né?
então a gente trabalha com uma classe social que já tem muita
dificuldade de conseguir seu espaço né? em garantir seu espaço e aí
você lida com uma criança deixando ela tímida, quando ela é muito
tímida ah não deixa pra lá, respeita, vamos deixar, tudo bem a gente
precisa respeitar o limite da criança, mas instigar essa oralidade ela é
fundamental e ele precisa entender que quando ele tá lendo alguma
coisa é porque alguém contou, alguém expôs a sua opinião e isso aí
também necessariamente ele não tem que aceitar tudo que tá escrito
ali. Ele pode questionar, ele pode interagir com o texto ele pode
concordar ou não com o autor quando ele tá lendo ou então quando
alguém está fazendo a leitura. Então isso permite que ele se exponha
que ele mostre e que ele vá construindo conceitos que são
fundamentais pra ele e que futuramente vão ajudar muito”.
A idéia exposta pela professora vai ao encontro das idéias dos PCN
quanto ao tratamento da oralidade que o documento expõe:
“O domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade de
plena participação social, pois é por meio dela que o homem se
comunica, tem acesso à informação, expressa e defende pontos de
vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz conhecimento.
Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização
social e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de
garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes lingüísticos
necessários para o exercício da cidadania, direito inalienável de
todos” (1997, p.23).
Os textos utilizados nas aulas observadas
Os Parâmetros Curriculares Nacionais apontam o trabalho com a
diversidade textual como uma importante estratégia didática na formação de
leitores competentes. (1997 p.55). Essa estratégia como mencionamos pode e
deve ser utilizada já nas classes de educação infantil enriquecendo o trabalho
de leitura e tornando possível um contato mais próximo dos alunos com os
vários gêneros de textos que circulam na sociedade.
Durante nossas observações os gêneros textuais utilizados foram os da
literatura infantil, presentes nas quatro aulas pesquisadas. O texto da última
aula teve certo diferencial, pois apesar de ser também um texto infantil não era
uma história narrada ou um conto e sim um poema, (ANEXO 04) que resultou
na construção de um texto instrucional. Apesar de termos constatado, mesmo
18
num período curto de observações, que existe o trabalho com uma diversidade
de gêneros acreditamos ser relevante frisar que essa diversidade textual
estava presente na escola como um todo, sendo possível verificar afixados nos
corredores da escola uma infinidade de trabalhos realizados pelos alunos que
incluíam cartazes, textos produzidos pelos alunos relacionados com algum
tema ou com alguma data comemorativa, lendas, alguns recortes de jornal, e
foi, especificamente na parede da sala de aula, que observamos a
predominância de quadrinhas (Anexo 05), textos estes que possuem rimas e
que, segundo a professora, seriam aqueles que a docente gostava de trabalhar
com os alunos para ajudá-los na identificação de palavras, auxiliando-os no
trabalho do início da leitura.
Para a docente, o trabalho com o gênero quadrinha é um tipo de
trabalho de leitura oral, que proporciona a leitura de cor. A partir do momento
que os alunos decoram esses textos eles se sentem seguros, elevam a autoestima deles, se sentem à vontade para dizer que sabem qual palavra está
presente na quadrinha, como disse a professora.
O RECNEI chama a atenção para o fato de que além de ler para as
crianças o professor pode criar situações de leitura que elas próprias leiam e
que estabeleçam uma relação entre o que se fala e o que se escreve e que pra
isso nessas atividades de leitura:
“As crianças devem saber o texto de cor e tentar localizar onde
estão escritas determinadas palavras. (...) Não é qualquer texto
que garante que o esforço de atribuir significado às partes
escritas coloque problemas que ajudem a criança a refletir e a
aprender. Nesse caso, os textos mais adequados são as
quadrinhas, parlendas e canções porque focalizam a
sonoridade da linguagem (ritmos, rimas repetições, etc.),
permitindo localizar o que o texto diz em cada linha”.
Outro gênero textual que a docente mencionou gostar muito de ler para
as crianças foi o conto, apontando o mesmo durante a entrevista, como um dos
gêneros que deveria ser trabalhado com mais freqüência, devido ao fato de ser
o conto um tipo de texto que mexe com a imaginação das crianças ajudando-as
a organizarem seu modo de ver e pensar o mundo.
Segundo a professora, é principalmente durante a leitura do conto de
fadas que as crianças participam da contação por serem histórias conhecidas
19
por eles, como podemos constatar na leitura realizada na primeira aula, quando
a professora mostrou a capa do livro para que os alunos identificassem os
personagens, logo uma das crianças falou que conhecia aquela história que
era de um sapo que ao ser beijado por uma princesa tornava-se um príncipe.
Bem, no fim deste conto levado pela professora o sapo virava um príncipe, mas
não era através de um beijo e sim das atitudes da princesa com o sapo,
entretanto, ao final da leitura realizada pela professora o aluno fez um breve
resumo da história que ele conhecia falando do beijo que o sapo havia levado e
terminando a história com o tradicional “felizes para sempre”. Percebemos
então que a leitura dos contos permite que as crianças fiquem a vontade para
se sentirem na condição de leitores à medida que conseguem a partir do que
sabem sobre as histórias e com o auxilio das ilustrações, recontarem do seu
jeito.
Com isso percebemos que o trabalho realizado pela professora
contemplou uma diversidade de gêneros e propiciou através da leitura de
quadrinhas um trabalho em que os alunos pudessem refletir e aprender sobre
as partes escritas, pois esse texto permite que os alunos ao decorarem seus
trechos sintam-se mais seguros em identificar as palavras ao longo da leitura.
Vale salientar que o trabalho com a quadrinha não foi um trabalho que a
professora buscou desenvolver sobre a questão da compreensão, e que a
leitura de quadrinhas ocorreu juntamente com a leitura de outros textos, mas
como pudemos observar nas aulas a leitura de quadrinhas contribuiu
positivamente com a questão da identificação das palavras por parte dos
alunos.
O papel do professor
Como se sabe todo o trabalho desenvolvido na educação infantil é
mediado pelo professor que muito mais do que em outros níveis educacionais
tem papel fundamental no aprendizado do aluno. Responsável não só por
desenvolver as atividades, mas por organizá-las de modo a levar a participação
efetiva do aluno, no que diz respeito ao trabalho com leitura.
20
As crianças das classes de Educação Infantil lêem inicialmente a partir
do que ouve o professor falar e contam com o suporte do texto que consegue
levá-los a diversas interpretações através das ilustrações, por exemplo. Sendo
assim a forma como o professor ler, as estratégias utilizadas, os textos
oferecidos, bem como o ambiente criado para o momento de leitura é
inicialmente responsabilidade do professor, constituindo-se em elementos que
podem se tornar diferenciais no tocante a leitura.
A docente observada mencionou durante a entrevista que trabalhava a
leitura diariamente com seus alunos e buscava dentro do trabalho
desenvolvido, a partir do texto lido, trabalhar não somente aspectos da língua,
da localização de palavras ou de sons, mas buscava traçar também uma
interdisciplinaridade a partir do conteúdo da leitura realizada, trabalhando não
só atividades de língua portuguesa, mas atividades de matemática, ou de outra
disciplina.
O trabalho de leitura desenvolvido pela docente observada, buscava
como mencionamos anteriormente atingir diversos objetivos, pois percebemos
que a professora descobriu, com o momento da leitura, que poderia chamar a
atenção dos alunos para diversos temas, sem que com isso o trabalho com a
questão da interação, do contato com o texto, da compreensão fossem
subestimados. Diante dos objetivos e finalidades que a professora disse que
mobilizaria na leitura dos alunos estariam o deleite, a localização de palavras, a
busca da intenção do autor. A docente afirmou também que estimulava os
alunos a perceberem que existem diversos textos e que os mesmos são
escritos e lidos de maneiras diferentes entre outros.
Percebemos que nas aulas observadas a maioria dos objetivos de leitura
dos alunos foi alcançado e que a professora teve um papel importante para que
os aprendizes tivessem êxito. Com isso percebemos que a docente reconhecia
que os alunos, mesmo na educação infantil, seriam capazes de interagir com o
que lhes era proposto, desde que o que se propunha tivesse sentido para os
discentes.
E é importante ressaltar também que as atividades propostas não eram
decididas no momento da aula, pelo contrário, foi possível perceber que a
docente sabia exatamente o que iria fazer em todas as aulas de maneira que o
tempo empregado nas atividades que prosseguiam à leitura foi aproveitado de
21
maneira efetiva e as atividades propostas seguiam uma seqüência coerente.
Esse fato mostra a importância do papel do professor, de sua organização, de
seu planejamento.
O fato de os alunos contarem com aulas que seguem seqüência, que
são organizadas de maneira que eles possam acompanhar ao longo da
semana, que apesar de ser uma leitura diferente todos os dias a professora
procura trabalhar uma única temática, fez com que os alunos percebessem
uma construção contínua e os ajudou a perceber um sentido nas leituras e nas
atividades propostas. A professora assumia, assim, um compromisso com o
trabalho com leitura na classe observada e
contribuía com os alunos de
maneira que eles percebessem a importância da leitura na sala de aula e
conseqüentemente em suas vidas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Partindo da nossa proposta inicial de analisar o ensino de leitura na
Educação Infantil, acreditamos ter alcançado nossos objetivos, pois as
observações realizadas na sala de aula confirmaram que trabalhar o ensino de
leitura de forma significativa desde a Educação Infantil é possível e pode
apresentar resultados positivos no que diz respeito ao aprendizado dos
discentes.
Ao adotarmos o conceito de leitura como um processo de interação
entre leitor e o texto com vistas a alcançar objetivos, verificamos que a
professora observada proporcionava aos alunos através da leitura um
momento de aprendizado por conseguir atingir objetivos tanto relacionados ao
ato de ler, de forma mais estrita, como a objetivos mais amplos como os
atitudinais, por exemplo. Dessa forma a docente mostrou que a leitura já pode
ser trabalhada na Educação Infantil, pois apesar de as crianças interagirem de
maneira particular com o mundo dos escritos não significa que não o façam de
forma significativa e que isso não se constitua em um elemento desafiador para
o ensino de leitura já nas séries iniciais.
O trabalho com a diversidade textual, como um dos dados observados
em nossa pesquisa, é outro elemento importante, que como já mencionamos
22
pode ser trabalhado na Educação Infantil contribuindo para formação de
leitores competentes, bem como para o aumento de seu repertório discursivo,
além de aproximar as crianças de textos reais que circulam socialmente.
Percebemos uma professora que assumia o papel de leitor ativo e
comprometia-se com o trabalho nas classes de Educação Infantil. Esse fator
contribuía de forma decisiva para o alcance de objetivos de ensino.
Foi
importante notar a presença de momentos significativos de leitura, de maneira
que os aprendizes pudessem perceber o quanto pode ser prazeroso, divertido,
e estimulante o desafio da leitura.
A relevância deste estudo reside no fato de mostrar que ensinar a ler em
classes de Educação Infantil precisa permitir que as crianças aprendam com
prazer, oferecendo materiais significativos e levando em consideração o modo
peculiar como elas aprendem, garantindo o espaço para fantasias e
descobertas. O ensino de leitura precisa se dar de forma lúdica, sem que o
aprender a ler não se dê de maneira forçada, mas pelo contrário possa garantir
que as crianças descubram a importância que a leitura pode assumir em suas
vidas.
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na Alfabetização: que história é essa?In BRANDAO, Ana Carolina Perussi e
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23
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Pesquisa Educacional. 8 ed.- São Paulo,Cortez,2002.
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Departamento de Educação Infantil. Educação Infantil: Ponte de Cidadania.
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SOLÉ, Isabel. Estratégias de Leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998.
TEBEROSKY, Ana e COLOMER, Teresa. Aprender a Ler e a Escrever: uma
proposta construtivista. Porto Alegre: Artmed, 2003.
24
ANEXOS
ANEXO 01
Roteiro de observação
1.Materiais escritos (livros,quadrinhos,gravuras, textos) que estão presentes na
sala de aula.os gêneros textuais que são trabalhados no ensino de leitura;
2.Atividades desenvolvidas para o trabalho de leitura;
3.A forma como os alunos interagem com o texto;
4.As estratégias presentes nas atividades trabalhadas;
5. como os alunos lêem / se a professora lê para os alunos;
6.Se a professora planeja as atividades de leitura;
7.Se a professora leva em consideração as experiências de oralidade trazidas
pelas crianças.
25
ANEXO 02
Entrevista
1.Para você o que é leitura?
2. Quais são os objetivos do ensino de leitura na classe de educação infantil
(grupo cinco)?
3.Como você desenvolve a leitura com os seus alunos ?
4.Com quais atividades você costuma trabalhar a leitura?
5.Com que finalidade seus alunos lêem na sala de aula?
6.Quais são os textos que você costuma trabalhar em sala de aula?
7.Para você haveria algum gênero que deveria ser trabalhado na educação
infantil?
8.Você acredita que textos orais como parlendas, trava-linguas, por
exemplo,pode contribuir para desenvolver a leitura de seus alunos,por quê ?
9- Nós percebemos que as atividades geralmente buscam das algum sentido
pra eles. Isso é sempre discutido no planejamento?
10-Pra você qual a importância da oralidade?
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ANEXO 03
Escola Jader Figueiredo de Andrade Silva
Aluno (a): ____________________________
Turma GV –G
Professora: Sandra
Atividade de _______________
1º Leia o trava-língua e circule a palavra SAPO.
OLHA O SAPO
DENTRO DO SACO
O SACO COM O SAPO DENTRO
O SAPO BATENDO O PAPO
E O PAPO DO SAPO
SOLTANDO VENTO.
• Desenhe o sapo dentro do saco.
•
2º) Observe as palavras e responda:
SAPO
SACO
SOLTANDO
* Qual é a primeira letra das palavras? __________________
*Qual é a última letra?_____________________
*Qual é a palavra maior? Escreva-a.__________________
3º)Quantas letras têm?
PAPO_________
SACO___________
SAPO_________
SACOLA_____________
VENTO________
SUCO_______________
BATENDO________
COM _______________
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ANEXO 04
POEMA
O CATA-VENTO
(Edmilson Lima)
Cata, cata, cata-vento
Vai ventando devagar
Com um sopro ele vai longe
E só para se cansar
De vareta é o cata-vento
Com alfinete e papel
Quero ver você girando
Com ele no azul do céu
Corria eu pelo morro
Com cata-vento na mão
Girava que nem um louco
Como se fosse um pião
De repente não há vento
Cata-vento não girava
Deixa estar, eu dou um jeito!
Brisa forte eu soprava
No outono, se faz vento
Lá vem vindo um vendedor
Oferece o tal brinquedo
- cata-vento, meu senhor?
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ANEXO 05
QUADRINHAS
O pinto pia
A pia pinga
Quanto mais o pinto pia
Mas a pia pinga.
João corta o pão
Maria mexe angu
Teresa bota a mesa
Para a festa do tatu.
Olha o sapo dentro do saco
O saco com o sapo dentro
O sapo batendo o papo
E o papo do sapo
Soltando vento.
29
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leitura na educação infantil: a questão dos objetivos de ensin